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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Jesus estaria do lado dos especuladores, neoliberais, 1% mais ricos e dos bolsonaristas? Veja o vídeo abaixo e reflita.... Depois, mais abaixo, leia o artigo de Leonardo Boff





Segue, para reflexão, um trecho do filme-documentário-denúncia de Michael Moore, "Capitalismo, uma história de 'amor' ", de 2009:





Se desejar ver o documentário completo, basta clicar neste link.



Leonardo Boff: “Dentro do sistema capitalista, 

não há salvação”


Débora Fogliatto no Sul 21
Um dos mais conhecidos teólogos do Brasil, Leonardo Boff é um nome atualmente aclamado em todo o mundo, mas que já foi muito marginalizado dentro da própria Igreja em que acredita. Nos anos 1980, o então frade foi condenado pela Igreja Católica pelas ideias da Teologia da Libertação, movimento que interpreta os ensinamentos de Jesus Cristo como manifesto contra as injustiças sociais e econômicas.
Aos 75 anos, Boff é um intelectual, escritor e professor premiado e respeitado no país, cuja opinião é ouvida por personalidades com o Papa Francisco e os presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff. Nesta entrevista ao Sul21, concedida durante sua vinda a Porto Alegre, Boff fala do momento atual da Igreja Católica, critica os religiosos que usam o evangelho para justificar ideias retrógradas ou tirar dinheiro dos fiéis, tece comentários sobre a situação no Oriente Médio, aborto, violência e sobre a crise ecológica e econômica mundial.
As duas estão profundamente interligadas: como explica Boff, o capitalismo está fundado na exploração dos povos e da natureza. “Esse sistema não é bom para a humanidade, não é bom para a ecologia e pode levar eventualmente a uma crise ecológica social com consequências inimagináveis, em que milhões de pessoas poderão morrer por falta de acesso à água e alimentação”, afirma ele, que é um grande estudioso das questões ligadas ao meio ambiente.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Nos anos 1980, por causa dos ideais defendidos pela Teologia da Libertação, o senhor foi condenado a um ano de silêncio obsequioso e sofreu várias sanções, que acabaram sendo amenizadas diante da pressão social sobre a Igreja Católica, mas que o fizeram abandonar o hábito. O senhor acredita que atualmente a Igreja agiria da mesma forma?
Leonardo Boff – Não. O atual Papa diz coisas muito mais graves do que eu disse no meu livro “Igreja: carisma e poder”, que foi objeto de condenação. Se ele tivesse escrito isso, teria sido condenado. Eu disse coisas muito mais suaves, mas que afetavam a Igreja. Dizia que a Igreja não respeitava os direitos humanos, que é machista, tem um conceito de poder absolutista e absolutamente superado, sem limites.
Os tempos mudaram e a graças a Deus temos um Papa que pela primeira vez, depois de 500 anos, responde à reforma, responde a Lutero. Lutero lançou o que chamamos de Princípio Protestante, que é o princípio de liberdade. E esse Papa vive isso. E vive o cristianismo não como um feixe de verdade que você adere, mas como o encontro vivo com Jesus. Ele distingue entre a tradição de Jesus, aquele conjunto de ideais, tradições, e a religião cristã, que é igual a qualquer outra religião. Ele diz: “eu sou do movimento de Jesus”, e não da religião católica. Tais afirmações são escandalosas para cristãos tradicionais, mas são absolutamente corretas no sentido da Teologia, daquilo que nós sempre dizíamos e éramos perseguidos por isso.
E eu fico feliz que a Igreja não é mais uma instância que nos envergonhe, mas sim uma instância que pode ajudar a humanidade a fazer uma travessia difícil para outro tipo de sociedade que respeite os direitos da natureza, da Terra, preocupada com o futuro da vida. Eu mesmo tive contato com o Papa e o tema central dele é vida. Vida humana, da terra, da natureza. E nós temos que salvá-la, porque temos todos os instrumentos para destruí-la.

“Pregar na África que é pecado usar a camisinha, em lugares onde metade da população sofre de Aids, é cometer um crime contra a humanidade. Foi o que o papa Bento XVI disse várias vezes.”


