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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ainda é tempo de replantar flores....



Segue parte de um texto de Flávio Maroja Ribeiro, o Fuba:


Certa ocasião um repórter perguntou ao Dalai Lama: “o que te mais surpreende na  humanidade?”. E ele respondeu: “o homem... porque perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem dinheiro para recuperar a saúde”. “E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro”. “E vivem como nunca fossem morrer... e morrem como nunca tivessem vividos”. A humanidade caminha como a teoria do Lama e as conseqüências certamente são catastróficas. Ninguém, ou quase ninguém pensa na coletividade como uma forma de compartilhar suas vidas e experiências se voltando apenas para o imediatismo.

O sistema capitalista tem aos poucos deteriorado o nosso planeta e gradativamente perdemos a consciência do quanto está ficando perigoso para as futuras gerações. Crescemos assustadoramente em passos cada vez mais largos, sem nenhum planejamento e preocupação em relação à preservação do meio ambiente. A natureza tem dado as suas respostas e sua revolta está ficando cada vez maior. O homem perdeu a noção de solidariedade, amizade, carinho e amor. Por conta disso está ficando cada vez mais egoísta e individualista. As famílias estão cada vez mais dispersas e enclausuradas em seus quartos, televisões e computadores. Aos poucos a socialização e a naturalidade da comunicação estão desaparecendo. No campo da política, essência fundamental para a construção da humanidade, perdeu-se o respeito e a consistencialidade daquilo que ela representa. Os vínculos são pessoais e os poderes cada vez mais vislumbram suas próprias vontades. O sistema está corrompido há séculos. Vivemos uma mentira onde a ambição pelo dinheiro cada dia destrói mais os conceitos de vida.
Nessa perspectiva tecnológica e globalizada, a verdade é que nos tornamos cada vez mais virtuais e desprovidos de sentimentos fundamentais para a continuidade do mundo. A natureza reclama! O Planeta sobrevive adoecido pelas atitudes imediatistas do homem. Perdemos a noção do quanto estamos sendo nocivos para com o universo. Até quando a Terra resistirá?

segunda-feira, 21 de março de 2011

A fragmentação do ensino fragmentando os seres



Edgar Morin

Devemos pensar o problema do ensino considerando, por um lado, os efeitos cada vez mais graves da compartimentalização dos saberes e da incapacidade de articulá-los, uns nos outros; por outro lado, considerando que a aptidão para contextualizar e integrar é uma qualidade fundamental da mente humana, precisa ser desenvolvida, e não atrofiada.

O crescimento ininterrupto dos conhecimentos constrói uma gigantesca torre de Babel, que murmura linguagens discordantes. A torre nos domina porque não podemos dominar nossos conhecimentos. T. S. Elit dizia: "onde esta o conhecimento que perdemos na informação?" O Conhecimento só é conhecimento enquanto organização com sentido, relacionado com as informações e inserido no contexto destas. As informações constituem parcelas dispersas de saber. Em toda parte, nas ciências como nas mídias, estamos afogados em informações. O especialista da disciplina mais restrita de uma matéria não chega sequer a tomar conhecimento das informações concernentes à sua área. Cada vez mais, a gigantesca proliferação de conhecimentos escapa aos controle humano.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma Revolução ainda por fazer





Leonardo Boff *

Fonte: Adital


Toda mudança de paradigma civilizatório é precedido por uma revolução na cosmologia (visão do universo e da vida). O mundo atual surgiu com a extraordinária revolução que Copérnico e Galileo Galilei introduziram ao comprovarem que a Terra não era um centro estável, mas que girava ao redor do sol. Isso gerou enorme crise nas mentes e na Igreja, pois parecia que tudo perdia centralidade e valor. Mas lentamente impôs-se a nova cosmologia que fundamentalmente perdura até hoje nas escolas, nos negócios e na leitura do curso geral das coisas. Manteve-se, porém, o antropocentrismo, a ideia de que o ser humano continua sendo o centro de tudo e as coisas são destinadas ao seu bel-prazer.
Se a Terra não é estável -pensava-se - o universo, pelo menos, é estável. Seria como uma incomensurável bolha dentro da qual se moveriam os astros celestes e todas as demais coisas.

Eis que esta cosmologia começou a ser superada quando em 1924 um astrônomo amador Edwin Hubble comprovou que o universo não é estável. Constatou que todas as galáxias bem como todos os corpos celestes estão se afastando uns dos outros. O universo, portanto, não é estacionário como ainda acreditava Einstein. Está se expandindo em todas as direções. Seu estado natural é a evolução e não a estabilidade.
Esta constatação sugere que tudo tenha começado a partir de um ponto extremamente denso de matéria e energia que, de repente, explodiu (big bang) dando origem ao atual universo em expansão. Isso foi proposto em 1927 pelo padre belga, o astrônomo George Lemaître o que foi considerado esclarecedor por Einstein e assumido como teoria comum. Em 1965 Arno Penzias e Robert Wilson demonstraram que, de todas as partes do universo, nos chega uma radiação mínima, três graus Kelvin, que seria o derradeiro eco da explosão inicial. Analisando o espectro da luz das estrelas mais distantes, a comunidade científica concluiu que esta explosão teria ocorrido há 13,7 bilhões de anos. Eis a idade do universo e a nossa própria, pois um dia estávamos, virtualmente, todos juntos lá naquele ínfimo ponto flamejante.

Ao expandir-se, o universo se autoorganiza, se autocria e gera complexidades cada vez maiores e ordens cada vez mais altas. É convicção de notáveis dos cientistas que, alcançado certo grau de complexidade, em qualquer parte, a vida emerge como imperativo cósmico. Assim também a consciência e a inteligência. Todos nós, nossa capacidade de amar e de inventar, não estamos fora da dinâmica geral do universo em cosmogênese. Somos partes deste imenso todo.

Uma energia de fundo insondável e sem margens - abismo alimentador de tudo - sustenta e perpassa todas as coisas ativando as energias fundamentais sem as quais nada existe do que existe.

A partir desta nova cosmologia, nossa vida, a Terra e todos os seres, nossas instituições, a ciência, a técnica, a educação, as artes, as filosofias e as religiões devem ser resignificadas. Tudo e tudo são emergências deste universo em evolução, dependem de suas condições iniciais e devem ser compreendidas no interior deste universo vivo, inteligente, auto-organizativo e ascendente rumo a ordens ainda mais altas.

Esta revolução não provocou ainda uma crise semelhante a do século XVI, pois não penetrou suficientemente nas mentes da maioria da humanidade, nem da inteligentzia, muito menos nos empresários e nos governantes. Mas ela está presente no pensamento ecológico, sistêmico, holístico e em muitos educadores, fundando o paradigma da nova era, o ecozóico.

Por que é urgente que se incorpore esta revolução paradigmática? Porque é ela que nos fornecerá a base teórica necessária para resolvemos os atuais problemas do sistema-Terra em processo acelerado de degradação. Ela nos permite ver nossa interdependência e mutualidade com todos os seres. Formamos junto com a Terra viva a grande comunidade cósmica e vital. Somos a expressão consciente do processo cósmico e responsáveis por esta porção dele, a Terra, sem a qual tudo o que estamos dizendo seria impossível. Porque não nos sentimos parte da Terra, a estamos destruindo. O futuro do século XXI e de todas as COPs dependerá da assunção ou não desta nova cosmologia. Na verdade só ela nos poderá salvar.

[Leonardo Boff com Mark Hathway escreveram The Tao of Liberation:exploring the ecology os transformation,N.Y.2010].


* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor