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domingo, 5 de julho de 2020

Cynara Menezes: Lava Jato foi ataque à soberania, não à corrupção



“Diziam que era uma teoria da conspiração [a participação dos EUA] e hoje está claro que a Lava Jato serviu para atacar a nossa soberania. A operação nunca teve a ver com combate à corrupção”, denunciou a jornalista na TV 247. Assista

Cynara Menezes, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol

Cynara Menezes, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol (Foto: 247 | Agência Brasil)

247 - A jornalista Cynara Menezes, em participação no programa Bom dia 247 desta quinta-feira (2), comentou a respeito das novas revelações da Vaza Jato que indicam a explícita interferência do FBI na condução da operação Lava Jato. 
“Diziam que era uma teoria da conspiração e hoje está claro que a Lava Jato serviu para atacar a nossa soberania. As pessoas precisam entender que a operação nunca teve a ver com combate à corrupção”, denunciou. 
Ela ainda afirmou que “a Lava Jato quebrou empresas brasileiras para dar espaços a empresas estrangeiras”. 
“Se fosse contra a corrupção, não teria ficado nenhum tucano ileso e os tucanos estão no governo do Estado de São Paulo envolvidos há anos em esquemas de corrupção, inclusive existe declarações de Sergio Moro dizendo que 'não queria melindrar FHC”, acrescentou a jornalista. 
Cynara condenou em sua fala o papel da mídia corporativista na cobertura da operação. Em sua avaliação, os canais apenas reproduziam as informações que vinham de Curitiba sem ao menos checar os fatos ou respeitar as fontes. “Duvido que fariam com a Ruth Cardoso, falecida esposa de FHC, o que fizeram com Marisa Letícia”, afirmou. 
Saiba mais 
A Agência Pública e o The Intercept Brasil publicaram nesta quarta-feira (1) novos diálogos vazados que mostram a intimidade entre a Polícia Federal e o FBI durante as investigações da operação conduzida formalmente por Deltan Dallagnol, então coordenador da operação. A reportagem também divulgou nesta quinta (2) os nomes de 13 agentes do FBI que atuaram na operação que abalou a soberania nacional. Confira os nomes aqui.  
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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O Prêmio Nobel de economia Paul Krugman explica porque o socialismo, frente à aberração direitista Trump, está crescendo nos Estados Unidos



PÔSTER DOS SOCIALISTAS DEMOCRÁTICOS DA AMÉRICA: SOCIALISMO OU BARBÁRIE (DSA)

Para Nobel de economia, republicanos promovem o socialismo ao rotular políticas de bem estar social como "socialistas"


Publicação em Inlgês no Alternet
Por Cody Fenwick
Tradução de Cynara Menezes

Os conservadores norte-americanos estão constantemente se descabelando para advertir o país de que o crescente apoio ao socialismo logo colocará os Estados Unidos no caminho da ruína, como a Venezuela.

Enquanto isso, figuras políticas como o senador independente Bernie Sanders e a candidata ao congresso por Nova York Alexandria Ocasio-Cortez, que se autointitulam socialistas democráticos, ganham o entusiasmo dos eleitores e a atenção do país, e muitos suspeitam que suas visões estão ganhando força dentro do Partido Democrata. E, de acordo com uma pesquisa recente do Gallup, mais democratas têm uma visão positiva do socialismo (57%) do que do capitalismo (47%).

O economista Paul Krugman, ganhador do Nobel em sua área em 2008, argumentou no twitter nesta quarta-feira que, apesar de suas terríveis advertências, os conservadores devem apenas culpar a si mesmos pela popularidade do socialismo. “Ando fazendo alguma pesquisa histórica sobre por que tantos norte-americanos agora dizem que apoiam o socialismo. É realmente importante admitir que os republicanos têm sistematicamente identificado a rede de proteção social com o socialismo”, ele escreveu.

