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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

No Brasil, reina a melancolia. Mas em países como Inglaterra e Estados Unidos, uma postura claramente anti-neoliberal está permitindo à esquerda reconectar-se com a sociedade e sacudir o cenário político




Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite
Você quer optar por manter-se melancólico – e crer que o duro esforço de recriar a esquerda é inútil, porque o mundo tornou-se definitivamente conservador. Nesse caso, olhe para a Alemanha, onde o partido de extrema-direita voltou ao Parlamento, pela primeira vez desde o nazismo. É uma perspectiva sombria e real; por isso, é legítimo escolhê-la. Mas, por favor, não diga que é a única, nem a mais atual.
A velha mídia brasileira ainda não vê, mas rapidamente vai tomando corpo uma outra tendência, de sentido oposto. É a reemersão inesperada, como no final dos anos 1990, de uma crítica potente ao neoliberalismo. Ela vai muito além dos círculos intelectuais, desperta a juventude, propõe uma nova agenda.
Como na virada do século, o movimento teve início nos países centrais do sistema: desta vez, Estados Unidos e Inglaterra. Comecemos por ela. A revista Economist, que não nutre a menor simpatia por Jeremy Corbyn, líder rebelde do Partido Trabalhista inglês, acaba de dizer que ele é o provável próximo primeiro-ministro do país. A imagem é eloquente: no último número da revista, Economist imagina Corbyn – um homem de 68 anos, cabelos brancos e boina – à frente da emblemática Downing Street nº 10, a sede do governo britânico. A porta principal – oh, heresia! – foi pintada de vermelho. Diante da casa, estão postados um gato e a bicicleta de Corbyn, também escarlate.
Não é ironia apenas. Ainda em fevereiro, Economist previu a morte do centenário Partido Trabalhista, que seria provocada pelas políticas rebeldes de Corbyn (repare na boina, sobre o túmulo…). Tudo mudou, em sete meses. Por terem sido capazes de atualizar seu programa, e de se manter fieis a ele, contra todas as pressões, os trabalhistas reergueram-se. Nas eleições parlamentares do meio do ano, garantia-se que seriam varridos do mapa. Mas ao invés de recuarem, e se adaptarem ao que a mídia esperava deles, souberam dar a volta por cima. Seu programa teve por foco a redistribuição de riquezas. Obrigar os ricos a pagar mais impostos. Restaurar o Sistema Nacional de Saúde. Renovar a Educação. Eliminar a cobrança de mensalidades nas escolas públicas, introduzidas pelos conservadores e mantidas pelos trabalhistas acomodados. Renacionalizar as ferrovias. Tudo isso sob um slogan claro: “Para os muitos, não para os poucos”
Jeremy Corbyn, visto pela própria mídia conservadora como provável próximo primeiro-ministro britânico. Ele quer imprimir dinheiro, mas agora, para os serviços públicos -- e não para os bancos
Jeremy Corbyn, visto pela própria mídia conservadora como provável próximo primeiro-ministro britânico. Ele quer imprimir dinheiro, mas agora, para os serviços públicos — e não para os bancos

O resultado foi um ponto totalmente fora da curva. Depois de anos de declínio, quando obedeciam as receitas da mídia, os trabalhistas estiveram a um passo de ganhar as eleições. Politicamente, venceram. A primeira-ministra conservadora, Theresa May, arrasta-se, e não sabe como lidar com o trauma que a saída da União Europeia representará. Em poucos meses, os trabalhistas foram capazes de reanimar sua enorme militância. Como no Reino Unido as eleições são distritais, estes militantes dedicam-se agora a uma tática de tensionamento da representação tradicional. Vão de casa em casa, de pub em pub, distrito por distrito, questionar os votos dos deputados conservadores.
Reinseriram os jovens na política. Entre a população abaixo dos 25 – reconhece Economist, não sem um certo pesar – já têm o apoio de três em cada quatro pessoas. Agora, querem ir adiante. Na primeira conferência do partido após as eleições do meio do ano, que está ocorrendo neste fim de semana, Jeremy Corbyn apresentou planos para enfrentar a especulação imobiliária – por exemplo, estabelecendo controle público sobre os preços dos aluguéis. Ou assegurando que, sempre que houver intervenções de “recuperação” de áreas urbanas, os imóveis afetados retornem a seus antigos moradores após as obras, ao invés de serem capturados pelas corporações imobiliárias.
Corbyn também propõe – para escândalo da Economist – um quantitative easing para o povo. Na última década, os bancos centrais emitiram rios de dinheiro para a aristocracia financeira, alegando que era a forma de evitar que a recessão se agravasse. Agora, este velho trabalhista sugere: se isso foi possível, por que não podemos, também, imprimir dinheiro para os proglramas sociais?
* * *
Um processo semelhante está ocorrendo, exatamente agora, nos Estados Unidos. Diante do desgaste de Donald Trump, quem está se fortalecendo não é a extrema direita que o apoiou, nem a cúpula do Partido Democrata – mas Bernie Sanders, o candidato que questionou, nas eleições de 2016, o domínio dos grandes bancos sobre a economia.
É a mesma Economist quem reconhece: o avanço tem por base políticas muito concretas. Há quatro anos, Sanders, que é senador, apresentou proposta para tornar estatal o sistema de assistência à Saúde. Ninguém o apoiou. Há poucas semanas, ele voltou a reapresentar a proposta: teve adesão de 16 senadores democratas, entre eles todos os demais possíveis candidatos à presidência, em 2020. A mudança de ares é vasta. A maior parte dos militantes já arova a proposta de um salário mínimo de 15 dólares por hora (que Hillary não assumiu em 2016). Também defende um pacote de investimentos públicos de 1 trilhão de dólares na economia e o controle estatal sobre os oligopólios. “Os democratas apoiam a intervenção governamental sobre a econoia numa escala não vista desde o New Deal” de Franklin Roosevelt, admite, ainda que a contragosto, a revista britânica.
A onda de direita é global, inundou o Brasil, emerge em cada post no Facebook. Mas, vê-se claramente agora, não é o único fenômeno político contemporâneo. Diante de um mundo dividido, há, entre tantas, duas atitudes principais. A primeira é render-se comodamente à melancolia, ao fim do mundo. A outra, muito mais difícil e desafiadora é imaginar as alternativas.

sábado, 30 de setembro de 2017

Para enfrentar a silenciosa ditadura do Dinheiro de Bancos e Estados. Por Bernard Lietaer e Stephen Belgin


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Florescem, em todo o mundo, moedas alternativas e bancos de tempo. Porque o dinheiro atual, emitido por Estados e bancos, produz desigualdade e desumanização
Por Bernard Lietaer e Stephen Belgin, na revista Piseagramaparceira editorial de Outras Palavras | Moedas sociais desenhadas por DoDesign Brasil 

PISEAGRAMA
a primeira revista brasileira sobre Espaços Públicos. Cada edição, impressa, é um conjunto articulado de ensaios sobre Direito à Cidade, novas relações com a Natureza, reinvenção da Política, Bens Comuns. Textos e imagens são editados com capricho raro. Agora, a revista está na reta final de sua campanha de financiamento. A melhor forma de contribuir é assiná-la e recebê-la em casa. Veja aqui como fazê-lo.
