As origens da violência e da desigualdade entre as sentenças no Brasil são tão antigas quanto o próprio país. Ou melhor - ou seria pior? - dizendo: são anteriores ao próprio “descobrimento”. Neste devastador episódio, Eduardo Bueno reconta a história das punições desde as origens de Portugal, passando pelos primórdios da colônia e desembocando nos horrores indizíveis da escravidão, até chegar nos dias de hoje - um reflexo natural da nação desigual que a lei e a ordem ao invés de corrigirem só fizeram piorar, cavando o abismo no qual o Brasil ainda se encontra e no qual nem sempre se enxerga.
Ao louvar alta do dólar e fim da “festa
danada” das domésticas, Paulo Guedes expressa como nossa elite é
nostálgica da escravidão. Trabalhadores, sempre podados da “audácia” de
sonhar, são fadados a desculpar-se ou agradecer pela migalhas
Hoje
li e reli a frase dita por Paulo Guedes várias vezes. “O dólar
alto é bom. Empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa
danada”. Essa frase não saiu da minha cabeça o dia inteiro e tem
martelado até agora. Esse mal dito me embrulhou o estômago, me fez
lembrar de todas as realidades, da minha família, da minha cidade,
das vinte e quatro mil pessoas que têm tentando sobreviver nas ruas
da cidade de São Paulo e de toda essa miséria circundante e
escancarada que não para de crescer e que só não nos engole mais
porque estamos de novo em um ponto da história em que estamos
naturalizando a violência.
Quando
saímos de um lugar muito pobre e conseguimos ocupar algum espaço de
privilégio mínimo é sempre um processo difícil desde à projeção
à concretização de fato. Toda apropriação é acompanhada de um
sentimento esquisito de não-pertencimento e que se manifesta muitas
vezes como desconforto. Não somos ensinados a nos projetar na
Disney, nas universidades, nas atividades intelectuais, nos grandes
cargos ou ganhando grandes salários. Isso é um projeto de Brasil e
América Latina já antigo mas que ainda hoje persiste para cercear
qualquer possibilidade de voo, qualquer coisa que nos afaste da
superfície da terra. O mais difícil e dolorido de todo esse
processo é a projeção que exige um exercício de confiança e
imaginação que também nos foi recusado. Há o desejo. Claro.
Sempre houve e sempre haverá. Todo mundo que é pobre quer romper as
fronteiras da pobreza e a projeção é o início da dificuldade.
Você precisa forçar a vista para se projetar naquele lugar, se ver
ali realizando um sonho que aparentemente não foi feito para você.
E é difícil pois nos é ensinado a querer menos do que os outros e
a aceitar menos. Abre aspas: você
deve lutar pela xepa da feira e dizer que está recompensado.
O nosso desejo deve ser sempre limitado. E a palavra “menos” que
se traduz às vezes no desejo “menos” vem dessa imposição da
classe média de não aceitar de forma alguma que a gente queira mais
ou seja mais pelo simples fato de odiar a palavra pobre, a sua
origem, o cheiro, as roupas, as falas, o corpo e tudo que constrói o
imaginário e a concretude do que é ser realmente pobre.
Esse ódio ao pobre que não se dilui no decorrer da história nada
mais é que a atualização do ódio que os senhores brancos e ricos sentiam
pelos seus escravos. As pessoas não odeiam o partido dos trabalhadores
porque é corrupto. Não foi por ser corrupta que a Dilma caiu, não foi
por ser corrupto que o Lula foi preso. Paulo Guedes, Bolsonaro e toda a
classe que esses homens representam odeiam é a possibilidade do pobre
romper as fronteiras que já foram dadas por eles. Odeiam o nosso sonho.
Odeiam a diminuição das distâncias entre eles e nós e sobretudo a
ascensão da classe trabalhadora.
Essa classe que eles sentem nojo. Só
nos querem e nos aceitam nos lugares mais subterrâneos possíveis. Da
cinematografia da estética da fome de Glauber Rocha à Anna Muylaerte no
filme Que horas ela volta a gente percebe que a nossa fome é
que o alimenta o gozo dessa classe. Quanto mais miserável somos ou
estamos mais essa gente se regozija, num prazer quase sexual e
psicopata. Não cabe a esse corpo que nasce, cresce e se desenvolve nos
“subúrbios” brasileiros e que conquistou direitos básicos nos últimos
anos possuir o mesmo nível – ou um nível superior – de instrução,
inteligência ou de autoestima que eles. Eles constroem um mundo que não
podemos acessar e por isso precisamos estar sempre saciando essa
nostalgia da escravidão. É preciso possuir aquele ar acuado – sem
nenhuma poesia – de quem sabe o seu lugar de inferioridade. É preciso
abaixar a cabeça, sorrir, e estar sempre pedindo desculpas ou
agradecendo por tudo. É preciso ter a consciência de sua mediocridade
histórica. Se não, nada feito. Querem destruir essa ideia tão recente de
que todo mundo pode se comportar feito gente e desejar coisas de gente.
O governo Bolsonaro é esse produtor fatal de uma legião de corpos que
não pode e nem deve mais sentir desejos. Não sem um dia sentir uma
saudade doída dos tempos que éramos tratados como gente.
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos
Antropóloga, autora do livro 'Sobre o autoritarismo brasileiro', diz que o vazamento das mensagens de The Intercept Brasil mostra o Judiciário atuando em causas próprias
A historiadora e antropóloga Lilia Schwarzc, em seu escritório.RENATO PARADA/DIVULGAÇÃO
O brasileiro é, antes de tudo, um autoritário. Depois de séculos escondendo-se por trás da ideia de de povo aberto, diverso, tolerante, pacífico e acolhedor —o conceito de "homem cordial", cunhado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em 1936, em Raízes do Brasil—, ele tirou a máscara da cordialidade e revelou-se abertamente intolerante. Essa é a tese do recém-lançado Sobre o Autoritarismo Brasileiro (Companhia das Letras), livro da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz. Em um exercício de ir ao passado para pensar o presente, a autora destrincha as feições do autoritarismo à brasileira, que nasce na escravidão e nas mazelas do racismo e passa pelo patrimonialismo, violência, corrupção e pela desigualdade de gênero, resultando na polarização atual.
Schwarcz observa o autoritarismo presente já no nascimento da República Brasileira. "Os dois primeiros presidentes da nossa história foram militares que governaram em estado de sítio", explica em seu escritório. A autora defende que essa cultura autoritária ganhou novos tons desde as manifestações de 2013 e do impeachment de Dilma Rousseff, que desencadearam uma grande crise sociopolítica. "Esses fatos destamparam o caldeirão da democracia. Valores que muitos brasileiros já tinham, mas se sentiam vexados de disseminar, começaram a aparecer e foram totalmente avalizados pelo atual governo", diz ela. Foi precisamente a busca de razões que explicassem a eleição de Jair Bolsonaro que levou Schwarcz a escrever o livro.
A revelação pela série de reportagens publicadaspor The Intercept, no domingo, de que o então juiz federal Sergio Moro, hoje ministro da Justiça, e o procurador da Deltan Dallagnol trocavam mensagens controversas sobre o andamento da Operação Lava Jato é, de acordo com Schwarz, o mais recente capítulo do autoritarismo à brasileira. "Esse episódio confirma a ideia de judicradura ou a ditadura do Judiciário, quer dizer, de um Judiciário que cumpre com sua liturgia, mas que cresceu de modo a não equiparar-se com os outros poderes. É um Judiciário que perde a medida do seu poder e põe em questão a prática da equanimidade".
A historiadora e antropóloga também relaciona o episódios com outros ismos muito presentes na cultura e na história brasileira. O teor das conversas vazadas evidencia a atualidade do autoritarismo e do patrimonialismo no Brasil. Juntamente com a corrupção, seriam os grandes inimigos da República no país.
