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quinta-feira, 6 de junho de 2024

Byung-Chul Han: Sobre a esperança radical contra os males do capitalismo e seu neofascismo

 

Por não esgotar-se no consumo, ela é antítese da lógica capitalista, sugere filósofo. É a portadora do futuro, mas só surge da negatividade da crítica. Está em rupturas. Exige crítica, desespero e escuta. E sempre é cega, pois move-se ao desconhecido

Foto publicada no Lvreshebdo

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Adaptado a partir de vídeo de Claudio Alvarez Teran sobre uma conferência de Byung-Chul Han, intitulada Sobre a Esperança. Tradução: Glauco Faria

Em abril de 2023, o filósofo coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han deu uma palestra na Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, intitulada On Hope (Sobre a esperança), que faz parte do primeiro volume de palestras do autor, publicado em 2024 com o título The Tonality of Thought (A tonalidade do pensamento).

A esperança, diz Byung-Chul Ham, tem muito a ver com transcendência, fé e amor. Mas hoje trabalhamos, produzimos e consumimos, e nesse modo de vida não há transcendência e, portanto, não há esperança.

Vivemos em uma época desprovida de celebração, e uma época sem celebração também é uma época sem esperança. Em nossa sociedade de consumo e desempenho, celebramos, mas somos capazes de nos alegrar e regozijar? Ainda temos a capacidade de festejar e celebrar?

O tempo sublime da celebração desapareceu completamente em favor do tempo do trabalho, que ocupa tudo. Até as pausas estão integradas nesse tempo de trabalho, servem para nos dar descanso para continuarmos trabalhando. Mas a esperança não é produtiva, ela é orientada para o que ainda não existe. São Paulo disse em sua carta aos Romanos que, quando vemos o que esperamos, não esperamos mais.

É possível ter esperança no que se vê? O modo de esperança é o “ainda não”. Ela se abre para o que está por vir, para o que é possível. Gabriel Marcel, o chamado filósofo da esperança, argumentou que a esperança pode ser encontrada no tecido de uma experiência contínua. Esperança significa dar crédito à realidade. Ou seja, acreditar na realidade como portadora do futuro. A esperança nos torna crentes no futuro.

Transcendência

Como eu disse no início, a experiência mais intensa de esperança ocorre na transcendência. O escritor e político tcheco Baclav Havel define a esperança como um estado de espírito, uma dimensão da alma. Em sua essência, ela não depende de uma observação prévia do mundo. Não é um prognóstico, é uma orientação do coração que transcende o mundo imediato da experiência e se ancora em algum lugar além do horizonte.

As raízes da esperança estão em algum lugar transcendente. É por isso que ter esperança não é o mesmo que estar satisfeito com o fato de as coisas estarem indo bem. É a capacidade de trabalhar por algo porque é bom, não porque é um sucesso garantido. É por isso que a esperança não é o mesmo que otimismo, não é a convicção de que algo vai dar certo, mas a certeza de que algo faz sentido, não importa como vai dar certo. Fazer algo que faz sentido, é isso que é esperança, não calcular o sucesso de um empreendimento. A esperança pressupõe coragem e fé. É o que nos dá força para viver e tentar algo de novo e de novo, mesmo que as condições da experiência sejam desesperadoras.

Uma crítica comum à esperança é que ela não tem determinação para agir. Que aqueles que têm esperança fecham os olhos para a realidade e se entregam a ilusões. Albert Camus compartilhava essa visão desvalorizada da esperança, que ele chamou de armadilha daqueles que não vivem a vida pela vida em si, mas por alguma grande ideia que a supere e lhe dê sentido. Identificar esperança com resignação.

Björn Schulján se opõe a essa visão de Camus e o faz perguntando o que Camus quer dizer com a vida em si: é simplesmente uma vida nutritiva, uma vida sem mais? Sem uma ideia, sem significado, a vida é reduzida à mera sobrevivência ou, como é hoje, à pura imanência do consumo. A uma vida sem mais nada, para usar o conceito de Camus, apenas desejos a satisfazer sem futuro, apenas dedicada a viver no presente do consumo. O capitalismo se concentra em maximizar as necessidades e os desejos, por isso a esperança não faz parte da lógica capitalista. Porque quem tem esperança não consome. É por isso que o capitalismo aniquila a esperança e nos transforma em um rebanho de consumidores.

Camus ignora a dimensão ativa da esperança, que nos incita a agir em prol do novo, um núcleo ativo que dá asas à nossa ação. Erich Fromm nos diz, ao contrário de Albert Camus, que a esperança não é nem uma espera passiva nem uma ação contínua. É como o tigre agachado que só pula quando chega a hora certa.

Projeção para o futuro

Ter esperança é estar alerta o tempo todo para o que ainda não nasceu. Os esperançosos estão prontos para ajudar no advento do que está pronto para nascer. A esperança é visionária e profética. Ela aguça nossa atenção para o que ainda não existe. É a parteira do novo. Sem esperança, não há revolução nem futuro. Há apenas um presente otimizado.

Como a esperança é uma projeção para o futuro, Björn Schulzhan se concentra nela, tirando de Derrida a existência de duas formas de futuro. O futuro e o avenir. O futuro é aquilo a que nos referimos em relação ao que acontecerá no futuro. Amanhã, no próximo mês, daqui a dois anos… O futuro é o futuro previsível e planejável, que pode ser gerenciado e otimizado. Por outro lado, o futuro como avenir refere-se a eventos que acontecem inesperadamente. É por isso que ele envolve mais possibilidades do que o futuro, pois permite que outros mundos possíveis apareçam no horizonte. O futuro como avenir é o advento do outro, cuja chegada não é previsível. O avenir é caracterizado por sua indisponibilidade.

