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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Do Justificando: Alunos e professores relatam o que piorou após o início do governo Bolsonaro


Alunos e professores relatam o que mudou após o início do governo Bolsonaro

“Eu estou aqui porque acredito que a paralisação é uma forma de mostrar aos governantes que não estamos satisfeitos com as 'reformas' recentes”
Foto: Mídia Ninja. 
Por Caroline Oliveira, André Zanardo e Daniel Caseiro, no Justificando

“Idiotas úteis” e “massa de manobra”. Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) se referiu aos manifestantes que protestaram nesta quarta-feira (15), em cerca de 200 cidades do País, contra o contingenciamento de recursos destinados à educação brasileira. No total, o bloqueio é de R$ 1,7 bilhão num rol de 63 universidades e dos 38 institutos federais de ensino. Segundo o ministro da Educação Abraham Weintraub, a medida foi aplicada sobre gastos não obrigatórios, tais como água, luz, terceirizados, obras, equipamentos e realização de pesquisas. Assistência estudantil e pagamento de salários e aposentadorias não sofreram impacto.
Desde o início do mandato de Bolsonaro, há quatro meses e meio, mudanças na rotina de professores e estudantes têm ocorrido, conforme relatado ao Justificando por manifestantes durante o ato em São Paulo. Tatiana Amorim, 39, professora do primeiro ao quarto ano do ensino fundamental da rede pública, afirmou que “a situação do dia a dia está piorando recentemente”. “A gente já trabalha numa situação sucateada, com uma quantidade de alunos muito grande em sala de aula. Tem escolas, como CEUS (Centros Educacionais Unificados), que passaram de 60 funcionários de limpeza para 14. A escola já sofre com falta de papel higiênico, falta de lixo nos banheiros”, diz Amorim.
Tais mudanças de rotina não se restringem à rede pública de ensino. J.S., 37, professor de sociologia em um dos colégios particulares mais tradicionais de São Paulo, relata uma grande diferença na liberdade dos professores em sala de aula. “Outro dia, estávamos discutindo o conceito de ética segundo Kant e um aluno perguntou se uma determinada atitude do presidente era ética ou não. Tive medo de responder”, relata, explicando que todos os professores foram orientados pela diretoria a não discutir política em sala aula. “Acabei respondendo porque foi o aluno quem trouxe o assunto”, conta o professor. J.S., que pediu que nem ele nem o colégio onde trabalha fossem identificados, confessa que, mais do que uma eventual retaliação por parte da diretoria, teme a reclamações dos pais dos alunos. “Quase todos os meus alunos são filhos de uma elite econômica que votou em peso no atual presidente. Eles não gostam de ter suas opiniões desautorizadas”, conclui.
As mudanças também foram sentidas pela professora do Ensino Médio Nadijane Paula. Nesses quatro meses e meio de mandato de Bolsonaro, Paula afirma que não é possível tratar alguns assuntos dentro da sala de aula “porque os alunos acham que se trata de doutrinação ideológica. Então a gente fica com receio do que tratar e a forma que os alunos irão compreender”. Para ela, a mídia tem um peso muito maior do que o professor. Não tem como ficar 45 minutos falando sobre conceitos filosóficos e o aluno achar que queremos mudar a mentalidade dele, de vida, contra o governo, ou coisa do tipo”. No entanto, a educação não foi a única pauta retratada nas manifestações de ontem. Ainda que em peso menor, os manifestantes também se posicionaram contra a Reforma da Previdência e contra o governo Bolsonaro em si. “Eu estou aqui porque acredito que a paralisação é uma forma de mostrar aos governantes que não estamos satisfeitos com as reformas recentes”.