A subversão da "coisa pública"
Já dizia o historiador José Murilo de Carvalho que "nossa República nunca foi republicana". Schwarcz concorda com ele, ao lembrar que a res pública —a coisa pública ou o bem comum— deveria opor-se aos interesses privados. Mas, no Brasil, observa, nunca foi assim. "O patrimonialismo é resultado da relação viciada que se estabelece entre a sociedade e o Estado. É o entendimento, equivocado, de que o Estado é bem pessoal, 'patrimônio' de quem detém o poder. O que vimos ocorrer desde domingo [9], com o vazamento de informações sobre Sergio Moro, se chama patrimonialismo. O uso do Judiciário para causas particulares, como forma de vingança e de impedimento à que a democracia siga seu curso", afirma Schwarz.
A autora também vê esse uso do poder para interesses particulares no Governo Bolsonaro (apesar de não citar diretamente o presidente no livro), que, segunda ela, tem características populistas e autoritárias similares aos governos de Donald Trump, nos Estados Unidos, de Viktor Orbán, na Hungria, de Rodrigo Duterte em Filipinas, ou de Nicolás Maduro, na Venezuela. "São governos que têm uma compreensão muito restrita da democracia. Propagam a ideia de que democracia se resume a ganhar eleição".
No caso do atual Executivo brasileiro, Schwarz destaca o personalismo, a figura forte do Bolsonaro como "salvador da pátria", como traço autoritário. "É essa coisa de 'eu sou o poço da verdade'. Basta ver que a primeira manifestação de apoio ao presidente foi contra o Congresso e contra o Supremo, ou seja, a ideia é do Governo é 'eu não preciso dos outros poderes, eu sou o poder'. É um governo que não sabe governar, que continua com falas de campanha, que não consegue ser propositivo e que não pratica o que é, na minha opinião, a melhor política: a arte de construir consensos. Ao contrário, ele [Jair Bolsonaro] vai cada vez mais apostando na polarização dos afetos", diz.
Schwarcz também menciona a constante histórica que permitiu que diversas famílias se perpetuassem na vida política do país. "Isso de governar pela parentela é um costume aceito no Brasil. Mas agora temos um presidente e três de seus filhos que foram eleitos para outros cargos tomando decisões em Brasília. Houve um recrudescimento da bancada dos parentes, e os Bolsonaro exacerbam esse modelo de familismo muito vigente no país", critica.
Ela pondera, no entanto, que o autoritarismo, pelo menos no Brasil, não se apega a ideologias. "Ele também cabe na esquerda", afirma. O capítulo sobre corrupção —o maior do livro— está quase inteiramente dedicado ao caso do Mensalão[escândalo de compra de votos de parlamentares no Congresso durante o Governo Lula], à Operação Lava Jato e o papel do PT nela. "A polarização que vivemos hoje é consequência disso. Um lado só se radicaliza se o outro se radicalizar também. É com isso que os partidos de esquerda ou progressistas têm que lidar hoje".
Apesar de interpretar o Mensalão como uma tentativa de perpetuação no poder, Schwarcz não considera os governos progressistas autoritários. "Tanto os governos do PT quanto do PSDB estavam muito preocupados em ampliar a educação, em fomentar a inclusão, não afastaram da sua pauta a questão das minorias que estavam ascendendo. A corrupção virou uma máquina de governar, mas a questão do autoritarismo é de outra ordem. O governo atual não tem nenhum apego à questão das minorias, não tem uma agenda progressista, a favor da diminuição das desigualdades, e deu provas de que não tem vocação nem vontade política de batalhar pela educação, a única coisa que pode desarmar o gatilho da desigualdade e da exclusão social", argumenta.
Cicatrizes históricas e a "utopia" da Constituição de 1988
Em Sobre o autoritarismo brasileiro, Schwarcz resgata várias cicatrizes históricas que persistem como nós sem desatar no panorama atual do país. O colonialismo, baseado em um modelo de exploração, e a experiência de colonização portuguesa —uma coroa pequena, com poucos recursos para povoar o território e que baseou-se no sistema latifundiário, além de configurar uma metrópole ausente da vida social local— são responsáveis, segundo ela, pelas especificidades do autoritarismo brasileiro. A maior e mais profunda dessas cicatrizes é, no entanto, a escravidão. “Não é à toa que abro o livro com esse debate. Nem todos os países de governos populistas e autoritários contaram com mão de obra escrava como nós contamos. A escravidão virou uma linguagem entre nós e com graves consequências. Esse é um grande nó da história brasileira, um nó que a gente não desata e que gera esse racismo tão estrutural e institucional que vivemos hoje”.
A historiadora e antropóloga aponta que a Constituição de 1988 foi uma tentativa de mitigar esses danos históricos, mas falhou em não reconhecer uma parcela da população que não se sentiu atendida por ela. "A Constituição de 1988 é generosa com muitos dos nossos direitos, mas falhou em alguns pontos. Um deles foi não mencionar a situação dos militares. Outro foi não tratar dos privilégios de uma sociedade desigual. Minha geração falhou em não ver isso, em não ver essa parte da população que não se espelhava na utopia da Constituição".
Para Schwarcz, esse é um dos fatores que explicam "como os brasileiros colocamos no poder um projeto autoritário". As soluções para romper com a cultura de autoritarismo, afirma, passam pelo fortalecimento das instituições e pela educação. Mas não há garantias. "História não é que nem bula de remédio. A tristeza da História é que, muitas vezes, em vez de irmos para frente, voltamos atrás", diz.
"Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo “racial” entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós, já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios."
Jessé Souza
Publicado no blog de Jessé Souza (reproduzido também pelo DCM)
Não se entende o Brasil sem compreender a função do racismo “racial” entre nós. Não existe preconceito mais importante entre nós, já que ele tem o poder de definir e articular as relações entre todas as classes sociais no nosso país. É este preconceito que comanda a continuidade da escravidão com outros meios. Como esse mecanismo funciona na realidade cotidiana? Minha tese é a de que a escravidão, tanto no seu sentido econômico de exploração do trabalho alheio como no seu sentido moral e político de produção de distinções sociais, se manteve “na prática” inalterado desde a abolição da escravatura.
Fundamental para compreender este estado de coisas é a função que o ex-escravo abandonado e humilhado vai ter na sociedade pós-escravocrata. O ex-escravo é afastado do mercado de trabalho competitivo e passa a desempenhar as mesmas funções humilhantes e indignas que exercia antes. Seja tanto as funções de trabalho sujo, pesado e perigoso, para os homens, quanto as funções domésticas do antigo “escravo doméstico”, para as mulheres, as quais reproduzem todas as vicissitudes da antiga relação senhor/escravo. Faz parte do âmago desta relação não só a exploração do trabalho vendido a preço vil, mas também a humilhação cotidiana transformada em prazer sádico para o gozo frequente e para a sensação de superioridade e a “distinção social” das classes média e alta.
Mas isso tudo não é nem sequer o principal. Os negros na base da pirâmide social brasileira sempre desempenharam uma função semelhante à casta dos intocáveis na Índia. Como nota Max Weber no seu estudo clássico sobre o hinduísmo, os intocáveis possuem a função de legitimar toda a ordem social hindu na medida em que todas as outras castas, mesmo as inferiores, são distinguidas positivamente em relação aos intocáveis.
Como a “distinção social”, ou seja, a sensação de se saber “superior” a outros é tão importante na vida social quanto o dinheiro e a necessidade econômica, isso significa que uma classe social na qual todos podem pisar, humilhar, violar, agredir, e, no limite, assassinar sem temer consequências satisfaz, a uma necessidade primitiva fundamental a todas as classes acima dela. É óbvio que uma sociedade deste tipo não é apenas desumana, desigual, primitiva e tosca, mas também, na pior das hipóteses, burra, já que reproduzir a exclusão social produz insegurança, pobreza e instabilidade social para todos. Entretanto, este é o DNA da sociedade brasileira.
