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quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sínodo Pan-Amazônico é resistência pela proteção à Amazônia e povos indígenas, diz bispo de São Gabriel da Cachoeira




Para sua fala durante o Sínodo, Dom Edson Damian elencou dois temas: a inculturação e a Igreja Índia Amazônica, propondo que as cerimônias católicas agreguem não só as línguas indígenas, mas também símbolos e rituais tradicionais desses povos.


Para Dom Edson Taschetto Damian a vida humana e o meio ambiente estão sofrendo uma séria e, talvez, irreversível destruição (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

da Amazônia Real

Sínodo é resistência pela proteção à Amazônia e povos indígenas, diz bispo de São Gabriel da Cachoeira

por Ana Amélia Hamdan, especial para a Amazônia Real
São Gabriel da Cachoeira (AM) – Centro das atenções da imprensa mundial devido às queimadas e às propostas do governo de Jair Bolsonaro (PSL) que envolvem exploração mineral, avanço da fronteira agrícola e suspensão da demarcação de terras indígenas, a Amazônia brasileira ganha ainda mais destaque nas próximas semanas. Dessa vez, por seu papel primordial na questão ambiental, cultural e religiosa: entre os dias 6 e 27 de outubro, a Igreja Católica realiza no Vaticano, em Roma, o Sínodo dos Bispos para a Amazônia com o Papa Francisco.
O bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Taschetto Damian, 71 anos, é um dos 11 bispos da Amazônia convocados pelo Vaticano para o Sínodo. “A Amazônia estará na vitrine do mundo”, diz ele, que iniciou sua vida missionária na região amazônica em 1999 na Diocese de Roraima. O bispo foi também membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT).Para sua fala durante o Sínodo, Dom Edson Damian elencou dois temas: a inculturação e a Igreja Índia Amazônica, propondo que as cerimônias católicas agreguem não só as línguas indígenas, mas também símbolos e rituais tradicionais desses povos.
A Diocese de São Gabriel está localizada na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, onde há a maior população indígena do Brasil. Dos 45.564 habitantes do município, 95% são indígenas que representam 23 etnias. É também o lugar onde tem quatro línguas oficiais: tukano, baniwa, nheengatu e português.
Papa Francisco com os povos da Amazônia em Puerto Maldonado, no Peru
(Foto: Andres Valle/2018)
No total, mais de 250 bispos, religiosos, pesquisadores e representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) participarão do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que discutirá questões sociais e ambientais dos noves países que integram a bacia amazônica: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.
Dom Edson aponta que São Gabriel da Cachoeira, inclusive devido à sua localização fronteiriça, está sujeita a problemas como exploração de crianças e adolescentes e o tráfico de drogas, questões que serão discutidas durante o Sínodo. Ainda assim, considera que as dificuldades de acesso acabam protegendo a região que, segundo o religioso, é uma das menos atingidas por desmatamento.
Presidente do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) desde maio deste ano, Dom Edson embarca para Roma na próxima semana (em 3 de outubro), levando como presente para o Papa Francisco: um cálice e um cibório, objetos usados na celebração da Eucaristia, feitos em madeira da árvore pau-brasil. E a viagem coincide com os 10 anos de Dom Edson em São Gabriel, que está como bispo da Diocese de São Gabriel desde 2009.
Natural de Jaguari, no Rio Grande do Sul, Dom Edson Damian é membro da Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas, que segue a espiritualidade de Charles Foucauld. É também o primeiro bispo não salesiano a assumir a Diocese de São Gabriel, fundada em 1941.
Filófoso formado pela Universidade Federal de Santa Maria e teólogo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ele foi ordenado padre em 1975 por Dom Ivo Lorscheiter (1927-2007). Em entrevista ao Amazônia Real, o bispo disse que o Sínodo pode ser considerado um movimento de resistência pela proteção à Amazônia e aos povos indígenas. E afirma: “A Igreja não terá medo de dizer a verdade”. Leia abaixo a entrevista com o bispo Dom Edson Damian.
Dom Edson Damian na Diocese de São Gabriel da Cachoeira
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Amazônia Real – Como foram elaboradas as questões a serem discutidas durante o Sínodo da Amazônia?
Dom Edson Damian – O Papa Francisco, quando convocou o Sínodo, em 15 de outubro de 2017, disse que é um Sínodo especial para a Pan-Amazônia, com dois objetivos: buscar novos caminhos para a Igreja e novos caminhos para uma ecologia integral. Os principais interlocutores desse Sínodo serão os povos indígenas, os povos originários da Amazônia. Ele disse que, nunca como hoje, os direitos dos povos indígenas estiveram tão ameaçados. Ali, então, o Papa delineou o que ele deseja com esse Sínodo. Além dos indígenas, os ribeirinhos, caboclos, habitantes das periferias das grandes cidades deverão ser os principais interlocutores.


