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terça-feira, 9 de junho de 2026

PRETO NO BRANCO: RECIBOS DE R$ 61 MILHÕES DE VORCAR PARA O FILME DE BOLSONARO | Cortes 247

 

 

Do Canal 247:

Documentos revelados pelo Intercept Brasil apontam que o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, participou de uma operação financeira para enviar recursos aos Estados Unidos destinados ao financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). O nome "Vaza Flávio" é referente às negociações feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o ex-banqueiro.



terça-feira, 6 de julho de 2021

The Intercept: rachadinha de Flávio Bolsonaro financiou prédios ilegais da milícia no Rio, mostra investigação do MP

 

 O investimento para as edificações levantadas por três construtoras foi feito com dinheiro de “rachadinha”, coletado no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, como afirmam promotores e investigadores. 


The Intercept Brasil:


Nem só de chocolate é feito o patrimônio do filho 01. Na imagem, o senador Flávio Bolsonaro participa da posse do novo ministro da Saúde Nelson Teich, em 17 de abril de 2020. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress



Reportagem de 

O inquérito do Ministério Público do Rio, que apura fatos de organização criminosa, lavagem de dinheiro e peculato (desvio de dinheiro público) pelo filho de Bolsonaro segue em sigilo. O Intercept teve acesso à íntegra da investigação. Os investigadores dizem que chegaram à conclusão com o cruzamento de informações bancárias de 86 pessoas suspeitas de envolvimento no esquema ilegal, que serviu para irrigar o ramo imobiliário da milícia. Os dados mostrariam que o hoje senador receberia o lucro do investimento dos prédios, de acordo com os investigadores, através de repasses feitos pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega – executado em fevereiro – e pelo ex-assessor Fabrício Queiroz.

Trecho da denúncia do Ministério Público que tornou o capitão Adriano Magalhães da Nóbrega foragido da justiça. Essa denúncia serviu de base para o inquérito das rachadinhas

O esquema funcionaria assim:

• Flávio pagava os salários de seus funcionários com a verba do seu gabinete na Alerj.

• A partir daí, Queiroz – apontado no inquérito como articulador do esquema de rachadinhas – confiscava em média 40% dos vencimentos dos servidores e repassava parte do dinheiro ao ex-capitão do Bope, Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, uma milícia especializada em assassinatos por encomenda.

• A organização criminosa também atua nas cobranças de “taxas de segurança”, ágio na venda de botijões de gás, garrafões de água, exploração de sinal clandestino de TV, grilagem de terras e na construção civil em Rio das Pedras e Muzema.

• As duas favelas, onde vivem mais de 80 mil pessoas, ficam em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, e assistiram a um boom de construções de prédios irregulares nos últimos anos. Em abril do ano passado, dois desses prédios ligados a outras milícias desabaram, deixando 24 mortos e dez feridos.

• O lucro com a construção e venda dos prédios seria dividido, também, com Flávio Bolsonaro, segundo as investigações, por ser o financiador do esquema usando dinheiro público.

Condecorado por Flávio Bolsonaro com a Medalha Tiradentes, principal honraria do Rio, o ex-caveira Adriano da Nóbrega foi morto a tiros em fevereiro em um controverso cerco policial no interior da Bahia com indícios de queima de arquivo. Foragido da justiça, o ex-capitão estava escondido no sítio de um vereador bolsonarista. Os diversos celulares do miliciano ainda aguardam por perícia.

As investigações do MP revelaram que os repasses da rachadinha chegavam às mãos do capitão Adriano por meio de contas usadas por sua mãe, Raimunda Veras Magalhães, e sua esposa, Danielle da Costa Nóbrega. As duas ocupavam cargos comissionados no gabinete do deputado na Alerj entre 2016 e 2017. Ambas nomeadas por Queiroz, amigo do ex-capitão dos tempos de 18º batalhão da Polícia Militar, Jacarepaguá.

Segundo o MP, a mãe e a mulher de Adriano movimentaram ao menos R$ 1,1 milhão no período analisado pela investigação, amealhado com o esquema de rachadinha por meio de contas bancárias e repasses em dinheiro a empresas, dentre as quais dois restaurantes, uma loja de material de construção e três pequenas construtoras.

