CRÉDITOS
Direção Geral: Bob Fernandes
Direção Executiva: Antonio Prada
Edição: Yuri Rosat
Câmera: Miguel Breyton
Som: Miguel Breyton
Arte e Vinhetas: Lorota
Música de abertura e encerramento: Gabriel Edé
Este é o canal de Bob Fernandes. Vídeos novos todas terças e quintas, sempre, e demais postagens a qualquer momento necessário.
Bolsonaro se expressa em um idioma parecido com o português. A expressão "INACREDITÁVEL" parece fazer parte de nosso cotidiano quando o tema é a Presidência da República. Se ele quer dizer aquilo que escutamos, o caso é grave: ele tem plena consciência e comete reiterados crimes ou tem problemas psiquiátricos graves e não tem condições de exercer com plenitude mental o cargo que ocupa. Erguendo a taça da insanidade num pódio com mais de 163 mil corpos, ele continua brincalhão e alheio ao sofrimento de tantos.
Rodrigo Maia é o líder do Twitter. Passa longe de alguma autoridade republicana! Montado numa montanha de pedidos de impeachment, assiste ao Nero piromaníaco de tanga atear fogo no Brasil. Sócio ideológico de Guedes, Maia não quer diminuir a marcha da entrega do país! O Brasil fica assim, refém de um infortúnio surrealista. Há uma terceira hipótese que combinaria as duas citadas anteriormente. Teremos desse modo uma criatura que embora possua consciência de seus atos, não sente nada em relação às suas consequências configurando um quadro de psicopatia e delinquência criminal consciente.
O caso ANVISA é da maior gravidade. A instituição emitiu pronunciamento colocando em xeque a vacina desenvolvida em SP, ato de numa irresponsabilidade criminosa. Bolsonaro comemorou a tragédia como alguém que celebra um peixe pescado. Enquanto isso o Amapá continua como uma sucursal piorada da atacada Venezuela. Parabéns ao governo do "Mito". Junto com seu Guia Laranja acumulam mais de 400 mil vítimas da pandemia.
Na solenidade envolvendo o setor do turismo, Bolsonaro desfilou sua aparente insanidade ao atacar tudo e a todos. Sobrou até para o Governo recém eleito nos EUA. A ameaça de reação bélica ganhou a chacoteação universal.
Enquanto isso, seus filhos continuam a zelar pelo interesse público (será?). A proximidade dos pimpolhos com jogos e armas é apenas mais um capítulo mórbido de gente sem noção no poder. Biden que se cuide! Nosso Capitão está solto e sem camisa de força!
Essa EMBRAER, orgulho nacional, seria comprada pela bagatela de 4,2 bilhões de dólares. Esse montante corresponde atualmente a 1/5 do mínimo estimado em perdas pela Boeing decorrentes de encomendas que poderão ser canceladas de aviões 737
Na sequência da fusão entre a Airbus e a Bombardier, a Boeing propôs à EMBRAER a criação de uma nova empresa, a Boeing Brasil da qual 80% pertenceria à Boeing e 20% à EMBRAER tendo em vista um melhor posicionamento no mercado. A porção militar da EMBRAER ficou de fora da fusão por interferência da Aeronáutica, mas toda a parte da aviação civil, produtora de tecnologia de ponta, florão da indústria nacional, deveria ser englobada pelo então gigante americano Boeing.
Essa EMBRAER, orgulho nacional, seria comprada pela bagatela de 4,2 bilhões de dólares. Esse montante corresponde atualmente a 1/5 do mínimo estimado em perdas pela Boeing decorrentes de encomendas que poderão ser canceladas de aviões 737 Max que talvez não venham mais a ter autorização para voar e se acumulam às centenas nos pátios da empresa nos Estados Unidos (400 aviões)… Como as perdas para a empresa não se limitam ao cancelamento dessas encomendas, isso significa risco real de que a EMBRAER talvez esteja sendo fundida à potencial massa falida da Boeing, ou sendo tragada num sumidouro de dimensões bilionárias.
A Boeing começou a ser desmascarada por suas práticas inseguras após dois acidentes recentes que mataram centenas de pessoas. O primeiro ocorreu em 29 de agosto de 2018 na Indonésia e derrubou um avião da Lion Air deixando 189 mortos e o segundo ocorreu em 10 de março de 2019 e derrubou um jato da Ethiopian Air Lines deixando 157 mortos.