É importante notar que, paralelamente à condenação do negro à exclusão, o país passa a implementar a política abertamente racista da importação de imigrantes europeus brancos, na imensa maioria italianos, precisamente como no caso da família do excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro. Uma parte considerável destes “neobrasileiros” ascende rapidamente, alguns inclusive à elite de proprietários e de novos industriais, mas boa parte irá constituir a classe média branca de grandes cidades como São Paulo. Nas outras grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e Recife, os portugueses exerceriam o mesmo papel do italiano em São Paulo.
O imigrante branco, na maioria o italiano ou o português, irá constituir no Brasil, ao mesmo tempo em aliança e a serviço da elite de proprietários, uma espécie de “bolsão racista e classista” contra os negros e pobres que constituem a maior parte do povo. Para a elite, isso significa a oportunidade de criminalizar e estigmatizar a soberania popular no nascedouro com a cumplicidade das classes médias e garantir só para si o orçamento do Estado via juros escorchantes, “dívida pública”, sonegação de impostos e outros assaltos legalizados. Para as outras classes, o preconceito universal contra o negro e ex-escravo permite a construção de uma frente comum para a manutenção de uma distinção social positiva contra os negros, o que eterniza o abandono, a humilhação, e o genocídio desta raça/classe como política pública informal.
Mais interessante ainda para nossos propósitos aqui é a função do racismo contra o negro para os imigrantes que não lograram sucesso econômico na nova terra. Muitos imigrantes não conseguiram ascender à classe média verdadeira nem à elite. Boa parte vai constituir uma zona cinza que inclui a classe trabalhadora precária e o que poderíamos chamar de “baixa classe média”. O cotidiano de muitos destes não difere muito da vida do negro e do pobre brasileiro. Moram eventualmente no mesmo bairro e passam privações materiais. É precisamente nesta faixa social que o preconceito de raça é ainda mais importante. Afinal, a única distinção que este pessoal tem na vida é a “brancura” da cor da pele para exibir contra o negro.
Entrevistando pessoas desta classe social no interior de São Paulo descendentes de italianos, como Bolsonaro, e alguns que inclusive moram onde ele nasceu para meu livro “A classe média no espelho”, notei um racismo que não tem nada de cordial. Bolsonaro é filho da baixa classe média de imigrantes para os quais a carreira no exército ou na polícia era a promessa de ascensão segura ainda que limitada. Neste contexto, não se casar com um negro ou com uma negra é a regra familiar mais importante e mais rígida. Aqui, o preconceito puro, o orgulho da cor da pele e da origem é a única distinção social positiva ao alcance. Se a elite e a classe média exploram economicamente – além de humilhar – os negros, aqui só se pode humilhar. Enfatizar uma distância social quase inexistente do ponto de vista econômico exige um racismo “racial” turbinado e levado às últimas consequências.
Este é também precisamente o caso do “lixo branco” norte-americano que ajudou a eleger Trump, o objeto do desejo e de imitação de Bolsonaro. Os brancos do Sul dos EUA, inferiores social e economicamente aos brancos do Norte, são, por conta disso, como uma espécie de “compensação” da riqueza inexistente, os racistas mais ferozes e ativistas de uma “Ku Klux Klan” que assassinava e linchava negros indiscriminadamente. Este é o caso de Bolsonaro e de seus seguidores no Brasil. E o que é a “milícia” carioca, com a qual Bolsonaro e seus filhos estão envolvidos até o pescoço, se não a Ku Klux Klan brasileira, que existe para explorar e matar negros e pobres, os supostos “bandidos” das favelas?
