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segunda-feira, 25 de abril de 2022

Marinha usa recursos públicos para comprar livros de 'educação religiosa' para seus integrantes

 

Após escândalos do Viagra, próteses penianas e picanha, Marinha compra livros para ''educação religiosa" que incluem até histórias infantis sobre o cristianismo


www.brasil247.com -

(Foto: Reprodução | ABr)

247 - Em meio aos escândalos da compra de pílulas contra a disfunção erétil, de próteses penianas e de alimentos de luxo pelas Forças Armadas, a Marinha do Brasil tem usado recursos públicos para distribuir ou oferecer bíblias e livros cristãos a seus integrantes alegando a necessidade de fornecer “educação religiosa” aos militares. 

De acordo com o Metrópoles, “as compras, geralmente de algumas dezenas de exemplares, são feitas com dispensa de licitação. A modalidade pode ser aplicada para aquisições até o limite de R$ 17,6 mil”. 

Chama a atenção, porém, o fato de que o material vai além das aquisições de material para o setor de capelania - como bíblias para padres e pastores, estolas, hóstias e velas - e incluem “manuais e e atlas geográficos da Bíblia, além de livros infantis com histórias do cristianismo, de autoconhecimento ou que trazem discussões sobre o evangelho e a teologia de Jesus Cristo”. A Marinha tem 50 capelães, segundo o site do Ordinariado Militar do Brasil.

Para Saulo Malcher Ávila, advogado especialista em direito administrativo do escritório Mota Kalume Advogados, existe um “potencial ato de improbidade administrativa” nas compras dos livros religiosos pela Marinha.

“Para além do inevitável debate acerca da possível quebra da laicidade do Estado brasileiro, chama a atenção a utilização de recursos públicos para a aquisição desses bens pelo poder público, pois, a priori, destoa da missão constitucional das Forças Armadas, que se destinam à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem, podendo haver desvio de finalidade”, disse Ávila. 

Ainda segundo ele, “a conduta também pode estar em choque direto com o princípio da impessoalidade, visto que o dispêndio de recursos públicos não pode ter como critério preferências pessoais. Ainda que tal conduta fosse adotada, ela poderia ser discriminatória, pois os itens se referem a uma religião específica”.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Forbes desmonta justificativa dos militares para compra de Viagra e debocha do governo Jair Bolsonaro. Reportagem de Cíntia Alves para o GGN

 

Revista Forbes trata como improvável a hipótese de a Marinha brasileira ter um grande número de militares com HAP, doença considerada rara

Um artigo publicado na revista norte-americana Forbes no dia 17 de abril de 2022 desmonta a narrativa usada pelos militares brasileiros para justificar a abertura de pregões para comprar mais de 35 mil comprimidos genéricos de Viagra. O escândalo foi revelado em reportagem do UOL, que se baseou em um levantamento feito pelo deputado federal Elias Vaz, do PSB.

As Forças Armadas abriram processos para comprar 35.320 comprimidos com o composto sildenafil, que é o nome genérico do Viagra, em doses de 25 mg e 50 mg. Mais de 28 mil comprimidos seriam destinados à Marinha, enquanto o Exército e a Força Aérea ficariam com 5 mil e 2 mil comprimidos, respectivamente. Questionada, a instituição afirmou que os medicamentos – usualmente administrados no combate à disfunção erétil – seriam usados em tratamentos de hipertensão arterial pulmonar (HAP).

No artigo escrito pelo jornalista e médico Bruce Y. Lee, a Forbes desmonta a justificativa dos militares. O artigo explica que a HAP eleva “a pressão nas artérias que levam sangue do coração para os pulmões” e que existem várias causas possíveis para a HAP, “variando de altitude elevada a defeitos cardíacos congênitos, exposição a drogas ou toxinas, distúrbios do tecido conjuntivo a infecções por HIV ou esquistossomose.”

“De fato, os médicos têm usado sildenafil em alguns casos para tratar a HAP.” Porém, o distúrbio é considerado “raro”, sendo encontrado em 15 a 50 pessoas por milhão nos Estados Unidos e na Europa, de acordo com dados extraídos de uma revista científica americana.

“Portanto, provavelmente não há um grande número de militares brasileiros com HAP crônica. Mesmo se você argumentar que o sildenafil foi para ajudar a aliviar a HAP temporária induzida por grandes altitudes, não é como se a maior parte do sildenafil fosse para militares que provavelmente operam em grandes altitudes. De acordo com a reportagem do UOL, 28.320 comprimidos foram para a Marinha, o que significa que muito do sildenafil pode ter ido para os marinheiros. Presumivelmente, muitos membros da Marinha trabalham ao nível do mar. E o nível do mar tende a estar no nível do mar, e não no topo das montanhas”, ironizou o artigo.

“Além disso”, continuou o autor, “as doses de 25 mg e 50 mg compradas pelos militares brasileiros parecem um pouco, digamos, grandes para fins de HAP.” Nos Estados Unidos, médicos recomendam de 5 mg ou 20 mg de sildenafil três vezes ao dia para adultos em tratamento de HAP, “com cada dose espaçada de quatro a seis horas.” Logo, a dosagem dos comprimidos desejados pelas Forças Armadas está acima do recomendado para tratamento de HAP.

“Resta saber que outras explicações para as compras de sildenafil surgirão. A administração de Bolsonaro será capaz de fornecer uma razão importante e não impotente? Haverá justificativa suficiente para que isso seja uma ordem permanente? Ou isso será considerado um caso de fraude de ereção?”, indagou a Forbes, fazendo trocadilhos, em tom debochado, com as palavras “election” e “erection”, além de “important” e “impotent”.

Não foi a única vez que o trocadilho apareceu no artigo da Forbes. Logo no começo, a revista também debochou da situação inusitada envolvendo os militares, afirmando que o ano de 2022 no Brasil é de eleição (election), mas, aparentemente, alguns no governo Bolsonaro entenderam que é ano de ereção (erection).

Leia também:

1 – Além de próteses e viagra, Forças Armadas gastaram R$ 546 mil em botox

2 – Viagra, na dose comprada pelos militares, não é recomendado para tratar hipertensão