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domingo, 23 de fevereiro de 2020

Sobre a politização proto-fascista dos policiais (um diálogo com Bruno Torturra), por Luiz Eduardo Soares



A história do Brasil racista e classista tem sido escrita todos os dias, exaltada, celebrada e rememorizada, pela violência policial.

Sobre a politização dos policiais (um diálogo com Bruno Torturra)

por Luiz Eduardo Soares

em seu blog
A politização dos policiais não começou com Bolsonaro, nem se esgota entre os militares. Conheço muitos ultra-direitistas militantes nas polícias civis e federais. E não se trata apenas de afinidades eletivas entre espíritos conservadores e instituições que portam a marca histórica de culturas corporativas conservadoras. Há bem mais que isso e o que há não é óbvio. A rotina policial -e aqui não generalizo a análise, refiro-me apenas aos segmentos (e são numerosíssimos) infectados pelo bolsonarismo, em todo o país- põe em marcha uma vida de militância e ativismo, sem dizer seu nome. A prática policial desses segmentos corresponde a um verdadeiro ativismo político contínuo. Ela se dá sob a forma de reafirmação de um crivo de leitura da história, ideologicamente enviesado, que foi viabilizado (legitimado) pela continuidade institucional e valorativa das polícias, fruto da transição política negociada, sem ruptura, que prevaleceu no Brasil. Trata-se ao mesmo tempo de leitura do passado e construção do presente à sua imagem e semelhança. A história do Brasil racista e classista tem sido escrita todos os dias, exaltada, celebrada e rememorizada, pela violência policial. A história no que ela tem de essencial e inercial, como se fora menos um fluxo e mais uma condição ontológica reposta, reencenada, reinstalada. A prática desses segmentos policiais tem escrito e reescrito a história na pele, no corpo (e no espírito) dos escravos, no dorso da sociedade (dorso pobre e negro) -a imagem eu a devo a Kafka, em seu conto magnífico, Na Colônia Penal.
O que move os agentes policiais bolsonarizados (que já pressentiam Bolsonaro no lusco-fusco da democracia, já ansiavam pela era Bolsonaro, já preparavam o terreno para o advento do messias, já ensaiavam, diariamente, o novo sebastianismo como profetas da barbárie) não é a paixão pela ordem, a lei, nem o ardor corporativo. O que os motiva, essencialmente, embora as questões corporativistas, aliás justíssimas, aqueçam os sentidos e propulsionem as disposições, é outro fenômeno. Não é sequer o cumprimento do dever como vocação, embora também esse impulso esteja eventualmente presente. É, isto sim, a exaltação tribal da guerra. Real ou latente, a iminência da morte pulsa e se manifesta no sangue dos irmãos tombados no cumprimento da missão. Os irmãos abatidos enlaçam os membros da fratria. A iminência da morte confere coloração distinta aos contornos ordinários. Os sentimentos reduzem-se aos imperativos da sobrevivência: medo, ódio, a urgência da solução final. Há até mesmo prazer, a lubricidade da adrenalina, os sentidos fricionados pelo risco à flor da pele. O companheirismo na fratria bélica anula escrúpulos de consciência.
Por outro lado, e esse ponto é crucial, em momentos não bélicos, o que mobiliza é o ódio motivado pelo desafio do civil à autoridade, manifesto ou tácito. Trata-se de reação defensiva (insegurança, senso de inferioridade, impotência) ante a recusa do outro (o civil, o cidadão, o não-policial) a curvar-se face à auto-atribuição de autoridade. A arma e o uniforme, ou a carteira, deveriam bastar (supõem), mas há dúvidas e questionamentos por parte dos cidadãos. A dúvida do cidadão ecoa a dúvida e a insegurança dos agentes que não se reconhecem nas instituições nem nas leis, nem na República, seja como ideia, seja como valor e muito menos como prática -o cinismo mais cáustico prepondera, nenhum respeito à política, o sistema é rechaçado. Só podem crer em si mesmos, em seus colegas, em sua missão tal como a entendem e experimentam, auto-atribuída. É o exercício da força que confere poder aos agentes que só se identificam com o poder auto-conferido, ou seja, que emana da arma, da intimidação, da violência. O grupo é autorreferido, o agente ancora, solipsisticamente, em si mesmo e na fratria a autoridade da qual deriva a justificativa (o valor e a legitimidade) da própria autoridade. Sendo assim tão instável a autoridade, o que resta é a força, sem a qual nem poder esses grupos policiais mobilizariam. Sua patologia é a angústia que resulta do fato de que não se reconhecem, não se identificam, não valorizam nem prestam lealdade a leis, República, democracia, instituições, tampouco se vêem como prestadores de serviço à cidadania. A angústia que resulta do fato de que dependem de si mesmos para fundar sua autoridade, sabendo-se que a autoridade que exercem e que os constitui, subjetiva e objetivamente, apoia-se no constrangimento imposto pela intimidação, a força, a arma. Autoridade autorreferida é violência ilegítima, mesmo uniformizada. Mas deixa de sê-lo, quando as instituições abençoam esse processo de extravio institucional, e a sociedade, parte dela, aplude e enaltece os “heroísmos”.
Uma sociedade que tolera e convive pacificamente com os cantos guerreiros de policiais, entoados nas ruas da cidade, à luz do sol, já aninhou a serpente (“Homem de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”). Por isso, pela milionésima vez em décadas dedicadas ao tema, repito: a violência policial contra pobres e negros não é tema lateral. É absolutamente chave para a democracia. Não só por conta de direitos violados e vidas destruídas, mas também porque, na tolerância, na conivência, na cumplicidade prática dos poderes (governos, MP e Justiça) com execuções extra-judiciais perpetradas por policiais, está presente a consolidação gradual de um poder autorreferido que só se deixa guiar ou governar por si mesmo, ou seja, por quem encarna a própria serpente, de modo a ser aceito como sua cabeça. 
A cabeça é o que põe para fora, no mundo, em palavras e gestos, a brutalidade autorreferida, e esta é a lógica da milícia, esta é a política miliciana que conquistou o poder no Brasil. A cabeça deu alma ao corpo, retirou da sombra a própria abjeção. O poder na lógica miliciana é o que é porque pode, funda-se a si e em si mesmo, em seu exercício autóctone continuamente reproduzido, que não pode deixar de reproduzir-se sob pena de desmanchar no ar. A dinâmica da autorreferência -que exclui o Outro, a sociedade, os poderes plurais, as instituições, as regras e os limites- prescinde de justificativas, fundamentos, pressupostos. Trata a ciência com escárnio e o questionamento como desafio cuja resposta só pode ser a bala ou a difamação. Não há verdade e mentira nesse universo, nem qualquer instância externa à dinâmica da autorreprodução. Hoje, a lógica miliciana reina sobre nós, sob aplausos da FIESP e do mercado. E dos nefelibatas, que repetem como robôs: as instituições estão funcionando. Sim, como o ventilador a pilha que gira depois do apocalipse.

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terça-feira, 12 de março de 2019

Para Bolsonaro, dificultar aposentadoria de pobre é combater privilégios


Se regras mais duras de acesso à aposentadoria forem aprovadas, a crise econômica poderá se agravar ainda mais e o peso de tudo vai recair nas costas da classe trabalhadora brasileira, diz ex-ministro Berzoini


Foto: Reprodução
da Central Única dos Trabalhadores – CUT 
Para Bolsonaro, dificultar aposentadoria de pobre é combater privilégios
por Tatiana Melim
A proposta de reforma da Previdência de Jair Bolsonaro (PSL) não combate as desigualdades nem acaba com privilégios. O principal alvo da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 006/2019), a chamada PEC da reforma, são os trabalhadores e trabalhadoras da iniciativa privada que ganham menos, passam longos períodos desempregados ou com empregos precários, sem carteira assinada e, portanto, sem condições de contribuir com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Mais de 92% dos benefícios previdenciários pagos pelo governo são de até três salários mínimos (R$ 2.294,00) e 80% dos trabalhadores que se aposentam por idade ganham apenas um salário mínimo (R$ 998,00). A reforma de Bolsonaro quer obrigar esses trabalhadores a contribuírem mais cinco anos para receberem menos de aposentadoria.
Atualmente, os trabalhadores e trabalhadoras do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) podem optar por uma das duas formas de aposentadoria: por idade e por tempo de contribuição. A aposentadoria por idade exige 15 anos de contribuição e idade mínima de 60 anos (mulheres) e 65 anos (homens). O valor médio dos benefícios é de R$ 1.051,93.
Já a aposentadoria por tempo de contribuição não tem exigência de idade mínima. As mulheres precisam contribuir por 30 anos e os homens, 35 anos. É possível se aposentar também pela fórmula 86/96. O valor médio das aposentadorias nesse modelo, que alcança a população de renda um pouco mais alta e que consegue se manter em um emprego formal por mais tempo, é de R$ 2.264,74.
Para Bolsonaro, esses trabalhadores, que não chegam a receber o salário mínimo ideal calculado pelo Dieese para sustentar uma família de quatro pessoas (R$ 3.960,57), são considerados privilegiados. Por isso, ele quer acabar com a modalidade de aposentadoria por tempo de contribuição, aumentar o tempo mínimo de contribuição de 15 para 20 anos e estabelecer a idade mínima de 65 anos para os homens e 62 para as mulheres.
Se a proposta do governo for aprovada, o trabalhador que conseguir se aposentar pelas novas regras, só receberá 60% do valor do benefício. Para receber o valor integral, terá de contribuir por pelo menos 40 anos. Ou seja, será preciso contribuir por mais tempo para receber menos de aposentadoria.
Para o ex-ministro da Previdência Social do governo Lula, Ricardo Berzoini, se o Congresso aprovar a PEC da Reforma, a queda da cobertura previdenciária e o rebaixamento do valor dos benefícios podem causar sérios prejuízos para a economia, sobretudo dos municípios que dependem das aposentadorias para girar o comércio e a economia local.
“A crise econômica poderá se agravar mais e o peso de tudo recairá nas costas da classe trabalhadora brasileira”
– Ricardo Berzoini
Proposta não combate privilégios
O presidente da CUT, Vagner Freitas, critica o argumento do governo de que a imposição de idade mínima vai acabar com privilégios. Para ele, isso é um engodo para esconder o fato de que Bolsonaro não mexerá nos setores da sociedade que são verdadeiramente privilegiados.
“Não se combate privilégios impondo regras iguais para quem vive a desigualdade no mercado de trabalho, como as mulheres, os rurais, professores, e trabalhadores informais, que vivem em condições precárias. Isso é impor a injustiça e desigualdade como regra de acesso à aposentadoria”
– Vagner Freitas
A proposta, segundo Vagner, não faz nenhuma revisão dos privilégios de militares e de setores econômicos beneficiados por desonerações.
“Os ricos continuarão pagando pouco imposto e a reforma da Previdência afetará os trabalhadores, sobretudo os mais pobres, que terão a exigência de mais tempo de contribuição, com a redução nos valores dos benefícios”.
Estudo da assessoria parlamentar do PT no Congresso Nacional aponta que o déficit com os militares, que não foram incluídos na proposta, foi de R$ 43,9 bilhões em 2018, considerando reservas, reformas e pensões. Segundo o estudo, as desonerações, também citadas pelo presidente da CUT, alcançam 4% do PIB em 2019.
Vagner cita, ainda, que a proposta de Bolsonaro não prevê o combate aos sonegadores da Previdência. “São praticamente R$ 500 bilhões de perdas aos cofres públicos somente com sonegação de empresários”.
Trabalhadores jogados à miséria
Na avaliação de Berzoini, a proposta de reforma da Previdência de Bolsonaro exclui muita gente do sistema e coloca milhares de trabalhadores na pobreza.
“Não é uma questão de se aposentar mal, é uma questão de não conseguir se aposentar mesmo. A proposta pode excluir mais de 30% dos trabalhadores do sistema previdenciário que hoje têm dificuldade de comprovar 15 anos”.
Para o ex-ministro, milhares de pessoas seriam jogadas à condição de pobreza extrema e “muitos vão cair no BPC (Benefício de Prestação Continuada), que é um benefício assistencial para quem não tem condições dignas de sobrevivência”.
Pela proposta de Bolsonaro, os beneficiários do BPC também terão perdas. O valor do benefício cairia de um salário mínimo para R$ 400,00 e seria pago aos idosos em condição de miséria a partir dos 60 anos. Para receber o valor integral, o idoso terá de ter 70 anos, cinco anos a mais do que é exigido hoje (65 anos).
“Essa visão preconceituosa de quem vem do mercado financeiro, como é o caso do Guedes, de que pobre gera despesa para o Estado pode causar sérios impactos para a economia do país”, diz Berzoini se referindo ao banqueiro e ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes.
Reforma tributária
O ex-ministro da Previdência do governo Lula acredita que essa proposta de Bolsonaro representa, na verdade, uma reforma fiscal e não combate privilégios ou possíveis distorções existentes hoje no atual sistema.
O caminho, segundo Berzoini, é fazer uma reforma tributária, onde quem ganha mais paga mais e quem ganha menos paga menos, para depois pensar em qualquer alternativa de mexer na Previdência.
“Querem usar a reforma da Previdência para fazer uma reforma fiscal que prejudica o povo. Precisamos corrigir distorções do sistema tributário sim, mas desde que comece por taxar grandes fortunas, lucros e dividendos, ou seja, os mais ricos”.



sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O enterro do ciclo neoliberal (já vai mais do que tarde) e o coveiro é Trump, por André Araújo



"O neoliberalismo moderno parte de uma FÉ, uma crença sectária, de que o mercado deixado solto resolve a maioria dos problemas econômicos. Trata-se de mera CRENÇA, não tem nada de cientifico e a História, mestre severa, se encarregou de desmistificar essa fé cega."



O enterro do ciclo neoliberal, o coveiro é Trump, por André Araújo
A ideia de que o mercado deixado livre resolve todos os problemas econômicos tem longas raízes, mas sua versão moderna foi posta a circular pelo cientista politico austríaco Friedrich von Hayek com seu livrinho “O Caminho da Servidão". Hayek também criou a Societé du Mont Pelerin, um clube de empresários, banqueiros e acadêmicos como Ludwig von Mises e Milton Friedman, a partir de uma reunião na Suíça em 1944, formalizando a entidade em 1947.
A nova linha é uma versão moderna da crença histórica de Adam Smith e seu enraizamento anterior ao mundo moderno é imprestável para a complexidade da economia e da sociedade que decorreu das grandes invenções do Século XIX que mudaram por completo o mundo, revirado do avesso pelas revolução, pelas guerras mundiais, pela implosão dos impérios após o Tratado de Versalhes e pelo advento de leis sociais e trabalhistas.
O “mercado resolve” de Hayek é mera crença de seita, não tem qualquer base cientifica, vale tanto como “o sangue de Jesus cura” dos superficiais pastores improvisados de novos cultos.
Sua legitimação para nosso dias veio de uma personalidade intrinsicamente má, nada generosa, egoísta até o último fiapo de cabelo, Margaret Thatcher, cuja desconstrução psicológica pela Deputada ao Parlamento Britânico Glenda Jackson, consagrada atriz de cinema e teatro, mostra uma Thatcher como espirito mesquinho, uma alma penada que deu inicio a uma era de trevas, de ode à ganancia, de abandono do pobre, que gerou o voto no BREXIT por aqueles que não se beneficiaram da globalização e dos ganhos do mercado financeiro.
O neoliberalismo moderno parte de uma FÉ, uma crença sectária, de que o mercado deixado solto resolve a maioria dos problemas econômicos. Trata-se de mera CRENÇA, não tem nada de cientifico e a História, mestre severa, se encarregou de desmistificar essa fé cega.
O MERCADO DEFENDE OS SEUS E SÓ ELES. O mercado não tem e nunca teve a capacidade de tornar a economia eficiente para todos os cidadãos, só para alguns deles. O mercado é a solução para os capitalistas mas não tem qualquer solução para os pobres e carentes, que são a maioria esmagadora das sociedades, inclusive dos países  ricos onde moram milhões de pobres, miseráveis e incapacitados em cada vez pior situação.
O CICLO NEOLIBERAL
A partir das ideias de Hayek, um personagem intelectualmente medíocre que fez seu nome a partir dos escombros da Segunda Guerra, o EGOISMO do mercado foi erigido em Deus “ex-machina”. Isso sempre foi uma ficção não abonada pela História. A civilização se estruturou desde os primórdios da vida organizada do homem pelo ESTADO ou pela RELIGIÃO, mercado é um espaço, uma invenção, posterior ao Estado e permitido por este, o mercado não foi um ente superior ao Estado, mas mera graça que o Estado concede em certos períodos. Hhá civilizações sem mercado, mas nenhuma sem Estado sob infinitas formas. O  mercado é uma organização medíocre e descartável, não é divino ou sábio nem tem o poder de organizar uma sociedade em bases civilizadas. O mercado é um condomínio de funções onde os agentes não se unem por um interesse maior, eles apenas se encontram para comerciar, nada os une, ao contrário, os interesses podem ser muito conflitantes. Só o Estado pode arbitrar porque está acima de uma mera praça de negócios. Como então dar poder à praça sobre o Estado?
O “mito” de que o mercado resolve os problemas econômicos e se auto regula IMPLODIU na História, o mercado entrou em parafuso e foi salvo pelo Estado com um simples gesto, o mercado implodiu completamente em fins de ciclos porque sempre foi um ator MUITO MENOR do que Hayek e Thatcher venderam, sua capacidade de resolver grandes problemas sociais é nula. A maior das sociedades de mercado, a americana, é grandiosa pelo fortíssimo Estado que a escora e nunca pelo mercado imperfeito dos fundos “hedge” de vigaristas de Wall Street, sucessores dos “robber barons” do Século XIX. Essa gente só se importa com seu lucro e nunca com o conjunto da economia e muito menos com a população.