O Conselho Pré-Sinodal teve diante de si 1.200 páginas de propostas da escuta que foi feita das comunidades cristãs de toda parte. Nas comunidades indígenas e nas cidades. Essa equipe escreveu o instrumento de trabalho, que ficou pronto em 13 de junho. E do conselho faz parte o padre Justino Tuyuka, único padre indígena do grupo.
É um caminho sinodal, que envolve toda a igreja, a partir das comunidades de base. Dos 390 povos indígenas da Pan-Amazônia, 179 participaram. Aqui em São Gabriel, representantes de todas as 23 etnias participaram.
Amazônia Real – Quais as principais questões levantadas?
Dom Edson – As comunidades que habitam a região amazônica identificaram os seguintes problemas como questões de importância crucial para o Sínodo, por meio de amplo processo de consulta e escuta: a criminalização e assassinato de líderes e ativistas, que defendem territórios e povos indígenas; as práticas predatórias de caça e pesca; as concessões de abate ilegal de árvores; os megaprojetos infraestruturais; concessões de hidrelétricas, monoculturas, projetos mineiros e petrolíferos. A poluição provocada por todas as indústrias, que causa problemas e doenças, em particular a crianças e jovens; o narcotráfico.
Os problemas sociais, como alcoolismo, violência contra a mulher, a exploração sexual; o tráfico de seres humanos; a perda da cultura e identidade. Depois a falta de demarcação de territórios indígenas, a falta de reconhecimento de seu direito a terra. A rápida perda da biodiversidade e as consequências para o planeta, uma vez que a floresta amazônica representa um pulmão vital para a atmosfera. A vida humana e o ambiente estão sofrendo uma séria e, talvez, irreversível destruição.
São Gabriel da Cachoeira tem 23 etnias indígenas
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Amazônia Real –  Dessas questões, quais atingem mais a região de São Gabriel da Cachoeira?

Dom Edson – Em São Gabriel, a violência contra mulheres, contra crianças, abusos sexuais contra menores, o problema do alcoolismo, das drogas. Estamos aqui muito perto da fronteira. E sabemos que muitos indígenas, para sobreviver, colaboram para transportar drogas dos países vizinhos para cá. E, claro, que daqui da nossa região surgiu também esse grito: queremos mais padres e diáconos para atender a nossa comunidade.
Amazônia Real – O senhor está aberto à proposta de que homens casados possam celebrar missas?
Dom Edson – A gente vai propor nesse Sínodo, sem abolir o celibato, a possibilidade de ordenar homens casados. Homens casados que vivam de seu trabalho, com famílias bem constituídas. E, claro, que tenham uma preparação adequada para que possam celebrar a eucaristia nos finais de semana. Estou aberto a essa proposta e vou defendê-la.
As mulheres pedem que tenham espaço maior de participação, que estejam mais presentes não só para executar tarefas, mas nos momentos de decisão. Que elas possam ter ministérios próprios. A gente vai pedir que as mulheres possam receber a ordenação diaconal.
E tudo isso tem um princípio que apareceu nessa consulta para o Sínodo, que é preciso passar de uma Igreja que visita para uma Igreja que permanece. Aqui na nossa região, devido às longas distâncias, os custos de transporte e combustível, os padres visitam quatro vezes por ano as comunidades. Então é uma pastoral de visita. Passar para uma pastoral de presença com as comunidades podendo ter seus ministros ordenados, as mulheres diáconas, os homens presbíteros, celebrando a eucaristia.
Amazônia Real – Essa é uma forma de fazer frente ao avanço da Igreja Evangélica?

Dom Edson – Em algumas regiões, sim. Aqui nem tanto. Temos paróquias aqui, como Taracuá, Pari-Cachoeira e Yauaretê, que são 100% católicas. São acompanhados pela Igreja Católica há mais de 100 anos.
Presentes para o Papa Francisco: cálice e cibório, objetos da Eucaristia, feitos em pau-brasil (Foto: Ana Amélia Hamdan/Amazônia Real)
Amazônia Real – Qual a relação do Papa Francisco com a Amazônia?
Dom Edson – O Papa Francisco (ainda como cardeal arcebispo de Buenos Aires) conheceu sobre a Amazônia em 2007, quando houve a V Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe. Ficaram três semanas em Aparecida (SP) para analisar a situação da Igreja aqui. E ele ficou impressionado diante dos bispos da Amazônia que descreveram uma realidade dramática, pedindo que a Igreja abrisse novos caminhos, que mandasse novos missionários.
E é por isso que o primeiro documento que ele escreveu foi Evangelii Galdium (Alegria do Evangelho) e tem toda a proposta de uma conversão pastoral. A Igreja em saída, que deve ir às periferias geográficas e existenciais. Definiu a igreja como um hospital de campanha, que vai juntar os feridos. É um novo modelo. Isso foi no fim de 2013.
E esse Sínodo vai para a Amazônia, a periferia do Brasil, considerada a despensa, o lugar onde tem reservas intermináveis, onde cada um se julga no direito de vir aqui derrubar quanto quer e com essa economia predatória.
Em 2015 o Papa escreveu o Laudato si‘, o documento ecológico mais completo da Igreja. Esse documento deu um peso muito grande. É o cuidado da Casa Comum. Então esse Sínodo é um novo caminho para a Igreja e para uma ecologia integral.
Amazônia Real – Em seu discurso na ONU, há poucos dias, o presidente Jair Bolsonaro disse que as atuais queimadas na Amazônia são um incidente favorecido pelo clima seco e por práticas da cultura local. Voltou a afirmar que a população indígena pede desenvolvimento. Reforçou que não vai demarcar mais terras. A fala foi duramente criticada por lideranças dos povos indígenas. O que o senhor considera sobre essas posições?
Dom Edson – Isso é lamentável. A figura que o presidente fez na ONU é algo que nos envergonha a todos. Disse coisas, mas aqui é o contrário que está acontecendo. A Igreja não terá medo de dizer a verdade. Nessas três semanas que vai acontecer o Sínodo, em Roma, a Amazônia estará na vitrine do mundo, com jornalistas do mundo inteiro. E são 58 bispos. Iremos para lá, a gente conhece a realidade. Nós moramos aqui. Não somos visitantes e nem viemos aqui para explorar. Viemos para defender. Defender a verdade do evangelho, que deve chegar ao coração de todos, e os direitos humanos, principalmente daqueles mais fragilizados e que são oprimidos e maltratados.
Área degradada pelo fogo em Porto Velho, Rondônia, em 24 de agosto de 2019
(Foto: Victor Moriyama / Greenpeace)

