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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O que são os Paradise Papers e o que revelam. Por Nick Hopkins e Helena Bengtsson, do jornal britânico The Guardian



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Vazamento de milhões de documentos mostra a escala do império offshore e envolve da Rainha da Inglaterra à Apple e Facebook. Questiona-se: tais práticas, hoje legais, são legítimas?

Por Nick Hopkins e Helena Bengtsson, do The Guardian | Tradução: Inês Castilho | Fonte: Outras Palavras
 O que são os Paradise Papers?
O nome refere-se a um vazamento de 13,4 milhões de arquivos, que abrangem o período de 1950 a 2016. A maioria dos documentos – 6,8 milhões – é relativa a um escritório de advocacia e um provedor de serviços corporativos que operavam juntos em 10 jurisdições sob o nome de Appleby. Ano passado, o braço “fiduciário” do negócio foi submetido a uma compra de ações e agora chama-se Estera.
Há também detalhes sobre 19 registros corporativos mantidos por governos em jurisdições sigilosas – Antigua e Barbuda, Aruba, Bahamas, Barbados, Bermudas, Ilhas Cayman, Ilhas Cook, Dominica, Granada, Labuan, Líbano, Malta, Ilhas Marshall, São Kitts e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente, Samoa, Trinidade e Tobago e Vanuatu.
Quantas organizações de mídia examinaram os dados?

The Guardian
 é uma das 96 publicações no projeto. Um total de 381 jornalistas, de 67 países, analisaram o material.

Quem conseguiu os documentos – e como?
Os vazamentos foram obtidos pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que recebeu também os Panama Papers no ano passado. O Süddeutsche Zeitung compartilhou o material com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, uma organização com base nos EUA que coordenou a colaboração global. O Süddeutsche Zeitung não discutiu nem discutirá questões que envolvam as fontes.

Os Paradise Papers têm foco em empresas ou em indivíduos?


Em ambos. 
Eles estão unidos por uma coisa – o dinheiro. Algumas multinacionais gigantes figuram no vazamento, incluindo a Apple, a Nike e o Facebook, assim como pessoas entre as mais ricas do mundo – da Rainha da Inglaterra ao cantor Bono, e a estrelas de Hollywood.
O que mostram os documentos?
Os arquivos mostram que o império offshore é maior e mais complicado do que a maioria das pessoas pensava. E mesmo companhias tais como a Appleby, que se orgulha de ser guardiã das normas do setor, foram denunciadas pelos reguladores que tentam fiscalizar a indústria.
Os arquivos expuseram a miríade de caminhos pelos quais empresas e indivíduos podem evitar os impostos usando estruturas artificiais. Esses esquemas são legais se operados corretamente. Mas muitos parecem não ser. E políticos em todo o mundo estão começando a perguntar se eles poderiam ser proibidos. Eles são justos? São éticos?
Uma questão fundamental colocada pelos Paradise Papers é: a evasão fiscal em todas as suas formas foi muito longe?

O que diz a Appleby?


A empresa negou qualquer malfeito, seja para si mesma ou para qualquer de seus clientes. Mas admitiu não ser infalível e disse que tenta aprender com seus erros. A companhia concordou em participar de qualquer investigação formal que venha a ser feita a partir das revelações. A Estera declinou de comentar.

sábado, 4 de março de 2017

Jeferson Miola: Relato de José Yunes, grande amigo de Temer, esclarece a história do Golpe PSDB-PMDB 2016




