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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Interesses dos ricos, Steve Bannon, neofascismo e a implosão inevitável do governo, por Paulo Ghiraldelli


   "Como a imensa maioria das pessoas hoje pensa que falar em ameaça comunista é um anacronismo, visto que, depois da queda do muro de Berlim e da abertura econômica da China (que se tornou um paraíso capitalista), a alta finança parece não encontrar mais nenhuma fronteira, aproveito, então, esse gancho nas minhas conversas para sublinhar que, realmente, o que assistimos hoje é a uma guerra que foi profetizada há mais de um século por um grande pensador francês, Charles Maurras, que disse em L’Avenir de l’intelligence” (1905) que no futuro os intelectuais prostituiriam suas inteligências para a plutocracia e haveria uma verdadeira guerra entre dois sistemas capitalistas: um capitalismo conservador, enraizado nas tradições nacionais, e um capitalismo revolucionário que combateria encarniçadamente as tradições nacionais para alcançar a sua meta: abolir todos os obstáculos contra o império do dinheiro." Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Importantíssimo vídeo-análise seguida do texto do Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa. 

Do Canal de Paulo Ghiraldelli:

Charles Maurras e Jair Bolsonaro

Postado em 30-08-2018
Tenho-me me empenhado, com toda franqueza, em ajudar os católicos a tomar consciência da importância e da gravidade das próximas eleições. E estou satisfeito observando que muitos católicos começam a perceber que a coisa mais importante em jogo no pleito de outubro não é tanto a escolha de um presidente que seja um doutor em economia ou finanças públicas quanto a escolha de um homem que tenha um compromisso real com a defesa dos valores fundamentais da nação: a defesa da vida, a salvaguarda da instituição natural da família (alicerçada na união entre um homem e uma mulher), o respeito à tradição religiosa povo da Terra de Santa Cruz, bem como a segurança do direito de propriedade e de livre iniciativa econômica.
Como a imensa maioria das pessoas hoje pensa que falar em ameaça comunista é um anacronismo, visto que, depois da queda do muro de Berlim e da abertura econômica da China (que se tornou um paraíso capitalista), a alta finança parece não encontrar mais nenhuma fronteira, aproveito, então, esse gancho nas minhas conversas para sublinhar que, realmente, o que assistimos hoje é a uma guerra que foi profetizada há mais de um século por um grande pensador francês, Charles Maurras, que disse em L’Avenir de l’intelligence” (1905) que no futuro os intelectuais prostituiriam suas inteligências para a plutocracia e haveria uma verdadeira guerra entre dois sistemas capitalistas: um capitalismo conservador, enraizado nas tradições nacionais, e um capitalismo revolucionário que combateria encarniçadamente as tradições nacionais para alcançar a sua meta: abolir todos os obstáculos contra o império do dinheiro.
Procuro, então, em minhas conversas mostrar a realidade brasileira à luz da análise profética de Charles Maurras. Tenho dito aos meus amigos, e a todos que me pedem minha opinião, que nosso perigo não é apenas a eleição de um socialista estúpido que algemaria qualquer brasileiro empreendedor e condenaria toda a nossa sociedade a mais negra miséria, mas sobretudo a eleição de um  dos candidatos que se dizem liberais em economia e descomprometidos com a defesa dos valores morais da nação brasileira. E importa nomeá-los: Sr. Alckmin e Sr. Amoedo.
Importa, também, provar o que digo: A Sra. Elena Landau, até há pouco tempo, conceituada economista do PSDB, declarou sua preocupação com uma possível eleição do Sr. Jair Messias Bolsonaro. Por que essa preocupação senão porque a ilustre senhora, que se diz liberal em economia e costumes, cumpre perfeitamente o que disse Charles Maurras há mais de cem anos: os intelectuais se prostituiriam para a plutocracia que execra a tradição, a família e a religião porque quer levar a humanidade ao culto pagão do Bezerro de Ouro?
Digo também a todos meus amigos que hoje assistimos à organização de um poder político mundial anticristão, de modo que é absolutamente necessário que tenhamos um presidente da República a altura e  tenha a coragem de opor-se a essa conjuração anticristã mundial, a qual não se contenta mais com a laicidade do estado, mas quer que o estado seja abertamente ateu e a religiosidade seja confinada ao ambiente doméstico e mal tolerada.
Esforço-me, igualmente, por fazer compreender a todos que qualquer discurso democrático, qualquer apologia da democracia, não passa de um sofisma.
Com efeito, quem crê no indivíduo soberano, no indivíduo rei, quem crê no cidadão consciente e responsável pelos destinos da nação em uma sociedade completamente inorgânica, onde todas as instituições intermediárias foram dissolvidas ou açambarcadas pelo “Estado Democrático de Direito” ou é um idiota incurável ou age de má fé visando a interesses mesquinhos inconfessáveis.
Aqui também é necessário apresentar prova do que digo: a maior prova de que o Estado Democrático de Direito é um regime totalitário que estrangulou a instituição da família em todo o Ocidente ex-cristão é o que se viu há poucos meses no Reino Unido, com o assassínio do menino Alfie  Evans contra a vontade de seus pais.
No “Estado Democrático de Direito” não há sociedade organizada a partir da instituição da família, a partir dos grupos naturais; há apenas indivíduos aliciados pelas organizações criminosas, os partidos políticos, muitos dos quais comandados pelo narcotráfico ou pelas seitas que vivem da exploração da ignorância religiosa da população.
Em meio a este quadro apocalíptico da política nacional e internacional surge para nós brasileiros uma esperança, a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, a despeito de todos os senões que ele e seu candidato a vice-presidente possam ter.
O fato é que Bolsonaro assumiu um compromisso com os brasileiros de fazer respeitar os chamados princípios inegociáveis. Com ele na Presidência da República teremos a garantia de que o direito da família cristã educar os seus filhos segundo a Lei de Deus será respeitado. O “Estado Democrático de Direito”, ou melhor a democracia totalitária não invadirá arbitrariamente o santuário da família, como diz Leão XIII na Rerum Novarum, para, em nome dos princípios revolucionários da ONU, impor à nossas crianças a sórdida ideologia do gênero nem a masculinização das nossas mocinhas nem a efeminização dos nossos rapazes.
Com Bolsonaro na Presidência da República teremos a oportunidade de fazer também uma ampla reforma da universidade brasileira, acabando de vez com esse antro de corrupção ideológica que tem sido a universidade em nosso país, para criar verdadeiros institutos de investigação científica e de promoção da verdadeira educação intelectual do povo brasileiro.
Que Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil, nos alcance uma grande graça no dia 7 de outubro próximo quando a honraremos sob o título de Rainha da Vitória!
Anápolis, 30 de agosto de 2018.
Festa de Santa Rosa de Lima, Patrona secundária da América.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Espionagem de Bolsonaro contra os brasileiros: os fantasmas cibernéticos embutidos na MP 870