Amazônia Real – O governo Bolsonaro também criticou o Sínodo da Amazônia. Os bispos da Pan-Amazônia divulgaram carta lamentando que, em vez de serem apoiadas, as lideranças estão sendo criminalizadas como inimigos da pátria. O senhor vem sentindo essa tensão no dia a dia?
Dom Edson – Não. Aqui temos um bom diálogo, numa localidade onde 90% da população é formada por povos indígenas. As instituições que estão aqui têm sensibilidade pela situação do povo, tão desassistido e abandonado. Como criticar e falar mal?
Amazônia Real – E sobre os posicionamentos do Governo Bolsonaro, que propõe um modelo desenvolvimentista? Há alguma pressão? 
Dom Edson – Aqui a gente está num lugar privilegiado, pois quase 90% das terras do município de São Gabriel da Cachoeira foram demarcadas e homologadas. Foi uma conquista do povo. A gente pode dizer que nessa região menos de 3% da floresta foi derrubada. É a mais preservada de toda a Amazônia. Porque os povos indígenas estão aqui. Não chegaram madeireiros, nem agronegócio, nem mineradoras. Essas últimas estiveram aqui, mas foram mandadas embora por pressão dos povos indígenas, que perceberam que só traziam malefícios e doenças.
Também há dificuldades. As longas distâncias – são 1.200 km de Manaus até aqui -, o transporte difícil e caro. Depois também a terra da região é arenosa, ácida, não produz muita coisa.
Amazônia Real – E sobre as demarcações especificamente?
Dom Edson – Poucos brancos protestam contra a demarcação. Isso vai se acentuar com o governo que está abrindo campo para esse pessoal. Sentem-se apoiados para fazer isso. A Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), presidida por Marivelton Baré, está bem organizada e está acompanhando.
Amazônia Real – O tema da Sínodo é “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Quais os caminhos os povos indígenas podem indicar quanto à ecologia integral?
Dom Edson – O indígena tem uma relação profunda com a natureza. Com a floresta, com os rios, com os peixes, os animais, as aves. Ecologia integral é um dar-se conta que somos terra, somos água, tudo está interligado. Tudo está interligado nessa casa comum. Os povos têm ligação com a mãe terra. Os rios são as veias. Como vamos poluir o sangue da mãe terra, que é nossa vida.
Dom Edson Damian é Bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Amazônia Real – Sobre qual tema o senhor falará durante o Sínodo?
Dom Edson – Cada bispo tem direito a duas falas de 4 minutos cada uma. Como estou aqui, na diocese mais indígena do Brasil, eu vou defender dois pontos. A inculturação na liturgia, na catequese, nos ministérios da Igreja; e a Igreja Índia Amazônica. São valores dos povos indígenas, suas músicas suas danças, seus ritos que devem entrar nas nossas celebrações.
E no fim do ano, em 14 de dezembro, eu vou ordenar um padre Tukano, em Taracuá. No dia 15, ele vai celebrar a missa totalmente em tucano. E o Sínodo abre esses caminhos. E temos outro padre do povo Baniwa preparando a missa em [na língua] baniwa.
Os valores dos povos indígenas são evidentes. A integração com o meio ambiente, o cuidado de não destruir mais do que precisa para sobreviver, a vida comunitária, a partilha dos alimentos.
Não existe celebração nessas comunidades ribeirinhas onde depois da missa não se faça a partilha dos alimentos, da quinhanpira [prato indígena do Alto Rio Negro]. Já durante a missa eles fazem o dabucuri: eles trazem os seus presentes e fazem questão que o padre leve a farinha, o beiju, a tapioca, banana, abacaxi, frutas da época. A missa que continua na refeição comum. São valores cristãos que os povos indígenas viveram desde sempre.
Amazônia Real – Além da visibilidade dada à Amazônia pelo Sínodo, quais os ganhos os povos indígenas podem ter após o encontro no Vaticano?
Dom Edson – O Sínodo abre novos caminhos para evangelização. O Papa insiste que devemos apresentar propostas criativas e corajosas. Virão propostas para serem aplicadas imediatamente, outras de médio e longo prazo. E o Sínodo tem caráter consultivo. Apresenta-se uma proposta e depois o Papa escreve, colocando coisas novas. Mas o Papa informou que, se houver unanimidade nas propostas, o Sínodo será deliberativo. Ele assina com as propostas dos bispos. Isso é uma novidade.
E também há a conscientização para o cuidado que devemos ter por esse bioma com benefícios para a humanidade e que não podemos destruir com megaprojetos, economia predatória e incêndios, com projetos que vêm de fora, sem consulta aos habitantes daqui, que acabam prejudicados por devastação.
Cientistas dizem que já foram derrubados 20% da Floresta Amazônica. Em algumas regiões, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, 90% da floresta já não existem mais. Se destruir mais 5%, será irreversível. E há todos os benefícios que a Amazônia traz para o Brasil inteiro, como os rios voadores. As chuvas vão da Amazônia para o Sudeste. Vai até o Cone Sul.
Logo após os incêndios do mês de agosto, inclusive como 10 de agosto como o Dia do Fogo, com o pessoal das madeireiras, do agronegócio que combinaram botar fogo junto. O que aconteceu? Ao invés da chuva, uma fumaça densa escureceu São Paulo às 15h.
Encontro do Papa Francisco com os povos da Amazônia, no Peru
(Foto: Andres Valle)
Amazônia Real – O Sínodo para a Amazônia pode ser considerado um movimento de resistência pela proteção à região?
Dom Edson Damian – É um movimento de resistência. Basta! O que se destruiu foi demais. Vamos parar por aqui em nome do equilibro ecológico. Tem um movimento de resistência e é crescente. Os povos indígenas são os primeiros a se manifestar, mesmo com a sociedade brasileira bastante apática. São os primeiros que levantam a voz e, quando vão a Brasília, sabem o que dizer.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Naomi Klein sobre a promessa de um New Deal ambientalista para mudar os EUA. Artigo publicado no The Intercept


" (...) fiquei empolgada com a ousada liderança moral vinda de membros recém-eleitos do Congresso como Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley diante da crise climática em espiral e dos chocantes ataques a migrantes desarmados na fronteira. Isso me fez pensar na diferença crucial entre uma liderança que atua e uma liderança que fala sobre atuação."


