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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Do El País: Ana Júlia e a palavra encarnada, por Eliane Brum


O movimento de ocupação da escola pública tornou-se a principal resistência ao projeto não eleito e pode ser a pedra no caminho do PSDB em 2018


Artigo de Eliane Brum, publicado no El País (que a Globo e a Folha querem banir do Brasil, junto com o The Intercept de Glenn Greenwald e a BBC por trazem notícias reais sobre a manipulação da mídia golpista no país)

Ana Julia faz discurso sobre protestos nas escolas ocupadas

A estudante Ana Julia, 16 anos, ao discursar na Assembleia Legislativa do Paraná.  REPRODUÇÃO

Ana Júlia Ribeiro resgatou a palavra num país em que as palavras deixaram de dizer. E que força tem a palavra quando é palavra. O vídeo que viralizou levando o discurso de Ana Júlia para o mundo mostra que a palavra dela circula pelo corpo. É difícil estar ali, é penoso arriscar a voz. Ela treme, ela quase chora, Ana Júlia se parte para manter a palavra inteira. A câmera às vezes sai dela e mostra a reação dos deputados do Paraná. Alguns deles visivelmente não sabem que face botar na cara. Tentam algumas opções, como numa roleta de máscaras, mas parece que as feições giram em falso. Deparam-se aflitos com a súbita dificuldade de encontrar um rosto. A palavra de Ana Júlia arruinou, por pelo menos um momento, a narrativa que começava a se impor: a da criminalização dos estudantes e de seu movimento de ocupação da escola pública. Mas a disputa ainda é esta. E tudo indica que se tornará cada vez mais pesada: são os estudantes que estão no caminho do projeto de poder do governo de Michel Temer e das forças que o apoiam. E são também eles que podem atrapalhar o tráfego de quem corre para 2018, em especial o PSDB de Geraldo Alckmin.


A maior parte da imprensa ignorou o movimento de estudantes que, no final da semana passada, ocupavam cerca de 800 escolas públicas do Paraná e outras centenas pelo país, incluindo universidades, em protesto contra o projeto de reforma do ensino médio do governo Michel Temer (PMDB). Projeto apresentado como Medida Provisória, o que é só mais um sinal do DNA autoritário dos atuais ocupantes do poder. Os estudantes também ocuparam as escolas em protesto contra a PEC- 241, que congela gastos públicos por 20 anos e pode reduzir o investimento em educação e saúde, áreas estratégicas para o país, com impacto direto sobre os mais pobres.

A potência da voz de Ana Júlia é a da palavra que tem corpo

A ocupação das escolas públicas era – e é – o movimento mais importante deste momento no país – e o espaço na imprensa, quando havia, era mínimo. Até o dia em que um estudante matou outro a facadas, dentro de uma das escolas. Aí as matérias apareceram. Havia então o que dizer. Transformar um fato isolado, com suas circunstâncias particulares, em estigma de todo um movimento levado adiante por milhares de jovens é uma especialidade conhecida do não jornalismo e da política sem ética. E então veio o discurso de Ana Júlia. Não pós-verdade, mas verdade. A verdade dela, do coletivo de estudantes que ela ali representava. A potência da voz de Ana Júlia é a da palavra que tem corpo.
As reações ao discurso de Ana Júlia expressam a época histórica que encontra sua melhor crítica numa série de ficção: Black Mirror (Netflix), com suas distopias sobre a vida atravessada pelas novas tecnologias. Há pelo menos duas maneiras de esvaziar a palavra de Ana Júlia esvaziando Ana Júlia. Uma delas é ridicularizá-la. O tremor da voz, do corpo, as lágrimas viram “argumentos” para fragilizar seu discurso. É o velho truque usado contra as mulheres, usualmente reduzidas a “histéricas” ou “loucas” ou “mimimi”. O todo que constrói a voz é atacado para deixar sua palavra, o verdadeiro alvo, sem lastro. Sem corpo. Desde que seu discurso viralizou, seus 16 anos de vida estão sendo vasculhados na tentativa de encontrar qualquer episódio que possa ser torcido, para destruir sua palavra destruindo-a. Se não existir, pouco importa, fabrica-se – como se viu em vídeos e sites pela internet.
Mas há também uma outra forma de esvaziar a palavra de Ana Júlia, e esta parece inofensiva, “do bem”. É transformar Ana Júlia em “heroína” ou na “esperança de um país”. Nessa narrativa, Ana Júlia é isolada do grupo que sustenta seu discurso, seu corpo. Ela, que representava muitos, que era multidão, passa a ser conjugada no singular. Sozinha, Ana Júlia pode muito pouco.
O outro efeito dessa “celebrização” é a exigência do que Ana Júlia não pode ser – e não pode ser nem quando pode muito. Num país mastigado por uma crise que também é de palavra, não há como transferir para uma jovem de 16 anos a responsabilidade por “salvar” o Brasil, transformando-a em encarnação da “esperança”, esta que também é tão superestimada. Neste lugar simbólico, qualquer um, mesmo que tivesse 80 anos de idade, estaria condenado ao fracasso. Inflar sua palavra é também uma forma de despontencializá-la.

