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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O indivíduo – parte II – A doutrinação religiosa, por Marcio Valley (ou de como a religião formal institucionalizada mata a espiritualidade e a liberdade para adestrar pessoas à aderirem à vontade dos poderosos da Terra)

 

  Espinosa, dissecando o poder existente em seu tempo, o monárquico, compreendeu que o segredo do sucesso do poder consistia em enganar a população “dissimulando, sob o nome de religião, o temor ao qual se quer acorrentá-los; de forma que eles combatem por sua servidão como se fosse sua salvação”3. Dito de modo mais simples: o discurso fraudulento do poder, disseminado pela religião, conduz o povo, não somente a atirar no próprio pé, mas a desejar fazê-lo por supor ser em nome do bem e da salvação de si e dos amados


Do Jornal GGN:


O indivíduo – parte II – A doutrinação religiosa

por Marcio Valley

            No artigo anterior, O indivíduo – Egoísmo, altruísmo e dívida simbólica1, problematizamos o comportamento do principal elemento da sociedade, o indivíduo, a partir da influência sobre ele exercida pelos instintos do egoísmo e do altruísmo, além de argumentar sobre os antecedentes necessários à quitação de sua dívida simbólica com a sociedade. Neste, falaremos sobre o impacto da religião na vida individual.

            A missão, claro, é atravessada por conceitos e isso, por vezes, torna-se um óbice à compreensão, pois significados variam de indivíduo para indivíduo. Conceitos são conjuntos de palavras utilizados para definir a ontologia do objeto da fala; mais precisamente, os conceitos descrevem as características inerentes à coisa examinada. Na definição do historiador alemão Reinhart Koselleck (1923-2006), conceitos são as palavras envolvidas por todas as camadas de suas circunstâncias, ou seja, é o vocábulo enriquecido axiologicamente pelas conjunturas políticas, sociais e empíricas nas quais e para as quais elas são utilizadas2. Disso decorre que a evolução da história social é acompanhada de idêntica evolução na história dos conceitos, produzindo uma dinâmica conceitual que pode se tornar um empecilho a uma correta hermenêutica. Um indivíduo com 80 anos de idade, em geral, interpretará de modo diferente a palavra dita, em relação a um outro, com 15 anos. Essa dissonância semântica tende a se aprofundar com o passar do tempo, exigindo, por exemplo, que um leitor atual leia um livro de autor do século XVII com o cuidado de colocar a obra na devida perspectiva temporal.

            Não bastasse isso, a correta interpretação da palavra transmitida ainda pode encontrar obstáculo na polissemia das palavras, multiplicidade de significações traduzida materialmente como entendimentos distintos sobre o mesmo conceito ou vocábulo. Num exemplo banal, a palavra “laranja” pode assumir o significado de um fruto, uma cor ou de pessoa utilizada por outra, oculta, para a prática de fraudes. Tal confusão semântica é transferida aos conceitos, sendo capaz de provocar ruído entre emissor e receptor, sujeitos que são a historicidades individuais e bagagens culturais distintas, do que resultam interpretações contraditórias sobre a mesma mensagem.

            Em vista de tais possibilidades, ao autor de obra de pensamento cabe buscar mitigar ao máximo o poder dos ruídos, elucidando o significado que deseja imprimir às palavras e aos conceitos utilizados. Dessa forma, independentemente do significado que o leitor/receptor tenha sobre um determinado conceito que surja na mensagem, terá a exata noção do sentido que a ele foi concedido pelo autor.

            Esse é o objetivo do artigo anterior e também o desse. Busca-se conferir um sentido comum, obviamente a partir da ótica do autor, à percepção dada aos conceitos de indivíduo e de sociedade, suas inclinações, objetivos, politica e interpretação da realidade, que serão temas de artigos futuros. Aqueles que me honraram com a leitura de artigos anteriores, poderão sentir uma certa similaridade dos novos textos com alguns já publicados. Não se trata de repetição, mas de uma reescrita necessária para a homogeneidade e fluidez da exposição do pensamento em um formato mais longo e aprofundado.

            Ao final do texto anterior, dissemos que a religião foi a primeira forma de adestramento dos impulsos naturais, concretizando-se através da imposição do medo da divindade. Constitui-se em instituição humana que se notabiliza por afirmar-se portadora da imutável palavra divina, o que a torna possivelmente uma das estruturas humanas mais resistente às mudanças. Afinal, se os deuses são perfeitos, produziram um mundo perfeito e nada deve ser mudado, salvo para a radicalização da fé. Espinosa, dissecando o poder existente em seu tempo, o monárquico, compreendeu que o segredo do sucesso do poder consistia em enganar a população “dissimulando, sob o nome de religião, o temor ao qual se quer acorrentá-los; de forma que eles combatem por sua servidão como se fosse sua salvação”3. Dito de modo mais simples: o discurso fraudulento do poder, disseminado pela religião, conduz o povo, não somente a atirar no próprio pé, mas a desejar fazê-lo por supor ser em nome do bem e da salvação de si e dos amados. Ou seja, ação equivocada promovida pela ilusão. Segundo Freud4, o erro é um juízo enganoso sobre a realidade, enquanto a ilusão é esse mesmo erro preenchido pela esperança de concretização. Por conta disso, pontifica, dada a sua natureza mista de erro atravessado pelo desejo, a religião é uma ilusão.

            No início, o propósito religioso era cosmogônico: explicar a criação e os fenômenos da natureza, assustadores e incompreensíveis, conferindo-lhes sentido. Não por outra razão, coisas naturais como Sol, Lua, relâmpagos e trovões foram alçados à posição de deuses ou de eventos por eles criados. Num segundo momento, a religiosidade já absorvida pela cultura laica passa a ser manipulada para o controle da sociedade. No livro Mitologia: deuses, lendas, heróis5, assim são descritos os fins políticos desejados por Zeus:

O título de rei dos deuses não é fortuito. Zeus é a mais política de todas as divindades. Ele exige dos homens o respeito às leis divinas: a devoção à família, à vida pública, à confederação de cidades-Estado gregas, a ajuda aos suplicantes e aos estrangeiros, os juramentos. Em resumo, tudo o que garante o funcionamento de um Estado bem gerido: suas leis, sua polícia, sua hierarquia e suas Forças Armadas. Zeus é a fonte de todas as leis e de todo o poder que um homem tem sobre outros. Dele emana a legitimidade com a qual os indivíduos criam e executam as leis (da mesma forma como, muito mais tarde, reis cristãos receberão de Deus a sua própria legitimidade).

