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segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Filhos de Eichmann: A percepção de onde vêm os monstros do individualismo reduzido a uma engrenagem insensível

 

Livro analisa a redução do indivíduo moderno à uma engrenagem, como no caso do horror nazista. Assim, pessoas sujam as mãos – e mantêm-se inocentes. Nesta nova face do conformismo, o “fazer se torna variante da passividade”

Himmler inspeciona campo de prisioneiros de guerra na Rússia, em 1941 Foto: Wikimedia

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Este é o posfácio do livro Nós, filhos de Eichmann, de Günther Anders, publicado pela Editora Elefante, parceira editorial de Outras Palavras. Quem colabora com nosso jornalismo de profundidade tem desconto de 25% em todos o catálogo da editora. Aqui você apoia nosso trabalho e recebe diversas contrapartidas

Em uma carta de 12 de outubro de 1965, cogitando uma possível visita a seu amigo Günther Anders, Herbert Marcuse escreveu:

Eu preciso vê-lo e reclamar com você — também não posso esconder que fiquei furioso com seu Filhos de Eichmann. Isso não dá. Não podemos mais nos dar ao luxo de ser goody-goodies e de apelar ao sentimento e ao bom-senso de bestas desprovidas de qualquer sentimento e bom-senso. Porque toda argumentação já é conciliação e até mesmo traição em relação aos que foram mortos por essas bestas — e os filhos de Eichmann, caso tenham a chance (o que é provável), farão novamente com entusiasmo aquilo que já fizeram. Você é um homem irredutível e por isso eu o admirava. Não se entregue escrevendo cartas de amor aos carrascos. Günther, nós (também você?) estamos velhos. Não usemos o tempo que ainda temos com compreensão profunda e benévola daqueles que são aliados do horror… em que precisamos empregar nosso tempo, isso não preciso lhe dizer. (1)

Não é de todo improvável que o leitor atual desta carta aberta ao filho de Adolf Eichmann tenha uma sensação similar à que teve Marcuse: o apelo de Anders ao jovem Klaus Eichmann de fato parece, em vários momentos, descabido. No entanto, não devemos nos esquecer que, àquela altura, Anders já havia se correspondido com outra figura emblemática da bestialidade de nossa época — ou monstruosidade, como ele prefere dizer —, a saber, Claude Eatherly, um dos pilotos estadunidenses envolvidos na missão de soltar uma bomba nuclear sobre a cidade japonesa de Hiroshima e que, à época, tornou-se relativamente célebre por seu “adoecimento” mental, que o levava a cometer pequenos furtos e assaltos com a finalidade de ser punido. Ao mesmo tempo, Eatherly era elevado à condição de herói nacional, de modo que sua culpa (real) era tratada como um caso patológico de guilt complex — lembremos que, sobretudo nos Estados Unidos, toda crítica às armas nucleares era (e é) recebida como atentado à segurança nacional. Coube-lhe o destino de ficar internado em um hospital psiquiátrico militar monitorado, sendo-lhe vetada a experiência da culpa e do remorso, que, por sua vez, vinculava-se à tomada de consciência em relação à monstruosidade do ato do qual ele havia participado. Na correspondência com Günther Anders, que lhe havia enviado seus “Gebote des Atomzeitalters” [Mandamentos para a era atômica] e que lhe escreveu: “você está condenado a permanecer como doente em vez de culpado”, (2) ele encontrou alguém que reconhecia sua culpa, isto é, sua responsabilidade — algo que possibilitou uma melhora clínica no ex-piloto, que passou então a se engajar contra aquilo no qual ele havia tomado parte, isto é, o genocídio nuclear, cuja ameaça perdura desde 1945.

Se Anders chegou a ver em Eatherly uma “contrafigura de Eichmann” (3) (embora ambos sejam figuras gêmeas naquilo que realizaram), foi porque, apesar de seu “catastrofismo”, o autor de Die Antiquiertheit des Menschen [A obsolescência do homem] nutre uma perspectiva em relação à “plasticidade dos sentimentos” dos seres humanos, à qual ele vincula a capacidade humana de imaginar que, na época da “discrepância prometeica”, ficou aquém daquilo que o homem pode produzir, ou seja, de sua capacidade técnica. Desse modo, tornou-se tecnicamente possível o assassinato de centenas de milhares de pessoas, embora esse ato mesmo extrapole a fantasia humana — e é justamente porque tais atos extrapolam a fantasia humana que eles se tornam possíveis, e não apesar dessa discrepância entre agir e imaginar. É esse o vínculo íntimo entre a magnitude da barbárie de Auschwitz e Hiroshima e o ponto alcançado pelo processo civilizatório da modernidade capitalista. (4) No entanto, se há algo como um “humanismo” (empregamos o termo, a despeito das confusões que ele pode acarretar) no autor, que via obsolescências por toda parte, ele se vinculava à transformabilidade do ser humano, isto é, a seu caráter não fixo, exatamente como no leitmotiv de Brecht, que tinha horror às naturalizações dos vícios dos homens. (5) É nessa tensão entre pessimismo da inteligência e otimismo da prática que Ludger Lütkehaus viu em Anders “esse caráter duplo de niilista ontológico-axiológico e rigoroso antiniilista em seu engajamento”. (6)

Em resposta à carta de Marcuse, Anders diz se tratar de um grande “mal-entendido”:

Esse mal-entendido decorre exclusivamente do fato de que vivemos em dois mundos completamente diferentes (eu, por exemplo, em um totalmente sem judeus) e que falamos para públicos completamente diferentes. Não passaria pela cabeça de ninguém aqui na Europa compreender meu Filhos de Eichmann como goody-goody. Pelo contrário: eu sou difamado como alguém que tem sede de vingança — o efeito do mesmo texto em meios diferentes pode ser, desse modo, tão diverso. A isso se soma o fato de que só aparentemente a carta era direcionada ao filho do Eichmann, e que apresento a bestialidade como sendo a situação atual. (7)

Se a carta foi um gênero literário bastante importante para Anders, é porque ela representa, literalmente, o texto endereçado por excelência. Neste pequeno livro, é constante a interpelação ao leitor e o uso do pronome na segunda pessoa. Mas (e isso vale também para a correspondência com Eatherly) os endereçados são igualmente o público geral, incluído na também recorrente primeira pessoa do plural, em um nós que aparece já no título. E, como Anders costuma enfatizar, seus interlocutores não são professores e estudantes de filosofia, mas um público tão diverso como o era o próprio movimento antinuclear, que incluía “médicas da Indonésia, teólogos protestantes da Alemanha e dos Estados Unidos, sindicalistas da Índia, monges budistas do Japão, cientistas nucleares dos mais diversos países e estudantes da África”. (8) Assim, Nós, filhos de Eichmann pode ser lido também como uma versão sintética e prêt-à-porter de algumas de suas principais teses desenvolvidas em outras obras mais extensas.