A única proteção contra esquartejamentos na arena pública é o coletivo

Ao esclarecer que seu discurso foi preparado em conjunto com o grupo de estudantes, pedir para não tirar fotos sozinha e evitar falar de sua vida pessoal, Ana Júlia parece conhecer os riscos de ser convertida em celebridade instantânea. Se esta conversão fosse completada, sua palavra viraria produto. E Ana Julia seria consumida e cuspida, como já aconteceu com tantos. Nos dias que se seguiram ao discurso na Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba, foi possível testemunhar muitas mãos, vindas de várias direções, tentando arrancar lascas da palavra-corpo de Ana Júlia. A única proteção contra esquartejamentos na arena pública é o coletivo, o grupo, o juntos – o movimento.
Em um momento do seu discurso de 10 minutos e 40 segundos, Ana Júlia menciona a morte do estudante Lucas Eduardo de Araújo Mota e afirma: “Vocês estão aqui representando o Estado, e eu convido vocês a olhar a mão de vocês. A mão de vocês está suja com o sangue de Lucas. Não só do Lucas como de todos os adolescentes que são vítimas disso. O sangue do Lucas está na mão de vocês, vocês representam o Estado”.
O presidente da Assembleia, Ademar Traiano (PSDB), como um daqueles tubarões rápidos em detectar um flanco de oportunidade, acreditou que havia ali uma chance de atacar a menina e devolver o plenário ao seu ambiente natural, aquele em que peixinhos dourados não confrontam velhos carnívoros. “Aqui você não pode agredir o parlamentar.... Eu vou encerrar a sessão, eu vou cortar a palavra... (...) Não afronte deputado, aqui ninguém está com a mão manchada de sangue, não”, inflamou-se. Encerrar a sessão, “cortar a palavra”, seria mesmo uma bênção para uma parcela dos parlamentares.
Ana Júlia seguiu defendendo as palavras: “Eu peço desculpa, mas o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) nos diz que a responsabilidade pelos nossos adolescentes, pelos nossos estudantes é da sociedade, da família e do Estado”. Nem precisaria pedir desculpas. Ela estava falando em português para pessoas que deveriam ter capacidade de interpretação de discursos em língua portuguesa. O deputado entendeu muito bem que ela não se referia a mãos literalmente “sujas de sangue” ou apontava uma relação direta com a morte do estudante, mas estava, sim, chamando atenção sobre a responsabilidade constitucional dos parlamentares em sua função pública. O deputado apenas preferiu apostar na burrice – e parece que ninguém perde no Brasil atual ao apostar na burrice.