Do Canal Nocaute de Fernando Morais, análise do sociólogo Sérgio Amadeu :




Em denúncia da maior gravidade, o sociólogo Sérgio Amadeu desvenda os riscos da Medida Provisória 870, de 2019, que permite, sem controle de qualquer órgão, a monitoração eletrônica e secreta de tudo: pessoas, ONGs e movimentos sociais.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O que pensam os portugueses sobre Bolsonaro: "Um canalha à porta do Planalto", por Francisco de Assis no jornal português Público



  "O que é um canalha em estado puro? É alguém que contraria qualquer tipo de critério moral e se coloca num plano comportamental pré ou anticivilizacional. Quem elogia o torturador de uma jovem mulher absolutamente indefesa atribui-se a si próprio um estatuto praticamente sub-humano. Bolsonaro é dessa estirpe, desse rol de gente que leva à interrogação sobre o que subsiste de humano no homem que literalmente se desumaniza."  

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Equiparar Haddad a Bolsonaro constitui um ato moral e politicamente inqualificável. Quem o faz torna-se cúmplice de Bolsonaro.
por Francisco Assis
1. Carlos Alberto Brilhante Ustra foi um dos maiores, senão mesmo o maior torcionário, no tempo da ditadura militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. Em 2008 foi o primeiro oficial condenado por sequestro e tortura. Comprovadamente, maltratou física e psicologicamente centenas de pessoas e chegou ao limite de obrigar crianças a presenciarem o dilacerante espectáculo do espancamento dos respectivos progenitores. Nunca reconheceu os seus crimes nem manifestou o mais leve arrependimento pelos seus actos desumanos. Era um canalha. Morreu em 2015, em Brasília, na cama de um hospital.
Foi precisamente este torcionário miserável que o então deputado federal Jair Bolsonaro homenageou no momento em que votou a favor do impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Nessa ocasião, Bolsonaro pronunciou uma declaração que o define integralmente: dedicou o seu voto à “memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. É impossível imaginar, naquele contexto, uma afirmação mais vil, um comportamento mais indigno, uma atitude mais asquerosa. Bolsonaro revelou-se ali o que ele verdadeiramente é: um canalha em estado puro.
O que é um canalha em estado puro? É alguém que contraria qualquer tipo de critério moral e se coloca num plano comportamental pré ou anticivilizacional. Quem elogia o torturador de uma jovem mulher absolutamente indefesa atribui-se a si próprio um estatuto praticamente sub-humano. Bolsonaro é dessa estirpe, desse rol de gente que leva à interrogação sobre o que subsiste de humano no homem que literalmente se desumaniza. Theodore Adorno levou essa questão até ao limite do pensável, quando formulou a sua célebre afirmação: “escrever um poema depois de Auschwitz é um acto bárbaro e isso corrói até mesmo o conhecimento de porque se tornou impossível escrever poemas”. E, contudo, a poesia sobreviveu. O Homem resiste ao que de desumanizador ele inscreve na história. Isso não é razão para renunciar à denúncia da barbárie.

domingo, 14 de outubro de 2018

Do El País: Numa sociedade tão marcada pela desigualdade social e por divisões profundas, a política do ódio ganhou espaço e conseguiu apoios vastos

Imprensa mundial avisa que Brasil está se tornando um país nazista


"O primeiro turno das eleições presidenciais brasileirasconfirmou o avanço da estratégia do choque e pavor: quase metade dos eleitores deu o seu voto a Jair Bolsonaro, que tem feito carreira pedindo o assassinato de dezenas de milhares de pessoas, sugerindo a esterilização das mulheres pobres e desprezando os valores essenciais da liberdade e democracia." 

Do El País:


Há um perigo no Brasil e não fechamos os olhos

Numa sociedade tão marcada pela desigualdade social e por divisões profundas, a política do ódio ganhou espaço e conseguiu apoios vastos




O primeiro turno das eleições presidenciais brasileirasconfirmou o avanço da estratégia do choque e pavor: quase metade dos eleitores deu o seu voto a Jair Bolsonaro, que tem feito carreira pedindo o assassinato de dezenas de milhares de pessoas, sugerindo a esterilização das mulheres pobres e desprezando os valores essenciais da liberdade e democracia. A desagregação do sistema político brasileiro, em particular desde a impugnação da presidente Dilma Rousseff, a quem aliás não foi imputado qualquer crime mas apenas irregularidades de gestão orçamental, está a ser acentuada por esta vertigem de ódio personificada por Bolsonaro. Numa sociedade tão marcada pela desigualdade social e por divisões profundas, a política do ódio ganhou espaço e conseguiu apoios vastos, entre associações empresariais, dirigentes dos partidos tradicionais e várias igrejas, envolvendo mesmo intervenções partidarizadas de juízes. Assim, um fascista pode ganhar as eleições numa das maiores democracias do mundo, ameaçando as regras básicas da vida social. Quando a sinistra memória de Pinochet ou de Videla ainda está tão presente, este clamor por uma ditadura militar não pode ser ignorado.
Há mais de 200 anos, Goya pintou um drama a que deu o título de “o sono da razão produz os monstros”. Foi sempre assim, mas por vezes leu-se nesta constatação a rendição perante a inevitabilidade. Pela nossa parte, não aceitamos soluções irracionais nem o silêncio covarde perante as tragédias anunciadas. É por isso que, considerando os nossos pontos de vista distintos, nos juntamos hoje para um apelo fundamental contra a ameaça monstruosa no Brasil, que afeta todos os povos, em particular na América Latina, mas também outros continentes.
De fato, a peste antidemocrática está a se espalhar. Assistimos com preocupação à separação de crianças dos seus pais e a depoimentos judiciais de meninos e meninas de dois e três anos em casos de expulsão de imigrantes nos Estados Unidos. Notamos a normalização da violação dos direitos humanos no tratamento em vários países europeus de refugiados de guerras e de imigrantes que fogem da fome. Indigna-nos a conivência de um grande partido europeu com a campanha de desmantelamento da independência do sistema judiciário e da liberdade de imprensa na Hungria. Lemos com indignação o reconhecimento pelo presidente das Filipinas da sua atuação em assassinatos extrajudiciais. Que o Brasil possa vir a ser um novo campo para a discriminação das diferenças, o desprezo pelas mulheres ou a vertigem da violência, é também motivo para preocupação, e sobretudo para uma escolha que ninguém deve ignorar: pela nossa parte, tomamos posição contra a indignidade.
Notamos ainda que muitos responsáveis políticos que apelaram à rejeição da extrema-direita quando no segundo turno das eleições presidenciais francesas se opunham Jean-Marie Le Pen e Chirac ou, depois, Marine Le Pen e Macron, se calam agora perante uma opção tão clara, se não ainda mais gritante. Pelo nosso lado, não nos deixamos condicionar por calculismos mesquinhos. A democracia e a liberdade são indivisíveis. Os democratas e a democracia brasileira contam com a nossa integral solidariedade e empenho.
Freitas do Amaral é jurista português, foi presidente da Assembleia Geral da ONU e ministro de vários governos. Pilar del Rio é jornalista espanhola, presidenta da Fundação José Saramago. Francisco Louçã é economista português, membro do Conselho de Estado e fundador do partido Bloco de Esquerdas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

