segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Corrupção dos militares com a máfia do centrão mostrado no UOL: Entenda a manobra de Braga Netto que irrigou centrão de Lira com R$ 1 bi da Defesa




 Segue o artigo de Eduardo Militão, Igor Mello e Rubem Berta publicado no UOL:

Entenda a manobra de Braga Netto que irrigou centrão com R$ 1 bi da Defesa

Braço direito do ex-presidente Jair Bolsonaro, o general Walter Braga Netto articulou, à época em que comandava o Ministério da Defesa, um mecanismo que driblou decisões do STF que barraram o orçamento secreto para continuar a distribuir verbas a aliados do centrão.


O que aconteceu


O governo de Jair Bolsonaro (PL) usou ao menos R$ 1 bilhão do caixa do Ministério da Defesa nos anos de 2021 e 2022 para irrigar aliados no Congresso. Os parlamentares beneficiados direcionaram as verbas a seus redutos eleitorais por meio do Calha Norte, programa que faz repasses para obras de infraestrutura no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.


A identidade, os partidos e o montante de recursos enviados aos municípios não são de conhecimento público, mas o UOL apurou que 23 políticos do centrão apadrinharam os repasses. Os nomes deles aparecem em uma tabela do Ministério da Defesa, que o UOL obteve via LAI (Lei de Acesso à Informação).


5 de novembro de 2021. O mecanismo começou a ser forjado logo após a primeira proibição pelo STF do chamado orçamento secreto —usado pelo governo Bolsonaro para distribuir recursos à base aliada. Em 5 de novembro de 2021, a ministra do STF Rosa Weber suspendeu o orçamento secreto em decisão liminar.


3 de dezembro de 2021. Pouco menos de um mês após essa decisão, Braga Netto pediu recursos ao Ministério da Economia para turbinar o Calha Norte, segundo mostra ofício de 3 de dezembro de 2021 obtido pelo UOL. O então ministro Paulo Guedes concede R$ 328 milhões, e o Congresso Nacional aprova os recursos na forma de lei.


6 de dezembro de 2021. Três dias depois do pedido do general, Rosa Weber acabou liberando o orçamento secreto sob a condição de que o Congresso publicasse os nomes dos parlamentares padrinhos das emendas. Apesar de a principal forma de financiamento da base aliada pelo governo Bolsonaro ter sido liberada, o dinheiro pedido por Braga Netto também foi distribuído ao centrão pelo Ministério da Defesa.


Braga Netto deixou o comando da Defesa em março de 2022 para se candidatar a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. Em seu lugar, ficou o também general Paulo Sérgio Nogueira. O mesmo mecanismo se repetiu e, mais uma vez, driblando o Supremo.


19 e 29 de dezembro de 2022. Após o STF barrar em definitivo o orçamento secreto em 19 de dezembro de 2022, o Ministério da Economia injetou —dez dias depois— outros R$ 703 milhões que foram usados no Calha Norte. Os recursos também foram distribuídos ao centrão.


Ao UOL, o general de divisão Ubiratan Poty, que comanda o Calha Norte desde o início do governo Bolsonaro, admitiu o caráter político da distribuição de verbas. "Isso [os recursos com o carimbo de políticos] foi [definido] através de documentos específicos lá do Congresso", afirmou o general (veja o que mais disseram o diretor do programa e o Ministério da Defesa).


Procurado, Braga Netto não quis se manifestar. O espaço segue aberto.


A maioria dos parlamentares admitiu a indicação das verbas para as obras em seus redutos sem detalhar como isso se deu (veja aqui o que cada um respondeu).


Ranking dos políticos que indicaram verbas do Ministério da Defesa a redutos eleitorais