Os problemas
A Boeing tem hoje em torno de 400 aviões 737 Max estocados em seus hangares e pátios, sem autorização para entregá-los. O valor de cada um deles gira entre 55 e 100 milhões de dólares, o que aponta para um prejuízo caso o modelo não seja mais autorizado a voar superior a 20 bilhões de dólares (clique aqui)
Mas os problemas não param por aí. O ano de 2019 foi o pior dos últimos 30 anos para a empresa e os cancelamentos de pedidos foram maiores do que as encomendas que bateram recorde negativo.
Diversas empresas de aviação pelo mundo estão cancelando seus voos em virtude de preverem que não poderão voar com os seus 737 Max e serão milhares de voos cancelados. Isso significa, para além do prejuízo com os aparelhos cujas encomendas estão sendo canceladas, prováveis indenizações milionárias em virtude desses prejuízos de terceiros em dominó. E essa crise com as companhias de aviação não se resolverá apenas com uma autorização legal de voo para o 737 Max, (que talvez não venha) pois as empresas aéreas poderão desistir dele e seus passageiros poderão não mais querer voar nessas aeronaves.
O quadro mergulha suas raízes em algo que pode ser considerado ao menos como falta de transparência (para dizer o mínimo), pois o MCAS, um sistema de estabilização auxiliar do 737 Max, cuja existência se devia a necessidades suplementares de estabilização, era comumente desconhecido dos pilotos (clique aqui) e a Boeing, no caso da Lion Air, zombou da empresa informando que eram desnecessário treinamentos específicos para os pilotos.
A homologação pelos órgãos de controle americanos foi estranhamente facilitada o que gerou a abertura de um processo contra a empresa no Departamento de Justiça daquele país, (clique aqui).
Esse projeto inseguro e pouco transparente matou centenas de pessoas em acidentes, portanto, razoavelmente previsíveis, pois sabe-se agora que os funcionários da Boeing, para além de tudo, consideravam que o projeto havia sido feito por palhaços, tão baixa era a sua credibilidade (clique aqui).
Mas as desventuras em série não param por aí. A tão esperada cápsula da Boeing, a Starliner, encomendada pela NASA para o transporte regular de passageiros ao espaço, falhou no seu teste de dezembro adiando a conclusão do projeto e obrigando a empresa a mais despesas e testes.
No dia 14 de janeiro, por problemas de motor um outro Boeing despejou toneladas de combustível em cima de uma escola nos Estados Unidos afetando, segundo a imprensa americana 31 pessoas em terra.
Como não poderia deixar de ser, segundo a Bloomberg, a Boeing estaria atualmente negociando um empréstimo milionário em meio à crise com o 737 Max, o que obviamente sinaliza para riscos financeiros reais, caso os bancos não considerem seguro emprestar a uma empresa que talvez deva provar melhor a sua capacidade de se sustentar.
Diversos analistas acreditam que a Boeing será salva pelo governo americano, pois só ela fabrica certos componentes cruciais para a defesa. Mas o governo americano poderia salvar apenas a divisão militar, menos afetada pela crise do que a da aviação civil. E esse é um problema para nós porque a nossa EMBRAER foi comprada justamente para integrar o segmento da aviação civil da Boeing.
A crise da empresa é tão profunda que a JP Morgan estima que o impacto da decomposição da Boeing venha a gerar impacto da ordem de 0,6% do PIB nos Estado Unidos…
Todas essas questões interferem diretamente no negócio, ocorreram posteriormente às tratativas com a EMBRAER, são supervenientes, e não podem, obviamente, deixar de ser consideradas na autorização da fusão das duas empresas pelo CADE sob pena de risco de grave lesão aos interesses brasileiros.
O CADE simplesmente não pode mais, não tem mais direito de autorizar a fusão da EMBRAER com a Boeingporque as circunstâncias mudaram radicalmente!
Essa não é uma questão direita/esquerda. Trata-se da defesa do patrimônio nacional e de assegurar um lugar decente para o Brasil no contexto da produção de ciência e tecnologia aeroespacial.
Na entrevista de Sebastião Salgado ao Le Monde Diplomatique, o fotógrafo se manifesta em relação ao governo de Jair Bolsonaro: “O governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai e o Ibama”.
Quando estava fotografando os cantos mais inóspitos da Terra para a concepção do livro Gênesis, publicado em 2013, Sebastião Salgado ficou impressionado ao visitar a Amazônia, sobretudo no contato com algumas tribos indígenas. Naquele momento, a obra, que serviu como uma homenagem ao planeta, com imagens de lugares não modificados pelo homem, foi o ensejo para o trabalho que segue em andamento, sobre a Amazônia.