Alexandria Ocasio-Cortez fala com ativistas do movimento Sunrise Movement que protestam nos escritórios da líder da minoria da Câmara, Nancy Pelosi, em Washington D.C., em 13 de novembro.

Alexandria Ocasio-Cortez fala com ativistas do movimento Sunrise Movement que protestam nos escritórios da líder da minoria da Câmara, Nancy Pelosi, em Washington D.C., em 13 de novembro.
Foto: Sarah Silbiger/The New York Times via Redux

A promessa de um New Deal ambientalista para mudar os EUA

Naomi Klein — 2 de Janeiro

O New Deal Verde não é enxugar gelo, mas um plano abrangente que busca transformar a sociedade americana para melhor.











The Intercept:


COMO MUITOS OUTROS, fiquei empolgada com a ousada liderança moral vinda de membros recém-eleitos do Congresso como Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley diante da crise climática em espiral e dos chocantes ataques a migrantes desarmados na fronteira. Isso me fez pensar na diferença crucial entre uma liderança que atua e uma liderança que fala sobre atuação.
Vou chegar ao New Deal Verde e por que precisamos nos agarrar a essa corda salva-vidas com todas as forças. Mas, antes disso, me acompanhe em uma visita à grandiosa política climática do passado.
Era março de 2009, e as capas dos heróis ainda estavam esvoaçando em clima de comemoração na Casa Branca depois da histórica vitória eleitoral de Barack Obama. Todd Stern, o recém-nomeado emissário do clima, contou a um grupo no Capitólio que ele e seus colegas negociadores precisavam abraçar seus super-heróis internos, salvando o planeta do perigo existencial em cima da hora.
A mudança climática, disse ele, pedia por “aquela velha sensibilidade das histórias em quadrinhos de se unir diante de um perigo comum ameaçando a Terra. Porque é isso que temos aqui. Não é um meteoro ou um invasor espacial, mas os danos ao nosso planeta, à nossa comunidade, aos nossos filhos e aos filhos deles serão igualmente grandes. Não temos a perder.”
Oito meses depois, na decisiva cúpula climática das Nações Unidas em Copenhague, na Dinamarca, toda a pretensão de super-heroísmo do governo Obama havia sido abandonada sem cerimônia. Stern percorreu os corredores do centro de convenções como a Morte, passando a foice em todas as propostas que resultariam em um acordo transformador. Os EUA insistiram em uma meta que permitiria o aumento da temperatura em 2 graus Celsius, apesar das objeções de muitos delegados africanos e ilhéus do Pacífico que diziam que essa meta equivalia a um “genocídio” e levaria milhões a morrerem em terra ou em barcos afundando. Foram derrubadas todas as tentativas de tornar o acordo juridicamente vinculativo, optando por metas voluntárias inexequíveis (como faria em Paris cinco anos depois).
Stern rejeitou categoricamente o argumento de que os países ricos e desenvolvidos devem compensar os pobres por conscientemente bombear o carbono que está aquecendo a Terra para a atmosfera, usando, em vez disso, fundos tão necessários para a proteção da mudança climática para forçar esses países a se alinharem.
Como escrevi na época, o acordo de Copenhague – preparado a portas fechadas com os países mais vulneráveis deixados de fora – equivalia a um “pacto sujo entre os maiores emissores do mundo: eu finjo que vocês estão fazendo alguma coisa em relação à mudança climática se vocês também fingirem que eu estou. Combinado? Combinado.”
O enviado principal do clima dos EUA, Todd Stern, fala durante uma entrevista coletiva na Cúpula do Clima da ONU em Copenhague, em 9 de dezembro de 2009.
O enviado principal do clima dos EUA, Todd Stern, fala durante uma entrevista coletiva na Cúpula do Clima da ONU em Copenhague, em 9 de dezembro de 2009.