Por exemplo, em 2008 John McCain chamou de “socialismo” as propostas de Barack Obama para um atendimento universal de saúde nos EUA (algo como o brasileiro SUS).

Em 2012, Mitt Romney concorreu contra Obama e disse que o então presidente queria trazer “as políticas socialistas europeias” para os Estados Unidos –referindo-se a países como a Dinamarca.

E quando o socialista democrático Sanders fala sobre sua visão política, ele explicitamente diz que gostaria de tornar os EUA mais parecido à Dinamarca. “Se você acha que a Dinamarca parece bacana, os republicanos dizem que você é socialista, e então as pessoas começam a achar que o socialismo parece bacana. Se os republicanos pretendem que apoio ao ‘socialismo’ significa controle do governo sobre os meios de produção, é propaganda enganosa”, Krugman escreveu. “Quer dizer, eu sei que Trump e outros têm problemas com geografia, fusos horários e tudo mais, mas a Dinamarca não é o mesmo país que a Venezuela.”

Socialistas dos EUA lutam por “saúde como direito humano”, que já está em nossa Constituição
Um aspecto dessa dinâmica que Krugman não mencionou é a concepção conservadora do “capitalismo”. Os republicanos frequentemente tentam aplicar a si mesmos o rótulo de defensores do capitalismo –o que, para eles, significa uma forma de capitalismo muito limitada, desigual e frequentemente perversa. Este estigma pode afastar as pessoas do capitalismo tanto quanto pode afastar do socialismo.

“Não à Ku Klux Klan, não aos fascistas”
Mas, enquanto os republicanos distorceram o debate, tornando-o uma discussão sobre grandes questões filosóficas, quando candidatos como Sanders e Ocasio-Cortez são pressionados sobre que políticas exatamente querem, muitas das respostas deles são na verdade bastante populares: atendimento universal de saúde, maior acesso à educação superior, um salário mínimo maior, regulação inteligente do setor financeiro e dos poluidores, maiores impostos sobre os que podem pagar por eles e maior apoio às famílias e crianças.

Não importa que estas políticas sejam chamadas de “socialismo”, “socialismo democrático”, “social-democracia” ou qualquer outro rótulo, elas claramente angariam um enorme entusiasmo. E se os conservadores tentam atacar estas políticas usando o epíteto de “socialista” contra elas, estão apenas aumentando o apoio ao socialismo.

Publicado originalmente no Alternet


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cynara Menezes sobre a prisão de Eduardo Cunha, o boi de piranha mais suculento da República das Bananas, e a dualidade da mídia