E se Bolsonaro ganha, Mourão governa?, por Fábio de Oliveira Ribeiro




  "Em 2018, o Brasil está sendo sacudido por uma disputa entre civilização e barbárie. Mas no polo da barbárie a disputa interna é crescente e evidente. A relação entre Mourão e Bolsonaro não é e nunca será tranquila, harmoniosa e produtiva como foi aquela que existiu entre Lula e José Alencar. Caso ambos sejam eleitos, se o capitão não se curvar ao general as coisas irão se complicar. Mourão já está deixando bem claro que pretende ser o verdadeiro “chefe de governo”, algo que inevitavelmente rebaixaria o novo presidente ao papel decorativo de “chefe de Estado”."



Bolsonaro ganha, Mourão governa?, por Fábio de Oliveira Ribeiro
A incontinência verbal do general vice já se tornou um problema para Bolsonaro. Cada vez que Mourão abre a boca ele enfia uma facada na própria candidatura e um prego no caixão eleitoral que está fabricando para o colega de chapa.
Acostumado a lidar com subalternos num ambiente hierarquizado, Mourão fala o que quer onde bem entende. Ele age como se estivesse num Quartel e presume que deve ser obedecido. Os descontentes têm, no máximo, o direito de ficar quietos e acatar suas determinações como ordens válidas e irrevogáveis.
Bolsonaro pediu para ele moderar, mas ele obviamente não obedeceu ao comando do líder da chapa. Onde já se viu um general abaixar a crista para capitão? 
Entre os militares as reclamações sobem e as ordens descem. O inverso não pode ocorrer, pois um comandante que se sujeita aos comandados, ou não disciplina a tropa, perde o comando dela. A inversão da hierarquia não se coaduna com a mentalidade militar. Mourão não é José Alencar.
O vice de Lula era um grande empresário e tinha, portanto, uma condição social melhor do que o líder petista. Mas ele não tinha uma mentalidade rígida. Ao contrário de Mourão, Alencar não viveu décadas confinado num ambiente social fechado em que a hierarquia e a disciplina são mais importantes do que as qualidades inatas ou adquiridas que distinguem e devem estabelecer precedências entre os lideres políticas.
José Alencar aceitava voluntariamente a liderança de Lula. Ao fazer isso, ele foi um vice-presidente brilhante e pode colocar toda sua experiência de empresário a serviço de um projeto de Brasil que deu certo. O vice de Lula pode ser considerado um dos responsáveis pelo crescimento acelerado do Brasil durante o Milagrinho.
Homem reservado e autoconfiante, José Alencar nunca exigiu homenagens públicas exageradas. Mesmo assim, Lula nunca deixou de retribuir e premiar a modéstia e a eficiência do vice diante das câmeras de TV. Mourão é diferente. Desde o momento que trocou a farda pela passarela da política, o general vice demonstrou que gosta de salamaleques e que se considera o verdadeiro comandante da tropa que levará Bolsonaro à presidência. Tanto que ele chegou a requerer na Justiça o direito de substituir o candidato a presidente nos debates televisivos.
Em 2018, o Brasil está sendo sacudido por uma disputa entre civilização e barbárie. Mas no polo da barbárie a disputa interna é crescente e evidente. A relação entre Mourão e Bolsonaro não é e nunca será tranquila, harmoniosa e produtiva como foi aquela que existiu entre Lula e José Alencar. Caso ambos sejam eleitos, se o capitão não se curvar ao general as coisas irão se complicar. Mourão já está deixando bem claro que pretende ser o verdadeiro “chefe de governo”, algo que inevitavelmente rebaixaria o novo presidente ao papel decorativo de “chefe de Estado”.
Bolsonaro aceitará ser subalterno do general vice? Até o presente momento o candidato tem dado a entender que não. Mas em algum momento ele pode se resignar, bater continência e dizer: “Sim senhor, general; o senhor manda”. Quando isso ocorrer o regime presidencial brasileiro deixará de existir, mas nós não estaremos vivendo num parlamentarismo.
O perigo da eleição da chapa Bolsonaro/Mourão, portanto, não é apenas econômico. As disputas entre ambos podem acelerar o processo de degradação do sistema constitucional erigido em 1988. O povo será definitivamente colocado para fora do cenário político. A predominância do ego do vice sobre o ego do presidente irá dar origem a uma nova forma de (de)governo muito diferente daquela que foi aprovada pelo povo no plebiscito de 1993. Não só isso.
Caso venha ocorrer uma ruptura entre Mourão e Bolsonaro após a vitória eleitoral, o general vice sempre terá precedência ao presidente. Afinal, quando os generais se reunirem para decidir o que fazer Mourão poderá falará com eles de igual para igual enquanto o Bolsonaro será sempre considerado um oficial subalterno descartável.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

O jurista, professor da PUC-SP, Pedro Serrano fala, em entrevista para Juca Kfouri, sobre a prisão ilegal de Lula e o avanço do Regime de Exceção imposto pelas elites



Extraído de O Cafezinho:



O professor Pedro Serrano, um dos mais importantes juristas do país, deu entrevista a Juca Kfouri, apresentador do programa Entre Vistas, na TVT.
É uma entrevista obrigatória, para assistir e comentar.
Descrição do vídeo: Pedro Serrano é escritor e Doutor em Direito do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com Pós Doutoramento pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa . Atualmente é advogado sócio do escritório de advocacia Teixeira Ferreira e Serrano Advogados Associados e professor nos cursos de especialização em direito administrativo e constitucional da PUC/SP
Pedro serrano atua, principalmente, nos seguintes temas: Inconstitucionalidade de Leis por Desvio de Função; Globalização e Poder Político; Serviços Públicos, Região Metropolitana, Serviços de saneamento básico, Licitações e Contratos Administrativos e Direitos Humanos.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Roberto Requião alerta que o ovo da serpente fascista já chocou