Com sede em Rio das Pedras, as construtoras São Felipe Construção Civil Eireli, São Jorge Construção Civil Eireli e ConstruRioMZ foram registradas, segundo o MP, em nome de “laranjas” do Escritório do Crime. O dinheiro então chegava aos canteiros de obras ilegais por meio de repasses feitos pelo ex-capitão aos laranjas das empresas.

Trecho de interceptação detalha registro da construtora em nome de laranja.

O papel de “investidor” nas construções da milícia ajudaria a explicar a evolução patrimonial de Flávio Bolsonaro, que teve um salto entre os anos de 2015 e 2017 com a aquisição de dois apartamentos: um no bairro de Laranjeiras e outro em Copacabana, ambos na zona sul do Rio. Os investimentos também permitiram a compra de participação societária numa franquia da loja de chocolates Kopenhagen.

Flávio entrou na vida política em 2002, com apenas um carro Gol 1.0, declarado por R$ 25,5 mil. Na última declaração de bens, de 2018, o senador disse ter R$ 1,74 milhão. A elevação patrimonial coincide com o período em que a mãe e a mulher do ex-capitão estavam nomeadas em seu gabinete.

O papel de Adriano

A ligação do ex-capitão com as pequenas empreiteiras envolvidas no boom da verticalização em Rio das Pedras e Muzema foi levantada em meio à investigação sobre as execuções da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, na noite de 14 de março de 2018. Foi a partir das quebras de sigilos telefônicos e telemáticos dos integrantes do Escritório do Crime que os promotores descobriram que o grupo paramilitar havia evoluído da grilagem de terras à construção civil, erguendo prédios irregulares na região e, assim, multiplicando seus lucros.

Adriano da Nóbrega e dois outros oficiais da PM integrantes do grupo – o tenente reformado, Maurício da Silva Costa, e o major Ronald Paulo Alves Pereira – usaram, segundo os promotores, nomes de moradores de Rio das Pedras para registrar as construtoras na junta comercial do Rio de Janeiro. A estratégia de usar “laranjas”, segundo o MP, foi adotada para tentar dar legitimidade às atividades do Escritório do Crime na construção civil.

A descoberta foi usada pelos promotores como base para a abertura do inquérito que resultou na Operação Intocáveis – nome escolhido numa referência às patentes de oficiais da Polícia Militar ostentadas pelos chefes da organização criminosa. A ação contra a milícia foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP, o Gaeco, e desencadeada, em janeiro de 2019, como forma de fechar o cerco à milícia suspeita de arregimentar os assassinos da vereadora do PSOL. Na ocasião, o ex-capitão Adriano e outros 12 suspeitos tiveram as prisões decretadas.

Trecho da denúncia cita a milícia de Adriano, construções e empresas em nome de laranjas.

Dados do inquérito a que tive acesso comprovam que Adriano, Costa e Pereira eram os “donos ocultos” das construtoras ConstruRioMZ, São Felipe Construção Civil e São Jorge Construção Civil. As três empresas foram registradas na junta comercial no segundo semestre de 2018, respectivamente, em nome Isamar Moura, Benedito Aurélio Carvalho e Gerardo Mascarenhas, conhecido como Pirata. Os três “laranjas” foram presos na operação policial, juntamente com os oficiais da PM Costa e Pereira.

Numa das interceptações, o miliciano Manoel de Brito Batista, que atuava como uma espécie de gerente das obras, alerta em tom ameaçador a um interlocutor que o questiona sobre um prédio recém erguido na favela Rio das Pedras: “Eu tenho oito apartamentos naquele prédio, o resto é tudo do Adriano e do Maurício. Entendeu? Você procura eles e fala com eles, entendeu? Não adianta ficar me mandando mensagem”. Batista também foi preso na Operação Intocáveis.

Manoel era o síndico dos negócios no ramo imobiliário.

