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domingo, 23 de janeiro de 2022

Damares, Bolsonaro, Queiroga e o circo da morte contra a vacina para agradar o fascismo radical. Reportagem de Rafael Moro Martins para o The Intercept Brasil

  Ministros voaram para São Paulo em busca do primeiro cadáver infantil da vacina no Brasil.


Ministério da Saúde leva médicos para atender população atingida pelas chuvas na Bahia. Brasília, 03.01.2022. Fotos: Walterson Rosa/MS

Foto: Walterson Rosa/Ministério da Saúde

POUCAS VEZES (talvez nenhuma) desde o início da pandemia de covid-19 autoridades federais se mobilizaram com tamanha rapidez por causa da doença como nessa semana.

Na quinta-feira, uma menina de 10 anos teve uma parada cardíaca horas depois de tomar a primeira dose da vacina da Pfizer no interior de São Paulo.

Quem não frequenta as redes sociais e sites da esgotosfera bolsonarista pode nem saber, mas um dos principais argumentos da extrema direita (inclusive do presidente Jair Bolsonaro) para se opor à vacinação de crianças é um alegado relevante risco de miocardite e problemas cardíacos. Na lógica de Bolsonaro, esse risco é tão potencialmente grande quanto pegar covid-19 e se dar mal com a doença.

É lorota. “Nas crianças de cinco a 11 anos, a ocorrência da miocardite associada à vacina da Pfizer/BioNTech foi 16 vezes menor do que a causada pela própria covid-19. Foram casos raros e não teve nenhuma morte associada, ou seja, todos foram de boa evolução clínica e sem sequelas”, esclareceu Mônica Levi, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações.

Mas isso não importou para que o governo Bolsonaro se movimentasse de forma espetaculosa para fazer uso político do caso com base em nada além de mentiras. E Damares Alves, a ministra da Família e dos Direitos Humanos, comandou um circo macabro que parecia torcer pela morte de uma criança.

Damares tomou um avião da FAB em Brasília com destino a Botucatu, para onde a criança fora levada de Lençóis Paulista, a cidadezinha onde mora. Ela não foi sozinha: com ela estava o ministro mais fundamental em qualquer governo do mundo neste momento, o titular da Saúde, Marcelo Queiroga. Em vez de se preocupar com vacinas reviradas em caixas de papelão que seu ministério vem jogando nos estados, o doutor achou por bem vestir a fantasia de palhaço.

A ministra não apenas foi para Botucatu como fez questão de tornar público tudo isso em seu perfil no Twitter. E fez isso quando já se sabia que não havia qualquer possibilidade de reação à vacina ter causado o problema. É asqueroso, mas leia:

Não ficou só nisso: “Antes de nosso embarque, ainda no final da manhã, o Presidente @jairbolsonaro também falou com a família por telefone. Desejamos que a menina saia logo do hospital, volte para casa e que fique bem”, disse Damares, também no Twitter.

O Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo, que analisava o caso, descartou qualquer ligação do problema manifestado pela criança com a vacina contra a covid-19. Os exames feitos na menina identificaram que ela é portadora de uma doença congênita rara, algo de que a família dela até então nem desconfiava.

Não passou, portanto, de uma coincidência. Mas não importou. Damares fez que não viu o esclarecimento publicado pelos médicos paulistas e sequer o mencionou em seu perfil na rede social. As mensagens em seu Twitter certamente já foram espalhadas pelas redes de desinformação da extrema direita.

Elas se misturam, agora, a outra informação falsa: Marcelo Queiroga, o ministro, dissera que 4 mil pessoas tinham morrido por conta da vacina. Mentira. Quanto aos tuítes de Damares e o circo da morte do qual participou, Queiroga é cardiologista e, por isso, poderia ter esclarecido o assunto aos pais aflitos. Preferiu ignorá-los.

Mas toda a pantomima não foi em vão. Na véspera da viagem de Damares e do telefonema de Bolsonaro para a família da criança, o presidente havia anunciado que deseja ver a ministra como sua candidata ao Senado em São Paulo.

Nesse cenário, um possível caso de uma criança em estado grave por causa da vacina caiu do céu para o discurso mentiroso do bolsonarismo. É fácil imaginar que, assim que foi avisado por assessores a respeito, Bolsonaro tenha mandado Damares e Queiroga voarem a Botucatu e passado a buscar um contato com a família. A morte daquela criança seria um troféu para a extrema direita e suas aspirações eleitorais esse ano.

