Mostrando postagens com marcador degradação ambiental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador degradação ambiental. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de maio de 2024

TVGGN: Climatologista explica o fenômeno que gerou a tragédia no Rio Grande do Sul. A questão da mudança climática negada pelo agro e pela indústria...

 Carlos Nobre alerta que, ante a degradação ambiental, se a emissão de gases de efeito estufa não for zerada, temperatura global pode aumentar até 2° nos próximos anos


Crédito: Thiago Guimarães/ PMC


GGN. - Hora a hora, a situação no Rio Grande do Sul, onde várias cidades foram atingidas por fortes temporais desde a última segunda-feira (29 de abril), fica mais dramática. Neste sábado (4), chegou a 66  o número de pessoas mortas devido às enchentes, de acordo com o último boletim da Defesa Civil. Outros seis óbitos estão em investigação, 155 pessoas ficaram feridas e 101 pessoas estão desaparecidas.  

Para explicar o porquê da tragédia, que já tinha afetado o estado em 2023, o programa TVGGN 20H da última sexta-feira (3) contou com a participação do professor e climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Climáticos da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia. 

Nobre adianta que as consequências das mudanças climáticas não são sentidas apenas no Rio Grande do Sul, mas em todo o mundo, que passou a vivenciar eventos climáticos extremos principalmente em 2023 e 2024. 

“Essa situação do Rio Grande do Sul é o sistema de baixa pressão que vem do Oceano Pacífico. Ele gera um sistema de alta pressão no centro oeste e sudeste e o sistema de alta pressão bloqueia o sistema de baixa pressão. As frentes frias chegam ali, não conseguem passar e chove demais, alimentados por um fluxo muito grande de vapor d’água que está vindo da Amazônia e passa paralelo aos Andes”, detalha Nobre. 

Nobre explica que, nos últimos dois anos, tivemos o registro do maior aquecimento do planeta registrado na história, tendo em vista que a média da temperatura global já atingiu o aumento de 1,56°. Assim, este ano deve ser ainda mais quente em comparação a 2023. 

“[O bloqueio do sistema de baixa pressão] É um fenômeno que sempre existiu, só que agora, por causa do aquecimento global, globalmente falando, os oceanos nunca estiveram tão quentes e quando eles estão muito quentes, evapora muita água. Então, lógico, um grande elemento dos eventos extremos é o vapor d’água, porque quando o vapor d’água vai para um lugar e chove muito, em outro lugar se faz seca”, emenda o professor.

El Niño


O climatologista comenta ainda que o El Niño, fenômeno natural que potencializou a elevação da temperatura desde o ano passado, existe há, pelo menos, dois milhões de anos, talvez até mais. A questão é o aumento da frequência e da intensidade com que o fenômeno ocorre. “Os três El Niños mais fortes foram 2015/2016, depois 1992/1993 e agora terceiro El Niño mais forte é 2023/2024. Mesmo sendo o terceiro mais forte, ocasionou a maior seca da história da Amazônia e do Pantanal e o maior registro de chuvas no Rio Grande do Sul.”

Carlos Nobre ensina que, quando o El Niño está mais intenso, ele faz com que a corrente atmosférica, chamada de jato subtropical, barre as frentes frias originadas no oceano pacífico, gerando um sistema de baixa de pressão conhecido como ciclone extratropical nas regiões do Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai e Paraguai. 

O ciclone extratropical, então, joga a água mais quente dos oceanos dentro do continente, originando fortes chuvas. Foi este fenômeno que causou as enchentes que atingiram os gaúchos em setembro.  

“Esse agora é um pouco diferente. O fenômeno meteorológico é o bloqueio com a baixa pressão e, no centro-oeste e sudeste, a alta pressão com muito calor, que não forma nuvem nenhuma. Lógico também que o El Niño está ficando cada vez mais forte”, continua o climatologista. 

Clima exige atenção


O convidado apontou ainda que, de acordo com o relatório IPCC, a temperatura média global não deveria ultrapassar a alta de 1,5°. No entanto, enquanto as previsões indicavam que só atingiríamos este aumento em 2030, a ciência não conseguiu prever que este patamar fosse atingido ainda em 2023 e pode se tornar permanente a partir deste ano. 

Assim, os oceanos estão no nível mais quente do registro histórico desde o último período 125 mil anos interglacial, tornando a situação cada vez mais crítica. 

“O enorme branqueamento de praticamente todos os recifes de corais, que estão muito perto da extinção e da extinção de milhares de espécies, pois os corais mantêm 25% da biodiversidade oceânica”, continua. 

Guerra na Ucrânia


Nobre revelou ainda que a Guerra na Ucrânia teve um grande impacto negativo também no clima, uma vez que a União Europeia evoluía rapidamente no processo de substituição do uso de energia fóssil, por meio da queima de carvão, por fontes de energia mais limpas e renováveis. 

“Por exemplo, Alemanha tinha um plano de parar a exploração de carvão até 2035, o Reino Unido fez uma lei proibindo a produção de motores a combustão a partir de 2030, a Noruega, que ficou super rica com a exploração de petróleo e gás natural no Atlântico Norte, não vai mais explorar a partir de 2035”, comenta. 

O conflito entre Rússia e Ucrânia, no entanto, fez com que o ritmo da redução das emissões diminuísse. E, em diversos outros países as emissões de poluentes na atmosfera continuam altas e, se não houver redução, a temperatura global pode ter aumento de 2,5° nos próximos anos.

“A emergência climática do ano passado e deste ano mostram que talvez a gente não possa nem zerar as emissões em 2050. Muitos cientistas como eu acham que nós devemos zerar as emissões até 2040. Mesmo em 2040, a gente vai passar de 1,5° [na média da temperatura global], pode chegar até 2°. Esse é o risco que nós estamos correndo”, conclui Nobre.  

Assista a entrevista completa:


Eduardo Leite cobra soluções do governo federal, mas, para agradar o "agro pop", destruiu o código ambiental em 2019

 

Governador reduziu verbas para Defesa Civil e resposta a desastres naturais, além de acabar com medidas de proteção a áreas de conservação

Crédito: Reprodução/ Ban

GGN. - O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), tem causado um grande desconforto com o governo federal em meio a exigências de soluções para recuperar os danos e prestar assistência às vítimas das enchentes que atingem a região desde a última segunda-feira (29/04). 

Ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha visitado a região acompanhado de ministros e garantido verbas para recuperar o estado, o governador insiste em usar as redes sociais para fazer cobranças. 