"Não há um script único. No entanto, alguns elementos, algumas substâncias são universais.
Por exemplos, a criminalização da política e a desmoralização dos partidos. Todos os políticos não prestam, todos os partidos são organizações criminosas. Todos os políticos e todos os partidos são corruptos. Não se salva ninguém. Os legislativos não servem para nada, são abrigos de imunidades, de foro privilegiado, de corrupção, de mordomias e sinecuras, de desperdício de dinheiro. Se os legislativos fossem fechados, ninguém perderia nada, diziam e diz-se.
"A par da depreciação da política, demoniza-se a Justiça, especialmente os tribunais superiores, através da militância de juízes singulares, de promotores e procuradores de Justiça, e de policiais." - Senador Roberto Requião

Do Cafezinho:



Frente Antifascista já! Fascistas atacam até Igreja Católica!
Roberto Requião[1]
Diz-se, não sei se é verdade, os senadores do Espírito Santo poderiam confirmar, diz-se que existe um pacto entre os veículos de comunicação capixabas para que não noticiem os suicídios de pessoas que se atiram da Terceira Ponte, ligação entre Vila Velha e Vitória, a fim de que não se estimulem mais mortes. Elas continuam acontecendo, só que sem alarde.
Talvez os meios de comunicação brasileiros devessem fazer um pacto semelhante, recusando-se a publicar as manifestações de toda sorte de psicopatas, de fascistas, de degenerados que transbordam das redes sociais e do gangsterismo político para as “respeitáveis” páginas dos jornalões, para o horário nobre da televisão, para o “Jornal Nacional”, estimulando, acicatando instintos bestiais, pré-humanos.
No primeiro discurso que fiz nesta Casa, neste meu segundo mandato, na sessão do dia quatro de fevereiro de 2011, trazia à memória das senhoras e dos senhores senadores o clássico filme de Ingmar Bergman, o “Ovo da Serpente”, uma parábola do surgimento do nazismo.
“Desde o começo era ostensivo o que seria gerado”, constata um dos personagens do filme.
Desde o começo cultivou-se o zigoto, protegendo-o, aquecendo-o.
E desde o começo deu-se de ombros à gestação do monstro.
Acredito que seja impróprio precisar um roteiro do estabelecimento do fascismo na Alemanha, Itália, Japão, Portugal, Espanha, França, Holanda, Noruega e nos países do Leste Europeu, como a antiga Iugoslávia.
Não há um script único. No entanto, alguns elementos, algumas substâncias são universais.
Por exemplos, a criminalização da política e a desmoralização dos partidos. Todos os políticos não prestam, todos os partidos são organizações criminosas. Todos os políticos e todos os partidos são corruptos. Não se salva ninguém. Os legislativos não servem para nada, são abrigos de imunidades, de foro privilegiado, de corrupção, de mordomias e sinecuras, de desperdício de dinheiro. Se os legislativos fossem fechados, ninguém perderia nada, diziam e diz-se.
A par da depreciação da política, demoniza-se a Justiça, especialmente os tribunais superiores, através da militância de juízes singulares, de promotores e procuradores de Justiça, e de policiais.
Os casos alemães e italianos, notadamente, demonstram que, na área judiciária, a maior resistência ao avanço fascista foi promovida por alguns juízes de tribunais superiores. Daí todo esforço para inimizar a opinião pública contra esses tribunais.
Talvez por reunir juízes mais velhos, com notável saber, extremamente apegados aos preceitos legais, ciosos de sua independência e infensos às pressões políticas e ao autoritarismo, os tribunais superiores sempre sofreram impacto da escalada fascista.
Tanto na Itália como na Alemanha, proliferaram os juízes e procuradores “justiceiros”, os relhos de Deus, os chicotes da vindita.
Na área legal, outro alvo do fascismo em ascensão são os advogados, especialmente os advogados de presos políticos, de líderes oposicionistas. Esses advogados serão tratados como inimigos e estigmatizados.
Nesse roteiro da incubação do ovo fascista, temos também a satanização dos meios de comunicação e dos jornalistas, independentes ou de oposição, e que não sejam classificados como integrantes da “imprensa amiga”.
Afinal, tanto na Alemanha como na Itália e alhures, a mídia comercial, a dita “grande mídia” não resistiu à escalada do nazi-fascismo e mais das vezes, por omissão ou ação, emprestou calor para o choco do ovo.
Por fim, completando o quadro do arreganho fascista, com base na experiência histórica, vem o escracho da Igreja, a desconceituação e infamação de padres, pastores e instituições religiosas que ou se oponham à extrema direita ou que busquem desarmar os espíritos, pregando a moderação e a conciliação.
E isso já está acontecendo, tanto em relação à CNBB quanto ao Papa Francisco.
Alguns radicais de direita estabeleceram um monitoramento cerrado das atividades da Conferência dos Bispos. Dou exemplo: no dia cinco de abril, uma quinta-feira, a Comissão de Justiça e Paz da CNBB convidou senadores e deputados para um café da manhã, na sede da entidade, em Brasília.
Nem havíamos terminado a conversa sobre o Brasil, a crise econômica e política, o papel da Igreja e do Parlamento nisso tudo, quando já mancheteavam na internet: “Café comunista na CNBB”. E prometiam denúncias assombrosas, sensacionais sobre a infiltração esquerdista na Igreja brasileira e sobre a internacional católico-comunista comandada por Roma.
Além de “revelações aterrorizantes” sobre a parceria da CNBB com organizações criminosas.
A irrazoabilidade e a irracionalidade são características distintivas do fascismo. Mentir, distorcer, fantasiar, criar narrativas absolutamente desconectadas com a verdade dos fatos.
Assim, que ninguém se surpreenda caso mais adiante pipocarem operações policiais contra padres, bispos, pastores e leigos não alinhados.
Em relação ao Papa Francisco, acredito que os direitistas já tenham ultrapassado os limites do bom senso e até mesmo do ridículo. Dizem que nunca houve uma Papa tão “político” quanto Francisco.
Pergunto a esses néscios: e João Paulo II? Talvez apenas na Idade Média, quando os poderes espiritual e material de suas santidades se confundiam, tivemos atividades políticas mais intensas que a de Karol Wojtyla em reinado de 27 anos. O seu sucessor, Joseph Ratzinger, não ficou atrás. Um e outro foram papas de intensa, diária, obcecada atuação política.
Não os condeno, pelo contrário. O exercício do papado nunca deixou de ter a dimensão, digamos, terrena.
Mas o ataque a Francisco deve-se à sua oposição desassombrada à globalização financeira, ao reino de Mamon. Sem meias palavras, sem meias medidas, sem tibieza, Francisco mostra os malefícios da financeirização de nossas vidas, das vidas das nações.
Francisco não faz concessões à usura, aos mecanismos cruéis e obscenos que levam à prisão das pessoas e das nações ao endividamento, à especulação financeira, ao entesouramento sibarita.
Francisco não é anticapitalista, pois fala com frequência sobre os benefícios do capital produtivo, abençoando-o. Francisco é cristão, isto é, fraterno, solidário, humano.
Bergoglio retoma a tradição dos grandes Papas que fizeram o aggiornamento do pensamento da Igreja, posicionando-se sobre os grandes temas que galvanizam a humanidade em determinadas fases de sua existência.
Assim o fez Leão XIII, nas décadas finais do século XIX, com a “Rerum Novarum”, das coisas novas, posicionando a Igreja sobre os direitos dos trabalhadores na ascendente sociedade industrial. Tema reprisado quarenta anos depois por Pio XI, no aceso do conflito capital-trabalho. Assunto retomado por João XIII com a “Mater et Magistra” e Paulo VI com a “Populorum Progressio”, nos agitadíssimos dias da Guerra Fria e dos movimentos de libertação nacional, das revoluções que sacudiram o mundo nas décadas de 50 e 60.
Da mesma forma que Francisco, agora, Leão XIII, Pio XI, João XXIII e Paulo VI foram execrados, caluniados e anatematizados pelos conservadores, pelos donos do poder, do capital e da opinião publicada.
Assim, tendo em vista esse histórico da Igreja de viver o tempo que a humanidade vivencia, experimenta e sofre é que os fascistas buscam desmoralizá-la, combatê-la, desonrá-la. Tanto na Alemanha quanto na Itália, para ficar em dois exemplos, a Igreja Católica e as Igrejas Evangélicas históricas foram classificadas formalmente como inimigas do regime.
Senhoras e senhores senadores.
Os ataques que a Igreja vem sofrendo na rede mundial de computadores, quer em sua superfície aparentemente civilizada, quer em suas profundezas sórdidas, abjetas, haverá um dia de formar correntes de organizadas de opinião, movimentos organizados, com claras feições ultradireitistas, nazifascista.
Não estou aqui a defender a Igreja, padres, bispos, pastores, freiras e leigos crentes. Estou aqui a defender homens e mulheres que acham possível construir um mundo fraterno, solidário que se oponha à barbárie fascista e à barbárie da globalização financeira e imperial.
Falei, insisti, adverti sobre a face tosca e agressiva do fascismo em marcha em nosso país.
Mas há uma outra face, mais branda, dita branda, sobre a qual nos adverte José Saramago:
“Os fascistas do futuro não vão ter aquele estereotipo de Hitler ou Mussolini. Não vão ter aquele jeito de militar durão. Vão ser homens falando tudo aquilo quer a maioria quer ouvir. Sobre bondade, família, bons costumes, religião e ética.
Nessa hora vai surgir o novo demônio, e tão poucos vão perceber a história se repetindo”.
[1] Roberto Requião é senador da República, no segundo mandato. Foi governador do Paraná por três mandatos, prefeito de Curitiba, secretário de estado, deputado estadual, professor universitário, oficial do exército brasileiro, advogado trabalhista, agricultor e industrial. É graduado em direito e jornalismo com pós graduação em urbanismo e comunicação.

