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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Com a extrema-direita e seu autoritarismo falso moralista, perdemos a noção de Democracia.... Leia a crônica de Izaías Almada

 

Um candidato da maior “democracia” do planeta a ameaçar não reconhecer o resultado do pleito se for derrotado? Quem diria, hein?


Perdemos a noção

por Izaías Almada

Voltava eu da Exposição em homenagem a Dom Paulo Evaristo Arns na semana passada, apresentada agora no Centro Cultural da Juventude na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, quando me deparei com uma irônica e não menos verdadeira mensagem pichada numa parede branca no bairro da Pompeia: “Perdemos a noção”.

Boa parte do final do retorno a casa foi consumida em imaginar e pensar quem seria o autor daquela pichação, ou os autores, caso tivesse alguma conotação política.

Não foi difícil intuir, pelo momento em que vivemos no Brasil e em boa parte do mundo, que a frase só poderia fazer algum sentido se a intenção da mensagem fosse de alcance político e social, pois não só fomos condenados a conviver com uma estranha pandemia que já causou a morte de centenas de milhares de seres humanos nos cinco continentes, mas perceber – pelas notícias que recebemos de fatos relacionados direta ou indiretamente ligados ao covid-l9 – que de fato estamos perdendo a noção do que se passa à nossa volta.

Tomemos como exemplos a serem analisados, até pela sua inegável atualidade, as eleições presidenciais nos Estados Unidos da América hoje e as eleições municipais brasileiras, onde prefeitos e vereadores serão escolhidos em todo o país a partir do próximo dia 15.

Joe Biden ou Donald Trump?

Comecemos pelas eleições presidenciais norte americanas, onde muito se especula sobre a possível vitória do candidato democrata ou – o que não deixa de ser surpreendente na história da “democracia” dos EUA – o não reconhecimento antecipado da derrota republicana, anunciado publicamente pelo candidato Trump.

Um candidato da maior “democracia” do planeta a ameaçar não reconhecer o resultado do pleito se for derrotado? Quem diria, hein?

Ou seja, de tanto se esforçarem por manter os países da América Central e do Sul como sendo uma espécie de quintal da Casa Branca, o vento pestilento que criaram com o apoio a tantos golpes de estado, sobretudo no século XX parece que muda de rumo e retorna perigosamente a Washington e adjacências.

Não que seja novidade se lembrarmos da eleição de Bush filho sobre o democrata Al Gore, por exemplo, ou mesmo a de Trump sobre Hillary Clinton. A novidade se vier a se consumar a vitória democrata, é o fato de termos uma espécie de golpe de estado na matriz, mesmo que por lá não se encontrem as famosas “embaixadas dos Estados Unidos” para preparar o cada vez mais escorregadio terreno antidemocrático.

Já por aqui, na filial, tudo indica que os professores de Aécio Neves, José Serra, Michel Temer, Sergio Moro e outros menos votados estejam às vésperas de beber do próprio veneno que espalham por vários países pelo mundo. Deus salve a América!

Fundamentalistas evangélicos de todo o mundo, uni-vos! A coisa pode ficar feia para os que brincam com satanás, usando-o como escudo para suas estripulias.

Aqui dentro de casa milhares e milhares de cidadãos expõem pelo rádio e pela televisão as suas promessas de candidatos às prefeituras e camaras de vereadores, oitenta por cento deles – para sermos condescendentes – sem saber exatamente como explicar o que farão se forem eleitos. São tantas as promessas, é tanta a esmola que o santo nem mais desconfia, mas tem a certeza de que está sendo enganado.

Um verdadeiro show de horrores, para dizer o menos, pois o número de candidatos é tão grande que não há tempo disponível para se apresentarem ou apresentarem suas plataformas, dessa vez com o nome dos partidos citados por uma voz em alta rotação onde não se entende muito bem o que é dito. Nada mais natural, pois são tantos os cabides de emprego, quero dizer, são tantos os partidos políticos no Brasil que o nome deles não interessa.

