terça-feira, 26 de outubro de 2021

Quase impossível retomar a importância sistêmica da Petrobras após a destruição feita desde 2016, diz Gabrielli ao GGN

 Brasil vive a crise da inexistência de refino, diz ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, em entrevista exclusiva ao GGN. Leia e Assista

O ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, em entrevisa à TVGGN

O ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, em entrevisa à TVGGN

Jornal GGN – José Sergio Gabrielli foi uma das mentes à frente da então locomotiva chamada Petrobras no final da década de 2000 e começo de 2010, época em que a petroleira prometia levar o Brasil ao encontro com o futuro. Mas então veio o tsunami Lava Jato, seguido por uma segunda onda fatal para os rumos do País: a derrubada de um governo progressista e a varredura dos planos ambiciosos que haviam sido feitos para a Petrobras.

Agora, depois de 5 anos ininterruptos de desmonte da gigante que um dia representou 20% dos investimentos do País, Gabrielli se diz “muito pessimista” quanto à possibilidade de recolocar a Petrobras nos trilhos em um eventual governo Lula a partir de 2023.

“Acho muito difícil, quase impossível retomar a importância sistêmica da Petrobras depois da destruição que foi feita. Dificilmente será possível reconstruir um programa de desenvolvimento grande depois dos leilões, do fim da operação única [sobre as reservas do pré-sal], do desmonte da integração vertical da Petrobras, do desmonte da engenharia brasileira; da venda da BR Distribuidora, da Liquigás, das refinarias… É muito difícil que a Petrobras venha a desempenhar um papel relevante, significativo, como aquele do início dos anos 2010.”

Nesta entrevista exclusiva à TVGGN, Gabrielli relembra os anos dourados da Petrobras, justifica as metas que foram traçadas e abandonadas depois do impeachment; faz uma reflexão sobre o que poderia ter feito diferente enquanto integrou o primeiro escalão da empresa e diz que a corrupção foi superdimensionada.

“Olhando retrospectivamente, acho que a gente deveria ter modulado o programa não para fazer [5 refinarias] em 5 anos, mas em 10 anos, priorizando áreas distintas. A área de pré-sal era prioritária, mas acho que deveria ter integração maior com petroquímica inicialmente, para depois fazer as refinarias. Eu mudaria somente a ordem e as prioridades“, diz. “A utilização da corrupção em relação ao petróleo é coisa histórica.”

Gabrielli também fala sobre os efeitos da Lava Jato e os interesses dos Estados Unidos na Petrobras. Para ele, no entanto, foi a precipitação do fim do governo petista que acelerou a depredação da empresa, que hoje está sob ameaça de privatização, com o governo Bolsonaro aproveitando o descontrole da economia e os sucessivos reajustes nos preços dos combustíveis para rifar de vez a petroleira.

“Estamos vivendo a crise da inexistência de refino no Brasil”, adverte o economista. “Não ter refino é colocar o País vulnerável aos ciclos internacionais.”

Participaram da entrevista na TVGGN os jornalistas Luis Nassif e Sergio Leo e os economistas João Furtado e Luiz Melchert – que falou sobre o processo de desindustrialização e desnacionalização da indústria brasileira, além da financeirização das commodities, entre outros pontos.

Assista à entrevista abaixo e confira os principais trechos a seguir:

DOS ANOS DE OURO À DERROCADA DA PETROBRAS

Em 2010, a Petrobras estava no auge da sua influência, de sua capacidade de estar presente na economia internacional. Em 2010 ela faz a maior capitalização da história – 76 bilhões de dólares na bolsa de valores de Nova York e São Paulo. E com isso se tornou uma empresa bastante sólida do ponto de vista financeiro, com um programa de desenvolvimento e um plano de investimentos muito grande – em torno de 240 bilhões de dólares em 5 anos, aproximadamente 45 bilhões de dólares por ano.

Além disso, a Petrobras sabia que seu plano de desenvolvimento exigiria uma ampliação da capacidade de produção de alguns equipamentos críticos em todo o mundo – as sondas de perfuração de mais de 3 mil metros de profundidade, por exemplo, e as plataformas de produção de petróleo, que não estão disponível no mercado brasileiro nem internacional. Então a Petrobras adotou uma política clara de estimular esse crescimento da capacidade de produção no Brasil.

Ao fazer isso, ela tentava absorver parte de um fenômeno historicamente reconhecido, que é o fenômeno da doença holandesa ou da maldição do petróleo: quando aumenta rapidamente a produção do petróleo, cria-se uma situação de inibição de outras atividades. Uma das maneiras de evitar isso é fazer um estímulo para que a cadeia de fornecedores seja nacional, e isso estava sendo feito. Quer dizer, a indústria naval brasileira se recupera, ela que já tinha sido uma grande influência no passado, volta a crescer.

A aposta nas refinarias

Tinha outro fenômeno importante: como tinha um mercado brasileiro muito grande de derivados de petróleo, tinha também uma perspectiva de crescer o refino. Fazendo isso, também tinha possibilidade de ampliar a cadeia de fornecedores brasileiros. Não necessariamente brasileiros, mas no Brasil.

Por outro lado, havia também duas dimensões importantes que a Petrobras considerava naquele momento. Uma dimensão era as empresas de petróleo, a história das grandes empresas de petróleos, que são integradas. Elas produzem, refinam, distribuem, atuam na petroquímica e em diversos seguimentos. A Petrobras tinha possibilidade de ser uma grande empresa de energia. E ela passa a atuar fortemente no setor de etanol, cresce a produção na área de biodiesel e volta à petroquímica, de onde tinha sido excluída numa estratégia contrária à integração entre refino e petroquímica.

A crise de reputação

Tudo isso foi sendo montado e foi sendo desenvolvido a partir de 2007, 2008, 2009, se acelera em 2010, até 2014, quando, por várias razões – particularmente, aquela do preço do petróleo, a redução dos níveis dos preços brasileiros, a elevação da taxa de câmbio de 2014 para 2015, e o volume em dívida em dólares da Petrobras – se criou uma crise financeira na Petrobras, associada a um escândalo hipertrofiado de casos de corrupção realmente existentes, porém que não eram na dimensão que se divulgava. Se criou uma crise de reputação da Petrobras, que criou dificuldade para ela negociar suas dívidas.

Isso fez com que a Petrobras desse uma recuada profunda.

“Vivemos a crise da inexistência de refino no Brasil”

Houve um processo claro de desintegração da empresa e de destruição da integração. A empresa voltou a ser focada na produção e exportação de petróleo cru e importação de derivados. Nós estamos convivendo agora com a crise da inexistência de refino no Brasil, crise das distribuidoras, refletindo-se nos preços de derivados de petróleo no Brasil. A petroquímica brasileira não cresce mais. A própria Braskem, que é uma grande empresa da petroquímica brasileira, uma associação da Petrobras com a Odebrecht, está em crise. E a empresa sai dos biocombustíveis e do etanol, além de abandonar os projetos pilotos que tinha na área eólica e solar.

Apenas uma exportadora de petróleo cru

Consequentemente, a Petrobras hoje é uma pequena empresa internacional focada na produção do pré-sal e exportação de petróleo cru. Abandona sua posição de âncora de um processo de desenvolvimento que foi montado a partir de 2007, 2008 e que se consolidou a partir de 2010.

Esse processo se agrava com a Lava Jato, mas não é só a Lava Jato que leva a essa destruição.

Há uma opção clara em retornar o Brasil em ser um país atraente para investimentos internacionais. A política do governo muda completamente em termos de estímulos para a entrada de empresas internacionais e para a redução do tamanho da Petrobrás no mercado brasileiro. Esse é um desastre que tivemos nesse período.

Tudo isso ocorre num momento de transição ecológica e de transição energética importante. A pergunta que se faz é: isso poderia ser possível de se manter com a transição energética? Isso se manteria?

O futuro do mercado do petróleo e gás

O mundo hoje consome mais ou menos 97 bilhões de barris de petróleo por dia. Esse consumo representa hoje até 37% da matriz energética das fontes primárias do mundo. As estimativas para 2030 até 2050 são de que a proporção do petróleo como fonte primária de energia vai cair. Não há dúvida de que haverá aumento das fontes primárias de energia renováveis. Porém, o efeito disso numa escala total é muito pequeno. Então as estimativas dizem que o petróleo vai cair, mas vai continuar com 30% da matriz energética mundial.

Além disso tem outro fenômeno natural na bolsa de petróleo: os campos existentes de produção, eles declinam em média 5% ao ano. Então, se você está consumindo e produzindo 96, 97 milhões de barris por dia, vai precisar ainda de 4 a 5 milhões de barris/dia apenas para manter a produção igual. Mesmo que relativamente o petróleo vá cair, em termos absolutos o petróleo vai aumentar o volume de barril usado. Portanto, o mercado de petróleo vai existir por muitas décadas ainda.

O gás natural, por outro lado, vai crescer. As expectativas é de que seja cada vez mais introduzido como uma fonte de combustível. O carvão é péssimo para a mudança climática, por causa do aquecimento global. Então o gás natural poderia ser um substituto rápido para o carvão.

Porém o que estamos vendo na pandemia é um fenômeno novo, em 2021, em que o preço do gás natural subiu muito e como o preço do gás subiu muito, a demanda de carvão tem aumentado e a produção de carvão também. Então apesar do discurso do Biden, União Europeia e China, a favor da economia de baixo carbono (…), os produtores de carvão, petróleo e gás têm planos de aumentar a produção, não de diminuir. Ainda vamos ter mercado para petróleo e gás.

OS ESTALEIROS, A CORRUPÇÃO E O SETOR NAVAL

A Sete Brasil não quebrou por causa da corrupção. Ela quebrou porque era montada para ser uma empresa altamente alavancada, que iria viabilizar a construção dos estaleiros assumindo o risco da construção e iria arrendar para a Petrobras as sondas para viabilizar a produção da Petrobras.

No dia em que ela vai assinar o financiamento com o BNDES – que seria um dos bancos a financiar a empresa – o Pedro Barusco [ex-diretor da Petrobras preso na Lava Jato] faz sua denúncia e o BNDES puxa o freio de mão e não assina o financiamento.

Evidentemente que uma empresa que está montada para ser alavancada e não consegue seu financiamento, ela não vai funcionar. Então não foi corrupção, foi efeito da Lava Jato. O conceito da Sete Brasil em si não é corrupto.

A indústria naval no Brasil

Há um ditado mundial que diz: na indústria naval, o bom estaleiro é aquele que já faliu quatro vezes.

Os estaleiros navais de grande porte não são fordistas. A indústria naval de grande porte tem três processos: levantamento de cargas, corte de grandes espécies e montagem dessas espécies. Não há linha de produção. A cooperação e o aprendizado entre as equipes são peça chave. Não há estaleiro que surja já grande. Tem que ter um processo de aprendizado.

A possibilidade da indústria naval crescer dependia dessa curva de aprendizado e o indicador normalmente utilizado é o tempo de entrega dos equipamentos. Quando [o processo] foi interrompido a partir de 2013, 2014 [com a Lava Jato], os últimos dados mostram que o tempo de entrega dos estaleiros estava muito próximo da média mundial.

Exigência de componentes nacionais

É claro que a exigência do conteúdo nacional estava criando algumas dificuldades porque diminui as consultas [sobre fornecedores]. Porém, como essa indústria funciona sob encomenda, a escassez de fornecedor é universal, não é só brasileira.

Ciência & Tecnologia

Quando chegamos na Petrobras, a engenharia estava destruída. Havia sido terceirizada no governo FHC. Treinamos cerca de 3 mil engenheiros. Outra coisa que fizemos e foi muito importante: evidentemente que a maior parte do desenvolvimento e pesquisa foi feito internamente, mas cresceu uma exigência, pela legislação brasileira, de aumentar o investimento em C&T e usamos isso para montar redes temáticas envolvendo mais de 70 universidades e institutos de pesquisa para financiar laboratórios, capacidade de desenvolver tecnologia e experimentos, inclusive montando redes de computadores como o Galileu, tanques oceânicos que simulavam o comportamento do mar, estimulando o alto processamento de imagens. Coisas que interessam à indústria do petróleo e gás, mas não são específicas da Petrobras, então teria um efeito multiplicador muito grande no desenvolvimento de ciência e tecnologia. Criou-se no Rio de Janeiro um complexo de pesquisa que não é comum nas multinacionais, mas tudo isso foi desmontado, destruído e está fora do ar.

ARREPENDIMENTOS?

Olhando retrospectivamente, acho que erramos na dose. O plano de investimentos da Petrobras era, em termos volumétricos, semelhante ao plano Marshall que reconstruiu a Europa. Fazer refinaria era necessário naquela época e é necessário agora. Nós vamos ter uma crise de refino grave se o Brasil voltar a crescer. Estamos vivendo agora. A Petrobras disse que neste mês de novembro não tem condições de ofertar o volume necessário de gasolina, diesel e GPL. Não ter refino é colocar o País vulnerável aos ciclos internacionais.

Era possível fazer 5 refinarias em 5 anos? Talvez não. A dose foi errada, mas não é que não deveria ter feito refinarias; ou não é que não deveria fazer refinaria no Nordeste. Deveria sim.

A Renest é a joia da coroa da Petrobras. É uma refinaria de alta complexidade e produz diesel de 2ppm hoje. Não é uma refinaria atrasada tecnologicamente. Foi cara, mas por que foi cara? Entre outras coisas, porque o mercado brasileiro estava fazendo 5 refinarias, 1 complexo petroquímico, pré-sal e o PAC com a mesma indústria nacional. Havia um superaquecimento na indústria de equipamento e fornecimento de infraestrutura. Não foi a corrupção que criou os preços altos. A corrupção que existiu, apesar de, em termos absolutos, ser muito grande, é relativamente pequena em relação ao volume dos contratos.

Portanto, olhando retrospectivamente, acho que a gente deveria ter modulado o programa não para fazer em 5 anos, mas em 10 anos, priorizando áreas distintas.

A área de pré-sal era prioritária, mas acho que deveria ter integração maior com petroquímica inicialmente, para depois fazer as refinarias. Eu mudaria somente a ordem e as prioridades.

GEOPOLÍTICA E PRÉ-SAL

Essa questão geopolítica é fundamental. Quando descobrimos o pré-sal, em 2006 e 2007, imediatamente começamos a receber pressões do estado maior americano, do estado profundo chinês. Porque o Brasil sempre foi um país marginal no petróleo até a descoberta do pré-sal. É uma fronteira nova de desenvolvimento gigantesca e, até hoje, desde 2006, 2007, é considerada a última maior descoberta de possível produção de petróleo no mundo. Isso colocava o Brasil no centro da geopolítica do petróleo. E apesar do discurso verde, a produção do petróleo continua fundamental para a segurança energética no mundo.

Teria Lava Jato se o pré-sal não existisse?

Provavelmente teria outra situação. O uso da corrupção em relação ao petróleo historicamente é muito frequente. Petróleo gera muita renda, tem muito produto sob encomenda, a margem para negociação é grande e a margem para os que querem se aproveitar ilegalmente do processo também é grande.

A geopolítica foi importante. Imediatamente depois do anúncio [do pré-sal], em 2007, os chineses nos ofereceram empréstimo de 10 bilhões de dólares com. Os EUA ofereceram 2 bilhões de dólares. Eu lembro que numa discussão com Bush e Obama, eu disse que os presidentes não tinham instrumentos institucionais para garantir a aliança estratégica do governo americano com a Petrobras. Os chineses têm, porque eles podem dar prioridade ao plano de desenvolvimento e financiar a Petrobras.

Então houve essa disputa sim, e está por trás a Lava Jato, mas acho que está muito mais por trás a derrubada da Dilma do que a Lava Jato.

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Liberalismo, desenvolvimentismo e projetos nacionais reais de desenvolvimento destruídos pelo bolsonarismo-financismo, por Luis Nassif

 Faz parte de uma herança das últimas décadas, de só se enxergar o desenvolvimento a partir da ótica macroeconômica, para manter a supremacia dos economistas na formulação das políticas públicas.


Do GGN:

Há uma vertente de discussão sobre a Lei do Teto, defendendo sua aplicação desde que haja espaço para investimentos públicos. Da mesma maneira que a Lei do Teto original, reduz-se uma questão complexa – o desenvolvimento – a um ângulo apenas, o macroeconômico. 

Faz parte de uma herança das últimas décadas, de só se enxergar o desenvolvimento a partir da ótica macroeconômica, para manter a supremacia dos economistas na formulação das políticas públicas.

É por isso que toda a discussão de projeto de pais fica restrita ao liberalismo atual, ao desenvolvimentismo tradicional e à vertente do desenvolvimentismo social – a ausência de Estado, o desenvolvimentismo se restringindo à prioridade dos investimentos públicos e o desenvolvimentismo social privilegiando as políticas sociais.

Projeto de desenvolvimento é algo muito mais amplo e sistêmico. Em meados dos anos 2000 procurei sintetizar em uma série de colunas na Folha, posteriormente incluídas em meu livro “Os Cabeças de Planilha”. Na época, a série foi reproduzida no site do BNDES pelo presidente Carlos Lessa – um dos derradeiros formuladores de planos sistêmicos, herdeiro da tradição de Celso Furtado e Darcy Ribeiro.

A parte macroeconômica é só o fecho do projeto, assim como, em uma empresa privada, o financeiro é apenas o técnico que cuida do financiamento da estratégia maior. Ou seja, primeiro tem que se desenhar o modelo de país que se pretende r a estratégia para se chegar lá. Depois, as formas de financiar.

O pressuposto de qualquer projeto consistente de Nação tem que ser o atendimento das demandas da população. Mesmo porque esse atendimento tem reflexos relevantes na oferta de mão de obra, na criação do mercado de consumo, na manutenção da paz social.

A cultura popular é a argamassa do projeto. É o que fortalece o sentimento de solidariedade nacional, permite enxergar o país como um todo, reforça a aposta no potencial humano e no conceito de Nação – sem xenofobia. Em algum momento no final da década de 2.000, quando o país atingiu o ápice da auto-estima, o “jeitinho” passou a ser visto como um valor, mostrando a flexibilidade do brasileiro para encontrar soluções, encantando os grandes gestores de qualidade. 

Essa descoberta dos talentos naturais do brasileiro é essencial para cimentar programas educacionais e políticas sociais inclusivas. No final do segundo governo Lula, o orgulho de ser brasileiro tornou-se uma bandeira que abriu espaço para as políticas de cotas no ensino público.

Dentro dessa mesma lógica, é peça essencial o estímulo ao pequeno empreendedor, às micro e pequenas empresas, que não apenas garantem o emprego, mas, em seu processo de crescimento, a renovação e a vitalidade da economia.

Ao longo do pós-Constituinte, foram criados inúmeros instrumentos de apoio às PMEs, a partir da reestruturação do Sebrae no governo Collor. Pode-se estimular as PMEs com programas de gestão, com apoio dos institutos públicos à inovação, com os modelos de Arranjos Produtivos Locais e com financiamentos a custos razoáveis, como nos experimentos isolados de bancos do povo.

Na parte agrícola, o cooperativismo exerceu um enorme papel. E, mais recentemente, o modelo campeão do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), com suas propostas inovadoras de conferir ao trabalhador o usufruto, mas não a posse da terra – para impedir jogadas especulativas.

Políticas, como o apoio à agricultura familiar – garantindo a demanda a partir das escolas e outras organizações de serviço público -, as tentativas de produção de bioetanol por pequenos agricultores, tudo isso são experiências historicamente recentes, que poderão ser recuperadas.

Todo esse modelo é alicerçado na capacidade na capacidade da sociedade de trabalhar em conjunto, de juntar forças, de instituir formas de colaboração, só possível após o trabalho prévio de construção, pela cultura, dos símbolos de uma alma brasileira, como forma de reforçar a solidariedade.

Paralelamente, há a necessidade de instituir políticas industriais visando manter a competitividade da produção brasileira. A única maneira de consolidar o modelo é garantir empregos de qualidade. E empregos de qualidade não se consegue na uberização e na consolidação de uma sociedade eminentemente de serviços.

É aí que a intervenção do Estado se torna necessária. Vive-se um período de eliminação de empregos. E empregos são essenciais para a paz social, para o bem-estar geral, para o fortalecimento do mercado de consumo. Daí a necessidade de políticas pró-ativas de geração de emprego, leis que domem a selvageria anti-emprego das plataformas, da uberização. É movimento internacional, que tenderá a crescer cada vez mais. O desafio será termos governos capazes de alinhar o país com as novas ideias que começam a se espalhar pelo mundo civilizado.

Outro ponto essencial, nas políticas públicas, é o papel do Estado no financiamento da inovação, seja pelo sistema Finep-Fundações de Amparo à Pesquisa, seja retomando o papel essencial da Petrobras e das grandes corporações privadas no espalhamento da pesquisa, através de parceria com universidades e de aprimoramento das práticas de seus fornecedores.

A armadilha dos indicadores financeiros

Ponto dos mais relevantes é sair da armadilha dos indicadores meramente financeiros.

Lembro-me da grande revolução gerencial dos anos 90 e a tentativa de levar a melhoria de gestão, e inovação, a pequenas e micro empresas. Havia uma lógica férrea reforçando a relevância desse trabalho. Como as PMEs eram maioria, qualquer ganho incremental teria um impacto grande sobre a produtividade como um todo.

Em um debate nos anos 90, polemizei com Luciano Coutinho, defensor do conceito de campeões nacionais – uma das principais marcas da escola desenvolvimentista. E salientei a falta de indicadores sobre aspectos micro da economia. Por exemplo, um grupo de pequenas empresas, trabalhando de forma consorciada, representaria um ganho de eficiência relevante da economia. E, no entanto, esse ganho não era mensurado.

Entra-se aí em outro terreno relevante da economia, e pouco considerado no país: a análise das externalidades dos investimentos públicos e privados. Isto é, das consequências indiretas desses investimentos, no plano social, de meio ambiente e no campo do desenvolvimento, especialmente para superar uma das grandes marcas do subdesenvolvimento do pensamento mercadistas brasileiro: a falácia da composição.

Um exemplo claro foi a distribuição dos investimentos de pesquisa pelos novos campus. Houve intensa reação de pesquisadores do triângulo São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte. Como possuem as melhores instituições públicas, partia-se do pressuposto que cada centavo aplicado nelas seria mais eficiente do que os centavos aplicados em novas instituições, sem tradição de pesquisa.

A realidade demonstrou o contrário. Os novos institutos levaram o conceito de pesquisa para as diversas regiões, permitindo a criação de políticas eficientíssimos, de consórcios de pesquisas bancados pela Petrobras e pela Confederação Nacional da Indústria, trazendo um sangue novo aos pesquisadores e, principalmente, um foco maior na solução dos problemas regionais.

Outro desafio foi a enorme concentração de poder nos frigoríficos nacionais. Transformou a JBS em um campeão internacional, mas quais os resultados sobre a cadeia produtiva da carne e do couro? Ora, o que impactaria o país seria a JBS como instrumento de modernização da produção pecuária. Ao contrário, seu poder – e dos demais frigoríficos – provocou enormes desequilíbrios na pecuária e na indústria de couros. Com isso, o campeão nacional se internacionalizou, com baixíssima contribuição ao desenvolvimento sistêmico do setor.

Outro tema dos mais relevantes foram as cotas sociais-raciais nas Universidades públicas. A reação dos idiotas da objetividade é que, colocando alunos menos preparados nas universidades, haveria uma perda de qualidade do ensino.

A lógica da inclusão é que havia uma assimetria na partida – a diferença de formação e de oportunidade entre alunos de escola pública e privada. Contornada essa assimetria pelas cotas, o que se viu – e foi comprovado pela Unicamp – é que a geração de cotistas, na média, tem melhor desempenho que a média dos não-cotistas, por saber que o estudo é a única maneira de superar a maldição das barreiras sócio-econômicas.

E, se o potencial de um país se mede pela soma de potencialidades aproveitadas de sua população, como deixar de fora a maior parte da população, negra e pobre?

Há inúmeros outros temas essenciais, dentro de um projeto de desenvolvimento, como a capacidade de compra do Estado – fundamental em setores como de medicamentos e, em outros tempos, na construção de plataformas pela Petrobras.

O desenvolvimentismo

Voltando ao início da nossa conversa, como ficam os princípios desenvolvimentistas, de aumento do investimento público?

Investimentos públicos não podem ser vistos exclusivamente da ótica da recuperação conjuntural da economia – como costumam ser tratados -, mas como peça essencial de desenvolvimento, ou seja, em um horizonte temporal de longo prazo. Assim como a valorização da produção interna, do uso do mercado de consumo como barganha para a transferência de tecnologia pelas multinacionais – como foi feito pelo Brasil dos anos 50 e pela China do terceiro milênio.

Não existe bala de prata para o desenvolvimento.

O grande projeto de desenvolvimento será aquele que englobar todas essas política simultaneamente, como foco direto no melhor do Brasil: os brasileiros. E o grande estadista será o que juntar todas essas peças em um todo lógico e souber explicar o todo ao país, estimulando o grande pacto do desenvolvimento nas pequenas, médias, grandes empresas, nos arranjos sociais, nas cooperativas, nos APLs, nos movimentos sociais.

E salve Manoel Bonfim, Celso Furtado, Josué de Castro, Rômulo de Almeida, Anisio Teixeira, Paulo Freire, JOão Paulo dos Reis Velloso, salve a brilhante geração dos anos 60, ceifada pelo golpe militar e, depois, pelo economicismo emburrecedor contemporâneo.

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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Reinaldo Azevedo: Bolsonaro é o vírus mais perigoso do país

 


Da BandNews FM:

O âncora do programa O É da Coisa, Reinaldo Azevedo, analisa a repercussão negativa após a fala de Jair Bolsonaro sobre vacinas e a AIDS.

    Vídeo 1: Bolsonaro é o vírus mais perigoso do país


    Vídeo 2: A live do “Mito” e crimes múltiplos



Youtube derruba live absurda e suspende canal de Bolsonaro por uma semana após fake news sobre Aids e vacina da Covid

 

Plataforma retirou do ar a live semanal em que Jair Bolsonaro espalha desinformação sobre a pandemia ao relacionar vacinados com a Aids

(Foto: Reprodução/Facebook)

247 - O Youtube retirou do ar na noite desta segunda-feira (25) a live semanal de Jair Bolsonaro da última quinta-feira (21), em que Bolsonaro espalhou uma mentira que alertava que "vacinados [contra a Covid] estão desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida [Aids]".

"Removemos um vídeo do canal de Jair Bolsonaro por violar as nossas diretrizes de desinformação médica sobre a Covid-19 ao alegar que as vacinas não reduzem o risco de contrair a doença e que causam outras doenças infecciosas", disse o Youtube, em nota.​ O Facebook e Instagram fizeram o mesmo no domingo (24).

Além de retirar o vídeo do ar, o Youtube também suspendeu por uma semana o canal de Jair Bolsonaro. Ele não poderá publicar novos vídeos nesse período. Caso ele volte a publicar um vídeo com desinformações em 90 dias, a suspensão dobrará de tempo.

Áudio acintoso do banqueiro bolsonarista André Esteves, do BTG Pactual e sócio de Paulo Guedes, demonstra que a "Faria Lima" brinca de terceira via, mas é Bolsonaro de primeira opção

 

Vídeos do canal da TV 247:

Em vídeo que vazou, o banqueiro André Esteves disse que Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, ligou para saber qual deveria ser o piso da taxa de juros no Brasil








Bolsonaro e Guedes estudam projeto para vender de vez a Petrobrás e consolidar o golpe de estado de 2016 com apoio de militares, Supremo, com tudo

 

Governo planeja apresentar projeto de lei que permite que a União venda ações ordinárias e preferenciais da Petrobrás, abrindo mão de ser a acionista majoritária da companhia



247 - Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes já planejam a privatização da Petrobrás. O governo estuda projeto de lei que permite que a União venda ações ordinárias e preferenciais da Petrobrás, abrindo mão de ser a acionista majoritária da companhia. 

Segundo a CNN Brasil, a "modelagem" da privatização da Petrobrás já está sendo preparada. O governo quer preservar, no entanto, a prerrogativa de indicar presidente e vetar operações. 

 

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Leia também reportagem da agência Reuters sobre o assunto:

O presidente Jair Bolsonaro confirmou nesta segunda-feira, em entrevista para uma rádio de Mato Grosso do Sul, que a privatização da Petrobras "entrou no radar" do governo, mas disse que não é um processo imediato.

"Isso entrou no nosso radar. Mas privatizar qualquer empresa não é como alguns pensam, que é pegar a empresa botar na prateleira e amanhã quem der mais leva embora. É uma complicação enorme. Ainda mais quando se fala em combustível. Se você tirar do monopólio do Estado, que existe, e botar no monopólio de uma pessoa particular, fica a mesma coisa ou talvez até pior", disse Bolsonaro à rádio Caçula, de Três Lagoas (MS).

Essa é pelo menos a segunda vez que o presidente levanta a possibilidade de privatização da petroleira, um tema que estava nos planos do ministro da Economia, Paulo Guedes, mas não tinha sido analisado por Bolsonaro até agora. O aumento dos combustíveis, no entanto, levou Bolsonaro a falar nesse assunto.

Bolsonaro já disse neste mês que "tem vontade" de privatizar a Petrobras e acrescentou que avaliará com a equipe econômica o que pode fazer a este respeito.

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A Petrobras tem sido alvo de discussão política à medida que os custos de energia ajudaram a levar a inflação ao consumidor no país a dois dígitos, prejudicando a popularidade do Bolsonaro antes da eleição presidencial do próximo ano.

Bolsonaro já se opôs anteriormente à privatização da Petrobras, por considerar a empresa "estratégica" para os interesses nacionais do Brasil. No entanto, mesmo com seu apoio, alguns participantes do mercado acreditam que um processo de privatização seria difícil, já que precisa haver mudança na legislação a ser aprovada pelo Congresso Nacional.

O presidente reclamou ainda na entrevista das críticas que tem recebido por conta da inflação em alta no país, mas reafirmou que não vai interferir em preços.

"Eu não sou malvado, eu não quero aumento de combustível, mas é uma realidade. O mundo todo está sofrendo com a economia neste pós-pandemia", disse. "Eu não quero aumentar o preço de nada, mas eu não posso interferir em nada."

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domingo, 24 de outubro de 2021

Funcionários acusam Facebook de fortalecer extrema-direita

 Denúncias publicadas por consórcio de 17 organizações jornalísticas norte-americanas indicam que empresa foi alertada durante anos sobre disseminação de fake news e discurso de ódio

Antidemocracia. Estudo feito por funcionária mostrou que algoritmos do Facebook privilegiam conteúdos conservadores e de extrema-direita.

da Rede Brasil Atual

Funcionários acusam Facebook de fortalecer extrema-direita

Por Redação

São Paulo – Consórcio de veículos de comunicação chamado “The Facebook Papers” publicou neste sábado (23) denúncias de que a rede social de Mark Zuckerberg vem contribuindo há anos para a disseminação de fake news. Reportagens exibidas em veículos como The News York Times, CNN e Washington Post mostram, inclusive, que o Facebook amplificou a mobilização de grupos de extrema-direita que culminou na invasão ao Capitólio em 6 de janeiro e deixou cinco mortos. O consórcio é formado por um total de 17 organizações jornalísticas norte-americanas.

As reportagens se espalharam pelo território americano desde as primeiras horas da manhã. O “The New York Times”, por exemplo, mostrou que funcionários do Facebook alertaram por anos sobre a desinformação e potencial risco de radicalizar os usuários da plataforma. E que apesar de sempre terem solicitado ações para frear o fenômeno, a empresa falhou e não resoveu os problemas.

Embora a rede social tenha culpado Trump pela disseminação de notícias falsas, vários funcionários acreditam que poderia ter sido feito mais para evitar a proliferação de fake news. O alerta veio, inclusive, através de um estudo interno, intitulado “Jornada de Carol para QAnon”.

Algoritmo

Em julho de 2019, uma funcionária do departamento de pesquisas do Facebook criou uma conta-teste se passando-se por uma “mãe conservadora” da Carolina do Norte. Uma semana depois, sua página começou a receber recomendações de conteúdo de teorias da conspiração.

Entre as sugestões recebidas, ela optou por seguir páginas, como as das Fox News e da Sinclair Broadcasting, impérios de mídia que controla 294 estações de televisão e chega a cerca de 40% dos lares americanos com conteúdo de tom conservador. Poucos dias, vieram sugestões para a pesquisadora seguir páginas e grupos relacionados ao QAnon. Até mesmo uma fake news de que Trump estaria enfrentando uma conspiração obscura feita por pedófilos democratas foi enviada pelos algoritmos do Facebook.

Algum tempo depois, segundo a reportagem a mesma funcionária criou outra conta-teste, desta vez simulando perfil esquerdista. Notou então que os mesmos algoritmos do Facebook alimentavam o novo perfil com memes de “baixa qualidade” e desinformação política. Ela deixou a empresa em agosto de 2020.

Facebook exposto

Em seu pedido de demissão, divulgado pelo “BuzzFeed News”, a pesquisadora disse que o Facebook estava “conscientemente expondo os usuários a riscos de danos à integridade” e citou a lentidão da empresa em agir contra o QAnon como um dos motivos para sua saída. “Já sabemos há mais de um ano que nossos sistemas de recomendação podem levar os usuários rapidamente ao caminho de grupos e teorias de conspiração. Nesse meio tempo, o grupo extremista QAnon ganhou proeminência nacional, com candidatos ao Congresso”, escreveu.

Os documentos expostos agora pelo “The Facebook Papers” reforçam as revelações feitas no mês passado por Frances Haugen, ex-gerente de produtos da plataforma. Segundo ela, a rede de Zuckerberg mentiu sobre ações da empresa para combater o discurso de ódio, violência e fake news. Frances disse que o Facebook desmontou sua equipe de “integridade cívica” logo após a eleição de 2020, assim que Joe Biden foi declarado vencedor.

Nem a visão degradante da disputa de ossos e restos de comida no lixo, dos mortos, da inflação, do ecocídio estúpido e genocídio de indígenas, da volta da fome galopante... Nada disso sensibilizou ou preocupou o "deus" Mercado e a elite financista.... Mas fala-se em "ultrapassar o teto de gasto" e temos os arautos da proteção ao crédito e ganho (deles) reagindo rapidamente...

 

Do Canal do engenheiro, professor e analista financeiro e político Eduardo Moreira: