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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Atuação de Sérgio Moro é marcada pela total falta de ética, diz Eugênio Aragão

 

“Sergio Moro já mostrou há algum tempo que não tem ética nenhuma, ele não leva a ética a sério. É um discurso frágil que ele tinha o de falar de combate à corrupção”, disse o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão

Eugênio Aragão e Sergio Moro

Eugênio Aragão e Sergio Moro (Foto: Lula Marques | Reuters)

Rede Brasil Atual e 247- A atuação do ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça Sergio Moro é marcada por conflitos de interesses e falta de ética. “Sergio Moro já mostrou há algum tempo que não tem ética nenhuma, ele não leva a ética a sério. É um discurso frágil que ele tinha o de falar de combate à corrupção”, afirma o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão.

“Quando a gente vai para a vida pessoal dele, vê que as opções que ele fez sempre incorrem em conflitos de interesses. Primeiro ele foi ser ministro da Justiça de Bolsonaro, que só foi eleito porque Lula foi impedido de participar das eleições de 2018”, destacou Aragão nesta quarta-feira (2), em entrevista a Talita Galli, do programa vespertino Bom Para Todos, na TVT.

Nesta quarta-feira, o Tribunal de Ética e Disciplina da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) notificou o ex-juiz da Lava Jato, com a advertência de que “é vedada” a atividade privativa da advocacia aos clientes da Alvarez & Marsal, da qual Moro se tornou sócio-diretor.

Segundo reportagem do Conjur, “o texto alerta que Moro não pode praticar atividade privativa da advocacia para clientes da A&M, sob pena de adoção de medidas administrativas e judiciais pertinentes”.

A notificação também lembra que as empresas de consultoria são expressamente proibidas de “prestar serviços jurídicos a seus clientes, incluindo assessoria e consultoria jurídica, nem mesmo por advogados internos, independentemente do cargo ou função exercidos”.

OAB deve atuar com rigor

Ante a demonstração de Moro de falta de ética, Aragão defende que a OAB atue nesse caso com rigor. Ele também entende que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deve se manifestar sobre o ato de Moro. “É um caso até de representação no CNJ, porque por mais que Moro não seja mais juiz, foi permitido a ele se exonerar. E agora, diante de fatos que remontam à sua atuação como juiz, isso tudo tem de ser devidamente analisado, já que agora ele atua para essas empresas, para saber se ali não houve alguma promessa de vantagem. Isso poderia levar à conversão da exoneração dele em demissão”, apontou.

“Eu não descartaria, além da OAB, também uma providência de averiguação junto ao CNJ para verificar realmente sob que condições o Moro aceitou ser sócio dessa empresa depois de ter atuado para destruir aqueles ativos que agora serão administrados.”

Precedente

Na TVT, Aragão lembrou ainda que tirar Lula da eleição de 2018 e depois ir trabalhar como ministro da Justiça do governo Bolsonaro também foi um ato marcado por conflito de interesse. O precedente desse tipo de atitude na história do país ocorreu quando o governo Fernando Collor, no início dos anos 1990, convidou o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Francisco Rezek para ser seu ministro das Relações Exteriores.

“Agora há um outro conflito de interesses, e que parece até mais evidente”, afirma Aragão, sobre o anúncio de Moro de entrar como sócio da empresa de advocacia Alavarez & Marsal. “Enquanto juiz ele manuseou documentos desse escritório de consultoria e teve esses documentos como imprestáveis para absolver Lula. Quando era mais do que evidente ali que o imóvel cuja propriedade era atribuída a Lula pertencia à OAS.”

O conhecimento liberta. Saiba mais

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Carta pública aos ex-colegas da Lava-Jato, por Eugênio Aragão



Declarem-se suspeitos em relação ao alvo de seu ódio. Ainda é tempo de porem a mão na consciência, mostrarem sincero remorso e arrependimento, porque aqui se faz e aqui se paga.


Carta pública aos ex-colegas da Lava-Jato

por Eugênio Aragão

Sim. Ex-colegas, porque, a despeito de a Constituição me conferir a vitaliciedade no cargo de membro do Ministério Público Federal, nada há, hoje, que me identifique com vocês, a não ser uma ilusão passada de que a instituição a que pertenci podia fazer uma diferença transformadora na precária democracia brasileira. Superada a ilusão diante das péssimas práticas de seus membros, nego-os como colegas.
Já há semanas venho sentindo náuseas ao ler suas mensagens, trocadas pelo aplicativoTelegram e agora reveladas pelo sítio The Intercept Brasil, num serviço de inestimável valor para nossa sociedade deformada pela polarização que vocês provocaram. Na verdade, já sabia que esse era o tom de suas maquinações, porque já os conheço bem, uns trogloditas que espasmam arrogância e megalomania pela rede interna da casa. Quando aí estava, tentei discutir com vocês, mostrar erros em que estavam incidindo no discurso pequeno e pretensioso que pululava pelos computadores de serviço. Fui rejeitado por isso, porque Narciso rejeita tudo que não é espelho. E me recusava a me espelhar em vocês, fedelhos incorrigíveis.
A mim vocês não convencem com seu pobre refrão de que “não reconhecem a autenticidade de mensagens obtidas por meio criminoso”. Por muito menos, vocês “reconheceram” diálogo da Presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff com o Ex-Presidente Lula, interceptado e divulgado de forma criminosa. Seu guru, hoje ministro da justiça de um desqualificado, ainda teve o desplante de dizer que era irrelevante a forma como fora obtido acesso ao diálogo, pois relevaria mais o seu conteúdo. Tomem! Isso serve que nem uma luva nas mãos ignóbeis de vocês. Quem faz coisa errada e não se emenda acaba por ser atropelado pelo próprio erro.
Subiu-lhes à cabeça. Perderam toda capacidade de discernir entre o certo e o errado, entre o público e o privado, tamanha a prepotência que os cega. Não têm qualquer autocrítica. Nem diante do desnudamento de sua vilania, são capazes de um gesto de satisfação, de um pedido de desculpas e do reconhecimento do erro. Covardes, escondem-se na formalidade que negaram àqueles que elegeram para seus inimigos.
Esquecem-se que o celular de serviço não se presta a garantir privacidade ao agente público que o usa. Celulares de serviço são instrumentos de trabalho, para comunicação no trabalho. Submete-se, seu uso, aos princípios da administração, entre eles o da publicidade, que demanda transparência nas ações dos agentes públicos. Conversas de cunho pessoal ali não devem ter lugar e, diante do risco de intrusão, também não devem por eles trafegar mensagens confidenciais. Se houver quebra de confidencialidade pela invasão do celular, a culpa pelo dano ao serviço é do agente público que agiu com pouco caso para com o interesse da administração e depositou sigilo funcional na rede ou na nuvem virtual. Pode por isso ser responsabilizado, seja na via da improbidade administrativa, seja na via disciplinar, seja no âmbito penal por dolo eventual na violação do sigilo funcional. Não há, portanto, que apontarem o dedo para os jornalistas que tornaram público o que público devesse ser.
De qualquer sorte, tenho as mensagens como autênticas, porque o estilo de vocês – ou a falta dele – é inconfundível. Mesmo um ficcionista genial não conseguiria inventar tamanha empáfia. Tem que ser membro do MPF concurseiro para chegar a tanto! Umas menininhas e uns menininhos “remplis de soi-mêmes”, filhinhas e filhinhos de papai que nunca souberam o que é sofrer restrições de ordem material e discriminação no dia a dia. Sempre tiveram sua bola levantada, a levar o ego junto. Pessimamente educados por seus pais que não lhes puxaram as orelhas, vocês são uns monstrengos incapazes de qualquer compaixão. A única forma de solidariedade que conhecem é a de uma horda de malfeitores entre si, um encobrindo um ao outro, condescendentes com os ilícitos que cada um pratica em suas maquinações que ousam chamar de “causa”. Matilhas de hienas também conhecem a solidariedade no reparto da carniça, mas, como vocês, não têm empatia.
Digo isso com o asco que sinto de vocês hoje. Sinto-me mal. Tenho vontade de vomitar. Ao ler as mensagens trocadas entre si em momentos dramáticos da vida pessoal do Ex-Presidente Lula, tenho a prova do que sempre suspeitei: de que tem um quê de psicopatas nessa turma de jovens procuradores, uma deformação de caráter decorrente, talvez, do inebriamento pelo sucesso. Quando passaram no concurso, acharam que levaram o bilhete da sorte, que lhes garantia poder, prestígio e dinheiro, sem qualquer contrapartida em responsabilidade.
Sim, dinheiro! Alguns de vocês venderam  sua atuação pública em palestras privadas, em troca de quarenta moedas de prata. Mas negaram ao Ex-Presidente Lula o direito de, já sem vínculo com a administração, fazer palestras empresariais. As palestras de vocês, a passarem o trator sobre a presunção de inocência, são sagradas. Mas as de Lula, que dão conta de sua visão de Estado como ator político que é, são profanas. E tudo fizeram na sorrelfa, enganando até o corregedor e o CNMP.
Agora, a cerejinha do bolo. Chamam Lula de “safado”, fazem troça de seu sofrimento, sugerem que a trágica morte de Dona Mariza foi queima de arquivo… chamam o luto de “mimimi” e negam o caráter humano àquele que tão odienta e doentiamente perseguem! Só me resta perguntar: onde vocês aprenderam a ser nazistas? Pois tenho certeza que o desprezo de vocês pelo padecimento alheio não é diferente daqueles que empurravam multidões para as câmaras de gás sem qualquer remorso, escorando-se no “dever para com o povo alemão”. Ao externarem tamanha crueldade para com o Ex-Presidente Lula, vocês também invocarão o dever para com o Brasil?
Declarem-se suspeitos em relação ao alvo de seu ódio. Ainda é tempo de porem a mão na consciência, mostrarem sincero remorso e arrependimento, porque aqui se faz e aqui se paga. A mão à palmatória pode redimi-los, desde que o façam com a humildade que até hoje não souberam cultivar e empreendam seu caminho a Canossa, para pedirem perdão a quem ofenderam. Do contrário, a história não lhes perdoará, por mais que os órgãos de controle, imbuídos de espírito de corpo, os queiram proteger. A hora da verdade chegou e, nela, Lula se revela como vítima da mais sórdida ação de perseguição política empreendida pelo judiciário contra um líder popular na história de nosso país. Mais cedo ou mais tarde ele estará solto e inocentado, já vocês…
Despeço-me aqui com uma dor pungente no coração. Sangro na alma sempre que constato a monstruosidade em que se transformou o Ministério Público Federal. E vocês são a toxina que acometeu o órgão. São tudo que não queríamos ser quando lutamos, na Constituinte, pelo fortalecimento institucional. Esse desvio de vocês é nosso fracasso. Temos que dormir com isso.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Entrevista da Rede TVT com o ex-ministro Eugênio Aragão: "'É claro que Glenn Greenwald é hoje o inimigo número 1 de Moro. E Moro destrói seus inimigos'