A esperança é projetada no futuro do avenir. Björn Schulzhan argumenta que os críticos de seu trabalho sempre o censuraram por expressar um modo de pensar pessimista. Sua resposta a essa crítica é que ela está parcialmente correta. Parcialmente porque embora seu pensamento não esteja relacionado ao otimismo, ele também não está relacionado ao pessimismo. Seu pensamento está ligado à esperança. É um erro pensar que o pessimismo é o negativo do otimismo, porque eles não são essencialmente diferentes um do outro. A essência do otimismo é a positividade imaculada. O otimista vive com a convicção de que, de alguma forma, as coisas vão melhorar. Para o otimista, o tempo está fechado, nada acontece, porque ele vê o futuro como um assunto fechado e acabado. Tudo ficará bem, ponto final.

Paradoxalmente, também para o pessimista o tempo está fechado. O pessimista está preso no tempo como em uma prisão. Ele nega tudo sem se aventurar em outros mundos possíveis. O pessimista é tão teimoso quanto o otimista. Ambos são cegos para as possibilidades, porque o possível é estranho para eles. Falta-lhes a paixão pelo possível.

Em contraste com ambos, aquele que tem esperança aposta em ir além do que não deveria ser. A esperança nos permite escapar do tempo concluído como uma prisão. O indisponível e o distante são inerentes ao futuro. Mas o otimista nunca olha para o futuro. Ele não conta com o inesperado e o incalculável. E, acima de tudo, o otimista nunca questiona as estruturas sociais nas quais ele e as coisas estão inseridos e determinam seu futuro. O otimista se submeteu irremediavelmente ao sistema existente, mas não tem consciência disso.

O otimismo, diz Ham, é uma coisa parada. O otimista não age, porque toda ação implica um risco. E como ele não quer correr esse risco, o otimismo não tem negatividade. Ele não conhece a dúvida nem o desespero. No entanto, diz Byung Chul Han, encontrar o desespero nessa sociedade é a razão de sua esperança. Ao contrário do otimismo, a esperança busca, tenta encontrar uma direção e se dirige para o desconhecido, o intransponível, o aberto. Indo além do que já é, ela se move em direção ao que ainda não nasceu.

A esperança estabelece um curso em direção ao novo. Por outro lado, o otimista não precisa de motivos para justificar seu otimismo. Ele simplesmente é. Já a esperança não vem naturalmente, ela emerge. Muitas vezes, ela precisa até ser invocada porque, como dissemos, é caracterizada por sua indisponibilidade e pressupõe um compromisso ativo.

É por isso que Han reconhece que não é um otimista, mas um esperançoso, e afirma que o que precisamos hoje não é otimismo, mas uma esperança radical no novo, em um modo de vida completamente diferente que nasce da negatividade da crítica.

Byung-Chul Han também diferencia a esperança do pensamento positivo ou da chamada psicologia positiva. A psicologia positiva, ao se afastar da psicologia do sofrimento, está interessada apenas no bem-estar, na felicidade e no otimismo das pessoas. De acordo com o pensamento positivo, basta substituir os pensamentos negativos por positivos para viver uma vida mais feliz. Por meio desse mecanismo simples, os aspectos negativos da vida são completamente omitidos. E o mundo é apresentado como um mercado amazônico que nos fornecerá o que quisermos graças à nossa atitude positiva.

Vida além da sobrevivência

Concluindo, se nossa disposição de pensar positivamente é suficiente para nos fazer felizes, então cada um é o único responsável por sua própria felicidade. Sabemos que o sofrimento é sempre um fator condicionado pela sociedade. Mas a psicologia positiva privatiza tudo. Paradoxalmente, o culto à positividade isola as pessoas, torna-as egoístas e corrói a empatia. Porque as pessoas preocupadas apenas consigo mesmas não estão mais interessadas no sofrimento dos outros. O culto à positividade é consubstancial ao regime iliberal, pois prejudica a solidariedade social.

A esperança, ao contrário do pensamento positivo, não evita a negatividade da vida. Tampouco isola, mas une e reconcilia. O sujeito da esperança não sou eu. O sujeito da esperança somos nós. Mas hoje somos todos ego. Nós nos entrincheiramos exclusivamente em nós mesmos. É por isso que Han conecta a esperança com o amor, a fé e a transcendência. Aquele que não tem a capacidade de ter fé e amor, que não consegue transcender a si mesmo, também não pode ter esperança. Aquele que espera sai de si mesmo. A esperança nos permite transcender o eu para chegar até nós. A esperança nos permite nos aproximar da comunidade. Biondjul Ham contrasta a esperança com o medo e os coloca como opostos.

Atualmente, o medo assombra nosso tempo como um fantasma. Somos constantemente confrontados com cenários apocalípticos, que estão na ordem do dia. Eles são até mesmo oferecidos como mercadoria. O apocalipse vende.

Essa atmosfera de fim dos tempos não está presente apenas na vida real. Ela também é expressa na literatura, no cinema e na arte em geral. Hoje olhamos com medo para um futuro sombrio. Em toda parte há uma falta de esperança.

