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segunda-feira, 24 de julho de 2023

Relembre ligações dos Bolsonaro com milicianos do caso Marielle

 

Do Jornal GGN:


Élcio Queiroz, novo delator do caso Marielle, tirou foto com Jair. Ele dirigiu o carro do executor Ronnie Lessa, vizinho de Bolsonaro



A Polícia Federal avançou uma etapa importante na apuração do caso Marielle. Nesta segunda (24), o ministro Flávio Dino anunciou que provas obtidas pelos investigadores levaram à delação de Élcio Queiroz.

Em sua delação, Élcio Queiroz teria prestado detalhes sobre a execução do crime. Élcio admitiu que dirigiu o carro usado por Ronnie Lessa, que foi quem metralhou o veículo que transportava Marielle Franco em março de 2018. Além de Marielle, os milicianos também atingiram o motorista da vereadora, Anderson Gomes.

Élcio ainda implicou um terceiro envolvido preso nesta segunda (24): Suel, apelido de Maxwell Corrêa, que teria participado dos atos preparatório, monitorando os passos de Marielle ao longo de semanas. Suel ainda teria ajudado a proteger os autores do crime e a obstruir as investigações ocultando armas.

Ronnie Lessa e Élcio Queiroz são dois ex-policiais militares, envolvido com a milícia do Rio de Janeiro, que acabaram ligados à família Bolsonaro no início das investigações.

Élcio Queiroz tem foto abraçado com Jair Bolsonaro [destaque]. Segundo a revista Veja, a foto teria sido feita em 2011.

Ronnie Lessa morava no Vivendas da Barra, o mesmo condomínio onde Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro têm imóvel. A filha de Ronnie Lessa, inclusive, teria tido um relacionamento com Renan Bolsonaro.

No começo das investigações, o porteiro do Vivendas da Barra teria dito que partiu da casa 58, de Jair Bolsonaro, a autorização para que Élcio Queiroz entrasse no condomínio com o carro usado na execução de Marielle, no mesmo dia do crime. Embora tenha sido autorizado pela casa 58, Élcio teria ido encontra Ronnie na casa 66.

Depois, porém, a grande mídia reportou que o porteiro recuou da história e que seu depoimento foi tratado como “mentiroso” por uma promotora bolsonarista que trabalhava no caso. Autoridades chegaram a questionar, à época, se o depoimento do porteiro, citando o nome de Bolsonaro, era uma tentativa de atrapalhar as investigações, porque toda vez que o nome do ex-presidente era citado, a investigação precisava ser desmembrada e enviada para o foro competente.

Outra peça chave da investigada pela morte de Marielle era o miliciano Adriano da Nóbrega, membro do Escritório do Crime. Ronnie Lessa atribuiu o assassinato da ex-vereadora ao grupo de matadores de aluguel comandado por Nóbrega.

Em fuga por conta de outro inquérito, Adriano da Nóbrega foi morto em operação da polícia da Bahia, em 2020, e o caso circulou na opinião pública como possível “queima de arquivo”.

Quando Adriano foi morto, membros do Escritório do Crime teriam ligado para “Jair” ou “presidente” ou “homem da casa de vidro”, segundo escutas feitas a pedido do Ministério Público. As escutas foram canceladas sob a justificativa de que se o interlocutor fosse mesmo Jair Bolsonaro, o MP não teria competência para o caso.

Adriano da Nóbrega teve mulher e mãe lotadas no gabinete de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, e era amigo do ex-assessor Fabrício Queiroz, pivô das rachadinhas no gabinete da ALERJ. Adriano da Nóbrega já foi defendido na tribuna por Jair Bolsonaro e condecorado por Flávio Bolsonaro.

Segundo Flávio Dino, com a prisão de Ronnie Lessa, Élcio Queiroz e Suel pela execução de Marielle e Anderson Gomes, a Polícia Federal pode avançar sobre outra etapa da investigação: os mandantes do crime.

domingo, 25 de abril de 2021

Reportagem do El País: “Os Bolsonaro sempre foram os representantes ideológicos dos grupos milicianos”

 

Do El País:


Autor do livro ‘A República das milícias’, Bruno Paes Manso traça as origens dos esquadrões da morte até a reverberação no Palácio do Planalto. Obra traça importância de Fabrício Queiroz para consolidar votações de clã presidencial em bairros cariocas



O jornalista, escritor e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP Bruno Paes Manso.DIVULGAÇÃO / EDITORA TODAVIA


São Paulo

Um terremoto silencioso começou no bairro de Rio das Pedras, localizado nas franjas da floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, na virada para os anos 2000. Aos poucos, suas ondas sísmicas se espalharam por comunidades da baixada fluminense, da zona oeste, chegando até mesmo à Assembleia Legislativa e ao Tribunal de Contas do Estado. 

Os tremores tiveram reflexos também em Brasília. Foi naquela comunidade pobre de ruas estreitas e trânsito caótico —onde posteriormente Fabrício Queiroz, pivô do escândalos dos Bolsonaro, iria se refugiar das autoridades— que nasceu uma das primeiras milícias do Rio. “Policiais que moravam na região criaram a milícia de Rio das Pedras, e estabeleceram as regras da economia informal dessas áreas”, escreve o jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso em seu livro mais recente, A República das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (Editora Todavia).

