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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Sobrevivendo a Bolsonaro, capítulo 1: a luta contra a normalização do ódio, por Renato Bazan


  "Não há final feliz possível para o que está adiante. E é em meio a esses desespero inicial que você deve pensar qualquer análise da distopia adiante. Bolsonaro terá o controle das Forças Armadas e das Medidas Provisórias, e respeitar a democracia é respeitar esse poder. Mas não podemos ceder, em momento algum, à tentação da normalização de seus pensamentos preconceituosos."


Do GGN:




Sobrevivendo a Bolsonaro, capítulo 1: a luta contra a normalização
por Renato Bazan

Parece um livro de ficção mal escrito, mas é verdade - pouco mais de 24 horas atrás, o Brasil elegeu Jair Messias Bolsonaro como Presidente da República. Sinta o peso dessas palavras. O tsunami da virada foi quebrado pela muralha do antipetismo fanático, colocando o equivalente humano de um trem de carga sem freios no Palácio do Planalto.
Não há final feliz possível para o que está adiante. E é em meio a esses desespero inicial que você deve pensar qualquer análise da distopia adiante. Bolsonaro terá o controle das Forças Armadas e das Medidas Provisórias, e respeitar a democracia é respeitar esse poder. Mas não podemos ceder, em momento algum, à tentação da normalização de seus pensamentos preconceituosos.
As duas entrevistas iniciais do presidente-eleito, para a Record e para o Jornal Nacional, foram tão mortificantes quanto seu script de campanha. Na primeira, Bolsonaro prometeu incendiar o ambiente rural brasileiro com armas de fogo e licença para matar (o cheiroso e bem penteado “excludente de ilicitude”, em suas próprias palavras). Na segunda, voltou a falar do inexistente “kit gay” e do jamais realizado “congresso GLBT infantil”.
É exatamente o roteiro mentiroso que o premiou com a faixa presidencial.
Você, que quer lutar para impedir o triunfo do fascismo no Brasil, precisa primeiro aceitar que este será o nosso presidente agora: um homem que cria monstros de papelão para se engrandecer, e que muitas vezes tentará te vestir com esses recortes. "Dar a chance de Bolsonaro fazer a coisa certa", como tem dito parte da imprensa, não significa aceitar essa técnica de manipulação barata.
Mesmo na mais generosa das expectativas, não podemos permitir que um presidente vá ao ar disseminar fake news já desbaratadas, e que branda a palavra VERDADE enquanto metralha a lógica mais básica para receber aplausos. Temos que chamar um fato desses pelo que ele é: ANORMAL. Nosso próximo presidente é uma caricatura política que ganhou vida no WhatsApp e saltou da tela do celular.
O primeiro dever da resistência democrática será apontar as mentiras do presidente Bolsonaro assim que elas deixarem os seus tortos lábios, fazendo um fact-check implacável, minuto-a-minuto. Será a preservação da sanidade. Do outro lado, seus seguidores ainda em transe insistirão em dizer que suas falas estão fora de contexto, ou que é "da boca pra fora", ou que ele não é responsável pelo que diz.
Isso vai durar alguns meses. Tenha paciência e continue apontando as mentiras.
Com o tempo, o seguinte dilema será colocado para a população: ou o presidente do Brasil é um monstro que pretende levar todos os opositores para a cadeia ou o exílio, ou ele é um frouxo mentiroso, cuja palavra não tem valor, e que não terá a liderança necessária para tirar o país da crise. As duas possibilidades são igualmente ruins, mas abrem a porta para a retomada do diálogo com quem tem projeto para o Brasil.
Essa retomada jamais acontecerá se alimentarmos com complacência o disse-não-disse de Bolsonaro. Como não existe uma linha visível entre provocações e ameaças reais do presidente-eleito, o refúgio da sanidade é acreditarmos em cada coisa que ele diz pela sua literalidade. Pelas primeiras falas de Paulo Guedes à imprensa, o itinerário aponta para uma eletrocução neoliberal sem precedentes na história brasileira, que fará o governo Temer parecer um choque numa tomada de 110 volts.
Bolsonaro se tornou presidente em cima de uma campanha de mentira sistemática, apoiada em preconceitos e ressentimentos sociais, aproveitando o vácuo de um golpe jurídico-parlamentar mal calculado. Agora que está no poder, não há qualquer motivo para acreditar que não continuará usando suas estratégias de escândalo.
Quanto mais ele xingar, quanto mais divisiva for sua imagem, menos a população vai perceber a máquina federal moendo seus direitos. Cada nova declaração abrirá um precedente para uma violência um pouco maior, deixando seus oponentes mais atordoados.
O fascínio mórbido causado por Bolsonaro traz uma tentação específica: a de acharmos que qualquer violência é normal, que política se faz na base do grito. Questionar coisas óbvias e negar descaradamente a realidade não são erros de Bolsonaro, são ferramentas de trabalho.
O primeiro passo no combate ao seu governo será entender que a mentira é parte central de sua comunicação com o povo, a um nível tão endêmico que o banimento em massa de fake news causou uma queda de quase 4% em suas intenções de voto na última semana.
Qual é a solução, portanto? Em primeiro lugar, permaneça escandalizado. Não se isole do mundo. Estude ainda mais, para ser capaz de detectar a mentira quando ela aparecer. Busque o olhar da imprensa internacional, livre de interesses comerciais imediatos.
A imprensa brasileira não será capaz de fazer a crítica necessária - nunca foi, e não será agora, corajosa ou hábil o suficiente para enfrentar a estupidez galopante de Bolsonaro. Quem duvida disso, que assista William Bonner se desdobrar em três para corrigir a mentira óbvia contra a Folha de S.Paulo na última entrevista.
Mais importante de tudo: transforme sua militância de Facebook em atos reais de engajamento. Procure qualquer movimento social cuja mensagem te represente e participe, pois este é o pior momento para se calar. Fique perto da realidade, para que Bolsonaro não consiga te convencer que o mundo está como sempre foi, e foi você quem virou de ponta-cabeça.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Xadrez do passaralho dos tucanos, por Luis Nassif



"A lógica do golpe é simples e objetiva. Há dois focos centrais. O primeiro, o aprofundamento do desmonte do Estado brasileiro, com as reformas liberais, privatização, destruição do precário Estado de bem-estar construído na última década. O segundo, a garantia de um presidente de direita nas próximas eleições - ou, na ausência de um candidato competitivo, até mesmo o adiamento das eleições. Esses são os fios condutores para entender toda a lógica da turma do impeachment." - Luis Nassif

Do Jornal GGN:

Peça 1 – a lógica do golpe


A lógica do golpe é simples e objetiva.
Há dois focos centrais.
O primeiro, o aprofundamento do desmonte do Estado brasileiro, com as reformas liberais, privatização, destruição do precário Estado de bem-estar construído na última década.
O segundo, a garantia de um presidente de direita nas próximas eleições - ou, na ausência de um candidato competitivo, até mesmo o adiamento das eleições.
Esses são os fios condutores para entender toda a lógica da turma do impeachment.

Peça 2 – o mercado de opinião


Tudo isso se dá no que se convencionou chamar de mercado. Não se trata apenas do mercado em si, mas de todo um sistema de opinião que engloba não apenas a estrutura de poder, mas a gendarmeria.
No topo, Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), a Procuradora Geral da República, os grupos de mídia, órgãos de controle de uma maneira geral. Na base, juízes de 1ª instância, procuradores, Polícia Federal, Polícia Militar etc.
Quando determinada questão ameaça os objetivos finais, acende-se uma luz amarela. O clima fica tenso, as autoridades envolvidas começam a receber sinais tácitos indicando que ali não se mexe. Dado o grau de pusilanimidade das organizações burocráticas e suas lideranças, não há a necessidade de ordens diretas, ameaças ou outras formas de pressão. São mais disciplinados que jornalistas da Globonews.
Quem sai da linha, é pressionado por seu próprio meio, colegas ou familiares. Essa sincronização do golpe mereceria um belo estudo acadêmico, sobre a força das ideologias na articulação de movimentos, como o impeachment, mesmo sem haver um cérebro condutor. Aliás, o único cérebro mofa em um presídio de Curitiba.