A vida se reduz a uma corrida para resolver problemas e administrar a crise, em suma, para sobreviver. A vida é sacrificada no altar do medo. Somente por meio da esperança podemos recuperar uma vida que seja mais do que mera sobrevivência. Porque somente a esperança amplia o horizonte do futuro, do que tem significado. É por isso que a depressão, nascida da falta de significado, é a expressão patológica da desesperança total. Porque o tempo depressivo carece de um futuro. Falta-lhe o avenir, a chegada do inesperado. O medo amplifica essa atmosfera depressiva e, junto com o ressentimento, leva as pessoas ao populismo de direita, promovendo o egoísmo e o ódio, corroendo a solidariedade e a empatia.

A combinação de medo e ressentimento contribui para a brutalização da sociedade e os discursos de ódio resultantes do medo são prova disso. A democracia só pode prosperar em uma atmosfera de diálogo e reconciliação. O medo e a democracia são incompatíveis.

O medo é um instrumento popular de dominação. Ele transforma as pessoas em súditos obedientes, como acontece nesta sociedade do espetáculo, onde todos temos medo de não atuar. E também temos medo de pensar, de ter uma opinião própria, medo de sermos livres. O conformismo está se espalhando, também um produto do medo.

Ainda não

O regime neoliberal é um regime de medo. Ele isola os seres humanos, transformando-os em empresários de si mesmos. A competição total e a pressão por desempenho corroem a comunidade. O isolamento gera medo. Medo do fracasso. Medo de não estar à altura. Medo de não ser capaz. E é justamente esse medo promovido que acaba aumentando a produtividade.

Byung-Chul Han diz que o significado de liberdade é estar livre de pressões. Mas o problema é que, no neoliberalismo, a liberdade gera suas próprias pressões, que vêm de dentro do ser humano, submetendo-nos voluntariamente à pressão para sermos criativos, eficientes e autênticos. Essas pressões não apenas alimentam o medo, mas também nos deprimem. O medo, assim como o pensamento positivo, isola.

Todos nós sabemos que é impossível ter medo quando estamos juntos. O medo precisa de nós isolados e fragmentados, ele não gera comunidade, não gera um nós. Somente a esperança implica uma dimensão nós. A esperança, diz Han, tem algo de contemplativo. Ela exige prostração e escuta. É uma receptividade delicada que lhe confere beleza e graça. Se, como se diz, a esperança é cega, não é porque ela vive de ilusões, mas porque ela se move em direção ao desconhecido.

O “ainda não” é o modo temporal da esperança. Portanto, a esperança é o fermento da revolução, do novo, do “ainda não”. Nenhuma revolução surge do medo. O medo nos torna obedientes, submissos e dominados. Somente da esperança em outro mundo, em um mundo melhor, surge um potencial revolucionário. Se nenhuma revolução é possível hoje, é porque não podemos ter esperança. Porque vivemos com medo, sobrevivendo.

A poeta austríaca Ingeborg Bachmann eleva a esperança a uma condição necessária para que a vida seja possível. Porque a esperança representa a condição humana por excelência. É o que guia nossas ações, nos sustenta e nos dá sentido. Os seres humanos vivem enquanto têm esperança. A esperança é despertada em face da perda total, é invocada em face da perda total.

É por isso que esperança não é o mesmo que otimismo. A esperança só é possível quando é quebrada, como a felicidade. O “apesar de” é inerente à esperança, que resiste mesmo diante do desastre absoluto. Se removermos a negatividade do “apesar de” e do desastre, ficamos com a banalidade simples e passiva do otimismo. É a tensão entre o impossível e o “apesar de” que abre o futuro e torna a vida possível.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Cem anos de Edgar Morin, o filósofo e educador da complexidade. Por Rômulo de Andrade Moreira

 

Diz Morin, por exemplo, que a “educação deve contribuir para a auto formação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.”

Foto Sesc-SP

Cem anos de Edgar Morin, o filósofo da complexidade

por Rômulo de Andrade Moreira[1]

Hoje, 08 de julho, Edgar Morin, o “humanista planetário” (como o chamou Alain Touraine[2]), um dos mais sofisticados filósofos contemporâneos, faz 100 anos. Ex-combatente da resistência francesa, sociólogo e pensador transdisciplinar e indisciplinado, doutor honoris causa de 34 universidades em todo o mundo, Morin está, desde o dia 17 de março do ano passado, confinado no seu apartamento em Montpellier, na companhia da sua esposa, a socióloga Sabah Abouessalam.[3]

Morin, a partir de uma frase de Montaigne (“mais vale uma cabeça bem-feita que bem cheia”), escreveu um livro dirigido, particularmente, para a docência e, mais ainda especialmente, para estudantes que se entediam, desanimam-se, deprimem-se ou se aborrecem com o ensino atual, a fim de que possam “assumir sua própria educação.”

Trata-se do A Cabeça Bem-Feita – Repensar a Reforma & Reformar o Pensamento, “dedicado, de fato, à educação e ao ensino”, visto não como uma mera transmissão de saber, mas como uma verdadeira e genuína transferência de “uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver, e que favoreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre”; educação concebida como algo que “pode ajudar a nos tornar melhores, se não mais felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas.”[4]

Definitivamente, é um livro prenhe de lições para professores, professoras, alunos e alunas. Aliás, as ideias de Morin acerca da educação e do ensino lembram, em muitos aspectos, os temas e os enfrentamentos encontrados nas obras de Paulo Freire, o nosso maior educador. Sim, pois lendo os escritos do brasileiro não é difícil encontrar incríveis semelhanças entre ele e o francês.

