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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Eleição na Alemanha reforça isolamento internacional do Brasil, por Arnaldo Cardoso

 Para o governo brasileiro que recentemente recebeu no Palácio do Planalto uma deputada alemã líder da AfD, o resultado da eleição aumentará suas dificuldades no relacionamento com o mais influente país da União Europeia.

Reprodução RFI

Eleição na Alemanha reforça isolamento internacional do Brasil

por Arnaldo Cardoso

O resultado da eleição de ontem (26) na Alemanha com o SPD (Partido Social-Democrata) ligeiramente na frente do CDU (União Democrata-Cristã) e o Die Grünen (Os verdes) como terceira força política do país, abriu a fase de negociações para a formação do governo e definição de quem substituirá a chanceler Angela Merkel que encerra seu longo governo de dezesseis anos com alta aprovação dos alemães.

A estreita vantagem obtida por Olaf Scholz (SPD) e seu estilo discreto impediram que o resultado fosse comemorado com euforia. Críticos de Scholz apontam sua falta de carisma e perfil tecnocrático como fraquezas para o enfrentamento dos desafios políticos que o novo chanceler do país terá pela frente.

Elevados impostos, pensões, clima, educação, segurança interna, migrações, segurança sanitária, envelhecimento da população são alguns dos problemas que demandarão respostas consistentes do novo governo e, para isso, a qualidade da coalizão de governo será fundamental.

O SPD conduziu sua campanha eleitoral com discurso comprometido com a agenda ambiental, afirmando que todas as decisões de seu governo, tanto no plano interno como externo estariam comprometidas com os princípios da sustentabilidade. Também afirmou a centralidade das questões sociais para sua agenda de governo.

Os Verdes que saíram da eleição com 14,8% dos votos, conquistando assim mais 51 cadeiras no Parlamento se firmaram como parceiros indispensáveis em qualquer formação de governo.

Para progressistas e políticos comprometidos com a democracia na Alemanha, e no mundo, o grande alívio trazido pelo resultado da eleição foi o desempenho abaixo do previsto da AfD (Alternativa para a Alemanha) que perdeu várias cadeiras no Parlamento (até o momento da apuração, 11).

A agremiação da extrema-direita, que tem entre seus apoiadores grupos neonazistas e que tem sido monitorada pelos serviços de inteligência do país por suspeitas de afrontas à democracia, está fora das negociações para formação de governo por ser rejeitada pelas três principais forças políticas do país.

A toxicidade da AfD é tão reconhecida pela imensa maioria da sociedade alemã que chega a ser explorada em propagandas “espirituosas” como a da BVG (empresa de transporte público de Berlim) que fixou em portas de vagões de seus trens (foto que ilustra esse texto) a frase “Wir sind gegen jede Form van Hetze. Deshalb sind wir auch manchmal zu spät” (“Somos contra qualquer forma de pressão/perseguição. É por isso que às vezes chegamos atrasados”. Em tradução livre) e acima dela a ilustração do que é proibido nos vagões: comer, beber, e a AfD entre elas. (Foi minha amiga Katia, brasileira que vive desde 2015 em Berlim que me contou sobre a peça publicitária da BVG, explicando sua sutileza ao brincar com os sentidos da palavra Hetze. Ela ainda acrescentou: “Quem disse que os alemães não têm humor?”).

Para o governo brasileiro que recentemente recebeu no Palácio do Planalto uma deputada alemã líder da AfD, o resultado da eleição aumentará suas dificuldades no relacionamento com o mais influente país da União Europeia. Tanto o SPD quanto Os Verdes já fizeram enfáticas declarações públicas de condenação à política ambiental do governo Bolsonaro e às suas posições em temas de direitos humanos. Em função dessas posições, mesmo o país tendo interesses comerciais na relação com o Brasil, as três principais forças políticas do país rejeitam a assinatura de acordo de livre comércio da UE com o Mercosul.

A cada dia aumenta o isolamento internacional do Brasil em função das indefensáveis posições de seu atual governo, que combinam anacronismo, radicalismos e elevada dose de insanidade.