 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O senhor acredita que a Igreja Católica, sob orientação do papa Francisco, vai efetivamente renunciar a alguns temas tratados como tabu, como a união homossexual?
Leonardo Boff – Ainda não sabemos bem a opinião dele. Ele diz: “quem sou eu para julgar?”, no fundo diz para respeitar as pessoas. Ele vai deixar haver uma grande discussão na Igreja sobre a questão do divórcio e dos homossexuais, sobretudo a moral sexual cristã, que é extremamente rigorosa e restrita, em alguns casos é criminosa. Por exemplo, pregar na África que é pecado usar a camisinha, em lugares onde metade da população sofre de Aids, é cometer um crime contra a humanidade. Foi o que o papa Bento XVI disse várias vezes. Eu acho que o Francisco é mais que um Papa, é um projeto de mundo, projeto de Igreja, ele se dá conta de que a humanidade é uma, está sob risco e temos que nos unir nas diferenças para superar a crise.
Acho que a grandeza desse Papa não será ele definir as coisas, mas deixar que se discutam. E eu acho que ele vai respeitar as pessoas, porque a maioria não é homossexual, ou homoafetivo, por opção. As pessoas se descobrem homoafetivas. E ele vai dizer: “ande dentro de Deus, não se sinta excluído”. Vai dizer que (os homossexuais) são tão filhos de Deus quanto os outros. E daí respeitar. Talvez ele diga “não chame matrimônio, que é um conceito canônico”. Mas uma união responsável, que merece a benção de Deus, e que tenha uma proteção jurídica, que tenha seu lugar na Igreja, que possam frequentar os sacramentos. Esse seguramente vai ser o caminho dele.
Sul21 – E com essas posições do Papa Francisco, o senhor acha que Igreja Católica talvez consiga recuperar fiéis diante do avanço das igrejas evangélicas?
Leonardo Boff – Esse Papa não é proselitista e diz claramente que o evangelho deve atrair pela sua beleza, seu conteúdo humanitário. Ele não está interessado em aumentar o número de cristãos, em fazê-los voltar. Está interessado em que as pessoas, com a situação confessional que têm, se coloquem à disposição do serviço da humanidade, das coisas boas que a humanidade precisa.
É aquilo que nós chamamos de “ecumenismo de missão”. Estamos divididos, é um fato histórico, mas não é uma divisão dolorosa. Porque cada um tem seus antros, profetas e mestres. Mas como nós juntos nos reconhecemos nas diferenças e como juntos vamos apoiar os sem terras, os sem tetos, os marginalizados, as prostitutas. Esse serviço nós podemos fazer juntos.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“Ninguém é a favor do aborto em si, as mulheres que fazem aborto não pediram por isso. Mas muitas vezes passam por situações tão delicadas que precisam tomar essa decisão”

Sul21 – Muitas pessoas usam a religião para justificar opiniões conservadoras, machistas e homofóbicas. Qual a sua opinião sobre essas posições?
Leonardo Boff – Há o exemplo concreto do aborto nas últimas eleições. Isso mobilizou as igrejas, foram até o Papa, fizeram pressão sobre os fiéis. Eu acho que é uma falsa utilização da religião. A religião não foi feita para isso. E todos devem reconhecer, e são obrigados a reconhecer pela Constituição, que há um Estado que é laico. Então essas pessoas pecam contra o princípio fundamental da democracia, não são democratas. Eles podem ter a opinião deles, mas não podem impô-la.
É muito fácil a posição deles, é salvar a criancinha. E depois que salvou ela está na rua, abandonada, passando fome e morrendo. E nem têm compaixão pelas mais de cem mil mulheres que morrem por ano por causa de abortos malfeitos. São pessoas que pecam contra a democracia e contra a humanidade, o senso humanitário. Ninguém é a favor do aborto em si, as mulheres que fazem aborto não pediram por isso. Mas muitas vezes passam por situações tão delicadas que precisam tomar essa decisão.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O que eu aconselho e o que muitos países fizeram, inclusive Espanha e Itália, que são cristianíssimas e permitiram o aborto, pediram que houvesse um grupo de acompanhamento, que converse com a mulher e explique o que significa. E deixar a decisão a ela, se ela decidir vamos respeitar a decisão. Mas ela faz com consciência. Isso eu acho que seria democrático e seria responsável diante da fé, você não renuncia à tua fé, mas respeita a consciência, que é a instância última a que responde diante de Deus.

“Então eles têm um país que foi vítima do nazismo e utiliza os métodos do nazismo para criar vítimas. Essa é a grande contradição.”