De fato, perdemos a noção do que fazer diante de tanta incompetência, malandragem, desemprego, falsa cultura, deboche, ganância, egoísmo, falta de solidariedade… E por aí vamos.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O Estado de Bem Estar para todos é considerado Parasita para os Ricos, Empresários, Banqueiros e para os militares que os protegem



Se o capital privado precisa de desempregados, precarizados, do lumpesinato enfim, para lhe assegurar lucro, tudo o que ele não deseja é um Estado capaz de prover a existência digna das massas.



O Estado e seus parasitas: única esperança para os pobres, por Plínio Gentil




do Coletivo Transforma MP

O Estado e seus parasitas: única esperança para os pobres

por Plínio Gentil [1]

Consta do noticiário que, no dia 7 de fevereiro, o ministro da Economia, participando de seminário na Escola de Finanças da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, teria afirmado que os funcionários públicos, graças as suas aposentadorias e salários, tornaram-se parasitas (da sociedade). Consta ainda que, mais recentemente, o ministro se desculpou, dizendo que suas palavras foram reproduzidas fora do contexto e que, na verdade, se expressara mal, pedindo escusas a quem pudesse “descuidadamente ter ofendido”.[2]
Na realidade, aquilo que o ministro expressou, num aparente ato falho, é reflexo de uma ideia, arraigada no atual governo e em parte da sociedade, de que o Estado é um empregador generoso demais, que seus servidores têm indevidas mordomias e que mais fariam bem à sociedade se tivessem que disputar, palmo a palmo, vagas de emprego na iniciativa privada, onde regras mais duras melhor os selecionariam por suas qualidades e lhes imporiam desempenho adequado, sob o risco de sumária demissão. Idêntico raciocínio vale para as vagas de cotas nas universidades, por muitos vistas como estímulo à vadiagem.
Tal ideia consiste, por sua vez, no desdobramento de uma outra, que propõe o encolhimento do Estado, tido por ineficiente, e a ocupação de seu espaço pelo capital privado, este sim, dinâmico e vigoroso, impulsionador do desenvolvimento e do aumento da riqueza nacional. É, em suma, o fio condutor da doutrina liberal, gestada a partir do Iluminismo e tendo constituído a base teórica para as revoluções burguesas no Ocidente dos séculos XVII e XVIII, uma vez que, no regime do absolutismo, o Estado se confundia com a monarquia todo poderosa, enquanto os verdadeiros criadores de riqueza, os mercadores, banqueiros e donos de manufaturas, estavam alijados do poder político. Era então preciso reduzir o Estado esbanjador e entregar a condução da sociedade aos detentores do capital privado, destinados a trazer o progresso.
Só que, vencido o absolutismo e instalado o governo representativo, passando o Estado a ser dominado pelas forças possuidoras de riqueza, o resultado que rapidamente se viu foi o de uma formidável miséria das massas, parte delas agora alojada nos burgos, logo tornados grandes cidades, outra parte permanecida no campo, exploradas de toda forma pelos proprietários de estabelecimentos comerciais, indústrias e do latifúndio, condenadas à fome, à imundície, à morte precoce, ao desemprego, à ignorância. A Revolução Industrial, já na sua primeira fase, desnudou, de forma incontestável, a precariedade em que viviam esses enormes contingentes, privados de todos aqueles direitos enunciados com eloquência nos primeiros momentos das revoltas encabeçadas pelos burgueses, aos quais tinham então se associado. Evidencia-se para o mundo o insolúvel antagonismo entre proprietários e assalariados, ou entre burgueses e proletários (os que, de seu, só produzem prole), estes, pela primeira vez, alcançando o que viria a ser chamado de consciência de classe. Aos não proprietários restava servir de mão de obra para a construção de uma riqueza da qual não participariam, a custo baixo, uma vez que suas parcas remunerações seriam garantidas pelo desemprego estrutural, ou, em termos mais técnicos, pelo permanente exército industrial de reserva.
Pois bem, essas massas de não proprietários, constituídas de assalariados, autônomos, precarizados, desempregados e o chamado lumpesinato (os homens-trapo), atualmente no Brasil correspondendo às camadas entendidas como de baixa classe média e o que lhe vem abaixo, equivalem, na estimativa de autores como Jessé Souza[3], a cerca de oitenta por cento da população brasileira na atualidade.
Ocorre que essas pessoas estão culturalmente marcadas com o signo da sub-humanidade, que lhes deve ter sido posto pelos trezentos anos de escravatura, ante o que passamos a naturalizar diferenças de classes, abissais o bastante para justificar, aos olhos do homem médio, a inferioridade natural de algumas.
Ocorre também, como é óbvio, que no modelo de economia vigente não haverá postos de trabalho suficientes para todas essas pessoas e que, se houver, a maior parte delas terá salários muito baixos, incapazes de lhes proporcionar acesso aos benefícios produzidos pelo desenvolvimento econômico, como boas escolas, bons médicos e hospitais, transporte decente, uma inatividade confortável etc., se estes benefícios forem oferecidos pelo capital privado.
Por mais que se procure repetir o velho discurso dos proprietários, de que o arrojo individual e o esforço pessoal trarão sucesso a cada um, o que demonstram séculos de um Brasil na periferia do capitalismo é que os ricos tendem a se tornar mais ricos e os pobres, mais pobres[4]. Além disso, faltando-lhes de tudo, estes têm dificuldade de produzir capital cultural bastante para o desenvolvimento de uma consciência de classe, que lhes possibilite o exercício da reivindicação organizada, coisa que se verifica apenas em reduzidos setores do proletariado, conforme se vê em alguns segmentos das categorias de bancários, metalúrgicos, gráficos, e outros poucos, em pontos isolados do país.