Pobre Brasil.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Da Deutsche Welle: Embaixada do Brasil bolsonarista-olavista em Berlim boicota coral que canta o genial Chico Buarque de Hollanda




Representação diplomática deixa de divulgar grupo após show politicamente engajado com referências a Marielle Franco e ao caso Queiroz. Financiado por governo berlinense, coro oferece aulas grátis baseadas em música brasileira.
Regente Andréa Botelho à frente do Brasil Ensemble Berlin

do Deutsche Welle

Embaixada do Brasil em Berlim boicota coral que canta Chico Buarque

por Marcio Damasceno
O Brasil Ensemble Berlin, coro especializado em música brasileira financiado pelo governo da capital alemã, está sendo alvo de boicote da embaixada do Brasil na Alemanha. Desde abril, a instituição não divulga mais apresentações do grupo em sua página na internet. Também apagou do site todos os registros sobre o grupo, que oferece aulas regulares gratuitas de técnica vocal e canto, tendo como base a música brasileira.
As referências ao Brasil Ensemble Berlin desapareceram da página da representação diplomática logo após um concerto na sede da instituição. O show teve um repertório de temática socialmente engajada, incluindo, entre outras, canções políticas de Chico Buarque da época da ditadura militar, como Cálice e Roda viva.
O clássico de Tom Jobim O morro não tem vez foi apresentado em roupagem renovada, intercalado com um rap com referências ao cotidiano de comunidades pobres e discriminadas, a Marielle Franco, vereadora do Psol assassinada, e a Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro.
“Foi uma apresentação linda. Fomos aplaudidos de pé”, recorda a regente e pianista Andréa Botelho, diretora artística do conjunto. Ela diz que a embaixada não lhe comunicou o motivo de ter apagado de sua página online os registros sobre o grupo, e frisa que buscou várias vezes contato com o órgão, sem obter resposta.
“Tentei, realmente, de uma forma simpática. Tentei conversar, abrir um diálogo, para saber o que podia ter acontecido”, ressalta Botelho, lembrando que a única informação que uma funcionária da embaixada se arriscou a dar sobre a situação é que “cumpria ordens”.
Os e-mails enviados pela reportagem da DW Brasil ao setor cultural e ao setor de imprensa da embaixada brasileira em Berlim permaneceram sem resposta.
O concerto do coral realizado na embaixada em abril comemorava uma data especial: os três anos do programa de música brasileira da escola estatal de música berlinense City West, que tem o Brasil Ensemble Berlin como seu carro-chefe.
Montado sob iniciativa de Botelho, o projeto, inédito na Alemanha, oferece desde 2016 uma ampla oferta de formação musical baseada em repertório brasileiro, tudo subvencionado com verbas da administração da cidade de Berlim.
Concerto do coro Brasil Ensemble Berlin na embaixada brasileiraConcerto do Brasil Ensemble Berlin na embaixada brasileira
Reconhecimento artístico
O programa brasileiro da City West inclui aulas de violão, cavaquinho, guitarra, piano, baixo, percussão, bateria, assim como um grupo de choro e um de samba. E o Brasil Ensemble Berlin, composto em cerca de 60% por alemães e acompanhado de uma banda. O coro já existia desde 2000, mas foi reformulado quando passou a ser financiado pela administração berlinense. Graças ao apoio estatal, a participação é gratuita para os interessados e inclui aulas de leitura musical e técnica vocal.
O Brasil Ensemble Berlin recebeu um prêmio da Associação Coral da cidade de Berlim ficando entre os cinco melhores projetos da capital alemã em 2015. Sua diretora artística também coleciona reconhecimentos: neste ano, a regente Botelho está entre os oito profissionais da seleção internacional para um curso de aperfeiçoamento de maestros da britânica London Conducting Academy, da Greewich School of Music.
Três anos após sua criação, o programa musical brasileiro da escola de música berlinense continua despertando interesse. “Temos muito orgulho de poder oferecer uma gama completa de atividades com música brasileira”, afirma Josef Holzhauser, vice-diretor da City West. “Estamos contentes com os muitos pedidos de participação que recebemos da população de Berlim e com os muitos grandes eventos que resultam do trabalho bem-sucedido deste projeto.”
A iniciativa também foi elogiada três anos atrás por quem chefiava a embaixada brasileira na época. “A criação do programa na City West é uma grande conquista, cuja missão é fazer com que cada vez mais pessoas se interessem, não apenas em ouvir, como também em tocar a música brasileira”, comentou, na ocasião da abertura do projeto, a então embaixadora do Brasil na Alemanha, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Os 75 anos de Chico Buarque
Tanto os ensaios semanais do Brasil Ensemble Berlin como os concertos do grupo vinham sendo anunciados, ininterruptamente, na Agenda Cultural da Embaixada do Brasil em Berlim, uma lista publicada mensalmente no site da instituição e também enviada por e-mail aos interessados. Há cinco meses isso não ocorre mais: os dois concertos posteriores do coral foram ignorados, apesar dos pedidos para inserção na agenda.
As solicitações para divulgação da próxima apresentação do Brasil Ensemble Berlin tampouco foram atendidas. O concerto é nesta quarta-feira (25/09) às 20h na Ufa Fabrik, na capital alemã, com um programa tão politicamente engajado como o de abril: uma homenagem aos 75 anos do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda.
Neste setembro, outro episódio envolvendo o nome do artista carioca e a diplomacia brasileira já havia chamado a atenção, com a revelação de que a embaixada brasileira no Uruguai pressionara pelo veto a um filme sobre Chico Buarque na programação do 8º Festival de Cinema do Brasil, em Montevidéu.