Sul21 – Algumas igrejas aqui cobram dízimo dos fiéis, muitas vezes dizem que para agradecer a Deus as pessoas têm que pagar as igrejas. Qual a sua opinião e como a teologia da libertação vê essa prática?
Leonardo Boff – São igrejas do chamado “evangelho da prosperidade”, dizem que você dá e Deus te devolve. Eu acho que é um abuso, porque religião não foi feita para fazer dinheiro. Foi feita para atender as dimensões espirituais do ser humano e dar um horizonte de esperança. Agora quando a igreja transforma a religião num poder econômico, como a Igreja Universal do Reino de Deus, que em Belo Horizonte tem um shopping ao lado, chamado de “o outro templo”, que é o templo do consumo, e depois do culto as pessoas são instruídas a comprar. Para mim, é a perversão da religião. Inclusive acho que é contra a Constituição utilizar a religião para fins não naturais a ela. Eu combato isso, sou absolutamente contra. Porque isso é enganar o povo, é desnaturar e tirar o caráter espiritual da religião. A religião tem que trabalhar o capital espiritual, e não material.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – E em relação a essa crise violenta entre Israel e a Faixa de Gaza, em que o Estado de Israel já matou centenas de pessoas, como o senhor acha que o resto do mundo deveria agir em relação a isso? O Papa poderia ser uma pessoa a mediar o conflito?
Leonardo Boff – Esse Papa é absolutamente contemporâneo e necessário. Acho que é o único líder mundial que tem audiência e eventualmente poderia mediar essa guerra de massacre criminosa que Israel está movendo contra Gaza.
E eu acho que grande parte da culpa é do Obama, que é um criminoso. Porque nenhum ataque com drones (avião não tripulados) pode ser feito sem licença pessoal dele. Estão usando todo tipo de armas de destruição, fecharam Gaza totalmente, ficou um campo de concentração, e vão destruindo. Então eles têm um país que foi vítima do nazismo e utiliza os métodos do nazismo para criar vítimas. Essa é a grande contradição.
E os Estados Unidos apoia, o Obama e todos os presidentes são vítimas do grande lobby judeu, que tem dois braços: o braço dos grandes bancos e o braço da mídia. Eles têm um poder enorme em cima dos presidentes, que não querem se indispor e seguem o que dizem esses judeus radicais, extremistas e que se uniram à direita religiosa cristã. Isso está aliado a um presidente como Obama que não tem senso humanitário mínimo, compaixão para dizer “acabem a matança”.

“Mas tudo o que dá sentido humano não entra no PIB: o amor, a solidariedade, a poesia, a arte, a mística, os sábios. Isso é aquilo que nos faz humanos e felizes.”

Sul21 – Qual a sua avaliação da atual disputa para a presidência da República?
Leonardo Boff – Notamos que é uma disputa de interesses de poder. Não se discute o projeto Brasil, se discute poder. O que eu acho lamentável porque não basta ter poder, o poder é um meio. Eu vejo que há duas visões de futuro. Uma é mais progressista, que é levada pelo atual governo. E eu torço que ele ganhe. Mas ganhar para avançar, não reproduzir agenda. Ele atingiu uma agenda que é o primeiro passo, de incluir milhões de pessoas que têm agora direito de consumir o mínimo, de comida, ter geladeira, casa, luz. Isso é direito de todo cidadão. Essa etapa eu acho que o governo cumpriu e bem. Mas agora vem uma nova etapa, porque o ser humano não tem só fome de pão. Tem fome de escola, beleza, lazer, participação na vida social, dos espaços públicos.
E há os que querem impor aquilo que está sendo imposto e não está dando certo na Grécia, em Portugal, na Itália, na Irlanda, que é o neoliberalismo mais radical. Que no fundo é uma austeridade, é o arrocho salarial, aumentar o superávit primário, que é aquele bolo com que se paga os rentistas. Há a visão de futuro que quer enquadrar o Brasil nesse tipo de globalização que é boa para o capital, porque nunca os capitalistas enriqueceram tanto. Tanto que nos Estados Unidos 1% tem o equivalente a 99% da população, enquanto no Brasil 5 mil famílias controlam o equivalente a 43% do PIB. São famílias da casa-grande, que vivem do capital especulativo.
Acho que nós temos que vencer esse projeto, porque não é bom para o povo. Mesmo com todos os defeitos e violações de ética que houve, erros que o PT cometeu, ainda assim o projeto deles é o mais adequado para levar adiante um avanço. Agora se for ganhar para avançar, porque se for para reproduzir dá no mesmo do que outro ganhar.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – O senhor mencionou a crise econômica pela qual passam a Grécia, Espanha e países europeus que seguem o neoliberalismo. Há maneiras de reverter a crise?
Leonardo Boff – A Europa está tão enfraquecida e envergonhada que nem mais aprecia a vida. Aquilo que mais escuto em cada palestra que vou na Europa é pessoas me pedindo “por favor, me dê esperança”. Quando um povo perde esperança, perde o sentido de viver. Isso acontece porque alcançaram tudo que queriam, dominaram o mundo, exploraram a natureza como quiseram, ganharam um bem-estar que nunca houve na História e agora se dão conta que são infelizes. Porque o ser humano tem outras fomes. Fome de amar e ser amado, de entender o outro, conviver, respeitar a natureza.
E tudo isso foi colocado à margem. Só conta o PIB. Mas tudo que dá sentido humano não entra no PIB: o amor, a solidariedade, a poesia, a arte, a mística, os sábios. Isso é aquilo que nos faz humanos e felizes. E essa perspectiva em que só contam os bens materiais poderá levar a humanidade a uma imensa tragédia. Dentro do sistema capitalista, não há salvação. Por duas razões. Primeiro porque nós encostamos nos limites da Terra. É um planeta pequeno, com a maioria dos recursos não renováveis. O sistema tem dificuldade de se auto-reproduzir, porque não tem mais o que explorar. E segundo porque os pobres, que antes da crise que eram 860 milhões, pularam, segundo a FAO, para um bilhão e 200 milhões.
Então esse sistema não é bom para a humanidade, não é bom para a ecologia e pode levar eventualmente a uma crise ecológica social com consequências inimagináveis, em que milhões de pessoas poderão morrer por falta de acesso à água e alimentação. Esse sistema, para minha perversidade total, transformou tudo em mercadoria. De uma sociedade com mercado para uma sociedade de mercado, transformando alimentação em mercadoria. O pobre não tem dinheiro para pagar, então ele passa fome e morre.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“Essa nova relação com a natureza e o mundo é o que precisamos desenvolver para ter uma relação que não seja destrutiva e possa fazer com que a humanidade sobreviva.”

Sul21 – O senhor se preocupa também com o avanço da extrema direita na Europa?
Leonardo Boff – É a reação normal de quando há uma crise maior que alguns postulem soluções radicais. No caso da Europa, é a xenofobia. Mas são todos países que têm problema de crescimento negativo de população. A Alemanha tem que exportar 300 mil pessoas por ano para manter o crescimento mínimo de população, e na França a situação é parecida. Então estão em uma dificuldade enorme, porque precisam deles, mas querem os expulsar. Mas há o risco de que haja um processo que gerou a Segunda Guerra Mundial, que era fruto da crise de 1929 que nunca se resolvia, até que a direita criou o nazifascismo. Mas hoje o mundo é diferente, é globalizado. Não dá para resolver a questão de um país sem estar vinculado aos outros.
Sul21 – Os governos da América Latina oferecem uma alternativa a esse modelo europeu que está em crise?
Leonardo Boff – Muitos veem, como o (sociólogo português) Boaventura de Sousa Santos, que na América Latina há um conjunto de valores vividos pelas culturas originárias que podem ajudar a humanidade a sair da crise. Especialmente com a característica central do bem-viver, que significa ter outra relação com a natureza, entender a Terra como mãe, que nos dá tudo que precisamos ou podemos completar com o trabalho. E inventaram a democracia comunitária, que não existe no mundo, é uma invenção latino-americana, em que os grupos se reúnem e decidem o que é melhor para eles, e o país é feito por redes de grupos de democracias comunitárias. Essa nova relação com a natureza e o mundo é o que precisamos desenvolver para ter uma relação que não seja destrutiva e possa fazer com que a humanidade sobreviva.
Há uma revisitação das culturas originárias, porque elas têm ainda respeito com a natureza, não conhecem a acumulação. São valores já vividos pelas culturas andinas, sempre desprezadas e hoje estudadas por grandes cientistas e sociólogos que percebem que aqui há princípios que podem nos salvar. Em vez de falar de sustentabilidade, respeitar os ritmos da natureza. Em vez de falar

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

de PIB e crescimento, garantir a base físico-química que sustenta a vida. Porque sem isso a vida vai definhando. E em vez de crescimento, redistribuição. É tanta riqueza acumulada que se houvesse 0,1% de taxa sobre os capitais que estão rolando nas bolsas, estão na especulação, daria um fundo de tal ordem que daria para a humanidade matar a fome e garantir habitação. Porque o capital produtivo é de U$ 60 trilhões, enquanto o especulativo é U$ 600 trilhões. Então é uma economia completamente irracional e inimiga da vida e da natureza. E não tem futuro, caminha para a morte. Ou nos levará todos para a morte, ou eles mesmos se afundarão.

“Nós não “temos violência” no Brasil, nós estamos sentados em cima de estruturas de violência. É um estado de violência permanente.”