Com o projeto conservador avançando, os partidos progressistas derrotados nas urnas, as esquerdas brigando entre si, sobrou para os estudantes uma responsabilidade grande demais

Há um ponto, neste episódio, que é justamente a responsabilidade dos adultos. Com a escola pública, com o Brasil. A ação dos estudantes tornou-se o principal movimento de resistência ao projeto não eleito do governo Michel Temer e das forças que o apoiam. Com a oposição fragilizada, o PT quebrado, capitais importantes como São Paulo e Rio nas mãos de conservadores e as esquerdas sem projeto e brigando entre si, sobrou para os estudantes secundaristas um peso grande demais. Neste sentido, foi um pouco assustador testemunhar adultos infantilizados tratando Ana Júlia como um oráculo de 16 anos. É preciso fazer melhor do que isso tanto para apoiar os estudantes, respeitando sua autonomia, quanto para construir um projeto capaz de ecoar no país.
A escola pública foi destruída e abandonada por décadas. Também o PT fez menos do que poderia, em especial nos ensinos fundamental e médio, durante os 13 anos que permaneceu no poder. Enquanto a classe média pôde matricular seus filhos nos colégios privados, ninguém se preocupou com os filhos dos mais pobres, que não tinham educação e viviam um cotidiano de violações. A violência começa pelo salário humilhante dos professores, o abandono dos prédios e uma escola que não educa, incapaz de qualificar o desejo e ampliar os mundos de crianças e adolescentes. Tudo indica que aqueles que ali estão não têm valor para o país, relegados ao lugar simbólico de restos.
Enquanto foi este o estado das coisas, bem poucos parecem ter se preocupado para além do discurso vazio, das palavras sem corpo sobre a importância da educação, que ressurgiam a cada eleição e que culminaram com “Brasil, Pátria Educadora”, o slogan do governo deposto de Dilma Rousseff. Dizer que “educação é prioridade” se tornou um falso consenso que, em vez de palavra, virou flatulência.

As escolas públicas só se tornaram um problema para as forças conservadoras quando os estudantes as ocuparam para exigir educação de qualidade

Ter escolas que não educam para os mais pobres nunca foi de fato um problema para as elites do país. Estava tudo bem assim. O problema surgiu quando os estudantes das escolas públicas de São Paulo entenderam que a “reorganização escolar” imposta pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), que fecharia mais de 90 colégios e remanejaria mais de 300.000 alunos, era um abuso. Ocuparam então as escolas no final de 2015. E, mais do que ocuparam, cuidaram do que ninguém cuidava – limpando, pintando e consertando – e disseram que queriam, sim, ser educados. Cuidar das escolas e reivindicar ensino de qualidade virou uma transgressão a ser punida. E a ser criminalizada.
A ideia de que as escolas podem ser ocupadas, num sentido profundo, por aqueles que dela dependem para ter oportunidades na vida, se alastrou pelo país. “De quem é a escola? A quem a escola pertence?” foi uma das primeiras perguntas de Ana Júlia aos deputados do Paraná. É uma grande pergunta, e os estudantes têm uma resposta a propor.
Movimentos de “Ocupa Escola” começam, acabam e recomeçam em diversos estados do Brasil desde o ano passado. A ocupação das escolas do Paraná coincidiu, porém, com um momento ainda mais delicado do país: um projeto não eleito no governo federal, apoiado por um Congresso corrompido, tocando com grande rapidez reformas cruciais, como a PEC-241, sem debate com a sociedade.
Quem está, de fato, no caminho deste projeto de poder, tanto quanto das ambições de algumas figuras nacionais, neste momento de oposição fragilizada ou mesmo atarantada? Os estudantes secundaristas com seu “Ocupa Escola”, uma luta que ganhou uma dimensão muito maior do que eles poderiam prever. Assim, há várias forças tentando destruir o movimento, seguindo a cartilha de sempre: criminalizando-o.
É importante perceber que, de repente, a escola, com a qual bem poucos se importavam para além do discurso vazio, virou o alvo de ataques conservadores bem organizados. “Escola Sem Partido”, o projeto-aberração que busca criminalizar o pensamento crítico dentro das escolas e, portanto, acabar com a possibilidade de qualquer processo educativo, é uma das ofensivas em curso. “Escola Sem Partido é falar pros jovens, pra sociedade, que querem formar um exército de não pensantes, um exército que ouve e baixa a cabeça”, disse Ana Júlia aos deputados do Paraná.
O “sem partido”, vale prestar muita atenção, é a malandragem do momento. Ela busca encobrir todos os partidos que estes projetos tomam – e vender uma suposta neutralidade ideológica que não têm. Sem contar a crescente criminalização dos partidos políticos, tanto como conceito quanto como atores do processo democrático, algo que merece uma atenção exclusiva em outro artigo.
Entre as tentativas de deslegitimar o movimento dos estudantes, a mais corriqueira é anunciar que os alunos são “manipulados” e “aparelhados” justamente por partidos de esquerda. Fizeram o mesmo com Ana Júlia tão logo seu discurso viralizou na internet. É triste assistir a ela e a outros estudantes terem de explicar de novo e de novo para jornalistas e mesmo para parlamentares que o movimento é “apartidário” – o que é diferente de “sem partido”.

