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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Milton Santos, pandemia e o real fragmentado, por Fran Alavina

 

A globalização, ensinava ele, subverte escalas e nos aparta ainda mais da Natureza. A ciência, hiperespecializada, tornou-se cega a fenômenos complexos. A pandemia, sem contexto, reduz-se a espetáculo. Como voltar, agora, à totalidade?

Por Fran Alavina

Talvez a Geografia – mais do que outros saberes das humanidades, como a História e Filosofia – possa nos ajudar a entender certos aspectos que se dão quase sem se notar em tempo pandêmico e globalizado: que, por vezes, parece mais fabuloso que trágico. De fato, diferentemente de outros estudos humanísticos, a Geografia em sua constituição e desenvolvimento sempre teve que lidar com a questão do que seja a Natureza e de como tal saber concebe seu objeto, uma vez que se inicia como descrição da paisagem e do meio. Disto dependeria até sua classificação como uma ciência humana ou ciência natural. Para nós, tal debate é desprovido de sentido, uma vez que todo saber, justamente por ser humano, não pode ser natural, ainda que seu objeto seja a Natureza: física ou biológica. A Natureza não produz saberes, nem constitui ciências. Somos nós que os construímos a partir de nossas necessidades.

Ora, uma das nossas maiores necessidades no momento está em tentar tecer redes de relações conceituais para compreendermos este acontecimento – a Pandemia – que nos parecia inaudito, impossível, moldado pelo espanto e o medo. Um espanto que não seria apenas dos indivíduos, mas também das ciências. Donde a surpresa e as incapacidades enfrentadas até aqui. Ademais, ainda que a pandemia seja um acontecimento grandemente complexo para os saberes e as ciências, estes parecem não terem entendido que tal complexidade não pode ser abarcada apenas dentro de seus feudos disciplinares, isto é, na compartimentação fragmentária dos diversos objetos de cada ciência. Não se trata apenas de interdisciplinaridade, porém do real que nunca se realiza por simples ajuntamento de particularismos.

A cultura da especialização acelerou os conhecimentos e apressou os resultados técnicos, porém fez de cada ciência uma fronteira inalcançável, incapaz de enxergar além de seus próprios limites. Quantos de nós, com formações especializadas conseguimos pensar e entrar em diálogo com outros saberes e ciências? A cultura da especialização meramente técnica é um teatro de monólogos paralelos sem espectadores.

Desse modo, é preciso se voltar uma vez mais para a totalidade: dizia Milton Santos em um de seus últimos e mais acalorados debates! Mas será, talvez, no artigo “Globalização e Redescoberta da Natureza”, fruto de uma aula inaugural proferida pelo geógrafo em 1992 que encontraremos, em síntese, elementos que jogam luz sobre o nosso atual estado de coisas – o texto pode ser encontrado no site sobre o autor.

Desde o início do ano, ouvimos que estamos em “guerra contra o vírus”. Recuperando, assim, o paradigma bélico herdado da Modernidade (abordamos tal questão no texto Um vírus que revela nosso dissídio com a Natureza”). Neste paradigma, a Natureza é sempre afastada de nós, subordinando-se ao nosso poderio técnico. Ela é, portanto, uma realidade que vai se tornando cada vez mais passiva. Com a Globalização, conforme nos esclarece Milton, além desse aspecto, que foi se dando como próprio da ação técnica humana, a Natureza passa a nos ser apresentada como simples imagem, uma vez que teria sido plenamente domesticada.

Certamente, um bom exemplo de tal aspecto é a invenção e a ida aos zoológicos: domina um sentimento de nostalgia e relaxamento, podemos observar plenamente o “exótico” e o “selvagem” da Natureza, sem nos preocuparmos com a nossa segurança. É a Natureza sendo-nos dada como fragmentação e pura representação, na qual sua única finalidade seria ser-nos disponível: algo puramente ilusório. Porque aquilo que nos aparece como natural, nada mais é que pura artificialidade, um puro arranjo humano que busca imitar uma pretensa realidade originária.

É como imagem, assevera Milton, que a Natureza começava a aparecer como crise ambiental. As imagens, por exemplo, de pequenos cataclismas, furações e outros abalos decorrentes da crise ambiental foram se moldando ao processo midiático. Reforçando, portanto, a ideia de uma falsa proximidade, que tanto experimentamos hoje com os slogans de que “o mundo está na palma das nossas mãos”; “nas telas dos nossos computadores”. O geógrafo alertava que: “Ontem, o homem se comunicava com o seu pedaço de Natureza praticamente sem mediação; hoje, a própria definição do que é esse entorno, próximo ou distante, o local ou o mundo, é cheia de Mistérios”. Foi nessas condições que se deu e está se dando o atual processo pandêmico: na confusão generalizada entre o local e o mundial, o próximo e o distante.

Nesse sentido, não poderíamos nos espantar com as atitudes daqueles que negam a pandemia. Os negacionistas não são um isolado fenômeno político, são também efeito deste mundo de confusão entre as grandes e as pequenas escalas; entre falso concreto e verdadeiro abstrato. De fato, a atitude do homem comum que não enxerga problemas em furar as medidas de isolamento e proteção sanitária locais, ainda que esteja diuturnamente exposto à informação do agravamento de certas condições da pandemia, não é um fenômeno anedótico, atípico.

Assistir ao agravamento da situação em outros lugares, seja em esfera local, seja em esfera nacional/mundial não o comove sobre suas responsabilidades, ao contrário da obviedade que isso poderia parecer. Este homem apenas assistiu o que é contado a ele sob a forma da pura linguagem funcional que tem força de entreter, mas que dificilmente poderá mudar seus hábitos cotidianos, ainda mais quando estes se apresentam para ele como normalidade. Ele está separado da notícia que, enquanto não lhe seja realmente próxima, se perde na confusão das escalas, se desfaz na pretensa concretude que possuiria.

Não se pode esquecer que a escala local aqui não é apenas a cidade, mas o bairro, a parte do bairro que mais se frequenta, a rua onde se mora, sua casa. Ou seja, a escala mais determinante neste caso é aquela da suas relações concretas. Enquanto o perigo não lhe for realmente próximo, não estive literalmente em sua escala corporal, dificilmente mudará de opinião apenas em virtude da exposição informacional. Por mais que a pandemia seja para ele algo real e de grandes escalas, enquanto ela está apenas na tela do celular ou do computador, não passará de imagem: lhe será a proximidade mais distante. Por isso, é possível se solidarizar com o mortos de outros países e continuar a agir em casa e na parte da cidade em que habito como se a minha escala local não fizesse parte da escala mundial.

Dessa maneira, ao contrário, do que poderia parecer, as incessantes imagens midiáticas da Natureza são na verdade o seu apagamento, pois aumentam em nós a sensação do dissídio e da separação. Experimentamos certa sensação de que estamos a viver aquilo, posto que estamos vendo, interagindo, compartilhando e dando “likes”; mas em verdade, não estamos, pois estas realidades se dão longe de onde estamos, nós apenas assistimos. Os eventos locais, ainda que virilizem na babel da virtualidade, não perdem sua escala originária: as únicas coisas que os fazem parecer maiores são o manuseamento das imagens e a funcionalidade do discurso que ele pode gerar. Desligando a televisão e ficando o pé nas bolhas virtuais que preferimos, estas pretensas realidades tornam-se para nós o que realmente são: mera imagem e fabulação.

Desse modo, estamos acostumados a recordar que apesar da nossa esmagadora realidade urbana, há uma natureza – a imagem da floresta amazônica, das baleias, a aurora boreal etc. Existente, mas sempre distante de nós. Os objetos técnicos nos afastariam dela e nos protegeriam de sua excessiva desproporcionalidade de forças. Ora, Milton Santos nos ensina que esta Natureza separada, originária e intacta é uma ilusão. Por isso, ela pode ser rapidamente capturada pelo discurso midiático dos tempos globalizados, pois facilmente pode se prestar ao papel de imagem fabulada. A Natureza sempre se dá no contato e na relação que o homem estabelece com ela; fora disso, não sabemos como ela é de fato. Por isso, a história da Natureza para o homem nada mais é que parte de sua própria história.