domingo, 14 de outubro de 2018

Manifestação contra extrema direita reúne 150 mil pessoas na Alemanha




Do Estadão:

Manifestação contra extrema direita reúne 150 mil pessoas na Alemanha

O protesto foi organizado por grupos de direitos humanos, incluindo a 

Anistia Internacional

BERLIM - Manifestantes de toda a Alemanha marcharam em Berlim neste sábado, 13, contra a xenofobia e a extrema direita em um dos maiores protestos do país nos últimos anos. Os organizadores estimam que mais de 150 mil pessoas participaram do ato. Protestos semelhantes ocorreram em Dresden, Koethen e outras cidades do leste.
Manifestação em Berlim, na Alemanha
Segundo organizadores, 150 mil pessoas participaram de ato contra a extrema direita na Alemanha. Foto: John MACDOUGALL/AFP
Um porta-voz da polícia se recusou a estimar o tamanho da multidão no protesto, que foi organizado por grupos de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional.
Os manifestantes carregavam cartazes que diziam "Construa pontes, não paredes", "Unidos contra o racismo" e "Somos indivisíveis - por uma sociedade aberta e livre". Alguns dançavam música pop em um dia quente de outono.
Manifestação em Berlim, na Alemanha
'Construa pontes, não paredes' foi uma das frases utilizadas pelos manifestantes durante ato em Berlim. Foto: Michele Tantussi/Reuters
A chegada de mais de um milhão de migrantes, muitos de zonas de guerra no Oriente Médio, aumentou o apoio ao partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) . Espera-se que a legenda se saia bem na eleição na Bavária, há muito uma fortaleza da conservadora União Social Cristã, que integra o governo de coalizão federal da chanceler Angela Merkel.
Manifestação em Berlim, na Alemanha
Mulher segura placa com a frase 'Racismo não é alternativa' durante protesto contra extrema direita em Berlim. Foto: Markus Schreiber/AP Photo
Em agosto, grupos de extrema direita na cidade de Chemnitz, no leste do país, entraram em confronto com a polícia e perseguiram pessoas que acreditavam ser estrangeiras após o esfaqueamento fatal de um alemão ter sido atribuído a dois migrantes.
Manifestação em Berlim, na Alemanha
Banner em que se lê 'Indivisível - solidariedade em vez de exclusão'. Foto: Kamil Zihnioglu/EPA/EFE

No entanto, o número de ataques violentos contra refugiados e contra abrigos na Alemanha caiu drasticamente no primeiro semestre deste ano. Duas empresas também alertaram seus funcionários alemães sobre os perigos do populismo antes das eleições regionais na Bavária. /Reuters


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Embaixador alemão não consegue entender como brasileiros (de direita) distorcem nazismo


Resultado de imagem para extrema-direita nazismo

  O que mais incomodou estas pessoas (militantes de direita brasileiros) foi o trecho de uma fala do ministro do Exterior alemão, Heiko Mass, dizendo que “devemos nos opor aos extremistas de direitas, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas”.

Do site Hypness.com.br


Mais uma vez, as redes sociais foram tomadas por um debate sem sentido sobre o nazismo. Setores da direita brasileira insistem na teoria de que o nazismo teria sido um regime adotado por simpatizantes de ideologias à esquerda.

O retorno da discussão sobre o tal nazismo de esquerda se deu após a publicação de um vídeo na página do Facebook da Embaixada da Alemanha em Brasília sobre a luta dos alemães para não esconder o passado. A ideia era alertar para asameaças oferecidas pelo regime comandado por Adolf Hitler, que resultou no Holocausto e na morte de mais de 6 milhões de judeus.

Em meio à polarização provocada pelas eleições brasileiras, grupos de militantes da direita do Brasil protestaram contra o conteúdo divulgado. Eles defendem a tese de que o nazismo não pode ser classificado como um movimento de extrema direita.

O que mais incomodou estas pessoas foi o trecho de uma fala do ministro do Exterior alemão, Heiko Mass, dizendo que “devemos nos opor aos extremistas de direitas, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas”.


Na Alemanha, não restam dúvidas sobra a participação da extrema direita no nazismo

Foi o suficiente para o surgimento de narrativas mirabolantes, como a acusando Alemanha de seguir uma linha defendida por Karl Marx. “A Alemanha foi infestada por vermelhinhos no pós-guerra. É claro que eles vão distorcer tudo e jogar na conta da direita”, disse um dos internautas.  

As afirmações provocaram choque entre os diplomatas alemães. Eles ressaltam que tal debate nunca foi pauta no país europeu. Em entrevista à rede de TV pública alemã, Kai Michael Kenkel, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisador associado do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), afirmou que “lá é muito simples: trata-se de extrema direita e ponto. Essa discussão sobre ser de esquerda ou direita parece existir só no Brasil. Se você perguntar para um neonazista na Alemanha se ele é de esquerda, vai levar uma porrada”.

O professor apontou ainda a falta de conhecimento histórico destes grupos. “Essa falsa polêmica demonstra que o ensino de história é profundamente falho no Brasil. Também mostra uma profunda manipulação dos fatos e um desprezo pela verdade entre alguns setores no Brasil”.

A necessidade de prestar os esclarecimentos devidos foi tão grande, que o Embaixador da Alemanha no Brasil teve que se pronunciar. Falando ao jornal O Globo, Georg Witschel, classificou como ‘besteira completa’ a ideia de que o nazismo não se relaciona com pensamentos extremamente conservadores.

“É uma besteira argumentar que o fascismo e o nazismo são movimentos da esquerda. Isso não é fundamentado, é um erro, é simplesmente uma besteira. Isso é um fato bem fundamentado na História. É um consenso entre os historiadores da Alemanha e do mundo que o nazismo foi um movimento de extrema direita”, salientou.

Segundo Witschel, a presença da palavra socialismo no nome do partido nazista (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães), foi uma estratégia usada para gerar apelo aos trabalhadores e setores mais pobres da população.

“Lembremos de quantos regimes brutais usam a palavra ‘democrata’ em seu nome”.

O vídeo publicado na página da diplomacia alemã não pretendia dialogar com a direita brasileira. Na verdade, o conteúdo foi postado por causa das manifestações de extrema direita ocorridas na Alemanha entre o final de agosto e o início de setembro na cidade de Chemnitz, no Leste do país. A marcha contou com a presença de grupos xenófobos, que perseguiram estrangeiros depois da morte de um alemão, supostamente assassinado em uma briga com dois imigrantes.