Andreza Baião, 19, estudante de ciências sociais da PUC-Campinas, relatou que após a eleição de Bolsonaro, assuntos até então intocáveis pelos alunos em sala de aula começaram a surgir. “Eu vejo isto na minha sala, às vezes sentimos a necessidade de parar a matéria e discutir alguns assuntos que se tornaram essenciais.” Bolsista, Baião tem medo de perder a bolsa e precisar deixar a graduação de lado.
As colegas de curso de Andreza Baião, Paula Xavier e Marina Macedo, disseram que a principal mudança nos últimos meses se deu nos relacionamentos com os amigos e na relação entre professor e aluno. Para Xavier, 18, “as pessoas perderam o medo de agredir umas às outras, elas se espelham no presidente deles. Os alunos passaram a se impor muito mais sobre os professores. Agressões verbais e físicas começaram a acontecer nas salas de aula”. Segundo Macedo, 19, “quem já era amigo e tinha o mesmo pensamento se aproximou mais, e quem tinha pensamento diferente se afastou. Nós sentimos muito uma polarização”.
Esse sentimento de intolerância também foi sentido pela professora de psicologia e colunista da Folha de S. Paulo Vera Iaconelli. “Tem uma intolerância no ar que está afetando muito as pessoas: o clima de resolver os problemas na base do tiro. É a loucura generalizada, é uma visão não inclusiva da sociedade brasileira.” Na mesma linha, o professor e pesquisador Fernando Catalan, afirma que, nesse clima de intolerância, deixou de “bater de frente” com os amigos bolsonaristas. “É um equívoco histórico e tenho certeza que eles reconhecerão isso mais pra frente. Eles vão reconhecer que votaram mal por causa de ódio e desse antipetismo generalizado. É lógico que o PT pavimentou o caminho para essa gente, não tem como negar alguns casos de corrupção, a condução da economia foi desastrosa, mas mesmo assim eu ainda acho que o ódio não é o melhor conselheiro”.
Apesar da multiplicidade de críticas ao governo, o contingenciamento de 30% dos recursos da educação foi a principal pauta entre os manifestantes, dominando os cartazes e gritos de ordem durante o ato. Para Eliseu Guilherme, 20, estudante de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), este é apenas o primeiro corte. “Acho que os efeitos piores estão por vir ainda, por isso a importância desse movimento desde já, para não deixar a coisa piorar, para marcar o movimento popular e estudantil.” No ambiente da universidade, Guilherme relata que percebeu uma mudança entre os alunos e professores. “A gente sente que tem aquela preocupação com o futuro da educação. Esse governo só está no começo”.
A preocupação com o futuro é também o que motivou Henrique Vital, 19, a comparecer ao ato. “Nunca tinha ido em manifestação política, essa foi a primeira”, conta Henrique que atualmente faz cursinho pré-vestibular. “Quero ser engenheiro. Vou prestar engenharia de petróleo, um curso que só é oferecido em universidade pública”, disse o estudante, explicando que vem de uma família “sem dinheiro” e onde “ninguém tem diploma”. “Entrar em uma universidade pública é minha única chance de continuar estudando”.  

sábado, 11 de maio de 2019

Dossiê: Violência em contexto escolar e escola em contexto violento


Este dossiê reúne trabalhos que se debruçaram sobre a questão e buscaram avançar em uma análise mais atenta sobre as conexões da violência dentro e fora das escolas


Dossiê: Violência em contexto escolar e escola em contexto violento

Apresentação por Valéria Cristina de Oliveira e Flávia Pereira Xavier 

A segurança pública, por sua vez, não experimentou tantos avanços já consolidados enquanto política pública como a educação. Os indicadores de violência demonstram oscilações pontuais, mas, de uma maneira geral o país permanece entre aqueles com os maiores índices de criminalidade no mundo. Do ponto de vista da gestão, possivelmente, o maior investimento na consolidação e análise de dados oficiais foi um dos ganhos da área nos anos 2000. Com mais dados, a pesquisa também avançou. Por um lado, por meio do estudo dos condicionantes e do perfil da violência e dos crimes praticados no país, com a análise de suas principais instituições, como polícias e prisões. Por outro lado, pelo investimento na caracterização dos territórios onde a violência é um problema público de destaque.
Fazendo a ligação entre esses dois campos está o tema da violência em contexto escolar. Ele ganha cada vez mais espaço como objeto de intervenção e pesquisa por ser apontado como um dos empecilhos à melhoria dos resultados escolares, ao mesmo tempo em que é visto como resultado da interação da escola com a violência do contexto em que ela, seus alunos e sua equipe pedagógica estão inseridos.
De fato, não é possível assumir que a escola se mantenha alheia à violência e a outros fenômenos sociais que se desenrolam no seu entorno e nos bairros que moram seus alunos. Talvez por isso, as fragilidades dos sistemas públicos de ensino sejam frequentemente apontadas pelos profissionais de segurança pública como uma das raízes da violência. Ao mesmo tempo em que os educadores apontam a violência dentro e fora da escola como um dos empecilhos contemporâneos para o desempenho da atividade docente. Porém, tais afirmações se mantêm na superfície do problema e não são efetivas em apontar novos caminhos para políticas públicas de uma ou outra área. A ciência, por sua vez, pode oferecer alguma contribuição à medida em que toma os meandros da relação entre escola e violências como objeto de estudo.
Nesse sentido, como sugere Ruotti (2010), parece-nos que o debate sobre violência em contexto escolar tem sido conduzido a partir de dois eixos estruturadores. O primeiro deles parte das relações e práticas violentas dentro das escolas como resultado da ampliação do acesso à educação que no Brasil ocorre nos anos de 1990. Em complementaridade, com maior vigor nos anos 2000, o segundo eixo busca esclarecer os processos de interpenetração da violência extramuros no contexto escolar (ZALUAR; RIBEIRO, 2009; KOSLINSKI; ALVES, 2012; ALVES et al, 2015; RIBEIRO; KAZTMAN, 2008).
Na primeira vertente temos avançado em direção a compreender os efeitos da democratização do acesso à educação formal como um ponto de inflexão na trajetória dos sistemas de ensino no mundo (DAYRELL, 2007). A partir do momento em que o acesso à escola não se restringe mais a uma parcela pequena e mais abastada da população, maior a diversidade nesses espaços e, por consequência, mais frequentes os conflitos entre diferentes culturas e visões de mundo (VAN ZANTEN, 2000).
Por outro lado, principalmente em países como o Brasil, onde os mercados ilegais de armas e drogas interagem com o Estado gerando mais violência, principalmente, em periferias urbanas, a agenda de pesquisa sobre os efeitos contextuais sobre a escola tem se consolidado cada vez mais. A violência do entorno é entendida como fator a alterar as trajetórias escolares dos estudantes, pelo grande poder de atração das atividades criminosas, inclusive como fonte de renda (BITTAR, 2015) e como uma das causas para a grande rotatividade de professores em escolas que recebem os rótulos de “violentas”, “difíceis”, “complicadas” (ALVES et al, 2015).
Este dossiê, “Violência em contexto escolar e escola em contexto violento” reúne trabalhos que se debruçaram sobre a questão e buscaram avançar em direção a uma análise mais atenta sobre as conexões da violência dentro e fora das escolas sobre o fazer pedagógico. Pesquisadores dedicados aos estudos sobre educação, violência e segurança pública colaboram neste número com trabalhos de inegável qualidade que buscam descrever e, porque não, apontar direcionamentos, para a pesquisa e a intervenção orientada para mediar os efeitos negativos da violência sobre a vida escolar, principalmente, de crianças e adolescentes.