Foto: Claus Bjoern Larsen/POLFOTO via AP
Quase exatamente nove anos depois, as emissões globais continuam a subir, junto com as temperaturas médias, com grandes áreas do planeta atingidas por tempestades recordes e causticadas por incêndios sem precedentes. Os cientistas reunidos no Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática confirmaram exatamente o que os estados africanos e insulares de baixa altitude alertam há muito tempo: que permitir que as temperaturas subam 2 graus é uma sentença de morte, e que apenas uma meta de 1,5 grau nos dá uma chance de lutar. De fato, pelo menos oito ilhas do Pacífico já desapareceram sob os mares em elevação.
Os países ricos não apenas deixaram de lado a tecnologia limpa e negaram ajuda significativa às nações mais pobres para que se protegessem dos extremos climáticos. Na verdade, a Europa, a Austrália e os Estados Unidos reagiram ao aumento da migração em massa – se não causada diretamente, intensificada por estresses climáticos – com força brutal, variando da política “deixe-os afogar” da Itália à guerra cada vez mais real de Trump contra uma caravana desarmada da América Central. Que ninguém se engane: essa barbárie é a maneira como o mundo rico planeja se adaptar à mudança climática.
Hoje em dia, a única coisa que se parece com uma capa de super-herói na Casa Branca são todos aqueles casacos que Melania joga sobre os ombros, misteriosamente recusando-se a usar os orifícios das mangas para o seu propósito planejado. Enquanto isso, o marido dela está ocupado em abraçar seu papel de supervilão climático, aprovando alegremente novos projetos de combustíveis fósseis, estraçalhando o acordo de Paris (afinal, não é legalmente obrigatório, então, por que não?), e pronunciando que uma onda de frio no Dia de Ação de Graças é uma prova positiva de que o planeta não está aquecendo, afinal.
Em suma, o meteoro metafórico que Stern evocou em 2009 não está apenas se aproximando de nosso frágil planeta, ele está passando raspando pelas copas das árvores.
E, no entanto, aqui está o que é realmente estranho: eu me sinto hoje mais otimista em relação às nossas chances coletivas de evitar o colapso climático do que anos atrás. Pela primeira vez, vejo um caminho político claro e crível que poderia nos levar à segurança, a um lugar no qual os piores resultados climáticos são evitados e um novo pacto social é forjado, o que é radicalmente mais humano do que qualquer coisa atualmente em oferta.
Ainda não estamos nesse caminho – muito longe disso. Mas, ao contrário de um mês atrás, o caminho é claro. Começa com o impulso galopante conclamando o Partido Democrata a usar sua maioria na Câmara para criar uma comissão para um New Deal Verde, um plano promovido por Ocasio-Cortez e agora apoiado por mais de 14 deputados.
O texto preliminar pede que a comissão, que seria totalmente financiada e autorizada a elaborar a legislação, passe o próximo ano consultando uma série de especialistas – de cientistas a legisladores locais, passando por sindicatos trabalhistas e líderes empresariais – para mapear um “detalhado plano nacional de mobilização industrial e econômica” capaz de tornar a economia dos EUA “neutra em carbono”, ao mesmo tempo em que promove “justiça econômica e ambiental e igualdade”. Até janeiro de 2020, esse plano seria lançado e, dois meses depois, viria um projeto de lei para transformá-lo em realidade.
Esse prazo inicial de 2020 é importante – significa que os contornos do New Deal Verde estarão concluídos até o próximo ciclo eleitoral dos EUA, e qualquer político que queira ser levado a sério como progressista precisará adotá-lo como peça central de sua plataforma. Se isso acontecer, e o partido no comando do New Deal Verde retomar a Casa Branca e o Senado em novembro de 2020, haveria de fato tempo sobrando no relógio climático para cumprir as duras metas estabelecidas no recente relatório do IPCC, que nos disse que temos apenas 12 anos para reduzir as emissões de combustíveis fósseis em 45%.
Isso, afirma o resumo do relatório em sua primeira frase, não é possível apenas com políticas como impostos sobre a emissão de carbono. Em vez disso, são necessárias “mudanças rápidas, de longo alcance e sem precedentes em todos os aspectos da sociedade”. Ao dar à comissão um mandato que conecta energia, transporte, moradia e construção, bem como assistência médica, salários dignos, garantia de empregos e o imperativo urgente de combater a injustiça racial e de gênero, o plano New Deal Verde estaria mapeando precisamente esse tipo de mudança de longo alcance. Não se trata de uma abordagem fragmentada que aponta uma pistola de água contra um fogo ardente, mas um plano abrangente e holístico para efetivamente apagar o fogo.
Se a maior economia do mundo parecer preparada para demonstrar esse tipo de liderança visionária, outros grandes emissores – como a União Europeia, a China e a Índia – quase que certamente se veriam sob intensa pressão de suas próprias populações para fazerem o mesmo.
AGORA, NADA A RESPEITO do caminho que acabei de descrever é certo ou mesmo provável: A base do Partido Democrata sob Nancy Pelosi provavelmente esmagará a proposta do New Deal Verde, assim como o partido arrasou com as esperanças de acordos climáticos mais ambiciosos sob Obama. Os investidores apostariam no partido fazer pouco mais do que ressuscitar o comitê climático que ajudou a produzir a legislação sobre limitação e comércio no primeiro mandato de Obama, um esquema de mercado mal sucedido e confuso que teria tratado os gases de efeito estufa como abstrações de capitalismo tardio a ser negociado, empacotado e especulado como moeda ou dívida subprime (o motivo pelo qual Ocasio-Cortez está insistindo que os legisladores que aceitam dinheiro de combustível fóssil não devem estar na comissão seleta do New Deal Verde).
E, claro, mesmo que a pressão sobre os legisladores continue aumentando e que os membros da comissão saiam vitoriosos, não há garantia de que o partido reconquistará o Senado e a Casa Branca em 2020.
E, no entanto, apesar de todas essas ressalvas, agora temos algo que estava faltando: um plano concreto sobre a mesa, completo com um cronograma baseado na ciência, que não apenas é proveniente de movimentos sociais de fora do governo, mas que também tem um considerável (e crescente) bloco de defensores comprometidos dentro da Câmara.
Daqui a décadas, se tivermos a sorte de contar uma história emocionante sobre como a humanidade se uniu no momento certo para interceptar o meteoro metafórico, o capítulo central não será o momento cinematográfico altamente produzido de quando Barack Obama ganhou a primária e democrata e disse a uma multidão de adeptos que aquele seria “o momento em que a ascensão dos oceanos começou a desacelerar, e nosso planeta começou a se curar”. Não, será o momento muito menos roteirizado e marcadamente mais sem graça em que um grupo de jovens cansados Sunrise Movement ocupou os escritórios de Pelosi após as eleições de meio de mandato, pedindo que ela apoiasse o plano para um New Deal Verde – com Ocasio-Cortez passando pela ocupação para animá-los.
Ativistas do Sunrise Movement do lado de fora do escritório de Nancy Pelosi em Washington D.C., em 13 de novembro.
Ativistas do Sunrise Movement do lado de fora do escritório de Nancy Pelosi em Washington D.C., em 13 de novembro.

