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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Gritante fiasco em Davos e o ainda mais gritante imobilismo interno, por Paulo Kliass



Candidato do mercado, presidente não consegue esclarecer seu projeto de país. Em meio a tropeços diplomáticos, Brasil exportou vergonha alheia

Do Outras Palavras:



Manifestação contra o Fórum Econômico Mundial em Davos destaca Bolsonaro

Por Paulo Kliass
O governo do capitão ainda não completou um mês desde a sua posse. Mas já coleciona um número impressionante de escândalos políticos, contradições de propostas, denúncias de corrupção e bate-boca entre os principais integrantes de seu primeiro escalão. A cada dia a imprensa e as redes sociais divulgam um novo caso vergonhoso, sempre envolvendo algum filho ou familiar do presidente recém eleito. A cada dia vem à tona alguma declaração de integrante de sua própria base criticando uma ou outra política ou decisão de ministros. 
Na verdade, o que começa a se tornar cada vez mais evidente é a incapacidade de convivência harmoniosa entre algumas das partes que compõem o amplo leque de alianças que se formou em torno de Bolsonaro. A partir do momento em que sua candidatura deixou de ser apenas uma aventura improvável de um deputado militar reformado, com fama de excêntrico e saudosista da ditadura, o fato é que setores das elites empresariais passaram a jogar suas fichas também na possibilidade de que o mesmo chegasse ao Palácio do Planalto.
Superado o difícil desafio eleitoral, tem início uma outra etapa não menos complexa e recheada de armadilhas. Trata-se, a partir de então, de compor a equipe de governo e articular os espaços políticos para facilitar a sua vida no interior do Congresso Nacional. Além disso, o presidente necessita angariar apoios nos grandes meios de comunicação para tentar solidificar sua imagem junto à chamada opinião pública. O tempo escorre entre seus dedos e o suposto cacife um governante recém empossado com algumas dezenas de milhões de votos parece não ter mais efeito. A legitimidade que parecia disponível e fresquinha começa a enfrentar um processo de corrosão acelerada.

Fiasco em Davos

Por outro lado, Bolsonaro precisa urgentemente se firmar aos olhos da comunidade econômica e financeira internacional. Afinal, ele tem uma grande tarefa pela frente: tentar convencer as elites da diplomacia de todos os continentes e dos negócios globais de que essa imagem de “tosco” que carrega consigo não passa de uma manobra dos defensores do marxismo cultural. Assim, ao contrário do que tem sido divulgado pelas páginas da grande imprensa internacional, seu governo simbolizaria a vanguarda da modernidade do capitalismo contemporâneo. Afe! Missão quase impossível, em especial se estiver sob a responsabilidade de um chanceler completamente desmoralizado e desacreditado, como é o caso de Ernesto Araújo.
Ora, face a uma conjuntura interna tão atabalhoada como essa do começo de seu governo, caiu-lhe no colo uma oportunidade única. Refiro-me à participação na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos na Suíça. Esse evento costumava promover o encontro da nata dos dirigentes do capitalismo financeiro global. Tanto por meio dos dirigentes políticos das principais nações do mundo, como pela presença dos mais importantes representantes das grandes corporações empresariais espalhadas pelo globo. Na edição de 2019, no entanto, as dificuldades impostas pela figura de Trump e suas excentricidades nas relações internacionais retiraram a importância e o brilho do evento. Em face da ausência das principais lideranças que tradicionalmente comparecem ao conclave, surgiu a possibilidade para que o representante do Brasil ocupasse o protagonismo da cena. Uma chance de ouro.
Mas ele não tinha nada a dizer. Um discurso fraco, mequetrefe e rastaquera. Não disse ao que veio. Nem mesmo para o público que aguardava algum recado relevante na pauta conservadora do liberalismo econômico internacional. Não gastou mais do que longos 8 minutos para deixar claro que não sabia bem o que estava fazendo por ali. Nem mesmo da ótica de seu grupo de apoio interno conseguiu passar alguma mensagem. Quanto às expectativas do financismo, Bolsonaro não avançou mais do que um agradecimento pela oportunidade oferecida, com a relevante menção explícita a seu bordão “Deus acima de tudo”. Mencionou o que considerava como as importantes presenças dos ministros Sérgio Moro, Ernesto Araújo e Paulo Guedes.
Ele fugiu como pode das coletivas “incômodas” da imprensa estrangeira e ainda destacou em sua breve fala na abertura, com orgulho digno de dar vergonha alheia, aquilo que considerava fundamental oferecer ao mundo dos negócios como sendo as qualidades mais relevantes de nosso país:
“Vamos investir pesado na segurança para que vocês nos visitem com suas famílias, pois somos um dos primeiros países em belezas naturais, mas não estamos entre os 40 destinos turísticos mais visitados do mundo. Conheçam a nossa Amazônia, nossas praias, nossas cidades e nosso Pantanal. O Brasil é um paraíso, mas ainda é pouco conhecido!”
O fato concreto é que a passagem de Bolsonaro por Davos revelou-se como um verdadeiro fiasco. É sabido que o modelo do conservadorismo ortodoxo de Paulo Guedes não vai promover nenhuma retomada sustentável do crescimento da economia. Trata-se tão somente de uma chegada ao poder para completar o processo de desmonte iniciado por Meirelles & Cia no governo Temer. Não é por acaso que os principais itens de agenda são o aprofundamento do ajuste fiscal restritivo, a privatização e a reforma previdenciária. Esses são, aliás, os únicos elos que ainda mantêm alguma sintonia entre o novo governo e as elites empresariais e políticas. No máximo, ambicionam a algum voo de galinha. Um ciclo de crescimento de curto prazo, sem tocar na desgraça da desindustrialização, nos efeitos da maior recessão de nossa História e muito menos no estoque de 13 milhões de desempregados.
Ora, sob tais circunstâncias, a possibilidade de obter alguma elevação razoável no PIB depende daquilo que o economês chama de “saída pelo setor externo”. Promover aumentos nas exportações e internalizar esses recursos vindos do exterior para promover algum tipo de engate nas atividades econômicas internas. Esse é o caso típico dos arranjos econômicos em torno do agronegócio (soja, trigo, álcool, carnes, sucos de frutas e outros) e das atividades de exploração de produtos minerais (ferro, petróleo e outros). A atividade exportadora tem esse condão de se agarrar no produto a ser vendido lá fora para romper a inércia interna.

Saída pelo setor externo?

No entanto, concordando-se ou não com essa alternativa, nem mesmo essa saída de reforço do modelo neocolonial de exportação de produtos primários ou de baixo valor agregado é capaz de dar certo. Caso se mantenha essa postura doutrinarista de inspiração medieval de seu chanceler e dos ideólogos do bolsonarismo, o mais provável é de se assistir ao aprofundamento da tendência de isolamento diplomático e comercial do Brasil.
A insistência em transferir a embaixada brasileira para Jerusalém pode causar sérios estragos na imagem da reconhecida tradição diplomática do Itamaraty. Além disso, os prejuízos econômicos serão graves e imediatos. Os principais compradores de nossa carne, por exemplo, são os países de cultura islâmica. E já teve início um processo de retaliação comercial associada a essa aventura irresponsável. Veremos até onde resiste o compromisso ideológico do agronegócio com o projeto político do capitão e os resultados de faturamento das empresas integrantes do complexo da carne.
As relações diplomáticas e comerciais com a China são outro capítulo da mesma temporada da série “Trapalhadas de Araújo e Carvalho”. Impulsionados pelo discurso obscurantista do anticomunismo, do antissocialismo, do antitudismo de sua base extremista, os grupos que chegaram a Brasília estão passando pelo inevitável banho de realidade e de pragmatismo na política. As conhecidas fustigadas ao modelo chinês agora devem der espaço ao estabelecimento de relações “amistosas” com o gigante do mundo econômico contemporâneo. Mas isso não é tranquilo nem pacífico no interior de quem se elegeu na crítica veemente ao que chamava de vermelhismo das gestões do PT e ao emcimadomurismo do próprio período tucano. Mas o fato é que o próprio responsável pela Câmara de Comércio Brasil China deixa bem claro o incômodo dos nosso principais parceiros.
“A China só investe onde é bem-vinda. O Brasil precisa desses investimentos e deve ter muito cuidado, se isso continuar o país vai sofrer”
Na outra ponta, são também bastante conhecidas as desavenças dos principais exportadores de nossos produtos manufaturados para o Mercosul com o discurso do novo responsável pelas relações exteriores. No comércio regional encontra-se um dos poucos espaços onde nossa pauta comercial é superavitária em produtos de maior valor agregado – em especial a venda de veículos brasileiros para Argentina. A insistência do chanceler Araújo em desmoralizar o Mercosul como alternativa diplomática e econômica também vai provocar consequências danosas para um ramo importante de nossa cadeia industrial.
Enfim, a cada novo dia, fica evidente a impossibilidade de convivência pacífica entre essas duas agendas. O conservadorismo liberal de Guedes depende da superação do doutrinarismo medieval de Araújo. Essa tensão deverá manter o imobilismo na retomada dos investimentos e do crescimento. Aguardemos, pois, como será o posicionamento do General Mourão. Em algum momento o capitão será chamado a se manifestar.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Blog da Cidadania: Apoio a Bolsonaro despenca, como previsto