EXPEDITO NETTO (PSD-RO)JOAQUIM PASSARINHO (PL-PA)EDUARDO CAMPOS*SILAS CAMARA (Republicanos-AM)MAILZA GOMES (PP-AC)LUCAS BARRETO (PSD-AP)NICOLETTI (União Brasil-RO)CARLOS HENRIQUE GAGUIM (União Brasil-TO)ACIR GURGACZ (PDT-RO)SÉRGIO PETECÃO (PSD-AC)PLÍNIO VALÉRIO (PSD-AM)KÁTIA ABREU (MDB-TO)PROFa DORINHA SEABRA (União Brasil-TO)SEN CARLOS FÁVARO (PSD-MT)EDUARDO BRAGA (MDB-AM)JAYME CAMPOS (União Brasil-MT)NELSINHO TRAD (PSD-MS)EDUARDO GOMES (PL-TO)MARCOS ROGERIO (PL-RO)HUGO LEAL (PSD-RJ)CHICO RODRIGUES (PSB-RR)OMAR AZIZ (PSD-AM)MECIAS DE JESUS (Republicanos-RR)DAVI ALCOLUMBRE (União Brasil-AP)R$ 264,2 milhõesR$ 264,2 milhõesR$ 102 milhõesR$ 102 milhõesR$ 119,7 milhõesR$ 119,7 milhõesR$ 97,2 milhõesR$ 97,2 milhõesR$ 82 milhõesR$ 82 milhõesR$ 61 milhõesR$ 61 milhõesR$ 34,4 milhõesR$ 34,4 milhõesR$ 32 milhõesR$ 32 milhõesR$ 30,3 milhõesR$ 30,3 milhõesR$ 30 milhõesR$ 30 milhõesR$ 30 milhõesR$ 30 milhõesR$ 28,6 milhõesR$ 28,6 milhõesR$ 25 milhõesR$ 25 milhõesR$ 20,7 milhõesR$ 20,7 milhõesR$ 10,4 milhõesR$ 10,4 milhõesR$ 10,3 milhõesR$ 10,3 milhõesR$ 9,4 milhõesR$ 9,4 milhõesR$ 9,4 milhõesR$ 9,4 milhõesR$ 8 milhõesR$ 8 milhõesR$ 6,9 milhõesR$ 6,9 milhõesR$ 6,3 milhõesR$ 6,3 milhõesR$ 3,8 milhõesR$ 3,8 milhõesR$ 3 milhõesR$ 3 milhõesR$ 0,8 milhõesR$ 0,8 milhões

*O UOL não localizou nenhum parlamentar com esse nome que consta na tabela do Ministério da Defesa


A decisão do STF e o Ministério da Defesa


Em 19 de dezembro, o plenário do STF decidiu que o orçamento secreto era inconstitucional por violar os "princípios da transparência, da impessoalidade, da moralidade e da publicidade".

Além de barrar esse tipo de emenda para 2023, a decisão determinou que os recursos que ainda seriam usados no ano passado não teriam mais "caráter vinculante" com as indicações originais. Ou seja, essas verbas passariam para os próprios ministérios, que ficariam encarregados de orientar como o dinheiro seria usado "em conformidade com os programas e os projetos das respectivas áreas".


Em nota, o Ministério da Defesa reforçou o trecho da decisão do STF que diz que caberia à pasta a orientação da execução dos recursos. No entanto, a Defesa disse também, no mesmo comunicado, não interferir no destino das verbas, o que seria função dos parlamentares, "conforme a melhor política pública que consideram necessária para o país".


Na prática, as verbas que passaram a ser do próprio ministério continuaram a obedecer os mesmos critérios políticos adotados antes da decisão do Supremo.


Orçamento 'duplamente' secreto


Dos R$ 703 milhões injetados como verba própria do Ministério da Defesa no fim de 2022, o UOL localizou ao menos R$ 257 milhões que foram inicialmente identificados como emendas de relator, o orçamento secreto —cujos autores não eram publicamente conhecidos.


Na transição para verba própria da pasta, parte desses recursos passou a ter o nome de seu padrinho real, que consta em uma tabela obtida pelo UOL via Lei de Acesso à Informação.

No entanto, ao menos R$ 39 milhões mantiveram a essência do orçamento secreto: continuaram creditados ao deputado federal Hugo Leal (PSD-RJ), relator-geral do orçamento de 2022, sem que se saiba quem são os verdadeiros autores das indicações.


Leal afirmou ter sido procurado no fim do ano passado por representantes do Ministério da Defesa preocupados com a insegurança jurídica gerada após a decisão do STF que proibiu as emendas do orçamento secreto.


O deputado disse que o Ministério da Defesa perguntou se ele veria problemas em ter seu nome relacionado aos recursos que eram do orçamento secreto e foram transformados em verbas do próprio ministério.


Leal —que é do PSD do Rio de Janeiro, estado que não é atendido pelo Calha Norte— concordou por acreditar não haver ilegalidade na mudança.


A agenda do chefe do Departamento do Programa Calha Norte, general Ubiratan Poty, mostra que ele se reuniu com Leal em 28 de dezembro.

No dia seguinte, o Ministério da Economia publicou portaria abrindo mais de R$ 700 milhões para o Calha Norte como recursos do próprio ministério. Logo em seguida, no dia 31, foram assinados os convênios para as obras.


23 políticos identificados


Os R$ 257 milhões identificados pelo UOL como sendo originalmente orçamento secreto podem ser apenas uma parte do total transformado em verba da Defesa.


Para a investigação, a reportagem levou em conta somente recursos identificados como emendas de relator nos sistemas públicos de transferências federais a governos estaduais e prefeituras.


Há, por exemplo, outros R$ 43 milhões atribuídos a Hugo Leal que não tinham o código de emendas de relator nos sistemas, não ficando clara a origem das verbas.


Ao todo, entre 2021 e 2022, o ministério reservou R$ 1 bilhão em recursos próprios para ações que tinham o carimbo de parlamentares.

Além da transformação das emendas de relator, houve injeção de recursos novos no programa Calha Norte, vindos de remanejamentos do orçamento pelo governo.


Além da transformação das emendas de relator, houve injeção de recursos novos no programa Calha Norte, vindos de remanejamentos do orçamento pelo governo.

No controle interno do ministério, há a identificação de 23 políticos padrinhos. O principal é o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), com R$ 264 milhões.


As LDOs (leis de diretrizes orçamentárias) de 2021 e de 2022 falavam na necessidade de se obedecer critérios socioeconômicos para a distribuição dos recursos federais. Um parecer da AGU (Advocacia Geral da União) de maio de 2022, encaminhado ao próprio Ministério da Defesa, fez recomendação semelhante, "devendo ser priorizados os entes com menores indicadores".


"Nada isenta o administrador de justificar por que razão escolheu este ou aquele ente, sobretudo quando há mais de um interessado e os recursos financeiros são escassos", afirmou a AGU.


O mesmo texto ainda cita um acórdão do TCU de 2007 que obriga a fixação de critérios "objetivamente aferíveis e transparentes" para a escolha das localidades beneficiadas.

O Ministério da Defesa alegou que as regras para distribuição de recursos do Calha Norte constam em uma portaria de 2019, mas o texto não faz nenhuma referência a critérios socioeconômicos de divisão dos recursos.

sábado, 16 de setembro de 2023

Portal do José sobre BOLSONARO: A CORROSÃO VINGATIVA NO EXÉRCITO. SEITA: ADVOGADOS "AMIGOS" CAVAM COVA DO "MITO" NO STF!

 

Do Portal do José:

16/09/23 - BOLSONARO TINHA CONSCIÊNCIA QUE A DIVISÃO NAS FORÇAS ARMADAS ENFRAQUECEM O PODER E CAUSAM ESPAÇO PARA A CISÂNIA NUM PAÍS. Tentou fazer isso contra a Venezuela. Mas o resultado mais eficaz se deu em nosso próprio país. Nenhum agente infiltrado conseguiria destruir de tal modo a coesão de nossas Forças. A corrupção funcionou como um elemento maior de cooptação de altos comandantes seduzidos por soltos multiplicados e benesses de todos os tipos. Mas a transparência numa sociedade tem um efeito mortal. Revelações de tantas distorções provocaram o comportamento de uma seita traída. O ódio e ressentimento. Enquanto isso, advogados continuam a pavimentar a derrocada do "mito" em seu futuro próximo. papuda o espera. Sigamos.

ENTREVISTA; DIVIDIR EXÉRCIRTO - VER MINUTOS FINAIS    • Exclusivo: Bolsonaro fala à Jovem Pan   JORGE SEIF - MEMBRO DA SEITA BOLSONARISTA ATACA NA CPMI    • JORGE SEIF CHORA SEM LÁGRIMAS   https://g1.globo.com/politica/noticia...

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Metrópoles: Fraude na intervenção do Rio (com Braga Netto, a mando de Temer) usou doleiro que enviou cocaína via FAB

 

Do Metrópoles:

Réu no caso de sargento preso na Espanha, “Macaco” foi o doleiro escolhido por militares para trazer dinheiro dos EUA na intervenção do Rio

Fraude na intervenção do Rio usou doleiro que enviou cocaína via FAB


 atualizado 

JP Rodrigues/Metrópoles
Imagem colorida de Márcio Moufarrege - Metrópoles

O doleiro usado na suposta fraude na compra de coletes balísticos na intervenção do Rio de Janeiro é o homem que, no mesmo período, participou da engenharia financeira para o envio de cocaína em avião da Força Aérea Brasileira (FAB), dentro da comitiva do então presidente Jair Bolsonaro, em 2019. A afirmação é embasada em cruzamento feito pelo Metrópoles sobre documentos oficiais das investigações da Polícia Federal (PF).

Nos dois episódios criminosos, aparece um mesmo nome e dono de telefone celular: Márcio Moufarrege, o Macaco. No caso de tráfico internacional, ele é acusado de movimentar dinheiro dos fornecedores que compraram a droga entregue para o sargento preso em Sevilha, na Espanha, em 24 de junho de 2019.

Após uma série de falhas na fiscalização na Base Aérea de Brasília, Manoel Silva Rodrigues embarcou com 39 quilos de cocaína na bagagem. Ao desembarcar, acabou preso.

Já no caso da fraude internacional em licitação, Moufarrege é investigado por transferir dinheiro clandestinamente, entre os Estados Unidos e o Brasil, para os militares envolvidos na tentativa de fornecimento de 9.360 coletes balísticos para a Polícia Civil do Rio. A operação total teria sobrepreço de R$ 4,6 milhões, em compra orçada em cerca de R$ 40 milhões e feita por intermediação do Gabinete da Intervenção Federal (GIF), comandado pelo general Braga Netto.

Posteriormente, houve estorno do valor pago. Um ano depois, Braga Netto se tornou ministro da Casa Civil de Bolsonaro.

Print de avião

Em um print de conversa destacado no inquérito sobre Operação Perfídia, deflagrada ontem e que envolve Braga Netto, o doleiro foi flagrado usando um fundo de tela de avião militar.

Moufarrege é réu na Justiça Militar por associação para o tráfico no caso do avião da FAB. Ele chegou a ser alvo de busca e apreensão, em 2021. Na época, trabalhava como personal trainer e andava com carrões importados que, aos olhos dos investigadores, demonstraram que sua atividade profissional deveria ser outra.

Nessa terça-feira (12/9), um endereço ligado a ele foi novamente revistado pelas autoridades, em Brasília.

Desta vez, os investigadores coletaram provas do envolvimento de Macaco com uma operação de dólar-cabo, que trouxe dinheiro dos Estados Unidos para o Brasil. Os pagamentos seriam os adiantamentos vindos da fornecedora de coletes, de um contrato de R$ 650 mil para consultorias e outros serviços para otimização da aquisição.

ReproduçãoPrint de conversa de doleiro do caso FAB e Braga Neto
Print de conversa de doleiro do caso FAB e Braga Netto

Suspeita de propina

Para os investigadores, há a suspeita de que, na verdade, tratava-se de propina para facilitar a contratação. Segundo a PF, em 18 de setembro de 2019, Macaco transferiu R$ 25 mil para contas do coronel Robson Queiroz, ligado ao gabinete do interventor e que, inclusive, teria participado de jantar na casa de Braga Netto.

No dia seguinte, mandou mais R$ 25 mil para uma empresa do general Paulo Assis, possivelmente um lobista na operação. Os investigadores destacam que, durante a transação, o coronel Queiroz ainda era membro da ativa no Comando Militar do Leste (CML). À época, não havia ainda sido registrado o estorno do dinheiro público pago – e o negócio ainda tinha chances de ir à frente.

Elo de doleiro traficante e militar

Dentro das investigações sobre o tráfico de drogas, há registro de que Moufarrege seria a pessoa que “fazia a ligação” entre militares e vendedores de entorpecentes. A PF diz que um traficante “entregava dólares para que Márcio Moufarrege negociasse a venda dessa moeda estrangeira”, em “valores elevadíssimos e, portanto, compatíveis com o tráfico internacional de entorpecentes”.

Segundo documentos das investigações, Macaco tem passagens anteriores por tráfico internacional e atuaria no Distrito Federal, “enviando entorpecentes (sobretudo cocaína) para o exterior, recebendo ecstasy da Europa e comercializando vários tipos de entorpecentes”.