A celebração pela prisão de Eduardo Cunha foi chocha diante do regozijo dos articulistas da imprensa chapa-branca em “provar” aos críticos da Lava-Jato que a operação “não é seletiva” nem tem como alvo apenas petistas, como ficou patente até agora. Como se a prisão do ex-deputado federal cassado fosse capaz de diluir o estrondoso fato de que, embora citados em várias delações, os tucanos continuem fora da mira do juiz Sergio Moro e a punição de algum deles siga um sonho distante para os reais defensores do fim da impunidade em nosso país.
Diante das evidências cada vez maiores de que não existem provas contra o ex-presidente Lula, quem, que não fosse do PT, poderia ser preso neste momento para tentar amenizar as críticas sobre a parcialidade da Lava-Jato? Ora, até as caspas sobre o paletó de Eduardo Cunha sabem que hoje ele é o preso ideal. Primeiro porque já está decaído. Não é mais o presidente da Câmara e o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi concretizado (por ele) com êxito, portanto não é mais útil.
O establishment não está interessado no PMDB, nunca esteve, e Michel Temer sabe disso –ou não teria voltado às pressas de sua viagem ao Japão tão logo o companheiro de longa data foi preso. Os heróis do establishment sempre foram o PSDB e seu velho parceiro, o DEM. São eles que o poder econômico quer ver de volta ao poder, de preferência sem o risco de uma eleição. E é sobre eles que falamos quando denunciamos a seletividade da Lava-Jato. Enquanto nenhum político destes dois partidos for mandado a Curitiba, as críticas sobre a seletividade da operação permanecem; antes disso, Eduardo Cunha não será nada além de um suculento boi de piranha.
Curiosamente, aliás, a prisão do ex-presidente da Câmara acontece na mesma semana em que o escritor italiano Gianni Barbacetto, autor do livro sobre a Mãos Limpas, a operação italiana que inspirou Sergio Moro (a apresentação da edição brasileira é assinada pelo juiz), fez duros reparos às “limitações” da Lava-Jato. Em entrevista ao jornal Zero Hora no sábado15, Barbacetto disse estar “surpreso” que tenham aparecido acusações “só contra o PT e seu líder Lula”. “Parece-me que todo o sistema está envolvido pela corrupção. Desde o início o sistema continua como antes e será apenas Lula a pagar”, criticou.
Se o problema é sistêmico, não será a prisão de Cunha que irá atenuar nos cidadãos conscientes, que não se deixam contaminar pela mídia, a sensação de que a Justiça praticada por Moro é seletiva. Os defensores do magistrado paranaense sempre afirmaram que seu objetivo é acabar com a corrupção no país. Sendo assim, a prisão de Eduardo Cunha jamais poderia ser considerada um fim, e sim um meio. Mas já tem colunista de direita defendendo que Cunha não pode ser beneficiado pela delação premiada, como foi, por exemplo, o ex-petista Delcídio Amaral. A quem essa gente acha que engana? Eles e seus veículos de comunicação sempre foram os porta-vozes do tucanato, sabemos muito bem a quem querem proteger.
A maior utilidade da prisão de Eduardo Cunha é exatamente oposta: que ele abra o jogo e revele as entranhas do financiamento de campanha brasileiro, do qual é profundo conhecedor. Se decidir falar, Cunha tem muito a dizer, sobre políticos de todos os partidos da República (à exceção, suponho, do PSOL), e talvez isto explique o ensurdecedor silêncio do PSDB sobre a prisão do malvado favorito da turma de camiseta verde e amarela. Isto se considerarmos que a prisão de Cunha é mesmo para valer. Eu tenho cá minhas dúvidas. Mas ainda que seja, não será surpresa para ninguém se a possível delação do peemedebista só servir, mais uma vez, para incriminar aqueles que têm sido os únicos a pagar pela podridão do sistema político brasileiro desde o mensalão.
Cynara Menezes, em seu blog

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Mídia patrociona golpe e criminaliza protesto, por Cynara Menezes



Os três jornalões em estado pré-falimentar se uniram para atacar os manifestantes que, em todo o país, estão indo às ruas para protestar pacificamente contra o golpe parlamentar que arrancou do cargo uma presidente da república legitimamente eleita. Repetem assim o papel sujo que tiveram em 1964 de não só promover o golpe como legitimá-lo, criminalizando a oposição. Qual será a próxima etapa? A Folha emprestar veículos para transportar jovens aos porões da tortura?

As palavras se repetem nos textos furibundos dos jornalões, que soam como ameaça aos indignados que desejam ocupar as ruas. “Baderna”, “vandalismo”, dizem sobre os protestos em São Paulo, que já duram quatro dias. Quanta diferença no tratamento que davam às manifestações verde-e-amarelas contra Dilma Rousseff durante os dois anos que duraram seu segundo mandato! Antes, eram “atos cívicos”, “festa da democracia”. Agora viraram “coisa de vagabundos”.

O governo de São Paulo, que nos protestos da burguesia paulistana anti-Dilma liberou as catracas do metrô para quem nunca antes utilizara transporte coletivo, age de forma oposta com os manifestantes contra o governo golpista de Michel Temer. Está dificultando o acesso das periferias às zonas centrais e decidiu simplesmente proibir que os manifestantes se reúnam na avenida Paulista no domingo. A ordem no palácio dos Bandeirantes, isto está claro, é reprimir os movimentos contra o governo. E reprimir com violência.