O dinheiro é uma das mais poderosas criações humanas. Para ilustrar por que falhamos em entendê-lo e em fazer melhor uso dele, propomos um absurdo ficcional, um lugar alegórico chamado Hammerville (em português, Vila do Martelo). O nome dessa vila derivava de uma estranheza peculiar que a distinguiu das outras comunidades do seu tempo. Para praticamente todas as atividades imagináveis – cortar, pintar, limpar, encanar, construir, demolir, arar, plantar, colher – os trabalhadores de Hammerville usavam quase que exclusivamente uma ferramenta: o martelo. Ele era o principal objeto também no Lançamento de Martelos e no Boliche de Martelos, dentre outros esportes populares. Era parte vital das celebrações culturais e símbolo icônico do orgulho dos moradores.
Ao longo do tempo, o martelo também tornou-se a marca mais importante de riqueza individual. Embora alguns sujeitos notáveis tivessem a habilidade de manusear vários martelos simultaneamente, não havia necessidade alguma de possuir mais que alguns poucos. No entanto, passou-se a acreditar que quanto mais martelos uma pessoa tivesse, melhor era a sua posição naquela sociedade.
Ninguém questionava as limitações inerentes àquele mundo. Com algumas exceções, se algo não podia ser construído, consertado ou medido com um martelo, era simplesmente deixado de lado. Chaves de fenda, chaves inglesas, arados e pincéis eram ignorados. Até mesmo o conceito mais genérico de ferramenta não fazia parte da realidade. Um martelo era tudo o que havia e as alternativas disponíveis em outros lugares nunca eram implementadas em Hammerville.
A edição nº5 de "Piseagrama", que teve como destaque Consumismo e Descarte
A edição nº5 de “Piseagrama”, que teve como destaque Consumismo e Descarte
Com o passar dos anos, os hammervilleanos chegaram ao seu limite. Sua população cresceu, mas nenhum outro meio foi encontrado para suprir as demandas por moradia, educação, emprego, saúde etc. As condições se deterioravam e as pessoas não conseguiam entender o porquê. Alguns dos privilegiados indivíduos que possuíam muitos martelos questionavam as habilidades e o mérito dos menos afortunados e causavam cada vez mais ressentimento no crescente número de pessoas sem martelo.
Era impensável que o objeto mais importante, valioso e exclusivo simplesmente não tivesse sido feito para atender a todas as necessidades existentes. Tampouco era compreendida a conexão direta que existia entre o desconhecimento de outras ferramentas – ou a maneira martelocêntrica com a qual a sociedade entendia o mundo e a si mesma – e o que de fato acreditavam ser possível ou não.
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Nossas conquistas ao longo do último século são incomparáveis: saímos de um entendimento rudimentar de genética e chegamos ao mapeamento do genoma humano; passamos do código Morse ao código binário; do cavalo à exploração do espaço. Agora temos acesso quase instantâneo uns aos outros e mais informação do que todas as universidades e bibliotecas juntas conseguiram acumular.
Ainda assim, no momento em que sondamos planetas distantes, estamos ameaçados por uma poluição caótica em nossa Terra. A expectativa de vida nunca foi tão alta, ao mesmo tempo que a aposentadoria é cada vez mais problemática. Produzimos mais comida que o suficiente para alimentar o mundo, mas muitos não têm o que comer. Temos uma quantidade infinita de trabalho a ser feito e legiões de pessoas dispostas a fazê-lo. Mas, ao mesmo tempo, estamos atormentados por uma escassez crônica de oportunidades de geração de renda, o que se torna ainda mais dramático com as crises financeiras e a persistente instabilidade econômica.
Por mais absurdo que possa parecer, nosso dilema pós-industrial tem alguma semelhança com a situação de Hammerville. E por que isso acontece? Por causa do dinheiro. Nossa questão não é, contudo, simplesmente a falta de dinheiro. Trilhões de dólares foram gastos em um problema atrás do outro, mas não puderam, e não poderão, por si sós, impedir a deterioração contínua do nosso planeta, ou prevenir a próxima desaceleração dos ciclos econômicos. Nossos esforços fracassados estão ligados à falta de compreensão coletiva sobre o dinheiro e ao uso extremamente limitado das ferramentas monetárias.
Se você não entende de dinheiro, fique tranquilo – você não está sozinho. A maioria de nós, incluindo os economistas mais renomados, nunca foi de fato apresentada ao dinheiro. As sociedades modernas, independentemente do contexto cultural ou político, simplesmente aceitaram o sistema monetário atual.
Quando a Revolução Francesa e a Revolução Russa derrubaram a ordem estabelecida em seus países (respectivamente em 1789 e 1917), mudaram quase tudo menos o sistema monetário. Os franceses reformularam todo o sistema métrico e até tentaram mudar o calendário. Os russos jogaram fora o conceito de propriedade privada e nacionalizaram todos os bancos e corporações. No entanto, o sistema monetário permaneceu exatamente como antes, com meras diferenças cosméticas – as moedas agora eram enfeitadas com novos lemas e heróis.
Não foi muito diferente quando houve a tomada do poder comunista de Mao na China, ou quando mais de cem países coloniais conquistaram sua independência nos últimos cinquenta anos. Todos copiaram a receita e produziram um sistema monetário nacional. Todas as moedas nacionais em operação – independentemente do seu país de emissão, de sua designação como dólar, euro ou real, ou de sua composição material, forma e simbologia particulares – são o mesmo tipo de dinheiro.
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O que é, então, o dinheiro? Dinheiro pode ser definido como um acordo, dentro de uma comunidade, no sentido de usar um item padronizado como um meio de troca. O dinheiro habita o mesmo espaço que outras construções sociais, como o casamento e o aluguel. Essas construções são reais, mesmo que só existam na cabeça das pessoas. Um acordo monetário pode ser formal ou informal, feito livremente ou por coação, consciente ou inconscientemente. A maioria das pessoas não concorda conscientemente em usar dólares ou reais, e nem leva em consideração a sua natureza. Nós simplesmente os usamos e, ao fazer isto, automaticamente entramos em um acordo silencioso.
Um acordo monetário só é válido dentro de uma determinada comunidade. Alguns acordos monetários, como chips ou cartas de jogos, só operam em pequenos grupos de amigos, enquanto outros operam dentro de uma nação. Alguns têm períodos restritos de validade, como os cigarros usados como moeda de troca entre os soldados na Segunda Guerra Mundial, ou, ainda, operam em uma comunidade geograficamente dispersa como a de usuários da Internet, que usam o dólar como moeda de referência internacional.
A função-chave que transforma um determinado objeto em dinheiro é seu papel como meio de troca para a comercialização de bens e serviços. Outras funções do dinheiro podem incluir sua atuação como unidade de conta, isto é, uma unidade-padrão capaz de medir o valor de bens e serviços; como armazenamento de valor que pode ser acumulado, guardado e recuperado de forma confiável; e, finalmente, como ferramenta de especulação.
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Existe uma suposição de longa data na economia de que o dinheiro é “neutro em termos de valor”, ou seja, o dinheiro é simplesmente um meio passivo de troca que não afeta nem a transação nem a natureza das relações entre usuários. Essa suposição está intimamente relacionada a outra noção convencional, a do “homem econômico”, ou seja, de que as pessoas sempre agem com racionalidade em suas tomadas de decisões econômicas, de forma a maximizar seu bem-estar.