Foto: Briahna Gray/The Intercept
Sei que pode parecer excessivamente otimista investir tanto em uma comissão parlamentar, mas não é a comissão em si a minha principal fonte de esperança. É a vasta infra-estrutura de especialização científica, técnica, política e de movimento pronta para entrar em ação, se dermos os primeiros passos nesse caminho. É uma rede de grupos e indivíduos extraordinários que se mantiveram atentos ao foco e aos compromissos climáticos, mesmo quando nenhuma mídia queria cobrir a crise e nenhum grande partido político queria fazer algo além de fingir preocupação.
É uma rede que vem esperando há muito tempo por finalmente haver uma massa crítica de políticos no poder que entendesse não apenas a urgência existencial da crise climática, mas também a oportunidade única no século que representa, como afirma o projeto de resolução: “eliminar virtualmente a pobreza nos Estados Unidos e tornar a prosperidade, a riqueza e a segurança econômica disponíveis para todos os que participam da transformação”.
O terreno para este momento vem sendo preparado há décadas, com modelos de energia renovável de propriedade da comunidade e controlada pela comunidade; com transições baseadas na justiça que garantem que nenhum trabalhador seja deixado para trás; com uma análise aprofundada das interseções entre racismo sistêmico, conflito armado e perturbações climáticas; com tecnologia verde aprimorada e avanços em transporte público limpo; com o próspero movimento de desinvestimento em combustíveis fósseis; com a legislação modelo impulsionada pelo movimento de justiça climática que mostra como os impostos sobre carbono podem combater a exclusão racial e de gênero e muito mais.
O que está faltando é apenas o poder político de alto nível lançar o melhor desses modelos de uma só vez, com o foco e a velocidade que tanto a ciência quanto a justiça exigem. Essa é a grande promessa de um New Deal Verde abrangente na maior economia do planeta. E ao aumentar a pressão sobre os legisladores que ainda não assinaram o plano, o Sunrise Movement todo o nosso apoio.
É claro que não faltam especialistas em Beltway prontos para rejeitar tudo isso como algo irremediavelmente ingênuo e inviável, o trabalho de neófitos políticos que não entendem a arte do possível ou dos pontos mais sutis da política. O que esses especialistas estão deixando de levar em consideração é o fato de que, ao contrário das tentativas anteriores de introduzir a legislação climática, o New Deal Verde tem a capacidade de mobilizar um movimento de massa verdadeiramente intersecional – não apesar de sua ambição radical, mas precisamente por disso.
Essa é a mudança radical de ter no Congresso representantes enraizados em lutas da classe trabalhadora por empregos com salários dignos e por ar e água não tóxicos – mulheres como Tlaib, que ajudou a lutar uma batalha bem-sucedida contra a tóxica montanha de coque de petróleo da Koch Industries em Detroit.
Quando se faz parte da classe vencedora da economia e é financiado por vencedores ainda maiores, como muitos políticos são, suas tentativas de criar uma legislação sobre o clima provavelmente serão guiadas pela ideia de que a mudança deve ser mínima e o menos desafiadoras possível ao status quo. Afinal, o status quo está funcionando bem para você e seus doadores. Líderes com raízes em comunidades que estão sendo notoriamente reprovados pelo sistema atual, por outro lado, estão liberados para adotar uma abordagem muito diferente. Suas políticas climáticas podem abranger mudanças profundas e sistêmicas – incluindo a necessidade de investimentos massivos em transporte público, moradia acessível e assistência médica –, porque é justamente desse tipo de mudança que suas bases precisam para prosperar.
Como as organizações de justiça climática vêm discutindo há muitos anos, quando as pessoas com mais a ganhar lideram o movimento, elas lutam para vencer.
Outro aspecto revolucionário de um New Deal Verde é que ele é baseado no mais famoso estímulo econômico de todos os tempos, o que o torna à prova de recessão. Quando a economia global entrar em outra recessão, o que certamente irá acontecer, o apoio a esse modelo de ação climática não cairá, como ocorreu com todas as outras grandes iniciativas verdes durante recessões passadas. Em vez disso, o apoio aumentará, uma vez que um estímulo em larga escala se tornará a maior esperança de reviver a economia.
Ter uma boa ideia não é garantia de sucesso, é claro. Mas, pense comigo: se a pressão por uma comissão em tordo de um New Deal Verde for derrotada, os legisladores que quiserem que isso aconteça podem considerar trabalhar com a sociedade civil para estabelecer algum tipo de corpo semelhante a uma assembleia constituinte para elaborar o plano de qualquer maneira, a tempo dele roubar a cena em 2020. Porque essa possibilidade é simplesmente muito importante, e o tempo, curto demais, para permitir que ela seja fechada pelas forças habituais da inércia política.
Conforme os eventos surpreendentes das últimas semanas se desenrolaram, com jovens ativistas reescrevendo as regras do possível dia após dia, eu me vi pensando em outro momento no qual os jovens encontraram sua voz na arena da mudança climática. Foi em 2011, na cúpula anual do clima das Nações Unidas, dessa vez realizada em Durban, na África do Sul. Uma estudante universitária canadense de 21 anos chamada Anjali Appadurai foi escolhida para falar aos presentes em nome (absurdamente) de todos os jovens do mundo.
Ela fez uma fala impressionante e implacável (a que vale a pena assistir na íntegra) que cobriu de vergonha os negociadores reunidos por décadas de inação. “Você vêm negociando a minha vida inteira”, disse ela. “Nesse período, deixaram de cumprir compromissos, não atingiram metas e quebraram promessas. … A maior traição da responsabilidade de geração de vocês em relação à nossa é que vocês chamam isso de “ambição”. Onde está a coragem nessas salas? Agora não é hora de ação incremental. No longo prazo, estes serão vistos como os momentos decisivos de uma era em que o interesse próprio estreito prevaleceu sobre a ciência, a razão e a compaixão comum.”
A parte mais dolorosa do discurso é que nem um único grande governo estava disposto a receber sua mensagem; ela estava gritando no vazio.
Sete anos depois, quando outros jovens estão localizando sua voz e sua raiva climáticas, finalmente há alguém para receber sua mensagem, com um plano real para transformá-la em política. E isso simplesmente pode mudar tudo.
Tradução: Cássia Zanon

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Para jurista, sociólogo e filósofo português Boaventura de Sousa Santos, para escapar da armadilha dizimadora do capitalismo nortista, devemos enxergar o mundo com os olhos do Sul


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Ao inculcar, com agressividade, que não há alternativa a si e a seu modo de vida, capitalismo lança um desafio de morte. Escapar da armadilha requer recorrer às cosmovisões não-eurocêntricas
Por Boaventura de Souza Santos | Imagem: Antún Kojton, Cosmovisão dos tzeltales maias
Fonte do Texto: site Outras Palavras
Os seres humanos vivem dentro e fora da história. É isto o que os distingue dos animais não-humanos. Fazemos história na medida em que resistimos ao que a história faz de nós. Vivemos o que já foi vivido (o passado nunca passa ou desaparece) e o que ainda não foi vivido (o futuro é vivido como antecipação do que em realidade nunca será vivido por nós). Entre o presente e o futuro há um hiato ou um vazio sutil, que permite reinventar a vida, romper rotinas, deixar-se surpreender por novas possibilidades, afirmar, com a convicção do poeta José Régio, “não vou por aí”. O que irrompe é sempre uma interrupção. A vida é a constante recriação da vida. Doutro modo, estaríamos condenados ao Animal Farm de George Orwell, a viver no pântano de só poder pensar o que já foi pensado.
Neste sentido, podemos afirmar que a forma de capitalismo que hoje domina, vulgarmente designada por neoliberalismo, ao inculcar com crescente agressividade que não há alternativa ao capitalismo e ao modo de vida que ele impõe, configura uma proposta necrodependente, uma economia de morte, uma sociedade de morte, uma política de morte, uma convivência de morte, um vício de ver na morte dos outros a prova mais convincente de que estamos vivos.
Os danos que esta proposta está causando já são hoje evidentes. A imaginação e a criatividade que tornam possível a vida estão sendo sequestradas pelas forças necrodependentes. Apesar de tudo que o que existe na história ter um princípio e um fim, é já hoje difícil imaginar que o capitalismo, que teve um princípio, tenha fim. Se tal dificuldade se comprovar inultrapassável, teremos desistido de sair da história para fazer história, teremos assinado os papéis para entrar na animal farm.
A dificuldade é ultrapassável, mas para tal é necessário des-pensar muito do que até agora foi pensado como sendo certo e perene, sobretudo no Norte Global (Europa e América do Norte). O primeiro des-pensamento consiste em aceitar que a compreensão do mundo é muito mais ampla e diversificada que a compreensão ocidental do mundo.
Entre os melhores teóricos do pensamento eurocêntrico da passagem do século XIX para o século XX houve sempre uma grande curiosidade pelo mundo extra-europeu – de Schopenhauer a Carl Jung, de Max Weber a Durkheim –, mas ela foi sempre orientada para compreender melhor a modernidade ocidental e para mostrar a sua superioridade. Não houve nunca o propósito de apreciar e valorizar nos seus próprios termos as concepções do mundo e da vida que se haviam desenvolvido fora do alcance do mundo eurocêntrico, e que dele divergiam.
Em total consonância com o momento culminante do imperialismo europeu (a Conferência de Berlim de 1884-85 repartiu a África pelas potências europeias), tudo o que não coincidia com a cosmovisão eurocêntrica dominante era considerado atrasado e perigoso e, consoante os casos, objeto de missionação, repressão, assimilação. A força desta ideia residiu sempre na ideia da força dos canhões e do comércio desigual que a impuseram.
No momento em que o mundo eurocêntrico dá evidentes sinais de exaustão intelectual e política, abre-se a oportunidade para apreciar a diversidade cultural, epistemológica e social do mundo e fazer dela um campo de aprendizagens que até agora foi bloqueado pelo preconceito colonial do Norte Global, o preconceito de, por ser mais desenvolvido, nada ter a aprender com o Sul Global.
O segundo des-pensamento é que essa diversidade é infinita e não pode ser captada por nenhuma teoria geral, por nenhum pensamento único global capaz de a cobrir adequadamente. São infinitos os saberes que circulam no mundo. A esmagadora maioria da população do mundo gere a sua vida quotidiana segundo preceitos e sabedorias que divergem do saber científico que reputamos ser o único válido e rigoroso. A ciência moderna é tanto mais preciosa quanto mais se dispuser a dialogar com outros conhecimentos. O seu potencial é tanto maior quanto mais consciente estiver dos seus limites.
Do reconhecimento desses limites e da disponibilidade para o diálogo emergem ecologias de saberes, constelações de conhecimentos que se articulam e enriquecem mutuamente para, a partir de uma maior justiça cognitiva (justiça entre saberes), permitir que se reconheça a existência e o valor de outros modos de conceber o mundo e a natureza e de organizar a vida que não se pautam pela lógica capitalista, colonialista e patriarcal que tem sustentado o pensamento eurocêntrico dominante. Não há justiça social global sem justiça cognitiva global. Só assim será possível criar a interrupção que permita imaginar e realizar novas possibilidades de vida coletiva, identificar alternativas reprimidas, descredibilizadas, invisibilizadas, que, em seu conjunto, representam um fatal desperdício de experiência.