Na quinta-feira (2), Leite pediu a continuidade do auxílio das Forças Armadas no resgate de pessoas ilhadas nos municípios gaúchos. O governador também criticou a visita de Lula na última semana, afirmando “que não era um momento para sobrevoos simplesmente” sobre a região. 

O que Leite não posta nas redes sociais são as críticas que vem recebendo dos próprios gaúchos devido aos cortes no orçamento da Defesa Civil nos últimos anos. Enquanto em 2022 a área contava com a verba de R$ 1 milhão, em 2023 o montante foi reduzido para R$ 100 mil. Já em 2024, a Defesa Civil tinha apenas R$ 50 mil em verbas, ainda que o estado tivesse enfrentado três grandes enchentes entre junho e novembro do ano passado. 

Já o orçamento para a pasta de gestão de projetos e respostas a desastres naturais foi reduzido de R$ 6,4 milhões em 2022 para R$ 5 milhões em 2023. Para 2024, a pasta conta com R$ 117 milhões, porém o valor é considerado baixo, uma vez que o governo estadual já previa que a verba necessária para responder a eventos climáticos seria de R$ 83 bilhões. 

Código Ambiental


Ainda no primeiro ano de mandato, em 2019, Eduardo Leite atropelou o Código Ambiental do Rio Grande do Sul, projeto de José Lutzenberger, uma das maiores referências em ecologia no Brasil, cuja concepção levou nove anos e foi resultado de debates e audiências de aperfeiçoamento. 

Leite apresentou um projeto que alterou 480 pontos da lei ambiental do estado, o que um grupo de técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) classificou como “uma tentativa de travestir de ‘moderno’ um código que retrocede e precariza não somente o licenciamento, mas tudo o que se refere à garantia dos valores ambientais”.

Na época, a Fepam criticou o fato de que o projeto acaba com os quatro artigos do capítulo 5, que tratavam de medidas de proteção, por exemplo, às áreas adjacentes às unidades de conservação; o afrouxamento da licença ambiental; o fim do veto ao corte de árvores, comercialização e venda de florestas nativas; e a revogação do artigo 35 do Código Florestal, que proibia ou limitava o corte das espécies vegetais em via de extinção.

Justificativa


Na época, a gestão de Eduardo Leite afirmou que o novo código ambiental representaria um melhor equilíbrio entre a proteção ambiental e o desenvolvimento socioeconômico, por ser uma lei de modernização das leis que protegem e até aumentariam a proteção ao meio ambiente, ao mesmo tempo em que garantiria mais segurança jurídica e embasamento técnico para empresas. 

Na prática, a proposta representou, entre outras distorções, a possibilidade de auto licenciamento ambiental. 

*Com informações de UOL, O Globo e Brasil 247.

Nota da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA) do Rio Grande do Sul

NOTA – CÓDIGO MEIO AMBIENTE – 5/5 – 16h50

A construção da atualização do Código Ambiental do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, sancionado em 2020, teve como base amplas discussões que envolveram sociedade e instituições como a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). A atualização da lei acompanha as transformações da sociedade, tornando a legislação aplicável, priorizando a proteção ambiental e o desenvolvimento responsável. Mesmo após a sanção, a regulamentação conta com a participação da sociedade, representada por meio do Conselho Estadual do Meio Ambiente, fórum democrático que delibera sobre os regramentos ambientais.  As catástrofes climáticas são uma tendência mundial, com ocorrências mais frequentes e intensas em todo o planeta, sendo assim, não podem ser atribuídas à atualização da lei. 

O governo do Estado reforça a necessidade de adaptação para garantir a sobrevivência na Terra. Reconhecendo a importância da pauta, em 2023 lançou o ProClima2050, que reúne ações e políticas públicas pensando na mitigação das emissões, na adaptação e na resiliência climáticas. No âmbito do programa, instituiu o Gabinete de Crise Climática, que tem como principal função conectar as secretarias de Estado, instituições e pesquisadores no monitoramento e implementação de ações práticas de resposta à crise do clima. 

Entre as medidas em andamento estão a contratação de serviço de radar meteorológico pela Defesa Civil, que será instalado na Região Metropolitana de Porto Alegre e está em fase final de implementação; melhorias na Sala de Situação, responsável pelo monitoramento das chuvas e dos níveis dos rios; e a implementação do roadmap climático dos municípios, que mapeará as ações relacionadas ao clima em esfera municipal.

A manobra de Eduardo Leite para ‘dividir a responsabilidade’ na tragédia que assola o RS (tirando o dele, os dos prefeitos de direita e os do agro da reta). Reportagem de Pedro Barciela

 

O comportamento impetuoso contra o presidente da república cumpriu um objetivo: dividir com Lula a responsabilidade.



Do iclnoticias.com.br

Eduardo Leite deu indícios de que utilizaria as redes sociais para, ao menos publicamente, explorar politicamente a tragédia que assola o Rio Grande do Sul. Com uma espécie de ofensiva contra o presidente Lula, Leite buscou não apenas transmitir um comportamento impetuoso, como também – e principalmente – uma postura combativa com relação ao presidente Lula. No entanto, a postura não foi bem recebida nas redes sociais.

Para além das críticas que condenaram o tom adotado pelo governador com relação ao presidente da república, em um momento em que não havia qualquer indício de inércia do poder federal, a ação de Leite cumpriu um outro papel: colocar Lula em evidência neste episódio. Com isso, Eduardo Leite – que até então era o alvo central das críticas pela condução do RS em meio à tragédia – passou a dividir com o presidente Lula a atenção não apenas da imprensa, mas também de bolsonaristas nas redes sociais. Aqui, se Eduardo Leite recebeu mais menções neste tema do que Lula até o dia 01/05, no dia 02/05 Lula recebeu 1.8x mais menções do que o governador no mesmo tema.

No contexto das chuvas no RS, Lula passou a ser mais citado do que o próprio governador Eduardo Leite

Entre os tweets citando o governador, 89% não apresentavam nenhum sinal de apoio e/ou elogio à condução da situação de calamidade que assola o Rio Grande do Sul. Lula, por sua vez, registrou um cenário mais equilibrado: 65% das publicações enalteciam a atuação do presidente e/ou faziam ponderações positivas com relação a sua atuação neste episódio.