Nesse sentido, este capítulo pandêmico da nossa história não é um ponto fora da curva. Ele reforça a confusão que a Globalização tornou possível entre as escalas e submete ainda mais a Natureza à fragmentação das imagens, aos discursos superficiais da funcionalidade comunicativa. Há rotas de fuga? Nos perguntaríamos com o professor Milton Santos, que pela potência de seu pensamento se torna nosso contemporâneo. Talvez o passo decisivo seja não esquecer que a primeira escala é aquela das verdadeiras relações concretas: quer entre homens, quer entre homens e natureza. O local e as particularidades não podem ser escamoteados, suas determinações nunca podem ser completamente apagadas.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Blog da Cidadania: Burradas de Bolsonaro assustam seus aliados e mesmo a maioria dos que nele votaram estão contra quase todas as propostas do mesmo, como aponta a Folha de São Paulo



Do Canal Blog da Cidadania e do site Blog da Cidadania:


Desde que foi eleito, Bolsonaro produziu burradas e anunciou e recuou de medidas sem parar. Além disso, meteu-se em um barulhento escândalo de corrupção e adotou para a sua turma uma leniência que nega aos adversários. Mas o pior é que, segundo o Datafolha, a maioria do povo é contra quase tudo o que ele propõe. Por isso, seus aliados estão em PÂNICO.
Segundo a Folha de São Paulo, “A sequência de informações desencontradas, recuos e notícias desfavoráveis a integrantes do governo de Jair Bolsonaro assustou dirigentes de legendas que estão alinhadas à nova gestão
Os aliados de um presidente que já vem sendo chamado de “Burronaro” acham que ele e sua equipe vêm “abusando do direito de errar” e que “ou o presidente dá, e logo, um freio de arrumação em sua casa ou pode encontrar na volta do recesso um Congresso hostil e disposto a apostar na desorganização para extrair vantagens”.
Mais ou menos como aconteceu com Dilma no primeiro ano do seu segundo mandato.
E para quem pensa que se trata de “perseguição”, basta conferir coisas que ocorreram nos poucos dias de mandato que Bolsonaro acumula – nove dias, para sermos precisos.
1 – O presidente anunciou aumento do IOF, revisão da tabela do imposto de renda e uma idade mínima para a reforma da Previdência. Foi desmentido pela sua própria equipe.
2 – Depois, o anúncio de que o Brasil poderia abrigar uma base militar norte americana foi deixado de lado após os militares puxarem a orelha do presidente, mostrando quem é que, de fato, está mandando no país.
3 – E, após duas reuniões ministeriais, nada de metas de governo.
Na verdade, só há uma medida que Bolsonaro tomou de fato: politicagem mesclada com masturbação ideológica.
Mas a grande novidade está em pesquisa Datafolha recém-publicada que foi objeto de editorial do jornal que controla esse instituto de pesquisa, a Folha de São Paulo. Sob o título “Agenda de conflitos”, o jornal explica por que Bolsonaro vai entrar rapidamente em choque com seu eleitorado.
Vale ler um trecho do editorial que relata a pesquisa Datafolha:
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) cultiva afinidades ideológicas com (…) Donald Trump (…) Dois terços dos brasileiros, entretanto, discordam de privilegiar os EUA na diplomacia.
O presidente se elegeu prometendo, por exemplo, uma marcha a ré no que considera uma pregação marxista, antirreligiosa e sexualizada no ensino brasileiro.  Essa é a motivação do movimento Escola sem Partido, apoiado pela bancada (…)
A maioria dos brasileiros desaprova esse retrocesso sectário. Nada menos que 71% deles concordam que assuntos políticos devem seguir em debate nas classes. Também prepondera a opinião de quem deseja que a educação sexual permaneça no ensino: 54%.
Carece ainda de apoio na população a liberação da posse de armas de fogo no país. Em realidade aumentou o contingente refratário, de 55%, em outubro de 2018, para 61% dos ouvidos pelo instituto.
(…)
Por outro lado, e com boa dose de realismo, 49% avaliam que a saúde pública vai piorar com a saída dos médicos cubanos (…)
Como se vê, a parcela majoritária da sociedade que votou em Bolsonaro, votou sem saber o que estava fazendo, pois nada disso que ele pretende fazer foi omitido na campanha eleitoral. Apenas, ele disse essas coisas em entrevistas com jornalistas que seu eleitorado não assistia porque ele o distraia com palhaçadas antipetistas.
Quando esse povo descobrir o que Bolsonaro pretende, o bicho vai pegar.
Confira a reportagem em vídeo