No entanto, o dinheiro não é neutro em termos de valor. Na verdade, ele afeta profundamente o tipo de sociedade em que vivemos. Moedas nacionais com juros foram os motores ocultos que impulsionaram a civilização em direção à Revolução Industrial. Tanto aquilo de melhor quanto de pior que a Idade Moderna atingiu pode ser direta ou indiretamente atribuído à arquitetura de nosso dinheiro e aos valores que sua estrutura encoraja: a competição, a necessidade de crescimento perpétuo e a implacável concentração da riqueza.
Todas as moedas nacionais convencionais no mundo hoje são moedas fiduciárias. Isso significa que são criadas por uma autoridade que declara um meio de troca particular como aceitável. As moedas nacionais têm algumas características que persistem como aspectos inquestionáveis do dinheiro convencional: o apego geográfico a um Estado-nação; a criação a partir do nada; a emissão por dívida bancária; e a incorrência de juros. Esses são componentes aparentemente inócuos do nosso sistema monetário, mas que exercem profunda influência sobre nós.
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O complicado processo de criação de dinheiro e débito bancário resolve a aparente contradição entre dois objetivos principais da Inglaterra pré-vitoriana: constituir e apoiar o Estado-nação, por um lado, e confiar na iniciativa privada e na concorrência, por outro. O sistema monetário fornece uma maneira sutil de privatizar a criação de uma moeda nacional – teoricamente uma função pública – por meio do sistema privado, ao mesmo tempo que mantém a pressão sobre os bancos para competir por depósitos.
Os economistas John Jackson e Campbell R. McConnell resumem um aspecto importante das dívidas bancárias: “O dinheiro da dívida deriva seu valor da escassez em relação à sua utilidade”. Em outras palavras, o suprimento de dinheiro deve ser mantido artificialmente menor que a demanda, e essa escassez impele todos a obter esse bem vitalmente importante. Do ponto de vista bancário, a incapacidade de manter essa escassez resulta em inflação e hiperinflação, o que corrói o valor da moeda.
Internacionalmente, os bancos centrais também competem entre si para manter as próprias moedas em falta, aumentando as taxas de juros para apertar a oferta de dinheiro e tornando seus empréstimos mais caros. Entre seus muitos impactos sobre a sociedade, a escassez artificialmente mantida cria fortes incentivos para a competição em vez da cooperação.
No nº10 de "Piseagrama", o mais recente, foco no esgotamento dos Recursos
No nº10 de “Piseagrama”, o mais recente, foco no esgotamento dos Recursos
No que diz respeito à não neutralidade do dinheiro, é relevante o impacto dos juros sobre nosso comportamento. A cobrança de juros força à concorrência além do que ocorreria naturalmente. Se, ao fazer um empréstimo, o banco cria dinheiro (ao fornecer, por exemplo, um financiamento de 100 mil dólares), ele cria somente o capital desse empréstimo, não cria o dinheiro relativo aos juros sobre esse empréstimo, mas espera um retorno de 200 mil dólares nos próximos vinte anos. O banco exige, portanto, que o mutuário ganhe esses outros 100 mil dólares.
Como se paga um empréstimo cujos juros nunca são criados? O pagamento dos juros requer o capital de outra pessoa. A escassez é gerada a partir do momento em que se cobram juros sem que seja criado o dinheiro necessário para pagá-los. Isso força as pessoas a competir umas com as outras e as penaliza com a falência, caso elas não tenham êxito. Em última análise, alguém sempre tem que estar perdendo. A escassez é a engrenagem oculta que move o sistema monetário de dívida bancária.
Outro efeito dos juros é a contínua transferência da riqueza de uma vasta maioria para uma pequena minoria. O mais rico recebe um lucro ininterrupto daqueles que precisam pegar seu dinheiro emprestado. Esse mecanismo de concentração de riqueza é, estritamente falando, um problema estrutural. No entanto, seus efeitos comportamentais são significativos. Tomemos como exemplo o fato de que a grande maioria de nós deve trabalhar cada vez mais para manter um estilo de vida de classe média. Esse mesmo mecanismo não só corrobora a percepção de que os ricos ficam cada vez mais ricos, mas revela que essa concentração de riqueza é uma realidade sistêmica contínua, autoperpetuante.
Uma consequência importante é a estável erosão de um dos elementos-chave para que uma sociedade funcione: a confiança. Nossas sociedades estão, em vez disso, atormentadas pela desconfiança. Desconfiamos de nossas esperanças, nossos líderes e instituições e, finalmente, desconfiamos uns dos outros.
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O conceito de PIB (Produto Interno Bruto) pressupõe que todas as atividades econômicas podem ser medidas simples e precisamente por preço e valor – e, portanto, pelo fluxo de dinheiro. Na lógica do PIB, cada transação monetária é considerada um ganho, enquanto qualquer outra troca de um bem ou serviço que não envolva o uso direto de dinheiro é desconsiderada. Os escambos, por exemplo, não são contabilizados. Tampouco o são o trabalho doméstico ou voluntário. Ainda assim, esse mesmo trabalho, quando executado por alguém pago em moeda nacional, é mensurável e, portanto, entra na conta.
As consequências disso são lamentáveis. Muitas atividades não monetárias são vitais para a sociedade e compreendem parcela significativa da atividade econômica global nas comunidades. No entanto, permanecem invisíveis para a economia convencional porque nelas nenhum dinheiro passa de uma mão para outra.
O declínio de qualquer economia não mercantil tem um impacto negativo sobre a sociedade. No entanto, a partir de uma perspectiva econômica estritamente monetizada, ela não é medida e, portanto, não tem valor. Se, no entanto, chegar ao ponto de demandar uma intervenção paga, os custos de decadência social são registrados como lucro.
Os custos associados ao aconselhamento psicológico, ao trabalho social ou ao tratamento de dependência química, que surgem da negligência com tudo aquilo que não é mercado, são contabilizados como ganhos econômicos. O crime acrescenta bilhões para o PIB devido à demanda por edifícios de prisão, proteção policial e reparação de danos à propriedade. Da mesma forma, o esgotamento dos recursos naturais, as ações de limpeza e os tratamentos médicos associados aos subprodutos tóxicos da indústria, os custos de desastres ecológicos, ataques terroristas, a devastação causada por guerras – todos entram nas contas como incrementos à economia pelos curiosos padrões do PIB. Como disse o ex-economista do Banco Mundial Herman Daly: “o sistema de contabilidade nacional atual trata a Terra como um negócio em liquidação”…
Na edição nº4, Cidades alienadas e Vizinhança
Na edição nº4, Cidades alienadas e Vizinhança
O pensamento e as práticas econômicas convencionais colocaram ênfase na ideia de crescimento econômico contínuo. Considerado como sinônimo de desenvolvimento, o crescimento econômico é o principal critério utilizado para determinar a vitalidade global e é um objetivo fundamental na política e no planejamento. No entanto, muitas suposições socialmente aceitas sobre o conceito de crescimento não passam disto: suposições.
Como definir o crescimento econômico? Que critérios e métodos devem ser empregados para medi-lo? Que tipo de crescimento é realmente bom para a saúde em longo prazo ou para a sustentabilidade de uma economia? Equívocos associados ao assunto têm contribuído para políticas e práticas que exacerbam a instabilidade econômica, as iniquidades e a devastação ecológica.
