Mostrando postagens com marcador o Estado de São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador o Estado de São Paulo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Quem escreveu e por quê: anatomia do editorial macartista do Estadão contra Greenwald. Por Kiko Nogueira

Pereira, autor do texto contra Greenwald, chefe dos editorialistas do Estadão
Pereira, autor do texto contra Greenwald, chefe dos editorialistas do Estadão
Texto de Kico Nogueira, do DCM, com reportagem de Pedro Zambarda.

O editorial do Estadão pedindo uma “atitude mais resoluta” do governo interino contra “os advogados da causa petista” já entrou em qualquer antologia da crônica do golpe de 2016 pelos piores motivos.
“O jogo sujo da informação” é uma diatribe sobre “a campanha de difusão de falsidades cujo objetivo é denunciar a ‘ilegitimidade’ do presidente em exercício Michel Temer.”
O jornalista americano Glenn Greenwald, radicado no Rio, é atacado como “ativista”. Greenwald, ganhador do Pulitzer, ainda apanha por uma frase que não escreveu, pinçada do blog O Antagonista.
A peça submacartista, que sugere que o Itamaraty busque a expulsão de Greenwald, está no clássico espaço dos editoriais, instituição da imprensa nacional.
Eles não têm assinatura. É a “opinião do jornal”. Parece inacreditável, mas no caso do artigo em questão e outros, eles são perpetrados por seres humanos e não por um entidade da Marginal Tietê que os faz materializar-se a partir de água, ar, calor, lei e ordem.
Quem escreveu “O jogo sujo da informação”?
O repórter Pedro Zambarda fez essa pergunta ao time de editorialistas. Eles ficam numa ala separada da redação, em cubículos com mesa e telefone. “A sala deles lembra uma cabine de pornô do centro da cidade”, diz um funcionário.
São nove homens chefiados pelo editor Antonio Carlos Pereira. Todos seniores: Nicolau Cavalcanti, Marco Antonio Rocha, José Nêumanne Pinto, Lourenço Dantas Motta, José Eduardo Faria, Antonio Ferreira Paim, Jorge Okubaro, Marco Zuckerman, além do professor de filosofia da USP Rolf Kuntz.
Pereira responde diretamente para Fernão Lara Mesquita, filho de Ruy, morto em 2013. Fernão é conhecido por ter desfilado num protesto ostentando orgulhoso um cartaz escrito “Foda-se a Venezuela”.
O relato de Zambarda:
Nêumanne afirmou que o texto não é dele. “Infelizmente não posso comentar editoriais do jornal porque não seria ético da minha parte”, declarou.
Cavalcanti também negou a criança. Marco Antonio Rocha repetiu Nicolau e emendou num tom de voz mais grosso ao telefone: “Óbvio que eu concordo com esse editorial! Eu sou um dos editorialistas!”.
Jorge Okubaro e Rolf Kuntz recomendaram entrar em contato com Antonio Carlos Pereira: “Ele é o responsável pela seção e é ele que pode responder”.
O filho enjeitado foi assumido, enfim, por Pereira, que teve um chilique. “Em meus mais de 50 anos de carreira, nunca fui questionado desta forma! Se você fosse um advogado do Glenn Greenwald, eu entenderia esta ligação. Mas para escrever uma reportagem sobre o meu texto? O texto do jornal é o que ele é”, vociferou.
Perguntei-lhe o que ele quis dizer ao chamar Greenwald de ativista. “Olhe no dicionário!”, gritou. E mandou passar bem.

Pereira está há 33 anos na empresa. Dono de uma barba grisalha que contrasta estranhamente com o cabelo negro como a asa da graúna, low profile, ele é um dos fundadores do Instituto Millenium.
Num certo “Curso de Focas”, contou aos jovens que “ter política definida está no DNA da publicação” e que ela “nasceu para apoiar a República e lutar pelo fim da escravidão”.
Pereira fica chocado quando questionado sobre as barbaridades de sua lavra, mas é compreensível por que Pereira não é Pereira. Embora estejam todos de acordo no direitismo jeca da tradicional família paulista (chame de liberais conservadores), ele e seus chefiados são uma mesma pessoa, o dono Fernão Mesquita.
Adversários devem ser chamados de “matilha” e “tigrada”, como faziam os nazistas? Pois não. Ciclistas andam nas calçadas e merecem a prisão? Combinado. E por aí vai.
Não é para questionar nada, mesmo. Não concorda? Fodam-se a Venezuela, a ética, a democracia, a liberdade de expressão e a capacidade de pensar por conta própria.

(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O fascismo do golpista Estadão contra Glenn Greenwald



Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

No dia da Parada Gay em São Paulo, o Estadão pariu um editorial em que tirou do armário seu fascismo, seu antijornalismo e sua vocação para a delação.

“O jogo sujo da desinformação” faz uma defesa canhestra do interino e dá uma bandeira enorme, inapelável, do quanto incomoda a denúncia do golpe lá fora.