Exagero? Vamos lá. A extrema direita tem transformado o discurso antivacina para crianças – já que os adultos aderiram em massa à vacinação – em sua principal bandeira. Influenciadores como a ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel, amplificada por jornalistas como Cristina Graeml e Guilherme Fiúza, da Jovem Pan e Gazeta do Povo, têm ganhado audiência e relevância levantando dúvidas sobre a segurança da imunização infantil. O discurso é replicado pelo próprio Jair Bolsonaro, que se aproveita do temor para alavancar a própria popularidade.

Em 6 de janeiro, o presidente disse o seguinte, em entrevista a uma emissora de tevê pernambucana: “A própria Anvisa que aprovou também diz lá que a criança pode sentir, logo depois da vacina, falta de ar e palpitações. Eu pergunto: você tem conhecimento de uma criança de 5 a 11 anos que tenha morrido de covid? Eu não tenho”.

Ele foi adiante: “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual interesse daquelas pessoas taradas por vacina? É pela sua vida? É pela saúde? Se fosse, estariam preocupados com outras doenças no Brasil e não estão. Então peço, como se tratam de crianças, não se deixe levar pela propaganda. Converse com seus vizinhos. Quanto garoto contraiu covid e nada aconteceu com ele”.

Bolsonaro mentiu, óbvio. O Instituto Butantan estima que a covid-19 já matou mais de 1.400 crianças de zero a 11 anos no Brasil e deixou outras milhares com sequelas. “A doença está entre as 10 principais causas de morte de crianças e é causa de síndrome que afeta coração e pode matar”, informa o Butantan.

A Sociedade Brasileira de Imunizações diz o seguinte: “O risco de miocardite/pericardite após a vacinação existe, mas é raro. A possibilidade de o quadro ser causado pela covid-19 é muito maior”. Além disso, sabe-se que a miocardite em crianças é leve e benigna.

Um post no site da Sociedade Brasileira de Pediatria informa que “são enganosas as publicações que dizem que a Pfizer teria admitido que as vacinas contra covid-19 de crianças têm um risco maior de causar miocardite do que a probabilidade de evitar mortes pelo novo coronavírus”.

É relevante que a SBP faça menção a uma “notícia” num site de propriedade de auxiliares do filósofo Olavo de Carvalho como fonte da informação mentirosa sobre os riscos da vacina em crianças. Publicações como essa existem justamente para ecoar e amplificar os discursos do presidente.

Parece difícil entender porque, a essa altura, Bolsonaro aposte em uma tragédia – a morte de uma criança em decorrência da vacina – como trunfo político. Mas pode ser o que resta a ele. Sem nada de positivo para mostrar, com a economia em frangalhos, milhões de brasileiros passando fome e visto como mau gestor da pandemia de covid-19, Bolsonaro parece torcer e apostar as fichas num plot twist que lhe permita sair a dizer “eu não avisei?”.

Não vai rolar, lógico. Porque as vacinas são seguras. Mas tudo bem – aconteça o que acontecer, Bolsonaro está alimentando sua base fiel de zumbis no Telegram e gerando ruído e confusão. É o ambiente em que ele opera melhor.

Damares, enquanto isso, vai passar à história como a ministra que agiu pra impedir o aborto de uma menina de 10 anos grávida de um estuprador e, agora, como quem tentou transformar uma criança da mesma idade com uma doença congênita em troféu político. Não creio que ela se eleja senadora – mas certamente o foro privilegiado lhe seria útil.

Onze crianças e bebês indígenas yanomamis morreram de covid-19 em 2020 e 2021. Damares, que costuma se referir aos povos indígenas como “meus indiozinhos” (como quem fala de uma coleção de bonecas) e que tentou ter, sob si, o comando da Funai, jamais visitou ou buscou consolar suas famílias. Aparentemente, dá menos dividendos eleitorais do que explorar um problema de saúde numa criança recém-vacinada. Para ser considerado um “indiozinho da Damares”, pelo visto, é preciso morrer depois de se vacinar.

O Twitter jura ter uma política de retirar do ar conteúdos enganosos sobre a covid-19. É mais um mentiroso nessa história nojenta. O post com informações falsas da ministra continuava no ar até o fechamento deste texto, às 19h de ontem.

