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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Nossa meta para 2022, por Bernie Sanders, Senador do Congresso norte-americano pelo estado de Vermont

 "Pouco noticiado pela mídia, trabalhadores dos EUA estão enfrentando a ganância das grandes corporações, e eles estão vencendo", escreve Bernie Sanders

www.brasil247.com -

(Foto: REUTERS/Washington Alves)

Por Bernie Sanders 

(Publicado no site A Terra é Redonda)

Enfrentamos uma pandemia arrasadora sem um fim no horizonte. Caminhamos a passos largos em direção a um regime oligárquico. Enquanto as desigualdades de renda e riqueza só aumentam, milhões de pessoas lutam para garantir as necessidades básicas de sua sobrevivência. Temos um sistema de saúde disfuncional, que não protege, ou protege de maneira insuficiente, mais de 84 milhões de pessoas, em que uma pessoa em cada quatro não consegue arcar com os custos de seus medicamentos prescritos. As mudanças climáticas estão arrasando o planeta enquanto o racismo sistêmico e outras formas de intolerância continuam a corroer o tecido de nossa sociedade. Temos um sistema político corrupto no qual o dinheiro das grandes corporações compra eleições e uma mídia mainstream que ignora em grande medida o sofrimento das pessoas comuns.

Em meio a tudo isso, existem partidários do Partido Republicano por todos os cantos do país trabalhando ininterruptamente para abalar a democracia, procurando dificultar o acesso de pessoas de cor, jovens e opositores ao voto nas próximas eleições.

Em outras palavras, os desafios que enfrentamos são enormes e é fácil entender por que tantos entram em depressão ou recorrem ao cinismo. São estados de espírito aos quais devemos, no entanto, resistir – não apenas para o nosso bem, mas para o bem de nossos filhos e das gerações futuras. Os riscos são grandes demais e o desespero não é uma opção. Devemos, portanto, nos levantar e contra-atacar.

Quanto a isso, tenho boas notícias. Por mais que não seja ativamente noticiado, trabalhadores de todo o país estão enfrentando com extraordinária coragem e determinação a ganância das grandes corporações, e eles estão vencendo.

Trabalhadores da John Deere entraram em greve pela primeira vez em mais de três décadas, garantiram os piquetes e, no fim, conquistaram um contrato com grandes aumentos salariais, um bônus de ratificação e maior cobertura de saúde. Enfermeiros grevistas, em Buffalo, conquistaram aumentos que elevaram o patamar salarial de todos os trabalhadores a ao menos 15 dólares por hora, além de conseguirem uma redução da escassez de funcionários. Eles não lutaram apenas por seus interesses, mas também por seus pacientes – e saíram vencedores.

Trabalhadores de saúde da Kaiser Permanente conquistaram uma grande vitória após rejeitarem um contrato que ofereceria menores salários e benefícios aos novos empregados. Trabalhadores da Nabisco, lutando contra horas extra forçadas, salários e pensões inadequados, um sistema de saúde de dois níveis e a externalização de cargos entraram em greve e venceram. Mais uma vez, assistimos a mais uma luta de trabalhadores que ia além dos próprios interesses defendendo também as próximas gerações.

Mais de 1400 trabalhadores da Kellogs, em Michigan, no Tennessee, na Pensilvânia e no Nebraska entraram em uma greve que durou meses e foi vencedora, lutando contra um plano que empurraria menores salários e benefícios aos novos trabalhadores. Empregados da Starbucks, no estado de Nova York montaram, pela primeira vez, uma loja do sindicato enquanto lutavam contra uma empresa gigante que fez praticamente tudo o que pôde para impedi-los.

Estes são apenas alguns dos esforços inspiradores que aconteceram no ano passado. Agora, deixe-me contar o que está acontecendo neste exato momento, enquanto trabalhadores continuam a confrontar alguns dos interesses empresariais mais poderosos do país.

Em Hutington, na Virgínia do Oeste, 450 trabalhadores metalúrgicos da empresa Special Metals engajaram-se em uma grandiosa greve por quase 100 dias. A Special Metals é uma empresa lucrativa que pertence à Berkshire Hathaway, de Warren Buffet. Buffet, é claro, é uma das pessoas mais ricas do mundo, com um patrimônio de mais de 109 bilhões de dólares.

Enquanto a Special Metals lucrava 1,5 bilhões de dólares, no ano passado, e o Sr. Buffet ficava 40 bilhões de dólares mais rico durante a pandemia, os executivos desta empresa ofereciam aos trabalhadores um contrato ultrajante que incluía um aumento salarial nulo para este ano e um aumento inaceitável de 1% para o próximo. Ao mesmo tempo, eles aumentavam os custos dos planos de saúde e diminuam o período de férias.

Infelizmente, a ganância empresarial que assistimos na Virgínia do Oeste não é uma aberração. Em Santa Fe Springs, na Califórnia, cerca de 100 trabalhadores da indústria de panificação, que fazem bolos para a Baskin Robbins, a Safeway e a Cold Stone Creamery, estão em greve contra a – apropriadamente nomeada – Rich Products Corporation, na fábrica da John Donaire Desserts. Cerca de 75% destes empregados são mulheres latinas frequentemente forçadas a trabalhar para além do expediente com pouco, ou nenhum, aviso prévio e, às vezes, com jornadas de quase 16 horas por dia.

Trata-se de uma empresa que teve um faturamento de 4 bilhões de dólares no ano passado. Durante a pandemia, Bob Rich, o dono majoritário da Rich Products, aumentou o seu patrimônio em mais de 2 bilhões de dólares. Enquanto os trabalhadores que ele emprega mal recebem acima do salário mínimo da Califórnia, o Sr. Rich acumula uma riqueza de mais de 7,5 bilhões de dólares. Entretanto, apesar de sua riqueza bilionária, a “melhor e última proposta” que o Sr. Rich pôs à mesa para seus trabalhadores foi um ofensivo aumento salarial de 1 dólar a hora. Isso é patético.

Entretanto, isso não é raro no mundo da ganância empresarial. Em Brookwood, no Alabama, cerca de 1.110 trabalhadores da Warrior Met Coal estão em greve desde abril. Assim como os panificadores na Califórnia e os metalúrgicos da Virgínia do Oeste, são pessoas que trabalharam até sete dias por semana, com jornadas diárias de quase 16 horas.

Em 2016, sob alta pressão para manter a empresa em funcionamento e garantir os empregos em sua comunidade, estes mineradores aceitaram um corte salarial de 6 dólares a hora – mais de 20% de sua média salarial – e uma redução substancial de seus planos de saúde e suas aposentadorias como parte de um acordo de reestruturação feito por fundos oportunistas como o Blackstone e o Apollo.

Enquanto isso, os executivos da Warrior Met e seus investidores de Wall Street escaparam como bandidos. Desde 2017, Warrior Met recompensou seus ricos acionistas em 1,4 bilhões de dólares enquanto distribuía bônus de quase 35.000 dólares para seus executivos. Contudo, assim que voltou a ser lucrativa, a Warrior Met ofereceu a seus funcionários um miserável aumento de 1,50 dólares a hora, distribuído por um período de 5 anos, e recusou-se a restaurar os benefícios de saúde e as aposentadorias que tinham sido retirados.

As lutas destes trabalhadores não são as únicas. Existem outros milhões de americanos exatamente na mesma posição – pessoas que têm de lutar com unhas e dentes contra os interesses das ricas e poderosas empresas para garantir salários decentes, planos de saúde, pensões e condições seguras de trabalho. E, sejamos claros, a luta de classes neste país está se intensificando. A ganância está em alta.

O que a história sempre nos ensina é que mudanças reais nunca acontecem de cima para baixo. Elas ocorrem sempre de baixo para cima. Essa é a história do movimento dos trabalhadores, do movimento em defesa dos direitos civis, do movimento das mulheres, do movimento em defesa do meio ambiente e do movimento em defesa dos direitos LGBT. Essa é a história de todos os esforços que transformaram nossa sociedade.

E essa é a luta que devemos intensificar hoje. Num tempo em que os demagogos querem nos dividir pela cor de nossa pele, por onde nascemos, por nossa religião ou orientação sexual, devemos fazer exatamente o oposto. Devemos unir as pessoas em torno de uma agenda progressista. Devemos educar, organizar e construir um movimento popular que ajude a criar o tipo de nação que sabemos que podemos ser. Uma nação baseada nos princípios da justiça e da compaixão, não da ganância e da oligarquia.

A maior arma de nossos oponentes não é apenas a sua riqueza e seu poder ilimitado. É a sua capacidade de criar uma cultura que nos faz sentir fracos e desesperançosos, e que reduz a força da solidariedade humana. E aqui está nossa meta de ano novo. Como milhares de trabalhadores que se levantaram e lutaram corajosamente em 2021, nós faremos o mesmo. Nenhum indivíduo nos salvará. Devemos nos levantar juntos.

Tradução: Daniel Pavan.

(Publicado originalmente no jornal The Guardian.)

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Organização internacional liderada por Bernie Sanders vem ao Brasil checar as ameaças antidemocráticas golpistas de Bolsonaro

 

Rede internacional progressista apoiada por figuras destacadas da luta democrática internacional, como Bernie Sanders, entre outros, enviará delegação ao Brasil


Bernie Sanders

Bernie Sanders (Foto: REUTERS/Caleb Kenna)

247 - O Brasil receberá no dia 17 deste mês uma delegação da Progressive Internacional, rede progressista que luta contra a ofensiva da direita no mundo. Nomes de peso da esquerda mundial, como o senador democrata dos EUA Bernie Sanders, o ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis e o ex-líder do Partido Trabalhista britânico Jeremy Corbyn lideram a organização progressista.

Os 12 integrantes da comitiva são parlamentares e assessores de parlamentos da Grécia, Espanha e Estados Unidos. A comitiva se reunirá com lideranças indígenas, comunidades quilombolas, movimentos sociais e parlamentares de partidos de esquerda para apresentar documentos expondo suas preocupações em relação ao país.

Os temas em pauta são as ameaças antidemocráticas à realização das eleições, e a devastação da Amazônia, informa a jornalista Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo. 

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sexta-feira, 13 de março de 2020

Apesar dos males, Slavoj Zizek vê o poder subversivo no choque - que faz pensar sobre as crueldades do capitalismo - do Coronavírus



Mercados financeiros em pânico. Indústria de automóveis parada. Cidades sem trabalho. Aos poucos, pandemia transtorna normalidade opressora do capitalismo, expõe suas entranhas e mostra: outras formas de estar no mundo são necessárias


Por Slavoj Zizek | Tradução: Simone Paz
A disseminação contínua da epidemia do coronavírus acabou desencadeando, também, certas epidemias de vírus ideológicos que estavam adormecidos em nossas sociedades: fake news, teorias da conspiração paranoicas e explosões de racismo.
A quarentena, devidamente fundamentada em evidências médicas, encontrou um eco na pressão ideológica por estabelecer fronteiras estritas e isolar os inimigos que representam uma ameaça à nossa identidade.
Mas, talvez, outro vírus muito mais benéfico também se espalhe e, se tivermos sorte, irá nos infectar: o vírus do pensar em uma sociedade alternativa, uma sociedade para além dos Estados-nação, uma sociedade que se atualiza nas formas de solidariedade e cooperação global.
Especula-se que o coronavírus pode levar à queda do regime comunista chinês, do mesmo jeito que a catástrofe de Chernobyl foi a gota d’água que levou ao fim o comunismo soviético (como o próprio Gorbachev admitiu). Mas existe um paradoxo nesta situação: o coronavírus também nos levará a reinventar o comunismo, com base na confiança nas pessoas e na ciência.
Na cena final de Kill Bill 2, do diretor Quentin Tarantino, Beatrix derruba o vilão Bill, destruindo-o com a “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” — o golpe mais fatal das artes marciais. O movimento consiste numa combinação de cinco golpes com as pontas dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do alvo. Assim que a vítima se afasta e dá cinco passos, seu coração explode dentro do seu corpo, e ele desmorona no chão.
Este ataque faz parte da mitologia das artes marciais e não é factível nos combates da vida real. Porém, voltando ao filme, depois que Beatrix ataca Bill, ele faz as pazes com ela, calmamente, anda cinco passos e morre…
O que torna esse ataque tão fascinante é o tempo existente entre o golpe e o momento da morte: posso manter uma agradável conversa enquanto eu permanecer sentado e sossegado, mas durante todo esse tempo estarei ciente de que no momento em que eu começar a andar, meu coração irá explodir e eu cairei morto.
Não se parece com a ideia daqueles que especulam sobre como o coronavírus levaria o sistema comunista da China à sua queda? Numa espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” social, no regime comunista do país, as autoridades podem sentar-se, observar e atravessar os movimentos da quarentena, mas qualquer mudança real na ordem social (como confiar nas pessoas) resultará em sua queda.
Minha modesta opinião é muito mais radical: a epidemia do coronavírus é uma espécie de “Técnica dos Cinco Pontos para Explodir o Coração” de ataque ao sistema capitalista internacional — um sinal de que não podemos seguir pelo mesmo caminho que viemos até agora, de que precisamos uma mudança radical.

Fato triste: será preciso uma catástrofe

Há alguns anos, Fredric Jameson chamou a atenção para o potencial utópico dos filmes sobre catástrofes cósmicas (um asteroide que ameaça a vida na Terra ou um vírus que mata a humanidade, por exemplo). Tal ameaça global dá origem à solidariedade global, nossas pequenas diferenças se tornam insignificantes, todos trabalhamos juntos para encontrar uma solução — e aqui estamos hoje, na vida real. O ponto não é sobre curtir sadicamente o sofrimento generalizado, porque ele ajudaria nossa causa: pelo contrário, o ponto é refletir sobre o triste fato de que precisemos de uma catástrofe para nos permitirmos repensar as características básicas da sociedade na qual vivemos.
O primeiro esboço de modelo de uma coordenação global do tipo é da Organização Mundial da Saúde, da qual não estamos recebendo a tagarelice burocrática usual, mas avisos precisos, anunciados sem pânico. Tais organizações devem receber mais poder executivo.
Os céticos zombam de Bernie Sanders por sua defesa a uma saúde universal nos EUA — e não é que a lição da epidemia de coronavírus não apenas demonstra como ela é muito necessária, mas também que devemos começar a criar algum tipo de rede global de saúde?
Um dia após o vice-ministro da Saúde do Irã, Iraj Harirchi, aparecer em uma coletiva de imprensa para minimizar a disseminação do coronavírus e afirmar que as quarentenas em massa não seriam necessárias, teve de fazer uma breve declaração admitindo que contraiu o coronavírus e se isolou (inclusive, na sua primeira aparição na TV, ele já apresentava sinais de febre e fraqueza). Harirchi acrescentou: “Este é um vírus democrático, que não faz diferença entre pobres ou ricos, ou entre políticos e cidadãos comuns”.
Nesse ponto, ele estava correto — estamos todos no mesmo barco. É difícil não reparar na enorme ironia do fato: aquilo que nos uniu e nos levou à solidariedade global se expressa, no nível da vida cotidiana, em orientações severas para evitar o contato com os outros, e até de se isolar.
Além do mais, não estamos lidando apenas com ameaças virais — outras catástrofes já estão surgindo no horizonte ou mesmo acontecendo: secas, ondas de calor, tempestades fora de controle, etc. Para todos esses casos, a resposta não é o pânico, mas o trabalho árduo e urgente para estabelecer algum tipo de coordenação global eficiente.

Só estaremos a salvo na realidade virtual?

A primeira ilusão a ser dissipada é aquela formulada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, durante sua recente visita à Índia, onde ele disse que a epidemia recuaria rapidamente e que só precisamos esperar pelo seu pico, que a vida voltará ao normal.
Contra essas esperanças fáceis, a primeira coisa que precisamos aceitar é que a ameaça veio para ficar. Mesmo se a onda passar, ela reaparecerá em novas formas — quiçá bem mais perigosas.
Por esse motivo, podemos esperar que as epidemias virais afetem nossas interações mais elementares com outras pessoas e objetos ao nosso redor, incluindo nosso próprio corpo — evitar tocar em coisas que possam estar (invisivelmente) sujas, não sentar em assentos sanitários ou bancos públicos, evitar abraçar pessoas ou apertar as mãos. Podemos até passar a ter mais cuidado com gestos espontâneos: não encostar no nariz nem esfregar os olhos.
Portanto, não serão apenas o Estado e outras instituições nos controlando, devemos também aprender a nos autocontrolar e disciplinar. Talvez apenas a realidade virtual seja considerada segura e a movimentação livre em espaços abertos fique restrita às ilhas pertencentes aos ultrarricos.
Mas mesmo no nível da realidade virtual e da internet, devemos lembrar que, nas últimas décadas, os termos “vírus” e “viral” foram usados principalmente para designar vírus digitais que infectavam nossos espaços na web e dos quais não tínhamos consciência, pelo menos até que seu poder destrutivo fosse liberado (por exemplo, a destruição de nossos dados ou de discos rígidos). O que vemos agora é um forte retorno ao significado literal original do termo: as infecções virais trabalham de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual.

O Retorno do Animismo Capitalista

Outro fenômeno bizarro que podemos observar é o retorno triunfante do animismo capitalista, de tratar fenômenos sociais como mercados ou o capital financeiro como uma entidade viva. Lendo a mídia empresarial, ficamos com a impressão de que, na verdade, não deveríamos nos preocupar com os milhares que morreram (nem com os outros milhares que ainda vão morrer), mas com os “mercados que estão ficando apreensivos”. O coronavírus perturba cada vez mais o bom funcionamento do mercado mundial e, segundo o que ouvimos, o crescimento pode cair dois ou três por cento.
Tudo isso não indica claramente a necessidade urgente de uma reorganização da economia global, que não esteja mais à mercê dos mecanismos de mercado? É óbvio que não estamos falando de comunismo às antigas, mas de alguma forma de organização mundial que consiga controlar e regular a economia — bem como limitar a soberania dos estados-nação quando necessário. Os países já conseguiram fazer isso no contexto da guerra no passado, e agora todos nós estamos, efetivamente, nos aproximando de uma guerra clínica.
Além do mais, não devemos ter medo de reparar em alguns efeitos colaterais positivos da epidemia. Um de seus símbolos são os passageiros aprisionados (em quarentena) em grandes cruzeiros — boa maneira de se libertar da obscenidade desses navios, devo dizer. (Só precisamos tomar cuidado para que as viagens a ilhas isoladas ou a outros resorts exclusivos não se torne, novamente, o privilégio de uns poucos ricos, como aconteceu décadas atrás com voos de avião). A produção de automóveis também se vê seriamente afetada pelo coronavírus — o que não é de todo ruim, já que isso pode nos levar a pensar em alternativas à nossa obsessão pelos veículos individuais. E a lista não para por aí.
Num discurso recente, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, declarou: “Não existe essa coisa de liberal. Um liberal nada mais é do que um comunista com um diploma”.
E se o contrário estiver certo? Se designarmos como “liberais” todos aqueles que se preocupam com a nossa liberdade; e, como “comunistas”, aqueles que sabem que só poderemos salvá-la por meio de mudanças radicais — já que o capitalismo global está cada vez mais próximo de uma crise? Então, deveríamos dizer que, atualmente, aqueles que ainda se reconhecem comunistas são liberais com diplomas — liberais que estudaram seriamente o porquê de nossos valores liberais estarem sob ameaça, e que tomaram consciência de que só uma mudança radical poderá salvá-los.

terça-feira, 10 de março de 2020

Bernie Sanders x Joe Biden: a disputa final do Partido Democrata, ou o conflito entre a mudança real e a proteção do demente establishment anti-humanismo. Texto de Vinicius Gomes Melo



Reprodução
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Joe Biden se consolida como o candidato do establishment do Partido Democrata com a vitória de mais estados e delegados na Super Terça e com a desistência de quatro competidores diretos. Bernie Sanders segue vivo na disputa e é o nome a ser derrotado
Por Vinicius Gomes Melo, publicado originalmente em berniesanders.com.br
O ex-vice-presidente Joe Biden não poderia ter tido uma noite melhor na última terça-feira (3), na chamada Super Terça, quando 15 estados e territórios norte-americanos realizaram caucuses e primárias pelo Partido Democrata. Ao conquistar ao menos nove estados, Biden retoma a liderança pela nomeação do partido e individualiza a disputa democrata com o senador de Vermont Bernie Sanders.
Aproveitando o bom momento que sua expressiva vitória no sábado, 29 de fevereiro, nas prévias pela Carolina do Sul, Joe Biden viu sua campanha ressurgir das cinzas. A façanha foi tomada como uma surpresa para todos, ou praticamente todos. Isso porque as 48 horas entre a primária de sábado e a Super Terça trouxeram novos elementos ao pleito democrata.
Ainda no domingo (1), o candidato Pete Buttigieg, ex-prefeito de South Bend, Indiana, anunciou que estava encerrando sua participação na corrida eleitoral pela nomeação do partido.
Na segunda-feira (2), foi a vez da candidata Amy Klobuchar dizer que também estava abandonando a disputa, cerca de 24 horas antes do início da Super Terça. Curiosamente, o estado pela qual ela é senadora, Minnesota, estava entre aqueles que teriam primárias n
Ao final da terça-feira, Joe Biden terminava o dia vencendo ao menos nove estados (Alabama, Arkansas, Carolina do Norte, Massachusetts, Minnesota, Oklahoma, Tennessee, Texas e Virgínia) e liderando no Maine. Enquanto Sanders conquistaria Colorado, Utah e Vermont, e liderava no maior prêmio da noite, a Califórnia.
Na manhã de quarta-feira (4), foi a vez de Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, desistir da nomeação e apoiar Joe Biden.
Para ser nomeado pelo Partido Democrata e ir disputar as eleições contra Donald Trump, em novembro, o candidato ou a candidata precisa conquistar 1.991 delegados entre os 3.979 totais. Nessa Super Terça, estavam em disputa 1.357. Segundo previsões do New York Times, o ex-vice-presidente deve conquistar 670, enquanto Sanders ficaria com 589.
Todos contra Bernie
Se a coalizão centrista por trás de uma única candidatura era previsível, ela certamente não era esperada já para a Super Terça. É quando percebe-se a mão invisível do alto escalão democrata já agindo para combater a então liderança de Bernie Sanders na disputa do partido.
Pouco tempo depois de abandonar as primárias, Buttigieg recebeu um telefonema de Barack Obama. O ex-presidente tem se mantido, publicamente, distante das primárias democratas, evitando explicitar apoio até mesmo ao seu ex-vice. No entanto, ainda que Obama não tenha diretamente solicitado que Buttigieg endossasse Biden, ele afirmou que o ex-prefeito agora tinha conquistado força e ele deveria considerar como melhor usá-la para o partido. Por sua vez, a senadora Klobuchar correu rumo à Dallas, no Texas, para participar, ao lado de outro ex-postulante democrata, Beto O’Rourke, de um comício de apoio à Joe Biden. Outros nomes proeminentes dos Democratas também entraram no bonde Biden após sua vitória na Carolina do Sul, tendo como único objetivo conter a ascensão de Sanders.
Questionado sobre essa consolidação de “moderados” contra ele, Sanders foi direto: “Veja bem, isso não é um segredo – só o Washington Post tem 16 artigos por dia sobre isso – existe uma esforço massivo para parar Bernie Sanders. Isso não é segredo para ninguém aqui. Os establishments corporativo e político estão se unindo e eles farão tudo e qualquer coisa [para vencê-lo]”.
O eleitorado negro
As primeiras horas da Super Terça já indicavam uma noite favorável ao ex-vice-presidente. Os primeiros estados a fecharem suas urnas e iniciarem as contagens de votos eram do Sul, onde Biden já era o favorito: especialmente pela forte presença do eleitorado negro e por sua vitória, três dias antes na Carolina do Sul.
Após performar muito mal nos primeiros estados disputados (Iowa, New Hampshire e Nevada), Joe Biden colocou todas as suas fichas na Carolina do Sul, contando com o apoio do expressivo eleitorado negro no estado para esse tudo ou nada. Deu certo. Ele recebeu mais votos em todos os condados do estado, o que lhe deu garantiu 38 dos 54 delegados disputados. Bernie Sanders ficou em segundo lugar, com 15 delegados.
A larga vitória de Biden fez sua primeira vítima já no sábado: o bilionário Tom Steyer, que também havia colocado todos os seus ovos na cesta da Carolina do Sul. No entanto, ele não chegou nem a conquistar os 15% de votos necessários para angariar delegados.
Ao longo da noite de terça-feira, todos os estados do sul em disputa se alinhavam à Joe Biden: primeiro a Virgínia, depois a Carolina do Norte, o Alabama veio logo em seguida, Tennessee, Arkansas e Oklahoma fecharam a conta e confirmaram o favoritismo de Biden junto ao eleitorado negro, uma das principais bases de apoio ao Partido Democrata e, na qual, Bernie Sanders esperava performar melhor após sua primeira disputa presidencial, em 2016.
À essa altura, Joe Biden já ultrapassava Bernie Sanders, que ganhara no Colorado e confirmava seu favoritismo em Vermont.
Texas, Minnesota e Massachusetts
O verdadeiro golpe para Bernie Sanders veio, no entanto, de lugares onde ele apostara suas fichas nos últimos dias.
Ciente da quase certa derrota nos estados do Sul, o senador de Vermont colocou sua mira em dois estados mais progressistas que tinham sua disputa em aberto: Minnesota e Massachusetts. O plano era ousado, especialmente porque os dois estados eram redutos eleitorais de duas candidatas: a senadora Amy Klobuchar e a senadora Elizabeth Warren, respectivamente. As previsões apontavam que Sanders poderia disputar de igual para igual com ambas.
Não foi o que se sucedeu. A saída de Klobuchar e seu subsequente apoio à Biden deram enorme força ao ex-vice-presidente em Minnesota. Já em Massachussets, onde Biden sequer pisou nos meses anteriores à Super Terça, sua vitória foi mais surpreendente. Ao que parece, no fim, a disputa de votos entre Sanders e Warren serviu impulsionar Biden.
O Texas, por sua vez, era o segundo grande prêmio da noite. Com 228 delegados em disputa, o estado era uma incógnita. As primeiras previsões apontavam para uma vitória de Bernie Sanders, especialmente após sua vitória no estado vizinho de Nevada.
No entanto, a vitória posterior de Biden na Carolina do Sul e todos os outros estados sulistas ao longo da Super Terça, contribuíram para a vitória apertada do ex-vice-presidente no estado.
A matemática por delegados
Quando a Super Terça terminou, Joe Biden contabilizava nove estados e Bernie Sanders apenas três (Utah se juntava à Vermont e Colorado). Seguiam em disputa o Maine, acirrado mas pendendo para Biden, e a Califórnia, tendo Sanders como favorito.
Mas enquanto o estado da Nova Inglaterra oferece apenas 24 delegados, o gigante da Costa Oeste contabiliza 415 delegados. E é graças a Califórnia que Bernie Sanders continua vivo na dipusta apesar de Joe Biden ter vencido mais estados.
Isso acontece porque, no fim, não é a quantidade de votos que se recebe que conta, apesar de ela ser um importante indicador de que tal candidato está ressoando em mais lugares. O que os candidatos em disputa querem mesmo é o número de delegados.
Mesmo conquistando apenas 4 estados, Sanders deve ficar atrás de Biden por menos de 100 delegados.
Porém, mesmo pela ótica dos delegados, Biden também teve uma noite melhor. Isso porque mesmo nos poucos estados que Sanders venceu – excluindo Vermont – ele precisou “dividir” o total de delegados com até outros candidatos, além de Biden.
Em Colorado, tanto Elizabeth Warren, quanto Michael Bloomberg, ultrapassaram a barreira dos 15% e tomaram parcelas de delegados que poderiam ser de Bernie Sanders. O mesmo deve ocorrer em Utah, que não finalizou sua contagem de votos.
Por sua vez, Joe Biden não teve o mesmo problema nos estados em que foi vitorioso. Exceto por Arkansas, Massachusetts, Minnesota, Texas e Virgínia, o ex-vice presidente teve que dividr o total de candidatos apenas com Sanders. Sendo que nesses dois últimos estados, ele perdeu apenas 3 delegados para Warren e Bloomberg.
Assim sendo, não deve-se perder de vista que, apesar de Joe Biden ganhar muito mais estados que Bernie Sanders, a diferença entre delegados conquistados é consideravalmente menor que as manchetes dando a vitória da Super Terça à Biden podem sugerir.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Bernie Sanders: uma ameaça ao establishment dos Estados Unidos. Texto de Matheus Vieira



"Um candidato social democrata se tornou a maior ameaça 'socialista' ao nada democrático sistema de governo dos EUA", diz o colunista


(Foto: REUTERS/Randall Hill)

Do Brasil 247:


Explicar a trama da sexta temporada de Homeland é simples: uma presidente anti establishment e com propostas anti imperialistas vence de maneira improvável a eleição norte americana. A CIA, a mídia e outros setores militares e civis a enxergam como uma grande ameaça à segurança nacional e começam a conspirar para derrubá-la antes mesmo que ela assuma o seu cargo e comece uma espécie de revolução no modus operandi da geopolítica dos EUA. A partir daí a história se desenvolve por meio de conspirações que vão desde a encenação de um atentado terrorista falso executado pelos próprios generais do estado maior da nação até uma tentativa de assassinato contra a presidente feita com o  consentimento de setores da CIA. Homeland, claro, é uma obra de ficção. Mas se tratando das fraudes, atrocidades, e mentiras - conhecidas e desconhecidas - que o establishment dos EUA já cometeram seja em nome da segurança nacional ou dos seus ditos “valores democráticos” seria muito paranóico enxergamos um cenário de sabotagem, mesmo que não tão radical quanto o da série (pelo menos por enquanto) a candidatura de Bernie Sanders por parte do establishment? 
Evidentemente não houve nenhuma conspiração contra o possível candidato democrata à presidência - pelo menos não uma do tamanho e gravidade que a série apresenta. Mas alguns casos são no mínimo suspeitos começando por Iowa. Como se sabe, já a algum tempo que o caucus de Iowa dá início às prévias democratas. Para se ter uma ideia, dos últimos 8 candidatos democratas que venceram a corrida pela disputa presidencial 6 venceram em Iowa. Esse pequeno Estado localizado no centro-oeste estadunidense oferece de antemão as coordenadas que define, pelo menos na maioria das vezes, o vencedor das primárias democrata. E os números esse ano não deixavam dúvida: Bernie Sanders era o favorito em praticamente todas as pesquisas de intenção de voto que foram realizadas no local. Claro que reviravoltas sempre podem ocorrer, principalmente no que diz respeito a corrida democrata pela disputa presidencial. Mas a reviravolta que culminou com a derrota de Sanders desperta bastante curiosidade. 
Em primeiro lugar, houve várias horas de atraso na divulgação parcial e final do resultado. O partido democrata afirmou que a demora aconteceu por conta de um problema com a precisão dos números e com certas inconsistências no resultado. O escândalo que essa confusão causou foi tão grande que levou Troy Price, líder do partido na região, a renunciar ao cargo. Pior ainda: houveram tantos erros e suspeitas que Tom Perez, presidente do Partido Democrata, chegou a pedir uma recontagem de votos. As suspeitas em torno do caos em Iowa não cessaram e provavelmente ainda irá render muita discussão nos próximos anos, mas o fato é que Sanders, apontado nas pesquisas como favorito a vencer acabou ficando em segundo numa contagem de votos suspeita, bastante polêmica e que rendeu uma renúncia, além, claro, de ter a credibilidade de seu resultado colocada em questão até mesmo pelo presidente do Partido. 
Mesmo assim, Bernie Sanders despontava seu favoritismo como um forte candidato vencendo as primárias de New Hampshire e Nevada. A sua ascensão era explicada com um misto de inconformismo com a geopolítica imperialista do último século, assim como o desejo por um sistema político mais humano que se assemelharia a um modelo social-democrata. As pesquisas apontavam que cada vez mais a vitória de Sanders tomava corpo. Esse otimismo duraria pouco. Uma dúvida pairava no ar: o partido democrata (assim como os grandes empresas que financiaram o partido por tantas décadas)  realmente ficaria de braços cruzados diante da ascensão de um candidato que tem como programa de governo tudo aquilo que vai de encontro aos interesses do grande empresariado e que sequer é filiado ao partido ser o seu representante nas eleições contra Donald Trump? 
A resposta veio logo em seguida. Nas primárias da Carolina do Sul após uma enxurrada de propaganda tanto dentro do partido como nos veículos de mídia que teve como líder ninguém menos do que o ex presidente Barack Obama, Joe Biden, seu ex vice, venceu com uma margem confortável. Mesmo que a vitória de Sanders fosse improvável nesse estado, o recado havia sido dado. A ascensão de Bernie Sanders havia sido parada nas primárias da Carolina do Sul que são de extrema importância por anteceder a super terça, onde nada menos que 14 estados definem o maior número de delegados para a campanha de cada um. 
A guerra estava declarada. Os democratas, a mídia tradicional e os republicanos se uniram para não permitir que Sanders pudesse obter um resultado favorável na super terça. O Washington Post, por exemplo, publicou uma notícia de que a candidatura de Bernie Sanders era apoiada por Vladimir Putin e que Moscou intervinha na eleição para que ele saísse vitorioso. Várias mensagem no whatsapp foram disparadas com tal notícia, as famosas fake news. E os ataques não pararam por aí. Na super terça que ocorreu essa semana na Carolina do Norte, por exemplo, vários eleitores afirmaram que votaram em Joe Biden por receberem a notícia que ele era favorável não só da ampliação universal do Medicare (programa de seguro de saúde do governo que atende pessoas de renda baixa acima de 65 anos que tenham contribuído pelo menos 10 anos para o seguro, ou pessoas com idade inferior portadoras de deficiência física) como de reformas que fizessem com que o programa se tornasse mais acessível. Uma notícia falsa escandalosa já que desde que sua campanha obteve o financiamento da indústria farmacêutica e do serviço de saúde ele mudou o seu discurso não só argumentando contra a ampliação do programa mas também clamando pelo seu fim. 