O incômodo de Marcuse talvez passe sobretudo pela impressão dada pelo texto de que Anders estaria quase inocentando Eichmann. Ciente desse perigo, o autor faz questão de explicitar do que se trata e por isso escreve para Klaus: “temo que você receba meus argumentos como um desencargo da culpa de seu pai”, ao mesmo tempo alertando que “não poderia imaginar mal-entendido pior”. Mas por que é possível ter essa impressão (equivocada) ao lermos este texto? De fato, a tensão entre a culpa (a responsabilidade) individual por um crime monstruoso e o caráter socialmente sistêmico (impessoal, portanto) desse mesmo crime atravessa de cabo a rabo a carta aberta a Klaus Eichmann e, de modo geral, também todos os estudos de Anders dedicados ao que podemos chamar de mudança estrutural do conformismo. No entanto, se falamos aqui em “conformismo”, não devemos ter em mente a imagem tradicional daquele que contempla em oposição ao que age, ou do burguês confortavelmente sentado em uma poltrona, digno de figurar em um romance de Zola ou Balzac. Estamos nos referindo antes à situação em que, como escreve Anders em seu ensaio sobre Esperando Godot, de Beckett, “o fazer se tornou uma variante da passividade”. (9) Ou seja, trata-se de identificar como funciona essa nova forma humana da atividade, que embaralha ação e trabalho e que permitiu nada menos que “os maiores trabalhos sujos da história”. (10)

Nessa situação, a “maldade” (que permitia algo como culpa individual), depois de ter se transformado em sistema, parece pertencer a outra época. Por isso também Hannah Arendt dizia ser inadequado afirmar que Eichmann era uma pessoa “cruel”. A percepção desse fenômeno tampouco era estranha aos frankfurtianos. Adorno, em um curso sobre filosofia moral, insiste que, “como Horkheimer formulou, não há mais pessoas boas ou más. As possibilidades objetivas da decisão moral estão encolhidas”, (11) o que implicava, no limite, a própria obsolescência da filosofia moral. Ainda que Kant tivesse ambições mais normativas do que descritivas em sua Crítica da razão prática, o que se observava, àquela altura do século XX, era o desaparecimento dos pressupostos materiais e sociais da autonomia moral como guia da ação, isto é, a palavra “indivíduo”, em sua acepção propriamente moderna, já não parecia se referir a nada. Essa brutal redução dos indivíduos à função social que exercem foi igualmente pressentida por Kafka, que, antecipando o que viria a ser o século que se iniciava, colocou na boca de um dos personagens de O processo: “Sou contratado para espancar, logo, espanco”.

A pergunta que norteia a investigação de Anders poderia ser, portanto, traduzida em termos que não são do autor: o que forma os sujeitos da dominação sem sujeito? Quais são as mutações da alma nessa “participação [Mit-Tun] ativa-passiva-neutra”, que funciona por meio de um “princípio ‘medial’-conformista”? (12) Longe de querer simplesmente dissolver a responsabilidade dos indivíduos que participaram das maiores atrocidades do século XX, Anders quer mostrar que Eichmann é, de certo modo, a ponta do iceberg de um enorme sistema de colaboração no qual se transformou a sociedade moderna. O problema não é apenas que as pessoas “sujem as mãos” no horror, mas que elas o fazem mantendo-se inocentes”, pois psicologicamente elas já não podem mais, devido ao caráter infinitamente mediado dos processos sociais, reconhecer o resultado de uma ação como sendo de fato “delas”. Por isso, “a compreensão do tornar-se inocentemente culpado, do caráter indireto do envolvimento de hoje, é a investigação decisiva, indispensável de nossa era”. (13) Esta carta a Klaus Eichmann é certamente uma contribuição para essa investigação, que não deixa de ter no horizonte, como diria o amigo Herbert, o instante da “Grande Recusa”.


Notas:

1. ANDERS, Günther. Gut, dass wir einmal die hot potatoes ausgraben [Bom que estamos colocando as batatas quentes na mesa]. Munique: Beck, 2022, p. 113-4.

2. ANDERS, Günther. “Off limits für das Gewissen: Briefwechsel mit dem Hiroshima-Piloten Claude Eatherly” [Além dos limites da consciência: correspondência com Claude Eatherly, piloto de

Hiroshima]. In: anders , Günther. Hiroshima ist überall [Hiroshima está em toda parte]. Munique: Beck, 1995, p. 212.

3. Idem, p. xix.

4. Embora Anders tenha elevado o problema da discrepância ao ponto de fuga de toda sua obra, esse fenômeno foi também identificado por diversos autores da época e esteve presente, por exemplo, tanto nos comentários de Walter Benjamin sobre as armas químicas na Primeira Guerra Mundial quanto na análise de Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém ou mesmo em A condição humana, obra na qual há afirmações muito próximas do diagnóstico de Die Antiquiertheit des Menschen (como se lê na correspondência entre os dois, Arendt revela ter lido com entusiasmo o ensaio de Anders sobre a bomba atômica). No caso de uma comparação mais aprofundada entre as análises anderiana e arendtiana do fenômeno Eichmann, ficaria evidente a analogia entre o que Anders chama de “imaginação” e aquilo que, em Arendt, é “pensamento”. Em todo caso, também para Arendt é gritante a “discrepância” em Adolf Eichmann: sua linguagem atrofiada (mesmo no momento de sua morte, ele só conseguia falar por meio de clichês) revelava sua incapacidade de pensar, que estava muito aquém daquilo que ele fazia.