Assim, Eduardo Leite até tentou mas não conseguiu dragar Lula para o cenário extremamente crítico que o governador enfrenta nas redes sociais. Sem apoio bolsonarista, com críticas oriundas do antibolsonarismo e ressalvas a postura impositiva adotada inicialmente nas redes, resta ao governador algo que pareceria óbvio desde o início: fazer seu trabalho fora das redes sociais.

sábado, 11 de abril de 2020

Coronavírus pode ter surgido do modelo predatório, agressivo e anti-ecológico do agronegócio, diz estudo



Hipótese é aventada por pesquisador dos Estados Unidos, que relaciona invasão de redutos ambientais ao confinamento de animais, para explicar virulência que atinge todo o mundo


Gov. Federal/Divulgação

Pesquisa avalia que morcegos contaminados teriam inoculado vírus em porcos de granja na China. Confinamento abaixa imunidade e favoreceu propagação do vírus

São Paulo – Há conexões entre o modelo econômico mundial e da degradação ambiental com a pandemia de coronavírus, que já matou mais de 45 mil pessoas em todo mundo. É o que aponta o pesquisador dos Estados Unidos, Rob Wallace, na tese Big Farms Make Big Flu – em tradução livre, Grandes Fazendas produzem Grandes Gripes.
A pesquisa tem abordagem diferente das que vêm sendo produzidas, que tentam associar a origem do vírus causador da Covid-19 ao mercado aberto de Wuhan, na China, em que são vendidos animais domésticos e selvagens para alimentação humana, além de peixes, frutos do mar e suínos. Para o pesquisador, o coronavírus estaria relacionado ao modelo de agropecurária industrializada que praticamente se impôs no Brasil e no mundo.
Em entrevista aos jornalistas Glauco Faria e Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, na manhã desta quinta-feira (2), a geógrafa e professora da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi resumiu o estudo. De acordo com a especialista em agrotóxicos, autora do Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, o argumento central da tese de Wallace é que, a invasão das matas primárias no mundo, ou seja, áreas em que há uma sensível e complexa rede de microorganismos, rompe barreiras que poderiam nos proteger de alguns destes microorganismos eventualmente nocivos ao corpo humano . 
A hipótese que o estudo levanta é a de que o rompimento dessa proteção permitiu com que os vírus atingissem os animais, nesse caso, os que estão em situação de confinamento – como a criação de suínos e bovinos, por exemplo –, por terem um sistema imunológico mais deprimido.
“Quando a gente olha para essas granjas de porcos, frangos ou mesmo de bovinos, estamos falando de uma agricultura industrializada, fábricas de animais, que parecem linhas de montagem. Então, com o sistema imunológico rebaixado e esse vírus que atinge esses animais, o que acontece – segundo a pesquisa – é que ele contamina o ambiente. Não é por acaso que nós usamos a expressão “com virulência” para definir algo que se espalha de maneira extremamente rápida explica a professora da USP. 
“O Rob Wallace mostra é que, ao se espalhar tão rápido o vírus, não há tempo de se ter respostas imunológicas, então temos esse descontrole, essa pandemia, que está relacionada com a velocidade com que esses vírus se adaptaram a alguns animais e sofreram uma mutação genética”, reforça. 
Para entender a relação do coronavírus com a China, onde os primeiros casos da doença foram detectados, esse e outros pesquisadores têm apontado para o criatório de porcos em ambientes considerados protegidos, cobertos e suficientemente quentes para os porcos, mas também favorável à moradia de morcegos.
Segundo o estudo, o vírus rompido pela degradação ambiental estaria presente nos morcegos, que ao atacarem os porcos para sua própria alimentação, teriam inoculado o vírus, já com sua genética modificada, o que permitiu sua transmissão aos seres humanos.
“A humanidade está diante de uma bifurcação: o que é que nós queremos dessa produção de alimentos? O que é prioritário para nós: o lucro ou o alimento?”.
“Há muitas similaridades genética (na composição do organismo) entre nós e os porcos”, ressalta Larissa. “Esses dois elementos podem ter levado a isso que estamos vivendo hoje. Acho importante esse levantamento porque traz também a dimensão de que a doença é um fenômeno social. Essa é uma doença do capitalismo, desse modo de produção agrícola industrializado. Éé uma consequência dessa escolha feita por uma parcela da sociedade, que chegou a transformar alimento em commodities, ou seja, em moeda de troca, transformando vidas em moedas de troca”, contesta a professora. 
“É importantíssimo que possamos entender que o fato de estarmos diante de uma pandemia pode estar sim relacionado com a maneira que nós determinamos que a agricultura seja enxergada no mundo”, relaciona a pesquisadora. 
“Isso mostra também que toda essa tecnologia, que está presente nessa agricultura industrializada, ela não segura essa força imensurável, que é o risco de a gente alterar algo que é um mecanismo tão complexo e sensível. Nós, enquanto humanidade e país, estamos diante de uma bifurcação: o que é que nós queremos dessa produção de alimentos? o que é prioritário para nós: o lucro ou o alimento?”, questiona. 
Confira a entrevista

terça-feira, 3 de abril de 2018

Os sentidos do grande retrocesso ambiental na era do retorno do fascismo promovido pelo grande capital


Resultado de imagem para neoliberalismo

Deputados preparam-se para votar projeto que pode eliminar necessidade de licenciamento ambiental para grandes obras. Qual a estratégia. Que ameaças ela implica