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Não há mais Justiça, há política(gem)... Por Fernando Brito


"Os deputados que absolverão Temer serão apenas mais um numa multidão de canalhas, e lá em Araçoiaba da Sera quase ninguém vai saber disso e, na periferia, os manilhões pelos quais negociou seu voto absolutório certamente renderão mais votos e gratidões do que aquele chato que fica repetindo que o candidato votou com Temer.
Já  um desembargador que reveja o caso Moro x Lula, caso se atreva a inocentá-lo, por uma razão de consciência e diante de um processo inspirado nas altas lições jurídicas que Moro soprou à opaca Ministra Rosa Weber, onde ‘não há provas cabais mas a jurisprudência me permite condenar”, serão expostos à execração pela mídia, estão sujeitos a qualquer louco furioso interpelá-lo com a família num restaurante ou, quem sabe, a uma “expedição punitiva” dos MBLoucos."

jacobsen
Começa hoje, com a leitura do relatório do provecto deputado Bonifácio de Andrade, tucano e aecista, sobre a denúncia do finado Rodrigo Janot contra Michel Temer, levando de carona Moreira Franco e Eliseu Padilha.
Ninguém, em sã consciência, espera resultado diferente da recusa à abertura de um processo. Para quase todos os deputados, tanto fará abrir ou não a capa do processo ou ler uma linha sequer das alegações.
Dois mil quilômetros ao Sul, três homens analisam a sentença de Sérgio Moro condenando Lula e, para pelo menos um deles, servirá o exemplo do presidente do Tribunal Regional Federal em que funcionam: não é preciso nenhuma análise do que o processo contém, pois Lula é culpado, já o disseram Sérgio Moro e a mídia.
Os deputados, ao encontrarem qualquer sinal de culpa – imagens, documentos, gravações – dirão que isso não virá ao caso com Temer e que o importante, mesmo, é preservar a “recuperação da economia” (?!) e a estabilidade política.
Já os desembargadores, diante de qualquer dúvida da culpa do réu, pensarão que, importante mesmo, é “a moralização” do país e o efeito-exemplo de condenar um ex-presidente, para glória da lenda de que a lei é igual para todos. Dane-se a estabilidade democrática, dane-se a livre manifestação do juiz que está acima deles – embora jamais o reconheçam – que é o povo brasileiro.
Há, depois, outra consideração.
Os deputados que absolverão Temer serão apenas mais um numa multidão de canalhas, e lá em Araçoiaba da Sera quase ninguém vai saber disso e, na periferia, os manilhões pelos quais negociou seu voto absolutório certamente renderão mais votos e gratidões do que aquele chato que fica repetindo que o candidato votou com Temer.
Já  um desembargador, caso se atreva a inocentá-lo, por uma razão de consciência e diante de um processo inspirado nas altas lições jurídicas que Moro soprou à opaca Ministra Rosa Weber, onde ‘não há provas cabais mas a jurisprudência me permite condenar”, serão expostos à execração pela mídia, estão sujeitos a qualquer louco furioso interpelá-lo com a família num restaurante ou, quem sabe, a uma “expedição punitiva” dos MBLoucos.
Qualquer pessoa que não esteja dominada pelo ódio e ainda dê alguma importância àquele velho adereço da deusa da Justiça -a balança anda aposentada, enquanto a espada anda “a mil” – tem aí um retrato de como se processam os julgamentos no Brasil.
Sempre o foram, claro, quando se tratava de absolver ou atenuar penas de gente endinheirada.
Mas passaram, agora, a serem condenatórios para interferir no processo politíco.
A corrupção? Ora a corrupção…Tanto que a Transparência Internacional diz que, para 78% dos brasileiros a corrupção aumentou no último ano, com a Trupe Temer-Moreira-Eliseu-Geddel…
A corrupção, está claro, é o que menos importa neste processo.
É a política, só ela.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Paulo Nogueira sobre Churchill, as bebedeiras e Gilmar Mendes