5. O que foi ressaltado pelo próprio Anders em sua leitura das Histórias do Sr. Keuner, presente no livro Mensch ohne Welt: Schriften zur Kunst und Literatur [Homem sem mundo: escritos sobre arte e literatura]. Munique: Beck, 1993.

6. LÜTKEHAUS, Ludger. Schwarze Ontologie: Über Günther Anders [Ontologia sombria: sobre Günther Anders]. Lüneberg: zu Klampen, 2002, p. viii.

7. ANDERS. Gut, dass wir einmal die hot potatoes ausgrabenop. cit., p. 114.

8. ANDERS, Günther. Die atomare Drohung [A ameaça atômica]. Munique: Beck, 2003, p. 52.

9. ANDERS, Günther. Die Antiquiertheit des Menschen, v. 1, Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution [A obsolescência do homem, v. 1, Sobre a alma na era da Segunda Revolução Industrial]. Munique: Beck, 2010, p. 218.

10. ARANTES, Paulo. “Sale boulot”. In: ara ntes, Paulo. O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo, 2014.

11. Adorno-Archiv, “Probleme der Moralphilosophie (Vorlesungen)” [Problemas de filosofia moral (aulas)], 22 dez. 1956.

12. ANDERS. Die Antiquiertheit des Menschen, v. 1, op. cit., p. 288.

13. ANDERS. Hiroshima ist überallopcit., p. xviii.

sábado, 18 de abril de 2020

Governo Bolsonaro é o retrato da barbárie contra indígenas, por Sônia Guajajara



"Desde a posse de Jair Bolsonaro à presidência da República, sofremos uma intensa e grave ofensiva contra os direitos dos povos indígenas no Brasil"
Foto: Andressa Zumpano

Por Sônia Guajajara

Governo Bolsonaro: o retrato da barbárie contra os povos indígenas e a vida

No relatório “Conflitos no Campo Brasil 2019”, da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Desde a posse de Jair Bolsonaro à presidência da República, em janeiro de 2019, sofremos uma intensa e grave ofensiva contra os direitos dos povos indígenas no Brasil. Já no primeiro dia do novo governo, vimos o discurso anti-indígena, que marcou a carreira política e a campanha de Bolsonaro, se materializar em ataques aos povos indígenas, a seus direitos e à política indigenista do Estado brasileiro, construída em décadas de luta do movimento indígena.
O principal foco dos ataques são os territórios tradicionais, seja para a exploração de madeira, minério, expansão agrícola de fazendas, agronegócio ou especulação imobiliária. Com isso a vida, de todo mundo que luta em defesa da Terra e do meio ambiente está em risco. Por decisão política todos os processos de demarcações estão paralisados. O presidente afirmou que não demarcaria nenhuma Terra Indígena (TI) em seu governo. Para começar a por em prática a sua decisão, transferiu a Fundação Nacional do Índio (Funai) para o Ministério de Direitos Humanos, da Mulher e da Família, e suas principais atribuições relacionadas com a demarcação de Terras Indígenas e o licenciamento ambiental para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A decisão fez parte na reforma ministerial, por meio da Medida Provisória n. 870/2019. O Congresso Nacional, por meio da Frente Parlamentar mista em defesa dos direitos indígenas, alinhada com o movimento indígena e várias entidades de apoio, modificou-a em diversos pontos, inclusive conseguindo retornar para a Funai a atribuição de demarcar os territórios indígenas. Contudo, o presidente publicou uma nova Medida Provisória, de número 886/2019, retomando a demarcação para o MAPA, contrariando a decisão do Congresso Nacional e incorrendo em uma inconstitucionalidade, visto que é proibida a reedição de medida provisória na mesma legislatura que tenha sido rejeitada pelo poder legislativo.
Por força de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), a demarcação voltou para a Funai. Em decisão monocrática, o Ministro Luiz Roberto Barroso anulou a proposta, pois “medida provisória nenhuma pode ser reeditada, constitucionalmente, na mesma sessão legislativa” (Art. 62 da CF) e porque, segundo a decisão do Ministro, atenta contra a separação dos poderes. Esta decisão foi depois confirmada pelo Suprema Corte em sessão plenária. Por fm, o STF decidiu, por unanimidade, que a demarcação de TIs deve permanecer na Funai que, por sua vez, deve ficar no Ministério da Justiça. Para além de um debate jurídico, as medidas legislativas do governo demonstram uma intenção a qualquer custo de impedir a demarcação de terras indígenas.
A Funai vem sendo aparelhada pelo governo Bolsonaro, que busca por diferentes meios instaurar um domínio ruralista, isto é, dos representantes do agronegócio, sobre o órgão indigenista. Em junho de 2019, por pressão do setor, o General Franklinberg de Freitas foi exonerado do cargo de presidente do órgão. Em entrevista, Freitas afirmou que sua exoneração teve influência direta do Secretário Especial de Assuntos Fundiários do MAPA, Nabhan Garcia, presidente licenciado da União Democrática Ruralista (UDR), o qual, segundo o ex-presidente da Funai, “saliva ódio aos indígenas”.
Diante disso, foi nomeado um antigo aliado ruralista para presidir o órgão, o delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier que, em 2017, atuou como assessor dos ruralistas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai e do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA). A CPI foi uma iniciativa da bancada ruralista e indiciou líderes comunitários, antropólogos, servidores públicos, indigenistas e procuradores. Em setembro, o Ministro da Justiça, Sérgio Moro, indicou a advogada Silmara Veiga de Souza, que atuou como advogada na contestação do procedimento administrativo da Funai de identificação e delimitação da Terra Indígena Ka’aguy Hovy, do povo Guarani Mbya, localizada no município de Iguape, no litoral sul de São Paulo, para ser a titular da Diretoria de Proteção Territorial do órgão.
O cenário, portanto, é de grande influência do agronegócio sobre o procedimento da demarcação de Terras Indígenas, o que aponta para um período de estagnação dos processos já em andamento, de rejeição a novas demandas territoriais, e mesmo de tentativas de reverter demarcações já concretizadas. Passado um ano de governo, nenhuma Terra Indígena foi demarcada.
A atribuição da Funai de opinar sobre o licenciamento ambiental de obras que possam impactar direta ou indiretamente os territórios indígenas também está sob ataque no governo Bolsonaro. Para o presidente, tal prerrogativa da Funai, fundamental para a defesa dos direitos e dos territórios indígenas, é um “entrave ao desenvolvimento” – que deve ser removido para a concretização de grandes empreendimentos, sem qualquer consideração pelos possíveis impactos às populações indígenas. Em agosto, Bolsonaro criticou a atuação do órgão indigenista em processos de licenciamento ambiental, usando como exemplo uma obra de construção de um terminal de contêineres no Paraná: “Há anos o terminal de contêiner do Paraná, se não me engano, não sai do papel porque precisa agora também de um laudo ambiental da Funai. O cara vai lá e se encontra, já que tá na moda, um cocozinho petrifcado de índio, já era, não pode fazer mais nada ali”, afirmou.
Ao mesmo tempo, no Congresso Nacional tramitam aceleradamente Projetos de Lei que buscam flexibilizar o licenciamento ambiental, com a finalidade de expandir o dito desenvolvimento para os territórios tradicionais, com isso abrindo-os para exploração agropecuária, minerária e energética, com pouca ou, até mesmo, nenhuma participação dos povos indígenas. Dentre os principais projetos está a proposta de Lei Geral de Licenciamento Ambiental (Projeto de Lei N.º 3.729/2004) que isenta de licenciamento os empreendimentos que afetarem territórios indígenas que estejam em processo de demarcação. O projeto aponta que são passíveis de licenciamento obras incidentes apenas em Terras Indígenas homologadas, desconsiderando assim as que estão com procedimento demarcatório em curso ou apenas reivindicadas pelos povos indígenas. Pelo texto, 163 TIs em processo de demarcação deixariam de ser consideradas nos processos de licenciamento.
A Funai, nas proposições do governo Bolsonaro, deve se tornar, novamente, um ente gestor dos interesses dos povos indígenas no processo de implementação de empreendimentos, inclusive minerários, significando a volta da tutela e do indigenismo autoritário.
Diante da acelerada inflexão nos direitos indígenas que presenciamos, chamo atenção para os acontecimentos que delineiam um cenário de profundo agravamento das violações.
Leia o artigo completo de Sônia Guajajara:
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sábado, 23 de novembro de 2019

O que fazer para que a barbárie neofascista não prevaleça, por Thales Coelho


Como vai se prenunciando no Chile, é preciso, aqui no Brasil, incorporar grandes massas populares à discussão, tornando-as, efetivamente, sujeitos políticos, com condições de pensar e decidir por si mesmos. Caso contrário, a Constituição, com seus direitos, vai se esvaindo
Foto: Patricia Faermann

O que fazer para que a barbárie não prevaleça

Por Thales Coelho

Sugerido por Luiz Pinto
comentário no post O fim da democracia e os homens-bambus, por Luis Nassif
O historiador chileno Gabriel Salazar, estudioso, há décadas, dos protestos em seu país, afirmou, não faz muito tempo, que “ter direitos e não ter poder não serve para nada”. Ele é um entusiasta das assembleias populares que lá vão brotando pelos quatro cantos e se dedicam a pensar um projeto de Constituição para o Chile.
Algo semelhante ocorreu na Islândia, após a grave crise financeira de 2008. A população chilena se mobiliza, de baixo para cima, para repensar o país como um todo.
Aonde isso vai chegar é impossível de se prever. O “status quo” resiste: convoca para abril de 2020 um plebiscito, no qual o povo optaria por delegar a elaboração de uma nova constituição a uma “convenção constitucional” ou a uma “comissão mista constitucional”, o que nos remete à fracassada comissão Afonso Arinos, instituída por Sarney, após a aprovação da Emenda Constitucional nº 26, de 1985 – pela qual se outorgaram poderes constituintes ao Congresso Nacional que seria eleito em 1986.
As emendas populares que chegavam para a Constituinte de 1988 – Foto: Orlando Brito
Detalhe: na tal convenção constitucional, apenas metade dos deputados seria eleita para o fim específico de elaborar a nova constituição; a outra metade dos “constituintes” seria composta pelos atuais parlamentares, repetindo-se o que se passou no Brasil. Aqui, recordemo-nos, os senadores eleitos em 1982 (ainda no regime militar) e na metade de seus mandatos de oito anos, em 1987, puderam participar plenamente da “Assembleia Nacional Constituinte”.
E por falar em Brasil, vivenciamos por estas bandas, nos dias de hoje, a erosão dos direitos individuais e sociais, “consagrados” no texto constitucional, sem que os lesados tenham poder para a isso se contrapor. O povo a tudo assiste anestesiado. A ordem jurídica instituída em 1988 esvai-se.
Na verdade, se notarmos a quantidade absurda de normas constitucionais que ainda dependem de regulação ordinária ou complementar para que tenham eficácia; se atentarmos para o enorme número de emendas constitucionais, que já tornaram o texto original, nas palavras do Ministro Marco Aurélio, um “hebdomadário”, podemos verificar que a Constituição nasceu interditada e o seu desmonte começou imediatamente após sua promulgação.
Ministro Marco Aurélio Mello – Foto: Orlando Brito
Em 6 de outubro de 1988, não é demasiado relembrar, foi apresentada, a despeito da vedação por cláusula pétrea, a primeira proposta de emenda constitucional, de autoria do então Deputado Amaral Netto, pela qual se propunha a realização de um plebiscito, para que o povo decidisse sobre a adoção da pena de morte, rechaçada pela Constituição que entrara em vigor no dia anterior. No dia anterior!
O curioso é que as propostas para a realização de um referendo, a fim de que os cidadãos dissessem se aprovavam ou não a nova Constituição como um todo, haviam sido, anteriormente, rejeitadas, inclusive pelos defensores da pena de morte.
Nessa toada, até mesmo as instituições políticas vão sendo questionadas por milícias digitais ou por milicianos de carne e osso. Os partidos políticos são achincalhados; cresce o número de pedidos de “impeachment” contra magistrados da Suprema Corte. E até mesmo generais são alvos de difamação e injúria.
A Constituição vai perdendo, a passos largos − exatamente por conta da paralisia dos cidadãos por ela, teoricamente, protegidos − a sua “força normativa”. E como não existe vácuo na política, seu lugar tende a ser ocupado por um ordenamento tendencialmente totalitário e retrógrado. Uma vez finada a “democracia”, poderemos ter de nos sujeitar à “demarquia”, um regime político autoritário, proposto por Friedrich Hayek, no qual a democracia de fachada dá guarida ao ultraliberalismo econômico.
Contra isso se insurgem os chilenos.
Ulysses Guimarães, presidente da Assembléia Constituinte, segura a nova Constituição no dia de sua promulgação na Assembleia Nacional Constituinte
É tarefa para ontem das forças democráticas, que acreditam na liberdade, nos ideais republicanos e na justiça social resistir e refletir em conjunto sobre o que deu errado nesses 130 anos de República e sobre o que desandou nos pouco mais de 30 anos de “Constituição Cidadã”. “O que foi feito é preciso conhecer para melhor progredir”, diz a canção.
Mas esse processo, com vistas a revisar os desarranjos, só pode apontar para a superação de equívocos se for capaz de incorporar grandes massas populares à discussão, tornando-as, efetivamente, sujeitos políticos, com condições de pensar e decidir por si mesmos. Sujeitos que não sejam simplesmente caudatários de líderes populistas carismáticos; que repudiem a tradicional cultura política caudilhista.
Que, enfim, como apregoava Hannah Arendt, deixem de ser parte da espécie “animal laborans”, cujas experiências e atividades seguem as de um rebanho, para se incorporarem à espécie do “homo faber”, capacitados a uma vida pública que seja de construção própria.
Esse é o desafio que está posto para hoje e para os dias que virão. Do contrário, a barbárie poderá prevalecer. Já podemos escutar os seus sinais: às 17h37 de um sábado, no centro de Niterói, um homem saca um revólver e atira duas vezes, matando uma moradora de rua que lhe pedia R$1,00 de esmola. Um real.
Thales Chagas M. Coelho é advogado e mestre em Direito Constitucional pela UFMG