Ora, isto é que faz essas massas naturalmente dependentes. Considerando que a iniciativa privada nenhum interesse tem em atendê-las, salvo no mínimo necessário para que se mantenham vivas, será apenas o Estado a fonte capaz de lhes proporcionar o acesso a serviços e bens representativos de alguma dignidade e de perspectiva de algo mais que a simples sobrevivência. O Estado, com seus poderes independentes, seus órgãos, seus programas de apoio, sua previdência, seus funcionários tidos por parasitas, seus bancos e suas escolas é o único prestador de benefícios que, sem serem privilégios, podem ser, ainda que minimamente, usufruídos por oitenta por cento da população brasileira.
Então, se o capital privado precisa de desempregados, precarizados, do lumpesinato enfim, para lhe assegurar lucro, tudo o que ele não deseja é um Estado capaz de prover a existência digna das massas. O SUS precisa ser substituído pelos planos de saúde privados, os bancos estatais devem ser vendidos a bancos particulares, a previdência há de ser da iniciativa de empresas privadas, as universidades – e mais tarde todas as escolas – hão de ser propriedade de grupos particulares, nacionais ou estrangeiros. A Petrobrás, a Eletrobrás, a Embraer, tornadas aos olhos do público, com auxílio da mídia, exemplos de mau emprego de dinheiro público, melhor serão tocadas por mãos de eficientes e incorruptíveis empresários. Esta é a narrativa oficial do capital, irradiada pela mídia e hoje acolhida pelo governo. O mercado é a virtude, o Estado, o pecado.
Muito natural, portanto, que os órgãos estatais sejam sempre pintados de ineficazes e esbanjadores e seus agentes identificados como aqueles protozoários que se alimentam de organismos sadios. Mas esses parasitas, no Brasil, até que são em número menor do que se imagina, considerados proporcionalmente à população, se feita uma comparação com outros países. Publicação da Valor.Globo, de 2013, aponta dados do IBGE para dizer que “funcionários públicos eram 1,6% da população brasileira em 2012”[5]. Posteriormente, matéria disponibilizada pela Oppceufc.wordpress, aponta que “muitos países de primeiro mundo tem um número expressivamente maior que o nosso em termos de servidores públicos/população”. E exemplifica com dados da Alemanha (10,6%), Estados Unidos (15,3%), Espanha (15,7%), Noruega (30%), França (21,4%) etc.[6].
O que isto significa? Que aqueles países que admiramos, cheios de gente de bem, honesta, inteligente e trabalhadora, sedes de empresas multinacionais que querem comprar nossas estatais, dão, sim, muita importância aos órgãos de seu Estado, recrutam um expressivo número de funcionários e certamente investem consideráveis recursos na promoção de benefícios sociais e no financiamento da produção nacional. Visam seguramente o atendimento ao grosso da população e têm, portanto, um projeto de país que considera a dignidade de seus cidadãos como pressuposto para seu desenvolvimento e felicidade. E como só podem fazer isto por meio do Estado, possuem um aparato estatal bem equipado, com servidores bem remunerados, além de bancos de financiamento, universidades, hospitais e, boa parte deles, um satisfatório sistema de previdência pública.
Aqui temos apenas 1,6% da população como funcionários públicos. Mas somente o Estado, sobretudo em países pouco desenvolvidos, é capaz de prover as necessidades básicas das massas despossuídas, com seus programas de inclusão econômica, ou escolar, ou de atendimento médico, ou de compensação pelo desemprego, assim como de financiar a produção em setores onde a iniciativa privada é insuficiente, por meio de bancos públicos de orientação social. Para tanto precisa contratar servidores e dar-lhes garantias que a legislação trabalhista cada vez mais nega aos proletários do setor privado, pelo simples motivo de que tais servidores são recrutados para praticar atividades essenciais e indispensáveis para o desenvolvimento de um projeto de país, minimamente capaz de superar as seculares barreiras do atraso, que penalizam milhões de seres humanos. O Estado e seus servidores constituem a maior esperança para a população pobre e vulnerável, seu único porto seguro, a última corda em que, no seu naufrágio, podem se agarrar. Os serviços prestados pelo SUS, pelos órgãos públicos de atendimento social, pelas universidades estatais, pelo Judiciário, pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública precisam, sim, de funcionários públicos. Comparar tais trabalhadores a parasitas representa mais do que um ato falho de um ministro, já desculpado: é uma forma de pensar – nisto está sua gravidade -, própria de uma cultura disseminada pelo poder econômico e tornada narrativa oficial, com a cumplicidade da grande mídia e a colaboração de muitos formadores de opinião. Qualquer mudança começará pela desconstrução dessa idéia.
[1] Plínio Gentil – Procurador de Justiça no Estado de S. Paulo. Doutor em Direito e em Educação. Professor universitário. Associado fundador do MP Transforma. Contato: .
[3] Ver A classe média no espelho. São Paulo: Estação Brasil, 2019.
[4] “O 1% mais rico concentra 28,3% da renda total do país, conforme ranking sobre o desenvolvimento humano. Brasil perde apenas para o Catar em desigualdade de renda, onde 1% mais rico concentra 29% da renda”. Cf. <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/12/09/brasil-tem-segunda-maior-concentracao-de-renda-do-mundo-diz-relatorio-da-onu.ghtml>. Acesso 10/fev./2020.

