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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Globo pagou propina pela Copa de 2026: o que revela o livro que a emissora esconde dos brasileiros. Por Joaquim de Carvalho


Do DCM:

Os Marinho no esquema de corrupção que explora uma paixão
O livro sobre a corrupção no mundo do futebol profissional, “Cartão Vermelho — Como os EUA revelaram o maior escândalo mundial do futebol”, de Ken Besinger, cita a Globo diretamente por envolvimento no pagamento de propina.

A Globo comprou os direitos de publicação do livro no Brasil em 2015, quando ele ainda estava sendo escrito, mas até hoje não o tirou da gaveta.

O livro faz sucesso em todo o mundo — em Portugal, está esgotado — e a única explicação para essa atitude da emissora é: quer sonegar do público brasileiro as informações apresentadas no livro.

DCM adquiriu a versão em inglês e constatou que há uma referência incômoda para a emissora, na verdade a imputação de um crime, o de corrupção.

Na página 291, está escrito:

Depois de uma hora, Burzaco voltou ao tribunal e rapidamente voltou às manchetes internacionais com seu relato de como a Torneos, junto com a gigante de mídia mexicana Televisa e a emissora brasileira Globo, pagou US $ 15 milhões em propinas a um alto funcionário da FIFA em troca dos direitos de transmissão para TV das Copas do Mundo de 2026 e 2030.

Nesse trecho, um dos quatro em que a Globo é citada, Ken Besinger descreve o julgamento dos dirigentes esportivos, como José Maria Marin, acusados de corrupção no futebol.

Alejandro Burzaco era executivo da Torneos y Competencias, uma empresa argentina que se associou a J Hawilla (já falecido), ex-funcionário da Globo e que foi dono de quatro afiliadas da Globo no interior do Estado de São Paulo.

Hawilla ocupa várias páginas do livro, em que é contado como se corrompeu e, depois, como, arrependido, passou a colaborar com as autoridades americanas.

Quando José Hawilla era um jovem e ansioso repórter esportivo, agarrado a um microfone e transmissor volumosos e competindo nos bastidores dos jogos de futebol brasileiros da segunda divisão no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, o negócio do futebol era um assunto simples.

As equipes vendiam ingressos e os proprietários dos estádios alugavam espaço em alguns outdoors para empresas locais, além de cobrar das estações de rádio que usavam uma cabine de imprensa. Não havia o conceito de uma emissora exclusiva e, para competições importantes, meia dúzia ou mais de estações de rádio poderiam competir pelos ouvintes.

Nos anos 70, lembra Ken Besinger, Hawilla era diretor do Departamento de Esportes da Globo, “a emissora mais importante do Brasil”.

Mas, depois de ser demitido por apoiar uma greve de jornalistas esportivos, Hawilla decidiu que queria mais segurança financeira e, em 1980, comprou a Traffic Assessoria e Comunicações, uma pequena empresa de São Paulo que vendia publicidade em pontos de ônibus.

Àquela altura, Hawilla passara mais de vinte anos no futebol e sabia que o esporte, do ponto de vista comercial, era muito mal administrado. O Brasil era a maior força que o esporte já tinha conhecido, vencedor de três Copas do Mundo, e seus torcedores eram monomaníacos, pensando quase sempre só em suas equipes.

Ken Besinger conta que Havilla começou a comprar e vender direitos de transmissão, ao mesmo tempo em que atuou para melhorar a qualidade do que era mostrado na TV, com mais câmeras e sinais de qualidade.

Muitas pessoas, em vez de irem aos estádios, começaram a ver os jogos em casa. À medida que o negócio cresceu, também aumentou o valor da propina.

Eram os clubes e as federações que perdiam.

Ken Besinger e seu livro
“Como em qualquer negócio, os lucros dependiam de pagar o mínimo possível pelos bens que eles compravam e revendiam, e a melhor maneira de garantir que o custo dos direitos sobre o futebol permanecesse abaixo do valor de mercado era impedir a concorrência”, escreveu Besinger.

Nesse ponto, seu relato é feito com base nas declarações de Chuck Blazer, que foi secretário geral da Concacaf, a confederação de futebol das Américas do Norte e Central e Caribe, e depois se tornou delator do caso Fifa.