domingo, 8 de abril de 2018

Nunca mais, Moro, nunca mais... Artigo de Tarso Genro publicado no Sul 21


"Sustentado como herói pelo oligopólio da mídia, que instaurou um processo paralelo contra Lula, transformando o devido processo legal num duplo espetáculo – de condenação prévia e de imposição do espírito de manada às “classes altas” – o Juiz Moro promoveu um padrão novo para as instâncias de Justiça Penal no Brasil: fez da propaganda da necessidade de uma decisão final condenatória – mesmo sem provas – o sentido jurídico da condenação, o trunfo básico para a instauração do “Horror”. " - Tarso Genro



Juiz Sérgio Moro . (Foto: Reprodução/Ustream/Wilson Center)

Tarso Genro (*)
Fonte: Sul 21
Daquelas sílabas fatais
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: Nunca mais!
É uma parte do lúgubre e triste poema de Poe, “O Corvo”, com a fala soturna da desgraça, que arremessou o poeta para dor sem fim da perda. A perda, na “casa onde o Horror, o Horror profundo\ Tem seus ares triunfais.” É um poema do amor negado pela frieza da morte, mas que – como trata do triunfo da dor sobre a vida – também alerta para o fim de tudo que as frustrações da política podem alcançar. Lembra, com outras consequências, Moro advertindo Lula, em nome do Poder Judiciário em pleno processo de “exceção”, dizendo a ele – no Horror da democracia decadente – que tudo terminou: “Nunca mais, Lula, nunca mais!”.
Sustentado como herói pelo oligopólio da mídia, que instaurou um processo paralelo contra Lula, transformando o devido processo legal num duplo espetáculo – de condenação prévia e de imposição do espírito de manada às “classes altas” – o Juiz Moro promoveu um padrão novo para as instâncias de Justiça Penal no Brasil: fez da propaganda da necessidade de uma decisão final condenatória – mesmo sem provas – o sentido jurídico da condenação, o trunfo básico para a instauração do “Horror”. Para informar ao final, para Lula, que “Nunca mais” ouse colocar os pobres, os trabalhadores, os deserdados do capital, na mesa da democracia. Lula, como todos nós, tem limites, grandezas e defeitos, mas como agora está contrastado com o corvo judicial do “Nunca mais!”, o que ressalta é a sua grandeza histórica e o seu compromisso com o povo trabalhador, do qual ele é originário.
Pautado pela mídia Moro fez da sua instância inferior um “bunker”, que enquadrou, na sua visão de mundo e do Direito, as instâncias superiores, inclusive a maioria do STF, definindo o Direito a partir das externalidades do processo, não dele mesmo, com suas provas colhidas regularmente. Para quem não entendeu isso é um exemplo cabal da “exceção”, que – se não atingiu ainda todos os poros do Estado – conseguiu o consenso de uma parte significativa do Poder Judiciário e a simpatia de uma parte da população de média e alta renda.
Eliminar Lula da política, informar-lhe que “Nunca mais”, é a glória que Moro fez brilhar na Casa dos Horrores que se tornou o Brasil, a partir das motivações da maioria dos votos do Congresso corrupto, que cassou o mandato de Dilma, e da sua jurisdição invertida. Hoje ele apresenta-a como passaporte para os inimigos da democracia, para os caudatários das políticas da CIA, para os algozes dos direitos sociais e para os mascates baratos do pré-sal, mas isso não vai se eternizar. Moro comandou o Brasil neste período junto com o oligopólio da mídia, mas cometeu um grave erro: pensou que Lula era um cordeiro anestesiado para o sacrifício, sem entender o que é ser um verdadeiro filho do povo, que pode ter alguns períodos de deslumbramento com as suas vitórias, mas que não perde a essência das suas origens.
Lula está indo para a História sem sair do seu presente, mas Moro será lembrado, quando restaurarmos a plenitude da democracia e da Constituição de 88, como um lamentável artifício do autoritarismo, como uma peça do golpismo pós-moderno, como um juiz que foi forte na sua jurisdição, mas agindo fora dela – epígono da exceção – que se preparou para um momento de glória, mas que encontrou – no fim daquele lúgubre corredor midiático da hipnose fascista – um povo digno que ainda vai lhe dizer: “Nunca mais!”.
(*) Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