Embora a elite e a classe média real e canalha também tenham votado nele, sua real base de apoio é o “lixo branco” brasileiro, próximo do negro e por conta disso ávido por criminalizá-lo, estigmatizá-lo como bandido e por assassiná-lo impunemente. A associação com a milícia, a tara pelas armas e o discurso de ódio são para matar o preto e o pobre. O que está por trás de Bolsonaro é racismo “racial” mais cruel e expresso do modo mais aberto e canalha que se viu. O ódio à universidade pública está também ligado ao fato desta, agora, ter sido “invadida” por negros e pobres. Essa gente não estaria lá para estudar. Só poderia ser para fazer balbúrdia. Urge cortar as verbas para isso.
A irracionalidade de Bolsonaro, sua loucura e sua idiotice são a expressão perfeita do ódio racial brasileiro. O ódio que não se explica racionalmente, nem apenas por motivos puramente econômicos. O ódio do racista que se vê como fracasso social é um ódio de morte. Ele não compreende as razões de sua posição social e só tem ressentimento sem direção na alma e no coração. Ódio em estado puro que Bolsonaro expressa e exprime como ninguém. Bolsonaro é o líder da Ku Klux Klan e do “lixo branco” brasileiro. É isso que o define e o explica mais que qualquer outra coisa.
País imaginário debate duas propostas para o futuro. Uma “reforma” para reduzir a cota de pães dos idosos? Ou ocupar melhor os que trabalham, para que as riquezas geradas sustentem a todos? Uma das ideias vencerá o debate
Se no futuro teremos mais idosos em relação ao total da população é natural que uma maior parcela da riqueza produzida seja apropriada por eles. Para entendermos esta dinâmica vamos usar o exemplo de uma aldeia hipotética chamada de República das Laranjas.
Vamos supor que na República das Laranjas se produza apenas pães. Nesta aldeia, os adultos trabalham enquanto as crianças vão para a escola e os idosos, depois de toda uma vida de dedicação ao trabalho, descansam. Os adultos, que podem trabalhar, repartem os pães que produziram com as crianças e os idosos. Portanto, trata-se de um sistema solidário de repartição muito parecido com o que temos no Brasil.
Na tribo vivem, atualmente, 150 pessoas: 100 adultos, 30 crianças e 20 idosos.
Os 100 adultos produzem 150 pães por dia e distribuem um para cada pessoa. Portanto, a “produtividade” de cada adulto é de 1,5 pães por dia.
No futuro, em 2050, há a previsão de que esta aldeia sofra uma mudança demográfica considerável: haverá cada vez mais idosos em proporção ao total da população. Isso aconteceu graças a descobertas de ervas medicinais que irão prolongar a vida das pessoas. A notícia é ótima. Mas os líderes da tribo ficaram preocupados com as projeções, que são as seguintes:
Haverá, na aldeia, em 2050, um total de 175 pessoas distribuídas da seguinte forma: 23 crianças, 52 idosos e 100 adultos.
Se nada for feito para aumentar a produtividade dos trabalhadores do futuro, haverá um empobrecimento da população em relação ao consumo de pães. Caso cada trabalhador continue produzindo 1,5 pães por dia, a produção de 150 pães, que deverá ser repartida com 175 pessoas, fará com que cada um receba menos de um pão (85% de um pão).
Um grande debate político surgiu na aldeia quando eles se depararam com estes dados. Um economista da aldeia, conhecido como Homer Kado, sugeriu que deveria ser feito um ajuste na distribuição de pães para os idosos do futuro. A proposta dele era a seguinte: para mantermos a proporção da distribuição para crianças e adultos como é hoje, temos que distribuir 23 pães para as crianças e 100 para os adultos. Sobrará apenas 27 pães para ser repartido entre os 52 idosos. Assim, teremos 1 pão para cada adulto e criança e, aproximadamente, meio pão para cada idoso. Ele chamou esta proposta de Reforma da Previdência e alegou que era a única saída para o problema do envelhecimento da população. Homer repetia o tempo todo que não era admissível que no futuro quase 30% dos pães fossem destinados para os idosos e que se isto acontecesse faltaria pães para as crianças.