Diz Morin, por exemplo, que a “educação deve contribuir para a auto formação da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão.”

Desde o início, Morin sustenta que nos tempos atuais há o que ele chama de uma hiperespecialização, ou seja, “a especialização que se fecha em si mesma sem permitir sua integração em uma problemática global ou em uma concepção de conjunto do objeto do qual ela considera apenas um aspecto ou uma parte.”

Este fenômeno, a um só tempo, fragmenta o global e dilui o essencial, separando disciplinas, dissociando os problemas, reduzindo e decompondo o complexo, fazendo com que “as mentes jovens percam suas aptidões naturais para contextualizar os saberes e integrá-los em seus conjuntos”, pois o progresso do conhecimento reside mais na “capacidade de contextualizar e englobar” do que na “sofisticação, formalização e abstração.” De uma tal maneira “que a aptidão para contextualizar e integrar é uma qualidade fundamental da mente humana, que precisa ser desenvolvida, e não atrofiada.”

Na contemporaneidade, especialmente com o acesso a várias mídias, a diversos conhecimentos, às mais sofisticadas técnicas científicas, há “uma expansão descontrolada do saber e um crescimento ininterrupto dos conhecimentos, construindo uma gigantesca torre de Babel, que murmuram linguagens discordantes.”

Ora, como “as informações constituem parcelas dispersas de saber”, afogando-nos a todos, “o conhecimento só é conhecimento enquanto organização, relacionado com as informações e inserido no contexto destas.” O pensamento, portanto, não pode isolar e separar, mas antes e pelo contrário, deve distinguir e unir, sendo necessário “substituir um pensamento disjuntivo e redutor por um pensamento do complexo.”

A partir dessa reflexão, Morin constata “a grande separação entre a cultura das humanidades e a cultura científica.” Enquanto a primeira (a cultura humanística) é “genérica e alimenta a inteligência geral, seja a partir da filosofia, do ensaio ou do romance, enfrentando as grandes interrogações humanas, estimulando a reflexão sobre o saber e favorecendo a integração pessoal dos conhecimentos”, a segunda (a cultura científica) “separa as áreas do conhecimento que, nada obstante acarretar admiráveis descobertas e teorias geniais, não permite uma reflexão sobre o destino humano e sobre o futuro da própria ciência, tornando-se incapaz de pensar sobre si mesma e de pensar os problemas sociais e humanos que coloca, encarando a cultura das humanidades apenas como uma espécie de ornamento ou luxo estético.”

A propósito, veja-se o caso brasileiro em que o próprio presidente da República, secundado pelo ministro da Educação, defende explicitamente a descentralização dos investimentos para os cursos de filosofia e sociologia.[5] Nada tão redutor!

E qual seria a consequência (desastrosa) desse conhecimento meramente técnico-científico atual? Responde Morin: “o cidadão é despojado de qualquer ponto de vista globalizante ou pertinente”, causando “uma grande regressão da democracia” e subtraindo do cidadão o seu direito a um conhecimento global, “muito mal compensado pela vulgarização da mídia.”

É urgente, portanto, formarem-se cidadãos “capazes de enfrentar os problemas de sua época”, freando “o enfraquecimento democrático” causado pela “expansão da autoridade dos experts, especialistas de toda ordem, que restringe progressivamente a competência dos cidadãos.”

Assim, não se pode aceitar passivamente que os cidadãos estejam condenados “à aceitação ignorante das decisões daqueles que se presumem sabedores, mas cuja inteligência é míope, porque fracionária e abstrata.” Eis, para Morin, “uma condição sine qua nonpara sairmos de nossa barbárie.” (grifei, pois bem adequado ao caso brasileiro de hoje).

Voltando a Montaigne, Morin explica que “uma cabeça bem cheia é aquela onde o saber é acumulado, empilhado, e não dispõe de um princípio de seleção e organização que lhe dê sentido”; ao contrário, uma “cabeça bem-feita” é aquela na qual, “em vez de acumular saber, sabe que o mais importante  é dispor ao mesmo tempo de uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas e de princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido”, pois “quanto mais desenvolvida é a inteligência geral, maior é sua capacidade de tratar problemas especiais.”

Segundo o autor, é preciso que desde a infância e também na adolescência, estimule-se ou se desperte sempre a dúvida, este “fermento de toda atividade crítica”, a curiosidade e a “aptidão interrogativa”, orientando-se o jovem “para os problemas fundamentais de nossa própria condição e de nossa época.” Afinal, “conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza.”

 Neste sentido, ao contrário do que pensam nossos atuais governantes, “a filosofia deve contribuir eminentemente para o desenvolvimento do espírito problematizador”, pois se trata, “acima de tudo, de uma força de interrogação e de reflexão, dirigida para os grandes problemas do conhecimento e da condição humana.”

Morin adverte para a necessidade (desde os primeiros anos do ensino) de privilegiar a ligação dos conhecimentos e não a sua separação (fragmentação), pois, lembrando Pascal, é “impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.”

Agora, utilizando-se de Durkheim, Morin estabelece como objetivo da educação, não somente o transmitir conhecimentos sempre mais numerosos ao aluno, mas, sobretudo, ensinar a viver e a transformar o conhecimento adquirido em “sapiência”.