por Jeferson Miola
GGN. -No relato ao MP, José Yunes fez revelações esclarecedoras sobre os preparativos do golpe. Sabe-se agora que no processo eleitoral de 2014, Michel Temer e Eduardo Cunha financiaram com propinas as campanhas de 140 deputados oposicionistas que, em contrapartida, assegurariam a eleição de Cunha à presidência da Câmara Federal em fevereiro de 2015.
O depoimento do Yunes é também importante porque elucida o papel do Eliseu Padilha e do doleiro Lúcio Funaro no esquema de Temer e Cunha. Yunes ainda ajuda a entender porque o juiz Sérgio Moro, já em novembro de 2016, atuou como advogado do Temer e anulou as perguntas sobre o próprio Yunes que Cunha direcionou ao presidente usurpador.
Mas as revelações de Yunes ganham maior relevância porque jogam luz nos eventos precedentes da trama golpista, e que eram até então desconhecidos.
Mesmo sendo vice-presidente e candidato à reeleição com Dilma, na eleição de 2014 Temer fez jogo duplo e tomou parte da estratégia conspirativa premeditada com Eduardo Cunha – que foi quem liderou, com Sérgio Cabral e Geddel Vieira Lima, a dissidência peemedebista que aderiu à campanha de Aécio Neves.
Como dissidente, Cunha foi tratado a pão-de-ló por Temer. O plano, como agora se sabe, era eleger uma numerosa bancada de deputados de oposição a Dilma que elegeria Cunha presidente da Câmara Federal, como de fato ocorreu.
Seria ocioso dissertar sobre o poder da presidência da Câmara no acolhimento, no trâmite e, finalmente, na aprovação do impeachment sem fundamento jurídico naquela "assembléia geral de bandidos comandada por um bandido chamado Eduardo Cunha", como a imprensa internacional chamou a sessão da Câmara de 17 de abril de 2016.
O que era suspeita ficou confirmado no relato do Yunes: Temer fez jogo duplo desde o período eleitoral de 2014 até março de 2016, quando anunciou o rompimento formal do PMDB com o governo, passando então a se engajar abertamente – e não mais clandestinamente – no golpe para a deposição da Presidente.
Este período foi marcado por traições e lances folclóricos do Temer, como a falsa neutralidade na eleição para a presidência da Câmara, quando na realidade estava empenhado em eleger Cunha; a sabotagem aos interesses do governo quando Dilma confiou-lhe a tarefa de articulação política; a carta patética com queixas e lamúrias à Dilma, prenunciando a saída do governo; e o agravamento da crise política com o inusitado apelo para se credenciar ao lugar da Presidente – "o país precisa de alguém capaz de reunificar a todos".
É sintomático que, apesar das agressões covardes e canalhices contra a Presidente Dilma, Temer não tenha emitido uma única nota de solidariedade para com sua parceira de governo e chefe constitucional.
Como o Brasil está sob a vigência de um regime de exceção, a denúncia do Yunes não terá os efeitos criminais e políticos que corresponderiam a uma situação de tamanha gravidade, vivesse o país um contexto de normalidade institucional.
Se o Brasil estivesse na plenitude do Estado de Direito, o impeachment fraudulento seria anulado e a Presidente Dilma reconduzida ao cargo para o qual foi eleita com 54.501.118 votos. Temer e Padilha seriam julgados por associação criminosa com Eduardo Cunha e por conspiração para derrubar uma Presidente legitimamente eleita.
Moro, por seu turno, seria demitido do cargo de juiz federal e responderia criminalmente – no mínimo, por prevaricação [sem esquecer a prática corrupta de receber salário acima do teto constitucional].
No contexto do golpe de Estado e do regime de exceção, contudo, a conseqüência máxima da denúncia de Yunes será, se tanto, o afastamento do Padilha, e isso porque sua manutenção no ministério seria de uma indecência insustentável até mesmo para uma oligarquia e uma mídia golpista que perderam todo e qualquer pudor.
Apesar de não gerar as conseqüências devidas, a revelação de Yunes já adquiriu importante valor para a historiografia do golpe; é uma espécie de "wiki leaks" do golpe.
Hoje se sabe que, sem os preparativos armados por Temer e Cunha, a estratégia golpista que foi posta em marcha pelo PSDB, judiciário, MP, PF e pela mídia hegemônica – com a Rede Globo à frente – ficaria seriamente dificultada.