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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Do Justificando, artigo do professor da PUC-MG Carlos Eduardo Araújo: Estratégia fascista de Bolsonaro segue os mesmos passos de outros líderes autoritários




A Alemanha nazista, dos primeiros anos da década de 30 do século XX, guardadas as abissais diferenças que nos separam, tem muito a “ensinar” ao Brasil de hoje sobre a escalada do poder autoritário, do arbítrio, da violência, do ataque aos “inimigos”, da conspurcação das instituições, da inércia do povo em face do perigo que o espreita.

Do site de estudos jurídicos Justificando:

Estratégia fascista de Bolsonaro segue os mesmos passos de outros líderes autoritários

Quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Estratégia fascista de Bolsonaro segue os mesmos passos de outros líderes autoritários


Por Carlos Eduardo Araújo Carlos Eduardo Araújo

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência.” – Marco Tulio Cícero
  
Marco Tulio Cícero, grande tribuno e homem público romano, disse certa vez que a história é mestra da vida. A aludida expressão foi objeto de críticas, porque se percebeu com o passar do tempo, que conhecer os erros cometidos no decorrer da história não equivaleria a inocular um antídoto para que as sociedades humanas não os repetissem, como sistematicamente o têm feito ao longo dos séculos. Apesar da advertência, ainda hoje cabível, vamos buscar em um acontecimento específico do passado inspiração para reflexões, que se fazem necessárias no presente, com a pretensão de trazer um mínimo de luzes, na tentativa de dissipar as trevas que nos envolve hodiernamente.  

Todavia, não temos a pretensão de colher um ensinamento que nos “salve” de nossos desacertos e desatinos, mas para perceber como a história se repete, inexorável e infelizmente, sem deixar lições aos pósteros. Como já disse Marx “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. [1]

A Alemanha nazista, dos primeiros anos da década de 30 do século XX, guardadas as abissais diferenças que nos separam, tem muito a “ensinar” ao Brasil de hoje sobre a escalada do poder autoritário, do arbítrio, da violência, do ataque aos “inimigos”, da conspurcação das instituições, da inércia do povo em face do perigo que o espreita.

Há uma obra, de cunho testemunhal e histórico, de valor inestimável, que pode fornecer elementos para a análise e compreensão do presente momento da vida brasileira, sob o desgoverno de Jair Bolsonaro. Estou a me referir aos “Diários de Victor Klemperer”, que foram traduzidos e publicados no Brasil pela Companhia das Letras, cujo o subtítulo é “testemunho clandestino de um judeu na Alemanha Nazista”. O livro é um calhamaço de 895 páginas e cobre o período entre os anos 1933/1945, da ascensão de Hitler ao poder até o fim da segunda guerra mundial.

Victor Klemperer nasceu aos 9 de outubro de 1881, em Landsberg, na Alemanha. Era filho de um casal de primos, o rabino Wilheim Klemperer e Henriette Klemperer. Teve nove irmãos. De origem judia, ainda jovem se converteu ao Luteranismo. Era casado com Eva Klemperer, que não era judia, fato que foi determinante para fazê-lo escapar das garras do nazismo inúmeras vezes. Também contou a seu favor o fato de ter sido condecorado como soldado, que lutou nas fileiras do exército alemão, na primeira guerra mundial. Ainda assim, foi vítima de constantes humilhações e ameaças à sua integridade física e psíquica. Faleceu em Dresden, aos 11 de fevereiro de 1960.

A obra de Klemperer foi publicada logo depois do término da segunda guerra mundial, primeiramente na Alemanha Oriental. Após a reunificação da Alemanha torna-se mundialmente conhecida. Revela um testemunho de imenso valor e grande singularidade, visto que são poucos os relatos de uma testemunha ocular, como ele, que acompanhou, na condição de judeu culto e esclarecido, mesmo que convertido, o dia a dia da Alemanha sob Hitler e o nacional-socialismo. 