Esse conjunto de textos se insere no campo de estudos sobre violência escolar no Brasil dando sequência ao que poderíamos chamar de uma terceira onda de trabalhos. Na sequência do que apontou Marília Spósito Pontes (2001), os primeiros textos sobre o tema surgem na esteira da democratização, ainda nos anos 80. Há escassez de registros sobre os casos, mas já existe uma demanda por melhorias estruturais nas escolas, principalmente as de periferia. Assim, enquanto a violência escolar torna-se para o senso comum sinônimo de depredação, vandalismo e falta de vigilância, os poucos trabalhos publicados nas áreas dedicavam-se a investigar os efeitos dessa maior vigilância sobre outras formas de violência como as agressões (GUIMARÃES, 1984).
Nos anos 90, houve crescimento dos levantamentos quantitativos em estabelecimentos de ensino no país, alguns com o apoio de organismos internacionais e universidades (WAISELFISZ, 1998). Os trabalhos publicados no período se beneficiam disso para a investigação de temas ligados à juventude, violência interpessoal e as relações dessas com seu território.
Com os anos 2000 vieram a consolidação dos surveys, orientados para a investigação da violência escolar (ABRAMOVAY, 2002) e das práticas de avaliação em larga escala para a Educação Básica (CRESPO et al, 2000). Os dados disponibilizados pelos questionários contextuais aplicados a professores e diretores das escolas brasileiras tornaram-se uma outra fonte sólida de informações, entre outras coisas, sobre as violências ocorridas no espaço escolar. A partir daí as análises quantitativas se tornaram mais completas com o uso de modelos estatísticos que buscaram estimar os efeitos da violência sobre o desempenho acadêmico e outros resultados escolares.
A concepção de que há pluralidade de violências, advinda dos estudos de pesquisadores como Charlot (2002) e Debarbieux (2001), ampara o fenômeno que observamos hoje, com o florescimento de estudos que chamam atenção sobre fenômenos como o racismo, o machismo, a homofobia e, de maneira mais ampla, o bullying, em contexto escolar. São trabalhos que associam violência a resultados escolares, ensejando a discussão sobre a violência como reforço das desigualdades de oportunidades nas escolas. Argumenta-se que essa relação se dê por meio da associação entre juventude, pobreza e violências, o que impacta, entre outras coisas, a atratividade dessas escolas e as expectativas dos professores sobre os alunos, limitando as oportunidades de aprendizado para aqueles estudantes naquelas escolas. A percepção de membros da comunidade a respeito da escola como um todo, dos alunos, professores e direção pode informar sobre o modo como fenômenos tais quais a violência e as vulnerabilidades sociais e econômicas dos seus alunos e entorno afetam o processo de ensino-aprendizagem, conectando a discussão sobre violência a conceitos mais próximos da literatura sobre educação, como a noção de clima escolar (RUTTER et al, 2008; MORTIMORE et al, 2008; LEE, 2008; ANDRADE, 2008).
O clima escolar é um conceito plural que ganha destaque na pesquisa sobre educação nos anos 70 e adere bem à discussão sobre efeito-escola na medida em que busca caracterizar as unidades de ensino em função de aspectos que podem favorecer ou se tornar empecilho para o ensino e a aprendizagem. Essa caracterização se constitui, entre outras coisas, por variações quanto à ênfase em aspectos mais subjetivos ou aqueles da gestão escolar, como a organização e a disciplina (BROOKE; SOARES, 2008; CANDIAN; REZENDE, 2014; CUNHA, 2014).
Finalmente, a partir de meados da primeira década dos anos 2000 a discussão sobre a relação entre escola, educação e cidade ganha destaque e permanece, até hoje, como um dos principais temas. A segregação urbana (RIBEIRO; KAZTMAN, 2008), as periferias violentas (ZALUAR; RIBEIRO, 2009), as trajetórias criminais em interação com a escola (BITTAR, 2015) são apenas alguns dos temas que investigam a associação entre espaço, escola e violências no Brasil e, que, certamente, inspiram este Dossiê.