Por Roberto Giovanelli e Michel Santos, em entrevista a Patricia Fachin, no IHU
Apesar de a Constituição de 88 ter elevado “o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado ao patamar de direito humano fundamental” e determinar o licenciamento prévio de empreendimentos que podem causar degradação ambiental, “até hoje, a lei que deveria disciplinar o licenciamento ambiental não foi produzida”, informam Rafael Giovanelli e Michel Santos, integrantes do WWF Brasil na entrevista a seguir, concedida por e-mail.
Segundo eles, o licenciamento ambiental tem sido tema de discussão no Congresso brasileiro desde 1988 e gerou diversos projetos de lei, mas “a grande questão é que, apesar de todas essas propostas e todos esses anos de tramitação, o texto que querem aprovar praticamente não foi debatido. Trata-se de uma versão elaborada pelo deputado Mauro Pereira (PSDB) no final de agosto do ano passado, que não passou por nenhuma Comissão Temática da Câmara dos Deputados, sobre o qual não houve nenhuma audiência pública e que pode ser votado pelo plenário, em regime de urgência, a qualquer momento”.
Na avaliação deles, o texto que deve ser votado ainda neste mês foi feito “para atender aos interesses de setores que estão ‘sobre-representados’ no Congresso Nacional. É um texto que atende sobretudo aos interesses de parte do agronegócio e de parcela dos agentes produtivos que têm uma visão muito limitada do desenvolvimento econômico e das necessidades do país”. O texto também propõe um “desmonte do licenciamento ambiental” e, se for aprovado, causará uma série de implicações. “A primeira delas relaciona-se com a dispensa de licenciamento ambiental para uma série de atividades e empreendimentos com inegável potencial de degradação ambiental. Isso significa deixar de gerenciar os riscos inerentes a esse tipo de atividade; significa que as transformações produzidas no meio ambiente não serão conhecidas, não serão mitigadas e não serão compensadas; significa também que não teremos planos emergenciais para as hipóteses de acidentes. Dois casos podem ilustrar a situação: a Rodovia Transamazônica e o recente acidente envolvendo a Hydro Alunorte em Barcarena”, resumem.
Rafael Giovanelli é mestre em Direito e Desenvolvimento pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é analista de Políticas Públicas do WWF-Brasil.
Michel Santos é graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Brasília e pós-graduado em Gestão Ambiental em Cidades pela mesma universidade. Atualmente é coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil.
Leia a entrevista
Qual é a origem da legislação sobre licenciamento ambiental?
A Constituição Federal de 1988 não apenas elevou o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado ao patamar de direito humano fundamental, como estabeleceu uma série de deveres ao Poder Público e à coletividade para tornar esse direito efetivo. Dentre eles está a necessidade de realizar, na forma da lei, o prévio licenciamento de empreendimentos e atividades com potencial de causar degradação ambiental. Acontece que, até hoje, a lei que deveria disciplinar o licenciamento ambiental não foi produzida.
Portanto, a “lei geral de licenciamento ambiental” decorre da exigência constitucional de regulamentação do dever de licenciamento prévio e deveria consistir em um instrumento para: (i) organizar o sistema de licenciamento, (ii) proporcionar previsibilidade para as ações dos empreendedores e do Poder Público e, o mais importante, (iii) criar mecanismos sólidos de gerenciamento dos riscos inerentes às atividades produtivas, proporcionando segurança para o meio ambiente e para a população.
Atualmente, o sistema de licenciamento ambiental se fundamenta nas Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (sobretudo a Resolução nº 01/1986 e a Resolução nº 237/1997) e em dispositivos esparsos da legislação e demais atos normativos. Praticamente todo esse arcabouço pode vir a ser revogado pela futura lei.
Em que contexto surgem projetos de lei para inviabilizar o licenciamento ambiental?
Para ser preciso, não há apenas um projeto de lei, há dezenas de projetos. Discute-se o licenciamento ambiental no Congresso desde 1988, quando o deputado Fábio Feldman propôs a obrigatoriedade da elaboração de Estudo de Impacto Ambiental para uma série de empreendimentos. Essa proposta caminhou até os anos 1990, mas depois ficou esquecida. Em 2004, o debate foi reiniciado com uma proposta do deputado Luciano Zica. A essa proposta seguiram-se outras. Todas tramitam juntas. Há projetos também no Senado Federal.
A grande questão é que, apesar de todas essas propostas e todos esses anos de tramitação, o texto que querem aprovar praticamente não foi debatido. Trata-se de uma versão elaborada pelo deputado Mauro Pereira (PSDB) no final de agosto do ano passado, que não passou por nenhuma Comissão Temática da Câmara dos Deputados, sobre o qual não houve nenhuma audiência pública e que pode ser votado pelo plenário, em regime de urgência, a qualquer momento.
Esse é um texto para atender aos interesses de setores que estão “sobre-representados” no Congresso Nacional, por assim dizer. É um texto que atende sobretudo aos interesses de parte do agronegócio e de parcela dos agentes produtivos que tem uma visão muito limitada do desenvolvimento econômico e das necessidades do país.
O desmonte do licenciamento ambiental se insere em um conjunto de propostas que tramitam no Congresso para enfraquecer a legislação socioambiental e para colocar o meio ambiente e as comunidades tradicionais à mercê de grupos que enxergam na exploração altamente depredatória da natureza o único caminho para retirar o país da atual recessão econômica. O problema é que esses grupos ganharam muita força política quando financiaram o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e quando barraram as denúncias de corrupção feitas pela Procuradoria Geral da República contra o presidente Michel Temer.
Quais serão as consequências ambientais caso o projeto seja aprovado?
O texto do deputado Mauro Pereira traz uma série de ameaças, não só ao meio ambiente, mas também ao patrimônio histórico e cultural, aos povos e comunidades indígenas e quilombolas e à gestão democrática e participativa do meio ambiente. Mas destacaria três consequências extremamente negativas para o meio ambiente natural.