O que se seguiu foi uma expansão vertiginosa deste modelo de governança local, cujas marcas registradas são a cobrança de taxas dos moradores, venda de botijões com sobrepreço, controle sobre o transporte clandestino, loteamento irregular de terrenos e uma forte dose de violência contra quem viola as regras. Manso mostra como o medo da entrada do tráfico de drogas nas comunidades, aliado a uma polícia historicamente violenta, herança do tempo dos esquadrões da morte surgidos nos anos de 1960 e 1970, cimentou o terreno para a expansão das milícias em territórios onde o poder público era inexistente. Afinal, vale o bordão: “O poder não deixa vácuo”. Em momentos de crise política, como agora, as milícias se fortalecem: “Quanto mais desacreditadas as instituições, mais força ganham estes grupos, pois passam a ser fiadores da ordem nos territórios. Se você não tem para onde correr, estes grupos oferecem alguma proteção. E claro, impõe um domínio tirânico.”

O autor também aborda a relação da família Bolsonaro com os grupos milicianos, encabeçada por Fabrício Queiroz, que abriu portas para os jovens candidatos da família nos batalhões de polícia e bairros controlados por milícias. Em comum, a crença na “violência redentora” como salvação para o Rio (e agora para o Brasil). “Os Bolsonaro sempre foram os representantes ideológicos dos grupos milicianos. Eles podem não ter uma ligação direta com os grupos que fazem negócios nestas comunidades, mas sempre fizeram discursos favoráveis a eles”, afirma Manso em entrevista ao EL PAÍS. “Seja o Flávio, que já falou em legalizar as milícias, ou o Jair, dizendo que elas trazem ordem. Então existem afinidades ideológicas, principalmente quanto ao uso da violência como ferramenta para estabelecer ordem nesses lugares”, diz o autor.

No livro fica claro o papel central que Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio, teve para fortalecer o clã Bolsonaro junto a policiais e milicianos. “A articulação do Queiroz facilitou muito a vida dos Bolsonaro que se elegem pelo Rio [Eduardo disputa por São Paulo], principalmente nos primórdios”, explica Manso. Durante um bom tempo, “ele era a pessoa que fazia a ponte da família com a base eleitoral da Polícia Militar, da Polícia Civil, com policiais da zona oeste, e com os familiares dessas pessoas”. O batalhão onde Queiroz atuou, em Jacarepaguá, sempre foi muito ligado aos grupos milicianos, e o assessor circulava com desenvoltura nesse meio, entre paramilitares e militares.

A partir de 2014 Queiroz passa a desempenhar outro papel para a família Bolsonaro. “Quando começa a crise política pós-junho de 2013, com a Operação Lava Jato e tudo o mais, o discurso do Bolsonaro de guerra à corrupção e uso de violência começa a fazer sentido para um grupo maior de pessoas, não mais apenas para o nicho representado por Queiroz”, diz o autor. Neste momento o assessor passa a ser uma “peça burocrática no gabinete, responsável por organizar a rachadinha [o confisco de parte do salário dos funcionários. Flávio e Queiroz foram denunciados pelo crime, que negam ter cometido, e ambos conseguiram importantes vitórias no processo]”. “Mas o grande apelo eleitoral dos Bolsonaro deixa de depender dele”, afirma.

A aliança das milícias com grupos de traficantes evangélicos do Terceiro Comando Puro, que comandam o Complexo de Israel (onde religiões de matriz africana são proibidas), também é abordada no livro, traçando um panorama sombrio para o futuro do Rio de Janeiro, com uma espécie de milícia 2.0. “As milícias estão tentando fazer estas alianças, e a ligação com o tráfico me parece inevitável. É uma fonte de receitas das quais eles não parecem querer abrir mão”, diz Manso. O objetivo final seria alcançar uma hegemonia semelhante à que o Primeiro Comando da Capital tem em São Paulo, onde o grupo criminoso “conseguiu se tornar o governo do mundo do crime, com regras, protocolos e prazos de pagamento determinados pela organização. Eles profissionalizaram essa cena criminosa e se tornaram o Governo onde o Governo não chega”. É cedo para dizer, no entanto, que esta parceria irá se tornar a maior força do crime organizado do Rio: “O Comando Vermelho continua uma força enorme do Rio, com centenas de fuzis e um potencial de violência imenso. Então há um equilíbrio de forças por enquanto”

No outro front da batalha das milícias pelo poder está a sempre presente necessidade de se infiltrar no Estado —e se tornar parte dele. Após uma primeira geração de líderes que se lançaram na política, como os irmãos Jerominho e Natalino Guimarães, acusados de fundar a milícia Liga da Justiça e que foram presos e destituídos de seus mandatos, agora os chefes paramilitares lançam mão de laranjas para disputar cargos públicos. “A influência destes grupos nas instituições do Estado é fundamental para que eles prosperem. O modelo de negócio das milícias depende disso: para que a milícia amplie seus negócios é preciso que existam pessoas nas estruturas do Estado que assumam esse cinismo, que façam vista grossa”. Ou seja, para que a milícia prospere, basta que o poder público não faça nada.

Para os grupos milicianos, existem oportunidades de ganho em quase todas as atividades comerciais, legais ou ilegais. “Eles se beneficiam de legislações que flexibilizam o monitoramento ambiental, para que possam lotear áreas de proteção, ou de fiscais corruptos, para erguer prédios sem os alvarás, como ocorreu em Muzema [em abril de 2019 dois prédios desabaram em Muzema, na zona oeste do Rio, deixando 24 mortos. As edificações foram erguidas por milicianos]. Sem falar do peso que a influência política exerce em um batalhão de polícia para que faça vista grossa diante de uma série de crimes cometidos”, aponta Manso.