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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Fernando Brto: O horror a Aécio é tanto que turva a visão da lei


"Aécio poderia ter sido preso no momento do acerto da mala de dinheiro, haveria o flagrante constitucionalmente previsto para a detenção de um parlamentar.
Não foi. 120 dias depois, certamente não há a situação de flagrância da lei."
POR  · 28/09/2017 no tijolaço

walkingdeath

Aécio Neves tornou-se uma pessoa tão desprezada – na recente pesquisa Ipsos, o nível de reprovação de seu nome é o único que se ombreia ao de Michel Temer, 89% a 94% – que seu nome emporcalha até mesmo as garantias legítimas que não apenas têm os parlamentares, mas a que todos os cidadãos temos direito.
A “prisão noturna” de Aécio Neves é um destes episódios que expõe o autoritarismo ridículo que tomou conta da nossa Justiça – sob o aplauso do estado de histeria que se implantou na sociedade.
Aécio poderia ter sido preso no momento do acerto da mala de dinheiro, haveria o flagrante constitucionalmente previsto para a detenção de um parlamentar.
Não foi.
120 dias depois, certamente não há a situação de flagrância da lei.
Argumentar que o recolhimento noturno não é prisão, francamente, é um subterfúgio ridículo.
O mesmo artigo que trata do recolhimento noturno trata de tornozeleira eletrônica, vejam só.
Qual é a finalidade disso? Que obstrução à Justiça se vai evitar que  Aécio faça às 18:30 que não possa fazer ás 17:30?
Prender  – total ou parcialmente – uma pessoa não é meio de dar vazão ao prazer da sociedade nem de demonstrar força.
Pouco importa se esta pessoa seja uma abjeção como Aécio Neves: é preciso que haja condenação ou risco evidente de lesão a terceiros ou ao processo judicial para que se adote uma medida como essa.
O resultado é que, mais uma vez, o Poder Judiciário vai se desmoralizar.
Aécio Neves, não passarão muitos dias, vai ser liberado e vai se reforçar a impressão – aliás nada descabida – de que a lei depende do “freguês”.
E, quando o freguês é um sujeito como Aécio Neves, cujo valor moral anda no fundo de um pântano, a lama afunda a Justiça junto com ele.

domingo, 10 de setembro de 2017

Janot virou o Órfão-Geral da República, por Fernando Brito


orf

O “ex-perança” do Brasil Rodrigo Janot, a uma semana de deixar o cargo desfila, em todos os jornais, o descrédito onde se lançou.
À esquerda, Janio de Freitas, na Folha, ao melhor estilo do “a sua ausência preenche uma lacuna” diz que a “a saída de Janot não é inoportuna”: “A imunidade plena concedida a Joesley Batista, por exemplo, virou-se contra Janot, e o pasmo generalizado parece tê-lo desestabilizado. Seu tão repetido argumento mais lembrou uma capitulação à exigência do possível delator, descabida mas capaz de saciar a ânsia de procuradores e do próprio Janot por mais processáveis”
À direita temerista, o editorial  “O custo Janot“, do Estadão o culpa por atrapalhar ” a vida de todos os brasileiros, ao comprometer o processo de recuperação da economia” e ter impedido a aprovação da reforma da previdência.
Na ótica tucana, no mesmo Estadão, Vera Magalhães diz que Janor se “constitui o maior ataque aos fundamentos da Lava Jato e fornece munição àqueles que tentam enfraquecê-la”.
Não adianta Janot correr para denunciar Temer, Lula, Dilma, o PMDB do Senado, Miller, Joesley e a torcida do Flamengo nessa reta final, numa luta desesperada contra o tempo que ainda lhe resta no cargo. A gravidade de o acordo com os irmãos Batista e sua quadrilha ter sido fechado nos termos em que foi, e nas condições de bastidores agora reveladas, macula de forma inexorável seu mandato.
Já a extrema direita distribui pela rede o encontro de boteco, ontem, entre ele e o advogado de Joesley Batista, Pierpaolo Bottini.
Acusar Lula e Dilma, os governantes que deram não apenas apoio, mas a independência que o Ministério Público, passaram a ser o gemido de perdão de Janot às elites do dinheiro e da mídia. Como se vê, com pouco efeito, já que ele agora é carta a sair do baralho e terá o destino que o bagaço espremido tem.
O poder da meritocracia arrogante, quando cresce sem medidas, como a crista de um galo,  cai-lhe sobre os olhos e não os deixa ver que, depois de bicarem a torto e a direito, vão pra panela…
Fernando Brito, no site Tijolaço

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A hipocrisia dos moralistas: "recebi por fora, e daí?" Artigo de Fernando Brito citando Rubens Valente


"Três entre quatro ministros dos tribunais superiores (STF, STJ, TSE, TST) e do Tribunal de Contas da União recusaram-se a dizer se receberam valores por palestras ou participações em eventos.
"Ou seja, receberam, pois não tendo recebido, problema algum haveria em dizer que não.
"Todos se escudam no fato de ser legal o exercício de uma função de magistério, embora a situação de palestrante seja totalmente diferente da de professor."