As economias, assim como os ecossistemas naturais, são redes de fluxo complexas. Consistem em milhões de empresas e atividades produtivas em que as despesas de uma servem como insumos para outras e para os consumidores, fazendo circular energia, informações e recursos.
Sabe-se agora que a sustentabilidade em longo prazo nas redes atuais, assim como nos ecossistemas, depende de um equilíbrio entre dois requisitos opostos – eficiência e resiliência. A eficiência é definida como a capacidade da rede de processar volumes de tudo o que flui através dela de forma organizada e simplificada, de modo a manter sua integridade ao longo do tempo. Resiliência é a capacidade de rebote da rede, isto é, a capacidade de retroceder com segurança para posições anteriores em busca de opções para atender a distúrbios inesperados e gerar uma evolução contínua. Para que qualquer sistema de fluxos complexos se sustente ao longo do tempo, ele precisa não só ser eficientemente organizado, mas também resiliente, capaz de resistir a mudanças em seu ambiente – seja à seca ou a doenças num ecossistema natural, seja à recessão numa economia.
Duas variáveis estruturais de qualquer sistema complexo governam o grau de eficiência versus resiliência. Uma delas é a diversidade de agentes e a outra é a interconectividade, que mede o número de caminhos entre os agentes envolvidos. Diversidade e interconectividade desempenham papéis fundamentais na eficiência e resiliência de qualquer sistema complexo, mas em direções opostas.
A resiliência é reforçada por mais diversidade e conexões, uma vez que estes elementos fornecem mais agentes e canais como planos alternativos em tempos de dificuldade. A eficiência, por outro lado, aumenta com a racionalização, o que normalmente implica reduzir a diversidade. Um equilíbrio dinâmico entre eficiência e resiliência é crucial para a saúde de um sistema. As redes que são excessivamente eficientes tendem a se tornar muito frágeis, uma vez que uma pequena quebra pode causar o seu colapso. Por outro lado, redes excessivamente diversas, nas quais energia, recursos e informações perambulam por um emaranhado de caminhos sinuosos que levam a lugar nenhum, tendem a ficar estagnadas.
O conceito de eficiência está tão enraizado no pensamento de hoje, especialmente na engenharia e na economia, que pode ser difícil imaginar como qualquer coisa poderia ser eficiente demais. Mas a lição das crises recentes é justamente esta – excesso de eficiência.
Os aumentos do PIB que muitas vezes acompanham o aumento da eficiência podem dar a impressão de vitalidade econômica, mas podem mascarar uma fragilidade crescente. Um exemplo é encontrado no setor de energia, com a dependência global do petróleo como fonte primária de combustível, cuja produção e cujo fornecimento são limitados a poucos fornecedores. Qualquer ruptura aqui é um mal para a economia em geral devido à ausência de contingências viáveis e fontes alternativas às quais recorrer. Em outras palavras, há falta de resiliência.
O paradigma monetário atual é, de fato, equivalente a um ecossistema planetário em que apenas um único tipo de planta ou animal é tolerado e mantido artificialmente, e onde qualquer diversidade é erradicada como um concorrente inapropriado porque reduziria a eficiência do todo.
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A solução que conduz à sustentabilidade monetária desafia o pensamento econômico convencional, que assume equivocadamente o monopólio das moedas nacionais como dado. Uma moeda nacional de dívida bancária pode ter sido apropriada – talvez até necessária – para que surgisse um mundo industrial. Mas esse paradigma é, sem dúvida, muito limitado para uma sociedade plural do século XXI que busca soluções econômicas inovadoras, sustentáveis e pós-industriais.
Impelidas em grande parte pela incapacidade de abordar certas questões pelos meios convencionais e estimuladas pela informática de baixo custo, mais e mais comunidades estão se envolvendo com moedas complementares e colocando em operação milhares de sistemas em todo o mundo. As moedas complementares melhoram a resiliência da economia, proporcionando maior diversidade nas trocas, permitindo transações que de outra forma não ocorreriam, por meio de conexões que de outra forma não existiriam.
Embora as moedas complementares possam reduzir a eficiência global, elas aumentam a resiliência e geram uma economia mais sustentável. Quando diversos tipos de dinheiro chegam a todos os níveis da sociedade, um tecido socioeconômico mais rico torna-se inevitavelmente mais flexível, capaz de melhor suportar e lidar com múltiplas contingências. O sistema torna-se mais estável, como na lição dos ecossistemas naturais.
Dois dos mais populares sistemas de moedas complementares hoje são o LETS (Local Exchange Trading System ou, em português, Sistema de Trocas em Nível Local) e os bancos de tempo. Cada um deles é um exemplo de um sistema mútuo de crédito concebido para facilitar o intercâmbio em comunidades nas quais a moeda nacional é insuficiente.
O LETS originou-se em uma comunidade de pescadores nas proximidades de Vancouver, Canadá, durante a década de 1980. Embora próspera, a comunidade estava passando por tempos difíceis; o desemprego local chegava a 40%, apesar da presença de uma grande força de trabalho qualificada e da contínua demanda de bens e serviços. Michael Linton, fundador do sistema, observou que o elo perdido era o dinheiro: “A maior deficiência do dinheiro convencional é que para muitos ele simplesmente não está disponível. Pelo próprio design, existe apenas uma quantidade limitada de dinheiro. E como o dinheiro convencional deve vir de algum lugar fora da comunidade local, ele inerentemente não compreende ou se preocupa com as necessidades da comunidade”.
As trocas em um sistema desse tipo ocorrem usando o dinheiro LETS sozinho ou em combinação com a moeda nacional. Um jardineiro ou mecânico de automóveis, por exemplo, pode pedir apenas dinheiro LETS em troca de serviços prestados, ou aceitar o pagamento parcial em LETS e em moeda nacional.
A moeda LETS é criada no momento da transação. A conta do fornecedor de bens ou serviços é creditada, enquanto a conta do destinatário é debitada. Os saldos de créditos indicam que um indivíduo forneceu bens ou serviços a outros membros da comunidade em excesso em relação à quantidade de bens ou serviços resgatados e vice-versa para saldos devedores. Esse sistema garante que o fornecimento de LETS dentro de uma comunidade seja suficiente e autorregulador. Como outros sistemas de crédito mútuo, o LETS permite que os participantes se beneficiem de quaisquer recursos disponíveis na comunidade. Assim, supera-se a escassez imposta por uma moeda nacional.
Em contraste com o dinheiro convencional, um saldo negativo em LETS não é um problema, mas, em vez disto, uma indicação de que esse membro particular comprou mais bens ou serviços. Aqueles com um saldo negativo são simplesmente convocados a oferecer bens ou serviços em troca, aumentando ainda mais a riqueza coletiva. Alguns programas LETS definem limites de dívida para evitar abusos, mas há geralmente um entendimento comum de que as dívidas serão reembolsadas.
Normalmente, o valor de uma unidade LETS é equivalente a uma unidade de qualquer moeda nacional. A criação de uma troca local é um processo simples e inclui: um acordo básico entre os participantes para usar o LETS, contabilidade transparente e um diretório listando ofertas e/ou necessidades de cada membro.