A julgar pela relevância do assunto, a chamada de trabalhos para este dossiê foi tão bem-sucedida que renderá a publicação de dois números da Revista Brasileira de Segurança Pública. Neste primeiro volume estão presentes cinco vigorosos trabalhos acerca da violência escolar e seus contextos. Os textos são apresentados de maneira a, inicialmente, oferecer um panorama sobre os efeitos da violência em contexto escolar sobre o que acontece dentro da escola, para, em seguida, discutir a interação dessa violência com aquela que se dá fora do espaço físico da instituição.
O primeiro artigo, “Fatores associados ao atraso escolar: uma análise sob a ótica da violência”, de Samanda Rosa, Marco França e Gustavo Frio, utiliza os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) realizada em 2015 mensurar e discutir o modo como a violência escolar e doméstica a que estão submetidos os estudantes estão associadas ao atraso escolar. A análise empírica indica consistentes evidências dessa relação, mesmo quando são observadas diferentes formas de violência.
A contribuição de Joebson Santos, Rubens Silva e Flávia Fernandes no artigo intitulado “Influência da violência dentro e fora da escola na proficiência escolar dos alunos da cidade do Recife” é estimar a proficiência dos estudantes do 6º ano a partir de dados de vitimização dentro da escola aliados a estatísticas criminais do entorno. Os autores também utilizam dados primários, porém, aqui, por meio de projeto da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), contam com informações sobre violência em contexto escolar e dados próprios de desempenho coletados com instrumento de avaliação externa de habilidades cognitivas.
“A violência na análise do contexto das escolas públicas: evidências da rede estadual de ensino de Minas Gerais” também se destaca por sua estratégia metodológica para caracterizar a vizinhança dos estabelecimentos de ensino. André Couto e José Francisco Soares utilizam os registros oficiais de ocorrências criminais para contextualizar a violência no entorno das escolas estaduais mineiras. Dessa forma, avaliam as correlações desta violência externas com características escolares como a complexidade da gestão, a formação docente e o nível socioeconômico dos alunos.
Seguindo outro caminho e, coincidentemente, para o mesmo estado, Mina Gerais, o trabalho de Victor Ferreira e Evandro Teixeira aplica a análise de painel para esclarecer efeitos de resultados escolares (distorção idade-série) sobre os indicadores municipais de criminalidade. Por meio do trabalho empírico construído para a elaboração do texto “Impacto da distorção idade-série sobre a criminalidade em Minas Gerais” os autores fazem uma importante contribuição para a verificação da hipótese (conhecida do senso comum) de que as deficiências no sistema educacional impactam a violência, principalmente, a chamada violência urbana.
E, encerrando a série de trabalhos deste primeiro número do dossiê, temos a instigante provocação que suscita o texto “A violência no campo: representações sociais de futuros professores campesinos” de autoria de Luiz Ribeiro e Maria Isabel Antunes-Rocha.
O trabalho discute a violência e a educação no campo, temas que poucas vezes estiveram juntos compondo um objeto de pesquisa. Trata-se de uma análise qualitativa de entrevistas com educadores que são também estudantes do curso de Licenciatura em Educação do Campo da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (LECampo/FaE/UFMG). A análise de conteúdo identifica as representações sociais destes atores e o modo como a violência que afeta a sua rotina e a de seus estudantes extrapola aquela usualmente percebida quando observamos o contexto escolar em áreas urbanas.
Para introduzir este rico material, construído com a colaboração de tantos parceiros, este dossiê se inicia com uma entrevista com a professora e pesquisadora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), Miriam Abramovay, uma das principais pesquisadoras do tema da violência escolar no Brasil. Sua contribuição para a área se dá por meio da consolidação da prática de pesquisas com integração de diferentes metodologias a fim de levantar o máximo de informações sobre as experiências de violência vividas pelos estudantes nas escolas brasileiras. Mais recentemente, ela se ocupa, entre outras coisas, da elaboração de materiais para a formação de professores sobre o assunto, o que, aliado à sua experiência, faz com que tenha muito a dizer a respeito dos rumos das políticas públicas para prevenção e enfrentamento da violência em contexto escolar no Brasil. Esse e outros assuntos compõem a entrevista realizada pela pesquisadora Luiza M. Bastos com a participação dessas organizadoras.






sábado, 27 de abril de 2019

Bolsonaro: projeto neocolonial, olavismo e desprezo à educação, por Roberto Bitencourt




Jair Bolsonaro e seu ministro da Educação, Abraham Weintrab, demonstram grande hostilidade ao conhecimento das Ciências Humanas, particularmente, com a Filosofia e a Sociologia

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Bolsonaro, o projeto neocolonial e o desprezo pela educação

Por Roberto Bitencourt da Silva

As recentes declarações do presidente Jair Bolsonaro e do seu ministro da Educação, Abraham Weintrab, demonstram grande hostilidade do grupo político no poder em relação às áreas de conhecimento das Ciências Humanas, particularmente, como Bolsonaro deixou claro, com a Filosofia e a Sociologia.
Segundo o reacionário e ultraentreguista presidente, tratam-se de investimentos inócuos, canalizados para campos de estudo que não “respeitariam o dinheiro do contribuinte”. De acordo com o ministro, o dinheiro público deve ser destinado a faculdades que gerem retorno de fato, como enfermagem, veterinária, engenharia, medicina.
A princípio, se pode argumentar que essa indisposição com a Filosofia se deve a motivo bastante elementar: a turma do governo federal, seus adeptos na sociedade e aliados políticos, têm verdadeiro horror do saber. Amor hedonista à vulgaridade e ao dinheiro. Conhecimento “cansa”, “é chato”, “inútil”. Impossível digerir.
Em relação à Sociologia, bastaria lembrar do pai da disciplina, o francês Émile Durkheim. Toda a sua obra destacou o condicionamento dos indivíduos por forças coletivas, sociais, externas. Um dos pressupostos, diga-se, mais básicos da matéria de Durkheim.
Crítico ácido do individualismo liberal, esse traço da perspectiva do francês ainda guarda matiz canônico no tipo de pensamento formulado pelos estudos sociológicos. Desse modo, para agentes políticos imersos no liberalismo mais vulgar e rastaquera, que a tudo atribui às escolhas dos indivíduos, é claro, impensável lidar bem com a Sociologia.
Para quem não tem qualquer proposta de geração de emprego e só age em função de alternativas que promovem recessão e amplo desemprego, enorme precarização do trabalho, a cantilena do empreendedorismo da turma no poder não tem como ser conciliada com a Sociologia: “A sociedade não existe, só indivíduos”, diria dona Thatcher. Os bolsonaristas batem palma de pé para a rainha do neoliberalismo/neocolonialismo.
Não existem fatores, influências sociais que regulem as escolhas e os destinos das pessoas, é o que sugere o atomismo individualista do bolsonarismo. Mas, os “desígnios de Deus são tudo”, na fórmula (pseudo)religiosa também apropriada pelo bolsonarismo. Miséria campeando, dificuldades mil na vida, tudo a ser superado por uma “aposta em Cristo” – pobre Jesus… – e na crença motivadora do além. Para esse tipo de visão a Sociologia é descartável. E incomoda.
Todavia, tudo isso é muito técnico. Em verdade, o governo Bolsonaro não pretende deixar de investir nas áreas de Ciências Humanas para privilegiar as áreas Biomédica e Tecnológica. Isso é conversa furada. Apoiou o ex-presidente golpista, Michel Temer, na PEC do teto dos gastos públicos, que restringe os investimentos em educação por 20 anos. Bolsonaro detesta a universidade pública e a educação, como um todo. O que não deixa de manifestar alinhamento com o seu projeto de conversão do Brasil em colônia dos EUA. Senão, vejamos.
O conhecimento é holístico e, direta ou indiretamente, os peculiares saberes se entrecruzam, se retroalimentam e dialogam. A produção efetiva do conhecimento, da pesquisa, não consegue se limitar, a ferro e fogo, a objetos de estudo e fenômenos sociais ou naturais delimitados pelas fronteiras das disciplinas.
Por exemplo: uma fera na área de Informática, como tantas meninas e tantos garotos que têm por aí, precisaria ter noções e capacidade de pesquisa em outras áreas para elaborar um game. Demandaria informações e dados outros obtidos em outras áreas, de sorte a construir narrativas do jogo, disponibilizar inúmeras possibilidades e opções de gestos e escolhas para um jogador. Isso requer sensibilidade e subjetividade que não se encerra na área propriamente técnico-científica aplicada.
Inventividade, inovação e criatividade demandam e implicam um comportamento, uma habilidade e uma curiosidade, uma vontade de saber, uma abertura para além do umbigo do campo específico de atuação e conhecimento.
Bolsonaro, pois, não irá investir mais em outras áreas. Como deixou claro em outra oportunidade, o vulgar e ultraentreguista presidente tem em vista uma educação voltada a oferecer a capacidade de leitura, escrita e de “fazer contas” associada a um “ofício”.
Isto é, nada mais, nada menos, que uma perspectiva educacional remota, velhíssima, sobretudo reservada para a formação dos/as filhos/as das classes trabalhadoras, populares e de frações importantes dos estratos médios: a do ensino primário articulado ao saber rudimentar de algum ofício operacional. Esse é o alvo, de fato, para a educação brasileira.
Contudo, Bolsonaro não peca por incoerência. Na esteira do projeto defendido pela oligarquia financeira estrangeira e pelo capital internacional, assim como preconizado, descaradamente, pelas classes dominantes domésticas – homogeneizadas por um padrão de aliadas sabujas e dóceis do capital estrangeiro –, projeto de rebaixamento do perfil da economia brasileira a um status neocolonial, um projeto que alçou voo após o golpe de 2016, o presidente assume abertamente estar a seu serviço.
Um projeto neocolonial despudorado e repugnante. Economia injustificada, miserável, ampla e crescentemente desnacionalizada, orientada pela atividade primário-exportadora (“Agro é pop”, recordam-se?). Típico “lumpen-desenvolvimento”, segundo a oportuna e esclarecedora categoria descritiva do economista Samir Amin.
De modo que, colônia não cria. Não inventa. Colônia não pensa. Não imagina. Colônia tem à mão, única e exclusivamente, trabalho bruto, rudimentar e meramente operacional. Outros que pensem e dirijam a colônia. Uma colônia dispensa educação mais densa. É refratária à produção do conhecimento. Detesta engenho criativo e pensamento crítico. Internalizar o domínio tecnológico básico e aplicado? Nem pensar. Todo produto, técnica, saber ou equipamento mais elaborado, claro, é importado do olimpo metropolitano.
Sejamos francos: ou teremos um País soberano e uma educação adensada ou teremos Bolsonaro – ou qualquer personagem equivalente a personificar a destruição colonial da Pátria. O atual e desqualificado presidente é uma antítese de qualquer coisa que simbolize soberania, identidade, criação, autoestima e vida nacional.
Roberto Bitencourt da Silva – cientista político e historiador.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A lição de “mercado”. 1.200 professores demitidos e recontratados “mais barato”