Nos últimos sete anos, o fotógrafo visitou comunidades isoladas para compreender, entre outras coisas, que não somos diferentes dos indígenas que estão na mata. “Quando, pela primeira vez, fui trabalhar com uma comunidade indígena, imaginei que o contato seria difícil. Não falava a língua, são pessoas isoladas. Com menos de um dia eu já tinha me adaptado, porque tudo que é essencial para mim é essencial para eles. Os sentimentos são os mesmos, a relação comunitária, a solidariedade, o amor, a tristeza, o ódio”, conta.
Além do Brasil, Salgado esteve em países como Colômbia e Peru para registrar a vida de índios isolados. Sem premeditar o futuro reservado ao Brasil, o fotógrafo é dono de um arquivo com imagens que mostram uma floresta hoje aniquilada pelo fogo que consome a região nos últimos meses. A entrevista, feita antes dos incêndios, não diminui o ceticismo que o fotógrafo manifesta em relação ao governo de Jair Bolsonaro (PSL): “O governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai e o Ibama”.
Ao Le Monde Diplomatique Brasil, Sebastião Salgado faz um balanço histórico da própria obra, revela influências artísticas que permearam sua trajetória e afirma que os anos dedicados à fotografia profissional estão perto do fim. “As minhas células estão morrendo.”
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Alguns trabalhos seus, como em Êxodos e Trabalhadores, mostram uma contradição entre o progresso e a extração de bens naturais. Você concorda?
SEBASTIÃO SALGADO – É a contradição da nossa espécie. Nós temos carros, casas, precisamos de bens de consumo dos mais sofisticados, e isso precisa sair de algum lugar. Nós criticamos as minas, mas também precisamos do minério de ferro, do carvão, para transformar em aço, que vão nas placas que constroem os navios, nas máquinas fotográficas. Precisamos do petróleo para o gás de cozinha. E, ao mesmo tempo, estamos criando poluição, depredando o planeta, e nossa espécie, profundamente predadora e que cresce cada vez mais, precisa sobreviver. A gente tem uma longevidade imensa. Como resolver essa contradição? Não sei.
Como você acha que a sua fotografia se insere nessa contradição?
Sou uma pessoa que teve uma formação universitária em Ciências Sociais e Economia Política, com diálogo na Macroeconomia, Finanças Públicas e Sociologia. Quase fiz parte da primeira geração que abandonou o campo e foi para a cidade. Quando eu era jovem, 90% da população vivia no campo. A minha fotografia só podia ter uma coerência com o momento histórico que eu vivi e aprendi nascido em um país subdesenvolvido. Hoje, quando vejo o conjunto das minhas fotografias, percebo que tive o privilégio de poder ter me colocado dentro do movimento da onda da história do planeta no período que vivi.
Minha primeira grande história foi na América Latina, rodando com os indígenas (Outras Américas, 1977). Fiz outro trabalho sobre o fim da mão de obra na produção industrial (Trabalhadores, 1986). Antes da grande chegada da eletrônica à linha de produção, a utilização do trabalho humano era muito densa. Fiz um trabalho sobre a reorganização da família humana, o abandono do campo para a cidade, os refugiados, imigrantes (Êxodos, 2000). A minha fotografia foi mais ou menos isso. O último grande projeto que eu fiz foi ligado à grande preocupação planetária, que é o meio ambiente (Gênesis, 2013). Hoje, estou em um trabalho grande, maior. Fiquei sete anos fotografando a Amazônia brasileira. Se você olha isso, há uma coerência de onde eu vim e no que eu fiz na vida.
Após Gênesis, que faz um retrato do planeta, o tema ambiental se mantém, em especial o índio. Por quê?
Quase todos os meus trabalhos nasceram dentro um do outro. Quando fiz Êxodos, ele nasceu do que eu havia feito em Trabalhadores. Trabalhadores era o que hoje chamamos de globalização, termo que não existia. Quando comecei a replantar um pedaço da floresta amazônica em Minas Gerais, no Instituto Terra, com a Lélia [Wanick Salgado], nasceu o projeto Gênesis e, dele, o Amazônia. Eu conheci a Amazônia durante o Gênesis e quis voltar mais profundamente.
É muito importante falar das comunidades indígenas, do respeito que devemos a elas, principalmente no Brasil. O maior componente da raça brasileira, se é que podemos falar nesses termos, é indígena. Quando os portugueses chegaram aqui, em 1500, só vieram homens. As primeiras mulheres chegaram 55 anos depois. Os indígenas tinham outra relação com o sexo, diferente do pensamento cristão. Houve uma miscigenação profunda entre portugueses e indígenas. Quando os escravos chegaram, eles foram suplantados nessa mescla entre portugueses e indígenas. O engraçado é que, ao perguntar para o brasileiro qual é a origem dele, a resposta é sempre “alemã”, “italiana”, “portuguesa”, mas quase nunca indígena.