            Embora se refiram ao principal deus da extinta crença grega, os autores não se furtam a apontar, na parte final do trecho destacado, que a influência política da religião não se limita aos gregos clássicos. Menciona-se o cristianismo, mas de fato ocorrem em diversas outras religiões, por vezes pesadamente.

            No islamismo, os livros santos não somente determinam a teocracia (governo religioso), mas regulam a totalidade do comportamento individual, ou seja, alcançam toda a ação sociopolítica da pessoa, o que se traduz em totalitarismo, pois prega uma ideologia de controle que abrange a vida total. Desse modo, considerado apenas o islamismo, a palavra sagrada é diretamente responsável pela orientação política de 23,4% da população mundial, ou seja, cerca de 1,6 bilhão de pessoas em 20106. Trata-se de pessoas obrigadas a orientar toda a vida pessoal e política segundo os ditames dos sacerdotes religiosos, únicos intérpretes autorizados da palavra sagrada. Dependendo do país e do intérprete do Corão, mulheres são obrigadas a cobrir certas partes do corpo, desde um simples véu para cobrir os cabelos até o exagero de uma burca; as esposas devem obediência aos maridos; não podem sair sozinhas ou dirigir veículos; não possuem liberdade para escolher certas profissões; devem aceitar a poligamia dos homens; sujeitam-se ao horror indizível de serem mutiladas na infância para a retirada do clitóris (circuncisão feminina). Quanto à atuação política feminina, embora garantido o direito ao voto feminino em grande parte dos governos islâmicos, o gradiente se estende de papel reduzido a nenhum, porém sempre inferior ao masculino, seguindo a linha traçada por Maomé ao ponderar que “nunca terá sucesso uma Nação que faz de uma mulher sua Rainha”7. A homossexualidade, mais pesadamente a masculina, é definida como crime em grande parte dos países muçulmanos, nos quais é punível com penas que se estendem desde uma simples multa ou prisão comum, até barbaridades como flagelamento, prisão com trabalhos forçados, prisão perpétua e o extremo da pena de morte por enforcamento, decapitação, apedrejamento ou fuzilamento, dependendo do país e do crime; o adultério e outras relações sexuais consideradas ilícitas, em certos casos, também pode resultar em morte; países muçulmanos não possuem legislação antidiscriminatória favorável aos homossexuais, não aceitam casamentos gays e muito menos a adoção de crianças por eles; o aborto pode ser penalizado com apedrejamento público.

            Perceba-se que não são meras exigências da religião dirigidas a pessoas que professam uma determinada fé, como ocorre com muitas religiões, cujo máximo em termos de malignidade é o de permear a sociedade com um falso moralismo hipócrita. Estabelecida uma teocracia, qualquer que seja a religião, prevalecem os ditames dos livros sagrados; situações medievais, como as antes elencadas, são alçadas à condição de política de Estado, independentemente da fé pessoal. No caso muçulmano, trata-se da sharia, lei islâmica ancorada diretamente nos ensinamentos do Corão. Aliás, como exemplo de que qualquer teocracia é daninha, a blasfêmia (insulto à religião), a heresia (interpretação da religião considerada falsa pelos sacerdotes) e a apostasia (renegação da religião da qual se era fiel, trocando por outra ou se tornando ateu), assim como a bruxaria, podiam resultar no passado, nos assim chamados “julgamentos” realizados pela inquisição cristã, em penas de tortura, esquartejamento e morte. Atualmente, em muitas teocracias islâmicas, ainda resultam. Uma fatwa pode tornar-se um mandado geral de morte, dirigido a todo e qualquer muçulmano, como bem sabe o escritor inglês Salman Rushdie, que vive há trinta anos escondido por conta de uma condenação islâmica que sofreu no ano de 1989, em virtude do lançamento de seu livro Os versos Satânicos, caracterizado como blasfêmia pelo aiatolá Khomeini, então dirigente espiritual do Irã.

            No judaísmo e no cristianismo, este último estabelecendo regras comportamentais para mais de 2,3 bilhões de pessoas, a Bíblia (Antigo Testamento dos cristãos), livro sagrado de ambas as religiões, assegura que a legitimidade dos reis provém diretamente de Deus, afirmação expressamente corroborada no livro de Provérbios (8:15-16), estabelece-se o domínio de Deus sobre o poder, a política e a justiça: “Por meu intermédio os reis governam e as autoridades exercem a justiça; também por meu intermédio governam os nobres e todos os juízes da terra”. Em Êxodo (22:28) reforça-se o dever de respeito à autoridade: “Não blasfemem contra Deus e não amaldiçoem uma autoridade do seu povo”.

            O Novo Testamento dos cristãos igualmente determina a submissão do povo ao poder estabelecido. O livro de Pedro (2:17, ou seja, capítulo 2, versículo 17) impõe aos crentes a seguinte norma: “Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei”. Já o livro de Timóteo (2:1-2), assim professa: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade”. O próprio Jesus, segundo Mateus (22:17-21), conclamou seus seguidores a respeitar o poder estabelecido, para o que utilizou a figura do correto pagamento dos impostos, ao proferir o famoso dito “deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Em Tito (3:1-2), a apologia à obediência ao governo prossegue: “Lembre a todos que se sujeitem aos governantes e às autoridades, sejam obedientes”.

            Honrem o rei e as autoridades, orem por eles, sujeitem-se ao seu poder, não falem mal deles, sejam obedientes e paguem seus impostos; tudo isso é ensinamento sagrado para os que assim acreditam, ou seja, para cerca de 4 bilhões de pessoas, mais de metade da população mundial. Todavia, independentemente da fé professada por cada um, inclusive fé nenhuma, se tornariam comportamentos mandatórios para todas as pessoas na hipótese da instituição de teocracias judaico-cristãs. Alguns desses “ensinamentos” estipulam punições terríveis para comportamentos que podem ser classificados como banais, como apedrejamento até a morte da mulher que praticar sexo antes do casamento (Deuteronômio 22:20-21); corte da mão da mulher que, em defesa do próprio marido, pegar os testículos do agressor (Deuteronômio, 25:11-12); e morte para os homens homossexuais (Levítico 20:13). No passado, como já dito, foram eles o sustentáculo normativo utilizado para a prática de tortura e morte de milhares de pessoas, principalmente mulheres, pelo Santo Ofício.