Blazer contou que as empresas de marketing esportivo sistematicamente subornavam as autoridades do futebol para manter os preços baixos e não vender seus direitos a mais ninguém. Um trecho do livro:

Os subornos vinham cada vez que um contrato era negociado, ou estendido, e ocasionalmente até mesmo antes de uma negociação, apenas para garantir que as coisas corressem conforme o esperado. Às vezes, os funcionários exigiam os pagamentos; outras vezes as empresas de marketing esportivo as ofereciam. De qualquer maneira, o entendimento era o mesmo: nós pagamos a você embaixo da mesa, e em troca você nos dá um contrato exclusivo e em condições amigáveis pelos direitos. Enquanto a imprensa esportiva agonizava sobre cada desenvolvimento político que surgiu da sede da Fifa em Zurique, centenas, se não milhares, de oficiais de futebol de todo o mundo recebiam subornos e propinas para os direitos televisivos e de marketing com pouco ou nenhum escrutínio.

Esse esquema milionário e ilegal permitiu que muitas pessoas enriquecessem, mas o esporte permanecesse pobre, e não houvesse recursos para o desenvolvimento do futebol na base. “Literalmente, faltava bola para crianças”, afirmou

A comparação de dois casos de aquisição de direitos de transmissão explica a discrepância. Para a realização de sua copa regional em 2011, chamada de Copa de Ouro, a Concacaf vendeu os direitos diretamente aos patrocinadores e alcançou a receita de US $ 31 milhões.

Na mesma época, tendo a Traffic de Hawilla como intermediária, a Conmebol, responsável pelo futebol na América do Sul, ficou com US $ 18 milhões pela Copa América, apesar de contar com estrelas do futebol muito mais conhecidas do que na região da Concacaf.

Mas o que saiu dos cofres das emissoras como a Globo foi muito mais, e debitado da conta dos patrocinadores. A diferença ficou nos labirintos de empresas usados para escoar o dinheiro da corrupção.

Na versão da Globo, ela não sabia do esquema de corrupção e repete a ladainha de que, em uma auditoria interna, constatou que não houve pagamento de suborno.

“O Grupo Globo reitera o que disse em nota: afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Em suas amplas investigações internas, desde que o Caso Fifa veio a público há mais de dois anos, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos”, afirma em uma das ocasiões em que foi solicitada a dar explicações.

Ken Besinger não aprofunda a participação da Globo no esquema de corrupção. A citação mais forte aparece apenas no último capítulo.

Seu livro-reportagem tem como base o processo na justiça americana, em que José Maria Marín foi condenado a 4 anos de prisão, teve US $ 3,35 milhões confiscados e pagou multa de US $ 1,2 milhão.

Se Ken Besinger fizesse um livro exclusivo sobre a participação da Globo nos esquemas de corrupção, certamente teria muito mais a contar.

A parceria da Globo com os cartolas corruptos do futebol é de longa data.

Em 1989, quando assumiu a presidência da CBF, Ricardo Teixeira foi entrevistado por Marcelo Resende, numa reportagem do Jornal da Globo, e disse que um de seus objetivos na administração seria “a volta da seriedade e da administração participativa”.

Ou seja, ele se apresentava como o homem que colocaria ordem no lupanário. Palavras vazias.

Doze anos depois, Teixeira era o personagem central de um Globo Repórter, em que aparecia com patrimônio incompatível com a renda e empresas no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas.

Também com a apresentação de Marcelo Resende, a Globo acusava Teixeira de tentar esconder algo com a manutenção de empresas offshore.

Globo e Ricardo Teixeira fizeram as pazes e, depois, foi a vez da Globo aparecer no paraíso fiscal, sem que o presidente da CBF tivesse qualquer envolvimento direto com a denúncia.

A Globo tinha aberto uma empresa de fachada no paraíso fiscal, a Empire, para sonegar impostos do Brasil, para aquisição dos direitos de transmissão da Copa de 2002.

Por esse mesmo contrato, foi citada em uma investigação na Suíça sobre corrupção e lavagem de dinheiro.

Na época, dirigentes da Fifa usavam a intermediária ISL (que mais tarde quebraria) para que emissoras como a Globo depositassem a propina.

Em 2005, dois executivos da emissora foram ouvidos por carta rogatória, através do Supremo Tribunal Federal (STF).

Um deles é Marcelo Campos Pinto, que, oficialmente, se afastou da emissora em 2017, quando foi citado no caso do suborno em parceria com a Torneos e a Televisa.

Ricardo Teixeira, quando presidia a CBF, deixou escapar em uma reportagem para a revista Piauí no ano de 2011 que recebia tratamento dócil do jornalismo da Globo.

A repórter, Daniela Pinheiro, comprovou.

Em maio daquele ano, quatro dias antes da eleição na Fifa, Teixeira foi entrevistado e não ouviu nenhuma pergunta sobre corrupção e suborno, já naquela época assuntos presentes no noticiário.

No livro sobre a investigação realizada pelos Estados Unidos sobre corrupção na Fifa, o autor Ken Besinger publica uma declaração atribuída ao delator Blazer:

O futebol, disse ele, é povoado por dois tipos de pessoas: aqueles que aceitam subornos e aqueles que pagam subornos.

Pelos fartura de evidência, não há dúvida de a Globo está em uma das pontas.


* * *

Perguntas que não querem calar: será que a Globo, ao comprar os direitos de publicação do livro no Brasil, esperava algum tratamento preferencial? Se não, por que não publicaram o livro ainda?

Veja o documentário que eu apresentei, com reportagens realizadas nas Ilhas Virgens Britânicas, o paraíso fiscal que a Globo usou para sonegar impostos do Brasil.



Joaquim de Carvalho
No DCM

domingo, 19 de novembro de 2017

Fernando Brito: Folha entra no escândalo Globo-Fifa. Vai só cumprir tabela?


"Espera-se que seja, ao menos na imprensa – já que o valoroso Ministério Público, até agora, não demonstrou interesse pelo assunto -, o início de uma processo de apuração dos fatos que – sabidos por todos – não são publicados por ninguém. Duvidoso, porém, que isso aconteça. A Folha, nos assuntos envolvendo denúncias de ilegalidades na Globo, costuma “cumprir tabela”, como se diz no futebol: publica uma vez e o assunto desaparece quase que por completo, como aconteceu no famoso caso do processo por sonegação que “desapareceu” da Receita Federal." - Fernando Brito

Do Tijolaço:


marcelo
Uma semana depois do escândalo estourar nos Estados Unidos, o caso das propinas pagas pela Globo pela exclusividade de direitos de transmissão de torneios de futebol internacionais ganhou hoje seu primeiro desdobramento – tímido – com amatéria que Sérgio Rangel publica na editoria de Esportes da Folha, com um resumo do perfil e das ações de Marcelo Campos Pinto, durante duas décadas o dirigente da emissora responsável pelos negócios esportivos.
Como executivo, se transformou no principal pagador do esporte brasileiro e passou a ser reverenciado por cartolas e homens de negócios.
Espera-se que seja, ao menos na imprensa – já que o valoroso Ministério Público, até agora, não demonstrou interesse pelo assunto -, o início de uma processo de apuração dos fatos que – sabidos por todos – não são publicados por ninguém.
Duvidoso, porém, que isso aconteça. A Folha, nos assuntos envolvendo denúncias de ilegalidades na Globo, costuma “cumprir tabela”, como se diz no futebol: publica uma vez e o assunto desaparece quase que por completo, como aconteceu no famoso caso do processo por sonegação que “desapareceu” da Receita Federal.
A falta de apetite pela verdade, nestes casos, contrasta com a voracidade com que se entregam aos escândalos na esfera política, como evidência do moralismo seletivo que aplicam. E não se diga que são negócios meramente privados, porque a Globo é uma concessão pública, tanto quanto as linhas de ônibus do senhor Jacob Barata Filho.
O temor reverencial à Globo, porém, vai do Oiapoque ao Chui, com exceções que se conta nos dedos.
A Globo arroga-se o direito de dizer que basta a sua “ampla investigação interna” não ter apurado nada e diz estar  “à disposição  das autoridades americanas”.
A primeira parte de suas afirmações é risível, porque um diretor nunca movimentaria R$ 50 milhões (em apenas um dos negócios) em propinas para obter vantagens para a emissora sem o aval de seus donos.
A segunda parte da defesa da Globo, porém, é verdadeira. É das “autoridades americanas” que se coloca à disposição. Das brasileiras, não é preciso, são elas que estão à disposição da Globo.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Xadrez do CBF, FIFA e a Globo faz a diferença na Justiça, por Luís Nassif



"Antes da Lava Jato e das jornadas de junho de 2013, já havia um acordo tácito entre a imprensa - Globo à frente - e procuradores. Matérias penais sempre renderam leitura e audiência. A mídia ia atrás dos escândalos investigados, selecionava alguns e lhes dava visibilidade. Sua participação era duplamente vantajosa para o procurador contemplado. Dando visibilidade ao processo, reduzia as resistências dos juízes. E elevava o procurador, ainda que provisoriamente, ao status de celebridade. Cunhou-se uma expressão no MPF: só vai para frente processos que a mídia bate bumbo."  - Luis Nassif
Peça 1 - as relações históricas com o MPF
Antes da Lava Jato e das jornadas de junho de 2013, já havia um acordo tácito entre a imprensa - Globo à frente - e procuradores.
Matérias penais sempre renderam leitura e audiência. A mídia ia atrás dos escândalos investigados, selecionava alguns e lhes dava visibilidade. Sua participação era duplamente vantajosa para o procurador contemplado. Dando visibilidade ao processo, reduzia as resistências dos juízes. E elevava o procurador, ainda que provisoriamente, ao status de celebridade.
Cunhou-se uma expressão no MPF: só vai para frente processos que a mídia bate bumbo.
Nas décadas 1990 e 2.000 a parceria produziu vários episódios de repercussão e algumas injustiças flagrantes, como o episódio do hoje desembargador Ali Mazloum.
No início do Twitter, era notável a quantidade de procuradores que colocava no perfil uma foto com um microfone da Globonews, como sinal de status, confirmando o extraordinário poder de persuasão dos holofotes da mídia.
Com o tempo, essa parceria foi institucionalizada. Os procuradores passaram a receber aulas de midia training - mais focadas em ensinar como poderiam impressionar o repórter e arrancar uma manchete, do que em discorrer sobre a missão do Ministério Público.
Gradativamente, o uso do cachimbo passou a entortar a boca do MPF. Ao se preocupar em atender às demandas da mídia, o treinamento ia amoldando sua forma de atuação àquilo que fosse mais atraente para os jornais. Um número cada vez maior de procuradores passou a buscar o endosso da mídia para seus processos.
Essa aproximação se ampliou com o endosso da Globo a prêmios como o Innovare – por si, uma iniciativa relevante – e “Faz a Diferença” - uma tentativa canhestra, provinciana (e eficiente) de cooptar pessoas através da lisonja.
No "mensalão" a parceria se consolidou.
O MPF descobre que, dando foco na aliança com a mídia, poderia passar do estágio das cooperações pontuais para uma parceria capaz de torna-lo um poder de fato, fugindo das limitações nem sempre legítimas impostas pelo Judiciário e Executivo.
Mundialmente, já estava em andamento a crise das instituições, atropeladas pela nova ordem midiática, com a velha mídia ou através das redes sociais.
A manipulação não veio de jovens procuradores deslumbrados, mas do cerne da organização.
 As figuras referenciais do MPF, aliás, nos devem explicações sobre essa primeira incursão no ativismo político, que se baseou em falsificação de provas - o tal desvio da Visanet que nunca houve - para tentar derrubar o governo.
Essa falsificação passou por dois PGRs – Antônio Fernando de Souza e Roberto Gurgel -, um ex-procurador – Joaquim Barbosa – e um grupo de procuradores de ponta atuando nos grupos de trabalho.
Barbosa escandalizou-se com os abusos do impeachment. Mas cabe a ele o duvidoso mérito de ter inaugurado a manipulação dos processos para fins políticos e de autopromoção.
A trajetória do Procurador Geral Antônio Fernando de Souza, aposentando-se e ganhando um megacontrato da Brasil Telecom de Daniel Dantas - a quem ele poupou na denúncia -, sem nenhuma reação da corporação, já era um indício veemente de que alguma coisa estranha ocorria no âmbito do MPF.  Tudo pelo poder passou a ser a bandeira.
O clima de catarse, proporcionado pela aliança com a mídia, contra um alvo fixo - o governo do PT - abriu um leque de possibilidades inéditas para a corporação. Gradativamente trocou a velha senhora, a Constituição, pelo deslumbramento com o novo mundo que se abria, ofertado pelo Mefistófeles do Jardim Botânico.
Quando eclodiram os movimentos de rua de junho de 2013, a parceria foi formalizada. A Globo montou uma campanha contra a PEC 37 - que ninguém sabia direito o que era, mas sabia que era de interesse do MPF. Quando veio a Lava Jato, assumiu as redes da corporação.

Peça 2 - o novo padrão de parceria


Com a Lava Jato consolida-se definitivamente o novo padrão de parceria. E o MPF se torna um instrumento da Globo, conduzido pela cenoura e o chicote. Bastava dar foco nas investigações de seu interesse, e jogar no limbo as investigações que não interessavam, para tornar o MPF um instrumento dócil de seus objetivos políticos.
O caso Rodrigo De Grandis é exemplar. Há indícios veementes de que o atraso na liberação de provas para o MP suíço visou blindar políticos paulistas envolvidos com os escândalos da Alstom.
Cobrado pelos suíços, o Ministério da Justiça solicitou diversas vezes os documentos, o que afasta definitivamente a hipótese de que a não entrega foi fruto de um esquecimento pontual da parte dele. Bastou a mídia tirar foco das investigações para o procurador ser inocentado.
A parceria consolidou-se com um padrão cômodo de acolhimento de denúncias por parte do MPF. Só é aceito como denúncia o que parte dos seus aliados da mídia. Denúncias de outras fontes, ainda que bem fundamentadas, são ignoradas.
Esse mesmo padrão viciado – embora menos óbvio – ocorreu com grupos jornalísticos de outros países. A ponto de os grandes escândalos recentes – do assédio sexual em Hollywood aos escândalos dos grupos de mídia com a FIFA – serem levantados por sites alternativos, como o BuzzFeedd e Intercept, bancado por bilionários do setor de tecnologia visando quebrar os tabus na cobertura da mídia tradicional.
No Brasil, essa estratégia, de só aceitar denúncias vindas da velha mídia, gerou o estilo viciado de investigações, com todo o sistema de investigação subordinado ao que é acordado pela Globo com o MPF e, subsidiariamente, com a Polícia Federal.
A maior prova dessa parceria foi a mudança da linha de cobertura do Jornal Nacional.
Dia após dia, passou a ser dominada pela cobertura policial-jurídica, de difícil compreensão pelo público mais amplo, mas essencial para o controle e direcionamento das ações do MPF.
Sacrificou-se a audiência em favor de um protagonismo político explícito, investindo na parceria com o MPF.

Peça 3 - as interferências diretas


O episódio da delação da JBS foi o corolário dessa atuação. Ocorreu dias depois do Ministério Público espanhol denunciar Ricardo Teixeira por corrupção na venda dos direitos de transmissão da Copa Brasil - da qual a única compradora foi a Globo.
Ou seja, um escândalo brasileiro, com personagens brasileiros, ocorrido em território brasileiro, e desvendado pelo Ministério Público espanhol. Outra parte do escândalo levantado pelo FBI. Uma terceira parte pelo Ministério Público suíço. E nada pelo Ministério Público Federal do Brasil.
Poucos dias antes, vazou a informação de que o Ministério Público espanhol tinha levantado a prova decisiva da corrupção da Globo: a compra dos direitos de transmissão da Copa Brasil, sem o uso de “laranjas”. Três pessoas sabiam disso na Globo: João Roberto Marinho, Ali Kamel e o vice-presidente de Relações Institucionais.
A saída foi o pacto de sangue com o Procurador Geral da República, dando endosso total à delação da JBS, levando a Globo a romper com a organização criminosa que ela levou ao poder.
No mesmo dia da conversa, o material foi encaminhado para o colunista Lauro Jardim. E à noite recebeu cobertura intensa e desorganizada, porque improvisada, do Jornal Nacional.
Quando teve início a campanha para a eleição da lista tríplice, dos candidatos a PGR, a Globo atuou como cabo eleitoral explícito de Rodrigo Janot, sendo cúmplice em várias armações contra Raquel Dodge. Como na reunião do Conselho Superior do Ministério Público, na qual Janot se baseou em interpretações falsas para acusar Dodge de pretender prejudicar a Lava Jato. E a manipulação foi endossada nas publicações da Globo.

Peça 4 - a organização criminosa


Têm-se, portanto, um poder de Estado sendo conduzido por uma organização privada, a Globo. Aí se entra em um terreno pantanoso: como se comporta essa organização na sua atividade corporativa?
É importante a diferença entre as palavras e os atos.
O gráfico abaixo foi produzido pelo relatório alternativo da CPI do Futebol, uma das muitas CPIs que apontavam explicitamente o envolvimento da Globo na corrupção esportiva. E que não deram em nada.
Ele se refere à quinta forma de corrupção na FIFA e na CBF, onde o ponto central, de onde fluíam os recursos para toda a cadeira criminosa, eram os patrocínios adquiridos pelas emissoras de TV.
Têm-se aí todos os ingredientes de uma associação criminosa. Conforme descrito pela CPI:
O núcleo diretivo da CBF está conformado nos seus principais dirigentes (presidente, vice-presidentes e diretores) que, com unidade de desígnios, executam planos criminosos, objetivando o enriquecimento ilícito.
O núcleo empresarial está assentado nas empresas contratualmente ajustadas com a entidade nos acordos comerciais, com combinação de preços para pagamento de vantagens indevidas.
O núcleo financeiro comporta determinadas empresas responsáveis pela transferência dos ativos ilícitos aos dirigentes e funcionários da CBF, além daquelas interpostas nos acordos comerciais celebrados entre a CBF e as contratadas (núcleo empresarial), cabendo as postadas de permeio o repasse de parte das comissões ao núcleo diretivo, como forma de propinas.
O esquema montado pela organização criminosa extremamente sofisticado e de difícil elucidação. Por isso, a atuação do FBI na prisão do ex-presidente JOSÉ MARIA MARIN, na Suíça, por crimes relacionados ao FIFA CASE, mesmo caso em que RICARDO TERRA TEIXEIRA, MARCO POLO DEL NERO e outros brasileiros foram denunciados pelo Departamento de Justiça Americano.
O papel da Globo não foi apenas o de provedora inicial dos recursos distribuídos pelas diversas peças da engrenagem criminosa. Foi fundamental também para a blindagem política de Ricardo Teixeira.
Na CPI da Nike, em 2001, o Senado Federal levantou 13 imputações de crime a Teixeira. Nada resultou no âmbito do Ministério Público Federal. Houve outras CPIs, outras descobertas retumbantes, enterradas sob o silêncio do MPF e da mídia.
Houve apenas um início de investigação, que parou em uma juíza da 1a instância.

Peça 5 – a hora da verdade


Dia desses saiu a notícia, sem muito alarde, de que o ex-procurador Marcelo Miller vibrou quando a Lava Jato chegou em Aécio Neves. Miller não era um petista, longe disso; nem um anti-aecista. Mas estava nítido, para parte relevante da corporação, que a blindagem de Aécio tornava o MPF uma instituição de segunda categoria, porque restrita a um espaço delimitado.
Pelas redes sociais foi visível o alívio de procuradores, tirando de si (na opinião deles) a carga de terem espaço para agir apenas contra o PT.
Agora, se chegou à hora da verdade em relação à Globo.
As evidências de crime são enormes, e não apenas na confissão do lobista Alejandro Burzaco, à corte de Nova York. Há os inquéritos na Espanha, batendo direto na Copa Brasil. Há as investigações na Suíça.
E há uma nova Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, no maior desafio que um PGR enfrentou, provavelmente desde a Constituição: provar que o MPF é um poder de Estado de fato, e que não existem intocáveis na República.
São tão abundantes as informações que jorram do exterior, que não será possível esconder o fato debaixo do tapete, como foi feito em outros tempos com tantos inquéritos.
Do desafio de investigar a Globo se saberá se o MPF se assumirá como poder de Estado, ou se continuará atrelado a uma organização criminosa.
2017-11-15 23:43:12 -0200

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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A “propina que não houve” da Globo (e Televisa) foi de R$ 50 mi, diz delator



Torneos
Agora há pouco no UOL, o repórter James Cimino revela que o advogado Alejandro Burzaco relatou à justiça dos Estados Unidos que a Globo e a Televisa (do México) teriam, em março de 2013, pago US$ 15 milhões (cerca de R$ 50 milhões em cotação atual) em propinas à Torneos y Competencias (TyC), para serem repassados a Julio Grondona, vice-presidente executivo e Presidente Financeiro da FIFA, morto em julho de 2014.
O pagamento seria parte da venda de direitos de transmissão das copas de 2026 e 2030. Os direitos eram vendidos à subsidiária holandesa da  “Torneos”, a T & T Sports Marketing BV, em sociedade com a Traffic – do empresário e sócio da Globo em uma emissora, J. Háwilla –  que os revendia à Globo e à emissora mexicana, enviando dinheiro para uma conta no banco suíço Julius Baer – o mesmo que operou para Eduardo Cunha – destinada a Grondona.
Burzaco disse ainda que teve uma reunião com Marco Polo del Nero, atual presidente da CBF e procurado pela Interpol, José Maria Marin – preso nos EUA – e o próprio Háwilla, onde se reclamava do “o atraso do pagamento de propinas relacionadas à venda dos direitos de transmissão da Libertadores e Copa Sul-Americana”.
O colunista Rodrigo Mattos, também do UOL, reproduziu documentos que provam a existência de vínculos contratuais entre a Globo e a subsidiária holandesa da “Torneos”, empresa do delator, por  pelo menos 11 anos, de 2005 a 2016 .
Nada disso, claro conta das “exaustivas investigações” feitas pela própria Globo, que diz ser honestíssima baseada no argumento de que é honestíssima, ora, pois, pois.

Julgamento caso FIFA: Diretor da Globo Esporte fechou propinas pessoalmente. Reportagem de Patrícia Faerman


Jornal GGNA Rede Globo não apenas pagou propina diretamente pelos direitos de transmissão de jogos da FIFA no Brasil, como também o próprio diretor da Globo Esporte da época, Marcelo Campos Pinto, teria se encontrado, em 2012, com cartolas do esquema - Julio Humberto Grondona, José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Alejandro Burzaco - acertando o repasse de $ 600 mil a Marín e Del Nero.




A informação é do jornalista do BuzzFeed, Ken Bensinger, que acompanha de perto o julgamento sobre os escândalos envolvendo a corrupção internacional no futebol, que teve início nesta segunda-feira (13). Desde ontem, ele vem divulgando, ao vivo, pelas redes sociais, as acusações e as respostas das defesas no caso envolvendo cartolas brasileiros e de todo o mundo e como grandes redes de televisão fizeram parte dos esquemas, incluindo a Rede Globo.
 
O primeiro a ser chamado como testemunha de acusação no caso FIFA, neste segundo dia de audiências, foi Burzaco, empresário argentino da Torneos y Competencias (ex TyC) e o responsável por uma das maiores acusações envolvendo, desta vez diretamente, a Globo.
 
"A TV Globo é controlada por O Globo, a maior empresa de mídia brasileira. Televisa é um conglomerado de mídia mexicana enorme. Fox Sports é a emissora de esportes de Rupert Murdoch. Estas são empresas de pesos-pesados, sendo acusadas de um crime grave no Brooklyn hoje", informou Bensinger, na tarde de hoje.
 
 
"Burzaco é uma testemunha 'estrela' inicial para os EUA neste caso de corrupção do futebol. Ele foi CEO da Torneos de 2006 até 2015 e se declarou culpado no final de 2015 por conspiração para cometer fraude, lavagem de dinheiro e extorsão", iniciou explicando o jornalista.
 
De acordo com o repórter, que foi noticiando o caso pelo Twitter no mesmo momento em que a audiência ocorria, Burzaco confessou que propinas foram pagas, pelo menos, de 2010 a 2015, tornando-se uma testemunha contra os cartolas Juan Angel Napout, do Paraguai, Manuel Burga, do Peru, e José Maria Marin, do Brasil.
 
Por volta das 14h da tarde de hoje, Ken Bensinger publicou o tweet que chamou a maior atenção para a impresa que acompanhava o caso aqui no Brasil: "GRANDE NOTÍCIA DA FIFA da audiência de hoje: Alejandro Burzaco disse que a Fox Sports, a Televisa, a Media Pro, a TV Globo, a Fill Play e a Traffic, todas as emissoras pagaram propinas em troca de direitos [para a transmissão] do futebol". 
 
 
Em seguida, completou: "Burzaco, uma testemunha para o governo dos EUA, disse que sua empresa teve parceirias com todas estas companhias [que pagaram propinas pelos direitos de transmissão] e ele, pessoalmente, está ciente do suborno. Fez a ressalva de que o Grupo Clarín, da Argentina, não pagou subornos".
 