Na denúncia do MP, Batista é citado como responsável pela supervisão dos canteiros de obras e pela negociação de imóveis. Numa das escutas telefônicas, ele oferece um andar inteiro num prédio recém erguido por 60 parcelas de R$ 4 mil. Valor previamente acertado com o ex-capitão Adriano, ora tratado por “Gordinho”, ora por “Patrãozão”, apelidos captados nas investigações da rachadinha e das execuções de Marielle e Anderson.

Trecho de conversa entre Manoel e Adriano.

Era Adriano que definia preços, condições de pagamentos e, em muitos dos casos, fazia a cobrança dos valores diretamente aos compradores e inquilinos. Não há na investigação uma estimativa dos lucros obtidos pela milícia no ramo imobiliário, mas o preço médio dos apartamentos, com dois quartos, sala, banheiro e cozinha nas duas favelas gira em torno de R$ 100 mil.

Planilhas apreendidas durante a operação policial num imóvel usado como sede do Escritório do Crime, o Moradas do Itanhangá, indicavam retiradas semanais feitas pelo ex-capitão e também pelo tenente reformado Maurício e pelo o major Ronald, também amigo de Flávio Bolsonaro. Além de ser o responsável pela contabilidade do grupo, Ronald também foi homenageado por Flávio Bolsonaro com uma menção honrosa em 2004. Em várias conversas gravadas pelo MP, o major aparece combinando de se encontrar com Batista para “bater” as contas no fim da semana.

Major Ronald mantinha planilhas contábeis, com repasses de dinheiro para Adriano, plantas de prédios e outros documentos relacionados às construções ilegais.

‘O MP está preparando uma pica do tamanho de um cometa para empurrar na gente’

A frase de Queiroz foi dita em áudios de Whatsapp divulgados pelos jornais O Globo e Folha de S.Paulo em outubro. Desde então, muito se especulou a que ele se referia. Investigadores ouvidos pela reportagem acreditam que Queiroz sabia que o inquérito tinha identificado o uso do dinheiro desviado no esquema de rachadinha para financiar o boom de construções ilegais na Muzema e em Rio das Pedras, comunidade onde Fabrício Queiroz se refugiou em dezembro de 2018, como revelam as quebras de sigilos telefônicos e telemáticos.

Na opinião de envolvidos na investigação da rachadinha, a conclusão do cruzamento de dados financeiros dos 86 citados no inquérito, dentre eles o atual senador Flávio Bolsonaro, vai ser capaz de comprovar os crimes, entre eles lavagem de dinheiro. E, assim, explicar a suspeita evolução patrimonial do primeiro-filho e, sobretudo, justificar a movimentação do senador para tentar a todo custo paralisar o trabalho dos promotores.

Item 29 revela que o crime de lavagem de dinheiro está sendo apurado em procedimento específico no inquérito da rachadinha do então deputado Flávio Bolsonaro.

Antes da publicação da reportagem, o Ministério Público foi consultado formalmente sobre as investigações relacionadas ao uso de parte dos recursos obtidos com o esquema de rachadinha no gabinete do ex-deputado no financiamento de construções da milícia. Por e-mail, a assessoria de imprensa do órgão confirmou a existência dos procedimentos investigatórios que serviram de base para a reportagem. Disse o MPRJ: “após consulta junto às coordenações dos grupos com atribuição nas investigações”, foi informado que os procedimentos encontram-se com sigilo decretado, razão pela qual as questões enviadas pela reportagem não poderiam ser elucidadas.

Resposta do MP por e-mail aos questionamentos da reportagem confirmando a existência da investigação.

Nas redes sociais e nas poucas entrevistas em que falou sobre o esquema de rachadinha, Flávio Bolsonaro afirma ser vítima de perseguição da imprensa e critica o vazamento de informações do processo, que está sob segredo de justiça. O político também afirma não ter conhecimento sobre o fracionamento de salários de seus funcionários. Procurado pelo Intercept, o senador não se manifestou.

O filho 01 chegou a atribuir a responsabilidade das supostas irregularidades a Queiroz, que teve identificados 438 transferências e depósitos em suas contas, totalizando cerca de R$ 7 milhões entre os anos de 2014 e 2017.

Queiroz também fez depósitos regulares de cheques e em dinheiro em contas do primeiro-filho e da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que numa das operações recebeu R$ 24 mil. Na ocasião, o presidente disse que o valor era parte de um empréstimo de R$ 40 mil que teria feito ao ex-assessor parlamentar e amigo. Para os investigadores, apenas a conclusão do inquérito permitirá o esclarecimento do fluxo de dinheiro, mas a decisão sobre o prosseguimento da investigação depende dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio, que suspenderam os julgamentos devido à pandemia de coronavírus.

Desde o início da investigação, em outubro de 2018, o trabalho dos promotores foi suspenso três vezes, atendendo à defesa de Flávio Bolsonaro. Ao todo, os advogados impetraram nove pedidos no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal de Justiça do Rio, alegando que as quebras de sigilo bancário e fiscal do então deputado estadual não poderiam ter sido concedidas por um juiz de primeira instância. Medo de que alguém descobrisse que nem só de chocolate é feito o milionário patrimônio do senador que entrou na vida política em 2002 com um Gol 1.0 e um sobrenome influente.

 

Atualização: 25 de abril, 16h50

O texto foi atualizado para que fosse acrescentado um print com o retorno formal do Ministério Público do Rio à reportagem, confirmando a existência da investigação contra o ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Juan Arias, no El País: Sérgio Moro entre o ser ou não ser de Shakespeare e/ou o cavaleiro de triste figura...

 



Do El País:

Por mais que tenha tentado explicar que agora deverá trabalhar para que as empresas não se corrompam, a verdade é que tudo leva a crer que ele passou para o outro lado



14/10/2019SERVICIO ILUSTRADO (AUTOMÁTICO) / EUROPA PRESS

JUAN ARIAS

Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro do Governo de Jair Bolsonaro, é um personagem singular que, embora parco em suas palavras, sóbrio em seus gestos e duro em suas decisões, está fazendo barulho neste país e no exterior.

A última surpresa depois de ter deixado o cargo de ministro da Justiça foi seu contrato com a empresa de consultoria Alvarez & Marsal, que tem entre seus clientes duas grandes empresas brasileiras, Odebrecht e Queiroz Galvão. Como Moro ficou conhecido dentro e fora do Brasil por ter colocado grandes empresários brasileiros na cadeia, seu gesto de agora lembra a fábula da raposa no galinheiro. Por mais que tenha tentado explicar que agora deverá trabalhar para que as empresas não se corrompam, a verdade é que tudo leva a crer que ele passou para o outro lado, com seu contrato de consultoria para grandes empresas privadas.

Moro foi um simples juiz de primeira instância que ganhou fama mundial por suas sentenças que, pela primeira vez no Brasil, levaram à prisão grandes empresários e políticos de destaque, começando pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o mítico líder de esquerda.

Sua decisão inicial de integrar o Governo de extrema direita já foi uma estrondosa indicação de seus possíveis planos de entrar na política. E, mesmo quando saiu do Governo criticando o presidente Bolsonaro, poucos duvidaram que voltaria a entrar na política pela porta das urnas e de seus desejos nunca confessados de querer disputar a presidência da República em 2022. Agora, volta a surpreender com sua passagem para a iniciativa privada, retomando a advocacia. Será que, neste caso, terá que defender empresários corruptos? A Ordem dos Advogados do Brasil-São Paulo notificou o ex-magistrado para que não atue como advogado, a própria empresa diz que não presta serviços jurídicos. Ainda assim, uma sombra permanece.

O ex-juiz de primeira instância mais famoso dentro e fora do Brasil, tanto exaltado quanto odiado pela opinião pública, ainda não deu um motivo convincente para sua conversão à política. Alega apenas ter acreditado que, no importante cargo de ministro da Justiça, poderia dar um impulso ainda maior à sua cruzada contra a corrupção, embora a verdade seja que sua aliança com um personagem tão medíocre como Jair Bolsonaro nunca ficou clara. Sempre vestido de preto e de gravata escura, Moro parece uma esfinge difícil de decifrar, talvez depositário, ainda, de segredos que só ele conhece.