Como os registros de créditos e débitos são habitualmente mantidos abertos, os usuários do LETS que recusam ou não pagam suas dívidas (servindo ou fornecendo bens) podem ser facilmente identificados e impedidos de participação futura. Essa transparência embutida gera confiança, garantindo a autorregulação do sistema.
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Time Dollars, primeiro modelo do banco de tempo, foi criado pelo advogado americano Edgar Cahn, que observou que pagar formalmente às pessoas – por qualquer meio – as empodera. Ele enfatiza que “contabilizar o que as pessoas fazem é uma maneira de valorizar o que elas fazem”. Dada a escassez inerente de moeda nacional, Cahn concebeu o uso do tempo como um meio de troca. A unidade básica é um “dólar de tempo”, ou Time Dollar, equivalente a uma hora de serviço, que pode ser gasto para bens e serviços disponíveis dentro de uma comunidade.
O site do Time Dollars explica que “basta gastar uma hora fazendo algo para alguém em sua comunidade. Essa hora entra no banco de tempo como uma unidade de tempo. Então você tem uma unidade de tempo para gastar com alguém fazendo algo para você. É uma ideia simples que tem poderosos efeitos na construção de conexões na comunidade”.
Os bancos de tempo, como outros sistemas monetários complementares, ligam as necessidades não satisfeitas (os serviços solicitados) com os recursos não utilizados (tempo e serviços disponíveis). Como os regimes de troca em nível local, facilitam transações que provavelmente não ocorreriam de outra forma.
O custo de iniciar um banco de tempo é mínimo: as comunidades podem usar um quadro-negro ou um pedaço de papel ou, para projetos de maior escala, um programa de computador gratuito. Os bancos de tempo podem acomodar qualquer escala de participação.
Partindo da perspectiva da não neutralidade de valor do dinheiro, os projetos de moedas complementares tendem a desencadear padrões de comportamento e interação específicos, que se distinguem daqueles habitualmente associados aos paradigmas da moeda nacional. Como discutido antes, os juros incorporados ao dinheiro convencional impulsionam a concorrência por uma moeda escassa. A maioria das moedas complementares, por outro lado, não praticam juros. Além disso, dentro dos sistemas mútuos de crédito, a escassez artificial não precisa ser mantida; a moeda é automaticamente criada em suficiência quando um acordo de troca é atingido. Assim, os dois mecanismos ocultos que promovem a concorrência no dinheiro convencional (escassez e juros) estão ausentes nas moedas complementares.
O crédito mútuo e outras moedas de caráter social geram cooperação e um senso de comunidade. E, ao contrário do que alguns economistas suspeitam, não aumentam as pressões inflacionárias. O risco de inflação seria válido se, e somente se, a moeda complementar fosse concebida como uma moeda fiduciária, como as moedas nacionais. Nos sistemas que vimos acima, o dinheiro é criado somente quando um acordo é feito, com um crédito e um débito simultâneos cobrados às partes envolvidas. Isso garante que apenas dinheiro suficiente seja criado especificamente para cada transação, e não mais.
Os regimes de troca em nível local e os bancos de tempo são dinheiro, e como outras moedas complementares, desfrutam da funcionalidade completa do dinheiro. Não devem ser confundidos com escambos, nos quais bens e serviços são trocados bilateralmente sem qualquer meio de troca padronizado. Uma limitação inerente ao escambo é que ele requer uma “dupla coincidência de desejos”, ou seja, recursos e necessidades devem corresponder perfeitamente entre duas partes para que uma transação ocorra.
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As experiências com moedas complementares no Brasil incluem clubes de troca e mercados solidários. No entanto, a aparição mais marcante nos últimos anos foi a dos bancos comunitários. A moeda Palmas, nascida em 2002, deu origem ao primeiro banco comunitário, assentado no capital social de uma associação de moradores com duas décadas de lutas. Em menos de dez anos, bancos comunitários conquistaram o apoio do Banco Central e, até recentemente, o apoio do Estado: com a Secretaria Nacional de Economia Solidária, no Ministério do Trabalho e Emprego, e com a Secretaria Nacional de Economia Criativa, no Ministério da Cultura.
Os bancos comunitários, operando sistemas de microcrédito (empréstimos sem incisão de juros ou com juros moderados) dinamizam a economia local ao dar maior liquidez a territórios com escassez de moeda. Ao injetar moedas sociais que são vinculadas ao Real, mas aceitas apenas localmente, aumentam a possibilidade de trocas de bens e serviços entre membros da comunidade.
Os sistemas de microcrédito que se desenvolveram a partir dos anos 1970 no mundo não mudaram o paradigma do sistema monetário, simplesmente criaram condições de acesso para os milhões de excluídos do sistema bancário, conservando as regras de devolução do capital e dos juros. Trata-se sem dúvida de uma iniciativa épica e inspiradora, que mostra até que ponto é possível mudar o sistema dentro do sistema. Mas é importante assinalar que é a moeda social, não o microcrédito, que representa a ruptura com o modelo vigente, aumentando a massa monetária circulante na medida da mobilização de forças sociais latentes.
Muitos outros projetos de moedas complementares de finalidade social são possíveis. Não falta trabalho a ser feito. O que tem faltado é dinheiro, especialmente tipos diferentes de dinheiro. Podemos facilmente fazer novos acordos sociais para interagir e ajudar uns aos outros. Assim como nenhum martelo pode construir uma casa sozinho, nenhum tipo de dinheiro, por mais engenhoso ou robusto que seja, pode ser projetado para atender às tantas (e frequentemente divergentes) exigências da sociedade. Cada vez mais, comunidades estão encontrando formas inovadoras de suprir necessidades nos oferecendo melhor compreensão do dinheiro e do seu potencial.
Este texto, adaptado de um livro publicado em 2011, é dedicado a Stephen Belgin, que faleceu em 2016.
“Obrigado Stephen!”. Bernard Lietaer

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Para jurista, sociólogo e filósofo português Boaventura de Sousa Santos, para escapar da armadilha dizimadora do capitalismo nortista, devemos enxergar o mundo com os olhos do Sul


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Ao inculcar, com agressividade, que não há alternativa a si e a seu modo de vida, capitalismo lança um desafio de morte. Escapar da armadilha requer recorrer às cosmovisões não-eurocêntricas
Por Boaventura de Souza Santos | Imagem: Antún Kojton, Cosmovisão dos tzeltales maias
Fonte do Texto: site Outras Palavras
Os seres humanos vivem dentro e fora da história. É isto o que os distingue dos animais não-humanos. Fazemos história na medida em que resistimos ao que a história faz de nós. Vivemos o que já foi vivido (o passado nunca passa ou desaparece) e o que ainda não foi vivido (o futuro é vivido como antecipação do que em realidade nunca será vivido por nós). Entre o presente e o futuro há um hiato ou um vazio sutil, que permite reinventar a vida, romper rotinas, deixar-se surpreender por novas possibilidades, afirmar, com a convicção do poeta José Régio, “não vou por aí”. O que irrompe é sempre uma interrupção. A vida é a constante recriação da vida. Doutro modo, estaríamos condenados ao Animal Farm de George Orwell, a viver no pântano de só poder pensar o que já foi pensado.
Neste sentido, podemos afirmar que a forma de capitalismo que hoje domina, vulgarmente designada por neoliberalismo, ao inculcar com crescente agressividade que não há alternativa ao capitalismo e ao modo de vida que ele impõe, configura uma proposta necrodependente, uma economia de morte, uma sociedade de morte, uma política de morte, uma convivência de morte, um vício de ver na morte dos outros a prova mais convincente de que estamos vivos.
Os danos que esta proposta está causando já são hoje evidentes. A imaginação e a criatividade que tornam possível a vida estão sendo sequestradas pelas forças necrodependentes. Apesar de tudo que o que existe na história ter um princípio e um fim, é já hoje difícil imaginar que o capitalismo, que teve um princípio, tenha fim. Se tal dificuldade se comprovar inultrapassável, teremos desistido de sair da história para fazer história, teremos assinado os papéis para entrar na animal farm.
A dificuldade é ultrapassável, mas para tal é necessário des-pensar muito do que até agora foi pensado como sendo certo e perene, sobretudo no Norte Global (Europa e América do Norte). O primeiro des-pensamento consiste em aceitar que a compreensão do mundo é muito mais ampla e diversificada que a compreensão ocidental do mundo.
Entre os melhores teóricos do pensamento eurocêntrico da passagem do século XIX para o século XX houve sempre uma grande curiosidade pelo mundo extra-europeu – de Schopenhauer a Carl Jung, de Max Weber a Durkheim –, mas ela foi sempre orientada para compreender melhor a modernidade ocidental e para mostrar a sua superioridade. Não houve nunca o propósito de apreciar e valorizar nos seus próprios termos as concepções do mundo e da vida que se haviam desenvolvido fora do alcance do mundo eurocêntrico, e que dele divergiam.
Em total consonância com o momento culminante do imperialismo europeu (a Conferência de Berlim de 1884-85 repartiu a África pelas potências europeias), tudo o que não coincidia com a cosmovisão eurocêntrica dominante era considerado atrasado e perigoso e, consoante os casos, objeto de missionação, repressão, assimilação. A força desta ideia residiu sempre na ideia da força dos canhões e do comércio desigual que a impuseram.
No momento em que o mundo eurocêntrico dá evidentes sinais de exaustão intelectual e política, abre-se a oportunidade para apreciar a diversidade cultural, epistemológica e social do mundo e fazer dela um campo de aprendizagens que até agora foi bloqueado pelo preconceito colonial do Norte Global, o preconceito de, por ser mais desenvolvido, nada ter a aprender com o Sul Global.
O segundo des-pensamento é que essa diversidade é infinita e não pode ser captada por nenhuma teoria geral, por nenhum pensamento único global capaz de a cobrir adequadamente. São infinitos os saberes que circulam no mundo. A esmagadora maioria da população do mundo gere a sua vida quotidiana segundo preceitos e sabedorias que divergem do saber científico que reputamos ser o único válido e rigoroso. A ciência moderna é tanto mais preciosa quanto mais se dispuser a dialogar com outros conhecimentos. O seu potencial é tanto maior quanto mais consciente estiver dos seus limites.
Do reconhecimento desses limites e da disponibilidade para o diálogo emergem ecologias de saberes, constelações de conhecimentos que se articulam e enriquecem mutuamente para, a partir de uma maior justiça cognitiva (justiça entre saberes), permitir que se reconheça a existência e o valor de outros modos de conceber o mundo e a natureza e de organizar a vida que não se pautam pela lógica capitalista, colonialista e patriarcal que tem sustentado o pensamento eurocêntrico dominante. Não há justiça social global sem justiça cognitiva global. Só assim será possível criar a interrupção que permita imaginar e realizar novas possibilidades de vida coletiva, identificar alternativas reprimidas, descredibilizadas, invisibilizadas, que, em seu conjunto, representam um fatal desperdício de experiência.
Daí o terceiro des-pensamento: não precisamos de alternativas, precisamos de um pensamento alternativo de alternativas. Esse pensamento, ele próprio internamente plural, visa reconhecer e valorizar experiências que apontam para formas de vida e de convivência que, apesar de pouco familiares ou apenas embrionárias, configuram soluções para problemas que cada vez mais afligem a nossa vida coletiva, como, por exemplo, os problemas ambientais. Tais experiências constituem emergências e só um pensamento alternativo será capaz de, a partir delas, construir uma sociologia das emergências. Consideremos o seguinte exemplo.
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Na Nova Zelândia o rio Whanganui foi formalmente declarado uma entidade viva
A natureza como ser vivo digno
Em 15 de março deste ano o Parlamento da Nova Zelândia aprovou uma lei que confere personalidade jurídica e direitos humanos ao rio Whanganui, considerado pelos índios Maori um rio sagrado, um ser vivo que consideram ser seu antepassado. Ao fim de 140 anos de luta, os Maori conseguiram obter a proteção jurídica que procuravam: o rio deixa de ser um objeto de propriedade e de gestão para ser um sujeito de direitos em nome próprio que deve ser protegido como tal. À luz da concepção eurocêntrica de natureza, que assenta na filosofia de Descartes, esta solução jurídica é uma aberração. Um rio é um objeto natural e como tal não pode ser sujeito de direitos. Foi precisamente nestes termos que a oposição conservadora questionou o primeiro-ministro neozelandês. Se um rio não é um ser humano, não tem cabeça, nem tronco, nem pernas, como lhe atribuir direitos humanos e personalidade jurídica? A resposta do primeiro-ministro foi dada em forma de contra-pergunta. E uma empresa tem cabeça, tem tronco, tem pernas? Se não tem, como nos é tão fácil atribuir-lhe personalidade jurídica?
O que está perante nós é a emergência do reconhecimento jurídico de uma entidade a que subjaz uma concepção de natureza diferente da concepção cartesiana que a modernidade ocidental naturalizou como sendo a única concepção possível. Inicialmente, esta concepção estava longe de ser consensual. Basta recordar Espinosa, a sua distinção entre natura naturata e natura naturans e a sua teologia assente na ideia Deus sive natura (deus, ou seja, a natureza). A concepção espinosista tem afinidades de família com a concepção de natureza dos povos indígenas, não só na Oceânia como nas Américas. Estes últimos consideram a natureza como Pachamama, terra-mãe, e defendem que a natureza não nos pertence; nós é que pertencemos à natureza.
A concepção espinosista foi suprimida porque só a concepção cartesiana permitia conceber a natureza como um recurso natural, transformá-la num objeto incondicionalmente disponível à exploração dos humanos. Afinal era esta uma das grandes razões, senão a maior razão, da expansão colonial e a melhor justificação para a apropriação não negociada e violenta das riquezas do Novo Mundo. E para que a apropriação e a violência fossem plenas, os próprios povos indígenas foram considerados parte da natureza. Foi precisa uma encíclica papal (Sublimis Deus, do Papa Paulo III em 1537) para garantir que os índios tinham alma, uma garantia menos generosa do que pode parecer, uma vez que se destinava a justificar a evangelização (se os índios não tivessem alma, como pretender salvá-los?).