            A Bíblia, vinda diretamente da “sabedoria” de Deus, contém algumas proibições absolutamente ridículas: coito interrompido (Gênesis, 38:9-10); sexo antes do casamento (Deuteronômio 22:20-21); homem entrar na igreja se não tiver pênis ou testículos e tampouco o bastardo, até a décima geração (Deuteronômio, 23:1-2); comer carne malpassada, ou seja, com gordura ou sangue (Levítico 3:17); comer animais aquáticos que não tenham barbatanas ou escamas (Levítico, 11:12); comer carne de porco ou mesmo tocar no animal morto (Levítico 11:7-8); criar tipos diferentes de animais em casa, semear sementes de plantes diferentes e vestir roupas feitas de materiais distintos (Levítico, 19:19); cortar o cabelo e aparar a barba (Levítico, 19:27); ter tatuagens (Levítico, 19:28); ler horóscopos (Levítico, 19:31); divorciar-se ou separar-se e casar novamente (Coríntios, 7:10-11, e Marcos, 10:7-12); adornar-se a mulher com tranças nos cabelos, roupas caras e acessórios elegantes (Timóteo 1, 2:9-12); praticar a mulher o ato de ensinar, não se manter em silêncio e não se sujeitar ao marido ou ter sobre ele alguma autoridade (Timóteo 1, 2:9-12).

            Além disso, a Bíblia aquiesce com comportamentos atualmente classificados como desumanos, como a expressa permissão nela contida para o comércio e trabalho de escravos, inclusive para a transmissão hereditária dos escravos (Levítico, 25:44-46).

            Vale destacar ser indefensável o argumento de que “os tempos eram outros”. A interpretação segundo o espírito da época é condição indispensável para a compreensão da cultura laica, mas não se aplica à religião. Isso porque, nessa hipótese, trata-se da voz de Deus, infalível e jamais revogada. Atualmente é comum invocar o sentido figurado da palavra bíblica, mas, no passado recente, um número incalculável de pessoas morreram sob a acusação de ofensa à literalidade do texto bíblico. O que nos ensina a própria Bíblia é que, num passado longínquo, a sacralidade foi transmitida diretamente para os eleitos, como Abraão ou Moisés, com sonoridade audível e muitas vezes com visões e aromas, sem intermediações. Desse modo, não se concebe a possibilidade de que seres humanos possam, ao longo do tempo, modificar a interpretação da literalidade da palavra sacra, mesmo invocando uma suposta orientação do “Espírito Santo”. A possibilidade de fraude praticada por supostos profetas é tão gritante que torna impossível crer que Deus, com tamanha inteligência e sabedoria, tomaria tal caminho. Haveria a própria divindade, novamente de voz viva, sensível aos ouvidos, com testemunhas, de informar alguma mudança na legislação divina, o que, até o momento, aparentemente não ocorreu.

            No aspecto de uma análise hermenêutica fundada estritamente numa perspectiva religiosa, tudo faz sentido: Deus é onipotente e tudo é criação Dele, de modo que os reis também o são, o que obriga os fiéis, por deferência ao divino, a respeitar a autoridade instituída. Isso é dito claramente em Provérbios (8:15-16), como visto acima, segundo o qual os governantes (reis, nobres, autoridades, juízes e o guarda da esquina) governam e fazem justiça por intermédio de Deus. O silogismo é o seguinte: (a) Deus é onipotente e criou tudo o que existe, ou seja, todas as criaturas; (b) os governantes existem e, portanto, são criaturas; (c) logo, Deus criou os governantes. Trata-se de um tipo de explicação que claramente esbarra na possibilidade de uma outra conclusão silogística a partir de premissas similares: (a) Deus é onipotente e criou tudo o que existe; (b) o mal existe, inclusive e talvez principalmente, nas relações de poder, portanto, é uma criatura; (c) logo, Deus criou o mal. Embora o primeiro silogismo seja aceito sem grande contestação pelos sacerdotes, o segundo não encontrará ressonância em nenhum deles e possivelmente será respondido pela solução padrão dada às inconsistências religiosas: o indefectível “milagre da fé”. Em resumo: Deus tudo cria, menos o mal, que é obra do Diabo. Ocorre que o Diabo é criatura de Deus, mais especificamente, Lúcifer, um arcanjo. Deus, sendo onisciente, desde sempre soube que Lúcifer se tornaria o Diabo, de modo que, dado o seu caráter onipotente, tinha o poder de evitar. Não tendo evitado, aquiesceu com o surgimento do mal, sendo seu criador por consequência.

            Seja como for, é inegável a enorme influência da religião no comportamento individual e, por consequência lógica, no direcionamento político da sociedade, o que ocorre pesadamente em teocracias religiosas totalitaristas, mas, de modo mais brando, em todas as demais formas e práticas de governo. Por isso mesmo, torna-se paradoxal compreender, através de Freud, que, em geral, a busca pela religião se traduz em modo encontrado pelo indivíduo para escapar ao mal-estar causado pela inserção numa civilização cujo poder hierárquico se escora na própria religião, tal como um cachorro perseguindo o próprio rabo. Guardadas as devidas proporções, a busca pelo contato com a religião assemelha-se ao que ocorre com a que persegue outras ferramentas de fuga da realidade, como jogos, álcool ou droga.

            E o paradoxo, claro, decorre da circunstância de ser o próprio conservadorismo religioso uma das principais causas do mal-estar civilizatório, representando, talvez, o mais sério entrave ao incremento das liberdades individuais e, consequentemente, à conquista da utopia social no modelo permissivo ao florescimento individual desenhado pelo economista britânico Tim Jackson8. Além disso, segundo Max Weber (1864-1920)9, do útero do conservadorismo religioso, a partir da ética cristã protestante, nasce o sistema econômico que degenerou no formato vicioso moderno, o capitalismo desmesurado ou neoliberal. Sem embargo das agudas conclusões alcançadas por Weber, o fato é que praticamente todos os sistemas econômicos tiveram como fâmulos os dogmas religiosos aliados à força das armas. Esse modelo prevalece até os dias atuais, como se observa dos discursos de chefes de nações que, lançando mão de artifícios retóricos fundados nos escritos sagrados, clamam ao povo que suporte estoicamente as imposições da miséria, da fome e da guerra que eles mesmos causaram e de cujos males não padecem, nem seus entes queridos.