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A guerra de Bolsonaro contra a verdade, por Petra Costa, diretora do documentário indicado ao Oscar "Democracia em Vertigem"





O Brasil está imerso em um drama sem fim, enquanto o governo leva a democracia e o país à beira do abismo
Por Petra Costa (reprodução da entrevista ao The Washington Post pelo GGN)
Na semana passada, meu documentário Democracia em Vertigem foi indicado ao Oscar na categoria melhor documentário. No filme, entrelaço a ascensão e queda dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro com a minha própria história familiar — tenho a mesma idade da democracia brasileira e, em grande parte, a divisão do país está refletida na minha família.
Após a nomeação, minha equipe foi inundada por mensagens nas mídias sociais nos parabenizando pela conquista. Já o governo reagiu de forma diferente. O então Secretário de Cultura, Roberto Alvim disse: “se fosse na categoria de ficção, a nomeação seria correta”.
Em 2016, eu entrevistei Bolsonaro sobre seus planos para o setor cultural e ele reclamou que nenhum filme brasileiro era bom o suficiente para ser premiado com uma indicação ao Oscar. Na semana passada, no entanto, ele desprezou nossa indicação dizendo “para quem gosta do que urubu come, é um bom filme”. Em seguida, ele admitiu não ter visto o filme, mas isso não impediu que a legião de trolls que o seguem nas redes sociais de papaguear a acusação de que o filme era fake news.
Na quinta-feira, era Roberto Alvim quem estava nas manchetes. Em um vídeo postado nas redes sociais para promover um prêmio nacional de arte, ele proclamou que “a arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional”, “será dotada de uma grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que é profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo — o então não será nada”. O discurso repete frases do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, proclamadas em maio de 1933. Um retrato de Bolsonaro aparecia atrás de Alvim, enquanto Lohengrin — uma ópera do compositor favorito de Adolf Hitler, Richard Wagner — podia ser ouvida ao fundo.
Alvim foi deposto um dia depois, após um clamor público que incluiu a veemente condenação das embaixadas da Alemanha e de Israel. Mas creio que ele foi demitido não porque o governo condena suas opiniões e sim porque foi demasiado explícito sobre opiniões que ambos compartilham. Este é apenas um exemplo de como a democracia brasileira se aproxima do abismo.
O assalto sistemático do governo Bolsonaro à verdade tomou agora um rumo preocupante. Na terça-feira, os promotores federais acusaram o jornalista americano Glenn Greenwald de crimes cibernéticos. As acusações decorrem de uma série de artigos publicados no site The Intercept Brasil, que ele co-fundou, expondo o que parecia ser conluio entre os principais atores da Operação Lava Jato, uma investigação anti-corrupção.
Nos últimos cinco anos, o Brasil tem estado atolado em um drama contínuo, repleto de reviravoltas inesperadas. Em 2016, Dilma Rousseff, nossa primeira mulher presidente, foi alvo de um impeachment por conta uma questão técnica ininteligível para a maioria da população. A imprensa e mídias sociais propagaram a percepção de que ela estava sendo alvo de impeachment por corrupção, o que um grande setor da população estava satisfeita em acreditar. Na semana do seu impeachment, três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas.
Dois anos depois, Lula, candidato favorito para as eleições presidenciais de 2018, foi preso e impedido de concorrer, no que pareceu ser a conclusão perfeita para um longo reality show.