Ao trabalhar com os indígenas você reencontra a própria espécie, e feliz do país que pode conviver com a sua pré-história. O Brasil tem pelo menos oitenta grupos de indígenas que não foram contactados, que somos nós de 20 mil anos atrás. É uma coisa fabulosa e que precisamos defender, respeitar. É fonte de cultura, ciência e sabedoria.
Você costuma dizer que as necessidades humanas são as mesmas. Isso aconteceu com os índios?
Absolutamente. Quando, pela primeira vez, fui trabalhar com uma comunidade indígena, imaginei que o contato seria difícil. Não falava a língua, são pessoas isoladas. Com menos de um dia eu já tinha me adaptado, porque tudo que é essencial para mim é essencial para eles. Os sentimentos são os mesmos, a relação comunitária, a solidariedade, o amor, a tristeza, o ódio. Nem fisicamente nós mudamos. A nossa pequena deformação está no pé: o fato de utilizarmos sapatos deixou nossos pés finos e longos, ao passo que eles têm o pé triangular e achatado na frente.
Na coleção Photo Poche, dedicada à sua obra, o texto de abertura diz que seu trabalho “faz uma reconciliação da estética-informação, estética-engajamento e estética-política”. Você concorda? Quando você começou, o plano era englobar tudo isso?
Fotografamos com o que herdamos. A minha herança são os meus pais, a terra onde nasci, a influência das primeiras luzes que entraram no meu sistema sensitivo, a sociedade de onde venho, toda a filosofia e ideologia que carrego. Ao fotografar, naquela fração de segundos, toda essa herança se manifesta. É difícil premeditar. Na fotografia você sabe onde vai, mas nunca se sabe o que vai encontrar. É algo instantâneo, instintivo. Se você posicionar cem fotógrafos em um lugar, vão aparecer cem fotos diferentes, porque os profissionais têm origens distintas. Essa revista falou isso de mim, e está certo. Mas eu não premeditei nada, é só a minha forma de viver.
Você citou essa coisa do instantâneo. Há uma frase sua que diz que nós nunca produzimos tanta imagem, mas que nunca fotografamos tão pouco.
Tem uma diferença grande entre o que você faz nessa nova linguagem, com o celular. Isso é linguagem de comunicação: mostra o evento, a relação das pessoas no espaço. Mas isso não é fotografia, é imagem. A fotografia é a memória, o espelho de uma sociedade. É um corte representativo.
Olha as fotografias dessa exposição em Serra Pelada e você vai entender como as pessoas trabalhavam e viviam nos anos de 1980. Essa linguagem eletrônica rápida acaba se perdendo. Você muda de telefone, não guarda, apaga…Sabe quando você era pequeno e seus pais tiraram um retrato e depois você vê essa foto com a ponta quebrada? Isso é uma fotografia.
No Roda Viva de 1996, você disse que tinha muito lirismo em suas fotografias. Você recebeu um prêmio literário na Alemanha recentemente. Se suas fotos fossem versos, quais seriam?
Minha obra é profundamente barroca. Nasci no interior de Minas Gerais, no meio das montanhas, das luzes. Sou ateu e não acredito em religião nenhuma, mas aquilo que vi quando criança, toda a religiosidade, fez que minhas fotos tivessem influência do barroco.
Você já disse que o preto e branco significam a abstração da realidade e confirmam ainda mais a realidade fotografada. O que isso significa?
É uma contradição, não é? O preto e branco significa uma abstração. Toda gama de cor está dissimulada na gama de cinza. Quando comecei a fotografar, usava cores, mas aquilo me desconcentrava profundamente. Os vermelhos, verdes, os tons vivos, eles tinham uma importância enorme no momento de reconstruir a imagem. Em vez de ver a sua dignidade, a personalidade da pessoa, via a cor da cadeira.
Quando fotografo em preto e branco, tudo se transforma em cinza, e aí posso me concentrar no que realmente quero. Foi uma forma de entrar na abstração para mostrar profundamente uma realidade. As pessoas que olham branco e preto veem uma abstração, mas instintivamente há uma reposição de cor, e cada um interpreta à sua forma. As fotografias passam a ser suas também, porque cabe a interpretação de cada um a partir dessa abstração.
Você tem vontade de voltar à fotografia social ou isso é um capítulo encerrado na sua trajetória?