O embaixador reforçou a obrigação do Estado de “informar sobre o nazismo, para nunca mais deixar nada parecido acontecer na Alemanha ou no mundo. A História está bem viva na Alemanha, com um alto consenso”.  

Mesmo assim,  historiadores seguem sem entender a insistência de alguns brasileiros em dar uma ‘aula de história’ sobre nazismo aos alemães.



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Da alemã Deutsche Welle: ex-ministra da Justiça da Alemanha questiona a politização da Justiça no Brasil



A advogada, que esteve à frente do Ministério da Justiça alemão entre 1998 e 2002, destacou os impactos da corrupção, que, segundo ela, encarece investimentos e desvia recursos necessários para manutenção da sociedade. Ela afirmou que nenhum país do mundo está livre do problema.
"Na Alemanha, também há casos de corrupção, mas são individuais e costumam ser tratados como escândalos públicos. São rapidamente investigados e punidos. A Justiça age com muito cuidado e independentemente", afirmou Däubler-Gmelin, que foi deputada federal por mais de 30 anos pelo Partido Social-Democrata (SPD) e hoje é professora na Universidade Livre de Berlim.

Da Deutsche Welle:

BRASIL

Ex-ministra alemã questiona politização da Justiça no Brasil

Em evento em Berlim com a presença de Dilma, Herta Däubler-Gmelin, que comandou Ministério alemão da Justiça, reforça necessidade de independência do Judiciário e afirma que nenhum país do mundo está livre da corrupção.
Herta Däubler-Gmelin
Däubler-Gmelin: "Na Alemanha, também há casos de corrupção, mas são individuais e rapidamente investigados e punidos"
Em um debate sobre o Brasil na Universidade Livre de Berlim, que contou com a participação da ex-presidente Dilma Rousseff, a ex-ministra alemã da Justiça Herta Däubler-Gmelin abordou nesta terça-feira (14/11) o papel da Justiça no combate à corrupção no Brasil, questionando uma politização da instituição.
"No Brasil, existem leis para combater a corrupção. Mas a transparência também é necessária para isso, além de uma imprensa independente, pluralista e controlada. Por fim, a Justiça precisa ser independente, precisa se posicionar contra qualquer suspeita de corrupção", afirmou Däubler-Gmelin.
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A advogada, que esteve à frente do Ministério da Justiça alemão entre 1998 e 2002, destacou os impactos da corrupção, que, segundo ela, encarece investimentos e desvia recursos necessários para manutenção da sociedade. Ela afirmou que nenhum país do mundo está livre do problema.
"Na Alemanha, também há casos de corrupção, mas são individuais e costumam ser tratados como escândalos públicos. São rapidamente investigados e punidos. A Justiça age com muito cuidado e independentemente", afirmou Däubler-Gmelin, que foi deputada federal por mais de 30 anos pelo Partido Social-Democrata (SPD) e hoje é professora na Universidade Livre de Berlim.
Däubler-Gmelin afirmou que o sucesso do combate à corrupção exige o desejo claro da sociedade e de governos de que a prática não seja tolerada. Ela elogiou as medidas anticorrupção dos governos petistas.
Dilma Rousseff em Berlim
"Não se combate corrupção sem vontade política", disse Dilma em Berlim