Do Canal do Blog da Cidadania:




Só quem não entende NADA de política não sabia que era questão de MUITO POUCO TEMPO para a aprovação de Bolsonaro VIRAR PÓ. E virou. Ele já tem a PIOR APROVAÇÃO de um presidente no primeiro mês de mandato. E perde de lavada de LULA no primeiro mês de seu governo. A queda de Bolsonaro em relação à expectativa de seu governo é GIGANTESCA.
ACESSE O SITE DO BLOG DA CIDADANIA

domingo, 16 de dezembro de 2018

Do Congresso em Foco: Ex-chefe de gabinete de Bolsonaro doava mais que o próprio salário aos filhos do presidente eleito



"Apuração da revista IstoÉ  feita nos gabinetes do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e de seus filhos revela uma prática semelhante ao esquema de caixinha de assessoria: funcionários do clã fizeram doações e prestaram serviços políticos para campanhas eleitorais dos Bolsonaro e, em alguns casos, os valores das contribuições ultrapassavam os próprios rendimentos de quem doava."


Do site Congresso em Foco:

Ex-chefe de gabinete de Bolsonaro doava mais que o próprio salário aos filhos do presidente eleito




A suspeita do Ministério Público de que a família Bolsonaro se beneficiou de um esquema de contribuições a partir de nomeações no Legislativo ganhou mais um desdobramento neste fim de semana. E não apenas devido à atuação do policial militar Fabrício de Queiroz, ex-assessor do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) que, segundo indícios identificados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e apurados pelo MP, administrava uma espécie de caixinha de colaborações dos demais servidores  da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para o mandatário – o Coaf rastreou uma movimentação bancária de R$ 1,2 milhão, "atípica" para quem recebia um salário de R$ 8,5 mil.
Apuração da revista IstoÉ  feita nos gabinetes do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e de seus filhos revela uma prática semelhante ao esquema de caixinha de assessoria: funcionários do clã fizeram doações e prestaram serviços políticos para campanhas eleitorais dos Bolsonaro e, em alguns casos, os valores das contribuições ultrapassavam os próprios rendimentos de quem doava.
A reportagem publicada na edição deste fim de semana mostra o caso do capitão do Exército Jorge Francisco, que trabalhava com Jair Bolsonaro havia 20 anos, no gabinete do deputado do PSL em Brasília, e morreu em abril deste ano. Naquele mês, o presidente eleito deu uma pausa na agenda de compromissos para ir ao velório do amigo e funcionário.
O ex-servidor da Câmara teve papel determinante na eleição de Flávio Bolsonaro como vereador em 2002, diz a revista. A prestação de contas de Flávio naquele ano mostra que Francisco doou R$ 5,9 mil para a campanha do filho mais velho de Jair Bolsonaro. Esse foi, aliás, o valor total que o hoje deputado estadual declarou ter gasto em sua campanha – algo em torno de R$ 18 mil, em valores atualizados.
No ano seguinte, já como membro do gabinete de Bolsonaro em Brasília, Francisco recebia salário de cerca de R$ 15 mil por meio de um cargo de confiança. O assessor parlamentar feitas outras doações, em espécie, à família. Em 2004, foram R$ 10 mil (ou algo como R$ 22 mil, em valores de hoje) doados para a primeira eleição de Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), o filho do meio – ou "02", como Bolsonaro gosta de dizer –, à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Ao todo, Carlos recebeu R$ 34,5 mil em doações naquele ano, ou seja, Francisco deu cerca de 30% das doações.
"As informações apuradas por IstoÉ constam das próprias contas eleitorais. Em vários casos, servidores de Jair Bolsonaro foram responsáveis por doações, por meio de serviços ou em dinheiro em espécie, aos filhos desde quando eles começaram a disputar eleições, a partir de 2002. Ou seja, parece comum que servidores contratados por eles empregassem – obrigados ou não – o dinheiro proveniente de seus ganhos mensais no apoio político-eleitoral aos Bolsonaro", diz trecho do texto assinado por Wilson Lima.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

O "bandicídio" de Bolsonaro e suas contradições, por Bruno Antonio Barros Santos, defensor público.