O silêncio dos moralistas: “por fora, e daí?”

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Rubens Valente, na Folha, vai na canela dos “campeões da moralidade”.
Três entre quatro ministros dos tribunais superiores (STF, STJ, TSE, TST) e do Tribunal de Contas da União recusaram-se a dizer se receberam valores por palestras ou participações em eventos.
Ou seja, receberam, pois não tendo recebido, problema algum haveria em dizer que não.
Todos se escudam no fato de ser legal o exercício de uma função de magistério, embora a situação de palestrante seja totalmente diferente da de professor.
Mas ética e moralmente, o conflito é mais que evidente.
Claro que ninguém é purista ao ponto de achar que um jurista – supondo que o sejam os integrantes dos tribunais – não possa receber passagens, hospedagem e até mesmo transporte e alimentação para participar de um evento, embora todos eles fossem gritar se um presidente ou ministro fizessem o mesmo.
Mas remuneração de empresas é totalmente incompatível com a função de julgador, como são indecentes estes eventos da magistratura promovido por concessionárias de serviços públicos e bancos atolados em milhares de processos nos tribunais.
Em qualquer país civilizado isso seria um escândalo. Aqui, não, porque juízes são incriticáveis. Aliás, a prevalecer a “jurisprudência” aberta por Gilmar Mendes e Sérgio Moro, seus amigos e padrinhos de casamento também não o são.
Não há razão para  isso seja secreto. Quando se informa, como faz a única ministra – Maria de Assis Calsing, do TST – que informou ter recedido valores modestos (de R$ 300 a R$ 880) por três apresentações, não há o que se possa dizer em seu desfavor.
Ao contrário, ela age corretamente, porque é servidora pública e deve, por isso, satisfações por seus atos.
Isso, porém, é apenas um detalhe do outro valor que, para muitos, tem a cátedra de um tribunal superior: os escritórios de advocacia dos quais são, indiretamente, beneficiários, através de amigos, parentes e ex-sócios.
É óbvio que não é este o grande caminho da corrupção, mas o tema se presta para um grande serviço público: o de expor a hipocrisia e a obscuridade do comportamento dos nossos “campeões da moralidade”, que precisam de pouco ou nada para condenar seus desafetos mas se acham no direito de ocultar os “mimos” que recebem.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Gilmar Mendes, o Posto Ipiranga de Aécio e de Temer, por Jeferson Miola




A rede de postos de combustíveis Ipiranga faz uma propaganda na qual enaltece a inigualável versatilidade das suas lojas de conveniências.

Na propaganda, o Posto Ipiranga é apresentado como o lugar onde se consegue encontrar tudo a qualquer hora do dia, da noite e da madrugada: ingresso de cinema, padaria, preservativo, bebida, café, guloseima, passagem aérea, reconhecimento de firma, jogo do bicho, pão de queijo, ovo de páscoa, tatuagem etc e, inclusive, combustível e óleo de motor.

Gilmar Mendes é o Posto Ipiranga do PSDB, do Aécio Neves e do Michel Temer. Ele é, em alguns momentos, um simulacro de juiz do STF e do TSE e, na maior parte do tempo, um militante partidário faz-tudo do PSDB.

O PSDB, Aécio, Temer e o bloco golpista sempre encontraram em Gilmar o lugar de abastecimento dos “itens” necessários para cada passo da conspiração e do golpe que derrubou Dilma.

A dobradinha com o juiz Sérgio Moro em março de 2016 na gravação e divulgação ilegal das conversas da Presidente Dilma, e na posterior anulação da posse de Lula na Casa Civil, é o ápice da trajetória de Gilmar na dinâmica golpista.

A oligarquia continua se abastecendo no “Posto Gilmar” para a manutenção de Michel Temer, um moribundo político investigado por crimes de organização criminosa, obstrução da justiça, corrupção e prevaricação – todos eles praticados no exercício do cargo usurpado de presidente da república – e que sobrevive artificialmente, respirando através de aparelhos.

É desnecessário inventariar os sucessivos episódios em que Gilmar atuou com perfil nitidamente partidário usando o disfarce da toga que, vivesse o Brasil um momento de normalidade institucional, ele jamais teria condições de vestir.

O papel do Gilmar na fraude do julgamento do TSE para salvar Temer é, sob qualquer perspectiva, repugnante, e encerra um dos momentos mais deploráveis da história moderna brasileira. É um daqueles momentos que serão sempre recordados com enorme vergonha.

Gilmar Mendes não é somente um indivíduo; ele é um importante ator das classes dominantes que atua na arena política e, por isso, é a expressão da natureza podre desta burguesia que condena o Brasil ao atraso para preservar o poder a qualquer custo, como mantendo um governo de ladrões – uma cleptocracia, como já definiram os gregos.

Gilmar é um importante centro de distribuição de patifarias contra a democracia e o Estado de Direito.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

'Le Monde': Caso Odebrecht parece roteiro de "O poderoso chefão". Jornal diz que Mchel Temer é "mestre em intrigas paralmentares"

Le Monde destaca que presidente Michel Temer foi citado 43 vezes na delação de Melo Filho

Do Jornal do Brasil, citando o Le Monde francês:

Le Monde destaca que presidente Michel Temer foi citado 43 vezes na delação de Melo Filho


'Le Monde': Caso Odebrecht parece roteiro de "O poderoso chefão"

Reportagem fala que presidente Temer é "mestre em intrigas parlamentares"


Jornal do Brasil
Matéria publicada nesta quinta-feira (15) pelo Le Monde fala sobre a situação atual da política brasileira, com escândalos de corrupção envolvendo líderes e empresários de alto escalão, sendo que alguns já foram presos e a grande maioria está sendo investigada. 
O diário francês destaca em seu texto as denúncias de Claudio Melo Filho, confirmadas por Marcelo Odebrecht, que provam o envolvimento de vários caciques do governo e do próprio presidente interino no esquema de corrupção da operação Lava Jato. Temer foi citado 43 vezes na delação de Melo Filho.
O noticiário descreve na reportagem a cena no palácio do Jaburu, em maio de 2014, pouco antes da campanha presidencial. Michel Temer, então vice-presidente, “mestre de intrigas parlamentares”, diz o jornal, se dirige à Marcelo Odebrecht, herdeiro do grupo, e diz que precisa de R$ 10 milhões. Um roteiro, segundo Monde, digno do filme “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola.
Le Monde comenta a planilha de Excel do departamento de propinas da empreiteira, onde cada político beneficiado tem um apelido, como Eduardo Cunha, chamado de Caranguejo ou Boca Mole.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

GILMAR MENDES E A (A)NORMALIDADE DAS INSTITUIÇÕES, por João Filho, no The Intercept Brasil





COMO VOCÊS JÁ devem estar carecas de saber, há uma lorota sendo contada por aí de que “as instituições no Brasil estão funcionando normalmente”. Os três poderes estariam atuando de forma separada, independente, equilibrada, como manda o script democrático. Nada mais duvidoso. Basta uma breve checada na agenda de Gilmar Mendes, ministro do STF e presidente do TSE, para atestar a promiscuidade com que os poderes estão se relacionando.
A sobriedade, a discrição e o decoro que se esperam de um juiz da mais alta corte do país são características que passam longe da figura de Gilmar. Nem neste momento em que o país vive a sua maior crise política, Vossa Excelência se recusa a abandonar o seu jeitão especial de ser. Há 14 anos, ele vem descumprindo requisitos básicos para um magistrado dessa envergadura: fala fora dos autos, protagoniza bate-bocas públicos econfraterniza com amigos que serão julgados por ele. Essa afronta ao Estado Democrático de Direito tem sido tão recorrente, que já foi naturalizada pelo noticiário e nem causa mais espanto.
Convido vocês para darmos uma olhada na recente e agitada agenda político-partidária daquele que devia ser apenas um juiz:
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o ministro do STF, Gilmar Mendes, o presidente do Senado, Renan Calheiros e o ministro Joaquim Levy, durante o 1º Encontro Diálogos Estratégicos (Antonio Cruz/Agência Brasil)
O então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o ministro do STF, Gilmar Mendes, o presidente do Senado, Renan Calheiros e o ministro Joaquim Levy, durante o 1º Encontro Diálogos Estratégicos.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Visitas a Cunha na Câmara

Em março de 2015, o responsável pela maioria dos inquéritos da Lava Jato resolveu fazer uma visitinha fora da agenda a um dos investigados pela operação. Oficialmente, o objetivo era pedir “prioridade na votação de alguns projetos” ao então presidente da Câmara. Uma visita republicana, claro. Tão republicana que, depois que Gilmar saiu do gabinete, Renan Calheiros e Fernando Collor – também investigados na Lava Jato – entraram imediatamente. Coincidentemente, nos meses seguintes ao encontro,Mendes e Cunha atuaram em favor do financiamento privado de campanhanum entrosamento sem igual. Em julho de 2015, ele voltou. Dessa vez, Paulinho da Força participou da reunião. Segundo a Folha apurou: 
“O agravamento da crise foi discutido em detalhes. Os presentes fizeram uma primeira avaliação do cenário no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde a chapa de Dilma é investigada por suposto abuso de poder e financiamento irregular de campanha.”

Almoço com Armínio Fraga e Serra

Em março deste ano, às vésperas da votação do impeachment, Gilmar foi visto almoçando com dois nomes cotadíssimos para se tornarem ministros do governo Temer. O juiz defendeu a lisura do encontro:
“Eu não estou proibido de conversar com Serra, nem com Aécio, nem com pessoas do governo. Eu estava com meu filho e o professor Armínio Fraga tratando de assuntos acadêmicos, projetos de mestrado e coisas do tipo”.
No mesmo dia, logo após essa conversa informal sobre assuntos acadêmicos,Gilmar participaria do julgamento dos embargos do rito do impeachment. Esse encontro é quase um atestado da normalidade com que as instituições estão funcionando, não é mesmo?
Ministro Gilmar Mendes cumprimenta Senador Aécio Neves durante conferência em Lisboa, em 31 de março de 2016.
Ministro Gilmar Mendes cumprimenta Senador Aécio Neves durante conferência em Lisboa, em 31 de março de 2016.

Foto: Armando Franca/AP

Seminário em Portugal

Ainda em março, Gilmar Mendes foi o organizador do evento, patrocinado pela FIESP – entidade que atuou fortemente em defesa do impeachment – , a CNI, o Sistema “S” do Rio de Janeiro e a estatal Itaipu Binacional. Quem participou do evento? Os amigos do peito de sempre, a tropa de elite do impeachment: Temer, Aécio, Serra, o presidente do TCU e Dias Toffoli.

Visita secreta a Temer no Jaburu

O presidente da Câmara, Michel Temer, reune-se com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, que falou sobre projetos para aumentar a eficincia da justia criminal.
O então presidente da Câmara, Michel Temer, reune-se com o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Em 28 de maio, a visita, que não foi registrada nas agendas oficiais, aconteceu na semana da divulgação do diálogo entre Jucá e Machado, em que o STF é citado como possível participante de uma trama para tirar Dilma do poder e delimitar as investigações da Lava Jato. Mesmo diante de evidências tão escancaradas,Gilmar declarou não ver no diálogo uma tentativa de obstruir as investigações. Oficialmente, a visita foi para “discutir o orçamento do TSE”. Não temos dúvidas que sim. Ainda mais numa noite de sábado, quando bate aquela vontade louca de discutir orçamento.

Jantares de confraternização entre representantes do Judiciário, do Executivo e do Legislativo

Em junho, o presidente do STJ ofereceu um jantar em sua casa para o alto escalão dos três poderes. Participaram juízes e políticos que apoiaram o impeachment – inclusive alguns acusados de receber propinas em delações da Lava Jato, como Serra e Aécio Neves. Segundo a jornalista da Globo, Andreia Sadi, além de Gilmar e a dupla tucana, também foram convidados o ministro do STF Dias Tofolli, Zezé Perrella (o senador que é pai do dono do helicóptero da cocaína sem dono), Pedro Parente (presidente da Petrobrás), Alexandre de Moraes (ministro da Justiça) e Michel Temer.
No dia seguinte, aliados de Cunha começam a cogitar sua renúncia da presidência da Câmara. O objetivo seria evitar o plenário do STF e ser julgado pela 2ª casa, uma turma menor, composta por dois convidados do jantar: Gilmar e Toffoli. O cardápio não foi divulgado, mas o cheiro é de pizza.
Em 1º de agosto, foi a vez de Mendes abrir as portas do seu palacete para Blairo Maggi, bancada ruralista e Michel Temer. Oficialmente, o churrasco foi para comemorar a abertura do comércio de carne brasileira para o mercado americano, articulado entre os governos Dilma e Obama. Em declaração a O Globo, um dos senadores presentes deixou escapar um dos assuntos que rolaram na churrascada:
“O Michel (Temer) disse que iria falar com Renan e que ele tentasse com o Lewandowski antecipar a data (do julgamento final do impeachment). Achamos que os prazos terminariam dia 22 ou 23, e não 25. Ele acha que dá para votar dia 24”.
Brasília - O presidente do Senado, José Sarney, recebe presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que entregou o plano de gestão para o funcionamento de varas criminais e de execuçao penal
O a época senador José Sarney recebe o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que entregou o plano de gestão para o funcionamento de varas criminais e de execução penal.

Foto: Jose Cruz/Agência Brasil
Parece até a agenda de um politico em campanha eleitoral, não de um ministro do Supremo Tribunal do país. Percebam que não há sequer necessidade de disfarçar. No último dia 5, Gilmar determinou a abertura de uma representação contra o PT que pode culminar com a cassação do registro do partido. Motivo? Indícios de que a sigla recebeu, por meio de doação de campanha, dinheiro desviado de contratos da Petrobrás.
Curiosamente, a mesmíssima operação executada por partidos como PMDB, PSDB e DEM. Será que Gilmar irá tratar com isonomia os partidos dos seus companheiros? Se analisarmos suas declarações, o histórico de suas decisões e sua agenda recente, podemos ter certeza que não.
Em bate-boca histórico no STF, o ex-ministro Joaquim Barbosa fez uma afirmação com a qual muitos brasileiros devem concordar: 
“Vossa Excelência está destruindo a Justiça desse país (…) Vossa Excelência está na mídia destruindo a credibilidade do judiciário brasileiro”.
Mas parece que se trata apenas de uma questão de opinião. Há quem acredite que as instituições estão funcionando maravilhosamente bem.

Venceu a descarada impunidade: como o caso de Temer no Porto de Santos foi arquivado, por Marcelo Auler


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Esta é a uma nova reportagem da série sobre o envolvimento de Michel Temer nos escândalos do Porto de Santos e do Aeroporto de Guarulhos. É resultado da nova campanha de crowdfunding do DCM, com a qual você pode contribuir aqui. 

Venceu a impunidade. Como sempre. Em especial por não envolver nenhum petista no caso. A investigação criminal sobre as supostas propinas pagas, nos anos 90, a Marcelo de Azeredo, o ex-presidente da Companhia Docas do Estado de São Paulo (CODESP) e ao seu padrinho político, o então presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, vai para o arquivo. Eles venceram por WO.

Temer, por sinal, já se livrara de ser investigado por duas vezes. Em 2001, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, mandou arquivar as denúncias da ex-companheira de Azeredo, Érika Santos, que envolviam o então deputado federal. Dez anos depois, foi a vez de o procurador-geral Roberto Gurgel tomar atitude idêntica, quando a Polícia Federal pediu autorização para uma investigação mais invasiva.

Queriam fazer escutas telefônicas e quebras de sigilo bancário e fiscal. Pelo possível envolvimento do deputado, solicitaram autorização ao Supremo Tribunal Federal (STF), Mas, a Procuradoria Geral da República (PGR) foi contra. Com isso, nem mesmo a variação patrimonial de Temer — que cresceu vertiginosamente quando ele abraçou a vida política — foi submetida a qualquer fiscalização.

Já no caso de Azeredo foram abertas duas investigações criminais. No Inquérito Policial 20.352/2004, da Delegacia de Prevenção e Repressão a Crimes Fazendários (DELEFAZ) da Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal em São Paulo (SR/DPF/SP) investigava-se a lavagem de dinheiro.

Ao mesmo foi anexado o inquérito 104/2006, da Delegacia de Santos, que apurava os crimes de corrupção e fraudes nas licitações da CODESP. Ambos foram remetidos, por volta de 2008, ao Supremo. De lá só retornaram em 2011. Ao analisarem nestes primeiros dias de agosto todo o caso, a procuradora da República Karan Louise Jeanette Kahn e sua equipe constataram o óbvio: os possíveis crimes estão prescritos. Restaria apenas a lavagem de dinheiro, que pode ser considerado crime permanente. Mas,decorrido tanto tempo, não haveria como confirmá-la.

Não era para menos. Se a investigação já acumula 12 anos de idas e vindas entre a SR/DPF/SP, a Procuradoria da República em São Paulo (PR-SP) e a 2ª Vara Federal Criminal, a Procuradoria Geral da República (PGR) e o STF, o caso em si, isto é, os supostos crimes cometidos — corrupção, fraude em licitação e lavagem de dinheiro — são ainda mais antigos, Datam do período em que, indicado por Temer, Azeredo presidiu a CODESP: junho de 1995 e maio de 1998. A revelação deles, porém, só surgiu no ano 2000.

A paralisação da investigação teve início em Santos. Em 2007, ao assumir o caso instaurado um anos antes, o delegado Cássio Nogueira notou que pouco tinha sido feito. Depois, ela se repetiu no STF, como os assessores do ministro Marco Aurélio admitiram. Eles reconheceram que “a demora na adoção do procedimento padrão (encaminhar a Procuradoria da República) deve-se tão somente ao fato de os autos terem permanecido entre outros processos e procedimentos criminais que dependiam de marcação e análise das peças processuais para encaminhamento à residência de Vossa Excelência. Em razão do equívoco, apresento essas informações”. Encaminhado ao Supremo por volta de 2008, o inquérito só foi despachado de volta a São Paulo em meados de 2011.

Paralelamente, na 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, outra ação analisava a sonegação fiscal tanto de Azeredo como de sua irmã, CarlaComo o DCM mostrou na reportagem Afilhado de Temer no Porto de Santos foi pego pela Receita; PGR poupou padrinho, os dois foram autuados em aproximadamente R$ 1 milhão, recolheram os impostos e multas cobrados pela Receita Federal e com isso livraram-se do processo judicial, tal como prevê a legislação.

As acusações contra Azeredo, Temer e Lima, um suposto sócio do então deputado e hoje interino, surgiram na Ação de Reconhecimento e Dissolução de União Estável movida pela então estudante de psicologia, Érika Santos. Foi logo após ela separar-se de Azeredo por ele a agredir três vezes.

Nessa ação, ajuizada na 3ª Vara de Família de São Paulo, foram juntados documentos que, segundo disse aos advogados Martinico Izidoro Livovschi e seu filho Sérgio, retirou do computador do próprio Azeredo. São centenas de papéis sobre os quais foi decretado segredo de Justiça, por conterem dados fiscais e bancários do ex-presidente da CODESP e da empresa em si.

Erika Santos, que denunciou a caixinha no Porto de Santos em 2 000
Erika Santos, que denunciou a caixinha no Porto de Santos em 2 000


O segredo de justiça, porém, foi limitado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, aos dados fiscais e bancários. Com isso, DCM teve acesso, com exclusividade, aos depoimentos prestados ao delegado federal Ricardo Atila Barbosa, por Azeredo, seu pai Ronaldo, sua irmã Carla (todos em agosto de 2004) e Érika (outubro do mesmo ano).

Azeredo e Érika negaram as denúncias. Ela, após a revista Veja, em março de 2001, noticiar suas acusações na Vara de Família, tratou de destituir os advogados Livovschi e, através de um novo patrono, José Manuel Paredes, desistiu da ação. À época comentou-se que os ex-companheiros acertaram-se financeiramente, em um acordo extrajudicial.

No inquérito, os únicos a confirmarem que Érika realmente acusou Azeredo, Temer e Lima de se beneficiarem das propinas, foram os advogados Livovschi, Diante da contradição deles com a ex-cliente, o delegado chegou a questionar os três sobre uma possível acareação. Todos aceitaram, mas não existe registros de que ela tenha ocorrido. Perdeu-se nova oportunidade de esclarecer os fatos.

Mas as contradições não existiram apenas entre Érika e seus ex-advogados. Ela e Azeredo também conflitaram nas informações ao delegado. A começar pelo tempo de relacionamento e até o período em que dividiram o mesmo teto. Segundo ele, a relação durou um ano e meio. Ela declarou que se relacionaram entre 1997 e julho de 2000 quando, após sofrer uma terceira agressão, saiu de casa com a roupa do copo. Segundo Azeredo, teriam sido apenas dois meses residindo juntos. Já nas palavras dela, a convivência no apartamento dele, na Rua Brás Cardoso, na Vila Olímpia, foi maior: de meados de 1999 a julho de 2000.

Azeredo declarou “que não lhe repassou qualquer espécie de bem ou de pensão, até porque não lhe foi pedido”. Da ação proposta por ela na Vara de Família, teria sabido apenas pela imprensa;.