Ms.Thatcher tinha como marca registrada a maldade do egoísmo, nunca foi uma criatura generosa e sua adoção e defesa do neoliberalismo teve tudo a ver com sua personalidade intrinsicamente egoísta, de má pessoa, que nunca foi solidária com os carentes de seu próprio Pais. Felizmente a revisão do ciclo “Thatcher” já se encarregou de colocar esses tempos terríveis em perspectiva histórica. Thatcher foi um horror, ela e a muleta Reagan por ela escorado plantaram a crise da desregulamentação financeira que gerou o “crash” de 2008.
Enquanto um Roosevelt sacrificou sua saúde em beneficio da humanidade, era uma alma generosa a despeito de erros cometidos, Mrs. Thatcher nunca foi vista como nada além de puro egoísmo, uma alma ruim, negativa, impiedosa. Desse espirito nasceu o ciclo neoliberal que desde então produziu maus resultados para os pobres do mundo, a começar de seu próprio País, o Reino Unido, dai propagando o “neoliberalismo” para o mundo, especialmente para países de sociedades frágeis, como os da América Latina e África. Mas não convenceu sociedades milenares fortes, como as da Ásia, mais sábias e experientes, estas aproveitaram a globalização, MAS não se deixaram dominar pelos mercados ocidentais, os mecanismos de defesa da economia japonesa, chinesa e dos tigres asiáticos são sólidos e lá não entram, por exemplo, bancos ocidentais, eles protegem seu mercado e invadem os outros.
A HISTORIA É CAÓTICA
Há uma crença nos acadêmicos de História dos Estados Unidos de que o mundo sempre evolui.
É falso. A História é um caos, cheia de avanços e recuos, não há racionalidade mecânica.
Quando o carrasco levou Luís XVI à guilhotina quem poderia pensar que o irmão do desgraçado Rei seria coroado menos de vinte anos depois, como monarca restaurado?
Quando Napoleão Bonaparte foi encarcerado para sempre na ilha de Santa Elena quem pesou ou poderia pensar que seu sobrinho seria coroado Imperador da França décadas depois?
Quando Getúlio foi deposto em dezembro 1945 porque os regimes fascistas caíram na Europa e Vargas era visto como parte desse clube, quem poderia pensar que o mesmo homem voltaria eleito cinco anos depois?
Quando Peron foi deposto e exilado em 1953, quem na Argentina ou no mundo poderia supor que esse caudilho voltaria ao poder 20 anos depois?
A História é um jogo caótico de idas e voltas, atalhos laterais, quedas abruptas, nada é muito racional ou de fácil explicação, só espíritos fracos podem acreditar em autos de fé.
A ideia de que o “mercado é mais eficiente” não responde à segunda pergunta, MAIS EFICIENTE PARA QUEM?
O mercado em todo o mundo, inclusive nos países ricos, mostrou ser mais eficiente PARA OS SEUS PARTICIPANTES e não para toda a população.
A ideia de que o mercado deixado livre é melhor para todos é uma crença ideológica.
O mercado é eficiente para alguns de seus participantes, MAS DEFINITIVAMENTE NÃO É EFICIENTE para toda a população.
O CICLO NEOLIBERAL E A CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZA
A partir da desmontagem dos Estados de bem estar social nasceu o projeto da União Europeia, da globalização financeira e comercial irrestrita, da abertura das economias industriais, da lógica das “cadeias produtivas” e qual o resultado?
O número de bilionários no mundo aumentou 40 vezes de 1980 a 2015, as plataformas industriais nos grandes países foram em grande parte desmontadas e foram para países asiáticos, o desemprego e especialmente o subemprego aumentou brutalmente por todo mundo industrializado, nos EUA 20 milhões de famílias vivem em “trailers”, perderam as casas hipotecadas a bancos que foram retomadas e também não se vendem, há cemitérios de casas fechadas nos EUA, com isso aumentaram exponencialmente as doenças mentais, o consumo de drogas, loucos atirando em escolas, conflitos sociais rebrotaram.
Ao mesmo tempo fusões de empresas, muitas delas absurdas sob o ponto de vista do interesse público, continuaram a pleno vapor, com a logica de corte de custos e despedidas em massa de funcionários, em todas essas transações a única logica é criação de valor para acionistas, todos os demais atores perdem, os Estados, os empregados, os consumidores.