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"O discurso “bandido bom é bandido morto” é repetido, de forma automática e irrefletida, por incineradores robotizados do nosso tempo. E o que é pior: no lugar de incinerar livros, pessoas é que deveriam ser incineradas. Incinerar é apagar a história e a memória de um indivíduo. Por isso, cada pessoa, seja “bandido” ou não, é uma biografia, é um livro para ser lido e compreendido. Como reduzir alguém ao nada? Como transformar um ser humano num recipiente onde se deposita todo o ódio mortal de um julgamento instantâneo? Não podemos esquecer uma simples lição da sabedoria popular: ao apontar o dedo para alguém, olhe para os três dedos que apontam para você." - Bruno Antonio Barros Santos, Defensor Público

Do site Justificado:


Sexta-feira, 29 de junho de 2018

O “bandicídio” e suas contradições – um código penal para chamar de meu?

Inicialmente, é importante destacar que diversos autores da criminologia crítica denunciam, com profundidade teórica e suporte estatístico, a ineficácia do punitivismo, como meio de combate à criminalidade. Entretanto, vemos uma escalada do ódio que não rebate esse entendimento com técnica, cientificidade e argumentos sólidos, mas, sim, com populismo autoritário e conjugando fortemente o verbo “matar”, cujo objeto da ação é o “bandido”, construído social e subjetivamente. É o “bandicídio” do nosso tempo.
"Causa bastante preocupação que a frase “bandido bom é bandido morto” tenha o apoio de 57% da população brasileira, de acordo com pesquisa do Datafolha, em 2016, contratada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública[1]. Dessa maneira – além da conhecida seletividade, que criminaliza a pobreza a partir do desmantelamento do Estado Social, conforme densa análise do sociólogo francês Loic Wacquant[2] – percebe-se, no meio social, uma seletividade subjetiva de definir “bandido” como o “outro”, segundo um Código Penal próprio que isenta o “eu” de eventual criminalização. Uma espécie de Código Penal para chamar de meu."
Nesse sentido, é curioso observar o mantra místico de que “bandido bom é bandido morto” e suas contradições intrínsecas. Observa-se que, em parte do imaginário social muito reforçado por parlamentares da “Bancada da Bala”, a existência de tipos penais se resume basicamente a um quarteto criminal composto de “matar, roubar, estuprar e traficar”, como se só fossem, respectivamente, crimes: o homicídio, o roubo, o estupro e o tráfico de drogas. Esta é uma das principais cartas do baralho retórico nessa lógica punitivista do extermínio. A ideia de quem propaga esse discurso é hiperbolizar para sensibilizar, gerando adesão das pessoas por meio do viés apelativo e distorcido.
Nessa carona retórica, existe o discurso de que “bandido não tem pena de ninguém e, portanto, não deveríamos ter pena deles”. Ora, há “bandidos” que não demonstram qualquer compaixão pelas vítimas e são, de fato, cruéis. Entretanto, a partir do momento que as pessoas passam a parametrizar suas reações ao crime, praticando igualmente crimes, qual seria a diferença ética dessas pessoas para as que elas tanto condenam? O modelo de reação das pessoas tem que ser igual – ou pior – ao modelo de ação dos “bandidos”? Eticamente é aceitável, fora dos casos de legítima defesa ou de outra excludente de ilicitude, apoiar a matança de “bandidos” que furtaram ou roubaram algo? Será que o patrimônio e os bens materiais estão acima da vida de alguém?
"A descarga de raiva é compreensível, em certo ponto, para as vítimas de crimes e seus familiares e amigos. No entanto, o propósito de muitas pessoas, sobretudo de mercadores influentes do ódio, é outro: a capitalização dessa raiva para ganhar adeptos emocionalmente frágeis e criar um terreno propício para o domínio autoritário das respostas fáceis, simplistas e imediatistas. É preciso desconfiar de quem emprega um linguajar excessivamente bélico e estridente que, geralmente, é destrutivo e intolerante com o “outro” que erra."Resultado de imagem para Matar bandidos bolsonaro  direitos humanos
Mahatma Gandhi, supostamente, teria dito que “de olho por olho e dente por dente o mundo acabará cego e sem dentes”.
Desse modo, o fetiche terminológico “bandido bom é bandido morto” destrói o corpo social e segue uma ritualística pior do que a própria pena de morte, legalizada em países que a adotam, porque o julgamento de quem é “bandido” é instantâneo, feito na hora, na rua, na imagem, no vídeo, no programa televisivo e, sobretudo, nos milhares de compartilhamentos das redes sociais.
"Nessa lógica aniquiladora, não existe espaço para a possibilidade da inocência de alguém; e, uma vez identificado como “bandido”, esse alguém, automaticamente, é transformado em uma coisa, por aqueles que acreditam poder fazer qualquer coisa com a coisa, inclusive destruí-la."