“O Brasil, sua democracia e suas instituições estão sendo enxovalhados no exterior por uma campanha de difusão de falsidades cujo objetivo é denunciar a ‘ilegitimidade’ do presidente em exercício Michel Temer”, começa o negócio.

“Diante da ousadia desses delinquentes a serviço da causa lulopetista, não basta ao Itamaraty limitar-se a orientar suas missões no exterior sobre como responder a essa onda de desinformação”.

Segue: “Será necessária uma atitude mais resoluta para contra-arrestar as mentiras e deixar claro aos governos e à opinião pública de outros países que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff vem cumprindo todos os requisitos legais (…).”

Pelas tantas, depois de um blábláblá sobre a posição do Departamento de Estado dos Estados Unidos, o jornal dá nome ao boi que o incomoda: “Os advogados da causa petista, aqui e no exterior, não se sentem constrangidos em apelar para a desinformação quando se trata de tentar caracterizar a ‘ilegitimidade’ de Michel Temer. Um desses ativistas, o americano Glenn Greenwald, chegou ao cúmulo de publicar reportagem na qual diz que Temer não poderia assumir a Presidência porque ‘está por oito anos impedido de se candidatar a qualquer cargo público’.”

Traduzindo: o Itamaraty é Serra, velho amigo da casa, que usou um dos articulistas para o famoso agrado a Aécio intitulado “Pó pará, governador”.

E a “atitude mais resoluta”? Bem, eis um apelo implícito para que Greenwald seja expulso. Basta acionar o Estatuto do Estrangeiro, promulgado em 1980 por João Figueiredo, durante a ditadura.

O 107 artigo reza que “o estrangeiro admitido no território nacional não pode exercer atividade de natureza política, nem se imiscuir, direta ou indiretamente, nos negócios públicos do Brasil”.

No artigo 65, lê-se que “é passível de expulsão o estrangeiro que, de qualquer forma, atentar contra a segurança nacional, a ordem política ou social, a tranquilidade ou moralidade pública e a economia popular, ou cujo procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais”.

Recentemente, uma professora italiana da UFMG, Maria Rosaria Barbato, recebeu uma intimação da Polícia Federal para comparecer a um interrogatório baseada nessa excrescência.

A infantilidade de chamar Greenwald de ativista é tragicômica. Ele é ganhador de um Pulitzer pelo furo do esquema de espionagem da NSA. Mora no Rio.

Tornou-se, pela credibilidade, talento e competência, uma referência para a mídia internacional com relação à crise política no Brasil. Felizmente, o Estadão não é levado a sério nem aqui - a não ser pelos extremistas da Paulista que adulou.

O autor do ataque é um covarde anônimo do “time de editorialistas”, uma espécie de sociedade dos patetas mortos. Mas poderia ser da lavra de Claudio Marques, um tipo que teve espaço no finado Shopping News, distribuído gratuitamente em 1975.

Marques fazia uma campanha virulenta contra o que chamava de “TV Vietcultura”, gritando contra a infiltração “comunista” na TV Cultura pelas mãos do diretor de jornalismo Vladimir Herzog. Marques trabalhava para o DOI-Codi, cujos agentes acabaram, um dia, prendendo, torturando e assassinando Herzog.

O Estadão apoiou o golpe de 64 como o de 2016. A conversa fiada sobre a “resistência” aos militares sempre apela para a fábula das receitas de bolo ou versos de Camões que entravam no lugar do que era censurado etc etc.

Na verdade, é amendoim diante do que foi feito no sentido de dar suporte ao regime. Em junho de 1968, meses antes do AI 5, um editorial defendeu a censura.

“Foi uma oportuna manifestação a que se registrou recentemente na Assembléia Legislativa, pela palavra do deputado Aurélio Campos, sobre os excessos que se tem verificado em representações teatrais no terreno do desrespeito aos mais comezinhos preceitos morais. O mundo teatral – tanto os atores e atrizes como os autores – vêm movendo uma campanha sistemática contra a censura, e como esta nem sempre é exercida por autoridades à altura de tão graves e, às vezes, tão delicadas questões, a tendência de muitos é cerrar fileiras entre os que combatem.

O que na censura geralmente se vê é uma ameaça à liberdade, o que assume a feição particularmente antipática quanto à liberdade ameaçada é a artística. Carradas de razão, entretanto, teve o parlamentar acima referido ao assinalar, a propósito de peça teatral a cuja representação assistira, que a censura, longe de se mostrar rigorosa no escoimá-la de seus exageros mais escandalosos, o que revelou foi uma complacência que não pode deixar de ser severamente criticada.(…)”


Falimentar, decadente, sem leitor e sem anúncio, a empresa teve de ser, há pouco tempo, evacuada por causa de uma infestação de mosquitos da dengue. Esse é o nível. Funcionários são executados em passaralhos mensais com postos avançados do RH.

Só não é vendido porque não tem comprador. Quer dizer, vendido sempre foi, aos mesmos grupos que o sustentam desde sempre. Dedo duro também. E, se Greenwald é “ativista”, o limítrofe herdeiro Fernão Mesquita, na foto abaixo, é o quê?