            Ao lado das espadas da ganância pelo lucro (rectius: egoísmo profundo), a religião institucionalizada é, sem dúvida, a principal responsável pela manutenção do conhecimento em guetos obscuros, inacessível à maioria das pessoas. Além disso, inviabiliza programas sérios de controle da natalidade ao (a) inscrever a procriação descontrolada na categoria de meta divina; (b) sacralizar ridiculamente um mero zigoto humano (ou mesmo o próprio esperma, na visão bem-humorada do grupo Monty Python10); (c) pecadizar inclusive o uso de anticoncepcionais e preservativos; e (d) conduzir os crentes a se oporem ferozmente ao aborto, principalmente o pretendido por mulheres que não professam a mesma religião ou religião alguma, missão na qual alguns fanáticos religiosos não hesitam em lançar mão da vandalização de clínicas e mesmo do assassinato de médicos. Tudo isso, claro, movidos por amor, o imenso amor que Deus reserva aos seus filhos, mesmo quando pratica atos genocidas como o dilúvio ou a destruição de Sodoma, Gomorra e outras cidades, episódios bíblicos nos quais todos foram considerados culpados pelos pecados de alguns, inclusive crianças, animais e plantas. Segundo a Bíblia, Deus ficou tão horrorizado com as consequências do dilúvio por ele criado que prometeu nunca mais fazer coisa semelhante com a humanidade, narrativa absolutamente contraditória com a crença na onisciência. Como seria possível surpreender-se com um resultado já há muito sabido? Milagre da fé.

            Os discursos apologéticos à ambição socialmente perniciosa, garantidores da apropriação individual infinita da riqueza e consequente dominação do mundo pelos poderosos, encontram substrato ideológico legitimador na religião, como o que decorre da teologia da prosperidade. São os cânones religiosos que conferem salvaguardas divinas ao “fardo do homem branco”11 cristão, a ser entendido numa bitola conceitual mais larga para alcançar a defesa do patriarcado machista, além de racismo, xenofobia, hierarquização injusta dos indivíduos na sociedade, mitigação dos direitos das mulheres e discriminação de todas as orientações e desejos sexuais que transbordem do estereótipo “papai homem cis e mamãe mulher cis12”, a ser sempre praticado na posição do missionário (homem por cima da mulher) e preferencialmente de olhos fechados para que não enxerguem as vergonhas recíprocas.

            Dadas as possibilidades hermenêuticas de todo e qualquer escrito, os textos sagrados – submetidos a inúmeras modificações levadas a efeito por incontáveis tradutores ao longo dos séculos – são fontes inesgotáveis de interpretações beligerantes e apologéticas do preconceito e da discriminação. É claro que o mesmo se poderia dizer de vários outros textos; contudo, os escritos laicos não possuem a pretensão de serem mensagens diretas dos deuses, de modo que são desprovidos da intensidade de convencimento causada pelo temor reverencial e, por conta disso mesmo, tampouco possuem o poder de emudecer a crítica, sendo exemplo a voz acanhada que se testemunhou nos jornais do mundo após o massacre promovido em Paris por conta das charges satíricas a Maomé. Todos temeram passar por experiência idêntica. E é justamente esse temor público difuso que caracteriza um ato terrorista, tenha ele objetivo político ou religioso.

            De todo modo, seja porque percebe a importância da coexistência social, seja em virtude da fé no poder punitivo da divindade, o fato é que, juntos, os mecanismos culturais oriundos da religião e da normatividade secular impuseram o seu domínio sobre o registro instintual do indivíduo. Com exigência de renúncia bem acima do que seria necessário, a ele resta submeter-se ao poder estabelecido e padecer das neuroses decorrentes da restrição da liberdade em níveis quase intoleráveis. À sociedade, cabe categorizar como loucos os que, armados de fuzil, ocasionalmente matam dezenas de pessoas em escolas e outros estabelecimentos.

            Quanto às instituições religiosas, a fé impede a implementação de modificações estruturais pela via da indução ao terror de uma punição atroz e eterna, principalmente as de fora para dentro (iniciadas por fiéis, atingindo o clero). Porém, mesmo as que ocorrem no sentido inverso, de dentro para fora, são tão raras que se tornam marcos históricos, como a Reforma Protestante realizada pelo monge agostiniano Martinho Lutero. Além disso, segundo Freud, a religião exerce um papel significativo no registro psíquico do ser humano, eliminando ou mitigando a angústia provocada pela perda da proteção do pai humano, substituído pelo pai celestial onipotente, bem como a que advém da percepção da morte, superada pelo conforto da continuidade espiritual. São forças poderosas, de modo que a relação religiosa é marcada por uma disparidade de poderes tão gigantesca entre opressores (supostamente) divinos e oprimidos mortais que há pouca ou nenhuma liberdade individual para implementação de modificações importantes. Todavia, mesmo nesse caso a pessoa possui plena liberdade para unilateralmente pôr fim à relação religiosa que entender prejudicial.

            Segundo Sartre13, o ser humano está condenado a ser livre. Condenado porque não opta nem por nascer nem por ser livre, sendo lançado ao mundo independentemente de sua vontade. Após estar no mundo sem ter escolhido isso, percebe-se absolutamente livre para decidir realizar toda e qualquer ação ou omissão ao alcance de suas possibilidades físicas e mentais, encontrando limites apenas na própria consciência. O peso das consequências sociais previsíveis influencia a opção volitiva, mas não a determina; há plena liberdade na escolha entre a coragem ou o medo de enfrentá-las. Para Sartre, a perspectiva de suportar os efeitos da escolha provoca no ser humano uma profunda angústia por se saber livre. Por conta disso, opta por se refugiar na má-fé, entendida como a recusa da própria liberdade e a busca por valores exteriores, sociais. Para ele, a pessoa séria, conformista, que aceita como seus os valores impostos pela tradição social, age de má-fé.

            Disso decorre que a extinção da opressão religiosa depende apenas do indivíduo, no plano do acúmulo de conhecimento e consequente desencantamento, ou seja, no âmbito da liberdade de agir e de pensar.

            Se a quebra do contrato com a instituição religiosa é acentuadamente complicada, por envolver o medo da punição eterna incutido no indivíduo pelo sacerdote, o mesmo não se pode afirmar das instituições seculares que condicionam o formato de sociedade a que são submetidos os membros do agrupamento humano.

