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sexta-feira, 22 de março de 2024

O Agronegócio golpista contra a Água. Artigo do jornalista britânico George Monbiot

 

Modelo agrícola consome 90% da água no planeta e se expandirá 50% até 2050. Rios começam a secar e aquíferos dão sinais de esgotamento. Saída: impedir o abuso das fontes em nome do lucro, e rever a dieta consumista do Ocidente

Seca na Amazônia. Foto: Bruno Kelly/REUTERS

Por George Monbiot, no Guardian | Tradução: Antonio Martins

Há uma falha no plano. Não pequena: é um buraco do tamanho da Terra em nossos cálculos. Para acompanhar a demanda global por alimentos, a produção agrícola precisa crescer pelo menos 50% até 2050. Em princípio, se nada mais mudar, isso é viável, principalmente graças às melhorias na criação de cultivos e técnicas agrícolas. Mas tudo mais vai mudar. Mesmo que deixemos de lado todos os outros problemas – impactos do calor, degradação do solo, doenças epidêmicas de plantas aceleradas pela perda de diversidade genética – há um que, sozinho, poderá impedir que a população mundial seja alimentada. Água.

Um artigo publicado em 2017 estimou que, para igualar a produção agrícola à demanda esperada, o uso de água para irrigação teria que aumentar em 146% até meados deste século. Um pequeno problema. A água já está no limite. Em geral, as regiões secas do mundo estão ficando mais secas, em parte devido à redução da chuva; em parte devido à diminuição do fluxo dos rios à medida que o gelo e a neve das montanhas recuam; e em parte devido ao aumento das temperaturas, causando aumento da evaporação e maior transpiração das plantas. Muitas das principais regiões de cultivo do mundo estão agora ameaçadas por “secas rápidas“, nas quais o clima quente e seco retira a umidade do solo a uma velocidade assustadora. Alguns lugares, como o sudoeste dos EUA, agora em seu 24º ano de seca, podem ter mudado permanentemente para um estado mais seco. Os rios não conseguem chegar ao mar, os lagos e aquíferos estão encolhendo, espécies que vivem em água doce estão se extinguindo aproximadamente cinco vezes mais rápido do que as espécies que vivem na terra e grandes cidades estão ameaçadas por um estresse hídrico extremo.

A agricultura já representa 90% do uso de água doce do mundo. Extraímos tanta água do solo que mudamos o eixo de rotação da Terra. A água necessária para atender à crescente demanda por alimentos simplesmente não existe.

Este artigo de 2017 deveria ter feito todos entrarem em pânico. Mas, como de costume, foi ignorado pelos formuladores de políticas e pela mídia. Somente quando o problema chega às suas portas, os europeus reconhecem que há uma crise. Mas, embora haja pânico compreensível pela seca na Catalunha e na Andaluzia, há uma quase total falha, entre os grupos êconômicos e políticos poderosos, em reconhecer que este é apenas um exemplo de um problema global, um problema que deveria estar no topo da agenda política.

Embora as medidas contra a seca tenham desencadeado protestos na Espanha, este está longe de ser o ponto de tensão mais perigoso. A bacia hidrográfica do rio Indo é compartilhada por três potências nucleares – Índia, Paquistão e China – e várias regiões altamente instáveis e divididas, já afligidas pela fome e pela extrema pobreza. Hoje, na estação seca, 95% do fluxo do rio é extraído, principalmente para irrigação. Mas a demanda por água tanto no Paquistão quanto na Índia está crescendo rapidamente. O fornecimento – temporariamente impulsionado pelo derretimento de geleiras no Himalaia e no Hindu Kush – em breve atingirá o pico e depois entrará em declínio.

Mesmo sob o cenário climático mais otimista, espera-se que o escoamento das geleiras asiáticas atinja o pico antes da metade do século. Sua massa diminuirá em cerca de 46% até 2100. Alguns analistas veem a competição pela água entre a Índia e o Paquistão como uma das principais causas dos conflitos repetidos em Caxemira. Mas, a menos que seja estabelecido um novo tratado de águas do Indo, levando em conta a queda no fornecimento, essa luta pode ser apenas um prelúdio para algo muito pior.

Existe uma crença generalizada de que esses problemas podem ser resolvidos simplesmente aumentando a eficiência da irrigação: enormes quantidades de água são desperdiçadas na agricultura. Então deixe-me apresentar o paradoxo da eficiência da irrigação. À medida que técnicas melhores garantem que menos água seja necessária para cultivar um determinado volume de culturas, a irrigação torna-se mais barata. Como resultado, atrai mais investimentos, incentiva os agricultores a cultivarem plantas mais sedentas e lucrativas e se expande para uma área maior. Isso é o que aconteceu, por exemplo, na bacia do rio Guadiana, na Espanha, onde um investimento de 600 milhões de euros para reduzir o uso da água, melhorando a eficiência da irrigação, acabou por aumentá-lo.

É possível superar o paradoxo através da regulamentação: leis para limitar tanto o consumo total quanto o individual de água. Mas os governos preferem confiar apenas na tecnologia. Sem medidas políticas e econômicas, isso não funciona. Nem outras soluções tecnológicas provavelmente resolverão o problema.

Os governos estão planejando enormes projetos de engenharia para transportar água de um lugar para outro. Mas a ruptura climática e a crescente demanda asseguram que muitas das regiões doadoras também provavelmente secarão. A água das usinas de dessalinização normalmente custa cinco ou dez vezes mais do que a água do solo ou do céu, e o processo requer grandes quantidades de energia e gera grandes volumes de salmoura tóxica.

Acima de tudo, precisamos mudar nossas dietas. Aqueles que temos escolha alimentar (ou seja, metade mais rica da população mundial) devemos procurar minimizar a pegada hídrica de nossos alimentos. Desculpo-me por insistir nisso, mas esta é mais uma razão para mudar para uma dieta livre de animais, que reduz tanto a demanda total de cultivos quanto, na maioria dos casos, o uso de água.

A demanda de água de certos produtos vegetais, especialmente amêndoas e pistaches na Califórnia, tornou-se um tema importante nas guerras culturais, à medida que influenciadores de direita atacam dietas à base de plantas. Mas, ainda que a irrigação excessiva dessas culturas seja um problema, mais de duas vezes mais água de irrigação é usada na Califórnia para cultivar plantas forrageiras para alimentar o gado, especialmente vacas leiteiras. A demanda de água do leite de vaca é muito maior até do que a pior alternativa (leite de amêndoa), e astronomicamente maior do que as melhores alternativas – como leite de aveia ou soja.

Isso não significa dar passe livre a todos os produtos vegetais: a horticultura pode demandar grandes suprimentos de água. Mesmo dentro de uma dieta à base de plantas, devemos mudar de alguns grãos, vegetais e frutas para outros. Os governos e varejistas deveriam nos ajudar por meio de uma combinação de regras mais rigorosas e rotulagem informativa.

Em vez disso, eles fazem o contrário. No mês passado, a pedido do comissário de agricultura da União Europeia, Janusz Wojciechowski, a Comissão Europeia excluiu de seu novo plano climático o chamado a incentivar fontes de proteína “diversificadas” (livres de animais). A captura regulatória nunca é mais forte do que no setor de alimentos e agricultura.

Eu odeio acrescentar mais uma coisa a você, mas alguém precisacombater o preconceito interminável contra os temas relevantes, na política e na maioria da mídia. Este é mais um dos problemas gigantescos negligenciados. Qualquer um deles pode ser fatal para a paz e a prosperidade em um planeta habitável. De alguma forma, precisamos recuperar nosso foco.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

#UOLNews Inflação: Presidente do BC culpa Bolsonaro indiretamente, diz Sakamoto

 

Do Canal UOL News:

No UOL News, o colunista Leonardo Sakamoto disse que o presidente do BC (Banco Central) culpou, de forma indireta, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) pela inflação de 10,06% acumulada em 2021 na justificativa enviada hoje ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e ao CMN (Conselho Monetário Nacional)




terça-feira, 24 de março de 2015

O genial Sebastião Salgado solta o verbo sobre a crise hídrica, a corrupção e a tendenciosidade da mídia

 "Hoje temos um Brasil moderno, mas que foi construído sobre as florestas e os rios. Por isso, devemos repensar o consumo."
 "Depois do segundo governo do PT, há um acesso de 40 milhões de pessoas à classe média. Isso nunca aconteceu e é positivo, mas gera demanda de água", explica. "A solução para o problema é preservar nossas nascentes. É absolutamente necessário que todas as instituições, sejam públicas ou privadas, façam sua parte."
  "Pela primeira vez, os que estão no governo [federal] não são os mesmos que dominam os meios de comunicação, e por isso há informação sobre corrupção. Pela primeira vez, os corruptores estão pagando. Antes, só alguns intermediários eram acusados de corrupção. O Brasil já é um grande País e está cada vez mais sério".