Sul21 – E onde entra o papel do Brasil no âmbito ecológico? Os governos têm conseguido lidar com as questões ambientais?
Leonardo Boff – O Brasil é a parte do planeta mais bem dotada ecologicamente. Tem as maiores florestas úmidas, maior quantidade de água, maior porcentagem de terrenos agriculturáveis no planeta.  Mas não têm consciência de sua riqueza. E as políticas públicas não têm nenhuma estratégia de como tratar a Amazônia, tratar os vários ecossistemas. Sempre é em função da produção. Então estão avançando sobre a floresta Amazônica e deflorestando para ter soja e gado.
E o Ministério do Meio Ambiente é um dos mais fracos, assim como o dos Direitos Humanos. Isso significa que não conta a vida, conta a economia. Eu acho lamentável isso. E essa crítica tem que ser feita pelos cidadãos. Dizer que apoiamos um projeto de governo, mas nisso discordamos. Porque é uma ignorância, uma irresponsabilidade, uma estupidez governamental. Muita coisa do futuro da humanidade passa por nós, especialmente água potável, que possivelmente será a crise mais grave, até mais do que aquecimento global. E o Brasil tem capacidade de ser a mesa posta para o mundo inteiro e fornecer água potável para o mundo inteiro. Acho que não temos consciência da nossa responsabilidade. Os governantes são vítimas ainda de uma visão economicista, obedecem as regras da macroeconomia. A nossa relação com a natureza não é de cooperação, é de exploração.

 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
| Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21  – Como o Brasil pode lidar com o grave problema de violência urbana? 
Leonardo Boff – O problema que deve ser pensado de que já agora 63% da humanidade vive nas cidades, no Brasil 85%. Não dá mais para pensar apenas na reforma agrária, tem que pensar como vão viver as pessoas. Nós vivemos no Brasil a vergonha de que todas as cidades têm um núcleo moderno cercado por uma ilha de pobreza e miséria, que são as favelas. Esse é um problema não resolvido e para mim central na campanha: como trabalhar os 85% que vivem nas cidades, já perderam a tradição rural, de plantar e viver da natureza, e não assimilaram a cultura urbana. Então são perdidos. Daí o aumento da criminalidade. E muitos dizem que a sociedade têm um pacto social que rege o comportamento dos cidadãos. Ou seja, “vocês nos excluíram, então não somos obrigados a aceitar as leis de vocês, vamos criar as nossas”. As milícias do Rio criaram funções de Estado paralelas, criam sua organização e distribuição e o governo é impotente. E as UPPs não são a solução, porque cria ilhas e as drogas ficam nas margens. O problema não é de polícia, é do tipo de sociedade que nós criamos, montada em cima do colonialismo, escravagismo e etnocídio dos indígenas. Nós não “temos violência” no Brasil, nós estamos sentados em cima de estruturas de violência. É um estado de violência permanente.
Sul21 – E como o país pode fazer para fugir disso?
Leonardo Boff – Aquilo que já começou, parar de fazer políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres para fazer políticas de integração, inclusão, começando pela educação. Porque onde há educação a pessoa se habilita a se autodefender, buscar novas formas de sobrevivência. Um país que não investe em educação e saúde conta com pessoas ignorantes e doentes. E com essas pessoas não têm como dar um salto de qualidade. Para mim esse é o grande desafio e isso deveria ser discutido nas campanhas, e não partidos. Desafiar todo mundo: “como vamos sair disso?”, porque tende a piorar cada vez mais. Essa seria uma política ética, digna, onde o bem comum estaria no centro e somaria forças, alianças de pessoas que se propõem a mudar as estruturas que sustentam um Estado injusto, que tem a segunda maior desigualdade do mundo. Desigualdade significa injustiça, que é um pecado social estrutural mortal. E isso não é discutido.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

As ligações da Madero de Luiz Renato Durski, sócio de Luciano Huck, com o chinês que queria comprar a Amazonia. Por Luis Nassif



Seu braço direito no Brasil era justamente Luiz Renato Durski Junior, dono da empresa Marine Box, uma trading fundada em 1999, que negocia madeiras. No escritório, a trading usa a logomarca da Anxin Flooring Co.