Todos os relatos sobre a manifestação de anteontem em São Paulo coincidem que a caminhada vinha pacífica pela Consolação até que a Polícia Militar começou a jogar bombas de gás lacrimogêneo nos participante. Não por acaso, os policiais paulistas estiveram até outro dia sob o comando de Alexandre de Moraes, que saiu da secretaria de segurança de Alckmin direto para o ministério da Justiça de Temer. E a PM de Moraes se mostra pouco preparada para atirar com balas de borracha: miram na cabeça das pessoas, quando o correto seria mirar abaixo do pescoço, de preferência nas pernas, a uma distância de mais ou menos 20 metros, ou pode ser fatal.

Foi assim que um fotógrafo perdeu um olho nas manifestações de junho de 2013, ao tomar um balaço de borracha no olho, à queima-roupa –e a polícia ainda foi inocentada de lhe pagar indenização. No dia 31, no protesto em São Paulo, uma garota de 19 anos, estudante universitária, teve o olho ferido por estilhaços e também corre o risco de ficar cega. Dois fotógrafos foram presos sem motivo e um deles teve o equipamento inteiramente destruído. Um advogado em Caxias do Sul foi agredido por policiais após a manifestação ter se dispersado. Revoltado, o filho dele acabou dando um chute na cabeça de um dos policiais. Violência gera violência.

Depois de patrocinar o golpe contra Dilma, agora a mídia chapa-branca clama por “pacificação”, a mesma que foi incapaz de promover após as eleições em 2014. Ora, para temos paz seria preciso que a imprensa condenasse com veemência a violência policial e mais ainda, que exigisse dos comandantes da PM orientar seus subordinados no sentido de proteger os manifestantes, exatamente como atuou em relação aos que faziam selfies na Paulista com fardados –em vez de mandar descer o sarrafo, que sem sombra de dúvidas é a ordem emitida aos policiais ao se dirigirem aos protestos desde que derrubaram Dilma.

(Se você é um dos que perguntam por que nos protestos de direita não acontecem confrontos, esta é a resposta: porque em relação à direita, a ordem recebida é tratar os manifestantes como príncipes. Para a esquerda, sobram tiro, porrada e bomba.)

Ao invés disso, os jornalões estimulam a PM a ser violenta com os manifestantes. Repare nas palavras escolhidas pelo Estadão, o panfleto reacionário dos Mesquita, em seu editorial. “Cabe às autoridades constituídas reprimir a baderna e impedir que a desordem se torne rotina. É preciso saber distinguir o legítimo e democrático direito a manifestação no espaço público da baderna que atenta contra o direito da população de viver seu cotidiano em paz. No primeiro caso, o poder público tem o dever de oferecer aos cidadãos a garantia de se manifestar pacificamente. No segundo, tem a obrigação de impedir a ameaça potencial ou a ação daqueles que infringem a lei. A baderna nas ruas, longe de ser uma forma legítima e democrática de manifestação popular, é um grave atentado ao direito fundamental que os cidadãos, o povo, têm de viver em paz.”

A Folha vai além e, sob pretexto de mirar os black blocs, chama os manifestantes pró-Dilma de “fascistas”, como se os fascistas de verdade não fossem os que marchavam em favor do golpe nas ruas ou os que estão aboletados como colunistas no próprio jornal. “Grupelhos extremistas costumam atrair psicóticos, simplórios e agentes duplos, mas quem manipula os cordéis? O que pretendem tais pescadores de águas turvas? Quem financia e treina essas patrulhas fascistoides? Está mais do que na hora de as autoridades agirem de modo sistemático a fim de desbaratá-las e submeter os responsáveis ao rigor da lei.”