Voltaria, mas já estou com 75 anos. É difícil voltar para qualquer lugar neste estágio. Deixo a porta aberta para a nova geração. Não fotografo mais refugiados, mas há quem esteja fazendo isso, com um jeito diferente, acompanhando o abandono de pessoas na Síria, no Iraque, no norte da África, rumo à Europa. Mas eu já estou muito mais próximo da morte. As minhas células já estão morrendo. Se estiver tudo certo comigo, sem nenhum acidente, vivo mais uns quinze anos e daí acabou.
Mais quinze anos fotografando?
Não, vivendo. Os fotógrafos não param de fotografar. Lembro-me de ir ao México certa vez no aniversário de 100 anos do Manuel Álvarez Bravo (fotógrafo, 1902-2002). Ele me chamou para mostrar as fotografias dele. Sabe o que era? Os pés inchados dentro de uma bacia com água quente. Quando se é realmente fotógrafo, vive-se densamente o ato. Posso ter sido um fotógrafo ligado ao social e ter feito cortes representativos, mas não sou ligado a nenhum partido político, não sou militante de nada. Sou puramente fotógrafo e utilizo minha profissão para contar as histórias que enchem a minha alma, que me revoltam e me motivam.
Como tem visto o Brasil atual?
Acredito em uma forma filosófica de evolução, na dialética. Nós evoluímos por partes. Em alguns momentos negamos a evolução, para solidificar tudo aquilo que acumulamos, para saltar outra vez e evoluir de novo. Hoje, no Brasil, vivemos a negação da negação. Temos um novo governo que está destruindo uma série de instituições seríssimas e que foram construídas com grande esforço e dificuldade, com dispêndio enorme da sociedade brasileira, como a Funai, o Ibama, o sistema de educação pública. Estão destruindo e sem proposta nenhuma, sem apresentar nada. É simplesmente a destruição pela destruição.
Ao mesmo tempo, está se criando uma grande reação a tudo isso. Uma resistência, um amadurecimento do povo brasileiro. É um momento difícil, mas acredito que podemos solidificar o que virá para o Brasil. Somos uma democracia jovem, que se urbanizou recentemente. A França levou quinhentos anos para se urbanizar, ao passo que aqui foram cinquenta anos, com todas as deformações que isso gera. Temos um PIB colossal, o quinto maior espaço geográfico do planeta. E mesmo assim não temos um Prêmio Nobel de Literatura, por exemplo.
Estamos em um nível de desenvolvimento muito precário. Isso não significa que o país seja ruim, mas é tudo muito recente. Veja Serra Pelada, algo que aconteceu na década de 1980, contemporâneo, mas parece ser o Egito antigo. Até os anos 1990 tínhamos uma inflação absurda, interrompida no governo do professor Fernando Henrique Cardoso. O trabalhador ia ficando pobre a cada dia do mês, e toda força de trabalho dele ia para o sistema financeiro. É um roubo! Por isso temos o sistema de bancos mais sólidos do mundo, o que é uma injustiça e configura uma característica profunda do subdesenvolvimento.
Eu espero que apareçam políticos que realmente tenham consciência nacional, que entendam a sociedade, que pensem comunitariamente em direção à grande maioria e que se comportem de outra forma, não um comportamento puramente individual. Ser político no Brasil serve para garantir a sobrevivência da sua família. Aqui não se valoriza o cargo público enquanto poder institucional. Isso ainda não chegou ao Brasil, porque somos uma democracia jovem, recente, mas estou seguro de que vai acontecer.
Ivo Lesbaupin da Iser Assessoria é um conhecido deste blog, como sociólogo com excelentes e bem compreensíveis análises de conjutura. Publicamos esta pela sua clareza e por nos chamar a atenção das dramáticas políticas que estão sendo impostas ao país e principalmente aos trabalhadores e aos pobres. Não podemos largar a mão de um e de outro. Temos que resistir por um sentido humanitário, ético e patriótico. Leonardo Boff
II - Texto de Ivo Lesbaupin:
Há três dias o ministro Paulo Guedes falou que a economia brasileira está no “fundo do poço”. Parecia um estudioso de fora do governo, que não tinha responsabilidade para com esta situação.
Mas ele dizia isso para convencer os parlamentares de que é preciso aprovar a Reforma da Previdência proposta por ele. Se não, afundaremos mais ainda. E ele nada poderá fazer.
Anos atrás li um trabalho de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, onde ele dizia que emprego e desemprego não são resultados fortuitos, imprevisíveis: o país gerará emprego (ou desemprego) dependendo da política econômica que adotar. Claro, tem de se levar em conta o contexto internacional, não há dúvida. Mas o que Stiglitz estava querendo dizer é que políticas de austeridade (ou de ajuste fiscal) produzem desemprego. E políticas anticíclicas, de investimento público, geram emprego.
Nós vimos isto ocorrer no governo FHC: políticas de ajuste fiscal que geraram enorme desemprego e, no período Lula, políticas de investimento público que produziram emprego, mesmo depois da crise internacional de 2008 (houve uma queda em 2009, mas depois retomou).
O país está à míngua?
Desculpem, como disse um sociólogo conhecido anos atrás, o Brasil não é um país pobre, é um país injusto. Temos, o Estado brasileiro tem, muitos recursos. Recolhe uma quantidade enorme de impostos, sobretudo dos pobres e da classe média e transfere a maior parte para os mais ricos.
Exemplo: 350 bilhões de reais, no mínimo, por ano, vão para o 1% mais rico, como pagamento de juros da dívida pública. Por que? Porque temos uma taxa de juros reais entre as mais altas do mundo: estamos em 7º lugar. Se tivéssemos uma taxa de 0% ou menos que zero, como Polônia, Estados Unidos, Japão, Grécia, não gastaríamos esta fortuna (só para os ricos). Quem decide estes juros altos recebidos pelos ricos? O governo. Então, primeira sugestão, ministro: reduza drasticamente a taxa de juros[i].
Assim, poderemos discutir a Reforma da Previdência sem medo de afundar.
A segunda coisa, segundo o economista Eduardo Fagnani, é que o Brasil abre mão de 350 a 400 bilhões por ano, em isenções fiscais. Quem decide isso? O governo. Neste caso, a sua pasta, Sr. Ministro.
Terceira coisa: ir atrás dos sonegadores. 500 bilhões por ano. A Receita Federal sabe quem são os maiores, quanto devem. É só querer cobrar.
E, por favor, taxem os juros e dividendos, que são recebidos apenas pelos mais ricos. A Estônia é o único país do mundo, além do Brasil, que comete esta injustiça (de não taxar os mais ricos). Por que o ministro não cobra do Congresso esta mudança?
Não esqueçamos: a economia de agora está ruim por causa da Dilma. “Errou tudo”. Errou, sim, alguma coisa, mas não tudo.
Errou, por exemplo, ao adotar, no segundo mandato, o ajuste fiscal. O desemprego voltou a crescer por causa disso (estava em 6,8% em 2014).
Mas, depois, a partir de meados de 2016, não foi ela: o governo Temer fez aprovar a PEC do Teto dos Gastos. Traduzindo: obrigou o Estado a reduzir investimentos em saúde e educação públicas – pelos próximos vinte anos -, o que aprofundou a recessão. Votou a Lei da Terceirização e, logo em seguida, a Reforma Trabalhista, que acabou com os direitos trabalhistas. A tal reforma, contrariamente ao que diziam, não gerou emprego, gerou mais desemprego.
O ministro Paulo Guedes interrompeu o ajuste fiscal? Interrompeu a política de austeridade? Não: está aprofundando o ajuste. Traduzindo: impedindo que o Estado invista mais, impedindo o crescimento econômico.
Se o Estado não investe, diria Stiglitz, não vai ter crescimento.
Sua política econômica, ministro, ao dar continuidade ao ajuste fiscal, está nos levando ao fundo do poço. Há cinco meses, só se fala em cortes. Não dos lucros dos banqueiros (que, este ano, já tiveram lucros maiores que no ano passado, no mesmo período). Cortes nas políticas públicas, na educação, na previdência. O desemprego está aumentando, o desalento também. E o governo nada faz para mudar esta direção. Sua única proposta até agora é fazer aprovar a reforma da previdência.
E todos sabemos que esta reforma não vai produzir crescimento. Se for aprovada este ano, só começará a ter efeitos no ano que vem. E, entre os efeitos, não haverá emprego. Haverá menos dinheiro nas mãos de muitas pessoas, que vão perder parte do que já ganhavam. Ou seja: o mercado interno vai ser reduzido, justamente um dos principais fatores da melhora da economia até 2014.
Sua outra proposta de política econômica é “privatizar tudo”. O Sr. quer deixar de receber os 70 bilhões de lucros produzidos por ano pelas nossas maiores empresas estatais e transferi-los para o setor privado. Que governo reclama que faltam recursos e joga fora os recursos que tem?