A importância da literatura (e das artes em geral) também é enfatizada de modo muito especial por Morin, especialmente para o estudo da condição humana, pois mostram “os caracteres essenciais, subjetivos, afetivos do ser humano”, revelando “a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço.”

A literatura, desde o século XIX, “de Balzac a Dostoievsky e a Proust, restituíram a complexidade humana, que se esconde sob as aparências de simplicidade”, desvelando “os indivíduos, sujeitos de desejos, paixões, sonhos, delírios; envolvidos em relacionamentos de amor, de rivalidade, de ódio; submetidos a acontecimentos e acasos, vivendo seu destino incerto.” Montaigne, Cervantes, Kundera e Shakespeare também são referências literárias citadas por Morin.

A poesia, por exemplo, mostra-nos “a dimensão poética da existência humana”, e que estamos “destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase”, pondo-nos “em comunicação com o mistério, que está além do dizível.” De uma tal maneira que a literatura, a poesia e o cinema são verdadeiras “escolas de vida, em seus múltiplos sentidos”, reveladoras da miséria humana “e de sua grandeza trágica, com o risco de fracasso, de erro, de loucura.”

Enfim, a arte, esta “verdadeira escola da compreensão”, é capaz de nos ensinar (principalmente aos mais jovens) “as maiores lições da vida: a compaixão pelo sofrimento de todos os humilhados e a verdadeira compreensão.” Só assim seremos capazes de “sentir e conceber os humanos como sujeitos, abrindo-nos a seus sofrimentos e suas alegrias”, possibilitando “lutar contra o ódio e a exclusão.” Afinal, “vivemos em um mundo de incompreensão entre estranhos, mas também entre membros de uma mesma sociedade, de uma mesma família, entre parceiros de um casal, entre filhos e pais.”

Morin também adverte acerca do fenômeno do autoengano, da ilusão, “da mentira para si mesmo”, fruto de um “egocentrismo auto justificador e a transformação do outro em bode expiatório”, concorrendo para isso “as seleções da memória que eliminam o que nos incomoda e embelezam o que nos favorece.”

Precisamos entender que o sentido da vida humana “não está tanto nas necessidades utilitárias – às quais ninguém consegue escapar -, mas na plenitude de si e na qualidade poética da existência”, afinal a nossa “vida é uma aventura e todo destino humano implica uma incerteza irredutível, até na absoluta certeza, que é a da morte, pois ignoramos a data” e, portanto, devemos “estar plenamente conscientes de participar da aventura da humanidade, que se lançou no desconhecido em velocidade, de agora em diante, acelerada.”

Pensando a universidade, Morin encontra três características primordiais: ela deve ser, a um só tempo, conservadora, regeneradora e geradora: conservadora, pois “memoriza, integra, ritualiza uma herança cultural de saberes, ideias, valores”; regeneradora, porque vivifica essa “herança ao reexaminá-la, atualizá-la, transmiti-la”; e, por fim, também geradora, já que produz “saberes, ideias e valores que passam, então, a fazer parte da herança.”

Neste sentido, a autonomia da universidade é fundamental para que ela possa executar a sua missão e a sua função transnacional e transecular, “que vão do passado ao futuro, passando pelo presente.” Não pode ser uma “máquina de produção e consumo”, mas um ambiente de “conservação, transmissão e enriquecimento de um patrimônio cultural.” Eis a sua missão!

É necessário, portanto, estarmos atentos para que não se submeta o ensino e a pesquisa “às demandas econômicas, técnicas e administrativas do momento”, marginalizando “a cultura humanista” como pretende, ao que parece, o governo brasileiro.

Conformar-se ao mercado, reduzindo o papel do ensino, antes de ser um “indício de vitalidade”, trata-se de um “prenúncio de senilidade e morte pela perda da substância inventiva e criadora.”

Morin constata algo absolutamente verdadeiro e preocupante: “a imensa máquina da educação é rígida, inflexível, fechada, burocratizada, com professores instalados em seus hábitos e autonomias disciplinares”, comportando-se “como os lobos que urinam para marcar seu território e mordem os que nele penetram”; daí a razão de tanta e obtusa resistência, “inclusive entre os espíritos refinados: para eles, o desafio é invisível”, a tal ponto que “a cada tentativa de reforma, mínima que seja, a resistência aumenta.”

E, terminando, lembra da pergunta de Marx, em uma de suas teses sobre Feuerbach: “quem educará os educadores?” Ele, então, responde: “Será uma minoria de educadores, animados pela fé na necessidade de reformar o pensamento e de regenerar o ensino, aqueles educadores que já têm, no íntimo, o sentido de sua missão, uma missão de transmissão, o que exige, além da competência e de uma técnica, uma arte, enfim, o eros(Platão) que é, a um só tempo, desejo e prazer (de transmitir) e amor (pelo conhecimento e pelos alunos)”, amor sem o qual “só há problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio para os alunos.”

Que aprendamos sempre com Morin e com a sua vida extraordinária e fascinante, inspirada sempre, como ele costuma dizer, pelos versos do poeta espanhol Antonio Machado:

“Caminhante, não há o caminho.
O caminho se faz ao andar,
ao andar se faz o caminho”.[6]


[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.

[2] Disponível em: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/cem-anos-morin-filosofo-da-complexidade/. Acesso em 07 de julho de 2021.

[3] Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/598378-esta-crise-nos-interroga-sobre-as-nossas-verdadeiras-necessidades-mascaradas-nas-alienacoes-do-cotidiano-entrevista-com-edgar-morin. Acesso em 07 de julho de 2021.