A primeira delas relaciona-se com a dispensa de licenciamento ambiental para uma série de atividades e empreendimentos com inegável potencial de degradação ambiental. Isso significa deixar de gerenciar os riscos inerentes a esse tipo de atividade; significa que as transformações produzidas no meio ambiente não serão conhecidas, não serão mitigadas e não serão compensadas; significa também que não teremos planos emergenciais para as hipóteses de acidentes. Dois casos podem ilustrar a situação: a Rodovia Transamazônica e o recente acidente envolvendo a Hydro Alunorte em Barcarena.
Valendo as regras propostas por Mauro Pereira, a Transamazônica poderia ser asfaltada sem que fosse realizado um único estudo sobre o impacto que o consequente aumento do fluxo de veículos e mercadorias traria para a região. Ao se considerar que as rodovias são um dos principais vetores de desmatamento na Amazônia, é possível conceber o tamanho do estrago da dispensa de licenciamento.
Em Barcarena, o depósito de rejeitos do qual parece ter decorrido o vazamento não constava da planta original do empreendimento da Hydro Alunorte. Foi uma ampliação posterior, autorizada por um procedimento de licenciamento ambiental simplificado (não foi necessária a obtenção de licença prévia). O depósito estava operando em fase de testes e parece não ter suportado as chuvas acima da média do mês de fevereiro. Talvez o acidente não tenha sido maior justamente porque, ainda que simplificado, houve um processo de licenciamento e o depósito ainda estava em fase de teste. Agora, imagine se o depósito tivesse sido implantado e estivesse em plena operação sem qualquer licenciamento ou teste prévio. É possível que o desastre fosse terrível. O texto de Mauro Pereira permite a dispensa de licenciamento ambiental para a ampliação de empreendimentos já instalados.
A segunda consequência negativa é o enfraquecimento dos órgãos responsáveis pelas unidades de conservação, que perderiam a prerrogativa de vetar empreendimentos que degradem as zonas de amortecimento de áreas protegidas. Além disso, as medidas de compensação e mitigação sugeridas por tais órgãos quando empreendimentos impactarem unidades de conservação poderão ser desconsideradas pelo órgão responsável pelo licenciamento ambiental. Reduz-se, com isso, a proteção das áreas que deveriam ser protegidas.
A terceira consequência negativa está relacionada com a ampla discricionariedade conferida aos estados e municípios pelo texto do Deputado Mauro Pereira. A proposta é que esses entes federados tenham plena liberdade para: (i) definir quais empreendimentos e atividades precisarão ser licenciadas, (ii) definir quais estudos devem ser produzidos para licenciar cada tipo de atividade ou empreendimento e (iii) definir o rito, isto é, o passo a passo do processo de licenciamento de cada atividade. Essa sistemática vai gerar uma espécie de guerra ambiental entre os estados — semelhante à guerra fiscal, que ocorre na seara tributária. Estados e municípios, para atrair investimentos, podem flexibilizar o rigor do licenciamento ambiental em seus territórios, dispensando uma série de atividades do dever de licenciar ou exigindo estudos e procedimentos muito simples, insuficientes para o gerenciamento adequado dos riscos. Isso certamente aumentará o grau de impacto das atividades produtivas ao meio ambiente.
E nós já vimos essa história. Nos anos 1970 e começo dos anos 1980, São Paulo já contava com uma legislação ambiental rigorosa, destoando dos demais estados. O que aconteceu? Parte da indústria cruzou a fronteira e foi para cidades próximas de Minas Gerais e do Paraná, onde sua implantação era mais simples, e os deveres de controle e mitigação, muito mais brandos. Isso aconteceu com indústrias em Camanducaia e com empreendimentos de papel e celulose no Paranapanema, por exemplo. O problema é que a poluição e a contaminação não reconhecem fronteiras.
Quais são os argumentos técnicos que justificam a manutenção da atual legislação do licenciamento ambiental?
Do meu ponto de vista, existe um evidente erro de diagnóstico, conveniente aos interesses políticos que dominam a pauta do Congresso Nacional. Apesar de uma “lei geral para o licenciamento ambiental” ser bem-vinda, o sistema atual já funciona razoavelmente bem. É claro que pode ser aprimorado, mas os seus pontos mais fracos não o são por inconsistências legais, mas sim administrativas, sobretudo.
O atropelo por uma lei geral a qualquer custo e o quanto antes vem, como dissemos acima, de parcelas do setor produtivo que, ao mesmo tempo, tem (i) muito poder político e (ii) uma visão muito estreita do desenvolvimento econômico. A ânsia pela lei é uma ânsia por “desburocratizar”, que, no fundo, é uma ânsia por flexibilizar a ponto de não haver licenciamento para as atividades que lhes interessam — ou haver um licenciamento simplório, quase pro forma. Tudo isso para que a instalação e a operação dos empreendimentos sejam céleres e menos custosas. É o falso argumento da segurança jurídica.
Acontece que a morosidade com a qual certos licenciamentos são conduzidos decorrem, em parte, da falta de estrutura dos órgãos responsáveis pela sua condução. Em muitos estados, os órgãos ambientais carecem de recursos físicos e humanos para executar todas as atividades que devem. O mesmo acontece com importantes órgãos que devem participar do licenciamento, como a Funai e os órgãos gestores de unidades de conservação. A Funai, por exemplo, conta com menos de uma dezena de técnicos para atender todos processos de licenciamento do país. Em recente estudo lançado pelo WWF-Brasil, demonstramos que o orçamento do Ministério de Meio Ambiente vem sendo gradativamente reduzido, há uma década.
Portanto, se um dos pontos de aprimoramento do sistema de licenciamento ambiental passa por torná-lo mais célere, a solução está em fortalecer os órgãos ambientais e a Funai, e não em alterar a legislação para flexibilizar a necessidade de licenciamento de atividades e empreendimentos.