Ministro, todos sabemos o que deve ser feito para aumentar a receita da Previdência: crescimento econômico, aumento do emprego, aumento dos salários. Já vimos que há recursos para o Estado investir. Se houver emprego, haverá mais trabalhadores formais, mais gente pagando a Previdência. Vai ser muito bom.
"Para que Previdência pública se podemos tercapitalização? É uma visão que leva os pobres ao genocídio econômico, eles dependem de políticas públicas, como até Milton Friedman sabia e ensinava, Friedman foi o pai intelectual do “bolsa família”. O problema é que os alunos são medíocres e aprendem só uma parte do que os mestres ensinam, a parte que agrada ao seu egoísmo." - André Araújo
Desgoverno do “mercado” e o jogo do preço dos ativos, por André Araújo
Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro foi capa da revista The Economist como a "ameaça" à democracia no Brasil e América Latina
O preço dos ativos é o nome do jogo
Por André Motta Araújo
O interesse dos chamados “mercados”, hoje representados no governo pelo Ministro Paulo Guedes, não é investir em projetos novos de infraestrutura, que dão taxas de retorno naturalmente baixas. Os “mercados” ganham na compra barata de ativos desvalorizados pela má situação econômica do Brasil. Ativos prontos que custaram 100 para construir, e os “mercados” podem comprar por 20, na bacia das almas.
Esse é o jogo, Eletrobras, Banco do Brasil, Petrobras aos pedaços, mais uma lista de 137 estatais que devem ser vendidas, porque o Brasil está quebrado, segundo os próprios dirigentes de estatais. Apregoam em entrevistas (o que é crime), falam mal das empresas que dirigem, porque não querem fazê-las prosperar, querem é vendê-las.
Uma política monetária absurda, onde o Tesouro chega a pagar 9% ao ano, quando podia pagar zero emitindo dinheiro, há folga na base monetária para emitir R$ 2 trilhões em 4 anos. O arrocho, os cortes de orçamento, a queda do PIB, a recessão, faz baixar o preço dos ativos no Brasil e com o dólar alto tudo fica ainda melhor.
Há ideia de vender uma Eletrobras, que em capacidade geradora instalada mais linhas de transmissão custou R$ 800 bilhões para fazer, deve R$ 30 bilhões. O “mercado” diz que está quebrada e quer comprar por R$ 12 bilhões, o melhor negocio do planeta.
Todo o jogo de desgoverno, de terra arrasada faz baixar o preço dos ativos no Brasil, com a enorme vantagem de que os “mercados” estão no completo comando da economia, sem adversários, contrapontos ou fiscais, sem inimigos naturais, que seriam os sindicatos, a mídia e o Congresso.
Nenhum país do mundo entrega sua economia aos “mercados”
O Brasil pratica hoje um ineditismo na governança de sua economia, o total da economia. O Ministério da Economia açambarcou 4 ministérios, inclusive o do Trabalho, que em todos os grandes países é contraponto ao Ministério da Economia (seja Fazenda ou Tesouro), foi entregue aos “mercados”, mais o Banco Central, o Banco do Brasil, o BNDES, a Petrobras, todos os dirigentes são dos “mercados”, ligados a ele, com a alma nele.
Nos EUA, o Federal Reserve System é dirigido por sete economistas acadêmicos sem ligação com o mercado, os Secretários econômicos raramente são do mercado e não estão sob o mesmo guarda chuva, Tesouro e Comércio são separados, alem disso a Casa Branca tem um Conselho de Assessores Econômicos independentes dos Ministérios, com economistas de diferentes tendências.
Também no Board do Federal Reserve, a praxe é mesclar economistas de linhas diferentes, nunca da mesma escola. O Departamento do Trabalho americano é fortíssimo, tem um orçamento de US$29 bilhões e 115.000 de funcionários, é o representante dos trabalhadores no sistema econômico, em contrapeso aos Departamentos do Tesouro e do Comércio.
Nos governos brasileiros, desde 1946 até 1994, havia a predominância de servidores públicos ou políticos no comando da economia. Foi no Governo FHC que começou o processo de entregar a economia aos “mercados”. Nos governos do PT, houve uma mescla de servidores públicos, acadêmicos e políticos com gente do “mercado”, como Henrique Meirelles, que ficou 8 anos no Banco Central no período Lula.
O problema é que os de “mercado” não tem nem interesse e nem treinamento para implantar políticas públicas, que acham um desperdício de dinheiro.
Para que Previdência pública se podemos ter capitalização? É uma visão que leva os pobres ao genocídio econômico, eles dependem de políticas públicas, como até Milton Friedman sabia e ensinava, Friedman foi o pai intelectual do “bolsa família”. O problema é que os alunos são medíocres e aprendem só uma parte do que os mestres ensinam, a parte que agrada ao seu egoísmo.