Sérgio Moro, o juiz responsável pela prisão de Lula, foi premiado com o cargo de ministro da Justiça depois que Jair Bolsonaro foi eleito. A eleição de Bolsonaro, um deputado do baixo clero, homofóbico e misógino, foi o resultado de uma extraordinária campanha baseada na disseminação de fake news nas redes sociais. Mais de 98 por cento dos seus eleitores foram expostos a uma ou mais manchetes falsas durante a campanha e quase 90 por cento acreditavam que elas eram verdadeiras, segundo estudo da organização Avaaz. O seu governo dominou a arte de manipular a verdade.
Em Democracia em Vertigem, eu entrecorto as últimas décadas da história política brasileira com a minha história familiar. Meu avô co-fundou uma das maiores construtoras do país, uma das empresas investigadas pela Operação Lava Jato. Meus pais foram militantes de esquerda durante a ditadura (1964-1985), chegaram a ser presos e passaram anos no Sul do país fazendo trabalho de base com estudantes e trabalhadores. Os ideais deles me fizeram acreditar que um Brasil melhor, menos desigual e que não fosse governado por elites corruptas e autoritárias, era possível. Eu votei em Lula com a esperança de que ele faria as mudança políticas tão necessárias. Mas logo o vi formar alianças com as velhas oligarquias do país.
Espectadores do mundo inteiro se identificaram com minha tentativa de discernir os fatos em meio a tanta ficção que está moldando o futuro do Brasil. Acredito que as pessoas se conectam com nosso filme porque sentem que suas democracias estão sob um tipo de ataque semelhante. O que inicialmente pareciam ser casos isolados (na Índia, Brasil e Turquia) se transformou em uma epidemia global. O filme critica os líderes que tentam silenciar pensamentos divergentes. Talvez esta seja a razão pela qual alguns políticos autoritários de extrema-direita, no Brasil e no exterior, queiram classificar os esforços artísticos e jornalísticos para desvendar a verdade como ficção e fake news.
É interessante que Lügenpresse, ou “imprensa mentirosa”, foi um slogan amplamente usado na Alemanha durante o terceiro Reich para descreditar qualquer jornalista que discordasse da posição do governo.
Esforços para descreditar a imprensa e as artes tem sido particularmente devastadores no Brasil. A sua influência vai muito além da política partidária. Desde 2019, as elites de extrema-direita e os grupos conservadores religiosos têm travado uma guerra cultural a níveis que não se viam desde os anos mais duros da ditadura militar.
O líder do governo caracterizou o Carnaval brasileiro, uma grande fonte de orgulho em nossa cultura, como uma festa degenerada. Alguns de nossos maiores artistas foram atacados, livros escolares estão sendo reescritos e recursos foram cortados para séries e projetos cinematográficos sobre temas L.G.B.T.Q. Mais de 30 obras de arte foram censuradas, auto-censuradas ou canceladas. Essa guerra cultural atingiu novos patamares em dezembro quando a produtora, Porta dos Fundos, foi atacada com coquetéis Molotov por conta de seu episódio satírico A Primeira Tentação de Cristo, que retrata Jesus como homosexual.
Não há luz visível no fim do túnel desta guerra cultural que procura censurar os valores liberais e progressistas e desconstruir a verdade para impor um fascismo tropical. Como aponto em Democracia em Vertigem, a elite se cansou do jogo da democracia. A história do nazismo mostra que as elites que se calaram diante do avanço do autoritarismo acabaram sendo engolidas por ele. A extinção é o preço da omissão.
Petra Costa é cineasta. Seu último filme, Democracia em Vertigem, foi indicado para o Oscar de melhor documentário.

