Para Le Monde, a impunidade de crimes no governo Bolsonaro é um dos fatores que levaram ao desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips
Bolsonaro, Bruno Pereira e Dom Phillips (Foto: REUTERS/Adriano Machado | Reprodução/TV Globo | Reprodução/Twitter)
RFI - O jornal francês Le Monde dedicou um editorial, publicado na segunda-feira (14), ao desaparecimento na Amazônia do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. O vespertino explica que esse episódio resume bem as diversas ameaças que enfrenta o “pulmão” do planeta e denuncia a visão “desenvolvimentista” de Jair Bolsonaro.
Le Monde explica que o desaparecimento acontece em um local que concentra “todos os males da Amazônia”: o Vale do Javari, uma região ameaçada por caçadores e pescadores ilegais, garimpeiros, agricultura agressiva e até por missionários evangélicos “decididos a converter a qualquer preço os últimos representantes dos povos isolados”. Sem esquecer o narcotráfico nessa parte do continente, que se tornou um centro por onde circula a cocaína vinda do Peru e da Colômbia com destino ao Brasil. Para o jornal, o Vale do Javari é “uma área de ilegalidade onde o crime prospera em todas as suas formas”.
“Essa situação crítica explica por que Phillips e Bruno Pereira, ambos experientes, correram o risco de ir até a região”, diz o vespertino. Nas palavras do jornal francês, os dois homens foram testemunhar a ameaça que paira sobre “esse paraíso perdido”.
Mas o editorial também fala da posição de Jair Bolsonaro, lembrando que a reação do chefe do Executivo foi bastante lenta antes de, finalmente, mobilizar as forças armadas. Além disso, o texto ressalta que, para o líder brasileiro, a prioridade na região sempre foi a extração das riquezas.
“Ele nunca negou sua visão sobre uma região que deve ser explorada sem piedade, custe o que custar para seus nativos ou nosso futuro climático”, constata o jornal, que critica o estilo “desenvolvimentista” do chefe de Estado. “Desde que ele assumiu o cargo, o desmatamento e a extração de ouro explodiram, e a monocultura da soja, sinônimo de empobrecimento dramático da terra, está corroendo a floresta”, aponta o texto.
“Jair Bolsonaro também cortou o orçamento das instituições responsáveis por garantir a proteção da natureza e das pessoas e permitiu que se instalasse um clima de total impunidade que pode explicar o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira”, acusa o editorial, antes de pedir que o presidente, com o fim do mandato que se aproxima, assuma a sua parte de responsabilidade no desastre que toma conta da região.
Vejam só, como um de tantos exemplos, uma nota do Exército de fevereiro último...
Então, como vocês podem ver, em apoio à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas o 4º Batalhão de Aviação mantinha, já há 6 dias, “SUAS AERONAVES” em busca de três caçadores desaparecidos uma semana antes.
Amigas, amigos. O Brasil dos militares e Bolsonaro não cabe no Tik Tok. Fujam, ou preparem-se para um textão.
O 4º Batalhão de Aviação do Exército fica no Amazonas. O comandante militar da Amazônia é o general Achilles Furlan Neto.
O Secretário de Segurança Pública do Amazonas é o general Carlos Alberto Mansur.
Mansur certamente conhece e não teria dificuldades para pedir ajuda ao colega Furlan.
O 4º Batalhão tem 12 helicópteros à disposição.
Por muitos dias, manchetes e entidades no Brasil e mundo gritaram, pedindo buscas por Bruno Pereira, o indigenista, e Dom Phillips, o jornalista, desaparecidos na selva.
Em vão. Só muitos dias depois se teria helicóptero.
O que Brasil e mundo receberam, a princípio, foram duas notas do Comando Militar da Amazônia.
Notas profundamente reveladoras da arrogância do Poder Militar que novamente tutela o Brasil.
Nas duas notas, notável a ausência dos nomes dos dois desaparecidos.
Na primeira nota, deboche público e farsa ao dizer que aguardavam “autorização superior” para iniciar as buscas.
Farsa porque o Exército tem poder de polícia nos 150 km da faixa de fronteira para dentro do Brasil.
Vejam só, como um de tantos exemplos, uma nota do Exército de fevereiro último...