Em sua fala no evento em Berlim, Dilma também destacou as medidas anticorrupção promovidas pelos governos do PT – como a Lei da Transparência, que obriga estados, municípios e União a divulgar seus gastos, e a Lei das Organizações Criminosas, que abrange também crimes de corrupção.
"Não se combate corrupção sem vontade política, instituições e leis", disse a ex-presidente. "Fortalecemos a Polícia Federal e nossa relação com o Ministério Público. Aceitamos que o órgão indicasse por eleição os nomes para Procurador-Geral da República (PGR) e escolhíamos o mais votado. Essa questão é hoje controversa", completou Dilma, aproveitando para alfinetar Michel Temer.
Em meados deste ano, o presidente quebrou a tradição petista ao nomear para assumir o comando da Procuradoria-Geral a segunda colocada em votação interna feita pelo Ministério Público, Raquel Dodge.
Parlamentarismo e autoritarismo
Em meio à instabilidade política no Brasil, alguns questionam se o parlamentarismo não seria a solução para o país. Em Berlim, Dilma defendeu o presidencialismo como sistema político ideal para o Brasil.
"Nós não podemos ser parlamentaristas porque as oligarquias regionais têm um grande poder quanto se trata do voto regionalizado. No Brasil, sempre haverá um governo federal, exceto golpista, mais progressista do que seu parlamento”, afirmou.
Enquanto alguns veem no parlamentarismo a solução, outros vislumbram uma volta do autoritarismo ao apoiarem o pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Dilma disse não acreditar que o político represente a volta da força militar. "Não acho que as Forças Armadas dão guarida ao tipo de política de Bolsonaro."
Quanto ao PT nas eleições de 2018, Dilma disse que o partido não pode abrir mão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que lutará para isso. "O Lula tem que ser o candidato, não vamos buscar alternativa."
Condenação de Lula
No evento em Berlim, Däubler-Gmelin questionou o processo que levou à condenação de Lula. "Há, com certeza, dúvidas sobre a imparcialidade do processo e a independência da Justiça”, afirmou e ex-ministra alemã.
Em julho deste ano, o juiz federal Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na primeira instância, condenou o ex-presidente a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex no Guarujá.
"O caso [de Lula] mostra como pode ser prejudicial quando a Justiça emprega a politização e não métodos jurídicos do Estado de Direito, e se preocupa mais em derrubar adversários políticos para proteger o seu interesse de poder", afirmou Däubler-Gmelin.
O evento sobre a situação política e judiciária brasileira que reuniu Dilma e ex-ministra alemã foi organizado pela Fundação Friedrich Ebert, ligado ao Partido Social-Democrata (SPD), e pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim.
Além de estudantes, brasileiros de várias cidades da Alemanha foram à capital para assistir à palestra da ex-presidente. As inscrições para o evento se esgotaram três dias após a sua divulgação.
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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ex-ministra da Justiça alemã critica Temer, Gilmar e Moro: "Brasil é outro mundo"