O Globo, em tom de ameaça, mira os simpatizantes do bolivarianismo em editorial intitulado Para Que Nunca Mais Haja Impeachment. “O fortalecimento não é apenas das cláusulas da responsabilidade fiscal, mas da Constituição como um todo, para desaconselhar de vez projetos bolivarianos como o do lulopetismo. Serve de aviso geral à nação.” Cinicamente, o pasquim dos Marinho afirma que não houve ruptura institucional no país, ignorando as ruas em chamas. “É de notável ineditismo, na América Latina, o fato de esses incidentes institucionais no país serem contornados sem as rupturas clássicas na região.”

É mais curiosa ainda a súbita condenação pelos jornais das manifestações de rua no país quando se sabe que, nos últimos anos, a imprensa brasileira tem apoiado e promovido protestos violentos na vizinha Venezuela –e criticado duramente o governo de Nicolás Maduro por reprimi-los. Agora que as manifestações contra o governo ressurgem no Brasil por parte da esquerda, a mídia decadente quer carimbá-las como “baderna” ou “desordem”. Mentira. Nada mais natural que os ânimos estejam acirrados, afinal há golpistas e golpeados, e estes têm todo o direito de estarem bastante zangados com o que ocorreu com Dilma.

O país caminha a passos rápidos para a convulsão social. A esquerda brasileira não aceita que corruptos patrocinados pela mídia tenham deposto uma mandatária honesta. Temos todo o direito de nos manifestar cotidianamente contra um governo que não reconhecemos como legítimo. Não adianta a imprensa burguesa tentar culpar Dilma ou Lula pelas manifestações contra Temer. Não se pode reverter os fatos e passar a culpar as vítimas. A mídia é co-partícipe deste golpe e, já que ela considera o governo de Temer legítimo, tem a obrigação de reconhecer que protestos contra ele também o são. Ao pintar manifestantes de esquerda como párias, é a imprensa, e não Lula ou Dilma, quem incita o ódio.

Ao referendar a violência policial contra manifestantes, a mídia só reforça a impressão de grande parte da imprensa internacional, a de que o Brasil passou por um processo de impeachment às margens da legalidade –não se pode esquecer que a mesma OEA que condenou Maduro também condenou o processo de impeachment de Dilma. A repressão fortalece o sentimento de que vivemos sob um regime TEMERário onde se manifestar livremente contra o governo é proibido, da mesma forma que sempre criticaram no Irã ou em Cuba. Alguém aí falou em ditadura?

UPDATE: agora o blogueiro da Veja pede PRISÃO do líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), Guilherme Boulos. Aqui.

UPDATE 2: o caquético jornal dos Mesquita volta à carga contra os manifestantes, contra Dilma e contra o PT. Leia.

Texto de Cynara Menezes

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Petralha: um conto brasileiro de Natal, por Cynara Menezes

Ilustra exclusiva do Cris Vector
Dia de Natal na Paulista. Manjadas versões de músicas estrangeiras, canções natalinas de Frank Sinatra e o disco da Simone se revezam nas caixas de som ao longo da avenida. Pinheiros de plástico com luzes, neve artificial, trenós e renas decoram as áreas externas de bancos e prédios comerciais. Criancinhas posam para fotos ao lado de um urso polar em pleno verão brasileiro. Pela primeira vez em muitos anos não há engarrafamento de carros para ver a decoração: a avenida Paulista está aberta para os pedestres.

Em frente à Fiesp, um pequeno grupo de pessoas está acampado nas ciclofaixas no último protesto do ano pelo impeachment da presidenta, berrando as palavras de ordem de sempre.

– Fora, filha da puta! Vaca! Vadia! Vai tomar no cu!

Um repórter da Globo News faz transmissões ao vivo do local a cada dez minutos. Em uma das inserções, o líder intelectual dos protestos, um magricela com traços orientais recém-saído da adolescência, dá entrevista.

– Por que vocês acamparam em cima da ciclofaixa?