A NECESSIDADE DO ESTADO
O Estado é o ente que protege a imensa maioria da população que não é participante do mercado. A alegação de que o mercado sendo eficiente beneficia a todos é apenas uma ideologia, não há ciência alguma por trás do mantra, como comprovou a crise de 2008.
Nenhuma evidência empírica comprova essa crença. O mercado eficiente é eficiente para os donos de capital e só para eles, não beneficia sequer os seus empregados, prejudica imensamente a sociedade, o Estado e as finanças publicas.
O MITO DE FRIEDMAN
Propagandista da “eficiência dos mercados” foi o economista Milton Friedman. Mostrei em meu livro MOEDA E PROSPERIDADE, de 2005, portanto anterior à crise de 2008, como foi propagado o “monetarismo”, uma derivação das teses de Hayek. O CITIBANK bancou a maioria das palestras e a revista de Friedman, ajudou Friedman a construir o mito do “monetarismo”, imensamente benéfico aos bancos e péssimo para a sociedade. Desse mito nasceram teorias aberrantes como o das “metas de inflação”, teses, mitos e modelos destinados aos ganhos do mercado financeiro contra os interesse da população como um todo.
O fim do ciclo neoliberal teve seu desfecho por dois acontecimentos simultâneos, a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos EUA. Ambos eventos sinalizadores do fracasso da globalização financeira e comercial para a imensa maioria da população dos dois países símbolos do capitalismo moderno e também os dois países onde nasceu o ciclo neoliberal dos anos 70. É, portanto, uma extraordinária ironia da História que esses dois sistemas econômicos, ao mesmo tempo, deram as costas ao modelo neoliberal que eles próprios criaram e, pelas mesmas razões, o ciclo prejudicou o grosso de suas populações.
Países imitadores como o Brasil, cujas elites mimetizam o que as elites das metrópoles pensam e fazem, não refizeram suas apostilas. Os conceitos neoliberais fracassados aqui continuam a ser os únicos nas cartilhas dos “economistas de mercado”, afinal eles fizeram seus cursos nos EUA e Inglaterra em pleno apogeu do neoliberalismo acadêmico e como são medíocres não conseguem reciclar a cartilha no meio da vida. Continuam a usar as apostilas já descartadas de Chicago, porque só conhecem essas e seu famoso “tripé macroeconômico”, não tem outra lição de casa, é só essa. Enquanto isso nos EUA o debate sobre ideias econômicas é intenso, com novos centros de pensamento em plena ebulição, como o Instituto para o Novo Pensamento Econômico de Nova York, escorado em três Prêmios Nobel de Economia, as lições da crise de 2008 aprendidas e refletidas, o jogo mudou.
O PAPEL DO MERCADO
O livre mercado de bens e serviços é um fantástico mecanismo de formação de preços e estimulo à capacidade empreendedora. Mas ele não é o exclusivo mecanismo de realização das aspirações humanas e de sua vivência civilizatória, há outros espaços que não são mercado por sua essência e mesmo por sua funcionalidade e eficiência, são espaços com outra lógica.
Há o espaço das causas públicas, da cultura e das artes, o espaço da pesquisa que pode beneficiar toda a sociedade e seus protagonistas no mais das vezes tem apenas a satisfação de ter auxiliado seu semelhante, há o espaço das organizações não governamentais e sem fins lucrativos de enorme importância em alguns países, especialmente naqueles lideres de “mercados” como Reino Unido e EUA, onde a maior parte dos museus, institutos de pesquisas, orquestras filarmônicas, companhias de ballet, entidades de amparo a drogados, velhos, meio ambiente, de incontáveis causas sociais não seguem o modelo de “mercado” ansioso por lucro a curto prazo, são outros modelos de vivencia e colaboração humana, fora do “mercado”.
Esta, portanto, não pode ser a base de toda a politica econômica, não pode ser o referencial de uma eleição presidencial, pretender colocar o Estado como dependente do mercado é um absurdo conceitual, o mercado é que depende do Estado e não vice-versa.
O erro é querer transformar tudo em mercado sob a alegação de que este é sempre eficiente.
A monumental crise financeira de 2008 com epicentro em Wall Street, mas que reverberou por todo o mundo, decorreu de um absurdo erro de concepção de instrumentos financeiros somada à ganancia incontrolável de executivos  de bancos em busca de bônus.
A crise levaria a quebra do maior banco, da maior seguradora e da maior empresa industrial americana, todas juntas e arrastando centenas de outras se não fosse o socorro do Tesouro dos EUA com um cheque de 780 bilhões de dólares e rápidas medidas de resgate.
O MERCADO FALHOU, onde está a autocritica dos neoliberais?  Nada, eles se fingem de mortos, esquecem que iriam implodir se não fosse o Estado salvador, NESSA HORA ELES NÃO PREGAM O ESTADO MINIMO, este deve ser mínimo  para os pobres mas deve ser SALVADOR PARA OS BANCOS e demais participantes do mercado, de pires na mão à porta do Tesouro.
QUANDO O MERCADO ERRA
A lendária eficiência dos mercados é isso mesmo, é só lenda. As grandes crises econômicas da Era Contemporânea, foram NOVE até a de 2008, ainda não resolvida, foram causadas pelo próprio mecanismo do mercado e não fora dele e as últimos quatro crises, a de 1929, a dos dois choques do petróleo e a financeira de 2008, foram resgatadas pelo Estado.
O mercado comete erros que prejudicam não só seus agentes e participantes, prejudicam toda a sociedade. O enorme vazamento de petróleo no golfo do México, na primeira década deste século, deu perdas por vários anos aos Estados costeiros e de 25 bilhões de dólares aos acionistas da British Petroleum. A implosão da barragem de contenção da mineradora SAMARCO, join ventures das duas maiores mineradoras do mundo, Vale e Billiton, ocorreu por uma estratégia de redução de custos até o limite, típica das grandes corporações, porque os bônus dos executivos dependem do lucro no trimestre, não interessa o longo prazo, interessa o balancete trimestral e ai cortam-se custos de manutenção que ninguém vê, chega-se ao limite do risco para aumentar o lucro. O erro do mercado custou caro à sociedade, às populações locais e aos próprios acionistas, a logica do mercado perfeito não funcionou.
Na escala micro o mercado erra muito, fundos nacionais e estrangeiros, os três maiores bancos privados  operando no Brasil investiram bilhões de Reais nos projetos fantasmagóricos de um especulador, Eike Batista, que não tinha histórico de ter antes operado alguma coisa concreta, ele sabia montar projetos e vender seu futuro róseo, era o que ele sabia fazer.
O “mercado” tão eficiente, com analistas formados nas melhores universidades americanas, entraram nessa aventura que provavelmente não convenceria um vendedor de pastel na praia, tal a falta de histórico, de consistência, de realidade nesses projetos.
Tampouco o Estado sempre é ineficiente, mas mesmo com suas ineficiências, o Brasil moderno é uma construção basicamente do Estado, todo o imenso parque hidroelétrico, o gigantesco complexo petróleo, gás e petroquímico, os sistemas de abastecimento de agua, os metrôs de seis cidades, pontes e rodovias, um enorme parque siderúrgico, foram criações do Estado brasileiro.
Os dois mais modernos empreendimentos dos últimos 50 anos no Brasil, a EMBRAER e o PRE-SAL iniciativas do Estado brasileiro e não dos “mercados”.
Sem essas realizações o Brasil teria hoje  a escala de uma grande Guatemala, um pais agrícola exportador e nada mais, foi o Estado que industrializou o Brasil e criou sua infra estrutura básica, então a pintura neoliberal não pode ser levada a sério, embora encontre milhares de propagandistas na mídia e entre os “economistas de mercado”.
UMA VISÃO DE PAÍS
Uma visão de pais escorada no que pensa o mercado financeiro é o que vemos hoje nas candidaturas presidenciais, é uma plataforma ridícula pela sua pequenes, os nossos colegas do BRICs tem uma visão de Pais de longo prazo, de projeção geopolítica e do interesse das gerações futuras que transcendem essas categorias micro de bolsa e cambio a que no Brasil se dá uma importância que não tem igual em nenhum outro grande País do mundo, é o rabo abanando o cachorro, a parte movendo o todo, o Brasil é grande demais para isso.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Documentário do jornalista australiano John Pilger, "A Guerra que Você Não Vê", dá uma lição de como a chamada "grande mídia" esconde e manipula informações