A prisão do Gigante Lula desvela mesquinharia da farsa oligárquica



"Para não me estender muito, basta dizer que uma elucidativa forma de identificar o padrão de comportamento do conglomerado nacional/transnacional oligárquico/burguês do poder no Brasil, traduz-se na simples e corrente frase, em bom carioquês: "Vagabundo é ruim".
Bem, com isso quero dizer que é improvável a realização da eleição presidencial. De maneira mal disfarçadamente ditatorial, está sendo imposto à força e à Nação um projeto de perenização neocolonial rentista, que não possui qualquer condição de ser acolhido pela maioria da população, já que fere a sua inteligibilidade e os seus interesses cotidianos." - Roberto Bitencourt da Silva, historiador e cientista político
Lula, a improvável eleição ou o “vagabundo é ruim” das elites
por Roberto Bitencourt da Silva
Não me importo de ser chamado de “pessimista”, “teórico da conspiração” ou “analista depressivo”, como o fui por alguns leitores, e mesmo por amigos, no período da movimentação golpista que culminou na arbitrária destituição da presidente Dilma Rousseff. É a paga recebida por alguém sintonizado com o nacionalismo socialista brizolista.
Para não me estender muito, basta dizer que uma elucidativa forma de identificar o padrão de comportamento do conglomerado nacional/transnacional oligárquico/burguês do poder no Brasil, traduz-se na simples e corrente frase, em bom carioquês: "Vagabundo é ruim".
Bem, com isso quero dizer que é improvável a realização da eleição presidencial. De maneira mal disfarçadamente ditatorial, está sendo imposto à força e à Nação um projeto de perenização neocolonial rentista, que não possui qualquer condição de ser acolhido pela maioria da população, já que fere a sua inteligibilidade e os seus interesses cotidianos.
Como convencer ao grosso dos trabalhadores subalternos, oprimidos e marginalizados, além de frações da pequena burguesia, que a supressão de direitos trabalhistas, previdenciários, sociais (saúde e educação etc.) vai beneficiá-los, assim como ao país?
Como justificar a entrega, por exemplo, da Petrobras ao capital internacional, de forma tão despudorada e lesa-pátria, como se tem feito? Uma empresa que opera com uma riqueza nacional, uma dádiva com prazo de esgotamento, que poderia perfeitamente ser utilizada para o desenvolvimento autóctone de outras tecnologias e matrizes energéticas e beneficiar, com isso e/ou com a redução do preço interno do combustível, a própria Nação?
O projeto neocolonial rentista em curso está além das fronteiras das próprias e modestas instituições da democracia representativa e, particularmente, do voto direto para a Presidência da República.
Por mais que o movimento de solidariedade a Lula, nestes dias, em São Bernardo, no país e no mundo, esteja sendo marcante e venha demonstrando a força do ex-presidente da República, sou da opinião de que Lula não deveria depositar qualquer expectativa nas instituições domésticas. Precisa(ria) buscar asilo político.
Lula é um líder político reconhecido e com estatura internacional. A sua prisão é política – arbitrária, destituída de fundamentação e provas – e um risco à sua dignidade e integridade física. Precisa(ria), de fora, denunciar todas as barbaridades cometidas no país. Constrangeria bastante o condomínio do poder, podendo melhor contribuir com eventual mudança no Brasil.
Mas, o ex-presidente tem mais de 70 anos, com trajetória política muito expressiva, pouco importando o que eu e tantos pensamos a seu respeito e sobre suas decisões – em especial, em uma situação como essa, em que é a sua dignidade e integridade física que está em jogo.
Em todo caso, foi mais uma enorme demonstração de força política do ex-presidente. Com isso, fica patente que, Lula preso, exilado, morto, pouco importa, uma indicação eleitoral sua ou por ele e qualquer candidato teria gigantesco potencial de vitória. Getúlio Vargas já fez isso em seu “autoexílio” e foi o suficiente. Prestígio popular é moeda política decisiva e o poder sabe muito bem disso.
O projeto neocolonial rentista, duramente implementado, está bastante além do compromisso desigual entre as classes, simbolizado por Lula. E está sendo imposto, praticamente sem barreiras. Nesse sentido, cabe, no momento, às centrais sindicais fazerem o que ainda não fizeram, por apostarem no eleitoralismo: coordenar e mobilizar os trabalhadores.
Protestos com músicas, artistas e sem mexer no capital, somente para marcar posição, como foram os realizados contra a destituição da presidente Dilma, em nada afetam e afetarão a espúria e ilegítima ordem estabelecida. Deixar o governo vende-pátria e seus aliados quebrarem o país e desgastarem suas imagens, como se tem feito, na esperança de que isso criará condições eleitorais favoráveis à oposição, é tese inócua e já tragada pelos fatos. 
Até generais se manifestam abertamente em apoio ao estado de coisas prevalecente. É necessário incidir sobre os interesses do capital. Articular mobilizações que redundem em greves gerais, com plataforma projetiva clara, envolvendo questões distributivas, direitos sociais, individuais e políticos, articuladas com questões e propostas relativas aos interesses nacionais. Um meio de politização da nossa gente e de formação de uma vontade popular-nacional, com caráter construtivo e não apenas reativo à lastimável situação delineada pelas oligarquias/burguesias entreguistas e reacionárias.
Resistência democrática, descarnada, sem envolver as questões social e nacional, não vai sequer arranhar o arranjo de poder atual. Como não tem arranhado. “Vagabundo é ruim”. E a postergação e a suspensão das eleições já devem estar sendo consideradas em seus cálculos. A questão não é que essas direitas antinacionais não tenham um nome. Têm muitos. O projeto que defendem é que não passa pelo crivo eleitoral. De modo que as respostas das esquerdas, dos setores progressistas, dos movimentos sociais e, em especial, sindicais, não podem se restringir a métodos e opções incompatíveis com o nosso tempo.
Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Noam Chomsly sobre o "fascismo suave" proposto por Washington. Artigo de Franklin Frederick publicado no The Dawn News



Para Chomsky, golpes que derrubaram governos incômodos na América Latina revelam vertente disfarçada do ataque à democracia. Agora, rejeita-se, em especial, o nacionalismo


A política de Estado dos EUA sob Obama e Trump difere pouco: impor o neoliberalismo como norma