Daí o terceiro des-pensamento: não precisamos de alternativas, precisamos de um pensamento alternativo de alternativas. Esse pensamento, ele próprio internamente plural, visa reconhecer e valorizar experiências que apontam para formas de vida e de convivência que, apesar de pouco familiares ou apenas embrionárias, configuram soluções para problemas que cada vez mais afligem a nossa vida coletiva, como, por exemplo, os problemas ambientais. Tais experiências constituem emergências e só um pensamento alternativo será capaz de, a partir delas, construir uma sociologia das emergências. Consideremos o seguinte exemplo.
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Na Nova Zelândia o rio Whanganui foi formalmente declarado uma entidade viva
A natureza como ser vivo digno
Em 15 de março deste ano o Parlamento da Nova Zelândia aprovou uma lei que confere personalidade jurídica e direitos humanos ao rio Whanganui, considerado pelos índios Maori um rio sagrado, um ser vivo que consideram ser seu antepassado. Ao fim de 140 anos de luta, os Maori conseguiram obter a proteção jurídica que procuravam: o rio deixa de ser um objeto de propriedade e de gestão para ser um sujeito de direitos em nome próprio que deve ser protegido como tal. À luz da concepção eurocêntrica de natureza, que assenta na filosofia de Descartes, esta solução jurídica é uma aberração. Um rio é um objeto natural e como tal não pode ser sujeito de direitos. Foi precisamente nestes termos que a oposição conservadora questionou o primeiro-ministro neozelandês. Se um rio não é um ser humano, não tem cabeça, nem tronco, nem pernas, como lhe atribuir direitos humanos e personalidade jurídica? A resposta do primeiro-ministro foi dada em forma de contra-pergunta. E uma empresa tem cabeça, tem tronco, tem pernas? Se não tem, como nos é tão fácil atribuir-lhe personalidade jurídica?
O que está perante nós é a emergência do reconhecimento jurídico de uma entidade a que subjaz uma concepção de natureza diferente da concepção cartesiana que a modernidade ocidental naturalizou como sendo a única concepção possível. Inicialmente, esta concepção estava longe de ser consensual. Basta recordar Espinosa, a sua distinção entre natura naturata e natura naturans e a sua teologia assente na ideia Deus sive natura (deus, ou seja, a natureza). A concepção espinosista tem afinidades de família com a concepção de natureza dos povos indígenas, não só na Oceânia como nas Américas. Estes últimos consideram a natureza como Pachamama, terra-mãe, e defendem que a natureza não nos pertence; nós é que pertencemos à natureza.
A concepção espinosista foi suprimida porque só a concepção cartesiana permitia conceber a natureza como um recurso natural, transformá-la num objeto incondicionalmente disponível à exploração dos humanos. Afinal era esta uma das grandes razões, senão a maior razão, da expansão colonial e a melhor justificação para a apropriação não negociada e violenta das riquezas do Novo Mundo. E para que a apropriação e a violência fossem plenas, os próprios povos indígenas foram considerados parte da natureza. Foi precisa uma encíclica papal (Sublimis Deus, do Papa Paulo III em 1537) para garantir que os índios tinham alma, uma garantia menos generosa do que pode parecer, uma vez que se destinava a justificar a evangelização (se os índios não tivessem alma, como pretender salvá-los?).
A novidade jurídica vinda da Nova Zelândia tem precedentes. A Constituição do Equador de 2008 estabelece no artigo 71 que a natureza, concebida como terra-mãe, é um sujeito de direitos. E uma semana depois da promulgação da lei neozelandesa, o tribunal supremo do Estado de Uttarakhand da Índia decidiu que os rios Ganges e seu afluente Yamuna eram “entidades humanas vivas”. Se levadas à prática, estas decisões estão longe de ser triviais. Significam, por exemplo, que as empresas que contaminam um rio cometem um ilícito criminal e a indenização a que ficam obrigadas será imensamente superior às que hoje pagam – quando pagam. Já em 1944, Karl Polanyi lembrava na sua obra-mestra, A Grande Transformação, que se as empresas capitalistas tivessem de indenizar adequadamente todos os danos que causam aos seres humanos e à natureza deixariam de ser rentáveis.
Estas inovações jurídicas não surgem de concessões generosas das classes dominantes e elites eurocêntricas. São o culminar de processos de luta de longa duração, lutas de resistência contra a exploração capitalista e colonial, imposta como imperativo de modelos de desenvolvimento que, previsivelmente, só beneficiaram os exploradores. O seu carácter de emergências reside no fato de serem aflorações de uma outra relação entre humanos e natureza que pode ser potencialmente decisiva para resolver os graves problemas ambientais com que nos defrontamos. São emergências porque não servem apenas os interesses dos grupos sociais que as promovem, mas antes os interesses globais da população mundial junto com o aquecimento global e as dramáticas consequências que daí advêm. Para lhes dar o crédito que merecem, não podemos nos apoiar no pensamento eurocêntrico hegemônico. Precisamos de um pensamento alternativo de alternativas, a que venho chamando epistemologias do sul.