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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Em entrevista para Juca Kfouri, Luiza Erundina discute os descalabros de Bolsonaro e sua proposta destrutiva e entreguista



Trecho da Entrevista de Luiza Erundina a Juca Kfouri, do Canal TVT:




A deputada federal, Luiza Erundina, do PSOL, no programa Entre Vistas desta semana afirmou que já há fatos suficientes para a abertura de um processo de impeachment contra Jair Bolsonaro.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Maior Vergonha do Brasil, tribunais agentes de destruição da soberania nacional e popular. Artigo de Ceci Vieira Juruá, para o Jornal GGN



"A maior vergonha do Brasil não são os políticos corruptos. Se houvesse Justiça eles não estariam no Congresso nem nas Assembléias Estaduais e nas Câmaras de Vereadores. Para isto uma Ação Popular introduziu a Lei da Ficha Limpa que apenas se tornou inócua pela inação da Justiça." - Ceci Vieira Juruá




Maior Vergonha do Brasil, tribunais agentes de destruição da soberania nacional e popular
por Ceci Vieira Juruá
Jornal GGN. - A maior vergonha do Brasil não é a mídia comercial.  Seu papel, historicamente, foi o de servir aos poderosos. A quem lhe paga mais.  
A maior vergonha do Brasil não são os políticos corruptos.  Se houvesse Justiça eles não estariam no Congresso nem nas Assembleias Estaduais e nas Câmaras de Vereadores. Para isto uma Ação Popular introduziu a Lei da Ficha Limpa que apenas se tornou inócua pela inação da Justiça.
A maior vergonha do Brasil são os Tribunais Superiores do Poder Judiciário, aí incluído o Ministério Público.  Há fatos que apontam nesta direção.
- Há anos foi feita a estimativa, pelo Conselho Nacional de Justiça, que havia cerca de 500 mil processos pendentes de  julgamento e que deveriam ser levados a tribunal de júri.¹
- Em 2014 soube-se que o Tribunal de Contas da União acumulara muitos anos de não julgamento dos balanços da União.  Nos que haviam sido julgados anteriormente, muito frequentemente ocorriam falhas, como as questões relativas à privatização das estatais.  A privatização da Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo, padece até hoje da falta de um julgamento definitivo.  E nenhuma explicação foi dada à sociedade, por parte do Poder Judiciário, sobre aquele grupo econômico, uma das jóias da coroa do povo brasileiro.
- Em 2014 soube-se também que “cerca de 2.600 feitos aguardavam distribuição no Supremo Tribunal Federal”, levando o presidente em exercício a autorizar a criação de uma força tarefa para colocar em dia a distribuição dos processos acumulados”.²
- Em 2008, projeto de lei do deputado Paes Landim encaminhou proposta para ampliar a celeridade processual, podendo reduzir de 6 meses a um ano a tramitação dos processos.³
- Com objetivo similar, o presidente Lula sancionou em 2010 lei de simplificação de recursos extraordinários contra decisões de outros tribunais,  encaminhados ao Supremo Tribunal Federal.
- Em 2014, a revista IstoÉ informou que “as prisões de mensaleiros poderiam ser revogadas por discretos movimentos e decisões monocrática.”  Assim, um único juiz poderia solitariamente considerar que um parlamentar licenciado do cargo tivesse o processo enviado à Justiça de primeira instância, em lugar de ser levado ao STF.  No caso tratava-se de um parlamentar do PMDB.  Quantos outros casos como este ocorreram?