– Achamos que é simbólico dos desmandos deste partido. Quem precisa de ciclofaixas, mano? Fala sério! Queremos derrubar o governo e acabar com essa palhaçada de bicicleta. São Paulo é para os carros! Estamos reivindicando também o aumento da velocidade nas pistas, que o atual prefeito vermelho diminuiu.

– Mas isto fez cair o número de mortes…

– O número de vidas poupadas é insignificante diante do tempo no trânsito que o paulistano está tendo que passar. Tá ligado no que é ficar horas dentro de um carro parado ouvindo os comentaristas da Jovem Pan? É de deixar qualquer um louco! Estes comunistas só pensam nos pobres! Como se rico também não sofresse… Abaixo o preconceito com a burguesia!

Diante da câmera, atrás do entrevistado, um homem barbudo, vestido de vermelho dos pés à cabeça, passa caminhando tranquilamente, no meio da minifestação. Um sujeito de roupa camuflada segurando um cartaz com os dizeres “intervenção militar já!” dá o alarme:

– Olha o petralha! Provocação, não!!! Vamos quebrar esse cara!

O barbudo de vermelho desce a avenida em direção ao Paraíso, correndo como louco, com uma dúzia de fortões atrás. Eles o alcançam na esquina com a rua Pamplona e começam a distribuir safanões, socos e pontapés.

– Calma, calma! É um engano, deixa eu falar!

– Que falar o quê, rapaz! Vamos te encher de porrada para você aprender a não se meter com cidadãos de bem.

– Pára! Pára! Eu sou Papai Noel, porra!!!!

– Hahahahaha. Conta outra.

– Vocês não têm espírito de Natal, não?

– Espírito de Natal uma ova, seu petralha!!

– É sério! Tô vestido assim para a festa dos meus sobrinhos, pô!

– Ah, tá! E a estrela aí na sua camisa?

– É a estrela de Belém, caralho!!!

– Mas e essa barba, mané???

– Barba… Papai Noel… Barba… Ahn? Ahn? Sacaram?

Finalmente, a turba titubeia e se acalma.

– Pô, truta, foi mal.

– Desculpa aí o mau jeito.

– Feliz Natal, hein? Hehehe.

– Vão se fuder, animais.

Papai Noel ajeita a roupa e desce a Pamplona caminhando. Na esquina com a Jaú, ele entra numa vilinha estreita, muito bem escondida ao lado da padaria Flor dos Jardins. Pára diante de um sobrado com o número 13 e toca a campainha. Três toques curtos, ritmados. A porta abre. Ele entra pelo portão lateral, desce dois lances de escada e chega a uma sala no subsolo, onde um grupo de homens e mulheres está reunido.

– Camaradas, vocês nem imaginam do que me livrei agora. Menos mal que esqueci em casa a boina do Che…

Cynara Menezes
No Socialista Morena

domingo, 22 de dezembro de 2013

Cynara Menezes e o homem fabricado que roubou o Natal de Jesus Cristo


cartaz de 1937: de dar medo



O homem que roubou o Natal de Jesus


texto de Cynara Menezes

No shopping próximo à minha casa, o tema da decoração de Natal é “a floresta encantada de Papai Noel”. Juro que procurei entre as folhagens de plástico, as girafas de pelúcia e os chimpanzés músicos para ver se o achava, mas não encontrei Jesus. Nada de Maria, José, do anjo, dos reis Magos e das cabras, bois e vacas. Nada que se assemelhasse a uma manjedoura. Enfim, nada de Natal na decoração de Natal.
Fiquei pensando quando foi que o menino Jesus deixou de ser protagonista de sua própria festa de aniversário. Jesus, o profeta a quem, pelo menos nas estatísticas, um terço da humanidade dedica sua fé, faz uma ponta no Natal hoje em dia. A figura central, a grande estrela da maior festa do mundo cristão é um velho barbudo de aparência nórdica que só criancinhas acreditam que exista. E, aparentemente, ninguém está nem aí.
O Natal é uma verdadeira cilada. TVs, jornais, familiares, tudo conspira para que você se sinta tomado pelo “espírito natalino”, que se traduz em: se meter em shoppings abarrotados de gente para comprar coisas que sairiam pela metade do preço no mês seguinte. Mesmo que você não queira participar, é obrigado a seguir o fluxo porque não quer que seus filhos cresçam traumatizados por não ganhar presente quando todo mundo recebe –do Papai Noel, claro, aquele gordinho que espera o ano todo por este bico, suarento debaixo da roupa vermelha e da barba branca em pleno verão brasileiro.
Aliás, a disparidade entre o que se construiu como “Natal” no hemisfério Norte e a realidade dos trópicos é um mico à parte. Bonecos de neve de feltro, de gorro, cachecol e cenoura no lugar do nariz, se espalham pelo País e tomam de assalto até as repartições públicas, enquanto as secretárias se abanam de calor. O “jeitinho” brasileiro se desdobra para recriar a atmosfera gélida, condição sine qua non para que o “espírito natalino” baixe, e dá-lhe neve de pipoca, de isopor, de algodão… Tenho certeza que nunca seremos uma nação de fato enquanto precisarmos macaquear um clima que não é nosso para conseguir algo tão singelo quanto o congraçamento familiar.
Não conheço nenhuma festa religiosa no mundo cujas principais manifestações sejam gastar muito dinheiro, comer para caramba e encher a cara. A festa máxima dos cristãos é a festa religiosa mais capitalista do planeta. E olhem que a mensagem de Cristo era o exato oposto. Não foi o filho de Deus quem expulsou os vendilhões do templo? Não foi ele quem disse que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”? Quer mensagem menos capitalista do que esta?
Mas falar dessas coisas é querer estragar a festa, quebrar a “magia” do Natal –muito embora a única visível seja o mágico tilintar das caixas registradoras. Para o comércio, a data é uma bênção. Para as igrejas, o mundo do dinheiro nunca foi exatamente um incômodo e pode, afinal de contas, render belos donativos. Tampouco parece ser um empecilho que os fiéis gastem todo o 13º salário e se endividem em compras, porque depois engrossarão as fileiras dos que procuram as casas de Deus em busca de conforto não para os flagelos da alma, mas do bolso.
Tem igrejas pentecostais que vivem disso, de oferecer aos crédulos a superação das dívidas financeiras e o sucesso econômico através do poder de Deus. De que lhes serviria abrir os olhos dos fiéis e pregar que o Natal não é sinônimo de gastança? Deixa quieto, Papai Noel é bem mais conveniente que Jesus, até porque não fere suscetibilidades. Sem essa de rico não poder entrar no reino dos céus: seja rico ou seja pobre o velhinho sempre vem, não é mesmo? “Compre, compre. Ho, ho, ho”.
Meu lado cristão (de formação) se revolta de ver que o Natal se transformou nessa pseudo festa religiosa, vazia de significado espiritual. Em vez de se incomodar com a vida íntima do próximo, de tentar interferir na orientação sexual do semelhante ou de se empenhar em lutas surreais como a cruzada contra a proteção da camisinha, as igrejas cristãs deviam se dedicar a repensar sua festa mais importante. Se os cristãos fossem de fato cristãos, tinham de estar preocupados que o nascimento de Jesus perdeu o lugar para o consumismo que o Papai Noel representa. Tentar resgatar a mensagem do Natal: esta, sim, seria uma luta de fato agregadora, digna da data e do aniversariante.
Dá para começar em casa, montando o presépio com as crianças como aconteceu no passado e, no mínimo, explicando a elas que o dono da festa não é o Papai Noel, que não é por causa dele que o Natal existe. Quantos cristãos fazem isso?
Boas festas a todos.
Publicado pela autora em 24 de dezembro de 2012




quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Cynara Menezes: "Papa Francisco contra o Capitalismo"