            Esse será o assunto do próximo artigo, a saber, analisar o indivíduo e sua relação com a tirania e a servidão voluntária.

1– Disponível no site do portal de notícias GGN, em: https://jornalggn.com.br/artigos/o-individuo-egoismo-altruismo-e-sua-divida-simbolica-por-marcio-valley/?__cf_chl_jschl_tk__=7792de3cc5deec67c94471f62b9fd999808d886e-1614040544-0-AZfdwAhwUEH2PB6wBf1RK5EnPhRH_SsIFQOd-b5VVx0rqSqlEJRtKVvAPsha8CjjViYbs4TUROfjVfxGnMfKl4bEHajD2N3ElOg0b9IkYN9Ser2ksYInhJIQoRi0CwLqRDtIda6q48_YF78F7zwXZyeeHyCJxijOqpxxqmsWZ_MteEDIzfH9lnw0a8hikfzjjrm-9rxsCyr7mTDAIYWY0IP5W6_tn6RHZ2LImT278qEdt8iGBDB_Q33FQtM6Scb6KuAcHu4UwE9T6dquIc8cEj5umGBVXOiDz7TLjjaBBA2CvcSrDCozn8hjptjThVqeU2bf7zaKJCb-SaPGfuInsdss3-JKikvZSF7pw46-b9sGVAxviEW6CiVYXhZ-_mZIxmlvqiXybLXgi5Lay-cU-ZunCvzA_j7ry2Ij1ZoIun37

2– KOSELLECK, Reinhart (2012), apud SOUZA, Giane Maria. A história do conselho nacional de política cultural (CNPC) e seus múltiplos desenhos institucionais, in Simpósio “Estado, Democracia e Movimentos Sociais no Mundo Contemporâneo”, Universidade de Brasília, 2017, conforme obtido no site http://docplayer.com.br/57101558-A-historia-do-conselho-nacional-de-politica-cultural-cnpc-e-seus-multiplos-desenhos-institucionais.html, em 05/12/2017.

3– ESPÍNOSA, Baruch de. Tratado teológico-político, 1670.

4– FREUD, Sigmund (1856-1939). O futuro de uma ilusão. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

5– NOGUEIRA, Salvador. Mitologia: deuses, lendas, heróis / Salvador Nogueira, Maurício Horta, José Francisco Botelho. São Paulo: Editora Abril, 2012.

6– Extraído do site Wikipedia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mundo_isl%C3%A2mico. Acesso em 20/12/2020.

7– Extraído do site Wikipedia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mulheres_no_Isl%C3%A3#cite_note-58. Acesso em 20/12/2020.

8– Economista ecológico britânico, professor de desenvolvimento sustentável na Universidade de Surrey, Inglaterra, e diretor do Centro para a Compreensão da Prosperidade Sustentável, consórcio de pesquisa internacional multidisciplinar cujo objetivo é a compreensão das dimensões econômicas, sociais e políticas da prosperidade sustentável.

9– Jurista e economista alemão considerado um dos fundadores da Sociologia, autor do livro A ética protestante e o “espírito” do capitalismo.

10– No filme “O sentido da vida”, filme satírico do Monty Python realizado em 1983.

11– Poema de autoria do poeta inglês Rudyard Kipling, originalmente publicado em 1898 na revista McClure’s.

12– Cisgênero é o oposto de transgênero e diz-se da pessoa que se identifica física e psicologicamente com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento.

13– SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Editora Abril, 1973.

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Bolívia, Palestina e Irã: sionismo e imperialismo são duas palavras com o mesmo conteúdo, por Paulo Cannabrava Filho




  Na prática, os templos denominados neopentecostais espalhadas pelo mundo nasceram nos Estados Unidos e atuam como braços desse sionismo de novo tipo, que se confunde com o nazismo naquilo de mais trágico da saga hitlerista: supremacismo racial e genocídio em massa dos desiguais.


A palavra sionismo perdeu o sentido original que qualificava o movimento de judeus em direção a Sion, ou Monte Sião. O local seria a terra de seus ancestrais, território em Jerusalém, onde floresceu a Palestina e que também é berço de outros povos e civilizações.
Israel surgiu no pós-Segunda Guerra pelas mãos dos países vencedores, que redesenharam a geopolítica em todo o Oriente do Mediterrâneo e na Ásia Central. Se consolidou como uma cabeça de praia (ponta avançada) do capitalismo global e se tornou potência bélica e nuclear.
A partir da gestão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (2009-atual), Israel passou a ser um Estado teocrático sionista e se tornou uma ameaça permanente à paz no mundo. O país se nega a cumprir a resolução da ONU, que prevê a criação de dois Estados — o israelense e o palestino — e segue ocupando áreas palestinas, promovendo um genocídio contra essa população.
Com a evolução do capitalismo global e a consolidação da hegemonia estadunidense, o sionismo passou a atuar como uma inteligência do novo imperialismo em expansão. A grande nação norte-americana parece guiada pelos sionistas.


“Yankees, go home!” é o grito de guerra da hora – Tasnim News
Por exemplo, o mais poderoso lobby no Congresso dos EUA é o sionista e que se confunde com o poderoso lobby da indústria armamentista. Wall Street, a meca do capital financeiro, é controlada por judeus, sionistas, claro. Lá estão os maiores e poderosos banqueiros planetários, como Lehman Brothers, Rothschild, Mellon, etc…

Influência religiosa

Mesmo a religião nos Estados Unidos, que histórica e hegemonicamente era protestante e anglicana, cedeu lugar ao neopentecostalismo. A antiga ética sofreu uma reviravolta sob a égide da teologia da prosperidade, que nada mais é do que a adoração ao deus dinheiro e está, portanto, intimamente vinculada ao sionismo.
Os fatos comprovam que muito além da coincidência bíblica (os neopentecostais veem Jerusalém como a Terra Santa e os sionistas como Terra Prometida), há confluência de ideologia, negócios bilionários e ocupação de espaço em favor da hegemonia do capital financeiro e dos interesses dos Estados Unidos. Deixa de ser coincidência ao fator religioso quando o objetivo é político e de poder.
Na prática, os templos denominados neopentecostais espalhadas pelo mundo nasceram nos Estados Unidos e atuam como braços desse sionismo de novo tipo, que se confunde com o nazismo naquilo de mais trágico da saga hitlerista: supremacismo racial e genocídio em massa dos desiguais.