Nesse sentido, seu testemunho difere de outros, pelo ângulo mais abrangente de visão que propicia. Há dezenas de livros publicados por pessoas que vivenciaram a trágica experiência do holocausto, formando um substancial libelo acusatório em face do nazismo. Todavia, o universo de observação desses relatos, em regra, é mais restrito, não obviamente quanto à densidade e qualidade das narrativas, apenas quanto ao espaço geográfico e sócio-cultural que abarcam. 

Há testemunhos que se expressaram por meio de uma literatura de alta qualidade, como aquele que se depreende das obras do italiano Primo Levi, prisioneiro de Auschwitz, cuja visão dos acontecimentos encontra-se, contudo, restringida pelos limites do campo de concentração. Ou os diários de Anne Frank, escritos de dentro de um porão de uma casa em Amsterdã.

Os diários de Victor Klemperer atestam, efetivamente, o destino do povo judeu na Alemanha de Hitler, desde a perda dos direitos civis até a deportação e o extermínio. Tudo registrado com minúcias por um observador arguto, consciente e crítico, que foi antevendo para onde iam se dirigindo as ações e feitos maléficos do nazismo. Neles estão registrados os discursos dos líderes nazistas, as notícias sobre a guerra, as informações veladas sobre os campos de concentração, a conversa mantida na casa de amigos, enfim o dia a dia de alemães e judeus sitiados pela atmosfera plúmbea e irrespirável da Alemanha nazista daqueles tempos.

Por meio dos “Diários” tomamos contato com os atos violentos e arbitrários do nazismo e como os mesmos afetavam a vida e a saúde física e psíquica de Klemperer e sua esposa Eva, seus amigos e parentes. Os seus estados de saúde sofriam freqüentes abalos. Ele sofria de angina e problemas oculares. Em dado momento fora submetido ao trabalho forçado, de remover neve das ruas por semanas, sendo alvo de chacota e humilhação. Em seus diários encontramos registros de pensamentos de morte e a tentativa de suicídio de pessoas conhecidas. 

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Victor Klemperer imaginava, a princípio, que o nacional-socialismo fosse uma loucura passageira. No entanto, sua opinião vai se transformando à medida que o regime vai sofrendo crescente embrutecimento, à medida que concessões vão sendo feitas não impedindo, antes encorajando, o exercício do terror e da violência, que vão se intensificando de forma progressiva e inexorável. 

Apesar de Klemperer ter sido um judeu assimilado, não praticante do judaísmo e sim do protestantismo, perante as autoridades nazistas ele era judeu. Como diria Hannah Arendt “Os judeus haviam podido escapar do judaísmo para a conversão; mas era impossível fugir da condição de judeu”. [2]

Destarte, ele foi sofrendo um gradual processo de isolamento e segregação. Era professor catedrático na Universidade de Dresden desde 1920, onde lecionava filologia românica, sendo afastado de suas funções em 1935, dois anos depois da chegada de Hitler ao poder. Paulatinamente foi destituído de todos os direitos associados à cidadania alemã. Foi proibido de freqüentar a biblioteca da universidade e de prosseguir em suas atividades intelectuais. 

Ler esses “Diários” de Victor Klemperer, nestes primeiros meses da triste era bolsonaro, é como, guardadas as incomensuráveis proporções, se mirássemos um espelho intertemporal e nos identificássemos com os acontecimentos que, gradativamente, vão corroendo a vida e a alma do povo alemão. Quantas analogias possíveis, infelizmente para nós brasileiros.

A ascensão dos nazistas ao poder se deu por meio de uma combinação de sucesso eleitoral (à base de muita distorção e mentira) e grande violência política nos anos da grande depressão econômica de 1929 a 1933. Os nazistas formavam um grupo de pessoas amalucadas, que nutriam ideias racistas, posturas violentas, teorias da conspiração, muito ódio e sede de poder. Um ajuntamento de pessoas medíocres e ressentidas. Em muito pouco tempo conseguiram estabelecer uma ditadura de partido único na Alemanha, suprimindo, com brutalidade, potenciais e efetivos adversários, com ínfima resistência do povo alemão.

Quando Victor Klemperer começa redigir seus diários, em 14 de janeiro de 1933, a Alemanha já estava infiltrada com o germe daquilo que seria a selvageria do regime fascista alemão. A Klemperer não falta sensibilidade e acuidade para perceber a atmosfera que se vai formando. Escreve neste dia: “As angústias do ano novo, as mesmas de antes: a casa, temperaturas abaixo de zero, perda de tempo, perda de dinheiro, nenhuma possibilidade de crédito, a teimosia de Eva em relação à casa e seu desespero crescente. Ainda vamos afundar com essa história. Já pressinto isso, e sinto-me desamparado”[3] 

Pouco mais de um mês depois, no dia 21 de fevereiro, continua suas elucubrações: “Há mais ou menos três semanas, depressão devido ao regime reacionário. Não escrevo aqui história contemporânea. Porém, minha amargura, mais profunda do que jamais poderia imaginar senti-la, esta sim quero deixar anotada. É uma vergonha que a cada dia se torna pior. E todos se calam e baixam a cabeça, principalmente os judeus e sua imprensa democrática. Uma semana depois da nomeação de Hitler estivemos (no dia 5 de fevereiro) em casa dos Blumenfeld junto com Raab. Raab, o falastrão, economista, presidente do clube Humbolt, fez um longo discurso e explicou que se deveriam eleger os nacionais-alemães, para fortalecer a ala direita da coalização. Opus-me exasperadamente a ele. Mais interessante foi a sua opinião de que Hitler vai acabar num delírio religioso… O que mais perturba é nossa cegueira diante dos acontecimentos, e como ninguém tem noção da verdadeira divisão do poder”. [4]

Também, no caso brasileiro, o que mais perturba são nossa cegueira e passividade diante dos graves acontecimentos decorrentes dos quase oito meses do insano governo Bolsonaro, que segue em sua sanha destrutiva por todos os quadrantes da vida nacional. Destruição de nossos direitos a uma previdência social pública, destruição dos nossos direitos trabalhistas, da nossa educação pública de qualidade, do nosso direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado (com a destruição da Amazônia em curso acelerado). Some-se a isso a entrega de nossas riquezas, a escalada da violência institucionalizada, o recrudescimento da violência urbana, a perseguição a grupos defensores dos direitos humanos, os ataques aos movimentos sociais, aos LGBTI, aos quilombolas, aos indígenas, sem que panelas tilintem, sem que brasileiros, tão ciosos do seu verde e amarelo, esbocem reação.  Nepotismo e corrupção sendo naturalizados e nada! Tudo tão desolador, tudo tão carregado de angústia, de tamanha letargia, de desalentado desamparo, de atormentado desespero.