Reinaldo Azevedo: OAB tem de se manifestar sobre atuação absurda de advogado bolsonarista no julgamento dos golpistas no STF

 

Da Rádio BandNews FM:




ICL Notícias: O General fora da Lei - O QUE UMA INTERVENÇÃO FEDERAL E UM AVIÃO OFICIAL COM COCAÍNA TÊM EM COMUM?

 

Do Canal ICL Notícias:




O militar “maracujá”, por Marco Piva

 

Do Jornal GGN:

O ex-presidente Jair Bolsonaro arrastou para sua aventura messiânica um conjunto expressivo de oficiais das três armas.



O militar “maracujá”

por Marco Piva

É corrente no meio militar a expressão “melancia” para designar oficiais que supostamente são “verdes por fora e vermelho por dentro”. Não sei bem ao certo quando na história das Forças Armadas surgiu essa designação, mas com certeza ela tem uma conotação ideológica ancorada na tradição anticomunista.

Pois bem. O ex-presidente Jair Bolsonaro arrastou para sua aventura messiânica um conjunto expressivo de oficiais das três armas. Sem querer, querendo, como dizia o tele cômico personagem mexicano Chaves, as Forças Armadas passaram a ser a vitrine de um mandatário inepto, incompetente e avesso à obediência aos ritos constitucionais.

Em quatro anos, Bolsonaro levou parte expressiva da população a acreditar que a pureza moral e a determinação autoritária seriam as chaves de salvação do país. O enfrentamento do “sistema” necessitava das bençãos divinas, ainda que isto representasse um teatro mal costurado.

Um dos resultados mais visíveis dessa rocambolesca forma de administrar uma das maiores economias do planeta foram as joias presenteadas pelo governo da Arábia Saudita ao Brasil pelas mãos do presidente então em exercício. Só que Bolsonaro as tomou para si, promovendo posteriormente um verdadeiro contrabando do acervo presidencial.

Este episódio mostrou duas coisas ao mesmo tempo: a primeira, como a Presidência da República era para Bolsonaro e sua família uma extensão dos malfeitos que já praticavam em suas carreiras parlamentares, com nenhuma preocupação em montar, pelo menos, uma cortina de dissimulação. Tudo feito ilegalmente e às claras para espanto da comunidade internacional que passou a ver o Brasil como um país sem rumo.

Mas, a segunda coisa desse episódio das joias se tornou a mais importante porque no rastro das investigações da Polícia Federal, agora liberada para cumprir seus deveres de Estado, ficou muito claro o envolvimento de oficiais das Forças Armadas na operação ilegal de contrabando, com o uso, inclusive, do avião presidencial que deu “fuga” ao presidente derrotado nas urnas às vésperas de passar o cargo ao seu sucessor.

O tenente-coronel Mauro Cid e seu pai, o general Mauro Lourena Cid, além de assessores pessoais do ex-presidente, atuaram de forma inequívoca para praticar um ato ilegal, o que é proibido pelo estatuto do Exército. Revelaram a farda manchada com fortes indícios de crimes que vão desde desvio de presentes do acervo presidencial a articulações para um golpe de estado contra a democracia.

Agora, diante das provas robustas da investigação criminal, o ex-ajudante-de-ordem da Presidência decidiu salvar a própria pele e fez um acordo de delação com a PF, já homologada pelo ministro Alexandre de Moraes. O que ele disse não se sabe ao certo, mas é razoável supor que tenha falado daquilo que viu, ouviu e participou na condição de ter sido uma das companhias mais próximas do ex-presidente nos últimos quatro anos.

Qualquer que seja o teor da delação, é provável que nesta altura do campeonato Jair Bolsonaro e sua prole estejam com a pulga atrás da orelha. O que virá é mais do que certo e não será coisa boa. A salvação da pele de um é o inferno do outro.

Resta saber como as Forças Armadas vão reagir diante da vergonha de ver altos oficiais serem apanhados em crimes comuns e em estratagemas tresloucados de golpe de estado. As tropas sentirão o peso da desonra ou ficarão acomodadas sob o manto corporativista? Para manter a frutaria verde-oliva, parece que Mauro Cid é uma semente de um novo tipo de oficial: o militar “maracujá”, que amarela diante das dificuldades, é enrugado por fora e azedo por dentro.

Marco Pivaé jornalista, apresentador do programa Brasil Latino, na Rádio USP FM, e pesquisador do Centro de Estudos Latino-americanos de Cultura e Comunicação da Universidade de São Paulo (CELACC/USP).