[4] O livro foi publicado no Brasil, pela Bertrand do Brasil, em 2002.

[5] Segundo o presidente da República, “a função do governo é respeitar o dinheiro do pagador de impostos, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta.” Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/04/bolsonaro-propoe-reduzir-verba-para-cursos-de-sociologia-e-filosofia-no-pais.shtml. Acesso em 10 de abril de 2020.

[6] Disponível em: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/cem-anos-morin-filosofo-da-complexidade/. Acesso em 07 de julho de 2021.

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terça-feira, 9 de junho de 2020

Sobre o livro Paulo Freire e Edgar Morin Sobre Saberes, Paradigmas e Educação: um diálogo Epistemológico, de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

     


  Todas as áreas do saber, do senso comum ao conhecimento mais formal, são influenciadas por estruturas de crenças e modelos de realidade implícitos, denominados de paradigmas. Esses paradigmas, ao condicionarem o comportamento em geral e a prática científica e acadêmica, exercem também a sua influência sobre a Educação e, consequentemente, nas práticas pedagógicas e no processo de formação de professores, impactando no modo como entendemos o mundo. Contudo hoje em dia está claro que os pilares paradigmáticos que deram sustentação à cultura ocidental em geral, por mais de trezentos e cinquenta anos, estão apresentando sinais de esgotamento. Por isso a sua influência sobre a sociedade e no modo como pensamos a realidade também merecem uma reavaliação crítica. 

  O livro Paulo Freire e Edgar Morin sobre saberes, paradigmas e educação: um diálogo epistemológico repensa as fragilidades do paradigma cartesiano, base da chamada razão instrumental e do modelo de relações de trabalho do capitalismo moderno, bem como apresenta as linhas de pensamento, tanto clássicas quanto emergentes, que propõem a sua superação. E dentro desse quadro de propostas críticas de superação à razão instrumental mecanicista, expomos, como exemplos coerentes e de efetiva práxis, as ideias de Paulo Freire e Edgar Morin, ambas desafiadoras da visão reducionista ainda persistente nestes dias conturbados em nosso país e em toda a civilização dita industrial.

Detalhes do livro

  • Capa comum: 335 páginas
  • Editora: Appris; Edição: 1ªª (29 de abril de 2020)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 6555230401
  • ISBN-13: 978-6555230406
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,8 x 2 cm
  • Peso de envio: 522 g

terça-feira, 11 de junho de 2019

Lista de Livros de Doney Stinguel: Filosofia da Mente, de Walter Menon



"Ainda que a mente dependa do corpo, não é parte do corpo nem constituída pelo corpo, que de fato é um ente composto de partes que não se identificam com o corpo e tampouco com a mente."