A comunidade, ao se deparar com a proposta, não gostou muito da ideia: pois ora, não seria justo que eles, que tanto trabalham hoje, tenham uma velhice tão miserável. Porém, como Homer disse, eram apenas números, não havia muito o que fazer.
Entretanto, no meio do debate, um ancião propôs uma outra solução: a comunidade deveria pensar em formas de aumentar a produtividade do trabalhador futuro, ou seja, elaborar métodos e projetar máquinas com tecnologias mais avançadas que fizessem com que cada trabalhador produzisse mais pães em um mesmo intervalo de tempo. Aliás, ele alertou que Homer – o economista – estava ignorando a variação da produtividade no cálculo. Segundo o sábio ancião, um crescimento de produtividade na casa dos 2,2% ao ano, em 30 anos, faria a produção dobrar para mais de 300 pães ao dia, ou seja, cada trabalhador no futuro, ao invés de produzir 1,5 pães, como é hoje, passaria a produzir três pães. Se a aldeia alcançasse este ganho de produtividade, mesmo com o envelhecimento da população, todos poderiam ser mais ricos e consumiriam mais pães: haveria 300 pães para serem divididos com 175 pessoas, o que resultaria em um consumo de 1,7 pães para cada indivíduo. A reforma que a aldeia necessitava, segundo o ancião, era estrutural.
Contudo, o ancião foi questionado pelo economista que lhe disse que em uma tribo vizinha, um tal de Brasil, a produtividade cresceu apenas 1% na última década. Sendo assim, a suposição de um crescimento da produtividade de 2,2% seria um absurdo.
Porém, o sábio ancião, que viveu mais que Delfim Neto, lembrou que no Brasil antigo, entre os anos de 1950 e 1980, a produtividade crescia 4,7% ao ano, que é muito mais do que ele estava supondo nos seus cálculos. O ancião ainda lembrou que o crescimento pífio da produtividade no Brasil depois dos anos 1980 tem correlação com o abandono do modelo desenvolvimentista em prol das diretrizes que o próprio Homer Kado defende. Para o ancião, o processo de desindustrialização precoce no Brasil foi desastroso.
É claro que o ancião também alertou que naquele Brasil antigo, ao passo que a produtividade crescia muito, a riqueza não era distribuída de maneira justa e acabava ficando concentrada nas mãos de poucos, mas isso já é outra história.
Enfim, a República das Laranjas ainda está debatendo que proposta irá adotar: a do Homer Kado ou a do sábio ancião. Por falar nisso, fiquei sabendo que Homer Kado, inspirado no Chile de Pinochet e no Brasil atual, pretende abrir o primeiro banco da República das Laranjas com o objetivo de vender fundos de previdência privada. A ver.
* As proporções e projeções demográficas utilizadas na fábula são aproximações da realidade brasileira de hoje. Entretanto, há uma grande diferença: na história narrada, se pressupõe pleno emprego e no Brasil de hoje falta emprego para 25% dos trabalhadores, ou seja, apesar de termos 100 adultos para cada 50 idosos e crianças, apenas 75 adultos produzem, o que faz a taxa de dependência efetiva ser muito ruim por um fator que nada tem a ver com o envelhecimento da população.
** Taxa de dependência no Brasil. Coluna verde: (idosos + crianças)/adultos. Coluna azul: (crianças)/adultos. Coluna amarela: (idosos)/adultos. Elaboração própria, dados do IBGE.
*** A suposição da igual distribuição entre as pessoas foi um recurso para tornar o exemplo menos complexo. Vale lembrarmos que a distribuição é extremamente desigual no Brasil e uma série de benefícios previdenciários visam transferir não só a renda entre as gerações mas, também, entre ricos e pobres.
Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade:OUTROSQUINHENTOS
Tudo isso me causa, particularmente, uma ressaca enorme. Ressaca que, na terra da estátua da liberdade original, chama-se hangover…
Santa Catarina está cravejada de Havans. Se você for de Balneário Camboriú a Florianópolis, que dista uns 70 km, encontrará quatro ou cinco dessas lojas pelo caminho. A Havan se tornou uma espécie de símbolo modular do projeto econômico encabeçado por Paulo Guedes e seu poste. Economicamente, Hang é o modelo de tudo que há de melhor: é empreendedor, politicamente engajado, gera empregos e cumpre a missão magna da meritocracia como o pobre que ficou rico por esforço.
Para quem compartilha da perspectiva neoliberal, a abissal diferença econômica entre Hang e um de seus tantos soldados rasos é, não só aceitável, mas também louvável. A brutal diferença econômica é amenizada com a exaltação da virtude empreendedora de Hang, que se torna misericordioso no plano social porque gera empregos.
Assim é que a liberdade plena de atuação no mercado, como princípio reitor do projeto político de Bolsonaro, passará a estar, mais do que nunca, legitimada. Esse regime de tolerância em relação às diferenças de capital econômico – cada vez mais progressivas –, se estende para outros capitais simbólicos associados como o social e o cultural, como preceitua Pierre Bourdieu no livro “A Distinção”.
No entanto, esse regime de tolerância com a diferença econômica não encontra paralelo quando se trata de diferenças de ordem subjetiva, como é o caso das diferenças de gênero. Nesse terreno pantanoso para o medo dos conservadores, tudo que escapa à lógica binária tende a receber olhares enviesados e narizes tortos. Não se trata de deixar de reconhecer as capacidades de Hang, mas simplesmente de apontar a contradição do discurso eleito no que tange o tratamento da liberdade entre a dimensão econômica e aquelas ligadas à subjetividade.
A genitalização do gênero, além de empobrecer o discurso da experiência humana na Terra, contraria o ideal de tolerância à diferença presente na dimensão econômica. Dito objetivamente: tolera-se facilmente discrepâncias abissais em relação ao bolso, aos currículos e às possibilidades de acesso, mas não se tolera com a mesma facilidade a diferença em relação a aspectos subjetivos e morais.
É isso que pretende o próximo ministro da educação quando afirma que “quem define gênero é a natureza”. Quando acena para a possibilidade de exigir que, nas salas de aula, se trate apenas sobre a crença dos dois gêneros naturais, o futuro ministro da educação confirma que a ganância e o conservadorismo tosco da agenda neoliberal. Esse é um verdadeiro contrassenso (malandro) do projeto político que vociferou pelo fim das ideologias partidárias nas escolas. Afinal, trocar-se-ão partidos por crenças? E tudo isso não é, enfim, inevitável ideologia?
Como aponta Contardo Calligaris (Folha de São Paulo de 29/11/18), “as crianças não são burras a ponto de se engajarem sem necessidade num caminho no qual constatam, pelo bullying de cada recreio, que é árduo e sofrido” se identificar com um gênero que não pertença ao binarismo biológico. Assim como os soldados rasos do exército de Hang também não são burros a ponto de imaginar que é possível repetir, sem brilhantismo, sorte e muita ganância, o caminho de êxito empresarial daquele que é novo namoradinho econômico do Brasil.
Afinal, se alguém tem liberdade para acumular montanhas de dinheiro à custa de uma nova espécie de escravizados, porque não tem a mesma liberdade para permitir que seu filho aprenda a respeitar as identidades que se formam no fundo subjetivo de cada um. Chegamos a essa obscena conclusão: tolera-se o controle que alguém exerce sobre outros corpos, como na relação patrão-empregados, mas moraliza-se a definição que cada um tem sobre o próprio corpo e a própria identidade sexual.
A prevalência de um projeto de organização social sobre o outro, no campo da disputa política, antes de ser mais ou menos correto, é reflexo daquilo que se esconde no inconsciente social da aglutinação mais numerosa de pessoas que foram às urnas. Tudo isso me causa, particularmente, uma ressaca enorme. Ressaca que, na terra da estátua da liberdade original, chama-se hangover…
Paulo Ferrareze Filho é doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), professor de Psicologia Jurídica, advogado e psicanalista em formação.