Voltemos aos “Diários” de Klemperer e suas inquietações. Será que guardam alguma relação com as nossas? No dia 10 de março de 1933 escreve ele: “Hitler chanceler. O que denominei terror até o domingo da eleição, 5 de março, foi um prélude suave. Repete-se agora exatamente, apenas com outros sinais – com a suástica –, a situação de 1918. Mais uma vez, é surpreendente como tudo desmorona sem reação. Onde está a Baviera, onde está a bandeira do Reich etc. etc? Oito dias antes da eleição, aquele episódio grosseiro do incêndio do Reichstag, do Parlamento – não consigo imaginar que alguém realmente acredite em autoria comunista, em vez de trabalho encomendado pela SS. Logo em seguida, a selvageria das proibições e das agressões. E, além de tudo, a propaganda ilimitada pelas ruas, pelo rádio etc. No sábado, dia 4, ouvi um trecho do discurso de Hitler em Konigsberg. O hotel da estação, uma das fachadas iluminadas, desfile de tochas em frente, tocheiros e suportes para bandeiras com a suástica nas sacadas, e microfones. Só consegui ouvir palavras isoladas. Mas o tom! A gritaria patética – realmente gritaria – de um fanático religioso”. [5] 

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É curioso, para dizer o mínimo, o entorpecimento da sociedade brasileira, excetuando algumas minorias esclarecidas, que sozinhas pouco podem, em face das agressões diuturnamente perpetradas pelo desgoverno Bolsonaro, com seu séquito de ministros pândegos e aparvalhados. Com sua militância estulta e hidrófoba. Transpondo a fala de Klemperer para a atual realidade brasileira, podemos dizer: é surpreendente como tudo desmorona sem reação.

Como as tiranias se repetem. Como os ditadores guardam tanta similitude entre si, no longo decurso da história! Não há como não nos lembrarmos dos famosos discursos de Cícero, que viveu no século I a.C., contra Catilina. Bolsonaro é o nosso Catilina: “Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos. Mas não pode sobreviver à traição gerada dentro de si mesma. Um inimigo exterior não é tão perigoso, porque é conhecido e carrega suas bandeiras abertamente. Mas o traidor se move livremente dentro do governo, seus melífluos sussurros são ouvidos entre todos e ecoam no próprio vestíbulo do Estado. E esse traidor não parece ser um traidor; ele fala com familiaridade a suas vítimas, usa sua face e suas roupas e apela aos sentimentos que se alojam no coração de todas as pessoas. Ele arruína as raízes da sociedade; ele trabalha em segredo e oculto na noite para demolir as fundações da nação; ele infecta o corpo político a tal ponto que este sucumbe. Deve-se temê-lo mais que a um assassino.” [6]

Regressemos ao indignado e amargo testemunho de Klemperer. Ainda no dia 10 de março de 1933 anota: “Desde então, dia a dia, comissários, governos desestruturados, bandeiras nazistas hasteadas, casas ocupadas, pessoas fuziladas, proibições etc. etc. ontem, “por ordem do Partido Nazista” – nem ao menos por ordem do governo –, demissão do dramaturgo Karl Wolff; hoje, de todo o ministério saxão etc. etc. Revolução total e ditadura do partido. E todas as forças de oposição desapareceram do mapa. [7] 

Em 20 de março de 1933 assenta: “Cada ato, notícia etc. do governo é ainda mais vergonhoso do que o anterior”. [8] Semelhanças com nossa realidade brasileira, sob Bolsonaro, talvez sejam mera coincidência. 

Será exagero dizer que estamos indo rumo ao abismo, eu queria dizer rumo ao fascismo? Como funciona o fascismo? Jason Stanley nos ensina que “A política fascista inclui muitas estratégias diferentes: o passado mítico, propaganda, anti-intelectualismo, irrealidade, hierarquia, vitimização, lei e ordem, ansiedade sexual, apelos à noção de pátria e desarticulação da união e do bem-estar público”. [9] Parece-me que vários desses ingredientes fazem parte do cardápio bolsonarista.

Segundo Jason Stanley: “A política fascista pode desumanizar grupos minoritários mesmo quando não há o surgimento de um Estado explicitamente fascista. O sintoma mais marcante da política fascista é a divisão. Destina-se a dividir uma população em “nós” e “eles”. Muitos tipos de movimentos políticos envolvem tal divisão”. [10]

Ainda segundo os estudos de Jason Stanley os fascistas buscam reescrever a compreensão geral da população sobre a realidade, promovendo sua ideologização reacionária por meio da linguagem, “por meio da propaganda e promovendo o anti-intelectualismo, atacando universidades e sistemas educacionais que poderiam contestar suas ideias. Depois de um tempo, com essas técnicas, a política fascista acaba por criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado”. [11] 

A questão amazônica, com o desmatamento se alastrando como um rastilho de pólvora, provoca a atenção e apreensão de nós brasileiros e de todo o mundo. O governo Bolsonaro, com seu peculiar desdém pela verdade, vai, como lhe é próprio, espalhando fake news e desacreditando dados científicos e oficiais sobre o ecocídio em marcha. “O governo está em maus lençóis”, como registrou Klemperer do dia 27 de maio de 1933, se referindo ao governo nazista: “O governo está em maus lençóis. Do exterior, “propaganda das atrocidades” devido a sua campanha contra os judeus. O governo omite desmentidos constantes, não há pogroms, e manda associações judaicas divulgarem negativas. Por outro lado, ameaça abertamente agir contra os judeus alemães caso a agitação subversiva do judaísmo internacional não pare. Nesse ínterim, no país não há derreamento de sangue, apenas opressão, opressão, opressão. Ninguém mais respira livremente, não há liberdade de palavra, nem imprensa, nem fala.” [12] É só trocarmos algumas palavras e somos transportados para o presente momento brasileiro.