Seleção de Doney

Lista de LivrosFilosofia da Mente, de Walter Menon

Editora: InterSaberes
ISBN: 978-85-5972-040-2
Opinião: bom
Páginas: 280

 “Mentes têm, necessariamente, corpos. Sem os entes ou substâncias materiais complexas que são nossos corpos, não haveria nossas mentes. Porém, ao nos referirmos a nós mesmos em uma conversação, não apontamos para nosso corpo ou para parte de nosso corpo. Ainda que a mente dependa do corpo, não é parte do corpo nem constituída pelo corpo, que de fato é um ente composto de partes que não se identificam com o corpo e tampouco com a mente. O cérebro de Pedro não é Pedro e, embora Pedro compartilhe algumas propriedades com seu corpo, como altura e peso, essas propriedades não definem Pedro. Quando Pedro se utiliza do pronome eu em uma conversação para se referir a ele próprio, ao que, exatamente, ele está fazendo referência? O que é esse “eu” que Pedro é? Seria uma substância indivisível, sem extensão, como queria Descartes? Isso é uma substância simples? Se esse não é o caso, do que seria composta a mente?
Tendo em vista que a mente de alguém não é seu corpo nem mesmo uma parte do corpo, podemos afirmar que algumas partes do corpo, evidentemente, não pertencem à mente daquela pessoa, ou seja, não compõem sua mente. No entanto, isso não elimina a hipótese de que a mente seja uma substância composta. Pode não ser composta de substâncias simples materiais, entretanto, nada impede de entendermos a mente como um composto de estados e estruturas psicológicas.
Temos faculdades cognitivas, de percepção, de imaginação; temos conceitos de todo tipo e nossa mente realiza funções como calcular, elaborar pensamentos, memorizar acontecimentos. Todavia, do fato de que podemos falar de faculdades, conceitos etc. como propriedades da mente, não se deduz que essas propriedades sejam partes da mente, componentes que, somados, constituem a mente. Pensar uma mente em particular sem qualquer uma dessas faculdades é muito parecido com pensarmos na casa de blocos de montar sem algumas peças. Conforme subtraímos as peças, a casa paulatinamente perde sua funcionalidade até desaparecer, o mesmo ocorrendo com a mente quando perde suas faculdades. A ênfase aqui, portanto, é sobre a relação entre propriedades e função. Talvez falar em faculdades da mente seja apenas outra forma de nos referirmos à sua organização funcional, e não exatamente a propriedades ou partes constitutivas da mente entendida como um ente ou substância.
Afirmamos anteriormente que, ao associarmos a noção de mente à noção de “eu”, torna-se claro que este compartilha de certas partes do corpo. Quando digo que tenho 1,75 m de altura, refiro-me a uma característica minha, ou seja, a mim, ou a meu “eu”, por meio de uma medida do meu corpo. Mas esse tipo de propriedade que o “eu” compartilha com o corpo não contradiz o fato de que a mente é uma substância simples, isto é, indivisível quanto à sua natureza. Altura ou volume não são componentes da mente ou de um ente complexo, que é o corpo, no mesmo sentido que um olho é um componente. Os pensamentos e sentimentos de uma pessoa qualquer não são pensamentos do seu corpo nem mesmo de seu cérebro, isto é, não compõem seu cérebro.
Por fim, mentes, segundo essa concepção, além de possuírem, é claro, propriedades mentais, também possuem propriedades materiais, mas não se reduzem aos corpos nos quais residem tais propriedades materiais.
Se, por um lado, a ideia de interação entre mente e corpo encontra-se no centro dessa proposta teórica, por outro, entender o modo como ocorre essa interação continua problemático. De que maneira a mente, que não é idêntica ao corpo e tampouco a uma qualquer parte sua, age sobre ele? Desejo pegar um objeto, decido, então, estender o braço para pegá-lo e, efetivamente, meu braço se movimenta em direção ao objeto. Saber como isso é possível permanece em aberto, basta lembrarmos que, para o sistema da física contemporânea, eventos físicos têm necessariamente causas físicas e, portanto, a mente não é contemplada como capaz de causar algo no mundo físico. Outra dificuldade que se apresenta é quanto à relação linear e direta de causalidade que o dualismo defende. Pensar que um estado mental causa uma ação corporal, por exemplo, incorre em certos absurdos quando pensamos na cadeia causal de maneira retrospectiva, ou seja, ao inverso.”
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“O behaviorismo é a tese segundo a qual atribuímos um estado mental correspondente a um comportamento observado. Cada estado mental é, consequentemente, relacionado e reduzido a uma disposição comportamental. Vale ressaltar que o estado mental não causa um comportamento, ele é esse comportamento. Assim como no empirismo, para o behaviorismo não há conhecimento produzido pela mente, apenas aqueles comportamentos observados, que são chamados de estados mentais. Todo objeto existente é material.
Uma objeção à tese behaviorista é a de que um comportamento nem sempre é suficiente para descrever um estado mental, pois um comportamento pode ser fingido, imitado, dissimulado ou até mesmo mascarado, suprimido. A teoria limita-se a tratar como estado mental aquilo que é rigorosamente observado, sem ter o poder de saber com absoluta certeza qual é o estado mental que outra mente, que não a do observador, experimenta. As disposições comportamentais não são também necessárias para que exista um estado mental qualquer, como mostrado no argumento de Putnam (Philosophical Papers, 1979). Posso sentir algo sem demonstrar em comportamento físico que sinto esse algo; dessa maneira, nem todo enunciado formulado mentalmente pode ter sua comprovação verificada experimentalmente.”
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“Para Ryle, falar em estados mentais é falar de uma entidade que não possui significado, é falar de algo que não possui referência. Portanto, poderíamos falar apenas em comportamentos. O que ele procura mostrar é a recorrente confusão linguística que fazemos quando, ao falarmos de estados mentais, atribuímos a esse estado um comportamento no mundo, como se estivéssemos nos referindo a um ente no mundo, o que não é o caso. Incorre-se no mesmo erro se pensarmos poder haver mentes independentes dos comportamentos observados das pessoas. Mentes e corpos não existem da mesma maneira, não são da mesma categoria de entes, como é afirmado pelo dualismo cartesiano, por exemplo.”
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“Primeiramente, discordando do dualismo apresentado por Descartes, nas tendências contemporâneas, a mente não existe sem um corpo, sem estar associada a uma materialidade. Não quer dizer, com isso, que a mente seja necessariamente material, mas que, sem esse suporte, ela não existe. Também não quer dizer que ela seja o próprio corpo, embora dependa dele para existir, nem constituída pelo corpo, como se este fosse uma parte dela. Embora a mente seja constituída de propriedades essenciais que não são propriedades do corpo, tais como os conceitos, as ideias etc., não pode ser inferido que a mente seja uma composição dessas propriedades. De todo modo, nas teses dualistas, a mente resguarda sempre uma unidade que não se resume à matéria. Disso decorre o problema da interação, da causalidade entre as duas substâncias: mente e corpo. O dualismo não procura reduzir tudo a uma explicação causal física, como se os eventos mentais fossem resultados diretos dos efeitos físico-químicos produzidos pelo cérebro.”
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“O funcionalismo considera os estados mentais não mais como substâncias, pelo que são, pelo caráter ontológico, mas pela função que desempenham, por aquilo que realizam, pelo caráter funcional. A mente humana, por exemplo, é considerada como o conjunto de funções exercidas pelo cérebro, embora nada impeça, ao menos teoricamente, que tais funções sejam realizadas por algo que não seja o cérebro humano. Como leva em consideração as funções exercidas por qualquer sistema material, o funcionalismo é, nesse sentido, um tipo de materialismo. O que importa é somente o nexo relacional entre os inputs e os outputs, a função exercida por eles, e não do que eles são constituídos.”
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“Então, o que faz que um ser seja inteligente? Basicamente o fato de que ele divide o ambiente em que vive em várias partes, vários subconjuntos, mais simples de serem conhecidos e controlados, e utiliza esse conhecimento para planejar e decidir suas ações. As sensações captadas e processadas em informações acerca do mundo exterior constituem a primeira etapa do conhecimento estruturado. A capacidade de representar de maneira adaptativa o ambiente decorre de um segundo momento no processo cognitivo, no qual a combinação de conhecimentos produz uma ação com vistas a agir sobre o ambiente. Essa capacidade pressupõe a aprendizagem de novas informações que são arquivadas com o objetivo de modificar conhecimentos adquiridos, percepções e ações; a eficiência no processo de aprender as informações depende da circulação destas entre os indivíduos, ou seja, depende da comunicação.
No ser humano, essa comunicação se processa por meio da linguagem verbal, sobretudo. Isso confere à nossa espécie uma condição ímpar em relação à capacidade de estocar, representar e enviar informações. Nesse sentido, cognição é um processo que envolve desde a percepção, passando pela organização conceitual, raciocínio, aprendizagem e ação. Em todas essas etapas, encontra-se a troca de informação. Naturalmente, o sistema nervoso central é o ator principal desse processo e nisso reside um dos principais temas de pesquisa e debate no âmbito das ciências cognitivas, tendo em vista que a aposta na IA depende fundamentalmente de que a definição de mente esteja subsumida em grande medida à capacidade de se entender os processos cognitivos e, ainda, de entendê-los como desvinculados da parte material de seus mecanismos cerebrais.”
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“Em suma, a filosofia da mente, embora tenha por horizonte fornecer respostas aos problemas que envolvem a relação entre mente e corpo, não tem em seu escopo respostas conclusivas. Ela permanece um campo de exploração em constante dependência dos progressos da neurociência e das ciências cognitivas, assim como das teorias evolucionistas e de outras áreas das ciências exatas. O papel da filosofia da mente é o de problematizar soluções que parecem definitivas e ajustar os dados científicos aos pressupostos conceituais filosóficos, e estes a argumentos lógicos. A ficção científica pode sonhar com robôs humanoides, mas a filosofia não pode se dar ao luxo de subestimar os problemas lógico-conceituais envolvidos nesse projeto.”