É impressionante que ainda funcione essa nova versão dos comunistas comendo criancinhas enquanto o Brasil se torna o país do mais um direito a menos por dia

Não fosse parte da população tão estúpida, perceberia que os partidos identificados com a esquerda foram derrotadas nas urnas nestas últimas eleições e que o projeto conservador vem atropelando o país de forma acelerada, transformando o cotidiano em mais um direito a menos por dia. Lula teria ligado para Ana Júlia para dizer que estava “emocionado” com o movimento? Era Lula que precisava disso, não Ana Júlia e o movimento que representa. Se tivesse preocupado com a causa dos secundaristas mais do que com a sua sobrevivência política, Lula teria inclusive se abstido deste telefonema.
Assim, é impressionante que ainda funcione essa nova versão dos comunistas que comem criancinhas enquanto os direitos da população estão sendo engolidos, digeridos e defecados em Brasília pelas forças que, mais uma fez, refazem o pacto conservador para manter os privilégios intactos. A tática de inventar um inimigo e alimentar com ele o medo da população é tão antiga quanto a humanidade. Que ainda funcione pode ser explicado por aqui pela péssima educação pública, que pode piorar ainda mais, como alertam os estudantes.

O MBL parece bem mais interessado em criminalizar os estudantes que ocupam as escolas do que em denunciar os corruptos que seguem dando as cartas em Brasília

O Movimento Brasil Livre (MBL), um dos protagonistas das manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff, tem atuado pela desocupação das escolas no Paraná e se esforçado para criminalizar o movimento dos estudantes. Aqueles que levantaram a bandeira da “corrupção” nas ruas do país, enquanto tiravam fotos junto com o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), depois da deposição de Dilma parecem bem pouco interessados nos corruptos que seguem em Brasília dando as cartas. Mas, em contrapartida, estão muito empenhados em tirar os estudantes do caminho. Vale a pena observar com toda atenção que partidos o MBL apoia. Neste domingo, por exemplo, ajudou a eleger o novo prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), numa eleição que teve vidros estilhaçados e até uma morte, ambos os episódios ainda mal explicados. É a primeira vez que o PSDB comandará a capital gaúcha.
Com a Lava Jato rondando José Serra e Aécio Neves, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vai chegando cada vez mais perto de ser o candidato do partido à presidência em 2018. Saiu das eleições de 2016, onde arriscou-se e ganhou, muito mais fortalecido. Se o PSDB foi o vencedor do pleito municipal, Alckmin – ao eleger João Doria prefeito de São Paulo ainda no primeiro turno, contrariando outros setores e caciques do partido, e ampliar a presença de sua base aliada nas prefeituras de outras cidades e regiões do estado – foi o campeão. Impressionante que ainda chamem de “picolé de chuchu” um dos políticos mais complexos – e assustadores – do Brasil atual.

Alckmin, o vencedor das eleições de 2016 que quer vencer em 2018, só perdeu batalhas significativas para os estudantes

Alckmin se reelegeu governador no primeiro turno, em 2014, em plena crise hídrica, negando a crise hídrica. Antes, em 2013, os protestos nas ruas aumentaram depois que a polícia de Alckmin arrebentou manifestantes e também jornalistas. Mas, em pouco tempo, com a ajuda de parte da imprensa, os manifestantes foram convertidos em “vândalos”. E, mais uma vez, Alckmin se safou.
Nos últimos anos, a única tentativa de Alckmin que não colou foi a criminalização dos estudantes que ocuparam as escolas públicas de São Paulo no final de 2015. Sua polícia começou a arrebentar crianças e adolescentes nas ruas e as imagens eram chocantes demais mesmo para os mais crédulos. Alckmin, o assustador, viu sua popularidade cair. O governador perdeu aquela batalha, e perdeu para adolescentes.
Os estudantes da escola pública estão no meio do caminho do projeto de poder de muita gente inescrupulosa. Com seus corpos franzinos. Com sua voz trêmula. Tão sós num momento em que os adultos que poderiam estar ao seu lado têm dificuldade para compreender a gravidade do momento e assumir responsabilidades.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