Então, como vocês podem ver, em apoio à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas o 4º Batalhão de Aviação mantinha, já há 6 dias, “SUAS AERONAVES” em busca de três caçadores desaparecidos uma semana antes.
Outro singelo exemplo.
Em seu livro “Conversa com o Comandante”, o general Villas Bôas, então comandante do Exército, conta.
Durante uma operação em que ele participava, um helicóptero cruzou a selva amazônica e pousou para lhe entregar um pacote.
“Imaginei ser um documento… Era um revista Playboy”, revela o general.
Para deleite, prazer do seu chefe, ou para caçadores, um Exército lépido e fagueiro. Para caçados, só com “autorização superior”.
E tem mais. Na segunda nota de agora, anônimos os desaparecidos, mas um nome citado.
O nome, a marca da lancha do Exército que seria utilizada nas buscas: Guardian. Por coincidência, o nome do jornal onde trabalhava Dom Phillips.
Há anos, desde ainda o pré-golpe contra Dilma, tratamos do retorno da tutela militar no Brasil.
Movimentação essa que o coronel da reserva Marcelo Pimentel chama de “Partido Militar”.
De Natal, Rio Grande do Norte, o psicólogo Ananias Oliveira tem esmiuçado esse “partido” há tempos.
No comentário de hoje, de informações e fatos expostos por ambos separadamente, faço minhas palavras.
Desde o início e depois relatório da Comissão da Verdade, se acentua a escalada militar.
O general Sergio Etchegoyen, que depois Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI de Temer teve o pai, o general Leo, citado no relatório da Comissão da Verdade.
Por, descreve o relatório, envolvimento em ofensas aos direitos humanos durante a ditadura.
Sérgio Etchegoyen, de centenária família militar.
Temer recriou o GSI com Etchegoyen e abriu definitivamente as portas do Poder para a reascensão militar.
Desde o avô, Alcides, que, em 1926, tentou derrubar o presidente Washington Luís, os Etchegoyen envolvidos em golpes, sedições e tentativas.
Não por acaso, Sergio Etchegoyen foi consultado por Temer um ano antes de o vice trair Dilma.
Junto com Etchegoyen, na reunião em que foi feito o pedido de licença por parte de Temer para trair e golpear Dilma, estava o então comandante do Exército, general Villas Bôas.
O mesmo que ameaçaria o Supremo Tribunal Federal em dois atos.
Ameaças para, em resumo, levar à prisão e manter preso Lula.
Temer e Villas Bôas, em livros para a História, confessaram tais fatos.
Sergio Etchegoyen hoje é vice-presidente do conselho de administração da FSB, a maior agência de comunicação do país, que, portanto e para tanto, disputa licitações.
Inclusive do governo.
Na última sexta-feira, o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, em ofício, se queixou a Fachin, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
Disse que as Forças Armadas não se sentem “prestigiadas” pelo TSE.
Seria o caso de se perguntar: “Que cazzo as Forças Armadas têm a ver com eleições e urnas?”
Pela Constituição, nada. O fazem por ser o jogo deles em busca da manutenção do Poder.
Gerando neon e factoides para alimentar as redes e para assustar quem é assustável.
A 14 de agosto do ano passado, esse mesmo general Paulo Sérgio, hoje ministro da Defesa, então comandante do Exército, relançou a recandidatura de Bolsonaro à Presidência da República. Isso dentro da Academia Militar das Agulhas Negras, a AMAN.
E chamando Bolsonaro de “general”.
Não é nem preciso conhecer regulamentos do Exército ou a Lei 6.880/80, o Estatuto dos Militares.
Isso é flagrantemente ilegal. Portanto, crime.
É proibido até mesmo um simples adesivo de campanha nas instalações militares ou nos uniformes.
Quanto mais lançar a campanha de um candidato à presidência, como veremos.
Imaginem lançar a candidatura daquele que, segundo palavras do general-ditador Ernesto Geisel, foi um “mau militar”.
É impublicável o que ouvimos sobre o então tenente Bolsonaro eu e o documentarista Marcelo Monteiro numa conversa com o ex-ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves.
Anos antes, em 2014, nesta mesma AMAN, então dirigida pelo general Tomás Miguel Miné, foi lançada a candidatura de Bolsonaro.
Diante de cadetes que o aclamaram com os gritos de “líder”.
Vejam.
Tomás Miné, da turma AMAN 1981, depois seria chefe de gabinete do... Comandante do Exército, o já citado Villas Bôas.
Hoje o general Tomás está no Alto Comando. No páreo, na disputa para futuro Comandante do Exército.
O general dirigiu o Departamento de Educação e Cultura do Exército.
Que cuida da formação nas Academias e Escolas militares. Precisa desenhar?
Estes e tantos outros gestos e atos abrem espaço para jogarmos luz sobre como e onde os militares retomaram o Poder.
Sigamos o fio de Ananias Oliveira, em consonância com o que vem informando e detalhando o coronel da reserva Marcelo Pimentel.
Que há anos atravessa o cipoal, ou o deserto do noticiário, pregando: as gerações dos anos 70 da AMAN tomaram o Poder.
E, digo eu, Bolsonaro é o boneco dos ventríloquos.
A 3 de março de 2018, a primeira ameaça do general Villas Bôas, comandante do Exército, ao STF.
Segundo o próprio general revelaria em seu livro-depoimento, ameaça escrita com participação do Alto Comando do Exército.
Villas Bôas é da turma AMAN 1973. Ele é amigo de infância do general Sérgio Etchegoyen.
Aquele que no governo Temer recriou o GSI, Gabinete de Segurança Institucional.
Neste governo, uma filha de Villas Bôas, Adriana, teve cargo no ministério que foi de Damares.
Aquela que diz ter visto Jesus na goiabeira.
E Villas Bôas tem um cargo no gabinete do general Heleno, no GSI de Bolsonaro.
Sigamos...
General Juarez Aparecido de Paula Cunha, da AMAN de 1975. Presidia os Correios desde o governo Temer.
Juarez depôs no Tribunal de Honra que, em 1987/1988, considerou o então tenente Bolsonaro culpado.
Bolsonaro agora presidente se vingou, trocando Juarez na presidência dos Correios pelo general Floriano Peixoto (AMAN 1976).
General Carlos Alberto Neiva Barcellos (AMAN 1977).
Conselheiro militar na Suíça. Um filho, também militar, serviu como assessor técnico no GSI.
General Artur Costa Moura (AMAN 1978). Não teve cargo no governo, continua no Alto Comando.
General José Luiz Dias Freitas (AMAN 1979). Esteve no Alto Comando até o ano passado.
General Guilherme Cals Theophilo Oliveira, Cals com “l”, (AMAN 1976).
Foi candidato ao governo do Ceará em 2018.
E já foi secretário nacional de Segurança Pública.
O filho, também militar, era lotado no GSI até dezembro passado.
General César Augusto Nardi (AMAN 1979). Foi assessor de assuntos estratégicos do Ministério da Defesa.
General Cláudio Coscia Moura (AMAN 1978). Seguiu no Alto Comando.
General João Camilo Pires de Campos, da turma AMAN 1976).
É o atual secretário de Segurança de São Paulo. Desde 2019.
General Manoel Luiz Narvaz Pafiadache (AMAN 1976). Foi secretário da Saúde no Distrito Federal até a semana passada.
General Mauro Cesar Lourena Cid, conhecido como General Cid, (AMAN 1977). Coordenador do escritório da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos em Miami.
O filho do general, também militar, foi chefe dos ajudantes de ordens de Bolsonaro até maio. Com o celular, filmava atos e falas do presidente da República.
General Edson Pujol (AMAN de 1977). Foi comandante do Exército até 2021.
Pujol foi da mesma turma de Bolsonaro. Fizeram o mesmo curso de paraquedismo em 1977.
Informa o psicólogo Ananias Oliveira: o curso teve 30 cadetes. Seis deles, ou seja 20%, estão ou estiveram neste governo.
General Eduardo Pazuello (AMAN 1984). O célebre ex-ministro da Saúde.
O general da Pandemia. No Ministério da Saúde com ele, sete militares das Forças Especiais do Exército.
Pazuello agora é candidato a deputado federal no Rio de Janeiro.
General Carlos Alberto dos Santos Cruz (AMAN 1974, a mesma turma de Sérgio Etchegoyen).
Foi secretário nacional de Segurança no Ministério da Justiça, com Temer presidente.
Santos Cruz ajudou na elaboração do decreto de intervenção no Rio de Janeiro em 2018.
E depois foi ministro-chefe da Secretaria de Governo de Bolsonaro.
Santos Cruz agora se anuncia candidato a algum cargo eletivo. A saber.
E ele se declara um dissidente, assim como o general Rêgo Barros e, à boca mais ou menos pequena, o vice e general Mourão.
Amigas e amigos, desculpem a repetição tão insistente na definição “general” na ação “os generais que estão no poder”.
Sigamos.
General Fernando Azevedo e Silva (AMAN 1976). Ministro da Defesa entre 2019 e 2021.
Em tempos d’antanho, começo de carreira, o hoje general foi ajudante de ordens de Collor presidente.
Dias Toffoli o convidou, ou algo assim, ao general Fernando, para assessorá-lo quando presidiu o STF.
Em 2020, então ministro da Defesa, de helicóptero com Bolsonaro, o general sobrevoou manifestação que pedia golpe militar e AI-5.
General Luiz Eduardo Ramos (AMAN 1979). Foi ministro da Casa Civil e da Secretaria de Governo.
Agora é o secretário-geral da Presidência.
Ramos, como Rêgo Barros, Pazuello e Braga Netto, generais tornados ministros quando ainda estavam na ativa.
General Paulo Humberto de Oliveira (AMAN 1977). Presidente do Postalis, fundo de previdência privada dos Correios.
General Otávio do Rêgo Barros (AMAN 1981). Porta-voz do Exército por quatro anos. Foi assessor de Villas Bôas, comandante do Exército.
Ainda general na ativa, foi porta-voz da presidência de Bolsonaro. Hoje tem coluna no UOL.
Rêgo Barros é outro que se diz dissidente.
E tem quem creia em tais dissidências e dissidentes.
General Hamilton Mourão (AMAN 1975): vice-presidente da República, hoje pré-candidato ao Senado no Rio Grande do Sul.
Mourão é filho do também general Antônio Hamilton Mourão.
Que foi adido militar do Brasil nos Estados Unidos.
E o filho do filho, Antonio Hamilton, também Mourão, assessor especial da presidência do Banco do Brasil.
General Braga Netto (AMAN 1978). Foi interventor no Rio de Janeiro em 2018.
E então teve sob seu comando todos os serviços de informações das Forças Armadas e das Polícias.
Do Rio foi para o Alto Comando do Exército.
E dali, um pulo para a chefia da Casa Civil de Bolsonaro.
Isso, o digamos "convite", dois dias depois da morte, ou assassinato, do capitão Adriano da Nóbrega.
Aquele que foi chefe do Escritório do Crime, escritório de pistoleiros do Rio de Janeiro.
Braga Netto é um general que sabe como poucos o que foi e é o Rio de Janeiro das milícias e do crime organizado.
Braga Netto, que até há pouco foi o ministro da Defesa de Bolsonaro, é o segundo general candidato a vice de um capitão que, ainda tenente, foi tocado para fora do Exército.
Sobre o Brasil, a Amazônia e atentados aos Direitos Humanos, especialmente em relação a lideranças sociais e camponesas, Michele Bachelet, a alta comissária de Direitos Humanos da ONU, se manifestou na segunda-feira.
Se disse "alarmada com as ameaças" a ambientalistas e indígenas no Brasil.
Mas não são apenas ameaças, como as recentíssimas contra o líder camponês Erasmo Alves e 54 famílias do Lote 96, no Pará.
São assassinatos. Mais de 40 lideranças indígenas, camponesas e sociais assassinadas na era Bolsonaro. A contar infelizmente Bruno e Dom, 10 mortos desde o último janeiro.
Uma tomografia do Brasil de Bolsonaro & Militares ou de Militares & Bolsonaro.
Ordem e Progresso. Braço forte, Mão amiga. A Palavra Convence, o Exemplo Arrasta.
Sob o governo Bolsonaro esses grupos todos se sentiram livres para agir à luz do dia e se sentiram autorizados para alargar suas atividades criminosas.
O desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips reforça a evidência daquilo que já era perceptível: a soberania da Amazônia pertence à bandidagem. A rigor, o governo Bolsonaro delegou a soberania da região a um condomínio de grupos criminosos. Trata-se de narcotraficantes, traficantes da biodiversidade e de animais, garimpeiros ilegais, invasores de terras indígenas, contrabandistas de madeira e de metais preciosos, predadores e destruidores da floresta e uma série de outros criminosos afins.
Esses grupos se estruturam em organizações criminosas poderosas com ramificações internacionais, combinando uma série de atividades ilegais com atividades legais em países como França, Estados Unidos, Alemanha e por aí vai. Quer dizer: a soberania da Amazônia pertence ao crime organizado e a empresas que representam o capitalismo predatório.
Sob o governo Bolsonaro esses grupos todos se sentiram livres para agir à luz do dia e se sentiram autorizados para alargar suas atividades criminosas. O crescimento do desmatamento e dos incêndios é mera consequência desta liberdade para agir criminosamente em várias atividades, inclusive com o assassinato de líderes indígenas e daqueles que ousam denunciar esta violência contra os povos da região e o meio ambiente, como foi o caso de Bruno e de Dom Phillips.
O governo Bolsonaro agiu deliberadamente para entregar a Amazônia ao domínio do crime organizado: desmantelou os órgãos federais responsáveis pela fiscalização e preservação do meio ambiente e de combate ao crime. A reestruturação destrutiva do ICMBio, sua militarização e do IBAMA correspondeu à bandeirada de largada para que as florestas fossem devastadas e incendidas. A demissão do delegado Alexandre Saraiva da Superintendência da Polícia Federal do Amazonas foi a senha para que os criminosos de todo tipo se sentissem desonerados do medo de serem investigados e presos. Tiveram a certeza da omissão do Estado, pois o Estado brasileiro não se fazia mais presente na Amazônia.
A soberania não pode ser entendida como um conceito abstrato e nem como uma mera defesa de fronteiras. Até porque as fronteiras amazônicas são uma peneira arrombada para todo tipo de atividades ilícitas que destroem a soberania do Brasil e saqueiam suas riquezas.
A soberania precisa ser entendida como os fins do Estado, sacramentados na Constituição, e o conjunto de meios materiais e administrativos e as políticas públicas eficazes para fazer com que os fins sejam alcançados pela adequação dos meios.
Assim, não se garante a soberania através de mera proclamação dos fins. Ora, se o governo destrói os meios como IBAMA, ICMBio e Polícia Federal e pela inércia das Forças Armadas, então o governo está destruindo a soberania e delegando-a ao crime. A Constituição determina a preservação do meio ambiente e da Floresta Amazônica; a Constituição garante o direito à Terra às populações tradicionais e indígenas; a legislação estabelece a necessidade de concessão pública para a exploração e extração de minério e metais preciosos com autorização ambiental e outras exigências.
Se nada disso está sendo cumprido e as riquezas estão sendo saqueadas e levadas para o exterior, se os indígenas estão sendo dizimados e os povos tradicionais explorados e se o meio ambiente está sendo destruído, então não há soberania. Bolsonaro e alguns militares falam em soberania da Amazônia justamente para destruí-la, entregando nossas riquezas aos criminosos e aos estrangeiros.
Com o advento da globalização, de fato, a maior parte dos componentes das soberanias dos Estados Nacionais foi relativizada na medida em que as atividades estatais se tornaram interdependentes. Em que pese a onda nacionalista de extrema-direita, a tendência é a de que o caráter relativo e interdependente das soberanias se acentue no século XXI.
Jornal GGN produzirá documentário sobre esquemas da ultradireita mundial e ameaça eleitoral. Saiba aqui como apoiar
A humanidade tem em comum um gravíssimo problema que consiste no aquecimento global e na degradação ambiental. Problema que já vem causando grandes danos à humanidade e às outras espécies e que ameaça à própria existência das condições da vida no planeta. O Brasil, a exemplo de outros países, é signatário de vários documentos internacionais que sacramentam compromissos quanto à preservação do meio ambiente.
Na medida em que as metas e compromissos não estão sendo alcançados e que o mundo caminha a passos largos para o abismo, o desafio imediato consiste em construir mecanismos jurídicos e encontrar meios materiais para que haja uma crescente tutela internacional sobre bens ambientais cruciais para a preservação da vida no planeta. A floreta Amazônica é um desses bens. O Brasil tem a responsabilidade soberana principal de preservá-la, com a colaboração e a ajuda internacional. Mas o Brasil não tem a soberania para destruí-la, pois ela é um bem da humanidade. Essa tutela internacional deve se estender também sobre os principais países poluentes, pois eles não podem destruir condições ambientais adequadas à vida que são um bem que pertence a toda a humanidade.
A sociedade civil organizada, os movimentos sociais, os intelectuais e os ambientalistas precisam fazer uma pressão sobre os candidatos para que a pauta ambiental se torne um dos temas centrais das campanhas políticas. O tema ambiental deve ser o eixo articulador de um novo modelo de desenvolvimento, pois ele articula os temas dos direitos dos excluídos, da produção de alimentos e do combate à fome, de novos modelos de relações trabalhistas, da necessidade de novas políticas públicas urbanas e de habitação.
A continuada destruição da Amazônia terá impactos devastadores sobre os regimes de chuvas no centro-sul e no centro-oeste do Brasil. Terá impactos sobre a escassez de água e de alimentos. É preciso cobrar dos candidatos a todos os cargos, mas principalmente aos candidatos presidenciais, a apresentação de propostas claras quanto aos programas ambientais e de reconstrução e ampliação dos mecanismos de fiscalização e repressão aos crimes ambientais, especialmente aqueles que vêm sendo perpetrados na Amazônia.
É preciso estabelecer metas de desmatamento zero, de coibição de garimpo e extração de madeira ilegais, de desocupação de terra indígenas, de confisco de terras desmatas ilegalmente. É preciso restaurar a soberania do Estado e do povo brasileiro sobre a Amazônia, sua biodiversidade, suas águas, suas riquezas, garantindo o direito dos povos tradicionais e indígenas. Que o desaparecimento e o sacrifício de Bruno Pereira e de Dom Phillips não sejam em vão.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
No TVGGN Justiça de hoje, a pauta será o desaparecimento do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. Eles estavam recebendo ameaças de garimpeiros e madeireiros no Vale do Javari, no Amazonas, semanas antes. Lá, produziam conteúdo sobre exploração da Floresta Amazônica em territórios indígenas. Para falar desse assunto, serão dois convidados.
Alexandre Saraiva é delegado da Polícia Federal. No ano passado, ele foi afastado da Superintendência da PF no Amazonas após denunciar a participação do então Ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro e atual comentarista da Jovem Pan, Ricardo Salles, em um esquema de operações feitas por madeireiras ilegais na região amazônica. Saraiva acusou Salles de obstrução de investigação, advocacia administrativa e organização criminosa.
Também participa da conversa Carlos Travassos. Ele é ex-coordenador-geral dos Índios Isolados e de Contato Recente, da FUNAI, na qual trabalhou por nove anos. Atualmente, é consultor independente, desenvolvendo pesquisas e assessoria técnica na área de proteção e gestão territorial junto a organização dos Guardiões da Floresta, na Amazônia Maranhense, habitadas pelos grupos do povo Awá Guajá que vivem em isolamento.
O jornalista inglês Dom Philips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira desapareceram há mais de 24 horas entre a comunidade Ribeirinha São Rafael e Atalaia do Norte, no estado do Amazonas
O jornalista inglês Dom Philips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira desapareceram há mais de 24 horas entre a comunidade Ribeirinha São Rafael e Atalaia do Norte, no estado do Amazonas. O alerta foi dado pela Organização Indígena UNIVAJA. Os dois estavam a caminho de visitar a equipe de Vigilância Indígena, próxima ao Lago do Jaburu para que Philips pudesse conhecer o local e entrevistar indígenas.
Logo depois de dado o alarme do desaparecimento de Philips e Pereira, uma equipe de busca da UNIVAJA, formada por indígenas conhecedores da região, saiu de Atalaia, cobrindo o trecho que os dois supostamente teriam percorrido. Não encontraram nenhum vestígio.