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1 comentário

Comentários

ESPAÇO COLABORATIVO DE COMENTÁRIOS

 
 

É a história definitiva do golpe

Parabéns, meu caro! Esta é a história do golpe, de 2014 a 2016, narrado com uma lucidez extrema, destacando o papel do personagem principal, Michel Temer.
O bom da internet é que, como a circulação das notícias e opiniões não é monopolizada nem filtrada pela grande mídia, se pode chegar a uma versão lúcida da história (ou parte dela) ainda no olho do furacão dos acontecimentos. Antes isto acontecia décadas depois, o que livrava os personagens e a mídia (narradorees) da incoveniência de conviverem com seus atos e mentiras.
Hoje, isto não é mais possível. Para quem é minimamente informado e não fecha os olhos diante da verdade (como certa classe média moralista-morista) a mídia e os políticos de golpe se desmoralizaram antes de o consolidarem. Estamos na era da mentira (pós-verdade), mas[...]ver mais

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016:o ano em que, por meio de uma corja de corruptos, sua mídia e midiotas, se tentou matar a esperança do povo brasileiro. Texto de Leonardo Boff

   "A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja (esse é o nome) de políticos, em sua grande maioria corruptos ou acusados de tal, que, de forma desavergonhada, se pôs a serviço dos verdadeiros forjadores do golpe perpretado contra a Presidenta Dilma Rousseff: a velha oligarquia do dinheiro e do privilégio que jamais aceitou que alguém do andar de baixo chegasse a ser Presidente do Brasil e fizesse a inclusão social de milhões dos filhos e filhas da pobreza."


Foto: Jornal GGN

Texto de Leonardo Boff:

A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja (esse é o nome) de políticos, em sua grande maioria corruptos ou acusados de tal, que, de forma desavergonhada, se pôs a serviço dos verdadeiros forjadores do golpe perpretado contra a Presidenta Dilma Rousseff: a velha oligarquia do dinheiro e do privilégio que jamais aceitou que alguém do andar de baixo chegasse a ser Presidente do Brasil e fizesse a inclusão social de milhões dos filhos e filhas da pobreza.

         Obviamente há politicos valorosos e éticos, bem como empresários da nova geração, progressitas que pensam no Brasil e em seu povo. Mas estes não conseguiram ainda acumular força suficiente para dar outro rumo à politica e um sentido social ao Estado vigente, de cariz neoliberal e patrimonialista.

         Ao se referir à corrupção todos pensam logo no Lava Jato e na Petrobrás. Mas esquecem ou lhes é negada, intencionalmente pela mídia conservadora e legitimadora do establishment, a outra corrupção, muito pior, revelada exatamente no dia de Natal que junto com o nascimento de Cristo se narra a matança de meninos inocentes pelo rei Herodes, hoje atualizado pelos corruptos que delapidam o país (O Estado de São Paulo 25/12/2016).

         Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, nos revela que nos últimos treze anos esquemas de corrupção, de fraudes e desvios de recursos da União, repassados aos Estados, municípios e ONGs e direcionados a pequenos municípios com baixo Indice de Desenvolvimento Humano podem superar um milhão de vezes o rombo na Petrobrás descoberto na Lava Jato. São 4 bilhões mas camuflados que podem se transformar, num estudo econométrico, em um trilhão de reais. As áreas mais afetadas são a saúde (merenda) e a educação (abandono das escolas).

       Diz o Secretário: “A gente chama isso de assassinato da esperança. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e a longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”.

         A nação precisa saber desta matança e não se deixar mentir por aqueles que ocultam, controlam e distorcem as informações porque são anti-sistêmicas.

         Mas não se pode viver só de desgraças que macularam grande parte do ano de 2016. Voltemo-nos para aquilo que nos permite viver e sonhar: a esperança.

         Para entender a esperança precisamos ultrapassar o modo comum de vermos a realidade. Pensamos que a realidade é o que está aí, dado e feito. Esquecemos que o dado é sempre feito e não é todo o real. O real é maior. Pertence ao real também o potencial, o que ainda não é e que pode vir a ser. Esse lado potencial se expressa pela utopia, pelos sonhos, pelas projeções de um mundo melhor. É o campo onde floresce a esperança. Ter esperança é crer que esse potencial pode se transformar em real, não automaticamente, mas pela prática humana. Portanto, a utopia que alimenta a esperança não se antagoniza com a realidade. Ela revela seu lado potencial, o abscôndito que quer vir para fora e fazer história.

         Faço meu o lema do grande cientista e físico quântico Carl Friedrich von Weizsäcker cuja sociedade fundada por ele me honrou em final de novembro em Berlim com um prêmio pelo intento de unir o grito da Terra com o grito do pobre:”não anuncio otimismo, mas esperança”.

         Esperança é um bem escasso hoje no mundo inteiro e especialmente no Brasil. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do povo brasileiro. As medidas tomadas só penalizam as grandes maiorias que veem as conquistas sociais históricas sendo literalmente desmontadas.

         Aqui nos socorre o filósofo alemão (Ernst Bloch) que introduziu o “princípio esperança”. Esta, a esperança, é mais que uma virtude entre outras. É um motor que temos dentro de nós que alimenta todas as demais virtudes e que nos lança para frente, suscitando novos sonhos de uma sociedade melhor.

        Esta esperança vai fornecer as energias para a população afetada poder resisitir, sair às ruas, protestar e exigir mudanças que façam bem ao país, a começar pelos que mais precisam.

         Como a maioria é cristã valem as palavras do sábio Riobaldo de Guimarães Rosa:”Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve…Tendo Deus é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim, dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma”.

         Ter fé é ter saudades de Deus. Ter esperança é saber que Ele está ao nosso lado, ainda que invisível, fazendo-nos esperar contra toda a esperança.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escreveu Teologia da libertação e do cativeiro, Vozes 2014.

sábado, 10 de setembro de 2016

Pressão total dos golpistas sobre o usurpador

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Pressão total sobre Temer.... Texto de Fernando Brito
Michel Temer foi colocado no Planalto para fazer a degola dos direitos sociais e dos serviços públicos.
Michel Temer foi colocado no Planalto para acabar “com essa porra aí” da Lava Jato.
Michel Temer foi colocado no Planalto porque isso marcaria a “retomada econômica” e traria uma enxurrada de dólares ao país.
Michel Temer foi colocado no Planalto para dar fim à esquerda como força política viável no país.
Segunda-feira completam-se quatro meses do dia em que Michel Temer foi colocado no Planalto e nada disso aconteceu.
Pior, foram se erodindo as condições de que ele faça qualquer das coisas para que foi guindado, sem votos, ao comando formal do país.
Os que o colocaram lá estão insatisfeitos com o que ele ainda não fez e os que ficaram insatisfeitos por o colocarem lá estão ainda mais mobilizados e ativos.
Por isso, a cassação de Eduardo Cunha, marca para o mesmo dia dos quatro meses de Temer tem contornos dramáticos.
Os tucanos o querem fora já, certos de que sem ele conseguem o controle hegemônico sobre o presidente.
O presidente preferiria que a novela se arrastasse mais, mas não tem condições de articular isso.
Os dentes vão se mostrar, não demora.
Cobram-lhe o massacre e o massacre virá.
Temer não pode mais cozinhar-se em fogo brando.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Filho de envolvido no escândalo do Banestado agride Letícia Sabatella, por Bob Fernandes

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Leio que Gustavo Abagge é o cara que chamou Leticia Sabatella de "puta" na manifestação de Curitiba. Gustavo seria filho de Nicolau Elias Abagge, ex-presidente do Banestado, do Paraná.

Na farra das contas CC-5 este banco, entre outros, tornou-se símbolo de lavanderia de dinheiro porco; sonegado, na melhor das hipóteses. Por ele, e outros, fortunas — me lembro de certo Bilhão — eram enviadas para paraísos fiscais.