Érika não comentou nada sobre o possível acordo que os dois teriam feito. Mas ela confessa ter encaminhado aos advogados Livovschi “fotos, extratos de cartão de crédito, cópias dos cheques recebidos de Marcelo, passaporte, além de documentos comprovando a união estável e o padrão de vida do casal”. Tanto que na Vara de Família eles alegaram que Érika recebia uma “mesada de R$ 5 mil para os gastos e possuía um cartão de crédito dependente do companheiro”.

Obviamente, ao encaminhar tais documentos a um advogado para propor uma ação de reconhecimento da união estável e partilha de bens, é de se supor que ela pleitearia ajuda financeira. O que Azeredo declarou que não aconteceu. Na ação há o pedido de R$ 10 mil mensais. Na polícia, porém, o assunto não foi comentado, nem questionado.

Apesar do possível acordo que os ex-companheiros teriam feito, ela passou a trabalhar como balconista. Na polícia, informou ser vendedora na loja Vertigo, no Shopping Iguatemi. Acrescentou que atendia como psicóloga no Hospital das Clínicas.

O fundamental, porém, foram as contradições em torno da questão principal: as propinas no Porto de Santos que teriam sido repassadas a Temer. Azeredo negou “peremptoriamente o recebimento de qualquer quantia por parte de quaisquer empresas privadas, conforme informado por Érika”.

Ela, por seu lado, alegou desconhecer qualquer irregularidade cometida pelo ex-marido, o que descobriu apenas ao ver a ação na Vara de Família: “até tomar conhecimento das denúncias de crimes cometidos por Marcelo através da ação, que viu no fórum, não tinha conhecimento dos fatos supostamente delituosos imputados a Marcelo e não autorizou os advogados a fazerem essas denuncias contra seu ex-companheiro”.

Repetiu na polícia a explicação que Temer, em março de 2001, divulgou no discurso que fez na tribuna da Câmara, como noticiamos aqui na reportagem Temer ignorou pedidos da PF para se explicar no caso da propina no Porto de Santos.

Segundo disse, após se separar, “recebeu um envelope contendo diversos documentos a respeito de Marcelo de Azeredo que foram entregues em sua residência anonimamente. Não tomou conhecimento do teor dessa documentação, até porque era muito volumosa. Pretendia entrar com uma ação de reconhecimento da união estável tendo para tanto contratado os advogado Martinico Izidoro Livovschi e então encaminhou ao mesmo, além dos documentos recebidos anonimamente, as fotos, extratos de cartão de crédito, cópias dos cheques recebidos de Marcelo, passaporte”.

Ao reprisar que não tinha conhecimento de atividades ilícitas do ex-companheiro, ressaltou, porém, que “o alto padrão de vida do mesmo lhe chamasse a atenção. Sempre viajavam em primeira classe, hospedando-se em hotéis cinco estrelas, frequentando restaurantes caros”. Ou seja, desconhecia o possível crime, mas se beneficiava do resultado dele.

Marcelo de Azeredo, indicado por Temer à Codesp
Marcelo de Azeredo, indicado por Temer à Codesp

O desmentido de Érika partiu de seus dois ex-advogados. Pai e filho deixaram claro que ela nunca falou em documentos recebidos anonimamente, mas sim extraídos do computador do companheiro.

Segundo Martinico, todo o conteúdo da inicial da ação “foi narrado por Érika Santos”. Da mesma forma partiu dela “toda a documentação relativa à ação” Ele ainda explicou que “Érica enviou um fax em resposta à minuta, pedindo que fossem feitas algumas modificações”. Ele e o filho insistiram “as denúncias ali constantes foram feitas obedecendo a uma exigência de Érika que acreditava que as mesmas poderiam pressionar Marcelo a realizar um acordo rapidamente”.

Érika também mentiu na polícia ao dizer que desconhecia a existência de um carro Porsche e uma Mercedes. Os dois veículos foram citados por ela aos advogados para que fossem incluídos na ação na Vara de Família como bens que Marcelo adquiriu e colocou em nome de familiares. O Mercedes, como a Receita confirmou depois, estava em nome do pai dele. O Porsche, em nome da irmã Carla, que por não ter provado a origem do dinheiro para adquiri-lo, foi autuada e pagou multa superior a RF$ 100 mil.

Todos estes fatos mostram que Érika certamente foi pressionada após a divulgação de suas denúncias. Fica a dúvida se realmente houve um acerto financeiro. Mas, torna-se evidente que depois de tentar pressionar judicialmente Azeredo, ela recuou nas suas denúncias o fato é que ela fechou um acordo com o ex-marido e deixou de falar em Temer.