A novidade jurídica vinda da Nova Zelândia tem precedentes. A Constituição do Equador de 2008 estabelece no artigo 71 que a natureza, concebida como terra-mãe, é um sujeito de direitos. E uma semana depois da promulgação da lei neozelandesa, o tribunal supremo do Estado de Uttarakhand da Índia decidiu que os rios Ganges e seu afluente Yamuna eram “entidades humanas vivas”. Se levadas à prática, estas decisões estão longe de ser triviais. Significam, por exemplo, que as empresas que contaminam um rio cometem um ilícito criminal e a indenização a que ficam obrigadas será imensamente superior às que hoje pagam – quando pagam. Já em 1944, Karl Polanyi lembrava na sua obra-mestra, A Grande Transformação, que se as empresas capitalistas tivessem de indenizar adequadamente todos os danos que causam aos seres humanos e à natureza deixariam de ser rentáveis.
Estas inovações jurídicas não surgem de concessões generosas das classes dominantes e elites eurocêntricas. São o culminar de processos de luta de longa duração, lutas de resistência contra a exploração capitalista e colonial, imposta como imperativo de modelos de desenvolvimento que, previsivelmente, só beneficiaram os exploradores. O seu carácter de emergências reside no fato de serem aflorações de uma outra relação entre humanos e natureza que pode ser potencialmente decisiva para resolver os graves problemas ambientais com que nos defrontamos. São emergências porque não servem apenas os interesses dos grupos sociais que as promovem, mas antes os interesses globais da população mundial junto com o aquecimento global e as dramáticas consequências que daí advêm. Para lhes dar o crédito que merecem, não podemos nos apoiar no pensamento eurocêntrico hegemônico. Precisamos de um pensamento alternativo de alternativas, a que venho chamando epistemologias do sul.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Para horror do capEtalismo, existem sinais de uma internet sem dono... Artigo de Trebor Scholz


Fairmondo-team

Sem o alarido do Uber ou AirBnB, multiplicam-se plataformas alternativas para compartilhar casas transporte, produções artísticas e trabalho. Nelas, a lógica do capital é substituída pela cooperativa

Por Trebor Scholz - no Outras Palavras

Terceiro capítulo, revisados e adaptados por Outras Palavras, do livro Cooperativismo de Plataformapublicado no Brasil pela Fundação Rosa Luxemburgo e editoras Elefante e Autonomia Literária. 
Exemplos iniciais de plataformas para cooperação já existem, mas elas estão apenas emergindo. Nomeá-las aqui inevitavelmente excluirá outros projetos importantes. Mas deixar de apresentar exemplos concretos nos deixaria suscetíveis a críticas de que o cooperativismo digital não é nada além de uma ideia abstrata.
Intermediação de trabalho online de propriedade coletiva
Muito provavelmente, você está familiarizado com o modelo de intermediação de trabalho online. Pense em empresas como TaskRabbit, onde você pode agendar que alguém monte seus móveis da Ikea em apenas vinte minutos. O aplicativo no seu aparelho celular serve como intermediário entre você e o trabalhador. A cada transação, a TaskRabbit recebe de 20% a 30% do valor transacionado.
A advogada da “economia do compartilhamento” Janelle Orsi nota um aumento decisivo do interesse por cooperativas. Ela afirma que dezenas de startups de tecnologia e negócios tradicionais, como floristas e paisagistas, buscaram o seu centro – Sustainable Economies Law Center1 — porque estão interessadas em mergulhar na multidão e fazer a migração de seus negócios para o modelo de cooperativa.
COOPERATIVISMO-DE-PLATAFORMA
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Em São Francisco, a Loconomics é uma cooperativa de trabalhadores freelancers (em versão beta) onde os membrxs são donos de ações, recebem dividendos e possuem voz na gestão da empresa. Não há oferta e margem de lucro. A Loconomics oferece massagens e outros serviços que já estão nos locais onde são oferecidos. A inscrição custa US29,95 por mês. Os fundadores estão testando o aplicativo na área de São Francisco no início de 2016 e pretendem lançar em outras cidades dos EUA ao longo do ano.
Ali Alkhatib, um estudante de doutorado em Ciência da Computação em Stanford, trabalhou na Microsoft fuse Labs no desenho de uma “plataforma de economia em pares centrada nos trabalhadores e generalizável” que permitia que trabalhadores fossem donos, operassem e controlassem o software2. O projeto ainda está nos seus estágios iniciais.
Na Alemanha, a Fairmondo começou como um mercado online descentralizado de propriedade dos próprios usuários – uma alternativa cooperativa à Amazon e à eBay. Com 2 mil membros, ela aspira a tornar-se uma alternativa genuína às grandes lojas de comércio eletrônico, permanecendo fiel aos seus valores. O site também promove um pequeno número de trocas justas e empresas eticamente comprometidas. No processo de transferência de seu modelo da Alemanha para outros países, busca construir um mercado online global descentralizado que é propriedade coletiva de por todas as cooperativas locais.
Coopify é uma plataforma de trabalho construída por estudantes que, em breve, irá servir trabalhadores de baixa renda que oferecem serviços sob demanda. Ela foi criada pelo programa de MBA em tecnologia da Universidade de Cornell e financiada pela Robin Hood Foundation, de Nova York. Os trabalhadores da Coopify serão pessoas de baixa renda de Nova York que estão desempregadas e não possuem histórico de crédito que lhes permitam participar de outros mercados online. A plataforma, que tem seu próprio sistema de referência e apoio multilíngue, irá oferecer aos trabalhadores apoio com tributos e permitirá que o pagamento seja feito em dinheiro. A Center for Family Life (CFL) em Sunset Park, Nova York, é uma agência de apoio social que está testando a Coopify. A CFLestá incubando cooperativas de trabalho como uma forma de promover salários justos e condições de trabalho dignas para imigrantes de baixa renda desde 2006. O centro apoia nove cooperativas – a maioria, de mulheres latinas. Coopify irá ajudar essas cooperativas a competir melhor com empresas como Handy e Amazon Flex.
Plataformas cooperativas controladas por cidades
Após falar de produtorxs culturais, vamos dar um grande salto e discutir propriedade pública. O economista político e fundador da Democracy Collaborative, Gar Alperovitz, escreve que há mais de 2.000 entidades públicas do setor elétrico que, juntamente com cooperativas, garantem mais de 25% da eletricidade nos EUA3. Alperovitz indica a longa história de cidades como Dallas, que tinha a propriedade de hotéis, e municípios em todos EUA os que possuíam hospitais. Contrariamente à opinião pública, esse modelo tem aparentemente funcionado bem.
Janelle Orsi tem detalhado ideias sobre propriedade e Internet. Respondendo à minha proposta de clonar e reestruturar tecnologias da economia do compartilhamento com base em valores democráticos, Orsi sugeriu um empreendimento desenhado por uma cidade, similar ao Airbnb, que pudesse servir como um mercado online onde as pessoas alugam seu espaço para viajantes. Tal projeto já está em execução em Seul, na Coreia do Sul, que está propondo criar uma Aliança de Cidades pela Economia de Plataformas (Cities Alliance for Platform Economy, CAPE) com o objetivo de organizar cidades em torno da ideia de plataformas.
O projeto foi batizado como Munibnb e pode ser criado como colaboração entre um grande número de cidades que iriam reunir seus recursos para criar um software de plataforma para aluguéis de curta duração. As taxas poderiam ficar com os donos dos imóveis e poderiam ser direcionadas parcialmente ao município, que as usaria, por exemplo, para políticas para idosos ou manutenção de vias públicas. Orsi pergunta:
Por que milhões de dólares de viajantes fluem de nossas cidades para as mãos de acionistas ricos, especialmente se não é muito difícil iniciar operações por meio de algo como o Munibnb? 4
Outro aplicativo sugerido por Orsi, se chama Allbnb e envolveria o pagamento a residentes do dividendo dos lucros do aluguel dessa plataforma, comparável ao Fundo de Pagamentos do Alaska, que paga aos residentes alguns milhares de dólares todo ano, em razão do lucro que o estado tem com a venda de petróleo. Esses aplicativos parecem factíveis; eles permitiriam que cidades tivessem não somente um papel regulatório na “economia sob demanda”; as cidades estariam ativamente moldando tal economia.
Plataformas de propriedade dos “produsuários”
O termo “produsuário”5, que não é um erro de digitação, mas uma junção dos termos “usuário” e “produtor”6. Plataformas de propriedade dos produsuários são uma resposta às plataformas monopolísticas como Facebook e Google, que atraem usuários com a promessa de “serviço gratuito” mas monetizam seu conteúdo e seus dados.
E se pudéssemos ser donos de nossa própria versão do Facebook, Spotify ou Netflix? E se os fotógrafos do Shutterstock pudessem ser donxs das plataformas onde suas fotos são vendidas?
Sites como Member’s Media, Stocksy e Resonate são um passo na direção de responder a essas perguntas. Eles oferecem aos produsuários a oportunidade de copropriedade do site por meio do qual eles estão distribuindo suas obras de arte. Plataformas de propriedade dos produsuários permitem que artistas construam suas carreiras pela copropriedade das plataformas por meio das quais vendem seu trabalho.
A plataforma Resonatebaseada em Berlim, é uma cooperativa de streaming de música possuída pelas pessoas que a utilizam. Na Resonate, os usuários fazem o stream de uma música até que sejam donos dela. Na primeira vez que uma música é tocada, ela custa 0,002 centavos, na segunda vez 0,004 centavos, e na quarta ou quinta vez, eles se conectam com ela; e, por fim, viram donos dela.
Stocksy7 é uma cooperativa de artistas para a formação de bancos de fotografias. A cooperativa é baseada na ideia de compartilhamento de lucros e copropriedade com os artistas que contribuem com fotos para o site. Os artistas podem se candidatar para se tornarem membrxs e, quando aceitos, licenciam imagens e recebem 50% da comissão de vendas, bem como uma divisão dos lucros no final do ano. O objetivo da cooperativa é criar carreiras sustentáveis para os membrxs. Em 2014, as receitas chegaram a US$ 3,7 milhões de dólares, e, desde a fundação da cooperativa, foram pagos milhões de dólares em lucro para os artistas.
Member’s Media é uma plataforma de mídia possuída cooperativamente que se dedica a produtos e fãs de filmes independentes. As pessoas que usam este site produzem para ele – os produsuários – possuem a maioria da plataforma junto com os membrxs originais e os investidorxs.
Plataformas de trabalho mantidas por sindicatos
Há muitos exemplos de cidades dos EUA onde taxistas e sindicatos começaram a trabalhar juntos, construindo aplicativos e organizando o setor de táxi. E, se as empresas forem inteligentes, elas irão saudar os sindicatos, pois estudos mostram que trabalhadorxs sindicalizadxs têm uma taxa de retenção melhor e, ao menos, a mesma produtividade8.
Em Newark, o serviço Trans Union Car começou como um serviço de táxi sem fins lucrativos com motoristas que eram parte do filiados ao sindicato dos trabalhadores em comunicações (CWA) local. Motoristas beneficiam-se do sindicato com muitas proteções, como acesso a crédito e planos de saúde para imigrantes, bem como fundos de aposentadoria. A empresa está agora planejamento expandir-se para Atlantic City, Elizabeth e Hoboken.
Já em 2007, motoristas de táxi uniram-se ao CWA local e, dois anos mais tarde, conseguiram lançar a Union Taxi, a primeira cooperativa de propriedade de motoristas de Denver. Eles também estão recendo apoio da organização 1worker1vote.org, que apoia cooperativas sindicalizadas ao ajudá-las a encontrar caminhos para negociar salários, planos de benefícios e programas de treinamento. O capital inicial, geralmente um grande problema para cooperativas, é uma questão menor, pois os motoristas já possuem o equipamento.
A organização sem fins lucrativos Associação de Motoristas com Aolicativos da California (CADA) reuniu motoristas de empresas de intermediação de transporte como Uber, Lyft e Sidecar. Os motoristas da CADA não são empregados e, portanto, não podem se tornar membros do sindicato. No entanto, o sindicato Teamster Local 986, da Califórnia, pode fazer pressão para uma regulação amigável aos motoristas. Tenta-se garantir que os motoristas trabalhando para empresas como Lyft e Uber falem com uma voz unifida.
Cooperativas tomadas aos capitalistas
Outra proposta sedutora e imaginária é a ideia de cooperativas de trabalho que se formam no interior do capitalismo do compartilhamento. Motoristas da Uber poderiam usar a infraestrutura técnica da empresa para formar seus próprios empreendimentos. Tal tomada pelos trabalhadores, indesejada pelos donos da plataforma, poderia ser imaginada como o resultado de uma ação antitruste comparável à que foi movida contra a Microsoft após o lançamento do Internet Explorer.
A plataforma como protocolo
Talvez o futuro do trabalho possa não ser ditado por plataformas centralizadas, mesmo se elas forem operadas por cooperativas. A La’Zoozde Israel, por exemplo, é uma rede de caronas e transporte distribuída de ponta a ponta. Enquanto o Member’s Media quer que você pense nele como o Netflix para produtores e fãs, de propriedade dxs produsuários, a La’Zooz pode ser vista como o BitTorrent do compartilhamento de transporte. Qualquer um que está dirigindo em uma cidade pode receber crypto tokens ao levar um viajante para algum destino. De modo distinto ao sistema previamente descrito, este é inteiramente ponta a ponta, não há um ponto central, nenhum quartel-general.
1Sustainable Economies Law Center. http://www.theselc.org.
2Alkhatib, Ali. Designing Worker–Centric Labor Markets. 13 nov. 2015. https://alilkhatib.com/media/presentations/PlatformCooperativism.pdf.
3Alperovitz, Gar; Hanna, Thomas M. Socialism, American-Style. The New York Times23 jul. 2015. http://www.nytimes.com/2015/07/23/opinion/socialism-american-style.html
4Schneider, Nathan. 5 Ways to Take Back the Tech. The Nation, 27 maio 2015. http://www.thenation.com/article/5-ways-take-back-tech.
5N.T.: A tradução do termo produser, criado por Axel Bruns, por produsuário foi feita por Camila Wenzel, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Ver: Wenzel, Camila. A nova economia e o “produsuário” no Second Life. In: XIV Congresso de Ciências da Comunicação na região Sudeste, Rio de Uaneiro, 7-9 maio 2009. http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2009/resumos/R14-0898-1.pdf.
6Sobre o termo produsage, criado por Axel Bruns, ver Schneider, Nathan. Owning is the New Sharing. Shareable, 21 dez. 2014. http://www.shareable.net/blog/owning-is-the-new-sharing.
7Stocksy. Raising the bar–and the industry’s expectations–of stock photography. https://www.stocksy.com/service/about
8Triplett, Jack (Ed.). The Measurement of Labor Cost, University of Chicago, 1983, p.