Assistam, compartilhem, discutam e entendam o porque de existirem midiotas no mundo inteiro, e em especial, com a Globo dos Marinhos, a Veja dos Civitas, a Folha dos Frias, no Brasil...

Segue, abaixo, o vídeo e artigo de Paulo Nogueira, no DCM, sobre este importante documentário (caso você prefira ver o documentário completo no Youtube, clique o seguinte link):

Aula magna de jornalismo


O jornalista John Pilger é daqueles que sonham mudar o mundo para melhor. E agem
Brilhante. Tocante. Esclarecedor. Imperdível.
Não sei que adjetivos mais empregar para designar o documentário A Guerra Que Você Não Vê, de John Pilger, um jornalista nascido na Austrália e radicado em Londres. Pilger, 71 anos, é aquele jornalista que todos sonhamos ser no início da carreira – quando temos a convicção de que o jornalismo pode mudar o mundo. O dia a dia logo nos rouba as ilusões e nos dá em troca uma quantidade suficiente de cinismo para olharmos para o espelho sem a auto-recriminação dos que traem a si próprios.
Pilger não desistiu do sonho – e por isso acabou construindo como jornalista uma obra simplesmente única.  Em seus artigos, livros e documentários, Pilger cumpre um dos objetivos mais nobres e mais esquecidos do jornalismo: dar voz a quem não tem.
Em A Guerra Que Você Não Vê, Pilger dá uma aula magna de história moderna e de jornalismo. (No YouTube, ele aparece fatiado, como mostra o vídeo que abre este texto.) Pilger põe foco na Guerra do Iraque, mas também fala de outras.
Dois fatores, lembram ele, foram determinantes que os Estados Unidos e a Inglaterra de Tony Blair invadissem o Iraque em 2003. O primeiro é que o regime de Saddam Hussein teria armas de alto poder destrutivo. Não era verdade. O segundo é que Hussein teria vínculo com a Al-Qaeda de bin Laden. Também não era verdade.

Pilger
A mídia comprou as duas mentiras. Não fez o que deveria ter feito: checar as informações oficiais. Os jornais e os jornalistas fizeram não jornalismo, mas propaganda – e isso como que legitimou a Guerra do Iraque.
Quando as falácias vieram à tona, era tarde demais.  Dezenas de milhares de civis iraquianos estavam mortos. Crianças, mulheres, velhos em quantidade pavorosa numa guerra cuja única causa era – e é – o petróleo.
Pilger entrevistou alguns dos grandes jornalistas que não fizeram o que deveriam ter feito. Quase todos estão claramente embaraçados e envergonhados. O âncora Dan Rather, que era o principal nome do telejornalismo americano naqueles dias, reconhece que, se os jornalistas tivessem feito um trabalho de investigação decente diante das alegações de Bush, provavelmente os Estados Unidos não invadiriam o Iraque.
A cobertura ocidental da guerra fazia crer que os iraquianos estavam felizes com a chegada das tropas aliadas. Quando o mundo tomou ciência do sofrimento e da revolta dos iraquianos, foi por obra da rede árabe Al Jazeera, bancada pelo governo do Catar. Um jornalista britânico que cobria a guerra para a BBC lembra, no documentário, que escritórios da Jazeera no Iraque foram objeto de atentados. Era uma tentativa de intimidar jornalistas que estavam mostrando uma guerra que não era exatamente a que se via nas emissoras americanas ou inglesas. Ou matá-los.
A guerra real – e Pilger dá o crédito – só seria revelada ao público ocidental pelo Wikileaks, no célebre vídeo que mostra soldados americanos em dois helicópteros matando por engano civis numa Bagdá destroçada.
O documentário produz uma reação ambígua. Você amaldiçoa o jornalismo por conta de coisas como seu papel na Guerra do Iraque – mas ao mesmo tempo o abençoa por causa de gente como John Pilger.


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Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.