Disse que a morosidade do licenciamento se relaciona em parte com a falta de estrutura administrativa. Gostaria de complementar que em parte a morosidade do licenciamento está relacionada, justamente, com o seu bom funcionamento. Muitos projetos são concebidos sem viabilidade ambiental, e as vezes sem viabilidade econômica. O licenciamento ambiental certamente é um entrave para esse tipo de projeto, que devem ser adequados caso queiram ser implantados. Mas, nesses casos, ser um entrave significa que a legislação está funcionando bem. O problema surge quando interesses políticos de ocasião decidem que tais projetos serão implantados a fórceps. A Usina de Belo Monte é o mais claro exemplo disso.
Em nota pública, entidades que se manifestam contra a mudança das regras do licenciamento ambiental citaram o caso da população de Barcarena, no Pará, que sofre as consequências do vazamento tóxico de mineração. Pode nos relatar qual é a atual situação na região? As regras de licenciamento ambiental não foram cumpridas nesse empreendimento?
Barcarena tem um distrito industrial concebido nos anos 1970. Esse distrito nunca foi licenciado, apesar de a Resolução CONAMA nº 237/97 prever expressamente o dever de licenciamento para distritos e polos industriais. A falta de licenciamento do distrito industrial compromete o licenciamento das unidades industriais. Além disso, as autoridades públicas afirmam que existiriam dutos irregulares no empreendimento, os quais teriam sido peças-chave no acidente. A existência desses dutos irregulares pode ter decorrido de falta de fiscalização do empreendimento, o que está totalmente relacionado com o licenciamento ambiental.
E o problema de Barcarena não é apenas o acidente de fevereiro. Barcarena tem um problema crônico de contaminação hídrica. Diversos estudos do Instituto Evandro Chagas mostram que as águas da região contêm metais pesados acima dos limites permitidos pela legislação e pelas normas técnicas. Em audiência pública realizada na Câmara dos Deputados, o Deputado Arnaldo Jordy lembrou que entre 2009 e 2018 ocorreram mais de uma dezena de vazamentos de rejeitos de mineração no município, fora outros acidentes, como o naufrágio de um navio repleto de bois vivos. O problema de Barcarena é que a legislação atual não é aplicada, apesar do grande esforço do Ministério Público em lhe dar efetividade. O problema também se relaciona com a falta de estrutura do órgão ambiental estadual.
Barcarena reforça o nosso diagnóstico de que os problemas do licenciamento ambiental dependem de um reforço da estrutura administrativa, e não de um abrandamento do arcabouço legal.
Como foi a reunião de ambientalistas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, neste mês? Como ele se posicionou diante da argumentação de vocês sobre a não existência de um acordo para votar o projeto de lei de licenciamento ambiental?
O deputado Rodrigo Maia está com a cabeça nas eleições. Ele nos ouviu, mas deixou claro que colocaria o projeto para deliberação do plenário. Depois, pronunciou-se como se estivesse costurando um acordo entre polos antagônicos do espectro político. Talvez conseguimos ampliar um pouco o debate em torno do texto do deputado Mauro Pereira. É possível que seja marcada uma audiência pública e que os líderes parlamentares se reúnam. Maia quer aparentar uma figura conciliadora, mas no fundo está comprometido com a Frente Parlamentar da Agropecuária.
Existe algum projeto de lei que se contrapõe aos projetos que estão tramitando na Câmara? Em que consiste? 
Dentre os muitos projetos que foram propostos de 2004 para cá existem algumas propostas interessantes. Por exemplo, o deputado Edmilson Rodrigues chegou a sugerir a obrigatoriedade da elaboração de um balanço de emissões de gases de efeito estufa nas fases de instalação e operação de empreendimentos e atividades, com o estabelecimento de medidas para mitigá-las e compensá-las. Infelizmente, tal medida, que tem forte potencial no enfrentamento das mudanças climáticas, não foi incorporada ao substitutivo do deputado Mauro Pereira. E esse é, em parte, o problema do momento. A discussão gira em torno desse texto-base. As demais propostas aparentam estar fora do jogo. O trabalho agora é consertar o que for possível nesse texto.
Em que consistiria, na sua avaliação, um projeto de lei adequado, considerando o modo como grandes empreendimentos são feitos no Brasil?
Como falamos acima, o problema maior não é um problema legal, mas administrativo. O primeiro passo para aperfeiçoar o sistema de licenciamento ambiental seria o fortalecimento dos órgãos ambientais, com capacitação das pessoas, inovação tecnológica e aumento do número de servidores nos órgãos com claro déficit de pessoal, como a Funai. Depois disso, seria preciso uma mudança na mentalidade de certos segmentos: projetos inviáveis não devem ser implantados, uma vez que eles são ruins para todos, para a economia, para o meio ambiente e para a população. Por outro lado, os projetos viáveis precisam ser implantados com a agilidade possível, e talvez a diminuição de certa litigiosidade por vezes excessiva pode ser um bom caminho.
Depois disso, temos a questão legal, e nisso, defendemos três linhas de aprimoramento. O primeiro é que o licenciamento ambiental esteja relacionado com um planejamento de infraestrutura e logística mais amplo, de nível nacional. Precisamos de um modelo de desenvolvimento sustentável aprovado pela maioria da população e precisamos definir que futuro queremos para cada região do país. É benéfico que as modalidades de licenciamento variem de acordo com a localização do empreendimento, mas essa decisão depende de uma visão estratégica para o país, que só pode ser tomada em âmbito federal. Em segundo lugar defendemos a plena participação democrática no licenciamento de grandes empreendimentos: decisões precedidas de debates e com informações claras são mais legítimas e tendem a ser melhores de um ponto de vista técnico. Por fim, entendemos que os órgãos intervenientes precisam ter voz no processo de licenciamento, seja para criar medidas de mitigação ou compensação de impactos ou para eventualmente vetar a implantação dos projetos que podem trazer danos irreversíveis para unidades de conservação, para o patrimônio histórico e cultural e para os povos e comunidades tradicionais.
Desejam acrescentar algo?
É muito importante a participação da sociedade nesse processo, bem como que se escute a ciência sobre os riscos de se ter uma lei geral de licenciamento muito flex!