 Correção: 23 de janeiro, 12h30

Uma versão anterior deste texto identificava o jornalista Guilherme Fiúza como Rodrigo Fiúza. O texto foi corrigido.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Ex-ministro bolsonarista da Saúde, Nelson Teich estima que 230 mil pessoas de fato já morreram de Covid no Brasil sob a irresponsabilidade e necropolítica de Bolsonaro

 

Ex-ministro bolsonarista Nelson Teich diz que uma estimativa conservadora de subnotificações representa 20% do total de 190 mil registrados no País. "Estamos atualmente com cerca de 230 mil mortos pela Covid-19 e os números crescem de forma significativa", escreveu


(Foto: Alex Pazuello/Semcom | ABr)

247 - Ex-ministro da Saúde no governo de Jair Bolsonaro, Nelson Teich alertou nesta sexta-feira (25) que o Brasil tem um grande número de notificações de mortes causadas pelo novo coronavírus. Segundo Teich, o País já deve ter cerca de 230 mortes pela doença. 

Em publicação na rede LinkedIn, o ex-ministro destacou que a Covid-19 é a pior pandemia que o Brasil já viveu, ela é mais grave que a Gripe Espanhola. "O Brasil marcou ontem, dia 24 de dezembro, 190 mil mortes. Se incluirmos nesse número as mortes subnotificadas, que conservadoramente representam 20% do total atual. Estamos atualmente com cerca de 230 mil mortos pela Covid-19 e os números crescem de forma significativa", escreveu. 

"Momentos como o atual demandam dos dirigentes, humanidade e nobreza, características que não existem quando posições pessoais e políticas são definidas como uma prioridade", opinou Nelson Teich em outro tweet. 

Um estudo realizado pela Vital Strategies, organização composta por pesquisadores, especialistas e setores governamentais, mostra que o Brasil pode ter superado a marca das 220 mil mortes pela Covid-19. A contagem oficial é de pouco mais de 190 mil mortes até este Natal. 

O estudo baseia o número no fato de que ocorreram 242.249 mortes por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) até 14 de dezembro. 32.923 destas pessoas apresentaram sintomas da Covid-19, e 68.631 não tiveram a causa especificada. Assim, como a principal causa de morte pela Covid-19 é a SRAG, isso resulta em potenciais 221.208 mortes em razão do novo coronavírus.

Leia na íntegra o texto de Nelson Teich:

A Covid-19 é a pior pandemia que o Brasil já viveu, ela é mais grave que a Gripe Espanhola.

O Brasil marcou ontem, dia 24 de dezembro, 190 mil mortes. Se incluirmos nesse número as mortes subnotificadas, que conservadoramente representam 20% do total atual, estamos atualmente com cerca de 230 mil mortos pela Covid-19 e os números crescem de forma significativa. Como aconteceu no início da pandemia, não é possível saber onde esses números vão chegar.

Os relatos históricos da Gripe Espanhola apontam um pouco mais de 35 mil mortes no Brasil nos anos de 1918 e 1919. Pelos dados do IBGE, em 1920 o Brasil tinha 30.6 milhões de habitantes. Se ajustarmos a mortalidade daquela época para os dias atuais, onde o Brasil tem aproximadamente 212.4 milhões de habitantes, o número equivalente de mortes em 2020 seria de aproximadamente 243 mil mortos. É impossível projetar e saber com precisão quantas mortes acontecerão no Brasil pela Covid-19, mas com a situação atual, onde existe um crescimento significativo de casos e mortes, as mortes pela Covid-19 vão com certeza superar as da Gripe Espanhola.

Esses números mostram como a situação é grave, difícil e incerta. Essa situação demanda que as pessoas se cuidem cada vez mais até que uma solução chegue e essa solução da Covid-19 depende das vacinas e programas de vacinação eficazes. Felizmente essa realidade parece próxima.

Esse período do Natal e Ano Novo combina sentimentos especiais. O Natal realça a importância da família, das amizades, do cuidado e da cooperação. O Ano Novo traz a esperança de transformação, mudanças rápidas e dias melhores, mas nesse momento, esses dias melhores e especiais que buscamos vão depender muito mais de ações do que de orações e promessas. Cada um vai ter que buscar o equilíbrio ideal para si e para os que com ele se relaciona, mas seja qual for esse equilíbrio, cuidados que diminuam o risco de transmissão da Covid-19 são fundamentais.

Momentos como o atual demandam dos dirigentes, humanidade e nobreza, características que não existem quando posições pessoais e políticas são definidas como uma prioridade. Sempre é tempo para colocar o bem estar e a qualidade de vida da sociedade e dos cidadãos como a razão maior dos governantes e governos. Precisamos disso muito rápido.

Que o Natal traga paz e resistência para que possamos passar por esses momentos difíceis, e que nos dê também a sabedoria para que consigamos encontrar as melhores soluções o mais rápido possível.

O conhecimento liberta. Saiba mais