estaciodemite
A reforma trabalhista de Michel Temer , que até empresários estão criticando pela confusão jurídica que está causando em quem quer agir de boa-fé,  produziu hoje, segundo a coluna de Lauro Jardim, um absurdo que ela está causanda e ainda irá causar.
A Universidade Estácio de Sá, uma das maiores do Rio, anunciou que vai demitir 1.200 professores.
Demiti-los-á, na linguagem temerista, para, em seguida, recontratá-los, ganhando menos, naturalmente.A razão de demissão, segundo a própria instituição é a de que ” ganhavam uma remuneração acima do mercado”.
Se a mesma pessoa é demitida e recontratada para fazer o mesmo trabalho, com a mesma qualificação, está-se diante de uma redução, na prática, de salário, apenas camuflada como um novo contrato.
E a irredutibilidade dos salários é, simplesmente, proibida pela Constituição Brasileira.
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
VI – irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo;
A primeira ação que se apresentar contra esta monstruosidade, salvo se cair na mão de um juiz escravocrata, vai obter liminar proibindo-a, até  porque há jurisprudência farta afirmando que “nem a lei poderá autorizar a redução salarial”.
O caso, porém tem um efeito didático. Boa parte da classe média que bateu panelas, achou que a cassação dos direitos trabalhistas era “só para peão”.
Não é, e se não for duramente travada pela Justiça do Trabalho, vai se espalhar sobre os assalariados de classe média.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Quem bate em professor e estudante merece ser presidente?

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Se havia um projeto presidencial 'Alckmin 2018', ele acabou na tarde da quinta-feira, dia 03 de dezembro de 2015, quando um policial militar de São Paulo agrediu, com o punho cerrado, um estudante secundarista, como se pretendesse levar a nocaute o jovem que protestava pelo direito de ter uma educação pública de qualidade; se o paranaense Beto Richa era o governador tucano que batia em professores, Alckmin conseguiu ir além: é o governador que bate em alunos; não por acaso, a Folha de S. Paulo desta sexta-feira indica que sua aprovação despencou vinte pontos e é mais baixa da história; nem o recuo na 'reorganização educacional', nem um improvável pedido de desculpas poderão transformar Alckmin num candidato viável

Do SP 247 Até recentemente, aliados do governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, diziam que a candidatura presidencial pelo PSDB em 2018 cairia naturalmente no seu colo, quase que por gravidade. Bastaria ficar quieto e deixar que o senador Aécio Neves (PSDB-MG), um mau perdedor que ameaça a democracia brasileira, prosseguisse com suas trapalhadas, no seu ímpeto golpista.
Por isso mesmo, Alckmin manteve um diálogo construtivo com a presidente Dilma Rousseff e jamais comprou abertamente a tese do impeachment. Aos poucos, ele vinha amarrando alianças dentro do PSDB, como com o governador Marconi Perillo, de Goiás, e com outros partidos, como o PSB.
No entanto, o projeto Alckmin dependia também de que ele não cometesse erros. Especialmente, que não cometesse erros tão grotescos como a guerra inútil e já perdida que ele próprio criou com estudantes secundaristas, ao decidir fechar 93 escolas em seu projeto de 'reorganização educacional'.
Numa resistência histórica, os alunos ocuparam mais de 100 escolas e, como Alckmin não se dispôs a dialogar, os protestos migraram para as ruas. A imagem que simboliza a luta estudantil foi captada por Newton Menezes, da Agência Futura Press, e, nela, um policial militar, com os punhos cerrados, agride com um soco no rosto um estudante, como se pretendesse levá-lo a nocaute num ringue de boxe.
A imagem, publicada na capa do jornal Estado de S. Paulo, estará inscrita para sempre na biografia de Alckmin. Se o paranaense Beto Richa era o governador tucano que batia em professores, Alckmin conseguiu ir além. É o governador tucano que bate em alunos. Ou seja, que violenta o futuro.
Não por acaso, esta sexta-feira traz também uma pesquisa Datafolha que revela um quadro desolador para o governador. Sua aprovação caiu vinte pontos e é a mais baixa da história. Se um ano atrás 48% o consideravam ótimo ou bom, hoje são apenas 28%. Menos do que os 30% que consideram sua administração ruim ou péssima.
Alcklmin ainda não repreendeu a Polícia Militar, não pediu desculpas aos estudantes, nem reviu sua reorganização escolar. Mas mesmo que o fizesse, nada seria capaz de ressuscitar seu projeto presidencial de 2018.