Aos 7 de abril de 1933, ainda no primeiro ano da triste era Hitler, que durará doze anos, mais um registro angustiado de Klemperer: “A pressão que me oprime é maior do que a da guerra e pela primeira vez na minha vida sinto ódio político por todo um grupo (o que não aconteceu na guerra), ódio mortal… Hoje (isso varia diariamente) já não estou certo de que a catástrofe virá logo”. [13] É impressionante a acuidade com que Klemperer capta os sinais do que está por vir. 

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Em 20 de abril de 1933 mais uma anotação atormentada: “Estou quase acreditando que não vou sobreviver ao fim desta tirania. E já estou quase acostumado à situação de ausência de direitos. Já não sou alemão e ariano, e sim judeu, e devo ficar agradecido se me deixarem vivo. Genial como eles entendem de propaganda. Anteontem, vimos (e ouvimos), no cinema, como Hitler passa as tropas em revista: a massa dos homens da SA diante dele, diante de seu púlpito, há meia dúzia de microfones que espalharão suas palavras a seiscentos mil homens da SA em todo o terceiro Reich – percebe-se sua onipotência e todos se curvam”. [14]

Já se fizeram analogias entre antissemitismo, na Alemanha de Hitler, e o antipetismo existente no Brasil de hoje, com enorme incremento durante a campanha à Presidência da República e sob o atual desgoverno Bolsonaro.  O indigitado senhor, quando em comício, de sua campanha eleitoral, na cidade de Rio Branco, no Acre, fez gestos de arma, como se tornou corriqueiro durante toda sua campanha, muitas vezes com as mãos a simular uma arma de fogo. Naquela ocasião, no Acre, usou um tripé de câmera imitando um fuzilamento enquanto discursava em cima de um carro de som, e disse as mortíferas e ignóbeis palavras: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. 

Em certos círculos reacionários, se confessar de esquerda ou petista representa sérios riscos à integridade física e moral. As perseguições começaram a se exasperar durante os anos que antecederam ao pleito presidencial e se acirraram com a chegada ao poder do “Terceiro Reich” tupiniquim. Professores acuados, intimidados, filmados, ameaçados, agredidos. Universidades Públicas, agora identificadas como inimigas, porque associadas, num imaginário tosco e grotesco, ao ideário de esquerda, são deixadas à míngua, sem recurso para suas mais comezinhas necessidades. Líderes de movimentos sociais sendo vitimados por todo tipo de violência, alguns, como aqueles que lutam por moradia em São Paulo, sendo jogados no cárcere, por meio de processos que se constituíram a margem da ordem legal. Indígenas sendo trucidados e suas terras invadidas ou sob constantes riscos. Creio que não é exagero a identificação com o ambiente alemão, durante os anos 30 do século XX, inventariados pelo filólogo Victor Klemperer.

Narra Klemperer, em 10 de abril de 1933: “A terrível sensação do “Graças a Deus! Estou vivo!“. A nova lei para os funcionários públicos permite-me ficar em meu posto como um soldado na frente de batalha – provavelmente, pelo menos e por enquanto. Mas, por toda a parte, açodamento, miséria, o mais puro medo. Um primo de Dember, médico em Berlim, foi arrancado de seu consultório, em mangas de camisa, e violentamente espancado; conduzido ao Hospital Humbolt, ali morreu, aos 45 anos. A Sr.ª Dember relata-nos a história, sussurrando, a portas fechadas. Fazendo isso, ela estaria espalhando “boatos alarmistas”, mentirosos, obviamente”. [15]

Em 17 de setembro de 1933 um desabafo desalentado: “A nós dois, a Eva e a mim, magoa desmedidamente o fato de a Alemanha profanar de tal modo toda a justiça e toda a cultura”. [16] Dois depois desse registro, constata: “Que manipulação das massas e que histeria! Hitler procede à benção de novas bandeiras por meio do toque com “a bandeira de sangue” de 1923. A cada toque das bandeiras, um tiro. (Eva diz: “histeria católica”).” [17]

Fiz uma incursão por uma parte ínfima dos Diários de Victor Klemperer. Todavia, penso que suficiente para estabelecer um cotejo possível entre os primeiros meses da ascensão de Hitler ao poder, com estes primeiros e desastrosos meses sob o desgoverno de Jair Bolsonaro. É possível perceber como os regimes autoritários ou fascistas ganham volume e consistência à medida que vão perpetrando seguidas e cada vez maiores transgressões à ordem legal e democrática e não encontram reação, seja dos demais poderes institucionalizados da nação, seja da sociedade civil organizada, seja de parte substancial de sua população. E quando a sociedade se apercebe já se instaurou o mais duro e ignóbil dos regimes de força. Torço por um despertar e que não demande muito mais tempo. O país não agüentaria. Espero que o texto tenha despertado o interesse de eventuais leitores, possibilitado uma visada crítica sobre este momento crucial e tenebroso da vida nacional. 


Carlos Eduardo Araújo é Professor Universitário e Mestre em Teoria do Direito (PUC – MG).

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Notas:
[1] MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Napoleão. Boitempo, 2011.
[2] ARENDT, Hannh. Origens do Totalitarismo. Companhia das Letras, 1990.
[3] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[4] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[5] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[6] CÍCERO, Marco Tulio. As Catilinárias. Edipro, 2019.
[7] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[8] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[9] STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo. L&PM Editores, 2018.
[10] STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo. L&PM Editores, 2018.
[11] STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo. L&PM Editores, 2018.
[12] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[13] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[14] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[15] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[16] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.
[17] KLEMPERER, Victor. Os Diários de Victor Klemperer – Testemunho Clandestino de um Jovem Judeu na Alemanha Nazista. Companhia das Letras, 1999.