Sionismo fora de Israel

Maurício Macri assumiu o poder na Argentina em 2015 para executar um projeto neoliberal a serviço do capital financeiro transnacional. A primeira atitude ao chegar ao governo foi privilegiar as relações com Israel. Visitas recíprocas e amplos acordos de cooperação na área de defesa, principalmente, foram realizados.
Paralelamente, houve, da parte argentina, um alinhamento da política externa aos interesses dos Estados Unidos, o que fez com que o país passasse a condenar governos progressistas, como os de Bolívia e Venezuela.
Na sequência, a Argentina descobre petróleo no sul da Patagônia; os Estados Unidos instalam uma base militar na província de Neuquén; Israel passa a patrulhar a fronteira hídrica entre Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai com barcos fortemente armados, soldados e assessores sionistas.
Interessante que, coincidentemente, a Argentina tem a maior colônia judaica na América do Sul e também é sede de uma poderosa máfia judia. Na prática, com o governo macrista, os interesses do país passaram a ser o mesmo do Estado Sionista.
Lá, os neopentecostais ainda são incipientes — embora a Igreja Universal do Reino de Deus tenha ganhado espaço, não conseguiram romper a energia que move o politizado povo peronista, que voltou com força ao poder em 2019. Igualmente a Igreja de Roma ainda tem muita força entre as massas populares e instituições do Estado.
Na Bolívia, são os mesmos adoradores do deus dinheiro que deram o golpe contra o governo plurinacional de Evo Morales. Foram precisamente as denominações neopentecostais saídas do Brasil que conspiraram com os agentes ianques para derrubar um governo constitucionalmente legítimo.
No lugar dos símbolos nacionais, a Bíblia. “Nunca mais a Pachamama entrará no Palácio Queimado onde volta a reinar a Bíblia”. Essa frase, dita pela autoproclamada presidenta Jeanine Áñez esclarece tudo.
O neopentecostalismo sionista no comando rompe com a soberania do povo para ser submisso aos interesses dos Estados Unidos.

Tudo se conecta.

Quando Evo Morales iniciou sua carreira política, a Bolívia estava minada, sojeros (plantadores de soja) e boiadeiros brasileiros em Santa Cruz a fomentar o movimento separatista, e os pastores, traficantes e agentes estrangeiros fazendo o trabalho de base.
Tudo o que ocorre é graças a deus! Nada graças à vontade dos homens e menos ainda resultado de políticas públicas feitas por governos preocupados com o povo e com a independência e soberania da nação. Com a mesma técnica utilizada no Brasil tomaram o poder na Bolívia.
Tal como no Brasil, por falta de Inteligência de um lado, e por deslumbramento de outro, o campo ficou descoberto, descuidado, para ser minado pelo inimigo. O anti-petismo e o anti-Evo, têm as mesmas causas.

Batalha perdida?

Bolívia e Brasil se perderam, se desviaram da rota com a qual iniciaram a caminhada. Se é assim, basta retomar o caminho, começar tudo de novo. Começar conhecendo a história, sabendo quem é o inimigo principal e identificando com quem se pode e com quem não se pode marchar.
Desde os anos 1950 os Estados Unidos têm realizando Congressos Anticomunistas, e introduzido, por meio de agentes estadunidenses, o anticomunismo nos cultos evangélicos com a finalidade de ocupar o poder. As novas denominações, neopentecostais, não escondem que querem o poder total.
Andaram bem nesse caminho no Brasil. No início do século 21 já possuíam adesão de 30% da população e as maiores bancadas nas duas casas legislativas. Hoje, a adesão já é de 40% e ocupam também o Poder Executivo. Chegaram lá com a ocupação do poder através da farsa eleitoral de 2018.
Veja que antes mesmo de ser eleito, o candidato do minúsculo partido PSL, já mantinha estreita ligação com o Estado de Israel através do neopentecostalismo. Não esquecer que o candidato se fez fotografar sendo batizado por um pastor neopentecostal nas águas do Rio Jordão. E ele é católico.
O premier Bibi Netanyahu esteve em sua solenidade de posse e a primeira visita ao exterior do ocupante do Planalto foi ao Estado de Israel.
Essa ideologia também  parece ter penetrado fundo nas Forças Armadas. Afinal, como entender o fato de eles terem realizado a operação de inteligência para a captura do poder em 2018? Os militares ocupam o poder real, com cinco generais, um brigadeiro e um almirante no Palácio e mais de 100 oficiais em diversos postos chaves de primeiro e segundo escalão. No total, são mais de mil militares ocupando diversos postos de governo.
Pela ideologia, os militares abandonaram a soberania nacional e o povo de onde foram paridos para uma total e vergonhosa submissão ao governo dos Estados Unidos. Não há como ignorar que a teologia da prosperidade, que anima os pastores neopentecostais é uma perfeita arma ideológica à serviço da expansão da hegemonia estadunidense.
O Brasil está absolutamente submisso.
Veja, nem o Iraque, que foi feito terra arrasada e está há 18 anos sob ocupação de tropas dos Estados Unidos, que lá mantém um governo títere, está submisso como o Brasil. A rebeldia se espalha por bairros, universidades e os guerrilheiros lutam para expulsar o invasor.
Foi contra essa guerrilha de libertação que os Estados Unidos perpetraram o ato terrorista que causou a morte de Abu Mahdi al-Muhandis, comandante das guerrilhas do Kata’ib Hezbollah, e de Qasem Soleimani, general do Estado Maior do Irã. Um ato de guerra em um país ocupado? É o poderoso tripudiando sobre o mais fraco.
Pelo mundo ecoa o grito de muitos milhões de iranianos e árabes feridos na sua dignidade, na sua soberania, indignados, sofrendo a impotência dos débeis diante do inimigo poderoso.
Que esse grito seja ouvido e mova as pessoas de bom senso em todo o mundo a exigir paz para a humanidade. Paz que só se conseguirá com parar a expansão do imperialismo ianque e sionista.
Não há outro caminho para a paz que o de convencer a comunidade internacional a se mobilizar pela retirada das tropas ianques no exterior. “Yankees, go home!”. É o grito de guerra da hora.



terça-feira, 24 de setembro de 2019

Dallagnol, o imparcial, usou igrejas e estrutura do MP para aumentar sua própria influência, mostram mensagens da VazaJato



O procurador da força-tarefa de Curitiba preparou um plano de agenda político-religiosa em todo o Brasil, desde 2015 e intensificada em 2018, ano eleitoral


Deltan Dallagnol. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Jornal GGN – O procurador da força-tarefa de Curitiba, Deltan Dallagnol, usou grupos de igrejas evangélicas para aumentar sua influência, com teor político, durante 2018. A revelação são das novas mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil e divulgadas pelaAgência Pública.
Dallagnol é membro da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba, e teria usado a religião para aumentar sua influência política, de olho em candidatura ao Senado em 2018, mesmo tendo recusado a disputar as eleições. O espaço de grupos evangélicos já estava sendo usado pelo coordenador da força-tarefa para adquirir apoio à Lava Jato desde 2015, mostram as mensagens.
Mas no ano da disputa eleitoral, quando Jair Bolsonaro venceu o cargo da Presidência com amplo apoio das igrejas, Dallagnol participou de, pelo menos, 18 encontros com evangélicos, além da igreja, incluindo reuniões e palestras, em somente 3 meses, o que equivale a uma reunião por semana.
“Essa peregrinação foi planejada por ele em janeiro do ano passado e faz parte do seu projeto pessoal, conforme revelou a reportagem “Seria facilmente eleito” publicada pelo The  Intercept Brasil. Em reflexão consigo mesmo no Telegram, ele se viu dividido entre três opções: se candidatar ao Senado, deixar a carreira de procurador sem abraçar a política partidária ou continuar no cargo”, escreveu a APública.
Entre as três opções acima, o procurador teria escolhido permanecer na Lava Jato justificando que, caso contrário, haveria “riscos concretos à causa anticorrupção”. Mas não negou disputar as eleições: “Tenho apenas 37 anos. A terceira tentação de Jesus no deserto foi um atalho para o reinado. Apesar de em 2022 ter renovação de só 1 vaga e de ser Álvaro Dias, se for para ser, será. Posso traçar plano focado em fazer mudanças e que pode acabar tendo como efeito manter essa porta aberta”.
A mensagem foi escrita em janeiro do ano passado, em mensagem enviada para si mesmo no Telgram. E, na sequência, admitiu que precisaria atuar politicamente para “aumentar a influência” e para isso, atuaria em “grupos de ação cidadão em igrejas e viagens”. Também “tem um risco de CNMP, mas é pagável”, ao se referir a possíveis sanções do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
Conforme alerta a APública, é compromisso dos membros do Ministério Público “atuar com imparcialidade no desempenho das atribuições funcionais, não permitindo que convicções de ordem político-partidária, religiosa ou ideológica afetem sua isenção”.
Para isso, preparou um plano de agenda político-religiosa em todo o Brasil, no ano eleitoral. Os encontros, conforme traçou a reportagem, não ocorreram restritamente no Paraná, mas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco em 2018; Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas, Brasília em 2016; e Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do SUl, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza em 2015.
Tais reuniões com pastores e palestras dentro da Igreja ou de eventos da Igreja foram registradas nas mensagens do Telegram de Dallagnol com o pastor Marcos Ferreira, e no grupo “Novas Medidas – A Grande Chance”, de palestras.
O procurador tinha inclusive pessoas responsáveis por administrar a agenda da campanha de Dallagnol, entre elas Patrícia Fehrmann, do Instituto Mude – Chega de Corrupção, e duas funcionárias do MPF, que tinham que manter a agenda do procurador cheia.
Mas o foco de Dallagnol foi além das igrejas evangélicas, porque ele tinha o objetivo de “expandirmos a rede de influência em cada viagem”, traz outro trecho de mensagem no chat. Assim, também foram contatados maçons, rotarianos, empresários e representantes de entidades patronais nas agendas de encontros religiosos, conforme mostra outras mensagens:

Outro fator que vai contra o código de ética do Ministério Público, Dallagnol utilizou bens do patrimônio institucional para atendimento de atividades de seu interesse, no caso essas palestras pessoais, usand as funcionárias e as salas para estruturar seu plano político. Além disso, as viagens não ocorreram durantes as férias de Dallagnol, ele mesmo tendo cogitado essa possibilidade, que acabou ocupando os dias úteis de trabalho como procurador para viajar.
“[Secretária], minha sugestão é amanha Vc trabalhar so no assunto palestras. As viagens de quinta e sexta precisam ser bem preparadas, do contrário perderemos o potencial. Fala com [Secretária2], que pedi pra Vc fazer so isso”, pedia Dallagnol para as funcionárias do MPF de Curitiba.

domingo, 22 de setembro de 2019

Ágatha, a garota inocente, inteligente, estudiosa, obediente e de futuro assassinada por Witzel. Por Luis Nassif



Não é possível aceitar essa passividade em relação a um governador com instintos assassinos, colocando em risco crianças, cidadãos inocentes, ou mesmo executando criminosos