Em Curitiba, há suspeitas de que Luiz Renato Durski Junior, o controvertido proprietário da rede Madero, seja apenas o intermediário do chinês Lu Weiguang, maior fabricante de pisos de madeira e maior importador de madeiras da China.
Uma reportagem de O Globo, de 06.08.2006 joga alguma luz essas relações.
Lu Weiguang, dono da produtora de pisos de madeira e importadora Shanghai Anxin estava entre os 400 homens mais ricos do país, segundo a “Forbes” americana. Era tratado pela mídia chinesa como “o primeiro chinês a ser dono da floresta amazônica”.
Segundo a China Daily Lu Weiguang, 39, nasceu em uma família de comerciantes de Wenzhou, província de Zhejiang. Após se formar na faculdade, Lu tornou-se funcionário do Departamento Administrativo de Pesca de Wenzhou.
Com um empréstimo do pai, fundou a Anxin, que começou vendendo pisos de madeira e se tornou a líder do setor e a maior importadora de madeira bruta do país.
Passou a se interessar pela madeira brasileira em 1996, em conversas com empresas de Taiwan e Hong Kong. Em 1996, o Conselho de Estado da China proibiu a exploração comercial de florestas nativas. E ele passou a olhar o Brasil.
Em entrevista a O Globo, por fax, Weiguang afirmava ter comprado, em 2004, mil quilômetros quadrados da floresta amazônica nativa de uma reserva indígena da região. Tratava-se de uma área em Mato Grosso, maior que Cingapura, equivalente a todo o território de Hong Kong. “Ou o equivalente, como gostam de dizer os jornais chineses, à ilha de Congming, próxima a Xangai e visível claramente em qualquer mapa da China”.
Segundo a reportagem, Weiguang teria contornado as leis brasileiras vindo com a mulher para dar a luz no Brasil a um filho brasileiro. As terras foram compradas em nome do filho.
Procurou a região e, segundo ele, cativou os índios com remédios, escolas. Em 2004 finalmente, segundo declarou a O Globo, comprou dos índios uma área de 150 km quadrados e, mais tarde, outra de 950 km2.
As conversas de Lu chamaram a atenção da Funai e o Serviço Florestal Brasileiro, que não souberam dizer se era bravata ou não.
Seus feitos saíram na imprensa chinesa.
Em um dossiê da China Daily USA, sobre a internacionalização das empresas chinesas, Lu diz que vendeu uma das duas fábricas brasileiras da empresa com prejuízo desde que o valor crescente do real brasileiro dificultou a exportação de produtos semi-acabados de volta para a China. Mas diai ter esperanças que “ a próxima Copa do Mundo e Olimpíadas tornam o Brasil um mercado dinâmico”. A empresa planeja sediar uma partida com jogadores da seleção nacional da China em sua fábrica restante, que tem um campo adjacente.
Segundo a Dun&Bradstreet, o grupo de Lu tinha receita anual de US$ 128 milhões, 1.200 funcionários.
Em seu site, a Anxin revela ter duas bases internacionais de coleta de madeira em larga escala no Brasil e na África e duas áreas em Xangai e Suzhou.

O caso Madero

Lu mantinha um apartamento em bairro nobre de Curitiba, para onde trouxe a mulher Chen Jie, grávida de 3 meses. Com o nascimento do filho brasileiro, em abril de 2003, conseguiu visto permanente no Brasil.
Seu braço direito no Brasil era justamente Luiz Renato Durski Junior, dono da empresa Marine Box, uma trading fundada em 1999, que negocia madeiras. No escritório, a trading usa a logomarca da Anxin Flooring Co.
A parede da sala de reuniões era enfeitada com duas molduras com a figura de Lu ao lado de Lula e Rubens Ricupero.
Na entrevista, Durski diz que a Anxin era sua principal cliente há seis anos, mas não era sócia da empresa. A reportagem apontou o fato de que uma das empresas coligadas da Marina Box, em Varzea Grande, no Mato Grosso, usa a sigla AXN. Mas o empresário disse tratar-se de coincidência. E atribuiu a meras gabolices as informações de Lu sobre as terras amazônicas.
A Marina vendia ao mercado chinês, na época, 60% da produção de madeira produzida no Brasil, 1.200 conteiners em 2005. Além de Curitiba, mantinha escritórios de apoio pelo Brasil, especialmente em polos madeireiros.

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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Do Jornal Francês Liberation: a Volta do Brasil Colonial, por Michel Cahen



 "Por que a elite conservadora não poderia tolerar uma política mais ou menos social-democrata? Por que esse conservadorismo profundo conseguiu conquistar uma massa heterogênea para a eleição de um aventureiro de extrema direita? Para entender, devemos voltar longe."



