Mostrando postagens com marcador Bolsonaro e FFAA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bolsonaro e FFAA. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de março de 2026

Forças Armadas enfrentam rejeição recorde após intromissão explícita (golpista) na política, mostra pesquisa

 

Do ICL:

Levantamento indica desconfiança e expõe impacto da politização, crises recentes e envolvimento de militares em investigações




Por Cleber Lourenço

As Forças Armadas registram um dos piores níveis de confiança da série recente ao aparecerem com rejeição majoritária em levantamento do instituto AtlasIntel. O dado consolida um processo de desgaste que se intensificou nos últimos anos e reposiciona a instituição no imaginário público brasileiro.

Segundo a pesquisa, 60 por cento dos entrevistados afirmam não confiar nas Forças Armadas, enquanto 27 por cento dizem confiar. Outros 13 por cento não souberam responder. A diferença entre confiança e desconfiança indica um cenário que vai além da polarização e aponta para uma perda mais estrutural de legitimidade.

Historicamente associadas à disciplina, hierarquia e estabilidade, as Forças Armadas operavam com níveis mais elevados de confiança social. O novo patamar revela uma ruptura nessa percepção e coincide com um período de forte exposição política e institucional.

Nos últimos anos, os militares passaram a figurar com frequência no noticiário por motivos que extrapolam sua atuação tradicional. Investigações, questionamentos judiciais, falhas operacionais e episódios envolvendo oficiais contribuíram para deslocar a imagem da instituição de um campo técnico para o centro da disputa política.

Esse processo se intensificou durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando militares passaram a ocupar cargos estratégicos na administração federal. A presença ampliada no poder civil rompeu a barreira que historicamente separava a instituição da política.

Ao assumir funções de governo, os militares passaram a ser avaliados sob os mesmos critérios aplicados a agentes políticos. O desgaste da gestão acabou sendo absorvido pela imagem das Forças Armadas, que deixaram de ser percebidas como um ator neutro.

Além da politização, episódios recentes agravaram o cenário. Os desdobramentos dos atos de 8 de janeiro de 2023 e as investigações sobre a tentativa de ruptura institucional expuseram a participação de militares em diferentes níveis. A divulgação de provas, que incluem áudios, mensagens e planos atribuídos a envolvidos, ampliou o impacto sobre a opinião pública.

Na avaliação do pesquisador Ananias Oliveira, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Campina Grande e estudioso da participação dos militares na política, o resultado reflete um desgaste acumulado que atinge a instituição em múltiplas frentes.

“Há uma frustração de setores mais radicalizados que esperavam uma ruptura institucional, mas isso não explica sozinho o resultado. O outro fator é o desgaste pela quantidade de militares envolvidos e condenados por participação na tentativa de golpe de 8 de janeiro”, afirmou.

Segundo ele, a exposição dos fatos ao longo dos processos judiciais intensificou a deterioração da imagem.

“A divulgação de provas, como áudios e mensagens, e a própria condenação desses envolvidos ampliam o desgaste. Isso atinge diretamente a percepção pública sobre a instituição”, disse.

Para Oliveira, o cenário atual revela um duplo movimento de perda de apoio.

“Você tem um Exército desgastado dos dois lados. Há frustração de quem esperava uma ruptura e, ao mesmo tempo, rejeição pela associação dos militares a uma trama golpista”, afirmou.

Ele ressalta, no entanto, que o resultado deve ser acompanhado em outras pesquisas para verificar se o patamar se mantém.

“Essa medição apresenta um nível de confiança mais baixo do que o observado em outros levantamentos. É importante acompanhar novos dados e análises qualitativas para entender melhor esse movimento”, disse.

O pesquisador Jorge Rodrigues, do Instituto Tricontinental e do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional, aponta que o impacto sobre a imagem atinge um dos pilares mais sensíveis das Forças Armadas.

“As Forças Armadas brasileiras são muito zelosas de sua imagem. É ali onde dói”, afirmou.

Segundo ele, o desgaste atual é resultado de um acúmulo de exposições negativas ao longo dos últimos anos, especialmente a partir da aproximação com o governo Bolsonaro.

“O ônus de imagem daquele período foi respondido com tentativas de distanciamento entre instituição e governo, mas esse movimento não se sustentou na prática”, disse.

Rodrigues avalia que a sequência de crises, investigações e casos envolvendo militares contribuiu para romper uma narrativa historicamente construída.

“Casos de corrupção, como o de um coronel preso por desvio em contratos, e o julgamento de oficiais pelo Supremo expõem a instituição e deixam uma mácula. A ideia de uma força moralmente superior começa a ruir”, afirmou.

Para o pesquisador, a queda na confiança também abre espaço para um debate mais amplo sobre o papel e a estrutura das Forças Armadas.

“Há uma janela de oportunidade para discutir o desenho das Forças Armadas, a formação dos militares e a cultura política nos quartéis. Hoje, temos instituições pouco afeitas à democracia, além de caras e fora do controle civil”, disse.

Ele defende que o tema seja tratado de forma mais ampla no debate público.

“É necessário avançar em uma reforma com participação social. Defesa é um tema importante demais para ficar restrito aos próprios militares”, afirmou.

Rodrigues também chama atenção para um contraste relevante nos dados. Enquanto a confiança nas Forças Armadas recua, outras instituições armadas mantêm níveis mais elevados de aprovação.