Duas horas depois, outra equipe de busca saiu de Taguatinga, em uma embarcação mais robusta, retornando ao local onde deveriam ter saído. Nada foi encontrado.
A UNIVAJA informa que Bruno Pereira é pessoa experiente e conhecedor da região, tendo sido Coordenador Regional da Funai de Atalaia do Norte por anos. Ele e Philips viajavam em uma embarcação nova e com capacidade para viagens longas.
A entidade informa também que, na semana do desaparecimento, colaboradores confirmam que a equipe recebeu ameaças.
A UNIVAJA soltou nota informando o ocorrido e o jornal The Guardian soltou matéria alertando do sumiço de Philips e Pereira.
Da UNIVAJA
Assunto: Desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e jornalista Dom Phillips
A Coordenação da Organização Indígena UNIVAJA, em nome dos povos Marubo, Mayoruna (Matsés), Matis, Kanamary, Kulina-Pano, Korubo e Tsohom-Djapá e o Opi – Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato vêm a público informar que o indigenista Bruno Araújo Pereira, e o Jornalista Dom Phillips, de nacionalidade inglesa e correspondente do Jornal The Guardian, encontram-se desaparecidos, há mais de 24 horas, no trajeto entre a comunidade Ribeirinha São Rafael até a cidade de Atalaia do Norte, pontos de ida e ponto de retorno respectivamente, no estado do Amazonas.
Os dois se deslocaram com o objetivo de visitar a equipe de Vigilância Indígena que se encontra próxima a localidade chamada Lago do Jaburu (próxima da Base de Vigilância da FUNAI no rio Ituí), para que o jornalista visitasse o local e fizesse algumas entrevistas com os indígenas. Os dois chegaram no local de destino (Lago do Jaburu) no dia 03 de junho de 2022 às 19:25h. No dia 05/06 os dois retornaram logo cedo para a cidade de Atalaia do Norte, porém, antes pararam na comunidade São Rafael, visita previamente agendada, para que o indigenista Bruno Pereira fizesse uma reunião com o líder comunitário apelidado de “Churrasco”, com o objetivo de consolidar trabalhos conjuntos entre ribeirinhos e indígenas na vigilância do território bastante afetada pelas intensas invasões.
Pelo que consta nas informações trocadas, via Dispositivo de Comunicação Satelital SPOT, eles chegaram na comunidade São Rafael por volta das 06:00h, onde conversaram com a esposa do “Churrasco”, visto que este não estava na comunidade e depois partiram rumo a Atalaia do Norte, viagem que dura aproximadamente duas horas. Assim, deveriam ter chegado por volta de 08h/09h da manhã na cidade, o que não ocorreu.
Às 14h, saiu de Atalaia do Norte uma primeira equipe de busca da UNIVAJA, formada por indígenas extremamente conhecedores da região. A equipe cobriu o mesmo trecho que Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips supostamente teriam percorrido, percorrendo, inclusive, os “furos” do rio Itaquaí, mas nenhum vestígio foi encontrado. A última informação de avistamento deles é da comunidade São Gabriel – que fica abaixo da São Rafael – com relatos de que avistaram o barco passando em direção a Atalaia do Norte.
Às 16h, outra equipe de busca saiu de Tabatinga, em uma embarcação maior, retornando ao mesmo local, mas novamente nenhum vestígio foi localizado.
Ressalte-se que Bruno Pereira é pessoa experiente e profundo conhecedor da região, pois foi Coordenador Regional da Funai de Atalaia do Norte por anos. Os dois desaparecidos viajavam com uma embarcação nova, 40 HP, 70 litros de gasolina, o suficiente para a viagem e 07 tambores vazios de combustível.
Enfatizamos que na semana do desaparecimento, conforme relatos dos colaboradores da UNIVAJA, a equipe recebeu ameaças em campo. A ameaça não foi a primeira, outras já vinham sendo feitas a demais membros da equipe técnica da UNIVAJA, além de outros relatos já oficializados para a Policia Federal, ao Ministério Público Federal em Tabatinga, ao Conselho nacional de Direitos Humanos e ao Indigenous Peoples Rights International.