"Eu ouço que existem muitos acontecimentos preocupantes. Sob a perspectiva alemã, devo dizer que não é comum ver juízes interferirem nas disputas políticas cotidianas na Alemanha. Esse comportamento é, absolutamente, um "no go". Isso não pode acontecer de forma alguma. Isso compromete a neutralidade do juiz, sua independência e até jurisdição. Isso coloca também a confiança da população na instituição em cheque." - Herta Däubler-Gmemlin


Foto: Deutsche Welle

Jornal GGN - Ex-ministra da Justiça da Alemanha entre os anos de 1998 e 2002, Herta Däubler-Gmelin criticou o presidente Michel Temer e afirmou que o Brasil "é outro mundo". Disse, ainda, que a "intromissão" de magistrados em conflitos políticos cotidianos "compromete a neutralidade e a independência do juiz". 
Sobre Temer, foi direta: "nunca aconteceria na Alemanha de um presidente sob suspeita de corrupção, com denúncia apresentada pela própria Procuradoria-Geral da República, não renunciar imediatamente ao cargo".
A afirmação da advogada, ex-deputada federal e professora na Universidade Livre de Berlim foi dada em entrevista à Deutsche Welle Brasil, que esteve no Brasil para participar de um debate público sobre democracia.
Leia a entrevista concedida à Agência DW:
DW Brasil: A senhora veio ao Brasil participar de um debate ao lado do ex-ministro Tarso Genro que, pelo título – "Política x Justiça: Qual o futuro da democracia?" –, coloca Justiça e política em lados opostos.
Herta Däubler-Gmelin: A intenção é refletir sobre a democracia que queremos. É uma democracia em que as decisões são tomadas de cima para baixo, em que algumas pessoas não são consideradas cidadãs, em que o sistema judiciário é usado apenas para privilegiar ricos e poderosos, para preservar privilégios? Ou queremos uma democracia participativa? Quais elementos precisam pertencer a essa democracia? Há bons exemplos, mas há exemplos muito ruins nesse sentido.
DW: Dentro dessas reflexões, qual é a tendência do Brasil?
Eu ouço que existem muitos acontecimentos preocupantes. Sob a perspectiva alemã, devo dizer que não é comum ver juízes interferirem nas disputas políticas cotidianas na Alemanha. Esse comportamento é, absolutamente, um "no go". Isso não pode acontecer de forma alguma. Isso compromete a neutralidade do juiz, sua independência e até jurisdição. Isso coloca também a confiança da população na instituição em cheque.
Por outro lado, nunca aconteceria na Alemanha de um presidente sob suspeita de corrupção, com denúncia apresentada pela própria Procuradoria-Geral da República, não renunciar imediatamente ao cargo.
Tivemos um caso notório na Alemanha [renúncia do presidente Christian Wulff, em fevereiro de 2012]. Tratava-se de 700 Euros. Mas, obviamente, assim que o procurador-geral apresentou a denúncia, estava claro para a opinião pública que o presidente tinha que renunciar. E foi o que ele fez.
Aqui é outro mundo. Então eu posso entender a certa descrença que há aqui no atual desempenho do Judiciário, de alguns juízes e juízas – mas é claro que não estamos falando de todos, também há tendências completamente diferente, como sabemos.
DW: Como a senhora acompanha e avalia a atual crise política no Brasil?
Os acontecimentos políticos no Brasil estão sendo noticiados pela imprensa alemã e internacional. E depois de tudo o que vi e li nestes últimos dias, temo que esteja havendo um retrocesso cruel com impactos para a população mais pobre. É lamentável.
DW: O Brasil tem um sistema presidencialista, e, atualmente, boa parte do Congresso está sendo investigada. Como a senhora avalia o desempenho do Judiciário em garantir o bom funcionamento da democracia?
Quando o objetivo é garantir uma democracia participativa, os elementos que pude observar na Justiça daqui nem sempre são favoráveis. Existem muitas possibilidades de que alguns atores influenciem e conduzam processos de maneira parcial. E nessa interação, quando também se considera o papel do presidente, vemos uma estranha parcialidade entre Judiciário e Legislativo, ou até uma cegueira em relação às suspeitas de corrupção envolvendo políticos que precisam ser investigadas. Isso é muito preocupante e não é de se admirar a queda extraordinária da confiança nas instituições.
DW: Quão importante é investigar suspeitas de corrupção para manter a democracia fortalecida?
A corrupção parece ser um problema muito grave no Brasil. Por isso eu apoio muito o combate a corrupção. Mas é necessária uma luta ampla, em todas as direções, independentemente do partido. Se um presidente governa pelos interesses de poucos poderosos e recebe um tratamento diferente, mesmo anteriormente tendo se posicionado a favor de uma democracia participativa e da inclusão dos mais pobres, então é uma catástrofe.
DW: O autoritarismo e extremismo político parecem estar se espalhando pelo mundo. Como a senhora avalia essa tendência?
Há diferentes ameaças à democracia. As correntes mais autoritárias e conservadoras estão mais fortes não apenas na América Latina, mas também na Europa. Lá também vemos uma queda significativa da confiança na democracia, por motivos diferentes. Também há a questão do autoritarismo, como alguns partidos na Polônia ou na Hungria, que pregam de maneira muito forte elementos antidemocráticos e que tentam, dessa forma, se estabilizar como um poder. Pessoalmente, não acho que isso possa se concretizar em médio prazo.
Por outro lado, naturalmente há também problemas relacionados à globalização que têm um efeito muito negativo sobre a democracia. Pois muitas pessoas têm a impressão de que as decisões não acontecem mais na política, mas no campo da economia. Então elas ficam inquietas quando têm a sensação de que os políticos não cuidam mais de seus interesses ou de suas necessidades.