Parco em suas entrevistas, para desespero dos jornalistas que não conseguem decifrar se pensa ou não em entrar na política, ele volta agora a surpreender. Desgastado por uma série de críticas a certos comportamentos seus ao proferir sentenças e por chegar a encarcerar um mito como Lula, impedindo o ex-presidente de voltar a se candidatar, Moro, apesar dos rumores de que seu feitiço está se apagando, continua sendo um enigma. E se o contrato com a importante empresa de consultoria fosse outro golpe para ganhar a simpatia dessas empresas, que poderiam apoiá-lo em seu desejo de entrar na política pelo portão da presidência, enfrentando seu agora inimigo Bolsonaro?

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A publicação, agora, de um livro sobre ele escrito por sua esposa, a advogada Rosangela Wolff Moro, Os Dias Mais Intensos − Uma História Pessoal de Sergio Moro (Editora Planeta) voltaram a colocar o personagem na vitrine. Na divulgação da obra, Moro escreveu: “Nada seria possível se essa verdadeira ‘Dama de Ferro’ não estivesse ao meu lado, especialmente nos momentos mais difíceis”.

Agora fica claro que, por trás de suas decisões que desconcertaram a opinião pública, existe essa Dama de Ferro que talvez não seja alheia às suas decisões sempre desconcertantes.

Para interpretar o mistério de Moro, seria preciso colocá-lo entre o “ser ou não ser” de Hamlet, o da angústia existencial, e o Cavaleiro da Triste Figura, apelido que Sancho Pança deu a Dom Quixote. Como na famosa Hamlet de Shakespeare, Moro parece se debater em suas decisões e planos futuros: “Ser ou não ser, eis a questão. O que é mais nobre para a alma: suportar as flechas e pedradas da áspera fortuna ou armar-se contra um mar de adversidades e dar-lhes fim?”.

Com Hamlet, o famoso dramaturgo gravou para a posteridade o termo hamletiano, o da dúvida permanente entre ser ou não ser. E parte dessa angústia deve ser a que carrega neste momento o hamletiano Moro, que ainda não acabou de decifrar seus verdadeiros planos para o futuro. E isso porque acredito que se precipitaram aqueles que pensam que sua ida para a iniciativa privada como advogado tenha resolvido finalmente o enigma de sua verdadeira vocação.

E juntamente com a dúvida eterna entre ser ou não ser, entre entrar ou não na política, neste momento não sabemos se para Moro não é mais fácil “suportar as flechas e pedradas que a cada dia se acumulam a seus pés ou armar-se contra um mar de adversidades e dar-lhes fim”.

O perigo que Moro corre com seu enigma por decifrar e sua surpresa de cada dia é o de se transformar no Cavaleiro da Triste Figura de Dom Quixote que investia contra os moinhos de vento como se fossem gigantes perigosos, revelando sua decadência como cavaleiro andante.

O Brasil vive um momento atormentado de sua política depois de ter descoberto a mediocridade do presidente Jair Bolsonaro, que se revela cada dia mais incapaz de governar um país de mais de 200 milhões de habitantes com influência inegável na política do continente.

Boa parte da classe política que não faz parte da extrema direita golpista começa a se unir para tentar destronar em 2022 o pior chefe de Estado da história política moderna do Brasil, que está levando à criação da imagem mais negativa do país desde os tempos da ditadura, inventando conflitos fictícios com as maiores potências do planeta, como Estados Unidos e China, sem os quais a política econômica deste país já teria afundado.

O Brasil não está na encruzilhada entre o “ser ou não ser” de Shakespeare. Sabe muito bem que país quer ser e sonha ser para seus filhos libertados do obscurantismo —para o qual está sendo arrastado por um Governo que não governa e por um presidente que não só é incapaz de entender os valores da democracia moderna, como também deseja a volta ao tenebroso autoritarismo ditatorial o que castra o melhor da alma deste país.

Neste ambiente de convulsão política, moral e econômica que já ultrapassou 14 milhões de desempregados e está trazendo de volta a fome ao país, a responsabilidade dos políticos que apostam na defesa das liberdades se torna cada dia mais indispensável.

E Moro?