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Especulação Imobiliária, abuso do poder econômico e dizimação ambiental e social

160818-PortoMaravilha
O Porto Maravilha, na versão atual. Espaços residenciais (em vermelho) ocupam áreas mínimas, se comparadas às comerciais (azuis). As “culturais” (verdes) são quase todas geridas por grandes empresas, como Globo

História de um retrocesso emblemático: área degradada do centro do Rio, que seria recuperada com moradias e espaços públicos, foi entregue à especulação. Como mega-empresas obtiveram dos governos a rendição total
 Por Adriano Belisário, na Pública e no Outras Palavras
Maior parceria público-privada (PPP) do país, a criação do Porto Maravilha, em 2009, marcou não só o início da transformação da zona portuária no Rio de Janeiro, mas também o fim de uma proposta de transformação da região com foco na participação social e moradia popular. Dona de mais de 60% dos terrenos na região com potencial de construção, a União era uma peça-chave para a reestruturação urbana da área, e, durante seis anos, o Ministério das Cidades liderou o grupo de trabalho dedicado ao tema. No entanto, mesmo com pareceres técnicos e jurídicos favoráveis, tramitação avançada nos governos municipal, estadual e federal, a proposta de criação de um consórcio público para a reabilitação da área foi descartada para surpresa de quase todos os envolvidos no processo.
Em vez dela, foi adotada a atual proposta, cujas principais diretrizes foram elaboradas e executadas pela OAS, Odebrecht e Carioca Christiani Nielsen. São 5 milhões de metros quadrados que englobam três bairros inteiros – Santo Cristo, Gamboa e Saúde – e incluem outros quatro. As empreiteiras se revezam em consórcios naquela área. Além das duas fases do Porto Maravilha, que juntas receberam investimentos de mais de R$ 10 bilhões, as mesmas empresas ganharam outros editais para atuar na região, como as obras do programa Morar Carioca (R$ 32 milhões) e a PPP para operar o veículo leve sobre trilhos, o VLT (R$ 1,1 bilhão).
Após a decisão de 2009, o Ministério das Cidades – criado no início do governo Lula com a missão de impulsionar políticas de desenvolvimento urbano e habitação com inclusão social – foi afastado das negociações. Aos poucos o desenho atual do porto foi tomando conta. A Pública reuniu relatos de ex-funcionários envolvidos nas negociações para contar como aconteceu o triste fim de um dos principais projetos do ministério.
O retrato da situação fundiária antes do Porto Maravilha mostra a predominância de imóveis públicos na região. Apenas 25% da área eram terrenos privados. Estado e município detinham aproximadamente 6% cada um. Todo o restante pertencia à União. O mapa e os dados foram compilados por Mariana Werneck, cuja pesquisa “Porto Maravilha: agentes, coalizões de poder e neoliberalização no Rio de Janeiro”, será publicada em setembro pelo Observatório de Metrópoles
O retrato da situação fundiária antes do Porto Maravilha mostra a predominância de imóveis públicos na região. Apenas 25% da área eram terrenos privados. Estado e município detinham aproximadamente 6% cada um. Todo o restante pertencia à União. O mapa e os dados foram compilados por Mariana Werneck, cuja pesquisa “Porto Maravilha: agentes, coalizões de poder e neoliberalização no Rio de Janeiro”, será publicada em setembro pelo Observatório de Metrópoles
O Ministério das Cidades posto de lado
Quem visita a zona portuária do Rio de Janeiro logo percebe a quantidade expressiva de grandes galpões e fábricas desativadas. Por outro lado, a região do Porto Maravilha ainda tinha a menor densidade habitacional do município em 2010.
A área do Porto Maravilha equivale a quase um terço do centro da cidade. De acordo com o Censo de 2010, em sua imensa maioria os habitantes da zona portuária são de baixa renda: dos 10.098 domicílios da região, apenas 611 possuem renda maior que três salários mínimos. Entre as favelas, a mais antiga do Brasil, o morro da Providência, reúne a maior parte dos moradores, concentrando 1.237 domicílios.
Com tanto terreno disponível em uma área central e tão poucos habitantes, aumentar o número de moradias sempre foi uma das prioridades das políticas públicas de urbanização para o local. O objetivo era reverter o padrão de ocupação atual: intenso de dia, mas quase deserto à noite e nos fins de semana. Pelo menos desde os anos 1980, há propostas em debate. Já naquela época, a Associação Comercial do Rio de Janeiro apresentou um projeto de revitalização e foi criado o projeto Sagas para garantir o uso residencial, bem como preservar o patrimônio arquitetônico de bairros do local.
Conforme levantamento feito por Mariana Werneck, apenas 25% da área da região eram terrenos privados. Estado e município detinham aproximadamente 6% cada um. Todo o restante pertencia à União. Por isso, com a criação do Ministério das Cidades em 2003, abriu-se um novo capítulo dessa história. O novo órgão liderou, no governo federal, a busca de soluções para o porto do Rio, em especial por meio doPrograma de Reabilitação de Áreas Centrais da Secretária Nacional de Programas Urbanos, que previa a reabilitação através da moradia no centro das cidades brasileiras. Surgiu ali a proposta de criação de um consórcio público, composto pelos três níveis de governo, responsável por conduzir a reabilitação da região. A prioridade eram a participação e a permanência da população local, além da produção de habitações de interesse social nos imóveis públicos edificados.
“Foi feita uma série de contratos com especialistas para a modelagem de governança e jurídica. Investiu-se cerca de 300 mil reais em consultorias. Em agosto de 2009, estávamos no final do processo”, lembra Renato Balbim, geógrafo e ex-coordenador do Programa de Reabilitação de Áreas Centrais do Ministério das Cidades. Na época, a zona portuária do Rio de Janeiro era a principal aposta da pasta para moradias em áreas centrais. Representada por Lula, o ex-governador fluminense Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, a aliança entre PT e PMDB propiciou um alinhamento político entre os três níveis de governo, dando novo fôlego ao antigo plano de reabilitação do porto.
No dia 23 de julho de 2009, a primeira fase do Porto Maravilha foi lançada. Houve cerimônia pública e presença de autoridades. O então presidente Lula garantiu: “Não faltarão recursos para concluirmos essas obras”.
“Todas as etapas de redação e validação das minutas já tinham sido superadas nos três níveis de governo. Estava tudo muito bem estruturado, inclusive politicamente, para fazer a assinatura do documento que oficializaria a minuta do consórcio [público], a ser aprovada posteriormente nas câmaras legislativas dos três entes”, diz Balbim. “Faltava apenas a última reunião para bater o martelo sobre a concordância política final”, recorda.
A tal reunião ocorreu semanas depois na Casa Civil, em Brasília, e contou com a presença de Eduardo Paes para, enfim, formalizar a proposta. Balbim resume a surpresa dos técnicos do ministério ouvidos pela Pública: “Entramos em uma reunião para dar o passo final, tomar decisões de encaminhamentos, e já era um clima de fim de feira. Ela se encerrou sem definições e depois disto a coisa morreu”.
“Apesar de até então tudo indicar que o consórcio público tinha total aprovação dos três níveis, simplesmente de um dia pro outro percebemos que não iria mais se levar adiante essa modelagem. Foi uma decisão cuja explicação escapa à área técnica”, lamenta Balbim.
Lula e Eduardo Paes na cerimônia de inauguração da primeira fase do Porto Maravilha, em 2010 (Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil)
Lula e Eduardo Paes na cerimônia de inauguração da primeira fase do Porto Maravilha, em 2010 (Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil)
A diferença entre as propostas
O consórcio público já previa o mecanismo de Operação Urbana Consorciada, presente no Estatuto da Cidade. Ele é viabilizado mediante a venda de Certificados do Potencial Adicional de Construção, os Cepacs, que autorizam a construção de andares acima do limite definido pelo zoneamento da cidade. Eles funcionam como um “terreno virtual” que pode ser vendido na bolsa de valores. No caso do Porto Maravilha, os Cepacs quase dobraram a área edificável – para cima. Até agora, metade dos títulos foi negociada no mercado, e cerca de 10% foram de fato construídos.
O Porto Maravilha de hoje, proposto pelas empreiteiras, segue algumas recomendações do Ministério das Cidades, como a adoção do modelo baseado na comercialização de Cepacs. Mas a diferença é gritante, sobretudo no papel do governo federal na administração: de acordo com a proposta das empresas, toda negociação para as intervenções na área se daria com os poderes locais. A União apenas abriria mão dos terrenos para a incorporação imobiliária.
De fato, com a PPP do Porto Maravilha firmada com a prefeitura, as empreiteiras assumiram serviços básicos que são de responsabilidade do município, como a manutenção e a limpeza dos espaços públicos, a sinalização de vias, a iluminação. “Se você quer resolver qualquer coisa, você se dirige ao Porto Novo”, afirma Maria de Fátima Lima em depoimento ao “100”, projeto da Pública sobre remoções no “Rio olímpico”. “Tudo aqui na região portuária é com o Porto Novo: eles que cortam, mandam plantar, mandam iluminar”, critica a ex-moradora do morro da Providência. No caso da coleta de lixo, o consórcio Porto Novo contratou para o serviço a própria empresa pública de limpeza urbana do município (Comlurb) pelo valor de R$ 19 milhões.
Após a operação no porto, a prefeitura carioca pretende agora expandir o modelo de PPP em grandes operações urbanas para outras regiões. Já há planos para replicar o modelo na zona oeste, em uma área que corresponde a quase um quarto do Rio de Janeiro. O Porto Maravilha virou vitrine.
O Museu do Amanhã, um dos principais símbolos do projeto Porto Maravilha (Foto: Bruno Bartholini)
O Museu do Amanhã, um dos principais símbolos do projeto Porto Maravilha (Foto: Bruno Bartholini)
À frente da Secretaria Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades de 2003 a 2007, Raquel Rolnik lembra: “A ideia seria ter uma empresa pública gerida pelos três níveis de governo que pudesse recepcionar o conjunto de terras públicas. Também começamos a desenvolver um plano de aproveitamento dos terrenos para habitação”. A ideia era que a reabilitação se desse por fases, com mecanismos de transparência e participação da população. A expectativa era lançar o projeto oficialmente durante o Fórum Urbano Mundial de 2010, que ocorreu na zona portuária.
A invenção de um novo mercado para as empreiteiras
TEXTO-MEIO
O primeiro grande passo do grupo de trabalho liderado pelo Ministério das Cidades foi um termo de cooperação que, assinado em 24 de março de 2006, selava a parceria entre os três níveis de governo para elaborar o projeto. “Passamos três anos negociando isto a duras penas. O Cesar Maia não dialogava e estava muito isolado, brigava com o governo do estado e com o governo federal. O culminar disso tudo foi o dia da assinatura do termo. Na véspera, eu fico sabendo que o Cesar Maia foi para Nicarágua. Então, eu decido ir, representando a prefeitura”, recorda Alfredo Sirkis, então secretário municipal de Habitação da prefeitura de Cesar Maia (PMDB). Porém, na manhã da cerimônia, ao abrir o Diário Oficial, ele descobriu ter sido exonerado. A exoneração, que estava combinada, foi cerca de dez dias antes da data acertada. “Eu achei que ia ser um vexame: no dia da assinatura, vir o presidente da República, uma porrada de ministros e nem o prefeito nem ninguém [do município] aparecer. Aí eu fui e discursei mesmo assim, como se estivesse no meu último dia como secretário”, lembra Sirkis.
Foi neste ano também que nasceu outro projeto, que acabaria vitorioso: incluir definitivamente as construtoras na direção do negócio. Em 8 de agosto de 2006, quatro meses depois da assinatura do termo, Cesar Maia surpreendeu os funcionários do governo federal ao publicar um Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI) para que empresas privadas efetuassem “os estudos de modelagem necessários para a viabilização de uma concessão ou parceria público-privada” para a região. O único a manifestar interesse em elaborar propostas para a área foi o consórcio Rio Mar e Vila, liderado pela OAS e composto por Odebrecht, Carioca Christiani-Nielsen e pela Andrade Gutierrez, que depois saiu do grupo.
Ao longo de 2007, as empreiteiras começaram a desenhar seus planos para o porto, elaborando estudos e contratando consultores internacionais e locais, como o próprio Sirkis. Constituíram um grupo de trabalho no município, cujas reuniões contavam com a presença dos representantes das empresas. As propostas, alinhadas com os objetivos das empreiteiras, foram reunidas em uma página do Diário Oficial em 2 de janeiro de 2008 (leiaaqui). Mas o projeto só foi implementado pela atual administração, de Eduardo Paes.
 Depois de ter deixado o Ministério das Cidades, Raquel Rolnik prestou consultoria ao BNDES em reabilitação de áreas centrais, entre 2007 e 2008. “Em 2008, o Élvio Gaspar [então diretor do BNDES] me liga e pede para eu ir na OAS para o [então presidente da empresa] Léo Pinheiro mostrar o que eles estão fazendo sobre o porto”, lembra a urbanista. “Ao chegar lá, eu vejo o projeto urbanístico do Porto Maravilha quase todo pronto: já tinha um plano, os projetos de leis todos montados etc. Ele estava extremamente interessado, pois sabia que isto podia se transformar em um modelo e, a partir dali, abrir um mercado totalmente novo para as empreiteiras, que é o das PPPs de desenvolvimento urbano. Em novembro do ano seguinte, o Eduardo Paes pega aquele pacote, manda para Câmara dos Vereadores no final do ano e aprova tudo”, afirma Raquel, que foi ainda relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia, em que denunciou as tentativas de remoção em massa na zona portuária.
Atual presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), Alberto Silva confirmou à reportagem que, após a sua eleição em 2008, Eduardo Paes foi procurado pelo consórcio de empreiteiras interessadas nos terrenos públicos da zona portuária. “Boa parte da modelagem institucional [atual] é resultado dessa PMI. A aprovação do pacote institucional é resultado desse processo: o consórcio entrega todo este material, a prefeitura absorve e transforma no pacote legal que cria a Cdurp, a Operação Urbana, a regulamentação das leis de PPP do município, o pacote de incentivo fiscal”, garante.
Nasce o Porto Maravilha
Quatro meses depois de ter tomado posse, em abril de 2009, Eduardo Paes convidou as empreiteiras para a mesa de negociação com o Ministério das Cidades. Foi na ocasião que Renato Balbim tomou contato com o projeto das empresas, que estava sendo desenvolvido paralelamente ao do consórcio público. Apesar de não se recordar da data exata, Balbim lembra a “profunda polarização” do encontro. Após a apresentação da proposta elaborada pelas empresas e daquela do consórcio público, “ficou claro que as posições eram diametralmente opostas”, diz. Segundo ele, o objetivo do governo federal era manter o controle dos principais projetos e decisões urbanísticas com os entes públicos, e não com as empresas privadas. Aconteceu o contrário.
“A ideia deles [representantes das empreiteiras] era passar as terras para a prefeitura e as empreiteiras fazerem a incorporação imobiliária. Não inovava em nada: é um modelo de incorporação simplista, que traz segurança total pro empreendedor. Não era uma proposta de reabilitação de área, que tem outros mecanismos e prioridades, como a participação social, permanência da população, valorização do patrimônio histórico, além de uma modelagem de negócios que convertia parte das melhorias urbanas e dos ganhos de capital para o conjunto da cidade”, compara Balbim.
Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Sérgio Magalhães também critica o modelo adotado no Porto Maravilha por não apresentar nenhuma novidade do ponto de vista urbanístico. Segundo ele, que acompanha as propostas para a região desde os anos 1980, a operação urbana atual não privilegia o espaço público e mantém o regime fundiário já existente, mudando apenas os proprietários das terras.
De acordo com Álvaro Pereira, doutor em direito pela USP e pesquisador do Porto Maravilha, “havia uma prioridade bastante distinta do objetivo a ser implementado”. “O consórcio público é algo claramente distinto da proposta que surge pela PMI, onde não existe um foco em habitação. O objetivo é criar um modelo rentável para o mercado imobiliário privado”, aponta.