sábado, 29 de outubro de 2016

‘A juventude brasileira encontrou seu futuro em Ana Julia Ribeiro’, diz texto da Revista Forbes



Texto de Shannon Sims comenta o discurso da estudante na Alep e sinaliza que “a crise educacional” do Paraná “é particularmente aguda” desde que professores foram reprimidos pelo Governo de Beto Richa (PSDB) em uma manifestação.
Informação – Por Rafael Bruza no Independente
A estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro(16) discursa na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) / Foto – Reprodução (Alep)

A estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro(16) discursa na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) / Foto – Reprodução (Alep)


“As notícias do Brasil tendem a ser duras. Turbulência política, escândalos de corrupção, roubos, estupros, mortes e ultraje. Pode ser desgastante cobrir o Brasil como um jornalista; imagine quão exaustivo deve ser viver no Brasil como brasileiro. Mas hoje, boas notícias vieram de um lugar improvável. Nas últimas 24 horas, o Brasil se familiarizou com o que muitos brasileiros acreditam que é a voz mais promissora que ouviram nos últimos anos. E, notavelmente, é a voz de uma menina de 16 anos chamada Ana Júlia Ribeiro”.
Assim a jornalista Shannon Sims introduziu o texto em que apresenta o discurso da estudante secundarista do Colégio Estadual Manuel Alencar Guimarães. Ana Julia falou na tribuna na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep) nesta quarta-feira (26), sobre as visões dos estudantes que participam das mais de 800 ocupações feitas em escolas do estado e se opõem à PEC 241 de teto de gastos, à MP de Reforma do Ensino Médio e ao Escola sem Partido.
“É um insulto a nós (estudantes), que estamos lá nos dedicando e procurando motivação todos os dias, sermos chamados de doutrinados. É um insulto aos estudantes. É um insulto aos professores”, disse a estudante, que também apontou culpa dos representantes do Estado na morte do estudante Lucas Mota dentr de uma ocupação.
“Ontem eu estive no velório e não recordo de nenhum desses rostos aqui. Nós sabemos que nós estávamos preocupados. Vocês estão aqui representando o Estado. A mão de vocês está suja com o sangue do Lucas. Não só do Lucas, como de todos os adolescentes e estudantes que são vítimas disso. O sangue do Lucas está nas mãos de vocês! – exclamou a estudante na tribuna da Alep.
“Então, o que está acontecendo aqui”? – questiona a jornalista no texto da revista Forbes. “Ana Júlia está se dirigindo aos líderes do governo do estado do Paraná sobre a escalada da crise que assola muitos – mais de 1.000 – de escolas do país. Com um forte sotaque paranaense, ela começa seu discurso com uma pergunta que já apareceu várias vezes em mídia social brasileira: ‘De quem é a escola’? Ela continua a responder a sua pergunta retórica explicando por que ela acredita que o movimento de ocupar escolas – que é ideologicamente associado ao de esquerda – é legal e legítimo”, afirma a jornalista no texto.
“Com honestidade surpreendente, ela (Ana Julia) admite que é um desafio para os jovens estudantes para ser capaz de digerir todas as políticas e políticas apresentados nos meios de comunicação e, em seguida, determinar se eles vão favorecer ou combatê-los”, escreve a jornalista, que cita a estudante.
“A nossa dificuldade em conseguir formar um pensamento é muito maior do que a de vocês. Nós temos que ver tudo que a mídia nos passa. Fazer um processo de compreensão, de seleção, para daí conseguir ver o que vamos ser a favor e o que vamos ser contra. E é um processo difícil. Não é fácil para os estudantes, mas mesmo assim decidimos fazer isso. Não estamos lá para fazer baderna, não estamos lá de brincadeira. Estamos lá por um ideal. Estamos lá porque acreditamos no futuro do nosso país. Nós sabemos pelo que estamos lutando. A nossa bandeira é a educação. A nossa única bandeira é a educação”, afirmou Ana Lucia no discurso.