Que Moro continue em seu ser ou não ser, sem dizer claramente se optará ou não pela política, é uma grande irresponsabilidade que chega a paralisar a criação de condições para o “todos contra Bolsonaro”. Com sua ambiguidade, Moro corre o risco de terminar como o Cavaleiro da Triste Figura de Dom Quixote.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse Grande Desconhecido’, ‘José Saramago: o Amor Possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

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terça-feira, 17 de novembro de 2020

MP do Rio: Flávio Bolsonaro desviou mais de R$ 6 milhões da Alerj com esquema da rachadinha

 

De acordo com a denúncia do MP, uma parte do dinheiro arrecadado com as 'rachadinhas' foi transferida ao patrimônio familiar de Flávio Bolsonaro por meio de três métodos. Um deles eram pagamentos de gastos da família com dinheiro em espécie

Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro (Foto: Beto Barata - Agência Senado)

247 - O Ministério do Rio de Janeiro (MP-RJ) informou que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos) desviou R$ 6 milhões em dinheiro público por meio do esquema rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio, onde ele cumpria mandato antes de ser eleito para o Senado.

A denúncia do MP apontou que uma parte do dinheiro arrecadado com as 'rachadinhas' foi transferida ao patrimônio familiar de Flávio Bolsonaro por meio de três métodos. Uma delas eram pagamentos de gastos da família com dinheiro em espécie, conforme o blog do Fausto Macedo.

A outra maneira eram depósitos em espécie realizados nas contas bancárias do parlamentar e da esposa com valores arrecadados pelos operadores financeiros da organização criminosa, com datas próximas aos vencimentos de dívidas que viriam a ser quitadas nessas contas.

A denúncia apontou que os envolvidos no esquema também faziam transações imobiliárias utilizando, de forma dissimulada, dinheiro em espécie não declarado, oriundo do desvio de dinheiro da Alerj. 

Ex-assessora do senador, Luiza Sousa Paes admitiu em depoimento que era funcionária fantasma no gabinete de Flávio e era obrigada a devolver mais de 90% do salário. 

Principal assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj, Queiroz foi preso no dia 18 de junho em Atibaia (SP), onde estava escondido em um imóvel que pertence a Frederick Wassef, então advogado de Flávio - depois ele deixou a defesa do parlamentar. 

Segundo relatório do antigo Conselho de Atividades Financeiras (Coaf), Queiroz fez movimentações financeiras atípicas. Foram R$ 7 milhões de 2014 a 2017, apontaram cálculos do órgão. 


domingo, 8 de novembro de 2020

Na última hora, os deuses (ao menos por hora) deixam de proteger José Serra e o PSDB

 

Uma das figuras-chaves da deterioração política e institucional brasileira terá mais uma denúncia com que se preocupar, enquanto avançam as investigações sobre sua filha Verônica.

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo impediu o Supremo Tribunal Federal de cometer outro vexame desmoralizante.

O processo eleitoral sobre José Serra subiu ao Supremo Tribunal Federal. Em setembro, caiu com Gilmar Mendes. Gilmar segurou o processo até o limite final, três horas antes da prescrição. Depois, despachou para a Justiça Eleitoral de São Paulo. O próprio Gilmar já tinha interrompido o trabalho da Lava Jato de São Paulo contra Serra. Na acusação de crime eleitoral, procuradores e juizes tiveram menos de 6 horas para entrar com a denúncia e impedir a prescrição.

Foi feito!. A denúncia foi apresentada depois do expediente. O juiz eleitoral despachou às 21 horas. E Serra tornou-se réu, acusado de caixa 2, corrupção e lavagem de dinheiro.

Pela rapidez com que a MPF paulista agiu, é certeza que tenha sido informado por alguma fonte brasiliense. Sinal de que Serra foi deserdado pelos céus e por alguns deuses do Olimpo.

Com isso, uma das figuras-chaves da deterioração política e institucional brasileira terá mais uma denúncia com que se preocupar, enquanto avançam as investigações sobre sua filha Verônica.

A quebra de sigilo de ambos poderá revelar uma das maiores fortunas acumuladas por políticos nacionais.

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