Do Liberation

O retorno do Brasil colonial

Por Michel Cahen , historiador da colonização portuguesa e diretor de pesquisa do CNRS na Sciences-Po Bordeaux
Para entender a ascensão de Jair Bolonaro ao poder, devemos recuar muito no início do século XIX, quando a independência do Brasil explodiu o Império Português. Desde então, o país mudou. Mas a elite nunca experimentou uma revolução efetivamente descolonizadora.
Em 1º de julho, Jair Bolsonaro completou os seis primeiros meses de seu governo. Os contratempos dos quais é o objeto são, em última análise, relacionados à natureza heterogênea da base social que foi construída, típica de um populismo de extrema direita: eixos não relacionados de agitação. com os outros, para satisfazer separadamente tais ou tais setores convergindo para um selvagem bonapartismo.
A partir de 2012, o início do mandato de Dilma Rousseff, fiquei impressionado com o ódio da elite conservadora pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT) desde 2003. Mas o contexto econômico muito favorável permitiu que o Presidente Lula satisfizesse e a elite e o povo. Assim, uma importante “classe média” emergiu, a mesma que, tocada pela crise, vendo um abismo aberto sob seus pés, estará no coração da base social de Bolsonaro. Foi o ódio que foi ainda mais incongruente quando, à medida que a crise econômica chegava ao país, a política de Dilma Rousseff tornou-se cada vez mais neoliberal.
Por que a elite conservadora não poderia tolerar uma política mais ou menos social-democrata? Por que esse conservadorismo profundo conseguiu conquistar uma massa heterogênea para a eleição de um aventureiro de extrema direita? Para entender, devemos voltar longe.
Em 7 de setembro de 1822, a independência do Brasil explodiu o Império Português. Tinha um carácter único: era o próprio Estado português, refugiado no Rio desde 1807, quando os exércitos napoleónicos invadiram Portugal, que se recusou a regressar – poderia ter sido desde 1811. Existe outra caso no mundo onde o soberano opta por permanecer em sua colônia mesmo que ele possa retornar para sua cidade natal?
A independência era mais uma revolta fiscal do que uma libertação nacional. Foi uma independência sem descolonização. Foram os colonos que tomaram o poder e criaram uma colônia autocentrada: o fato de o país ser independente não significa que não seja mais uma colônia.
Quando os colonos rodesianos recusaram, em 1965, a independência negra planejada por Londres e declararam uma independência branca, a Rodésia obviamente permaneceu uma colônia. A independência da América tem sido independência sem descolonização, criou estados coloniais. Demasiadas vezes, a independência e a descolonização são confusas. Mas o caso brasileiro é extremo, pois a independência foi proclamada pelo herdeiro do trono do país colonizador.
Este Império brasílico tornou-se paulatinamente brasileiro. A conclusão do processo pode ser datada de 1889, depois que um golpe conservador expulsou a Princesa Isabel, que havia abolido a escravidão no ano anterior, e proclamou uma República perfeitamente colonial. Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos com a Guerra Civil Americana, não foi um setor industrial da burguesia brasileira que detinha o poder, mas a elite dos colonos coloniais . É ela quem vai devagar, sem quebrar, mudar para o plantio moderno, marginalizando o trabalho negro e importando milhões de europeus. Isso aconteceu em outros lugares da América, mas aqui temos dois recursos combinados. Por um lado, os “nativos” não eram mais do que uma pequena minoria da população, por causa de epidemias, massacres e miscigenação – eles estão agora entre 0,4% e 0, 6% da população, daí a fraqueza das lutas anticoloniais. Por outro lado, os negros formavam a grande maioria da população (são cerca de 52% hoje), daí um “medo estrutural” nessa elite branca aterrorizada pelo exemplo do Haiti.
Desde então, o Brasil mudou. Mas a elite nunca conheceu uma revolução descolonizadora, lentamente se tornou uma burguesia capitalista, especialmente latifundiária e não industrial, sem nunca deixar de ser uma elite colonial. O relatório da elite para o povo não é apenas a do capitalista do proletariado, mas ainda em grande parte a do mestre para o escravo, a da “Casa Grande” para “Senzala”. Uma medida que provocou o ódio contra Dilma Rousseff foi, em 2013, a lei que garante as empregadas de direitos sociais reais: feriado de domingo, contrato de trabalho, contribuições sociais, 44 horas por semana, pagamento de horas extras. Essa lei era um ultraje ao paternalismo autoritário da Senhora e do Mestre: o servidor era um proletário autônomo. Isso quebrou a relação da Casa Grande com a Senzala para substituir a relação patrão-empregado. Foi intolerável.
É insuportável para esta elite extremamente branca, quando as pessoas estão profundamente misturadas, aceitar reformas sociais até mesmo tímidas. É silencioso quando não pode fazer o contrário – a popularidade de Lula, uma economia florescente -, mas assim que a situação se agrava, exige a retomada de todos os seus privilégios, capitalista e colonial.
Insisto em “… e colonial”. Não é coincidência que a conquista colonial seja retomada. Jair Bolsonaro e sua família não só desprezam os nativos como um grande proprietário de terras pode desprezar os camponeses pobres, eles os desprezam como um desprezado colonizador uma raça inferior e conquistada. Jair Bolsonaro diz que quer forçar os nativos a “integrar”, isto é, a desaparecer como nações e sociedades distintas. Ele passou a delimitação de terras indígenas e quilombolas sob a jurisdição do Ministério da Agricultura, o Ministério de Grandes Proprietários Rurais.
Os índios são apenas uma pequena minoria, mas dificultam a ocupação de espaços muito pequenos no sul e, a fortiori, no norte. É intolerável para os agricultores não é tanto o tamanho, mas isso não é cultivada e operado maneira produtivista: são indígenas, de acordo com o desrespeito colonizador clássico para o colonizado naturalmente incapaz e lento, que não apenas um desprezo pela classe de administração. Essa elite não moderna recusa o menor questionamento de seu habitat. É consistente com a colonização do espaço brasileiro.
Acho que há muito disso na eleição de Jair Bolsonaro, além da crise econômica, a corrupção atribuída apenas ao PT, a notícia falsa, os neopentecostistas, problemas de segurança, setores militares de extrema-direita, racismo, homofobia … Se essas características contemporâneas tomaram forma, é porque a elite capitalista-colonial é, estruturalmente, mentalmente, incapaz de consentir com qualquer medida social.
A contradição, que pode ser explosiva entre os defensores do regime, é que, historicamente, o exército brasileiro tem se modernizado bastante (o que não significa se democratizar), enquanto essa elite profundamente conservadora continua sendo moldada por seu medo de maioria negra. É expresso pelo “BBB” – bala, boi e Bíblia.
Embora ultra-minoritária, a elite conseguiu construir temporariamente uma hegemonia política abrangendo vastos setores do povo. Muitos outros fatores explicativos já existiam anteriormente. Mas sua radicalização à direita foi, creio eu, o “plus” que permitiu que o resto se formasse, diante de um PT paralisado pelo encarceramento de Lula e por ter perdido toda a capacidade de mobilização popular.
Michel Cahen historiador da colonização portuguesa e diretor de pesquisa do CNRS na Sciences-Po Bordeaux