Muita coisa foi naturalizada no Brasil, nesse extraordinário retrocesso por que passa. Aceitam-se presidente sem compostura, Ministro da Educação abilolado, Ministro das Relações Exteriores negacionista, filhos desequilibrados.
Mas naturalizar genocídio, não dá!
A impotência do STF (Supremo Tribunal Federal), da PGR (Procuradoria Geral da República), do Ministério Público Federal e do Estadual no Rio de Janeiro, da Defensoria Pública é humilhante para eles próprios e para a própria democracia.
Pessoal, daqui a pouco essa onda bárbara vai refluir e, assim como as marés vazantes, vão expor os dejetos jogados na praia, os plásticos poluidores da inação do Supremo, o silêncio sepulcral dos Ministros cariocas, até daquele que só pratica o bem, a bondade e a verdade, a desmoralização final da Justiça do Rio.
Não é possível aceitar essa passividade em relação a um governador com instintos assassinos, colocando em risco crianças, cidadãos inocentes, ou mesmo executando criminosos.
A insensibilidade social é tão grande, que o mais grave crime perpetrado no Rio – o genocídio comandado pelo Estado – merece cobertura apenas da imprensa popular, para não estragar o café da manhã da zona Sul. Aliás, ainda bem que há jornalismo no Extra.
Leiam, por favor, a reportagem do  Extra, sobre mais uma morte de criança.
A menina Ágatha Félix, de 8 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu na madrugada deste sábado. Ela foi atingida nas costas por um tiro de fuzil, na noite desta sexta-feira, na Fazendinha, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio. Ela estava dentro de uma Kombi no momento em que foi baleada. A criança foi levada para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, também na Zona Norte.
O avô materno da criança, identificado como Ailton Félix, pediu explicações sobre o disparo:
— Quem tem que dar informações é quem deu o tiro nela. Matou uma inocente, uma garota inteligente, estudiosa, obediente, de futuro. Cadê o policiais que fizeram isso? A voz deles é a arma. Não é a família do governador ou do prefeito ou dos policiais que estão chorando, é a minha. Amanhã eles vão pedir desculpas, mas isso não vai trazer minha neta de volta. — exclamou o avô em tom de revolta.
A mãe de Ágatha, identificada apenas como Vanessa, teve que sair do hospital de cadeiras de rodas. Ela passou mal ao saber da notícia e teve que ser amparada por familiares e amigos.
Não é possível tamanha falta de empatia, tamanha desumanidade das autoridades. Por algum instante, projetem em um familiar, em algum filho, ou irmão, ou em vocês mesmo, o significado de ter uma criança de 8 anos sendo baleada em uma guerra alimentada por um genocida.
Não se trata de discussão acadêmica sobre a inutilidade de promover guerras contra o crime em territórios habitados por civis. Trata-se de impedir a continuidade das mortes.
Que as palavras desconsoladas do avô sejam a maldição de Witzel. Que o acompanhem em todos os seus atos, até que a civilização se imponha e ela seja preso, julgado e condenado. E, na cela em que dividir com outros criminosos, se coloque em um quadro as palavras desconsoladas do avô, lembrando que era uma garota inteligente, estudiosa, obediente, de futuro.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Grupo de igrejas cristãs na Europa aponta onda de radicalismo cristão no Brasil


Do DCM:



Jamil Chade aborda o assunto em seu blog no UOL. “Uma versão fundamentalista do cristianismo está legitimando medidas do governo Bolsonaro que vão justamente contra as bases da religião — entre elas a discriminação, violação aos direitos humanos e mesmo a proteção do planeta. O alerta está sendo feito por parte das igrejas nacionais que, alarmadas com a situação no país, se reuniram na Suíça para debater o cenário religioso no Brasil e pedir a ajuda do Conselho Mundial de Igrejas para que uma estratégia seja estabelecida”.
O jornalista desenvolve: “Nos anos 70, o Conselho Mundial de Igrejas foi fundamental para bancar as ações de religiosos no Brasil que lutavam contra a ditadura. Entre as várias iniciativas, o grupo financiou os trabalhos da coleta de dados de vítimas e torturadores, que acabaria sendo conhecida como ‘Brasil: Nunca Mais’. Agora, a organização ecumênica considera que a situação de direitos humanos no Brasil voltou a ser problemática, principalmente quando há uma utilização da religião para legitimar a retirada de direitos”.
“Ao UOL, a reverenda Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), foi categórica. ‘Estamos no momento de uma ruptura democrática’, disse. ‘Nosso grande desafio é o fundamentalismo cristão. O que é o cristianismo brasileiro hoje. Há uma tendência sempre de achar que o fundamentalismo é apenas ligado aos neopentecostais. Mas na verdade, isso está em todas as igrejas’, disse. ‘Há uma direita cristã organizada e os temas morais são os que mais impactam. É uma agenda anti-feminista, anti-LGBT, racista e tudo afirmado com valores e discursos cristãos'”, completa o portal.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Deturpação da mensagem libertária e humanitária de Cristo em elitismo, fanatismo e táticas de manipulação de consciência com vistas a uma teocracia que encobre os interesses do capital no documentário da Netflix "A Família: Democracia Ameaçada". Por Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Resultado de imagem para the family – democracia ameaçada


  O Brasil, antes um país conhecido pela tolerância, alegria e abertura às diferenças, vem sendo há mais de trinta e cinco anos objeto de intensiva engenharia social para mudança de mentalidades para o individualismo, o bairrismo e o imediatismo, em grande parte estimulada por uma via antes considerada impensável: a da religiosidade midiática.

  Impérios "religiosos", baseadas na exploração de horários em TVs, expondo as ilusões e promessas materialistas de uma "teologia da prosperidade" veio a seduzir milhões de pessoas sem base educacional e mesmo filosófica, que poderia, através de um entendimento da mensagem libertária real de Jesus (basta ver as bem-aventuranças onde o excluído e o explorado são valorizados contra as potências do mundo), se deixaram levar pela lábia de pregadores e shows midiáticos de "poder". Contudo, esta vertente do chamado evangelismo  (que pouco ou nada tem a ver com o protestantismo histórico advindo de Lutero e outros), não começou no Brasil, mas foi copiado e adaptado do televangelismo empresarial Norte-Americano.

  A influência de "teólogos" que na verdade são empresários que usam da fachada de "cristãos" para exaltar o Capital e o acúmulo de riquezas, já é discutida há anos e seu papel na ascensão de políticos (especialmente os de direita e extrema-direita) é cada vez mais reconhecida por intelectuais e do público mais educado. Isto é cada vez mais discutido a partir do crescimento perigoso do autoritarismo com base no fundamentalismo não apenas no Brasil mas em especial na origem de tudo isso, os EUA. É o que fica claro no novo documentário, em capítulos da Netflix intitulado "The Family: Democracia Ameaçada", de 2019.

  O Documentário mostra a pesquisa de jornalistas sobre a influência de uma corrente religiosa fundamentalista, que se diz cristã, nos EUA, sobre congressistas e presidentes americanos ao menos desde fins dos anos 50, operando nas sombras para garantia da supremacia de seus interesses neoliberais, políticos e morais sobre todo o país e o mundo. Pautas como liberalismo econômico, supremacia branca, xenofobia e militarismo são pontos desta vertente muito bem explicitadas no documentário (veja o trailler abaixo).

  Ao lado de outros documentários da Netflix, como "Democracia em Vertigem", e "Privacidade Hackeada", "The Family - A Família: Democracia Ameaçada" se torna uma obra obrigatória para se entender as aberrações sociais e políticas que se abatem no mundo em um crescendo de proteção ao Capital pelo estímulo ao fundamentalismo e ao autoritarismo neofascista....