Do Canal da Rede TVT:


Segundo o ex-ministro da Justiça do Governo Dilma Rousseff, Eugênio Aragão, a Portaria 666, publicada no Diário Oficial da União desta sexta-feira (26), que dispõe, entre outros pontos, sobre a “deportação sumária de pessoa perigosa ou que tenha praticado ato contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal”, é mais um episódio que demonstra que os objetivos políticos norteiam a conduta do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. “Essa portaria é mais um episódio disso, essa boquirrotice do Moro em dizer ‘eu posso, eu aconteço e eu faço’. É claro que Glenn Greenwald é hoje o inimigo número 1 de Moro. E Moro destrói seus inimigos. Ele é absolutamente inescrupuloso. Ele fez isso em toda sua carreira”, afirma Aragão, em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

A grande mentira da vitimização dos neofascistas. Por Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça


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A pequena república da Áustria está em polvorosa. Uma gravação de vídeo pôs a nu intenções rasteiras da cúpula do FPÖ – o Freiheitliche Partei Österreichs (trad. “Partido Liberal da Áustria”), que, apesar de carregar o adjetivo “liberal” no nome, não passa de um ninho de nazistas saudosistas – de vender ativos estratégicos da economia do país a oligarcas russos, em troca de apoio financeiro e eleitoral. A interceptação conspirativa teria se dado em julho de 2017, às vésperas das eleições federais austríacas, que levariam o FPÖ ao poder, como parceiro minoritário do governo de coalizão com o conservador ÖVP – Österreichische Volkspartei (trad. “Partido Popular Austríaco”).

Os protagonistas do animado convescote regado a muito álcool e clandestinamente interceptado – ocorrido numa vila de veraneio em Ibiza, alugada a quase mil euros por noite – são o presidente do partido (o estridente Heinz-Christian Strache, hoje vice-premiê na coligação de centro-direita que governa a Áustria), o atual líder da bancada do FPÖ no Conselho Nacional, o parlamento austríaco (o pau-para-toda-obra de Strache, Johann Gudenus, filho de um negador do holocausto condenado) e a suposta sobrinha de um oligarca russo de nacionalidade letã. A bilionária é apresentada a Strache por Gudenus, como quem tencionaria investir no mínimo meio bilhão de euros na economia da república alpina. Para tanto, propõe-se a ajudar o FPÖ em troca de facilidades em contratos públicos.

A conversa gira em torno da lavagem de ajuda financeira por meio de uma entidade de utilidade pública não vinculada ao partido, como forma de desviar das exigências legais de registro de doações partidárias no tribunal de contas e de limitação de doações estrangeiras. Afinal, lembra Gudenus a Strache, o dinheiro não seria de procedência “completamente regular”.

A investidora confidencia que estaria prestes a adquirir metade das cotas do principal periódico austríaco, a Kronen-Zeitung, com conversas já bem avançadas com os herdeiros do fundador do jornal. Sugere-se que a compra poderia acontecer antes das eleições para ajudar o FPÖ na campanha. Strache se entusiasma com a perspectiva de, segundo o próprio, poder fazer 34 porcento dos votos ao invés dos 27 porcento previstos, se contar com ajuda de um diário desse porte. Em compensação, a bilionária poderia dar como certo o controle sobre as concessões de autoestradas, hoje com a concessionária Strabag, controlada por um desafeto do chefe do FPÖ. Segundo Strache, se o FPÖ ganhasse com ajuda da russo-letã, “todos os contratos seriam seus”.

Strache adora se apresentar para o público como o único político limpo, diferente dos demais, um cumpridor das leis, que não se mistura com a lama da política dominante. E, na sua conversa indecente com a bilionária faz questão de dizer que “tudo tem que ser de acordo com a lei”, ainda que proponha negócios francamente escusos e fale em limpar a mídia de jornalistas que se oponham ao FPÖ, tratando a classe como a das “maiores prostitutas do planeta”. Elogia o premiê direitista húngaro, Victor Orbán, que, com apoio de um empresário endinheirado, conseguiu assumir todo controle sobre a imprensa de seu país.

A divulgação do vídeo pela bávara Süddeutsche Zeitung e pela revista alemã Der Spiegel desencadeou uma tormenta na política austríaca, já bastante abalada com a parceria entre conservadores e neonazistas que se intitulam de liberais. O jovem premiê Sebastian Kurz, do ÖVP, foi obrigado, diante da comoção pública, a por fim à coalizão e pedir ao Presidente Alexander van der Bellen a dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições.

Strache, aos costumes, pediu desculpas a seu eleitorado pelo passo em falso, mas não mostrou propriamente arrependimento, preferindo atacar forças do establishment que não querem uma nova forma de se fazer política.

O discurso é sempre o mesmo entre direitistas que não se conformam com as regras da democracia verdadeiramente liberal-burguesa.

Chegam ao poder pelas regras dessa democracia, mas a tacham de “injusta” e “desleal” para com sua forma “diferente” de governar. Acusam a democracia e suas instituições de “sabotar” a direita no poder.

Strache não é diferente de Jair Bolsonaro, sempre à espreita de inimigos, ao invés de se colocar argumentativamente contra os que contestam, dentro do jogo democrático, suas ideias e iniciativas simplórias e rasteiras. E nisso ambos têm longa tradição.

Matéria do Der Spiegel lembra hoje da forma de agir dessa direita desde a época da chegada ao poder de Adolf Hitler, em 1933. A comparação com o que acontece no Brasil de hoje é inevitável. Diz-se na revista alemã:

“Strache permanece Strache. Depois de o mundo inteiro poder testemunhar sua tentativa, inspirada no modelo húngaro, de remodelar o panorama da mídia em seu país com investimentos russos, queixa-se – em sua coletiva de imprensa no sábado – duma campanha “jogada a partir do exterior”.

Em completa distorção da situação, trata como escândalo o fato da interceptação clandestina, sem admitir o óbvio: que não teria havido nada para interceptar, se não tivesse formulado tais planos concretos para a transformação da Áustria. A única fonte daquilo que corretamente chama de “lixeira” é ele mesmo. É por isso que nenhum poder no mundo poderia salvá-lo: afundou-se num barco que ele mesmo construiu.

No entanto, toda sua declaração de renúncia foi uma tentativa de dividir a responsabilidade com os outros.

Alguns, como o conselheiro político israelense Tad Silberstein e o satirista alemão Jan Böhmermann, mencionou pelo nome, mas, acima de tudo, entregou-se a insinuações. Apontou para redes e agrupamentos, num tom sinistro, com um horizonte cheio de nuvens cinzentas escuras, em que cada qual da audiência que lhe é simpática pode reconhecer outra coisa.

O poder capaz de mudar – e até de explodir – todas as regras, que tanto fascina a extrema direita, depende de tais projeções. É preciso ser apontado um motivo pelo qual o sistema deve ser derrubado e este é melhor identificado ao atribuir a si o papel da suposta vítima.

Somente quando se puder provar que, na relação com um poder superior hostil, todos os meios anteriores de compromisso e de solução de controvérsias são injustos e ameaçadores, é que se pode criar uma situação de emergência legal capaz de legitimar medidas mais extremas. Dificilmente alguma outra imagem pode mobilizar melhor tais energias e aliviar os escrúpulos que a da ameaça de poderes omnipotentes a agirem clandestinamente.

Após a Primeira Guerra Mundial, essa função foi cumprida pela lenda da adaga nas costas, segundo a qual a Primeira Guerra Mundial teria sido vencida pela Alemanha, se, no foro doméstico, imprensa, os políticos e os judeus não tivessem traído os soldados. Durante décadas, os judeus, comunistas e social-democratas foram, aos olhos da direita, os agentes de uma sempre subestimada ameaça – o que alimentou um ódio irracional a desencadear impiedosamente sua atividade cruel e a praticar os maiores crimes da história da humanidade.

Hoje, os tempos e os movimentos são outros, mas os padrões pelos quais se justificam atitudes radicais permanecem semelhantes. Eles [n.t. – a direita radical] não confiam na troca de razões e argumentos, no discurso público, mas apenas na mecânica do poder. Se você demitir jornalistas críticos, estará livre das críticas nesta visão de mundo mecânica. Eis que a ameaça nunca diminui – a possibilidade que a direita tem, na Europa, de alcançar o sucesso eleitoral e assumir a responsabilidade, de acordo com esta lógica, não é prova da fairness do sistema. Qualquer falha dos planos da direita, como o Brexit, não é prova de sua inadequação. Tudo aponta para poderes superiores e ocultos que exigem resposta adequada. Não se trata de concepção, de propostas políticas e possibilidades, mas de proteção e necessidade…”

Bolsonaro e sua tropa de choque, capitaneada por seus filhos incultos, atrevidos e agressivos, adotam o mesmo padrão. Criam crises para, nelas, se fazerem de vítimas. Tudo – as “corporações”, o “sistema”, permeados do “marxismo cultural” – conspira contra “a nova forma de governar”, contra “o projeto escolhido pelos eleitores”, como se projeto houvesse que “eleitores” pudessem conscientemente escolher.

Ainda antes das eleições e durante a campanha, era a Justiça Eleitoral que não prestava, ao adotar um sistema de votação, a urna eletrônica, talhada para “roubar” a vitória de Bolsonaro. O partido adversário foi demonizado como pervertido, com a mentira da “mamadeira de piroca” e o “kit gay” para as crianças nas escolas. Quando ganharam as eleições, já no governo, se puseram a “despetizá-lo”, mesmo que houvesse dois anos que o governo já não era do PT. A partir daí, não se passou uma semana sem uma declaração polêmica de Bolsonaro ou de seus ministros, a causar rebuliço no espaço político. Tem sido tanto vento na farinha, que não se conseguiu cozer um único pão. O governo da direita tem sido um vazio de ideias e projetos e um ataque permanente a todas as instituições e aos atores públicos, como se nada prestasse e tudo tivesse que ser destruído para levar adiante “uma nova forma de governar”, que ninguém, ao certo, sabe o que é.

Para deixar bem claro, os eleitores de Bolsonaro não votaram em projeto nenhum. Votaram contra “tudo que aí está”, mas não votaram a favor de nada, até porque seu candidato fugiu do debate de ideias como o diabo foge da cruz, com medo, de certo, de ser posta à evidência a grande fraude que era sua candidatura. Não pode, por isso, o Sr. Bolsonaro dizer que faz isso ou aquilo porque “o eleitor” assim escolheu. Ele, o eleitor, não escolheu nada. Apenas repudiou. E não se faz um governo somente com repúdios.

Mas agora que percebe dilapidado todo seu ativo político, com a insatisfação contra seu governo crescendo de semana a semana e sem qualquer apoio sólido no legislativo para dar curso a seus projetos de lei mal elaborados e não negociados com a sociedade, quer dar a entender que é impossível governar com as instituições – chamadas de modo pouco definido de “corporações” – porque todas conspirariam contra seu mandato.

É a ladainha de sempre: incapaz de ver que causou ele mesmo sua vulnerabilidade, Bolsonaro distribui a responsabilidade aos outros, “às corporações” que infestam o estado e “tornam o Brasil disfuncional”. Não há diferença entre o Sr. Strache e o Sr. Bolsonaro, afora que o primeiro foi flagrado com a mão na botija e o segundo talvez ainda espere sê-lo, o que não é difícil, dadas as tortas relações de sua família com o submundo do crime carioca. É só uma questão de tempo. E aí veremos se pedirá para sair, como o Sr. Strache, ou se conclamará sua turba para tentar o golpe no grito e na marra.

Esperemos as cenas dos próximos capítulos.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça

segunda-feira, 18 de março de 2019

A Lava-Jato e a ANPR contra a procuradora-geral da República: mais um desserviço ao País, por Eugênio Aragão


"Pretendem que sua “independência funcional” tudo pode, como se soberanos fossem"



Do GGN:

O ministério público federal (mpf, com iniciais minúsculas mesmo) chegou ao fundo do poço. Entre tapas, arranhões e puxadas de cabelo, a instituição parece mostrar, de público, que não está à altura de sua missão constitucional. Nunca se viu tamanha degradação. Alguns membros lá da província do sul, embevecidos com a reputação que ilicitamente construíram na famigerada “operação Lava-Jato”, perderam todas as estribeiras e passaram a ignorar a lei, a chefia e até os princípios que regem o funcionamento de sua casa. Pretendem que sua “independência funcional” tudo pode, como se soberanos fossem.
Bem a calhar, lembro-me de certo episódio da alvorada de minha carreira no mpf, quando o então Procurador-geral da República, Ministro José Paulo Sepúlveda Pertence, foi indagado por sua nova assessora de imprensa, Memélia Moreira, sobre como se devesse dirigir aos procuradores da república. Perguntou-lhe a novata: é com “excelência”…? Respondeu o Ministro Pertence sem titubear, na fina ironia que lhe é própria: de “excelência”, chame a mim! Aos procuradores, reporte-se por “majestade”!
De lá para cá, as coisas só pioraram. Fui corregedor, pude constatar como uma parte nem tão numerosa, mas bem barulhenta deles tem dificuldade, no extremo de seu narcisismo, de lidar com frustrações. Não são deuses, são professores de Deus! Ninguém com eles pode e, em tempos mais recentes, a diretoria de sua associação (Associação Nacional dos Procuradores da República – (ANPR) passou a ser seu santo ofício, escolhendo lado em brigas entre associados, para canonizar sobre o que é certo e errado pensar e dizer dentro da instituição. Ai daquele que ousar ter ideias próprias. Pesa-lhe a eterna danação na carreira, como se tivesse violado a regra de “omertà” de uma organização mafiosa.
Curitiba levou à perfeição esse perfil funcional, como guarda pretoriana do ministério público ao qual tudo é permitido, desde que em consonância com o projeto de poder desenhado pelo santo ofício. Vozes dissonantes são eliminadas não só por bullying interno, mas sobretudo por uma mídia ávida em dar sustentação a esse projeto, para impedir que atores da esquerda partidária permaneçam ou voltem ao governo. Contam para isso com um juiz que legitima e enfurecidamente agrava as ilegalidades dos procuradores. Ao PowerPoint do “chefete” da autointitulada “força-tarefa” a caluniar o ex-Presidente Lula se acrescem vazamentos de interceptações ilegais de comunicações, distribuição à imprensa de depoimentos sigilosos extraídos à base da extorsão, contra-ordem sem jurisdição para descumprir mandado em habeas corpus expedido por superior instância, leiloamento de bens arrecadados de réus antes do trânsito em julgado de sentença primeva condenatória e por aí vai.
A ousadia do provinciano inquisidor-mor e de seus auxiliares no ministério público não encontra resistência nas cortes superiores. Uns por compartilharem a tosca visão de mundo da corporação abusada, outros, talvez, por medo de atrair contra si a ira de uma multidão ensandecida que quer o sepultamento do estado democrático de direito, deixam o barco correr e, a cada coonestação de suas ilegalidades, a turma fica mais motivada a seguir pela senda de destruição de garantias fundamentais.
A patifaria foi bem recompensada. O juiz de província virou ministro de um governo que ganhou o mandato graças a calúnias e difamações contra os adversários em escala industrial e o menino do PowerPoint acha que vai ser ou fazer o próximo Procurador-geral da República…
A empreitada curitibana, como disse o Ministro Gilmar Mendes, é um projeto de poder. Um projeto corporativo que passa por protagonismos individuais. Tanto o presidente do santo ofício, a ANPR, quanto o atrevido autor do PowerPoint, querem se dar bem, custe o que custar para o país. Centenas de milhares de empregos foram destruídos na sanha persecutória contra o setor de construção civil, ativos tecnológicos foram entregues de mãos beijadas a empresas estrangeiras, reinstaurou-se a dependência por know-how de fora para obras de infraestrutura e, o pior, deu-se de presente o petróleo do pré-sal a petroleiras norte-americanas. Mas, dane-se! Os moços têm um futuro brilhante como intocáveis justiceiros!
É preciso colocar os pontos no ii para desmascarar esse desserviço contra o Brasil, por uma horda de narcisos que a todo dia de manhã vão ao espelho depois de acordarem, para se dizerem “bom dia, lindão”! Usam a moral como lhes apraz, à busca de aplauso. Manipularam a agenda de enfrentamento da corrupção de modo seletivo, para fazer barulho e obter apoio de setores da economia que repudiavam as políticas sociais inclusivas, de “custo público intensivo” dos governos do PT. Endiabraram o governo e a liderança partidária. Com isso, atravessando as competências do executivo federal, estabeleceram contatos para si muito promissores com a agenda norte-americana de ferir mortalmente o interesse nacional brasileiro. Foram aos EEUU, fizeram acordos, entregaram informações sensíveis sobre a gigante petroleira brasileira e assumiram o trabalho sujo de liberar o espaço para as empresas norte-americanas. Tudo isso clandestinamente, com as bênçãos do procurador-geral de então, o vaidoso e pretensioso Rodrigo Janot.
As instituições do país metido numa das maiores crises políticas de sua história assistiam passivamente ao crescimento desse leviatã. Seus vozeiros criticavam abertamente ministros do STF, sem maiores reações dos atingidos e faziam terror midiático contra potenciais desafetos – enfim, tudo que não se espera de um agente “político” do estado investido nas graves funções de manuseio do monopólio de violência.
Mas, finalmente, parece que o STF acordou. Talvez tarde. O estrago na prática jurisdicional e na economia do país foi alto e definitivo. Foi preciso a corte sentir que era o alvo da vez nas invectivas descontroladas dos procuradores e de seu santo ofício para reagir.
A relação leniente entre o tribunal os inquisidores curitibanos sofreu um curto-circuito quando estes se arvoraram em criticar publicamente julgamento do pleno sobre a competência da justiça federal para processar e julgar crimes conexos a crimes eleitorais. O santo ofício se manifestou publicamente, com intenção de arrebanhar apoios contra eventual tendência de desempoderar a justiça federal e, com isso, o mpf. Certo procuradorzinho de Curitiba chegou a desafiar os ministros em artigo chucro nas redes e mereceu um pedido de providências do Presidente do STF.
Desta vez, contudo, o STF não se deixou intimidar e, por estreita maioria, fez prevalecer a Constituição e a lei na sua interpretação mais óbvia e literal: o art. 79 do CPP estabelece que os crimes ordinários conexos aos de jurisdição especial, como o justiça eleitoral, serão por esta processados e julgados; por sua vez, o art. 35 do Código Eleitoral deixa claro que os crimes conexos aos crimes eleitorais serão julgados pela justiça eleitoral. Enfim, não há óbice a estas disposições pré-constitucionais, uma vez que a própria Constituição, em seu art. 109, ao estabelecer a competência criminal da justiça federal, ressalva os crimes de competência da justiça eleitoral. A decisão majoritária do STF não fez outra coisa que reestabelecer o leito da legalidade.
A reação dos justiceiros de Curitiba foi histriônica, típica de quem não aprendeu em casa a lidar com um “não” de Papai e Mamãe. Afinal, como podem os lindões da “Lava Jato” ser colocados em seu lugar? A corporação não aceitou a captis diminutio e continuou a estribilhar desaforada.
Fui vice-procurador-geral eleitoral. Pude verificar, em dois anos e meio de mandato, que os procuradores eleitorais, em sua grande maioria, com raríssimas exceções, bebem chope do mesmo barril que os justiceiros. Não são melhores e nem piores. São inflexíveis no exame de reclamações e irregularidade, na tônica do “summum ius, summa iniuria”. Têm enorme dificuldade de dialogar com os jurisdicionados e entender as particularidades do processo eleitoral e, não raro, tratam a classe política como um bando de delinquentes. Se for por razões ideológicas, portanto, não tem muito o que temer, a turma curitibana. Os réus da “Lava Jato” receberão “tratamento” adequado pelos procuradores eleitorais.
Mas aí é que está o problema: os inquisidores da província do Paraná perderão protagonismo. Não serão mais eles que perseguirão os políticos a quem, muitas vezes sem prova cabal, atribuíram terem se corrompido para financiar suas campanhas eleitorais. Com o exame diferenciado da justiça eleitoral, pode-se chegar à conclusão que o financiamento se deu dentro da lei. Receber recursos de empreiteiras de obras de infraestrutura nem sempre configura propina. Essa simples constatação pode enterrar o discurso populista contra a política que inflou as taxas de aprovação dos lavajateiros nas pesquisas de opinião.
A extrema irritação corporativa tem, pois, razão de ser. Se houve sujeira processual colocada debaixo do tapete, ela já já se manifestará com a mudança para a justiça eleitoral. Não há sujeira que resista debaixo do tapete com a ação da Transportadora “A Lusitana”, que roda enquanto o mundo gira.
Mas não ficou só nisso. Outra ousada iniciativa da “Lava Jato” mereceu dura reprimenda do STF e, agora, por iniciativa da própria Procuradora-geral, que – at last but not at least – deu um basta às atitudes autocráticas da turma de Curitiba, que passaram por cima da autoridade da própria chefe.
O pano de fundo é um estranho acordo feito entre a Petrobrás e o Departamento de Justiça norte-americano (DoJ), através de sua seção de defraudações. Os EEUU se arrogam o direito de jurisdicionar sobre qualquer caso de corrupção mundo afora, que possa afetar a competitividade das empresas norte-americanas no mercado global. Trata-se de uma extensão, sem igual no direito comparado,  da jurisdição extraterritorial pelo princípio protetivo. O pagamento de propinas por uma suposta empresa de construção civil australiana a funcionário da Papua-Nova Guiné pode recair na competência da justiça estadunidense assim como a doação eleitoral feita por empreiteira brasileira a um servidor do próprio Brasil. Não interessa: tratando-se de negócio em que empresa dos EEUU poderia vir a ter interesse, pimba! A justiça norte-americana entra no circuito.
Essa legislação – Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) – mostra claramente do que se trata no “combate” transnacional da corrupção: impedir prejuízos aos negócios norte-americanos. É uma moral tão atravessada quanto aquela que inspirou ingleses, no século XIX, a reprimir o tráfico de escravos. Não era a vida de escravos que interessava (na interceptação de navios negreiros em alto mar eles morriam por afogamento, com o afundamento da embarcação em que eram transportados), mas apenas impedir que chegassem ao destino, para servirem de mão de obra aviltada, nas plantações de cana ou de algodão que concorriam com engenhos e fazendas britânicas, onde a escravidão fora abolida por ordem da Casa dos Lordes. O “combate” à corrupção, no espaço internacional, pouco se lixa com a qualidade governança dos países em que o ilícito é endêmico. O caso da Ucrânia bem exemplifica essa lógica.
A partir da “revolução laranja” de 2004-2005, fortemente suportada com recursos norte-americanos advindos do United States Agency for International Development (USAID) e doNational Endowment for Democracy (NED), os EEUU passaram a ter o comando sobre o governo e a economia da Ucrânia. Colocavam nos postos-chave quem lhes interessava e demitia altos funcionários quando lhes aprouvesse. Isso não impediu que os recursos dos contribuintes estadunidenses fossem desviados e que grande parte dos créditos do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial fossem parar nas mãos de oligarcas e depositados em contas off-shore, sem qualquer proveito para a população ucraniana. Mas não era isso que interessava aos EEUU. Queriam é criar um estado-cliente na fronteira da Rússia, completamente dependente da aliança ocidental. Corrupção, ali, foi vista não como custo ilegítimo, mas como investimento, feito a cenoura dependurada diante do burro com uma vara de pescar, para que se mova na direção desejada pelo carroceiro. E, quando em 2010 a situação fugiu do controle com a eleição do desafeto Victor Yanukovych, simpático ao governo de Moscou, para o cargo de presidente da república, os atores norte-americanos, secundados pelos da União Europeia, trataram de financiar grupos políticos nacionalistas e anti-russos que, em 2014, o depuseram, na chamada “revolução de Maidan”. A partir daí, com os mesmos oligarcas corruptos no poder, os EEUU e a União Europeia passaram ditar os destinos do país, mesmo com o PIB despencando em 60% do valor de 2014.
Não é a corrupção que interessa aos combatentes “anticorrupção”. São interesses estratégicos geopolíticos que os animam. E nossos meninos de Curitiba, assim como o ambicioso Rodrigo Janot, ou são burros ou são conscientemente coniventes com a destruição dos ativos nacionais brasileiros. De Rodrigo, por vezes inimputável, não se pode dizer muito, mas os justiceiros da província são toscos, porém não menos espertos para garantirem o proveito próprio.
Foi assim com o tal acordo entre a seção de defraudações do DoJ e a Petrobrás. As tratativas foram levadas a cabo por representante jurídica da empresa e as autoridades norte-americanas. Curiosamente, apesar de ter sido, o negócio, confessadamente induzido pela turma da “força-tarefa”, não consta da formalização do acordo nenhuma referência ao mpf e sequer a assinatura de algum representante seu.
O acordo traria para a Petrobrás “a vantagem” de não sofrer persecução penal nos EEUU por crimes que, segundo sua legislação, teriam sido praticados no Brasil. Na contrapartida, a empresa pagaria vultosa multa de bilhões de reais ao governo americano. O mais curioso é que a ameaça de persecução fere abertamente o princípio da não-ingerência profundamente enraizado no direito internacional. Para escapar dessa arbitrariedade, a petroleira se dispôs a pagar sem reclamar, num valor muito superior ao praticado em casos congêneres nos EEUU.
Pelo novo acordo, a Petrobrás poderia deixar de pagar aos estadunidenses 80% do valor da multa, se o aplicassem, metade, na indenização de acionistas no Brasil e, outra metade, num programa de politicas anticorrupção a ser levado a efeito em articulação com as “autoridades governamentais brasileiras”, aí compreendidos, expressamente, o Tribunal de Contas da União e a Comissão de Valores Mobiliários. Sobre o mpf, não se gastou uma só palavra.
Mas, clandestinamente, sem conhecimento da  assessoria internacional da PGR, os meninos hiperativos da província elaboraram um novo acordo com a Petrobrás, agora no Brasil, pelo qual 1,25 bilhões de reais da multa reverteriam para uma fundação a ser instituída em Curitiba pela empresa e comandada por um conselho cujos membros seriam escolhidos pelos procuradores e a juíza da 13ª vara federal de Curitiba. Sob segredo de justiça, submeteram o acordo à homologação da juíza, que, sem qualquer competência para a matéria, atendeu ao pedido.
Ocorre que mentira tem pernas curtas e logo o teor do acordo veio a lume pelas mãos do jornalista Luís Nassif. Sua forma e seus termos escandalizaram os meios judiciários. Ficou claro que membros do mpf em Curitiba queriam uma fundação endinheirada para chamar de sua. A finalidade do construto seria claramente política. Pretendia-se disseminar ações preventivas contra a corrupção, muito distantes do escopo de atuação do ministério público. Mas o pior é que aparentemente o mpf da província “tungou” os recursos da multa do DoJ para si, sem que fosse parte ou destinatário direto ou indireto do acordo celebrado nos EEUU. Afinal, o mpf não é “autoridade governamental brasileira” com atribuições na formulação de políticas públicas e o dinheiro, para todos os efeitos, pertenceria à União, pois é acionista controladora da Petrobrás e principal incumbida da agenda anticorrupção. A advocacia geral da União, no entanto, de nada sabia, segundo consta. E muito menos o ministério da justiça. Ao menos, assim fingiram.
O mais grave, porém, é que os procuradores envolvidos se comprometeram a prestar “consultoria” à Petrobrás para instituição da fundação, o que lhes é expressamente vedado no art. 129 da Constituição. E, não fosse só isso, os contatos diretos com autoridades estadunidenses ultrapassaram o âmbito de atribuições do mpf, sendo o ministério da justiça a autoridade central da cooperação jurídica com os EEUU, conforme o acordo que vige entre o Brasil e aquele país. Não compete ao ministério público ou ao judiciário manter relações com estados estrangeiros: essa função pertence exclusivamente ao Presidente da República.
Essas questões foram exaustivamente examinadas em ação declaratória de inconstitucionalidade (ADI) e em ADPF propostas pelo PT e pelo PDT junto ao STF. Concomitantemente,  também a Procuradora-geral da República também propôs ADPF para contestar na mais alta corte a iniciativa curitibana. Deixou muito claro que os procuradores envolvidos não falam pelo mpf, cuja única voz autorizada é da Procuradora-geral. Excederam-se e violaram a constituição. Criticou fortemente o protagonismo pessoal buscado pelos integrantes da “força-tarefa” e a completa falta de fundamento legal para a instituição da fundação por indução do ministério público.
O contra-ataque inesperado da Procuradora-geral desencadeou uma guerra intracorporativa no mpf. Nota do presidente da ANPR, tornada pública pela imprensa, fez inéditas acusações à chefe da instituição, que estaria a violar a independência funcional dos colegas do sul.
A sacrossanta “independência funcional”! Esse princípio virou, nas últimas décadas, uma panaceia para justificar todo e qualquer voluntarismo destrambelhado de procuradores ativistas. Com base nele, tornam-se intangíveis é incontroláveis, verdadeiras metralhadoras giratórias a cuspirem balas em todas as direções. O peso que se atribuiu à falsa garantia é responsável pelos desatinos que passaram a ser frequentes no mpf, em especial a partir da gestão de Rodrigo Janot. E, no entanto, seu emprego sem limites resulta de equivocada interpretação do texto constitucional.
Duas questões essenciais nesse domínio têm deixado de ser consideradas, por não se encaixarem na construção do empoderamento dos membros do mpf. São elas: a uma, a “independência funcional” não é prerrogativa pessoal, mas apenas “princípio institucional” a conviver com dois outros, convenientemente esquecidos – os da unidade e da indivisibilidade do ministério público, todos referidos em conjunto no art. 127 da Constituição; a duas,  a Procuradora-geral da República não é rainha da Inglaterra que reina mas não governa: o art. 128 a chama de “chefe do Ministério Público da União”. Chefe é chefe. Manda, não sugere. Tem a última palavra no governo institucional e representa o órgão externamente.
Por isso mesmo, o protagonismo da primeira instância de Curitiba é indevida invasão do espaço da chefe da instituição. A Constituição não abriu mão da estrutura hierárquica do mpf. Mas como isso se coaduna com a “independência funcional”?
A resposta é simples. A independência do procurador não é igual à do juiz. É ontologicamente diferente. Enquanto o juiz tem sua independência balizada pelos limites já postos da lide (as teses do autor e do réu), o ministério público tem o poder de construir a própria lide e fixar seus limites. Por isso, não pode ver a independência como atributo ou prerrogativa pessoal. Antes, faz parte da gramática do funcionamento institucional. A consciência do procurador não pode ser violada e, para tanto, ele tem o direito de não atuar em feito a explicitar tese com que não concorda. Ele passa o processo para outro. Mas a independência que se lhe aplica como princípio institucional convive com a unidade e indivisibilidade do ministério público, a demandar coordenação e controle, para que nenhum procurador desafine da orquestra de que faz parte. A coordenadora maior é a procuradora-geral. Ponto.
Claro que essa concepção constitucional não agrada a voluntariosos procuradores concurseiros: não fizeram concurso para serem comandados! Mas, num estado de direito, não pode haver exercício de poder sem freio e supervisão. E o ministério público não é coisa distinta desse estado de direito.
Pois bem, aí entra o imbróglio que representa o recente ativismo político autárquico da ANPR. Como mera associação a congregar os membros da carreira, para lutar por suas condições de trabalho e fazer propostas de aprimoramento da atuação institucional, inclui nos seus quadros, também, a Procuradora-geral da República e os que apoiam sua gestão. Têm o mesmo direito de serem representados pela diretoria associativa que os críticos da atuação da chefe. Por isso, não tem a ANPR qualidade para se opor publicamente contra iniciativa da PGR. Não pode a diretoria escolher lado, ainda mais quando foi eleita em chapa única.
Mas não é só isso. A ANPR não tem standing para contestar, como amicus curiae, a ação da Procuradora-geral no STF, como anunciou que pretende fazer. É que, constituída por procuradores que se submetem ao poder de coordenação da chefe, não tem como querer que seus associados venham, por meio da associação, se insurgir contra essa coordenação. Admitir o contrário seria destruir a arquitetura constitucional do ministério público. Pode a ANPR secundar os atos da chefe, mas não se opor em processo judicial, por não ter interesse processual para tanto.
Espera-se do STF que vete qualquer tentativa de hostilização associativa à PGR na ADPF por ela proposta como legítimo instrumento de reaver o controle da institucional no seu leito natural. Admitir, do contrário, que a ANPR se coloque como amicus curiae para contestar a medida de sua mais ilustre associada é um non-sense e apenas fortalecerá a atuação de protagonismo individualista dos bonitões da carreira. E a “Lava-Jato” já mostrou sobejamente seu potencial destrutivo sobre o sistema de garantias processuais, a governabilidade do país, sua economia e infraestrutura com o populismo persecutório à margem da lei, pelo que se notabilizou.
Eugênio Aragão – ex-ministro da Justiça

quarta-feira, 6 de março de 2019

O definhamento da nacionalidade e da dignidade do cargo de Presidente sob Bolsonaro. Por Eugênio Aragão



 "Há “Leitmotiv” na desgovernança dos últimos dois meses ou estamos à deriva num mar de non-sense? O que é isso que estamos experimentando no espaço público brasileiro?"

Do Diário do Centro do Mundo:

O definhamento da nacionalidade e da dignidade do cargo de Presidente sob Bolsonaro. Por Eugênio Aragão

 

Retrato do Brasil varzeano
POR EUGÊNIO ARAGÃO, ex-ministro da Justiça
A política de Bolsonaro e de seus hiperativos acólitos tem densidade de cosmovisão ou será apenas um ruído sem sentido? Há “Leitmotiv” na desgovernança dos últimos dois meses ou estamos à deriva num mar de non-sense? O que é isso que estamos experimentando no espaço público brasileiro?
A perplexidade tem razão de ser. Seria fácil rotular essa coisa instalada no comando da nação como “fascista”, autoritário ou populista.
E, de fato, o furacão Bolsonaro tem muito disso, mas apresenta elementos não-coincidentes com esses fenômenos encontradiços na política do século passado.
O fascismo do século XX era nacionalista e usava a força, o terror e o arbítrio contra a população de forma calculista, para amalgamar um rebanho e excluir dissidentes. Extraía desse amálgama sua força, com objetivo de criar uma “política nacional” frente a “inimigos internos e externos”. O “nacional” era o elemento que oferecia razão de ser a toda sorte de violência.
Era glorificado para criar uma identidade de “povo”, em nome do que se justificavam ações de Estado. Agradar à massa com melhoria de vida era necessário para manipulá-la contra os eleitos pelos fascistas a serem o anti-povo.
O populismo era essencial na dinâmica da agitação propagandística: “Ein Volk, ein Reich, ein Führer” – um povo, um Estado, um líder, em bom português. O modelo sofreu mínimas variações entre os regimes de Hitler, de Mussolini, de Franco ou de Salazar: todos mobilizavam massas na disciplina, para ressaltar o valor do povo e da autoridade na construção do “nacional”.
A prática de Bolsonaro tem quase nada disso.
Ela é profundamente autoritária apenas como expressão de um achaque intolerante; é incapaz de mobilizar massas; antes, o próprio Bolsonaro é mobilizado por uma horda virtual de bronca a tudo e todos e, de “nacional”, não entende lhufas: despreza as prioridades estratégicas do país como “coisa de esquerda” e adula o trumpismotosco de supremacia do interesse norte-americano (“America first”).
A semelhança com fascismo, porém, está na forma, no manifesto: Bolsonaro injeta ódio no espaço público, feito os nazistas, para estigmatizar e destruir quem ele abomina.
Mas, existe “bolsonarismo” como ideologia? Parece que não, pois a tosquice do discurso não permite identificar um modo uniforme, concatenado de idealizar a realidade com valores claros. Simplesmente nega tudo o que houve antes de Bolsonaro ser ungido presidente, desqualificando ações e princípios afirmados no como “coisa de esquerdista”.
No entanto, esse discurso primário tem utilidade; há quem tire proveito dele. E quem o faz tem ideologia, tem propósitos e tem valores. A bancada evangélica, por exemplo, é um dos atores que sai claramente ganhando com o desgoverno de Bolsonaro.
No meio da barafunda de dizes e desdizes de autoridades desautorizadas, ela avança com sua pauta fundamentalista e de intolerância para com quem não compartilhe seus pontos de vista, que servem à desmobilização da população miserável insatisfeita.
Da mesma forma, certas corporações da carreira pública conseguem impor uma agenda gestada muito anteriormente a Bolsonaro, de “law and order”, que tem na transgressão – criminosa ou não – a fonte de todos os males do país e justifica, com isso, o empoderamento de atores da repressão, a expansão do direito penal e a limitação de garantias fundamentais.
Está em marcha o desmonte do estado democrático de direito como foi concebido na Constituição de 1988. Esse desmonte é radical e não para nem mesmo diante de obstáculos institucionais. O STF, por exemplo, guardião máximo da ordem jurídica posta, é alvo de permanente ataque.
Seus ministros são insultados como corrompidos, sua independência é transformada em vício. Não terão paz enquanto não se adequarem à agenda fundamentalista e de “law and order”. O garantismo é posto como fraqueza e traição à “cidadania de bem”.
Quem é acusado pelo ministério público é, por isso mesmo, já condenado e não merece qualquer defesa. Advogados são expostos como o capeta na terra, a força da degeneração: ganhariam dinheiro “sujo” de quem já fadado à desgraça por ter caído nas malhas dos justiceiros. Há, entre os ministros supremos – agora permanentes candidatos à execração pública – os que, embevecidos por serem festejados como liberais nos costumes, preferem, em matéria penal, já vestir a capa de verdugos, por acreditarem, com isso, estarem menos expostos à ira dos novos tempos.
Tornam-se incapazes de enfrentar contramajoritariamente a balbúrdia fundamentalista.
Com o esfacelamento da cidadania democrática e a emasculação de seus garantes, não há mais princípio sagrado a segurar a empáfia dos novos donos do poder. Gabam-se de suas heresias contra os tabus da correção política. Esbravejam racistas, misóginos e homofóbicos contra todos que vislumbram fracos o suficiente para não resistirem a sua fúria verbal e de fato.
E, no entanto, com tanto vitupério e tanta bazófia, são, eles, os fracos e enfraquecem o Estado que assaltam na ignorância. Nisso, estão na contramão do fascismo.
A começar pelos símbolos nacionais. A ideologia do estado-nacional é a do consenso em torno do Estado. O patriotismo é como combustível psicológico de massa para produzir esse consenso.
Símbolos nacionais como o hino, a bandeira e, no futebol, a camiseta da seleção não podem pertencer a grupo, seja ele religioso, seja político, pois essa indevida apropriação fragmentaria o sentimento de nacionalidade, enfraquecendo o consenso necessário a todo projeto nacional.
Pois bem: Bolsonaro e seus apoiadores fizeram exatamente isso – tomaram para si os símbolos nacionais, de certa forma até com conivência da justiça eleitoral, para se distinguirem de seus adversários, principalmente o PT e o PCdoB, que adotavam, como marca partidária, a bandeira vermelha.
“Nossa bandeira nunca será vermelha”, porque é “nossa” e não “deles”. Ao assim procederem, arriscaram a rejeição a esses símbolos por todos que não comungam com o fundamentalismo dessa turma. Sem dúvida, criaram ambiente de clivagem política a afetar seriamente o consenso sobre projetos nacionais.
Mas não foi só isso.
A vulgaridade com que Bolsonaro tem se havido no exercício da presidência da República tem comprometido gravemente o decoro da função e a majestade do cargo: fez-se fotografar com camiseta falsa de seu time de futebol, de chinelos sem meia, no Palácio da Alvorada, em ato de governo; tem batido boca em redes sociais com jornalistas, artistas e professores; tem usado redes sociais para fazer ameaças a categorias de servidores e, mais recentemente, até reproduzido vídeo pornográfico para achincalhar os festejos populares do carnaval.
Bolsonaro não tem se portado como se espera do magistrado mais alto da nação e, sim, como um garoto estúpido a chamar todas e todos para a briga na rua.
Com isso, infligiu indiscutível prejuízo à dignidade do cargo que ocupa, destruindo o simbolismo da função presidencial na formação da nacionalidade.
No futuro, mesmo com outro mandatário, vai ser difícil exigir respeito ao detentor do cargo, depois de tanta deslavada vulgarização do titular e isso tem consequências sérias para a fidelidade que se espera de cidadãs e cidadãos à ordem e à autoridade constituída, cerne da estatalidade.
A quem interessa tamanha destruição do sentimento nacional?
As movimentações políticas externas do governo de Bolsonaro oferecem algum indicativo para a resposta. Ao infringir flagrantemente, no trato com a crise venezuelana, o artigo 4.º da Constituição, que determina reger-se, a República Federativa do Brasil, “nas suas relações internacionais”, dentre outros, pelos princípios da “não-intervenção” e da “autodeterminação dos povos”, alinhou-se, contra toda a tradição diplomática do país, aos Estados Unidos da América do Norte de forma absolutamente acrítica.
Fez o papel de menino de recados do presidente norte-americano, desqualificando o governo legítimo eleito do Presidente Nicolás Maduro.
Não muda em nada essa constatação a circunstância de o vice-presidente general Mourão ter recusado, mais por prudência do que por convicção, o desejo yankee por uma aventura armada contra o país vizinho.
Permanece, no governo Bolsonaro, a clara postura de se arrogar a condição de julgador da legitimidade de governos estrangeiros, se estes não compartilharem sua condição subalterna aos interesses de Washington.
Nem mesmo nos anos de ditadura militar se viu tamanho desprezo pelo interesse nacional.
Washington agradece. Foi de lá dirigido o processo político que redundou no golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, ao se criar, através da “Operação Lava-Jato”, o esgarçamento da governabilidade.
Os norte-americanos, cooperando com setores da corporação policial e do ministério público, cuidaram de destruir, junto com a indústria da construção civil e da produção petrolífera nacional, a reputação dos atores políticos. Abateram a Petrobrás e garantiram a participação altamente lucrativa de suas empresas na exploração do petróleo do pré-sal brasileiro.
Bolsonaro foi feito presidente para dar continuidade ao esquartejamento da economia nacional. Para tanto, contou com a neutralização de seu principal adversário, o ex-Presidente Lula, e o impulsionamento de mensagens mentirosas por redes sociais, em escala industrial, com custo coberto por fontes suspeitas a merecerem averiguação.
Bolsonaro é isso: o destruidor do sentimento de brasilidade, a bactéria feita para decompor o interesse nacional. Conseguiu, em meros dois meses, dizer a que veio – transformar o Brasil em “failed state”, pronto a ser explorado pela ganância hegemônica norte-americana.
Ideologia, não tem nenhuma, mas serve à dos outros, se isso for útil para lhe facilitar a missão.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Para cão que rosna, o remédio é olhar firme e fala grossa! Por Eugênio Aragão


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"Com fascismo não se brinca. Não é uma ideologia com que estamos lidando. Ideologias são por demais elaboraras para essa horda. O fascismo é uma prática política profundamente desleal, porque não respeita regras e nem adversários. Para cães fascistas, todos que não fazem parte de sua matilha são inimigos, inimigos prontos para serem aniquilados, exterminados, liquidados. Regras da democracia enxergam como fraqueza do “sistema”, que devem ser aproveitadas para lhes permitir a “tomada do poder”. E, uma vez instalados, eliminam as regras que lhes permitiram participar do espaço público, para criar as suas a ferro e fogo, no grito. A primeira regra é de que poder conquistado não se devolve. O revezamento de mandatos não faz parte de seu programa." Dr. Eugênio Aragão


Do DCM


POR EUGÊNIO JOSÉ GUILHERME DE ARAGÃO, ex-ministro da Justiça
Bolsonaro não passa de um cão doido, primário, com raciocínio binário de capacidade de processamento que não vai além de um bit. Nem para progredir no oficialato do exército serviu. Um bunda-suja, como dizem seus companheiros de farda. Saiu antes do tempo, porque seu comportamento depunha contra a disciplina e hierarquia da instituição. Pretendeu explodir privadas nos banheiros dos quartéis.
Na vida pública, com mandatos parlamentares sucessivos por mais de quarto de século, notabilizou-se pela grosseria, truculência e falta de escrúpulos no trato com todos, inclusive colegas parlamentares. O rol das barbaridades que saíram de sua boca sem freios é enorme e nem vale desfiá-las aqui. São notórias e o curioso pode vê-las, muitas, em cores, pelo YouTube.
Depois de buscar a solidariedade do público (solidariedade que não divide com ninguém, porque sua egolatria não lhe permite), por ter sido supostamente esfaqueado em Juiz de Fora, mostra, agora, no início do segundo turno das eleições presidenciais, que não aprendeu nada com o episódio. Volta mais prepotente do que nunca, pronto para dar rasteiras em seu adversário. À proposta civilizada de um pacto contra a mentira na campanha, respondeu desbocado, com uma mentira.
Mentir tem sido a linha de conduta de sua campanha, por sinal. O TSE já reiteradamente tem determinado que perfis de gente de sua tropa de choque em redes sociais fossem apagados, por conterem inverdades ofensivas deslavadas. Bolsonaro é o rei do fake-news, eufemismo com que se embeleza o nome da mentira pura e simples.
Algumas são ridiculamente forçadas e, não fosse o ódio cego que se espalhou na malta que o adula, seriam incapazes de ludibriar o sujeito mais boçal. Mas ludibriam, porque não se trata, no fascismo disseminado por esse militar aposentado e travestido de político, de algo em que se acredita ou não – o bolsonarismo exige fé de seus adeptos. Fé incondicional. Cria-se, desse modo, um exército de fanáticos dispostos a tudo, até a fazer a apologia de assassinatos e de tortura.
Com fascismo não se brinca. Não é uma ideologia com que estamos lidando. Ideologias são por demais elaboraras para essa horda. O fascismo é uma prática política profundamente desleal, porque não respeita regras e nem adversários. Para cães fascistas, todos que não fazem parte de sua matilha são inimigos, inimigos prontos para serem aniquilados, exterminados, liquidados. Regras da democracia enxergam como fraqueza do “sistema”, que devem ser aproveitadas para lhes permitir a “tomada do poder”. E, uma vez instalados, eliminam as regras que lhes permitiram participar do espaço público, para criar as suas a ferro e fogo, no grito. A primeira regra é de que poder conquistado não se devolve. O revezamento de mandatos não faz parte de seu programa.
Fascistas brincam com medos, fobias e a insegurança de partes da sociedade. Atribuem os males que causam esses sentimentos a uma conspiração ficta de quem elegem ser seus alvos: comunistas, judeus, nordestinos, negros, agricultores sem-terra, petistas ou coisa que os valha. A estigmatização de grupos pelo ódio coletivo cria ambiente de confrontação entre o “nós” e “eles”, onde o “nós” é vendido como o lugar de segurança, blindagem e até aconchego num mundo de inimigos. Esse “nós” é o cerne da mentalidade de bando que caracteriza a cabeça fascista. As soluções para todos os males passa pelo “nós” e é sempre violenta. A apologia das armas letais faz parte do discurso de suas lideranças.
O fascismo não tem apego à democracia. Gosta de líderes totalitários. Alemanha, Itália e Espanha passaram por isso. E pagaram caro, com o sangue a vida de milhares valiosos resistentes. Quem o experimentou, tem amor pela liberdade e pavor pela prática fascista.
A eleição em 28 de outubro é o momento em que teremos que optar entre o fascismo dos cães doidos em torno de Bolsonaro e a democracia que, mesmo cheia de falhas, edifica, porque preza a liberdade e a igualdade de direitos. É optar entre a ditadura dos primários desqualificados e o governo democrático de quem respeita a diversidade.
Não há meias palavras para responder ao fascismo de Bolsonaro. Seu rosnar merece atitude firme, olho no olho, em defesa da constituição resultante de uma constituinte eleita. Constituição que por trinta anos nos permitiu amplamente participar do processo político, num esforço de aprimoramento das instituições. Constituição-cidadã, porque nos garante, a todas e todos, direitos fundamentais a nossa dignidade inerente e nos oferece mecanismos para defendê-los, quando ameaçados.
Com fascista se fala grosso e se lhes aponta o seu lugar numa democracia: fora daqui! Não usem nossas fragilidades para nos ameaçar e amordaçar. Vocês não prevalecerão!