Por outro lado, o presidente Donald Trump deixava claro nas suas redes sociais que preferia disputar a eleição contra Bernie Sanders do que contra qualquer outro adversário. Esses ataques eram a verdadeira demonstração do perigo de Bernie Sanders a extrema direita representada por Trump, afinal, se Sanders não representasse uma ameaça ao presidente por qual motivo ele faria esse tipo de campanha contra o candidato? Se ele realmente pensasse que Sanders não é um perigo por que o ataca frequentemente nas redes sociais com o intuito de desestabilizar a sua campanha em detrimento de Biden?  Mais um ato que além de deixar escancarado que Sanders é o adversário mais temido por trump, também mostra que quando se trata de conter uma real mudança no modus operandi da política norte americana, os republicanos e democratas não sentem nenhum pudor em dar as mãos e se abraçarem. 
Chegou a super terça e Joe Biden venceu em pelo menos em 9 estados dos 14 que estavam em disputa mesmo com Sanders vencendo com folga na Califórnia, estado com o maior número de delegados. O resultado coloca o ex vice de Barack Obama liderando na disputa contra Sanders. O resultado surpreende. Até poucos dias atrás ninguém apostaria que o candidato de centro vencesse em estados onde Sanders era claramente favorito. Mesmo que tenha liderado no estado com o maior número de delegados, o resultado de hoje pode ser considerado uma grande derrota na corrida presidencial para Sanders. Mas o que levou as primárias a tamanha reviravoltas? 
Algumas coisas podem explicar isso. Um dos principais elementos foi a mídia comercial que Joe Biden angariou nos noticiários locais e nacionais antes das eleições. Segundo o consultor Kevin Cate, na Carolina do Norte, por exemplo, Joe Biden havia conseguido o apoio “informal” de mais de 70 milhões de dólares de mídia positiva apenas naquele estado. Nacionalmente ele conseguiu mais de 100 milhões de mídia positiva, ainda segundo o consultor. A propaganda, portanto, que ele “ganhou” antes da super terça por boa parte da mídia foi determinante para a sua vitória. Evidentemente que um candidato não ganha esse apoio avassalador da mídia por acaso. Adam Johnson, escritor e jornalista, afirma que Joe Biden carrega muito dos interesses financeiros das grandes instituições midiáticas norte americana. 
Mas não é apenas isto. Existe um número com mais de 60 bilionários que financiam e apoiam a candidatura de Biden. Suas declarações em Nova York no ano passado deixou claro o tipo de política que ele tomaria em relação aos mais ricos do país e conseguiu grande apoio. Em primeiro lugar, o candidato  afirmou que se eleito não aumentaria os impostos sobre as grandes fortunas, e pra piorar, ainda pediu aos eleitores ricos que ficassem tranquilos com a sua candidatura, pois para eles nada mudaria. Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. Após tranquilizar os seus amigos ricos, Biden declarou que iria trabalhar com a oposição, desde o mais liberal até o conservador.  O problema foi que ele citou a sua capacidade de trabalhar até com James O. Eastland, segregacionista branco e declaradamente racista.
Lee Fang, jornalista do The Intercept, também publicou uma matéria em outubro do ano passado mostrando quem eram os lobistas por trás do financiamento da campanha de Biden - todos proviam ou da indústria de armas (conhecida como a indústria da guerra), ou da indústria de serviços de saúde (empresas totalmente contrárias a um programa público de saúde gratuito) ou de organizações financeiras (estas dispensam qualquer comentário).
Com isto, os motivos da ascensão de Joe Biden e a demonização de Bernie Sanders começam a ficar mais evidentes. Um é o candidato que apoia os interesses da mídia tradicional, o outro não. Um é o candidato financiado pela indústria armamentista, de serviços de saúde e financeiras, o outro não. Um quer acabar com o medicare, o outro defende um serviço de saúde pública universal e de qualidade. Um diz que se pode trabalhar até com segregacionistas racistas brancos, o outro chama a política genocida do estado de Israel de racista. Um é financiado por bancos, o outro prega o fim do monopólio bancário. Um é Joe Biden, o outro Bernie Sanders. São por estes motivos que até a mais remota possibilidade de Bernie Sanders chegar a casa branca une Republicanos, Democratas e a mídia ao redor dos dois. 
Bernie Sanders não é Lênin, não é Mao Tse-Tung, tampouco Fidel Castro (mesmo sendo acusado de castrismo por seus adversários pelo simples fato de ter elogiado o sistema de saúde cubano), mas é, sem sombra de dúvida, o maior perigo à ordem estabelecida pelo establishment norte americano. Suas propostas radicais incluem saúde para todos, o retorno das tropas que estão no estrangeiro nas guerras causadas pelo imperialismo, assim como o fim do financiamento privado das campanhas eleitorais. Embora ele se auto denomine um socialista, a política defendida pelo senador se aproxima muito mais da social democracia, ironicamente uma forma de estado que veio à tona justamente para evitar um avanço maior do socialismo. Mais de 60 anos depois e quem diria? Um candidato social democrata se tornou a maior ameaça “socialista” ao nada democrático sistema de governo dos EUA. 