Azeredo, não chegou a negar em momento algum que tenha sido indicado pelo então presidente da Câmara para a presidência da CODESP. Disse, apenas, que a indicação ocorreu “após ser sabatinado pelo ministro dos Transportes, Odacir Klein”,

Provavelmente a sabatina pode ter ocorrido, embora haja quem diga que Azeredo nada entendia do funcionamento do porto. O que ele não deixou claro é como seu nome, ligado ao PMDB de São Paulo, foi parar na mesa de Klein, um político gaúcho. Certamente foi a indicação de Temer — com quem Azeredo admitiu apenas que mantinha uma relação meramente partidária, por ser filiado ao PMDB e ter, inclusive,concorrido a deputado estadual em 1994.

Afinal, na sua primeira reunião com a diretoria antiga da CODESP, ele deixou claro que estava ali graças ao então presidente da Câmara. “Mas se vocês falarem isto, eu nego”. Pelo jeito, continua negando até hoje.


Marcelo Auler
No DCM

sábado, 2 de abril de 2016

A Waterloo e desmoralização do "Somos Todos Moro"....


Achava que podia voar e se esborrachou: Moro
Achava que podia voar e se esborrachou: Moro

Texto de Paulo Nogueira, extraído do Diário do Centro do Mundo

Está claro agora que Sérgio Moro enfrenta seu Waterloo.


Ele acreditou na Globo e achou que poderia voar. Só que se espatifou.


A contundente derrota que ele sofreu ontem no SFT na questão dos grampos foi um marco na mudança de sua imagem.


O juiz superstar de quem ninguém ousava falar por ele parecer simbolizar a luta contra a corrupção ficou para trás. Em seu lugar emergiu a figura de um juiz partidário, descontrolado e sócio da Globo na aventura macabra de destruir a democracia pelas vias jurídicas.


Moro cruzou as fronteiras do tolerável ao impor a Lula um depoimento coercitivo sem qualquer propósito que não fosse produzir um espetáculo circense na mídia.


Foi aí que vozes insuspeitas de petismo ou esquerdismo começaram a questioná-lo fortemente, o que não ocorria até então. Começava o que em inglês se chama de backlash – o refluxo dos elogios a Moro.


O juiz Marco Aurélio Mello se destacou aí. Depois de explicar didaticamente a aberração cometida por Moro ao coagir alguém sem antes convidá-lo a depor, Marco Aurélio zombou da miserável justificativa apresentada pelo ofensor.


Moro afirmou que agiu para “proteger” Lula. “Este tipo de proteção eu não quero para mim”, disse ele. Brasileiro nenhum quer.


O segundo passo em falso de Moro veio dias depois, quando grampeou e vazou para a Globo conversas telefônicas de Lula, algumas delas com Dilma.


Mais uma vez, não houve motivo nenhum que não fosse o de provocar alarido e o de levar inocentes úteis a acharem que Lula cometera mais um crime.


Pouco tempo depois, o próprio Moro confirmou isso ao dizer que Lula parecia saber que estava sendo grampeado pelo teor dos áudios gravados.


O que Moro disse é que nada do que se gravou de Lula era incriminador. Ora: por que, então, divulgar? Para posar de herói, para constranger Lula, para ajudar no golpe, ou por todas estas alternativas?


Fico com a última hipótese.


A imprensa silenciou, como era de esperar. Mas o STF, pelas mãos do ministro Teori, deu um basta a Moro.


Chega, passou do limite, acabou a farra: foi este o sentido do gesto de Teori de retirar Lula das mãos, ou garras, de Moro e reprovar categoricamente os grampos.


Moro foi intimado a explicar a invasão telefônica por Teori, e apresentou um pedido de desculpas tão patético quanto o de Lobão para Chico.


O desprezo com que as “escusas”, para usar a palavra pomposa de Moro, foram recebidas ficou patente na sessão de ontem do STF.


Teori foi seguido por todos os seus colegas, excetuado Gilmar, que estava numa viagem em Lisboa por motivos golpistas.


Fora dos círculos jurídicos, o ator Wagner Moura — sem nenhuma conexão com o petismo — disse o que muitos pensam mas poucos ousam dizer. Moro, segundo ele, se comporta como promotor, e não como juiz. E parece não ter noção da monstruosidade que é se deixar fotografar ao lado de políticos do PSDB.


Numa palavra, Moro cansou. Deu.


O Moro tal como se tornou conhecido, um colosso do bem, está morto.


Começou o caminho de volta rumo ao que ele é: um juiz provinciano cuja visão de justiça é atacar um lado só.

Paulo Nogueira
No DCM