Fonte: Jornal GGN

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A sociologia não é uma terra plana como nas cabeças de olavistas e bolsonaristas, por Lúcio Verçoza



Texto escrito a partir das declarações do governo Bolsonaro sobre “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia”.


A sociologia não é uma terra plana[1]

por Lúcio Verçoza

Se olharmos para o horizonte, a olho nu, a terra parece plana. No entanto, ela não é. A sociologia, para alguém muito distante dela, pode parecer apenas uma oficina de ideias revolucionárias, mas está longe disso. Engana-se quem pensa que Marx é o autor mais ensinado pelos sociólogos contemporâneos. O pensamento sociológico é tão plural e diverso quanto o seu objeto de estudo. Nos cursos de sociologia no Brasil, são lidos desde o positivista Auguste Comte (autor da célebre frase “Ordem e progresso”, costurada na bandeira brasileira), ao liberal Max Weber; do conservador Émile Durkheim, à pós-estruturalista Judith Butler; do funcionalismo de Parsons, ao interacionismo simbólico da Escola de Chicago. Se a sociologia abriga tão amplas matizes do pensamento social e político, por que a tratar como inimiga? Por que ameaçar fechar seus cursos?
A questão é que mesmo com tão variadas e divergentes perspectivas teóricas e metodológicas no interior da sociologia, existe algo comum entre os grandes pensadores desse campo do conhecimento: todos buscam, ainda que por diferentes caminhos, explicar a sociedade a partir da própria realidade social – e isso implica desmistificar e desnaturalizar as relações sociais. É por essa razão que até mesmo a sociologia conservadora pode ser considerada perigosa em um contexto de disseminação de explicações que carecem de o mínimo de lastro na realidade.
Isso não é bem uma novidade. Roberto Schwarz demonstrou como a leitura de Adam Smith e David Ricardo poderia ser incômoda e constrangedora para os autodeclarados liberais no Brasil do século XIX, pois muitos desses “liberais” eram a favor do livre mercado, mas contra a abolição da escravatura. O mesmo é válido para o Brasil de hoje. Até mesmo Casa grande e senzala, do conservador Gilberto Freire, corre o risco de ser rotulada de “marxismo cultural”, simplesmente por se contrapor a eugenia, ou por reconhecer o peso do sistema patriarcal e da monocultura latifundiária na formação da sociedade brasileira. Vivemos realmente tempos estranhos.
O que dizer, então, sobre uma sociologia que encontra na superexploração da força de trabalho a chave para a compreensão do padrão de reprodução do capitalismo periférico (Ruy Mauro Marini)? Ou que analisa o relativamente recente processo de redemocratização brasileira como uma “transição transada”, marcada pela ausência de rupturas significativas e de punição para os agentes da ditadura (Florestan Fernandes)? O que falar sobre uma sociologia que questiona por que formas legitimadas de dilapidação e rapina do orçamento e do patrimônio público não são analisadas como sinônimo de corrupção (Jessé Souza)? A sociologia pode mesmo ser incômoda. Em razão disso, talvez ela seja tão combatida pelo atual governo. Até mesmo a mais dócil das sociologias é vista como suspeita.
[1] Texto escrito a partir das declarações do governo Bolsonaro sobre “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia”.
Lúcio Verçoza – Sociólogo, professor universitário e autor do livro Os “homens-cangurus” dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde (Edufal-Fapesp, 2018).