quinta-feira, 5 de março de 2020

Tratado por pró-golpistas de direita da Globo, como Jabor, como Bolsonaro de esquerda, Bernie Sanders condena ataques a adversários






Ontem, Bernie Sanders  declarou que está "enojado" por quaisquer ataques pessoais que seus apoiadores ou qualquer outra pessoa tenham lançado contra sua oponente presidencial, senadora Elizabeth Warren.

Tratado por Jabor como Bolsonaro de esquerda, Sanders condena ataques a adversários

Por Luis Nassif
GGN. - Na lista dos falsos paralelismos, o comentarista Arnaldo Jabor tratou Bernie Sanders, candidato a candidato do Partido Democrata dos EUA, como “Bolsonaro da esquerda”.
Trata-se do mais novo esporte trazido pelo acesso online ao noticiário internacional: dar opinião taxativa e de impacto sobre temas nos quais não se aprofunda.
Ontem, Bernie Sanders  declarou que está “enojado” por quaisquer ataques pessoais que seus apoiadores ou qualquer outra pessoa tenham lançado contra sua principal oponente presidencial, senadora Elizabeth Warren.
A declaração foi em resposta a uma pergunta de uma apresentadora da MSNBC.
“Condenamos isso”, disse Sanders. “Queremos que nossos apoiadores estejam [falando] sobre os problemas.
“[Não] precisamos de ataques feios e pessoais contra o senador Warren ou qualquer outra pessoa para essa medida”, acrescentou.
Ele disse que teve uma discussão cordial com Warren enquanto ela reavalia sua campanha , mas não discutia a conversa particular com seu colega e oponente.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Por Bernie Sanders não aceitar dinheiro dos bilionários e de Wall Street, vendendo-se ao establishment neoliberal, a máquina de centro-direita do Partido Democrata não vai permitir que ele vença.. "Bernie or Bust!"



Vídeo I - Do Canal TV Afiada, análise de Luis Carlos Azenha:



O candidato Bernie Sanders foi o grande derrotado da "superterça" - o dia em que os eleitores em vários estados-chave escolheram quem será o possível candidato do Partido Democrata nas eleições presidenciais norte-americanas de novembro. A máquina do partido - incluindo os caciques Democratas, como Hillary Clinton e Barack Obama - decidiram apoiar o ex-vice Joe Biden, um candidato moderado. Afinal, o discurso anti-establishment de Bernie Sanders é visto como uma ameaça ao próprio Partido Democrata, viciado nas doações de Wall Street... Mas muitos eleitores - especialmente os mais jovens - já avisaram: é "Bernie or Bust!" O que isso significa? Saiba mais na análise exclusiva de Luiz Carlos Azenha para a TV Afiada!

Vídeo II - Do Canal A Nova Máquina do Tempo, de André Teixeira Jacobina:


Vídeo III -  Da TV 247 - Entrevista com Jean Goldenbaum: sobre as eleições nos EUA e Israel