Nessa imputação identitária e prévia de “bandido”, não há espaço para a digestão dos fatos; não importa a checagem da fonte e não interessa o esclarecimento das circunstâncias. Causa incômodo e dói demais parar para pensar que tal “julgamento” possa ser precipitado e errado; é melhor não refletir nas consequências desastrosas de um raciocínio automatizado. Tem-se um horror às problematizações. Nessa avenida, o percurso é livre e em linha reta, não se admitindo curvas, buracos e engarrafamentos. É “bandido” e ponto final. Basta ter tido uma identidade socialmente atribuída a partir do quarteto “matar, roubar, estuprar e traficar”.
"Assim, o desenho do que é crime e do que é ser “bandido” é seletivamente escolhido por um Código Penal que essas pessoas chamam de seu. É a canetada da conveniência e a construção do rol de crimes a serem decididos ao bel-prazer de quem define paranoicamente que tipo de sujeito/bandido deve ser morto. Explodem casos de linchamentos nas ruas, além do enorme apoio à tortura e à morte, praticadas por policiais, da mesma forma como chovem compartilhamentos nas redes sociais que riem e zombam desses “corpos matáveis” (Agamben), num país, ironicamente, de maioria cristã."
Ao mesmo tempo, constrói-se um amplo leque de imunidade para (não) bandidos, de modo a tentar fugir das armadilhas da própria fala incoerente. Só se enxerga “crime” e “bandido” naquilo que se quer convenientemente ver. Lembra a canção “Sampa”, de Caetano Veloso, quando diz que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Percebe-se então que, em boa parte dos punitivistas mortais, há uma incoerência de comportamento verificada, pois muitos já praticaram inúmeros crimes no vasto cardápio da legislação penal (incluindo as várias leis extravagantes). Provavelmente, o caro leitor tem muitos amigos e conhecidos mergulhados nessa contradição.
Há pessoas para todo tipo de transgressão. As que sonegam impostos porque consideram impostos roubo; as que furtam a carga do caminhão que tomba na estrada; há outras que falsificam carteira de estudante para ter “direito” à meia-entrada; há as que fazem “gato” na energia ou tem o “gatonet” com acesso livre a canais da TV fechada; há aquelas que dirigem embriagadas; há pessoas que dão propina ao policial na blitz de trânsito; há pessoas que torturam outras ou matam-nas; e ainda as que praticam crimes contra o meio-ambiente. Mas, nada disso importa.
"O filósofo camaronês Achille Mbembe fala da “necropolítica” como o controle e a classificação que o Estado faz de quem pode viver e de quem deve morrer como algo esperado e rentável[3]. Nossa necropolítica brasileira, além de visivelmente estatal (genocídio da população pobre e negra das periferias), também ganha bastante força no meio social, por meio de como as pessoas enxergam umas às outras. Há uma naturalização do extermínio a partir de um Código Penal Necropolítico, em que se decide o que é crime, quem é bandido e quem deve morrer, porém sem alcançar subjetivamente quem decide a narrativa. Nessa dramaturgia do massacre, o narrador constrói o “outro”, que pode ser destruído, a partir de um personagem principal autoimune e contemplativo."
Nesse viés, temos pessoas racistas, pessoas que praticam violência doméstica contra mulheres, que violentam idosos dentro de casa, que compram produto pirata ou muito barato mesmo sabendo ser produto de crime, pessoas que fornecem cerveja a adolescentes, que revendem inúmeros produtos comprados no exterior sem declará-los à Receita Federal no retorno da viagem, pessoas que fazem apologia a crimes quando se manifestam a favor da morte de criminosos. Mas, nada disso importa.
O sujeito não se vê enquanto “bandido”. É uma avalanche de hipocrisia. É um mundo de máscaras sociais que se acovarda, por não punir a sinceridade. Se a cortina que encobre a clandestinidade silenciosa do impublicável fosse aberta, o sincericídio abalaria até o pilar mais forte dessa ponte que não tem olhos para dentro de si. Por isso, há uma conveniência escapista na produção da morte sempre ser direcionada ao “outro”. Enfim, é um “bandicídio” subjetivamente seletivo.
No clássico livro “Fahrenheit 451”, cujo Estado Totalitário queima livros, curiosamente através de bombeiros, para que as pessoas não despertem o senso crítico, a personagem Clarisse McClellan pergunta ao bombeiro Montag se ele “nunca lê nenhum dos livros que queima”, momento em que ele responde, rindo, que não,e que não se pode ler porque “isso é contra a lei! […] Reduza os livros às cinzas e, depois, queime as cinzas. Este é o nosso slogan oficial”[4]. Não basta queimar os livros, tem que queimar também as cinzas desses livros.
"O discurso “bandido bom é bandido morto” é repetido, de forma automática e irrefletida, por incineradores robotizados do nosso tempo. E o que é pior: no lugar de incinerar livros, pessoas é que deveriam ser incineradas. Incinerar é apagar a história e a memória de um indivíduo. Por isso, cada pessoa, seja “bandido” ou não, é uma biografia, é um livro para ser lido e compreendido. Como reduzir alguém ao nada? Como transformar um ser humano num recipiente onde se deposita todo o ódio mortal de um julgamento instantâneo? Não podemos esquecer uma simples lição da sabedoria popular: ao apontar o dedo para alguém, olhe para os três dedos que apontam para você."
Não esqueçamos ainda que jorram pessoas que forjam dados no Imposto de Renda; pessoas que dão propina a funcionários públicos para furar uma fila ou ter algum privilégio em instituições públicas; pessoas que fraudam benefícios previdenciários; pessoas que têm fazendas e que submetem seus “trabalhadores” à condição análoga de escravo; pessoas que fornecem drogas em festas elitizadas; e pessoas que compram ou vendem a CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Mas, nada disso importa.
É óbvio que existem penalidades diferentes para crimes diferentes. Entretanto, tais condutas que, embora não se enquadrem no quarteto “matar, roubar, estuprar e traficar”, não deixam de continuar sendo crimes – fazendo uso aqui de um raciocínio bem punitivista, para que o próprio punitivista entenda o que é ser punitivista. Então, quem pratica os crimes exemplificados acima é o quê? Qual o critério para se definir quem seja “bandido”? Uma lei penal é para ser universal e aplicada a todos; ou inventarei uma modulação dos seus efeitos num Código Penal que chamarei de meu? E, se cada pessoa decidir criar seu próprio Código Penal e tivermos vários códigos, definindo diferentes tipos de “bandidos”, qual o critério para resolver esse conflito? Qual código deve prevalecer?
"A dúvida permanece e tem uma pergunta que precisa ser respondida por pessoas que cultuam esse determinado tipo de punitivismo seletivo e mortal: Existem condutas criminais de estimação que, paradoxalmente, não sejam crimes? A bem da coerência, é importante registrar que quem não quiser ser suicida deve falar “bandido bom é bandido morto”, num contexto pessoal santificado, imaculado, perfeito e com ombridade suficiente para se autodelatar quando praticar crimes. Do contrário, pode ser que se tenha um conflito interno mal resolvido e se tente, a todo custo, exorcizar fantasmas que atormentam a própria saúde mental."
Nesse sentido, no lugar de um Código Penal para chamar de meu, um Código Penal para chamar de nosso deve morder todos, sem distinção. Isso porque, na perspectiva punitivista sincericida, crime é crime, e bandido é quem pratica crime. Enquanto crimes não forem revogados, quem os pratica continuará sendo “bandido”. Bandido bom é bandido morto? Sendo assim, que tal dar o primeiro passo ético do verdadeiro “cidadão de bem” e assumir o risco de ser cobaia da própria fala? O Leviatã mora ao lado e o seu punitivismo pode se voltar contra você.
Ou, então, por que não vestir a camisa da Constituição Federal e, em vez de gritar “bandido bom é bandido morto”, fazer um mergulho crítico dentro de si, retirar a máscara social e gritar “direito bom é ampla defesa, presunção de inocência, devido processo legal e julgamento justo vivos”? Ninguém está imune a uma identidade socialmente atribuída de “bandido”, justa ou injustamente. A título de exemplo, recordemos dos inúmeros casos de policiais com “kit flagrante”. E só percebemos isso quando paramos para refletir. Essa tomada de consciência se dá quando conseguimos dominar minimamente nosso impulso colérico.
O filósofo coreano Byung-Chu Han diz que “a atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. […] Apesar de todo o seu desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar”[5]. As tentações autoritárias são avessas a essas pausas e interrupções. Por isso, regimes totalitários foram – e continuam sendo – possíveis. A anestesia da não reflexão produz horrores naturalizados.
Assim, quem diz “bandido bom é bandido morto” precisa de mais interrupções e menos imperativos na vida. Hesitemos mais. Não sejamos computadores que automatizam o massacre e nem robotizados incineradores de gente. É preciso controlar esse hiperativismo da punição que gesta e acelera barbáries. Esse filme do horror já vimos na história. A cobaia pode ser qualquer um de nós; afinal, ressignificando a canção “Hey Joe”, do Rappa, “também morre quem atira”.
Bruno Antonio Barros Santos é Defensor Público no Estado do Maranhão.

[1]Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/11/02/no-brasil-57-concordam-que-bandido-bom-e-bandido-morto-diz-datafolha.htm>. Acesso em: 08 jun.2018.
[2]Wacquant analisa a criminalização da pobreza nos livros “As Prisões da Miséria” e “Punir os pobres – A nova gestão da miséria nos Estados Unidos”.
[3]TOVAR, Lucía Morales. Necropolítica, de Achille Mbembe. Estudios Culturales, 2016. Disponível em:https://estudioscultura.wordpress.com/2016/09/28/necropolitica-de-achille-mbembe>. Acesso em: 09 jun. 2018.
[4]BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. Trad. Cid Knipel. São Paulo: Globo, 2012, p. 26.
[5]HAN, Byung-Chul. E-book Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. Kindle Version. Paginação irregular.

sábado, 27 de agosto de 2016

Jair Bolsonaro é eleito o político mais abominável do mundo por site da Austrália


Jornais internacionais não conseguem acreditar na projeção de uma figura tão 'repulsiva'


Da Redação do Correio 24 horas  (redacao@correio24horas.com.br)
Atualizado em 06/05/2016 16:51:09

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi eleito o político mais repulsivo do mundo pelo site australiano 'News'. Segundo informações do site, o magnata 'Donald Trump é uma criança inocente perto do parlamentar brasileiro'.
"Senhoras e senhores, conheçam o Donald Trump do Brasil. Pensando bem, isso não é justo com Trump. Ao lado de comentários do congressista brasileiro Jair Bolsonaro, a observação infame de Donald Trump sobre 'construir um muro para manter os mexicanos fora' é suave como uma cantiga para crianças", diz o News. 
Bolsonaro: contrário à gays, negros, mulheres, refugiados...
(Foto: Reprodução)
"Há uma longa lista de declarações que explicam a notoriedade do ultraconservador Bolsonaro. Ele apoia abertamente a tortura. Faz também uma avaliação positiva da brutal ditadura militar que governou o Brasil por mais de duas décadas. E freqüentemente faz manchetes com observações depreciativas sobre negros, gays e mulheres", continua.
Os jornais e publicações internacionais também não conseguem acreditar que Bolsonaro consiga ter tanta projeção, sendo ele uma figura "repulsiva e preconceituosa".
Recentemente, o deputado foi confrontado pela atriz Ellen Page, na série Gaycation (HBO), e pelo ator Stephen Fry, no documentário Out There (BBC Two), sobre os direitos dos homossexuais.
A revista Vice também criticou o parlamentar, que sempre faz discursos discriminando todas as minorias, sendo eles gays, negros, mulheres e até os refugiados de guerra. Na reportagem de James Armour Young, a Vice se referiu a Bolsonaro como um ser humano "deliberadamente ultrajante".

quarta-feira, 9 de março de 2016