Por Franklin Frederick, no The Dawn News | Tradução: GGN
“Os crimes cometidos pelos Estados Unidos em todo o mundo têm sido sistemáticos, constantes, implacáveis e muito bem documentados, mas ninguém fala sobre eles.” – Harold Pinter
Tendências fascistas estão de volta à luz do dia na América Latina. Podem ser claramente vistas na criminosa oposição venezuelana e também nas ruas no Brasil e na Argentina. Tais tendências têm sua origem no fato de que a desigualdade econômica e a igualdade política são incompatíveis. Mas o fascismo latino-americano também é expressão de uma agenda política e econômica mais profunda que deve ser bem compreendida se queremos combatê-la com sucesso.
Em 1979, Noam Chomsky e Edward S. Herman publicaram um dos livros mais importantes sobre o fascismo latino-americano: The Washington Connection and the Third World Fascism, onde escreveram:
(…) O velho mundo colonial foi destruído durante a Segunda Guerra Mundial, gerando ondas de nacionalismo radical que ameaçaram a tradicional hegemonia ocidental e seus interesses econômicos. Para conter esta ameaça, os Estados Unidos se alinharam com elementos da elite e das forças armadas do Terceiro Mundo cuja função tem sido a de conter os ventos de mudança. (…) Com o apoio frequente dos Estados Unidos, o Estado de Segurança Nacional neofascista (National Security State) e outras formas autoritárias  tornaram-se o padrão dominante dos governos no Terceiro Mundo.
(…) a massiva intervenção e subversão (dos EUA) nos últimos 25 anos se limitaram quase exclusivamente à derrubada de governos reformistas e democracias radicais… (Os EUA) raramente ‘desestabilizaram’ regimes militares de direita, não importa o quão corruptos ou terroristas. (…) A ‘junta militar’ foi considerada como um bom modelo de governo e os Estados Unidos fizeram com que este modelo crescesse e se difundisse. Tortura, esquadrões da morte e liberdade para investimentos são elementos relacionados neste modelo patrocinado e apoiado pelo país líder do Mundo Livre. Nestes Estados, o terror é funcional, favorecendo um bom ‘clima para investimentos’(…) Assim, se olharmos para além da barreira midiática e de propaganda, Washington se converteu na capital mundial da tortura e do assassinato político. (Grifo dos autores)
Essas palavras sobre os EUA são tão atuais hoje como o eram em 1979, porém com uma importante diferença: atualmente, além da pura violência, os EUA também passaram a utilizar formas mais sutis, ‘suaves’, de desestabilização política, como nos golpes em Honduras em 2009, no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016. Em todos estes casos não houve intervenção militar, pois o golpe foi dado através do Parlamento ou do Poder Judiciário do país, sempre com o respaldo de Washington. Esta diferença é crucial porque estes ‘golpes suaves’ são muito mais fáceis de legitimar e por isso serão a opção preferencial dos EUA sempre que possível. O objetivo, contudo, permanece o mesmo: ‘melhorar o clima para investimentos’ para os interesses dos EUA e os de seus aliados. Esta é a razão porque Chomsky e Herman chamam o fascismo latino-americano de ‘sub-fascismo’, ou ‘fascismo clientelista’ (client fascism). Ao contrário do modelo clássico, nacionalista, do fascismo dos anos 20 e 30 na Europa do século XX, o fascismo latino-americano é profundamente anti-nacionalista. Chomsky e Herman o descrevem assim:
A economia do ‘sub-fascismo’ implica uma rápida mudança em direção a uma ampla abertura ao comércio e investimentos estrangeiros, à austeridade monetária e aos cortes no orçamento de programas sociais, ou seja, uma mudança conforme as políticas econômicas promovidas pelos interesses do poder dominante e de seus sócios institucionais como o FMI e o Banco Mundial. A prioridade passa a ser o serviço da dívida externa, através do aumento das exportações e da redução das importações, com a maioria da população arcando com os custos através da redução de salários e do agravamento do desemprego.
Na verdade, o projeto sub-fascista latino-americano representa um retorno ao status de colônia, mantendo as mesmas velhas oligarquias no poder. Como estas oligarquias obviamente não contam com nenhum apoio da maioria da população em seus próprios países, todas são profundamente antidemocráticas. Com o intuito de preservar seu próprio poder e riqueza, elas escolheram representar e defender os interesses econômicos estrangeiros – o ‘mercado’ – cujo objetivo é manter os países latino-americanos como produtores subdesenvolvidos de matérias primas para as companhias transnacionais e instituições financeiras sediadas nos países do norte. Em troca, estes interesses protegem e mantém estas oligarquias no poder. Como concluem Chomsky e Herman : “(…) sob o fascismo clientelista as bases de apoio da liderança política passam a ser os interesses estrangeiros”.
Entretanto, o sub-fascismo ou fascismo clientelista latino-americano adquiriu atualmente uma nova face, criada para corresponder aos golpes de estado ‘suaves’, uma face mais ‘amistosa’.
Friendly fascism (Fascismo amistoso) é justamente o título de uma obra fundamental de Bertram Gross sobre o fascismo moderno publicada em 1980. Bertram Gross, Professor de Ciência Política e Secretário Executivo do ‘Council of Economic Advisers’ da Presidência dos EUA de 1946 até 1952, estava principalmente preocupado com a ascensão do ‘fascismo amistoso’ nos EUA – a ‘Nova Face do Poder na América’, como ele escreveu na época.  Mas o que ele vislumbrou nos seus inícios há 38 anos atrás quando o seu livro foi publicado, é hoje realidade na maior parte do mundo, incluindo a América Latina:
Fascismo amistoso retrata duas tendências em conflito nos Estados Unidos e em outros países do chamado ‘mundo livre’. A primeira tendência é um avanço lento e poderoso em direção a uma maior concentração de riqueza e poder numa parceria do Grande Negócio com o Grande Governo (Big Business – Big Government partnership). Esta tendência conduz a uma forma de manipulação nova e sutil de servidão corporativa. A expressão ‘fascismo amistoso’ ajuda a distinguir este futuro possível do corporativismo obviamente brutal do fascismo clássico do passado na Alemanha, na Itália e no Japão. Esta expressão serve também para contrastar com o fascismo dependente e ‘hostil’ apoiado pelo Governo dos EUA atualmente (1980) em El Salvador, Haiti, Argentina, Chile (…).”
“A outra é a tendência, mais lenta e menos poderosa, de indivíduos e grupos buscarem cada vez mais participação nas decisões que os afetem. Esta tendência vai além de uma mera reação ao autoritarismo. (…) Ela se alimenta das promessas do ‘establishment’ –que com muita frequência são falsas– de mais direitos humanos, mais direitos e liberdades civis. Se encarna em valores maiores como comunidade, participação, cooperação, ajuda aos outros, decência (…). Afeta relações dentro da família, do trabalho, da comunidade, da escola, da Igreja ou Sinagoga, e chega mesmo a afetar os labirintos das burocracias públicas e privadas. Esta tendência pode levar a uma democracia mais verdadeira – e por esta razão é duramente combatida…