Contexto
Após apresentar o discurso de Ana Julia, a jornalista da revista Forbes explica o contexto em que as ocupações de estudantes estão ocorrendo.
“No estado brasileiro do Paraná, a crise educacional é particularmente aguda. Atualmente, 850 escolas estão ocupadas neste pequeno estado. E a questão da educação e protestos no Paraná tem uma história difícil. Foi em Curitiba, capital do Paraná, que cerca de um ano atrás escola pública professores encheram as ruas em protesto contra mudanças em seus planos de pensão. Seu protesto foi recebido com violência do estado (controlado pelo governo de Beto Richa, do PSDB), e mais de 100 professores ficaram feridos. Cenas de policiais batendo em professores enviaram ondas de choque ao redor do país e lançaram as bases para o discurso de Ana Júlia”, escreve a jornalista.
Sims também ressalta que a postura de Ana Julia é políticamente contrária ao Governo de Michel Temer e que a eleição municipal de outubro de 2016 “foi uma derrota para os esquerdistas do Brasil”.
“Cidades que antes eram lideradas por progressistas andando de bicicleta, como São Paulo, votaram em líderes centristas usando o botão direito no mês passado”.
O texto também comenta a morte de Lucas Mota, “encontrado com ferimentos de faca em seu peito, supostamente causada por outro estudante após uma discussão sobre as drogas”, e diz que o assassinato teve efeito duplo.
“Por um lado, a sua morte reafirmou a posição de quem acusa o movimento de ser um criador de problemas que tira vantagens do Estado. Ao mesmo tempo, a morte de Mota adicionou combustível para o movimento da ocupação, que anteriormente era um protesto que caiu mais sob a égide de um protesto contra as políticas do governo, mas que cada vez mais se tornou, para os seus apoiantes, um protesto sobre os direitos humanos. Ou, mais especificamente, sobre os direitos dos alunos”, afirma o texto.
Momento dramático
A jornalista Shannon Sims também disse que o “momento mais dramático” do discurso ocorreu quando a estudante falou sobre a morte do estudante Lucas Mota e acusou os representantes de estarem com as “mãos sujas de sangue”.
A jornalista da revista Forbes disse que o presidente da casa, Ademar Traiano (PSDB), que representa “um partido de centro-direita”, segundo a jornalista, interrompeu a sessão após a declaração contra os deputados e ameaçou fechar a sessão.
“Você não pode atacar os parlamentares aqui”, diz Ademar Traiano “com raiva de Ana Julia”, segundo a jornalista da Forbes. “Aqui ninguém tem as mãos manchadas de sangue”, conclui o deputado.
Sims também relata o que houve após a interrupção feita pelo presidente da casa.
“A adolescente não tenta gritar com o presidente da sessão, ela não tenta desrespeitá-lo ou se envolver em uma discussão. Em vez disso, ela fica fria em si mesma e emite calmamente a crítica mais contundentede todas. ‘Peço desculpas, mas o Estatuto da Criança e do Adolescente nos diz que a responsabilidade para os nossos adolescentes – os nossos alunos – encontra-se com a sociedade, a família, e o estado’.
“A palavra ‘estado’ cai como uma gota no microfone da sessão”, relata a jornalista, que depois explica por que o discurso da jovem foi bem recebido.
“Enquanto ela representa uma opinião política que muitos não concordam, a forma como ela se apresenta é tão segura de si que tem atraído a respeito até mesmo brasileiros que pode não concordar com a sua posição”, diz o texto.
É por isso que há um coro gritando “Ana Julia me representa!”, segundo a jornalista.

Jornalista formado em Madri, retornou ao Brasil em 2013 para lançar um meio de comunicação próprio. Formou uma parceria com um programador e lançou o Indepedente. Acredita que a mudança no mundo está dentro de cada um e trabalha para que seus leitores tenham uma visão realista, objetiva e construtiva do planeta Terra.