 "Os juízes do STF, se tivessem reagido de alguma forma contra Gilmar — teriam prestado um fabuloso serviço para a sociedade. Seria um marco para removermos de nosso convívio juízes que fazem política e não justiça. Em nenhum país avançado você vê um juiz como Gilmar. Nenhum. Comportamento como o dele não é tolerado."



Por que não concorre a um cargo político?

Texto de Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo

Lembrei de uma tirada de Churchill quando li que Gilmar teria chamado Lula de bêbado numa festa em Brasília.


Uma senhora chamou Churchill exatamente de bêbado. Churchill retrucou: “Amanhã vou estar sóbrio e a senhora vai continuar feia.”


Qualquer pessoa que seja xingada por Gilmar de bêbeda pode repetir a frase de Churchill.


No dia seguinte, a bebedeira terá passado, e Gilmar continuará a ser o que é: um juiz que é uma vergonha para a Justiça brasileira.


Chegará o dia em que o partidarismo tonitruante, despudorado, desvairado de Gilmar será lembrado como uma das páginas mais sinistras da história jurídica nacional.


Como um homem tão apaixonado politicamente como ele pode pertencer à principal corte do país?


Antes de tudo, por obra de FHC, que o indicou. FHC seguiu seu padrão de indicações: o mérito era o que menos contava. Primeiro, segundo e terceiro vinha a afinidade pessoal e ideológica.


Depois, porque o Brasil está doente. Um juiz como Gilmar tinha que ser duramente cobrado por infringir as regras básicas do cargo.


Mas existe uma leniência generalizada por parte das vítimas dele, entre as quais estão seus colegas de STF. Desesperado por ver a derrota do seu voto no rito do impeachment, Gilmar acusou o STF de ter se deixado abduzir pelo governo.


Há acusação mais grave que esta?


E no entanto a reação dos juízes achincalhados por Gilmar foi nada. Nula. Zero.


Se eles consultassem o clássico jurista alemão Rudolph von Ihering, veriam que se comportaram como “vermes”. Segundo Ihering, quem aceita passivamente bordoadas infames — como a acusação de Gilmar aos pares — merece cada uma delas.


Ihering consagrou a tese de que devemos à sociedade recorrer à Justiça para que ela possa ser aprimorada.


Os juízes do STF, se tivessem reagido de alguma forma contra Gilmar — teriam prestado um fabuloso serviço para a sociedade. Seria um marco para removermos de nosso convívio juízes que fazem política e não justiça.


Em nenhum país avançado você vê um juiz como Gilmar. Nenhum. Comportamento como o dele não é tolerado.


Nos Estados Unidos, juízes jamais se manifestam sobre questões públicas a não ser nos autos.


Por que temos que ser diferentes, e para pior?


Gilmar se sente à vontade, também, para ser amigo de jornalistas.


Ora, ora, ora.


Eis aí mais um sinal de atraso coronelesco. Juízes não têm amigos jornalistas. (Assim como jornalistas, como pregou Pulitzer num de seus mandamentos célebres, não têm amigos.) Justiça e imprensa devem fiscalizar uma à outra, e não confraternizar.


Mas Gilmar parece se orgulhar dos amigos “jornalistas-importantes”. Um deles é Merval, portavoz não oficial da Globo, ou “grilo falante” dos Marinhos, na definição memorável de Mino Carta.


Dê um google e você verá fotos de Gilmar e Merval abraçados, num símbolo de uma promiscuidade que faz um mal terrível ao país.


Gilmar pode xingar quem for de bêbado, repito.


No dia seguinte, a bebedeira terá passado — e ele continuará a ser o que é, um símbolo do que existe de pior na Justiça.

Paulo Nogueira
No DCM

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Luis Nassif: "a Veja continua (inacreditavelmente) pautando a mídia"




Segue texto de Luis Nassif sobre a tendenciosidade agressiva, reacionária e desmoralizadora da mídia que é própria da revista Veja:

Nos anos 2.000, a Folha cometeu o maior erro estratégico da sua história moderna, indo a reboque da revista Veja. Não apenas ela, mas os demais veículos.

Dias desses cruzei com o diretor de redação de uma grande publicação, ferozmente anti-governo. Sem que o provocasse, comentou comigo que Veja não faz jornalismo.

Ou seja, mesmo na frente-mídia montada em 2005, o jornalismo de Veja é motivo de vergonha, a maneira como ideologizam qualquer besteira, o fato de não ter a menor preocupação em se ater aos fatos.

Ou seja, o padrão Veja ajudou a desmoralizar o jornalismo como um todo, lançou ao descrédito todos os grupos de mídia. É só conferir o desafio gigantesco da  Folha para recuperar a imagem perdida, tendo que "explicar" aos leitores qual sua posição e qual a dos colunistas.

Aliás, a posição de um jornal não é o que sai nos editoriais (de baixa leitura) mas na cobertura diária.

A repercussão dada ao factoide da Veja desta semana - tratando como escândalo o suposto conhecimento prévio, pelos convocados da CPI da Petrobras, das perguntas que seriam formuladas, beira o ridículo. Escândalo é continuar se valendo de instrumentos de espionagem, mantendo o padrão que, na Inglaterra, levou jornalistas à prisão, e por aqui continua sendo totalmente tolerado.

Ontem um amigo me ligou dizendo que o Jornal Nacional dedicou quase dez minutos de cobertura. O efeito-manada faz com que Estadão e Folha vão atrás.

Não adianta. Mesmo com o Instituto Millenium, com o fórum da ANJ, com os consultores midiáticos, a mídia padece de uma ausência total de visão estratégica. Não tem o menor cuidado ao se misturar com a lama.

Fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/veja-continua-inacreditavelmente-pautando-a-midia

PERÍCIA COMPROVA: VEJA FRAUDOU FITA DA CPI


Uma perícia contratada pelo senador Delcídio Amaral (PT/MS) demonstra que a revista Veja editou a fita que motivou a capa da última semana, sobre uma suposta farsa na CPI da Petrobras; "Do arquivo analisado separamos segmentos que demonstram a edição do mesmo, sendo claramente perceptível pelo menos duas interrupções na sequência das falas", diz a análise do IPC, o principal instituto de perícias do Mato Grosso do Sul; "O uso de palavras separadas de sua sequência original pode trazer interpretação destoante do efetivo contexto em que teriam sido empregadas"; ontem, em entrevista ao 247, o ministro Ricardo Berzoini defendeu que Veja apresente a íntegra de sua fita gravada com uma caneta espiã; a revista da Marginal Pinheiros aceitará o desafio?

Fonte: https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=3045624345569373835#editor/target=post;postID=1336641655615687832;onPublishedMenu=posts;onClosedMenu=posts;postNum=0;src=link

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Um retrato fiel do STF atual em seu contexto midiático


Seguem abaixo dos textos esclarecedores, sendo um de Luis Nassif e o outro, de Leonardo Boff

Joaquim Barbosa e o exemplo do Tea Party

 
Luís Nassif , hoje, na CartaCapital:

O destempero do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa contra seu colega Luís Roberto Barroso – pelo fato de ter proferido um voto contrário ao seu entendimento – é prova maior do fundo do poço em que o Tribunal foi colocado pelas intenções políticas de alguns ministros.
Quem conhece Joaquim Barbosa de perto, assegura: não é desonesto, não é malicioso, não se mete em negócios obscuros nem em más companhias, como seu colega Gilmar Mendes. Mas é um completo desequilibrado.

Dia desses conversava com um ex-conselheiro do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Dizia ele que, se Barbosa entrar em um recinto e ver duas pessoas cochichando, imediatamente armará encrenca, supondo que estejam falando dele.