Quem conheceu as listas de dinheiro enviado pra fora via gambiarras nas CC-5 sabe que muitos do que agora bradam, e vários dos que mancheteiam contra a "córrupissão" estavam naquela farra.



Conheci tais listas porque em 34 páginas escrevi, em Maio de 98, a única edição extra de Carta Capital, "Brasil: a maior lavagem de dinheiro do mundo". Tratava desse tema, toda a edição.

Lembrar daquela longa apuração e ver certos tipos pontificando sobre "ética" nas ruas, mídias e redes, provoca engulhos: como conseguem ser tão cínicos, tão hipócritas?

Mas voltando à Sabatella, aos zurros curitibanos, e ao cara que é filho do cara, uma constatação: a neurociência avançou barbaridades, a farmacopéia idem, mas o velho e bom Freud ainda explica muito...

Bob Fernandes

terça-feira, 7 de junho de 2016

Como duas pesquisadoras estão derrubando clichês sobre a política no Brasil

Nara Pavão e Natália Bueno: pesquisadoras questionam chavões da política no Brasil
O brasileiro é racista e privilegia candidatos brancos ao votar. Políticos corruptos se mantêm no poder porque o eleitor é ignorante. Quem recebe Bolsa Família é conivente com o governo. ONGs são um ralo de dinheiro público no Brasil. Será?


 Texto de Thiago Guimarães, na BBC Brasil, em Londres

A julgar pelos estudos de duas jovens pesquisadoras brasileiras em ciência política, não.

Natália Bueno e Nara Pavão, ambas de 32 anos, se destacam no meio acadêmico no exterior com pesquisas robustas que desmistificam chavões da política brasileira que alimentam debates em redes sociais e discussões de botequim.

Natural de Belo Horizonte (MG), Natália faz doutorado em Yale (EUA), uma das principais universidades do mundo. Em pouco mais de oito anos de carreira, acumula 13 distinções acadêmicas, entre prêmios e bolsas.

A pernambucana Nara é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Vanderbilt (EUA). Soma um doutorado (Notre Dame, EUA), dois mestrados em ciência política (Notre Dame e USP), 16 distinções.

Em comum, além da amizade e da paixão pela ciência política, está o interesse das duas em passar a limpo "verdades absolutas" sobre corrupção, comportamento do eleitor e políticas públicas no Brasil.

Eleitor é racista?

O Brasil é um país de desigualdades raciais — no mercado de trabalho, no acesso à educação e à saúde. Atraída pelo tema desde a graduação, Natália Bueno verificou se isso ocorre também na representação política.

O primeiro passo foi confirmar o que o senso comum já sugeria: há, proporcionalmente, mais brancos eleitos do que na população, e os negros são subrepresentados. Por exemplo, embora 45% da população brasileira (segundo o IBGE) se declare branca, na Câmara dos Deputados esse índice é de 80%.

E como a diferença foi mínima na comparação entre população e o grupo dos candidatos que não se elegeram, a conclusão mais rasteira seria: o brasileiro é racista e privilegia brancos ao votar.
politica
Abertura dos trabalhos no Congresso em 2016; pesquisa investigou desigualdade racial na política nacional
Para tentar verificar essa questão de forma científica, Natália montou um megaexperimento em parceria com Thad Dunning, da Universidade da Califórnia (Berkeley). Selecionou oito atores (quatro brancos e quatro negros), que gravaram um trecho semelhante ao horário eleitoral. Expôs 1.200 pessoas a essas mensagens, que só variavam no quesito raça.

Resultado: candidatos brancos não tiveram melhor avaliação nem respondentes privilegiaram concorrentes da própria raça nas escolhas.

Mas se a discrepância entre população e eleitos é real, onde está a resposta? No dinheiro, concluiu Natália - ela descobriu que candidatos brancos são mais ricos e recebem fatia maior da verba pública distribuída por partidos e também das doações privadas.

A diferença média de patrimônio entre políticos brancos (em nível federal, estadual e local) e não brancos foi de R$ 690 mil. E em outra prova do poder do bolso nas urnas, vencedores registraram R$ 650 mil a mais em patrimônio pessoal do que os perdedores.

Políticos brancos também receberam, em média, R$ 369 mil a mais em contribuições de campanha do que não brancos. A análise incluiu dados das eleições de 2008, 2010 e 2014.

"Se a discriminação tem um papel (na desigualdade racial na representação política), ela passa principalmente pelas inequidades de renda e riqueza entre brancos e negros que afetam a habilidade dos candidatos negros de financiar suas campanhas", diz.

Corruptos estão no poder por que o eleitor é ignorante?

A corrupção é um tema central no debate político atual no Brasil. E se tantos brasileiros percebem a corrupção como problema (98% da população pensa assim, segundo pesquisa de 2014), porque tantos políticos corruptos continuam no poder?

A partir de dados de diferentes pesquisas de opinião — entre elas, dois levantamentos nacionais, com 2 mil e 1,5 mil entrevistados —, a recifense Nara Pavão foi buscar respostas para além do que a ciência política já discutiu sobre o tema.
politica
Ato contra corrupção no Congresso em 2011; estudo investiga por que corruptos se mantêm no poder
Muitos estudos já mostraram que a falta de informação política é comum entre a população, e que o eleitor costuma fazer uma troca: ignora a corrupção quando, por exemplo, a economia vai bem.

"Mas para mim a questão não é apenas se o eleitor possui ou não informação sobre políticos corruptos, mas, sim, o que ele vai decidir fazer com essa informação e como essa informação vai afetar a decisão do voto", afirma a cientista política.

A pesquisa de Nara identificou um fator chave a perpetuar corruptos no poder: o chamado cinismo político — quando a corrupção é recorrente, ela passa ser vista pelo eleitor como um fator constante, e se torna inútil como critério de diferenciação entre candidatos.

Consequência: o principal fator que torna os eleitores brasileiros tolerantes à corrupção é a crença de que a corrupção é generalizada.

"Se você acha que todos os políticos são incapazes de lidar com a corrupção, a corrupção se torna um elemento vazio para você na escolha do voto", afirma Nara, para quem o Brasil está preso numa espécie de armadilha da corrupção: quão maior é a percepção do problema, menos as eleições servem para resolvê-lo.

Quem recebe Bolsa Família não critica o governo?

O programa Bolsa Família beneficia quase 50 milhões de pessoas e é uma das principais bandeiras das gestões do PT no Planalto. Até por isso, sempre foi vitrine — e também vidraça — do petismo.

Uma das críticas recorrentes pressupõe que o programa, para usar a linguagem da economia política, altera os incentivos que eleitores têm para criticar o governo.

Famílias beneficiadas não se preocupariam, por exemplo, em punir um mau desempenho econômico ou a corrupção, importando-se apenas com o auxílio no começo do mês.
politica
Material de campanha em dia de votação em São Paulo em 2012; receber benefícios do governo não implica
em conivência com Poder Público, conclui estudo
Deste modo, governos que mantivessem programas massivos de transferência de renda estariam blindados contra eventuais performances medíocres. Seria, nesse sentido, um arranjo clientelista — troca de bens (dinheiro ou outra coisa) por voto.

Um estudo de Nara analisou dados do Brasil e de 15 países da América Latina que possuem programas como o Bolsa Família e não encontrou provas de que isso seja verdade.

"Em geral, o peso eleitoral atribuído à performance econômica e à corrupção do governo é relativamente igual entre aqueles que recebem transferências de renda e aqueles que não recebem", afirma.

A conclusão é que, embora esses programas proporcionem retornos eleitorais para os governantes de plantão, eles não representam — desde que sigam regras rígidas — incentivo para eleitores ignorarem aspectos ddo desempenho do governo.

ONGs são ralo de dinheiro público?

Organizações de sociedade civil funcionam como um importante instrumento para o Estado fornecer, por meio de parcerias e convênios, serviços à população.

Diferentes governos (federal, estaduais e municipais) transferem recursos a essas entidades para executar programas diversos, de construção de cisternas e atividades culturais.

Apenas em nível federal, essas transferências quase dobraram no período 1999-2010: de RS$ 2,2 bilhões para R$ 4,1 bilhões.
ONGs
Cisterna em Quixadá (CE), em serviço que costuma ser delegado a organizações civis; pesquisadora estudou
distribuição de recursos públicos para essas entidades
Esse protagonismo enseja questionamentos sobre a integridade dessas parcerias — não seriam apenas um meio de canalizar dinheiro público para as mãos de ONGs simpáticas aos governos de plantão?

Com o papel dessas organizações entre seus principais de interesses de pesquisa, Natália Bueno mergulhou no tema. Unindo métodos quantitativos e qualitativos, analisou extensas bases de dados, visitou organizações e construiu modelos estatísticos.

Concluiu que o governo federal (ao menos no período analisado, de 2003 a 2011) faz, sim, uma distribuição estratégica desses recursos, de olho na disputa política.

"A pesquisa sugere que governos transferem recursos para entidades para evitar que prefeitos de oposição tenham acesso a repasses de recursos federais. Outros fatores, como implementação de políticas públicas para as quais as organizações tem expertise e capacidade únicas, também tem um papel importante."

Ela não encontrou provas, porém, de eventual corrupção ou clientelismo por trás desses critérios de escolha — o uso das ONGs seria principalmente parte de uma estratégia político — eleitoral, e não um meio de enriquecimento ilícito.

"Esse tipo de distribuição estratégica de recursos é próprio da política e encontramos padrões de distribuição semelhantes em outros países, como EUA, Argentina e México", diz Natália.

Corrupção é difícil de verificar, mas a pesquisadora usou a seguinte estratégia: comparou ONGs presentes em cidades com disputas eleitorais apertadas, checou a proporção delas no cadastro de entidades impedidas de fechar parcerias com a União e fez uma busca sistemática por notícias e denúncias públicas de corrupção.

De 281 ONGs analisadas, 10% estavam no cadastro de impedidas, e apenas uma por suspeita de corrupção.

Thiago Guimarães
No BBC Brasil em Londres

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O esfarelamento do governo ilegítimo, por José Carlos Ruy

Puft! Temer se supera!

O governo interino e ilegítimo de Michel Temer é uma ilustração, revisada, daquilo que foi descrito por Antônio Vieira no Sermão do Bom Ladrão, pronunciado por ele na Igreja da Misericórdia de Lisboa, em 1655.

Os acontecimentos dos últimos dias confirmam as denúncias feitas por analistas sérios desde os primeiros rumores de um golpe jurídico-midiático-parlamentar em andamento – seu objetivo era entregar o controle do governo federal, e dos recursos financeiros controlados por ele, à especulação financeira e rentista, e estancar a “sangria” (como disse Romero Jucá) da operação Lava Jato que atinge os políticos golpistas da direita e da oposição ao projeto representado por Luís Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e os partidos ligados ao povo e aos trabalhadores.

Naquele sermão, pronunciado há mais de 360 anos, padre Vieira contou duas histórias memoráveis. Numa delas Alexandre o Grande e sua frota andavam pelo mar e aprisionaram um pirata que vivia de assaltos feitos com um pequeno barco, e a conversa entre eles é reveladora. Disse o pirata: eu, que roubo com um pequeno barco, sou ladrão; e você, que rouba com uma grande frota, é imperador!

A outra história é a do filósofo Diógenes, que viveu na Grécia antiga. Ao ver uma tropa levando um prisioneiro para ser enforcado, ele começou a gritar: lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos...

São histórias que ajudam a entender o golpe midiático-judicial-parlamentar, com uma correção que aprofunda a compreensão da ilegalidade em curso – as expressões “piratas” e “pequenos ladrões” devem ser substituídas, hoje, por “uma inocente”, pois não há crime cometido pela presidenta Dilma Rousseff.