Por isso, é fundamental a um grande País ter no comando da economia mentes diversificadas, com diferentes visões de mundo, de sociedade, o País é muito complexo para simplificações grosseiras. A situação do Brasil de hoje lembra o Egito do Khediva Ismail Paxá, que entre 1870 e 1877 vendeu todo o Egito, a alfândega de Alexandria, o Canal de Suez, a navegação no Nilo, trens, bondes, portos, a ilha de Gezira, até que em 1882 o Egito passou a ser de fato uma colônia britânica.
O Brasil teve desde 1946 os mais variados matizes de política econômica, mas nunca no Brasil houve a entrega completa de todos os comandos econômicos do governo aos “mercados”, algo impensável na Índia, China ou Rússia, um Pais que também comete suicídio.
A imprensa americana ridicularizou Bolsonaro em seu encontro com Donald Trump.
Para o New York Times, Trump adicionou mais um amigo autoritário à sua lista.
A CNN foi além e afirmou que Bolsonaro puxou o saco (fawn over, em inglês) do ídolo de cabelo laranja:
Quando surgiu no outono passado uma conversa sobre o “Trump dos Trópicos” concorrendo à presidência no Brasil, o atual presidente dos EUA, Donald Trump, demonstrou grande interesse.
Na terça-feira, o homem que adotou a persona combativa de Trump – pessoalmente e no Twitter – levou sua adulação à Casa Branca, onde criticou “fake news” e previu a reeleição de Trump durante sua primeira visita oficial ao exterior. (…)
Por enquanto, é uma camaradagem mais baseada em táticas compartilhadas, retórica (no caso de Bolsonaro, misógina e homofóbica) populista e lisonja do que qualquer questão em particular, embora Trump tenha dito que o comércio, as questões de segurança e a crise em curso na Venezuela estavam na agenda.
“Eu acho que houve muita hostilidade com outros presidentes”, disse Trump no Salão Oval, quando a visita começou. “Não há hostilidade comigo.” (…)
“Foi um feito incrível”, disse Trump sobre a vitória de Bolsonaro em outubro. “O resultado final foi algo que o mundo inteiro estava falando.”
Sua contraparte retribuiu prevendo a reeleição de Trump no ano que vem – Trump respondeu com um sorriso e uma modéstia fingida – e enfatizando seu compromisso com valores conservadores.
O Brasil e os EUA, disse Bolsonaro, compartilham um “respeito aos estilos de vida tradicionais e familiares, respeito a Deus, nosso criador, contra a ideologia de gênero, as atitudes politicamente corretas e as notícias falsas”. (…)
Embora questões bilaterais importantes tenham sido discutidas, incluindo a situação da Venezuela, a dinâmica mais observada da visita de terça-feira foi a relação interpessoal dos dois homens, que falaram ao telefone, mas que ainda não haviam se encontrado pessoalmente.
Trump telefonou para Bolsonaro poucas horas depois de ter sido declarado vencedor da eleição de outubro, durante a qual defendeu visões pró-América e pró-Trump.
Isso é uma raridade na América Latina ou na maioria dos outros lugares, e Trump tomou conhecimento, de acordo com o alto funcionário do governo que informou os repórteres antes da visita.
“Alguém disse que lembrou um pouco da nossa campanha”, disse ele sobre o esforço de Bolsonaro, “pelo qual estou honrado”.
Em um mundo de inimigos percebidos, Trump muitas vezes olhou para os líderes que imitam sua própria coragem e desrespeito pelas normas políticas como aliados. Às vezes isso significa cultivar laços estreitos com homens fortes ou ditadores.
Em outras palavras, isso significa um alinhamento estreito com líderes recém-eleitos, como o presidente Emmanuel Macron, da França (embora o antigo relacionamento amistoso de Trump com Macron tenha azedado desde então). (…)
Os dois homens também foram aconselhados por Steve Bannon, o ex-consultor da Casa Branca que rompeu com Trump após deixar a Casa Branca em 2017. Bannon jantou com Bolsonaro em Washington esta semana como parte de um evento maior da embaixada.
Trump não reparou seu relacionamento com Bannon depois de uma separação amarga, dizem pessoas familiarizadas com os dois homens.
Sua viagem a Washington foi a primeira visita bilateral de Bolsonaro ao exterior, disseram autoridades da Casa Branca para ilustrar o compromisso do novo presidente de promover os laços com os EUA. Isso é uma mudança em relação ao passado. (…)