O “avanço lento e poderoso em direção a uma maior concentração de riqueza” alcançou atualmente níveis sem precedentes. De acordo com relatório da OXFAM, oito indivíduos possuem a mesma riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Tais concentrações de riqueza criam uma correspondente concentração de poder político nas mãos dos que mais se beneficiam desta: as corporações internacionais e o setor financeiro. Estes, por sua vez, assim podem impor à quase totalidade do mundo a ‘servidão corporativa’ sobre a qual Bertram Gross alertou.
A segunda tendência identificada por Gross – grupos e indivíduos buscando maior participação nas questões públicas – tem sido sempre muito presente na América Latina e foi a força maior por trás das eleições dos governos progressistas de Lula no Brasil e Evo Morales na Bolívia a Rafael Correa no Equador e Hugo Chavez na Venezuela. Enfrentando desafios muito difíceis e em condições sociais e econômicas bem diversas, estes governos progressistas tentaram construir uma democracia mais verdadeira, promovendo maior participação social e uma melhor distribuição de renda. E por esta razão foram todos “duramente” combatidos pelos EUA e pelo “establishment” internacional. O país latino-americano onde, hoje, esta luta se dá com violência crescente é a Venezuela.
Àqueles relutantes em encarar a realidade e usar a palavra ‘fascismo’ onde ela cabe, Bertram Gross escreveu:
Ao olhar para a América de hoje (1980), eu não tenho medo de dizer que tenho medo. (…) Qualquer um que esteja esperando por Partidos de massa ou homens a cavalo não vai perceber os sinais de um fascismo insidioso. Em qualquer país de capitalismo avançado do Primeiro Mundo, o novo fascismo será constituído por elementos da herança nacional e cultural, de sua composição étnica e religiosa, de sua estrutura política formal e seu ambiente geopolítico. (…)  Será fascismo com um sorriso. Como um alerta contra a sua fachada cosmética, manipulação sutil e luvas de veludo, eu o chamo de ‘fascismo amistoso’. O que mais me assusta é a sua sutil atração.
Fico preocupado com aqueles que se esqueceram – ou nunca aprenderam – que a parceria Grande Negócio – Grande Governo, respaldada por outros elementos, foi o fato central por trás das estruturas de poder do fascismo nos tempos de Mussolini, Hitler e dos construtores de império japoneses. (…) Me preocupam aqueles que polemizam sobre as palavras. (…) que usam os termos inventados pelos ideólogos fascistas, como ‘estado corporativo’, mas não fascismo. (…) Igualmente importante é o alcance global da emergente parceria Grande Negócio – Grande Governo. Este alcance esta ancorado em colossais corporações e complexos transnacionais que ajudam a manter unido um ‘Mundo Livre’ no qual o sol nunca se põe. Estes são os elementos de um novo despotismo.
Este novo despotismo, o fascismo ‘amistoso’ que Bertram Gross observou e denunciou em seus começos, é atualmente chamado por um outro nome, um com melhor reputação: neoliberalismo. A dinâmica ‘fascismo amistoso / fascismo hostil’ (friendly and unfriendly fascism) é fruto das políticas neoliberais. As corporações e o setor financeiro internacionais, na sua incessante busca por mais lucro e poder, vão tentar permanentemente impor ao mundo o fascismo ‘amistoso’ quando possível e o fascismo ‘hostil’ sempre que necessário para atingir os seus fins. Desta forma, o espectro político se reduz a uma escolha entre um e outro. O neoliberalismo e o fascismo ‘amistoso’ são um só. O fascismo ‘hostil’ sendo apenas a face mais sombria do neoliberalismo quando este tem que utilizar meios menos ‘amistosos’ para se impor.
Uma comparação entre o golpe de estado no Brasil e a situação na Venezuela ( antes da eleição da Assembléia Constituinte) ajuda a compreender melhor a dinâmica fascismo ‘amistoso’/‘hostil’.
No Brasil, em muitas das demonstrações de rua contra a Presidente Dilma Roussef, os fascistas mostravam sua tradicional face “hostil”: violentos, racistas, homofóbicos. Foi a relativamente rápida instalação e resultado do processo de impeachment, levando à queda da Presidente Dilma Roussef, que impediram que a violência nas ruas atingisse os mesmos níveis que vimos na Venezuela. Com o fim do governo de Dilma Roussef, a violência das ruas já tinha atingido o seu objetivo e não era mais necessária. O fascismo “amistoso” do governo de Michel Temer – tão melhor para dar legitimidade ao golpe – pôde assumir o poder e iniciar o processo de destruição das conquistas e das políticas do governo anterior do PT: privatização de bens públicos, abertura das reservas de petróleo e outros recursos naturais do país para a exploração internacional – o que sempre foi a razão real por trás do golpe.
A Venezuela é um dos países mais ricos do mundo, não só em petróleo, mas em gás e outros recursos naturais. Hugo Chavez e a Revolução Bolivariana se comprometeram a usar estas riquezas para o desenvolvimento da própria Venezuela, em benefício de sua própria população, não para a ganância de algumas companhias transnacionais, o que é o maior crime que se pode cometer contra a ordem neoliberal. O fracassado golpe de estado respaldado por Washington em 2002 mostrou que desestabilizar a Venezuela não é uma tarefa fácil. A segunda tendência apontada por Bertram Gross é demasiado forte na Venezuela para permitir um golpe ‘suave’. O fascismo ‘amistoso’ na Venezuela não é uma opção, pelo menos por agora: as conquistas sociais e as políticas da Revolução Bolivariana já estão muito enraizadas na sociedade Venezuelana, elas são o resultado concreto do comprometimento e da luta política desta mesma sociedade, que irá lutar até o fim para defendê-las.
O “establishment” neoliberal na Venezuela, tão ansioso por recuperar o controle sobre as riquezas naturais do país, decidiu apoiar o fascismo ‘hostil’. Há uma grande parcela da oposição Venezuelana que parece seguir obedientemente o conselho de Hitler em “Mein Kampf”: “O emprego regular e constante da violência é essencial para o sucesso”. A grande imprensa internacional, sempre servil ao poder estabelecido, aplaude esta decisão.
A dinâmica fascismo “amistoso/hostil” pode ser resumida desta maneira: quanto maior a participação popular no Governo de um país, quanto mais forte e sólida sua democracia e sua determinação em utilizar seus recursos para o seu próprio desenvolvimento; então maior será a necessidade do uso do fascismo “hostil” para combater estas tendências. No mundo Orwelliano em que vivemos, sob a ‘servidão corporativa’, atacar a democracia é chamado “defender a democracia”. A velha mídia aplaude.