***

Na sessão do STF – que deliberou sobre a acusação de formação de quadrilha para os réus da AP 470 – Barbosa interrompeu várias vezes Barroso, foi grosseiro, atropelou todos os códigos de conduta, ao insinuar que o colega teria negociado seu voto para conseguir o cargo.  Mas quem vai tirar o piloto do Boeing em pleno vôo?

***

Tempos atrás, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso alertou para os riscos da aventura Joaquim Barbosa. Mostrou sua falta de tato, de cintura política, a intolerância a qualquer opinião contrária.

Ocorre que o mito Barbosa surgiu impulsionado pelo clima de radicalização, de criminalização da política, do denuncismo desvairado que a oposição levantou a partir de 2006 e, especialmente, a partir da era José Serra.

Trouxeram de volta para a cena política o macartismo, abusaram da religiosidade, despertaram os piores demônios existentes no tecido social brasileiro, aqueles que demonizam as leis e propõem o linchamento, transformaram a disputa política em um vale-tudo.

Não valia denunciar aparelhamento da máquina, a política econômica, apontar erros na gestão pública, como em qualquer disputa política civilizada.

Repetiram nos mínimos detalhes a radicalização da política norte-americana, o movimento da mídia e do Partido Republicano dos Estados Unidos adotando o discurso virulento de ultra-direita do Tea Party.

Durante toda a campanha eleitoral nos EUA, comentaristas vociferantes espalhavam toda espécie de boatos contra Barack Obama. A campanha viciou o eleitorado republicano nas catarses do Tea Party e o partido terminou refém da radicalização. Hoje em dia, as vozes mais preparadas e ponderadas dos republicanos têm enorme dificuldade em reconduzir o partido para o caminho da moderação e da responsabilidade política.

***

Por aqui, caminha-se para o mesmo desfecho. Só que esse espaço catártico, que Serra preparou para ele próprio, foi ocupado por um jacobino autêntico. Serra era um simulacro de radical, Barbosa é um radical em estado bruto.

LEONARDO BOFF: BARBOSA NÃO HONRA O STF


Extraído do Brasil 247:

Pensador diz que, da estátua que representa a Justiça, Joaquim Barbosa ficou sem as vendas porque não foi imparcial, aboliu a balança porque ele não foi equilibrado, e só usou a espada para punir mesmo contra os princípios do direito: “O animus condemnandi (a vontade de condenar) e de atingir letalmente o PT é inegável nas atitudes açodadas e irritadiças do Ministro Barbosa”.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Há conspiração golpista eleitoreira contra a Copa?

Segue texto de Miguel do Rosário sobre este tema, extraído do Tijolaço:




Um espectro ronda o Brasil de 2014. Há conspiração política para melar a Copa do Mundo e manipular eventuais protestos para provocar instabilidade política, violências e, com isso, abrir caminho para a direita chegar ao poder?

Sinceramente, prefiro tratar o assunto como pura teoria da conspiração. O problema é que todas as teorias de conspiração – assim tratadas – dos anos 60 e 70, sobre golpes da CIA no terceiro mundo, revelaram-se verdadeiras. Teorias de conspiração me lembram famosa máxima espanhola, imortalizada no clássico de Cervantes, Don Quixote: “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

Conspiração ou não, o tema é exótico e interessante, e já está preocupando muita gente séria. É o caso de Gabriel Priolli, um experiente jornalista e diretor de televisão que já editou o Jornal Nacional e chefiou o jornalismo na TV Gazeta e TV Record. Priolli trata o assunto com seriedade e extrema preocupação:

Acumulam-se as evidências de que setores conservadores, descrentes de sua capacidade de sedução do eleitorado pelas vias convencionais, cogitam se lançar na aventura catastrofista da Copa. Pretendem que o maior evento já realizado no país fracasse espetacularmente, para o máximo constrangimento e desgaste do governo atual. Acham que colherão os louros dessa ação de lesa-pátria.”
*

A Jogada da Copa
Por Gabriel Priolli, em seu blog.