terça-feira, 9 de abril de 2019

Ladislau Dowbor: Paulo Guedes representa interesses da elite financeira que ajudou a enriquecer



Projetos idealizados pelo ministro da Economia de Bolsonaro são "coerentes" com os interesses que ele defendeu ao longo de sua trajetória no BTG Pactual


Foto: Agência Brasil
Jornal GGN – O economista Ladislau Dowbor publicou no Le Monde Diplomatique Brasil desta segunda (8) um artigo lembrando das raízes de Paulo Guedes. Para o articulista, à sombra dos projetos idealizados pelo ministro da Economia de Bolsonaro, incluindo a Reforma da Previdência, estão os interesses da elite financeira que ele ajudou a enriquecer ainda mais durante sua trajetória no setor privado.
“O nosso super-ministro tem essas raízes, e navega na solidariedade com os interesses financeiros. Passar a previdência para o controle dos bancos privados, desvincular as receitas do Estado para que possam se apropriar do financiamento da educação, saúde e outras políticas sociais, buscar a apropriação da gestão do FGTS – tudo em nome de reduzir o déficit do Estado, aumentando o rombo que precisamente os bancos geram, é bastante coerente”, apontou.
Além de ser um autêntico Chicago Boy, Guedes é, ao lado de André Esteves, fundador do BTG Pactual. E, para Dawbor, vale a pena entender o que faz o banco. Afinal: “Ninguém se reinventa. E ninguém é chamado para dirigir a 8ª economia do mundo sem ser apoiado por um conjunto de interesses.”
“O que o Pactual faz mesmo é wealth management, ou seja, gestão de fortunas, trabalhando com o que se chama internacionalmente High Net Wealth Individuals, ajudando os muito ricos a ganhar mais dinheiro com dinheiro. E assegura também a intermediação financeira para empresas que buscam ‘otimizar’ os seus fluxos financeiros, na linha do asset management. No conjunto, trata-se de otimizar os ganhos financeiros dos mais ricos. Não se trata, evidentemente, de desenvolver atividades produtivas, pelo contrário, trata-se de drená-las.”
Leia o artigo completo aqui.