Já o interino Michel Temer e os ocupantes que nomeou para os ministérios... As acusações contra eles se multiplicam (como se viu com a divulgação de conversas gravadas por Sério Machado, ex-diretor da Transpetro), e já levaram à queda (em três semanas de interinidade...) de dois ocupantes de ministérios – Romero Jucá (dia 24), obrigado a se afastar do estratégico ministério do Planejamento, e Fabiano Silveira (dia 30), do chamado ministério da Transparência, Fiscalização e Controle.

A prisão nesta terça-feira (31), pela Polícia Federal, de Nárcio Rodrigues, ex-presidente do PSDB de Minas Gerais, e fortemente ligado ao tucano Aécio Neves, é outro cravo pregado no caixão da narrativa “anti-corrupção” alardeada pelos golpistas. Essa prisão atinge diretamente o tucano mineiro derrotado na eleição de 2014.

É mais um corte cirúrgico na “verdadeira autópsia” da conspiração golpista, como a chamou o dirigente comunista Renato Rabelo.

A própria mídia golpista já acendeu a luz amarela ante o esfarelamento do governo ilegítimo de Michel Temer.

A “sangria” descrita por Romero Jucá, na conversa divulgada, não para, e aumenta a percepção da ilegitimidade do exercício do governo por Michel Temer e sua súcia de “auxiliares”. E alarma os comentarias que, na mídia golpista, tentaram adubar o terreno do golpe. E depois, através da adesão e do silêncio, se esforçaram por apresentar o golpe como algo ocorrido dentro da legalidade constitucional. Não foi – foi golpe: esta é a narrativa correta, que assim descreve a tomada do poder pela direita brasileira, narrativa que se fortalece no Brasil e no mundo.

O tucano Fernando Henrique Cardoso teve que recolher suas plumas, sem coragem para enfrentar a denúncia contra o golpe, e fugiu ao seminário da Latin American Studies Association (LASA), em Nova York, neste sábado (28), depois de saber que 499 associados rejeitavam sua participação, e que estava programado um escracho contra ele (e que aconteceu, mesmo em sua ausência...). Os cientistas sociais lá reunidos protestavam contra o golpe no Brasil, e contra o papel que Fernando Henrique Cardoso desempenhou na conspiração contra a democracia.

Essa sangria desatada, que fragiliza ainda mais o combalido governo ilegítimo dirigido por Michel Temer, permite entender o ar de desalento que começa a aparecer na mídia golpista.

Um exemplo é o texto publicado hoje (31) em O Estado de S. Paulo pela sôfrega Eliane Cantanhêde. Ela tem a cara de pau de pedir, em favor do o governo ilegítimo, algo rejeitou enfaticamente para o exercício legal do mandato de Dilma Rousseff – uma trégua!

Ela tem a pretensão de que a sociedade brasileira desista de protestar contra o golpe e dê uma chance – a tal trégua – para que o impostor Michel Temer coloque em prática os planos antipopulares, antidemocráticos e antinacionais previstos pela conspiração golpista. O título da arenga pró Temer escrita por ela implica, em si mesmo, uma confissão. Diz ele: “Ruim com ele, pior sem ele”.

De fato, Cantanhêde parece mesmo entender de ruim e pior – ela foi uma notória trombeta do “quanto pior melhor” contra Dilma Rousseff...

Não haverá trégua possível – ao contrário de Fernando Henrique Cardoso e daqueles que o cercam, os brasileiros não fogem à luta. Denunciam e se mobilizam contra o golpe e só há um caminho que pode deter o protesto: a volta da democracia, da ordem legal e constitucional violada pelos golpistas, e o retorno de Dilma Rousseff para completar, em novas e mais avançadas bases, o mandato para o qual ela foi eleita por 54,5 milhões de brasileiros.

José Carlos Ruy