Extraído da Carta Capital:

Cultura

Fotografia

'Matamos nossos rios, não há partido que resolva', diz Sebastião Salgado

Fotógrafo de 71 anos fala de crise hídrica e denúncias de corrupção às vésperas do lançamento do documentário 'O Sal da Terra', que concorreu ao Oscar
por Pedro Castro — publicado 24/03/2015 04:29
Fotos Jackson
"Matamos os nossos rios e as nossas florestas, e não há partido ou político que vá resolver isso sozinho", atesta Sebastião Salgado. Para ele, o problema da crise hídricabrasileira é “de toda a sociedade. Todos somos seres políticos e temos responsabilidades sociais".
As ações do fotógrafo de 71 anos vão além do discurso afinado. Desde 1998, ele e sua esposa, Lélia Wanick, mantém o Instituto Terra, responsável pelo plantio de mais 2 milhões de árvores em Aimorés, no interior de Minas Gerais. De acordo com Salgado, a falta de água tem sido mais sentida agora, “mas esse problema já vem acontecendo há muito tempo. Se estivéssemos cuidando dos rios e das florestas, não estaríamos tão dependentes das chuvas para encher os reservatórios".
É este Sebastião Salgado engajado que o filme O Sal da Terrarevela. Dirigido pelo alemão Wim Wenders e por Juliano Ribeiro Salgado, filho do casal, o filme concorreu ao Oscar na categoria documentário. Com lançamento no Brasil previsto para o dia 26, o longa vai além da obra do artista e mostra o agente social, o ambientalista. Para Lélia, o documentário "é mais do que um filme sobre a fotografia ou sobre a história de um homem, é um filme que mostra um ponto de vista sobre o mundo".
Ao falar para mais de mil pessoas no projeto Sempre um Papo, que leva escritores e artistas para conversarem com o público em Belo Horizonte, Sebastião Salgado arrancou aplausos. "A solução para a crise hídrica é simples: não medir esforços. O Brasil é um País incrível, mas parece que o brasileiro não percebe isso. Ainda somos muito pessimistas em relação à nossa própria gente”, alertou.
Salgado afirma que "hoje temos um Brasil moderno, mas que foi construído sobre as florestas e os rios". Por isso, devemos repensar o consumo. "Depois do segundo governo do PT, há um acesso de 40 milhões de pessoas à classe média. Isso nunca aconteceu e é positivo, mas gera demanda de água", explica. "A solução para o problema é preservar nossas nascentes. É absolutamente necessário que todas as instituições, sejam públicas ou privadas, façam sua parte."
É nesse sentido que o projeto Olhos d’Água pretende revitalizar todas as nascentes da bacia do Rio Doce, que tem o tamanho de Portugal. O fotógrafo contou ao público que a iniciativa do Instituto Terra "é um projeto que custa bilhões, mas, comparativamente, sai mais barato do que comprar aviões caça da Suécia".
Mesmo com a atual crise, Salgado mostra otimismo com o País. Em entrevista antes da palestra, ele afirmou que "pela primeira vez, os que estão no governo [federal] não são os mesmos que dominam os meios de comunicação, e por isso há informação sobre corrupção. Pela primeira vez, os corruptores estão pagando. Antes, só alguns intermediários eram acusados de corrupção. O Brasil já é um grande País e está cada vez mais sério".
Não é de hoje que Sebastião e Lélia estão ligado às causas sociais. "Depois de 64, participamos de todas as manifestações e ações de resistência à ditadura e estávamos determinados a defender nossos ideais. Isso era muito perigoso", conta.
Em agosto daquele ano, com pouco mais e 20 anos de idade, o casal se sentiu como as pessoas que ele viria a retratar anos mais tarde em Êxodos, que mostra aqueles que abandonam a terra natal.
Doutor em economia, Salgado conheceu Lélia enquanto fazia universidade em Vitória. "São 50 anos de sonhos realizados juntos", ela afirma sorridente. Um desses sonhos é o reflorestamento da fazenda herdada da família do fotógrafo que estava totalmente degradada e deu origem ao Instituto.
"Tinha acabado de lançar o Êxodos e estava profundamente deprimido, afundava no pessimismo. Vi coisas terríveis na África e na antiga Iugoslávia. Pensei então em um projeto para denunciar a destruição e a poluição das florestas", conta o fotógrafo. Foi nesse momento que Lélia surgiu com a ideia de replantar.
Mesmo com o inicio problemático (60% das mudas plantadas não "vingaram" no primeiro plantio), hoje o programa é um modelo para o País. Cerca de 700 projetos de educação ambiental que atingiram mais de 65 mil pessoas e o maior viveiro de plantas nativas de Minas Gerais são alguns exemplos da grandiosidade do projeto. "O Instituto é um de nossos filhos", afirma Lélia. "Plantar é como cuidar de uma criança, é preciso proteger, alimentar e dar condições para que, ao crescer, ela se torne independente", completa Salgado.
Lélia Wanick e Sebastião Salgado
Foi neste momento de reaproximação com a natureza que o fotógrafo começou a pensar em fazer outro livro. "Foi vendo a vida nascer na floresta que surgiu o Gênesis", conta para o público. "Antes, eu havia fotografado apenas uma espécie: o homem. Para este projeto, precisei aprender a conviver com outras espécies".
Para ele, reaproximar da natureza é fundamental para compreendermos nosso lugar na Terra. "Hoje somos extraterrestres no nosso próprio planeta, não conhecemos nada sobre pássaros e plantas. Não temos a noção de que somos apenas uma espécie no meio de milhares. As árvores, por exemplo, são as responsáveis em manter a água no solo e o oxigênio no ar. Mas a cada dia cortamos mais árvores e poluímos mais a água e o ar. Temos que voltar em direção à Terra."
Mundo do Café
O fotógrafo não demonstra cansaço. Em maio ele inaugura a mostra Perfumes de Sonho – Uma Viagem ao Mundo do Café na Expo Universal de Milão 2015 e cinco dias depois leva o trabalho para Bienal de Veneza. "Resolvi fotografar a história das pessoas que trabalham com café. Tomar café é um coisa tão comum que não nos damos conta do tanto de gente envolvida no processo", explica Sebastião. Na mostra, ele registrou a relação do homem com o fruto na Etiópia, Guatemala, Índia, China, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Indonésia, Tanzânia e Brasil.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Bob Fernandes: A Guerra midiática das narrativas contra o uso da razão crítica da população