Peça 3 – os que irão morrer


No início do golpe, Aécio Neves era peça central; o governador Geraldo Alckmin, elemento secundário. Qualquer envolvimento de Aécio enfraqueceria o principal mote do golpe, que era o impeachment de Dilma.
O Procurador Geral da República Rodrigo Janot recomendou seu não indiciamento, apesar de evidências muito mais fortes do que aquelas, por exemplo, que envolviam o senador petista Lindbergh Farias, denunciado.
Mesmo em posição secundária, Geraldo Alckmin também foi poupado, e ajudou a salvar Dilma Rousseff da tentativa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comandado por Gilmar Mendes, de cassar seu mandato logo após as eleições. Na última hora descobriu-se que que Alckmin poderia ser atingido por uma das acusações que se lançava contra Dilma.
Na medida em que a Lava Jato foi avançando, foram aparecendo mais e mais evidências contra Aécio.
Criou-se um ping-pong entre dois adversários mortais, mas irmanados na defesa de Aécio: Janot e Gilmar Mendes. OS dois revezavam-se nos pedidos de prorrogação do prazo de investigação de Aécio. Mesmo assim, a cada indício novo e a cada nova postergação das denúncias o capital político de Aécio ia se esvaindo.
Quando ocorreu o episódio JBS, Aécio dançou por dois motivos. Pelo seu excesso de ambição, foi considerado um peru gordo por Joesley Baptista, nas negociações com a PGR. Quando Janot recebeu o pacote, para atirar em Temer não poderia desconsiderar os grampos em Aécio.
A partir dali, Aécio virou pato manco.  Há uma boa probabilidade de que, na próxima semana, o STF autorize a denúncia criminal contra ele, além de mandar para a prisão Eduardo Azeredo, do mensalão tucano, à esta altura uma decisão vazia de significado político.
Principalmente porque a blindagem dos tucanos ficou ostensiva demais para ser aceita até por um país e uma mídia acostumados a toda sorte de hipocrisias.
Dentro dessa lógica, José Serra, Aloysio Nunes e Cássio Cunha Lima poderiam ser liquidados tranquilamente, sem atrapalhar os objetivos finais do golpe. Estão sendo poupados porque o algoritmo viciado do STF jogou seus processos no colo de Gilmar, e Gilmar não é desses de deixar companheiros feridos no campo de batalha. Apenas por isso.

Peça 4 – o fator Alckmin


Embora não desperte nenhum entusiasmo, nem entre os seus próximos, Alckmin ainda é peça chave no jogo político, como único candidato da direita com alguma possibilidade.
Essa é a razão principal da PGR ter remetido seu caso para ser julgado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, ao invés de remeter para o grupo da Lava Jato. E o autor da façanha foi o subprocurador Luciano Maia, com bela ficha no Ministério Público Federal, e, até assumir o cargo de vice-procurador, considerado corajoso e de posições independentes.
Mas não adianta. A lógica do poder brasiliense é imbatível. Por isso, um caso em que Alckmin, através de seu cunhado, recebe R$ 10 milhões da Odebrecht, que têm obras contratos grandes com o governo de São Paulo, foi transformado em um mero caso de irregularidade no financiamento de campanha. O pagamento foi por fora.
Apesar de federal ,o TRE de São Paulo é majoritariamente composto por juízes e desembargadores paulistas, historicamente alinhados com o PSDB.
A decisão de Maia – certamente endossada pela PGR – expôs de maneira nítida a parcialidade da nova PGR no jogo político.
Aliás, não bastassem essas trapalhadas, e o procurador-bufão Oscar Costa Filho, do MPF do Ceará, o mesmo que tenta todo ano anular o ENEM, intimou a Universidade federal do Ceará a retirar o nome “golpe” de um curso preparado por ela.
Às vezes tento convencer colegas que o MPF é mais que os Ailton Benedito – o de Goiás – ou  Oscar Costa “Enem” Filho, mas os fatos sempre me desmentem, como desmentiram quando supus em Raquel Dodge uma dimensão mais relevante do que a de Janot.

Peça 5 – os próximos passos


Não se imagine que o impacto da prisão de Lula vá refrear a marcha do fascismo.
As recentes votações do Supremo e as decisões da PGR comprovam que continuam a reboque da Lava Jato. E continuarão até a Lava Jato completar sua obra, de destruição final de Lula e de inviabilização do PT.
De qualquer modo, foram tantas as críticas que Dodge recebeu, até de jornalões, por sua benevolência contra Alckmin, que provavelmente deve ter-se dado conta de que foi mais realista que o rei, o que condicionará suas próximas ações. É possível que o país comece a assistir episódios inéditos de tucanos engaiolados.
Aliás, a análise política de autoridades do Judiciário, da PGR ao Supremo, mereceria estudos de Pavlov.
Depois de liquidado Lula, será fácil acabar com a operação. Bastará a mídia levantar a pauta proposta por Gilmar Mendes na última sessão do Supremo, sobre os indícios de corrupção, devido ao poder absoluto de que passaram a dispor.
PS – a ave da voto representa o Passaralho, figura mitológica que sobrevoa as redações nas vésperas das grandes demissões.