Nos comentários, o jornalista informou que a Fox Sports, uma das mais importantes empresas de mídia esportiva, está atualmente sendo processada em um tribunal federal em Miami, EUA, em caso civil separado, mas relacionado ao tema da corrupção no futebol. "Este é um grande negócio, envolvendo algumas das mais importantes empresas de mídia esportivas da América e, no caso da Fox, no mundo". 
 
Ressaltando o que havia acabado de informar no depoimento de acusação de Burzaco, repetiu: "testemunha num caso da FIFA disse que seis das maiores companhias de comunicação, incluindo a Fox Sports, pagaram subornos para os direitos de transmissão".
 
Narrou que o antigo diretor da Fox Pan American Sports assinou um contrato "não real", em março de 2008, com a Somerton Corporation, de propriedade de Jose Margulies, argentino radicado no Brasil, para cobrir o pagamento de $ 3,7 milhões em propinas pela T&T para os direitos de transmissão de dois torneios da CONMEMBOL. 
 
"Além de acusações de suborno do Fox Sports, Burzaco hoje disse que cinco outros canais pagos subornos, mas não ainda forneceu mais detalhes sobre qualquer um deles, incluindo O Globo ou Televisa. Fique atento"
 
 
"[Julio Humberto] Grondona recebeu 'tratamento presidencial' quando viajou para Assunção, para os eventos da CONMEBOL, viajando em jato privado, e sendo recebido por três sedãs Mercedes, com Nicolas Leoz e Eugenio Figueredo aguardando-o na pista. Sem controles aduaneiros ou imigração... E a CONMEBOL foi enfeitada com umas 40 bandeiras da argentina. Quando Ricardo Teixeira chegou, ele recebeu o mesmo tratamento, disse Burzaco".
 
Após anunciar uma sequência de acusações contra Julio Humberto Grondona, argentino que foi vice-presidente Executivo e Presidente Financeiro da FIFA até 2014, de que teria recebido US$ 600 mil por ano, propina que chegou a atingir US$ 1,2 milhões em 2012, afirmou: "Fãs do futebol brasileiro, não fiquem tristes. Tenho novas informações para vocês, também, sobre Ricardo Teixeira, o ex-presidente da Confederacão Brasileira de Futebol..."
 
"De acordo com Burzaco, Teixeira recebeu subornos da T&T para a Copa Libertadores e a Copa Sul Americana também. A partir de 2006, ele recebeu US$ 600 mil a cada ano".
 
O cartola brasileiro teria solicitado formas de pagamentos que foram considerados "estranhos" por diferentes hábitos bancários que envolviam destinos "exóticos" como o Oriente Médio, Ásia e Andorra, e receptores com nomes muito comuns em cada um dos países. As orientações vinham de Teixeira, de seu assistente e outras vezes de seu tio, Marco Antonio Teixeira. Em um desses pedidos, o prazo de envio expiraria em 48 horas.
 
Por volta das 16h30 de hoje, o repórter admitiu que "muitas pessoas querem mais notícias sobre subornos alegadamente pagos pela TV Globo do Brasil. Até agora, Burzaco não adicionou testemunho adicional sobre esse ponto. Fiquem atentos".
 
Ainda entre os furos de reportagem anunciados por Bensinger, foi o primeiro a noticiar que Burzaco disse ter pago $ 4 milhões em propina para Jorge Delhon e Pablo Paladino, do Futbol Para Todos, funcionários do governo argentino entre os anos de 2011 e 2014.
 
Já ao fim da audiência, o repórter da BuzzFeed trouxe mais notícias da Globo: "Em junho de 2012, Marcelo Campos Pinto, então chefe da Globo Esporte, encontrou-se em um restaurante com Grondona, Marin, Del Nero e Burzaco para discutir propinas para a Libertadores e torneios sul americanos.
 
 
 
"O restaurante chamava-se Tomo Uno, e todos na reunião, incluindo Campos Pinto, concordaram que o dinheiro que tinha sido arrecadado para Teixeira poderia ir aos seus sucessores na CBF e CONMEBOL, Jose Maria Marin e Marco Polo del Nero. Campos Pinto deixou a Globo Esportes no final de 2015", concluiu em um de suas últimas publicações do dia. O jornalista deve seguir as informações amanhã (15).