“Há forte confiança em instituições como Polícia Federal, Civil e Militar. Isso indica que a população ainda valoriza forças de ordem, o que dialoga com uma cultura política que tende a apoiar respostas mais duras para problemas complexos”, disse.

Segundo ele, esse cenário tende a influenciar o debate político nos próximos meses.

“A segurança pública deve ganhar centralidade nas eleições, e existe o risco de que o debate seja capturado por soluções simplistas. É fundamental que o campo democrático apresente propostas baseadas em evidências”, afirmou.

Os dados indicam que a queda de confiança nas Forças Armadas não se limita a um movimento conjuntural, mas reflete um desgaste acumulado que altera a posição da instituição no cenário institucional brasileiro.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Condenar Bolsonaro não basta: julgamento expõe urgência de reformar as Forças Armadas (pela histórica "mentalidade" golpista e tendência extremismo direita)

 

Sem mudanças estruturais, tutela militar continuará sendo ameaça permanente à democracia

Do ICL Notícias:

POLÍTICA

Condenar Bolsonaro não basta: julgamento expõe urgência de reformar as Forças Armadas


Por Cleber Lourenço

O julgamento da tentativa de golpe de 2022 é histórico, mas corre o risco de se transformar em apenas um ritual de punição simbólica se o país não encarar a raiz do problema: as Forças Armadas. Não basta condenar Jair Bolsonaro e um punhado de generais cúmplices. Sem mudanças profundas, o Brasil seguirá refém de uma instituição que insiste em se enxergar como tutora da República, posicionando-se acima do povo e da Constituição. O que se vê agora no Supremo é só a face mais visível de um conflito que atravessa nossa história recente: a insistência da farda em ocupar o espaço da política.

É preciso reconhecer que a origem desse problema está na formação dos militares. As academias ainda tratam 1964 como ato redentor, não como ruptura democrática. Oficiais seguem sendo formados em um ambiente onde memoriais e celebrações à ditadura se mantêm como referência. Isso equivale a ensinar que a Constituição é descartável e que a democracia é um adereço que pode ser suspenso conforme conveniências.

Enquanto o golpe de 64 continuar celebrado como marco positivo, a semente da insubordinação seguirá plantada em cada nova turma de oficiais. Quem serve à República não pode venerar a ditadura — esse é o primeiro passo de uma mudança real.

A naturalização da intervenção militar no poder civil precisa ser atacada de frente. Não é apenas questão de símbolos, mas também de práticas concretas. Um exemplo gritante é a sala de assessoria parlamentar dos militares dentro do Congresso Nacional: um espaço oficial de lobby, sustentado com recursos públicos, dedicado a pressionar deputados e senadores.

Trata-se de uma aberração democrática. Não existe “sala do STF” no Congresso, nem um “gabinete do Itamaraty” ali dentro. Por que a farda, que deveria estar subordinada ao poder civil, deve desfrutar de tal privilégio? Esse tipo de anomalia institucional cristaliza a ideia de que os militares não precisam seguir as mesmas regras que todos os outros órgãos do Estado.

Também é urgente desmontar a ideia de que os militares são uma casta especial, intocável e com direitos acima do cidadão comum. Isso passa por uma reforma administrativa que corte privilégios injustificáveis e reveja mecanismos de poder que alimentam a impunidade.

A Justiça Militar é exemplo central: um tribunal paralelo, onde militares julgam militares, perpetuando a lógica corporativa que os protege. É um sistema que garante autopreservação em vez de responsabilização, funcionando como um escudo institucional contra a sociedade civil. Não há democracia madura que aceite esse tipo de tribunal de exceção. Se queremos República plena, é preciso abolir a Justiça Militar.

Mais do que isso, é necessário mexer em estruturas de carreira, rever funções que hoje se confundem com a política e eliminar mecanismos de tutela sobre instituições civis. As Forças Armadas precisam ser recolocadas em seu papel constitucional: defesa do território e da soberania nacional, não gestão de ministérios, fiscalização de urnas ou emissão de pareceres sobre a vida política do país.

O Brasil não pode continuar normalizando a ideia de que um general tem direito a opinar sobre decisões de governo, sobre rumos econômicos ou sobre o funcionamento da Justiça.

O momento é decisivo. O julgamento da tentativa de golpe pode ser um marco de inflexão, mas apenas se for seguido de uma agenda clara de reformas. Condenar Bolsonaro e seus generais mostra que há limites institucionais, mas não resolve a presença de centenas de outros oficiais que compartilham da mesma visão autoritária e ainda ocupam cargos estratégicos.

É preciso cortar o mal pela raiz, e isso só será possível com reformas que ataquem a formação, desmontem privilégios e retirem as Forças Armadas do papel de casta política.

O Brasil carrega há séculos o fardo e a ameaça da tutela militar. A cada crise, ressurge o fantasma da quartelada. A condenação de Bolsonaro pode ser um ponto de virada, mas, sem medidas estruturais, será apenas mais um capítulo de uma longa novela de ameaças e intervenções. O recado precisa ser inequívoco: nunca mais. Nunca mais quartéis ditando o rumo da política, nunca mais generais acima do povo, nunca mais a farda confundida com soberania.

Ou a democracia enquadra as Forças Armadas, ou continuará sendo refém delas.