Seis meses depois dos protestos que tomaram inúmeras cidades brasileiras, decantadas as insatisfações apresentadas pelos manifestantes e as múltiplas soluções aventadas por todos os atores políticos para a estranha crise que se formou, temos um quadro bem claro. A maioria da população quer mudanças no país, mas prefere que elas sejam conduzidas por Dilma e não pela oposição. A presidenta lidera em todas as sondagens de intenção de voto.

Falta muito tempo até as eleições, certamente, e já assistimos a oscilações espetaculares de intenção de voto nos pleitos anteriores, inclusive candidaturas que “atropelaram” na reta final e venceram. Tudo pode acontecer, portanto, até que se proclamem os resultados. Mas, até segunda ordem, quem lidera é Dilma. A soma dos votos de seus adversários não supera os votos da candidata governista e tudo indica que a eleição será definida já no primeiro turno.

Sim, mas há um outro roteiro possível para este ano. Nele, as massas sairiam novamente às ruas em junho, em plena Copa do Mundo, e causariam tal transtorno à competição que seria impossível ignorá-las. A mídia mundial distribuiria a todo o globo imagens de multidões pedindo reformas, de black blocs destruindo seus alvos habituais e das polícias reprimindo com a cortesia conhecida.

As cenas passariam a impressão de um país sem governo e de um governo sem legitimidade – impressões absolutamente falsas. Mas o que é mesmo a verdade, nessas coisas da mídia e da enunciação de seus conteúdos?

Um governo “ilegítimo”, pressionado externamente, ficaria acuado também pelos adversários internos. Estes amplificariam ao máximo possível os protestos e tentariam conduzir a sua pauta, exatamente como fizeram em 2013. Para criar um clima de megacrise, que nenhum ponto de contato tem com o real. Mas o que é exatamente o real, quando se tem o controle do que a mídia diz sobre ele?

Quem sabe se, em meio ao eventual fiasco da Copa – corre-corre e pancadaria nas imediações dos estádios, os inevitáveis problemas organizativos amplificados ao extremo, as queixas e angústias dos turistas constrangidos pelo clima de guerra política no Brasil e, prêmio final, uma boa derrota da seleção nacional -, os eleitores não embarquem na ideia de jogar toda a culpa em Dilma? Quem sabe não escolham na urna uma alternativa de oposição?

Acumulam-se as evidências de que setores conservadores, descrentes de sua capacidade de sedução do eleitorado pelas vias convencionais, cogitam se lançar na aventura catastrofista da Copa. Pretendem que o maior evento já realizado no país fracasse espetacularmente, para o máximo constrangimento e desgaste do governo atual. Acham que colherão os louros dessa ação de lesa-pátria.

É simplesmente doentia a ideia de que, para conquistar o poder de “consertar” o país, alguém considere aceitável que a nossa imagem internacional seja destruída. Que o Brasil seja penalizado por décadas, pela “incapacidade” de realizar grandes eventos internacionais. E que isso aconteça fundamentado em mentira e manipulação da opinião pública.

Mas, infelizmente, a possibilidade é bastante concreta. Daqui até junho, provavelmente veremos novas convocatórias para que as massas voltem às ruas e façam manifestações “espontâneas”. Assistiremos à incitação explícita de atos destinados à desestabilização do governo. “Não vai ter Copa!”, bradarão outra vez os carbonários – com todas as câmeras e microfones à sua disposição.

Dias atrás, na primeira vez em que externei essa preocupação, recebi o previsível fogo de barragem. Disseram que é paranóia minha, exagero. Que as convicções democráticas da oposição e de sua mídia são inquestionáveis. E que a eleição transcorrerá dentro das regras, sem tentativas de tapetão.

Será mesmo? O pré-golpe de 1964, em que muitos não acreditavam que a legalidade fosse demolida, talvez nos ensine melhor sobre os métodos do conservadorismo para tomar o poder. E sobre como ele é campeão em destruir a democracia, para “salvá-la” da ameaça dos governos populares.

Por que deveríamos confiar agora em quem não foi confiável no passado e segue não sendo?
*

PS: Vinicius Freire, colunista da Folha, também considera a hipótese de protestos contra a Copa se transformarem em arma eleitoreira.