Segue vídeo (seguido de sua transcrição textual) de Bob Fernandes, da TV Gazeta, sobre a fomração, manipulação e uso das informações pela grande mídia empresarial:



 A Guerra da Narrativa: Corrupção ou Cartel? Falta d'água ou crise hídrica?

 A Política é teatro. O cidadão, o povo, contracena. De vez em quando, raramente, se torna ator principal.

Por isso é tão feroz a disputa pela hegemonia da narrativa. A palavra, que liberta ou aprisiona as ideias, é condutora primordial da narrativa.

No Brasil, cada vez mais na Política, as narrativas buscam emparedar, castrar novas ideias, soluções e caminhos.

.Muitos dizem "petista", ou derivados, como quem vomita. E na busca de intimidar quem seja intimidável. Como muitos dizem "tucano" como se estivessem expelindo algo, e com intenção de enquadrar.

Nessa disputa pela narrativa terminam por aprisionar e encolher as palavras, a imaginação, as ideias.

"Austeridade" é expressão em voga aqui e mundo afora. Pelo mundo, "austeridade" significa não apenas, mas também, 100 milhões de desempregados desde a crise de 2008. E uma conta de US$ 15 trilhões. Por isso, mesmo sem se saber no que vai dar, a ascensão do "Syriza", na Grécia e, talvez, do "Podemos" na Espanha.

"Syriza" e "Podemos" são rebentos do contubérnio da Crise com a Austeridade.

No Brasil, na disputa feroz pela hegemonia da narrativa, a corrupção de décadas, de séculos, é protegida por eufemismos. Como, por exemplo, "Cartel".

Já para os que são novos no ataque ao butim, o que vale é "quadrilha", ou "bando". Essa guerrilha pela hegemonia da narrativa se a cada palavra, a cada caso.

"Falta d´água", "seca", "racionamento", por exemplo, é coisa para o Nordeste.

Em São Paulo, no sudeste, o que se diz, mesmo com ameaça de uma tragédia social, é "crise hídrica" e "rodizio".

Quando é no nordeste se diz que a seca é arma de "coronéis que exploram o atraso". Em São Paulo, no sudeste, foi "São Pedro que não ajudou".

Amiga, amigo. Ainda mais em tempos de crise, atenção à narrativa.

Verifique se instituições, ou porta-vozes que vociferam e apontam o dedo, resistem a dois ou três cliques num site de busca.


A guerra da narrativa: corrupção ou cartel? Falta d’água ou crise hídrica? - See more at: http://www.tvgazeta.com.br/?videos=guerra-da-narrativa-corrupcao-ou-cartel-falta-dagua-ou-crise-hidrica-2#sthash.6ViujeCQ.dpuf