- E o que dizer dos tribunais eleitorais perante lei de 1997, também originária do PMDB, introduzindo o financiamento privado das campanhas eleitorais?  Não viram nada?   Não informaram a população quanto às somas envolvidas?  De onde provinham?  Das ameaças à democracia?  
- A verdade ainda é que não se escutou a Suprema Corte revoltar-se perante confissão de  empresário associado a grupos internacionais, declarando que havia financiado perto de 2.000 políticos nos anos recentes.
- Tampouco houve q uem viesse a público explicar porque não houve o devido inquérito e apuração de responsabilidade no caso de aeronaves carregadas com drogas ilícitas e notoriamente vinculadas ao mundo do crime.  Tudo isto aconteceu há anos e o silêncio se mantém.  
- E a não punição dos envolvidos no desvios de recursos da Nação através do BANESTADO?  Impunes, há 15 anos.
- No entanto, desde 1994, do tempo de Itamar Franco, foi editada a Lei N.36/94, de prevenção da criminalidade financeira.  Sucederam-se modificações nesse instrumento legal.  São mais de 20 anos.  Quem foi devidamente punido?
- Se houvesse cumprimento dos deveres funcionais dos  tribunais, da primeira instância aos superiores, certamente não seríamos hoje envolvidos neste mar de lama que ameaça destruir a economia e a soberania do Brasil.
-Se cada um houvesse cumprido o seu dever, não teríamos hoje a cadeia inumerável, ampla, de organizações criminosas espalhadas no território nacional, organizações que nos envergonham a todos, brasileiros honestos que lutam pela sobrevivência.  A grande maioria do povo brasileiro.
- Dificilmente voltaremos à democracia, à recomposição dos pilares de um Estado de Direito com Justiça, sem enfrentar as manchas indeléveis desta que é a maior vergonha do Brasil atual – a cúpula majoritária no Poder Judiciário.
- Dilma Roussef fez o que estava a seu alcance para dar à Justiça equipamentos e recursos necessários ao combate às organizações criminosas.  Foi afastada com a anuência dos tribunais superiores.
- Parcelas do povo brasileiro levantam-se indignadas contra esta avalanche de perversidades que destroem a soberania popular e nacional.  Exigem que o Supremo Tribunal Federal julgue a validade do impedimento de maio de 2016, autorizado por um Parlamento enxovalhado por inquéritos e cujos membros são suspeitos de crimes inomináveis.
- Continuam calados os tribunais. Para vergonha do povo brasileiro. A maior vergonha do Brasil desde a conquista da primeira Constituição elaborada democraticamente.  Em que outro país do mundo civilizado ocorreu ou ocorre a cumplicidade do Poder Judiciário no desmonte do Estado de Direito e na extinção dos alicerces de uma economia pujante da qual dependem mais de 200 milhões de trabalhadores?
- Não apenas os tribunais se calam.  Fazem calar todos aqueles que poderiam, com riqueza de detalhes, e através de delações legais e passíveis de análise e julgamento pela sociedade, todas as pessoas que se oferecem, se dispõem, a contar as minucias do mar de lama onde se formaram as organizações criminosas.
- Eles não podem se outorgar esse direito. Seria este o ápice de togas manchadas. Ao proceder desta forma tonam-se cúmplices, de pleno direito. Passíveis de penas imputáveis a crimes de lesa-Pátria.  Agentes de destruição da soberania nacional e popular.   
² http://jornalggn.com.br/noticia/forca-tarefa-promete-desafogar-processos-acumulados-no-stf
 
³ https://cd.jusbrasil.com.br/noticias/2368972/lei-que-agiliza-recursos-no-stf-e-no-stj-e-sancionada