Segue o artigo com as reflexões de Cynara Menezes, a "Socialista Morena":



 Não sei se vocês sabem, mas muito antes da Revolução Russa já existia, no século 19, um socialismo cristão, inclusive nos Estados Unidos, embora rejeitado pela igreja católica –em 1931, o papa Pio XI chegou a publicar que “ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e um socialista verdadeiro”. A admoestação papal não foi suficiente, no entanto, para impedir o surgimento da Teologia da Libertação e de padres e bispos abertamente simpáticos ao socialismo, sobretudo na América Latina.

Existem muitos cristãos que vêem Jesus como socialista –Hugo Chávez, por exemplo, que costumava dizer: “Jesus Cristo foi o primeiro socialista da História: dividiu o pão e o vinho. E Judas foi o primeiro capitalista: vendeu Jesus por trinta moedas”. No Novo Testamento, o discurso de Cristo sempre em favor dos pobres e radicalmente contra os ricos colabora para esta percepção.

Esta semana, o papa Francisco publicou sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium, em que faz severas críticas ao capitalismo, ao consumismo e à cultura do dinheiro. Não é a primeira vez. Em setembro, o argentino já tinha pronunciado um discurso anti-capitalista na ilha da Sardenha, na Itália. “Neste sistema sem ética, no centro, há um ídolo, e o mundo tornou-se idólatra do dinheiro”, disse então.

No texto divulgado agora, Francisco aprofunda este sentimento contra a idolatria do dinheiro. E cita são João Crisóstomo (o “sábio da antiguidade” que menciona), perseguido e desterrado pelo clero e pelo império romano no século 5 por seu combate à ambição, à avareza e à corrupção moral. Grande orador, Crisóstomo atacava continuamente os ricos, e o trecho citado pelo papa é claro ao se referir à exploração dos pobres por eles.

Os alvos de Francisco são não só os ricos como também os apóstolos do livre mercado: “Alguns defendem (…) que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar.”

Parece até Pepe Mujica falando… Será que o papa Francisco, ao contrário do antecessor Pio XI, aprova o socialismo cristão? Nos Estados Unidos, a direita está espumando pela boca e apontando “marxismo puro” nas palavras do papa (aqui). Leiam abaixo os trechos onde Francisco critica a desigualdade social e a economia da exclusão (“uma economia que mata”) e julguem vocês mesmos. A íntegra do texto está aqui.

***

EVANGELII GAUDIUM

Papa Francisco

1. Alguns desafios do mundo atual

52. A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas dum poder muitas vezes anônimo.

Não a uma economia da exclusão

53. Assim como o mandamento “não matar” põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o fato de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do “descartável”, que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenômeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são “explorados”, mas resíduos, “sobras”.

54. Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da “recaída favorável” que pressupõem que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma.

Não à nova idolatria do dinheiro

55. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo.

56. Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.

Não a um dinheiro que governa em vez de servir

57. Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus. Para a ética, olha-se habitualmente com um certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus que espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do mercado. Para estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não manipulável e até mesmo perigoso, na medida em que chama o ser humano à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras de um sábio da antiguidade: “Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos”.

58. Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.

Não à desigualdade social que gera violência

59. Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarraigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado “fim da história”, já que as condições de um desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas.

60. Os mecanismos da economia atual promovem uma exacerbação do consumo, mas sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade social, é duplamente daninho para o tecido social. Assim, mais cedo ou mais tarde, a desigualdade social gera uma violência que as corridas armamentistas não resolvem nem poderão resolver jamais. Servem apenas para tentar enganar aqueles que reclamam maior segurança, como se hoje não se soubesse que as armas e a repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores conflitos. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa “educação” que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos vêem crescer este câncer social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes.

Publicado em 27 de novembro de 2013Fonte:
http://socialistamorena.cartacapital.com.br/papa-francisco-contra-o-capitalismo/