quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Mensagens e áudios revelam encontro entre o "terrivelmente evangélico" e explicitamente bolsonarista André Mendonça e Vorcaro em São Paulo

 

André quer te receber. Acho que dei uma balançada nele naquele assunto”, disse o “anjo da guarda” de Daniel Vorcaro em mensagem


Do Brasil 247:


247 – Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicam que ele teve ao menos uma reunião reservada com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em 14 de março de 2025, em São Paulo. O encontro teria durado cerca de duas horas e ocorrido no endereço de um instituto fundado pelo próprio magistrado.

O material foi obtido pelo jornalista Paulo Motoryn e publicado originalmente na newsletter Noites Húngaras, no Substack. Segundo a apuração, a aproximação entre Vorcaro e Mendonça foi articulada ao longo de semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).

As conversas não revelam qual providência Vorcaro pretendia obter, nem comprovam que Mendonça tenha interferido no Banco Central ou tomado qualquer medida em favor do Banco Master. O conteúdo, porém, mostra que pessoas próximas ao ministro atuaram para viabilizar o encontro, que Mendonça teria sido informado previamente sobre uma situação envolvendo o Banco Central e que houve ao menos uma reunião presencial entre o banqueiro e o ministro.

Um dos trechos mais relevantes é um áudio enviado por Ciro Rocha Soares a Vorcaro em 8 de fevereiro de 2025. Na mensagem, o advogado aparece ao lado de Mendonça em uma alfaiataria e afirma estar atuando em favor do banqueiro.

“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco [alfaiataria] agora, pra fazer um terno”, disse Ciro.

A articulação começou no dia anterior. Em 7 de fevereiro, Ciro tentou ligar várias vezes para Vorcaro e, depois das chamadas não atendidas, enviou mensagens curtas: “Opa”, “me liga” e, às 14h03, “Tô [com] André M.”.  No dia seguinte, encaminhou ao banqueiro uma foto em que aparecia ao lado do ministro. A imagem teria sido feita em uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, empresa com endereços em São Paulo e Brasília.

As mensagens não esclarecem que tipo de “trabalho” Ciro dizia estar fazendo para Vorcaro. Também não indicam se havia contrato formal entre o advogado e o banqueiro, o Banco Master ou empresas ligadas ao grupo. A frase, no entanto, mostra que Ciro apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor do dono do Banco Master.

A relação entre Ciro e Vorcaro, de acordo com as conversas, ia além de uma interlocução estritamente profissional. Os dois trocavam mensagens em tom pessoal, com declarações de amizade e referências familiares. Em 16 de fevereiro, o advogado voltou a procurar o banqueiro para tratar da aproximação com Mendonça.

“Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu Ciro. Em seguida, reforçou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”.

Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e depois sugeriu: “Marca quarta”. Na mesma troca de mensagens, Ciro chamou o banqueiro de “meu irmão caçula, meu protegido”. Vorcaro, por sua vez, referiu-se ao advogado como “irmão, anjo da guarda, parceiro, amigo de verdade” e escreveu: “Se não fosse você eu não estaria de pé”.

As mensagens não esclarecem que tipo de “trabalho” Ciro dizia estar fazendo para Vorcaro. Também não indicam se havia contrato formal entre o advogado e o banqueiro, o Banco Master ou empresas ligadas ao grupo. A frase, no entanto, mostra que Ciro apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor do dono do Banco Master.

A relação entre Ciro e Vorcaro, de acordo com as conversas, ia além de uma interlocução estritamente profissional. Os dois trocavam mensagens em tom pessoal, com declarações de amizade e referências familiares. Em 16 de fevereiro, o advogado voltou a procurar o banqueiro para tratar da aproximação com Mendonça.

“Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu Ciro. Em seguida, reforçou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”.

Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e depois sugeriu: “Marca quarta”. Na mesma troca de mensagens, Ciro chamou o banqueiro de “meu irmão caçula, meu protegido”. Vorcaro, por sua vez, referiu-se ao advogado como “irmão, anjo da guarda, parceiro, amigo de verdade” e escreveu: “Se não fosse você eu não estaria de pé”.

Depois dessa conversa, Ciro enviou um áudio de 1 minuto e 39 segundos no qual relatou sua interlocução com André Mendonça. Segundo ele, o ministro havia feito uma homenagem em sua festa de aniversário, evento que também teria contado com a presença do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

“O André Mendonça fez uma homenagem pra mim do caralho no aniversário. O Kassio, o Gonet, puta merda, enfim, foi bacana”, disse Ciro.

Na sequência, o advogado voltou ao tema que o levara a procurar Vorcaro: “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”

Ciro não explicou, nesse trecho, qual era “aquele assunto”. Mais adiante, porém, fez referência direta ao Banco Central e afirmou que Mendonça já havia sido informado sobre a situação tanto por ele quanto por Cezinha de Madureira.

“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo, me pediu até pra levar o Otto. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha, Cezinha já tinha falado com ele.”

O áudio indica que havia ao menos duas frentes de interlocução com Mendonça: uma conduzida por Ciro e outra por Cezinha. Segundo o advogado, ambos já haviam conversado com o ministro sobre a situação ligada ao Banco Central antes do encontro com Vorcaro.

Uma primeira tentativa de reunião foi marcada para 19 de fevereiro de 2025. No dia 17, Ciro avisou a Vorcaro que estava deixando Brasília e pediu para conversar com ele. Depois de uma ligação de 18 segundos, informou que Cezinha havia confirmado um compromisso para “às 16h de quarta”. A quarta-feira seguinte era 19 de fevereiro.

Na data marcada, Ciro pediu que Vorcaro convocasse Bruno Bianco Leal, ex-ministro da Advocacia-Geral da União no governo Jair Bolsonaro, para participar. Bianco comandou a AGU depois que Mendonça deixou o cargo para assumir uma cadeira no Supremo. Posteriormente, passou a atuar na iniciativa privada e se tornou advogado ligado ao Banco Master, integrando a equipe de defesa de Vorcaro.

“Ô, Dani, deixa eu te falar aqui, pede ao Bruno Bianco chegar aqui quatro e meia, pode ser? Que aí a gente faz uma apresentação aqui. Ou quatro e vinte”, disse Ciro em áudio.

A reunião, porém, não ocorreu naquele horário. A apuração da Noites Húngaras afirma ter conferido a agenda do Supremo e o registro em vídeo da sessão do plenário daquele dia. Mendonça estava em Brasília e participou presencialmente da sessão, que avançou pela tarde, o que tornaria impossível sua presença em São Paulo às 16h. As mensagens não esclarecem se o encontro foi cancelado ou remarcado.

Menos de um mês depois, Cezinha de Madureira voltou a acionar Vorcaro. Em 13 de março, o deputado informou que havia marcado uma reunião com André Mendonça para as 17h do dia seguinte, em São Paulo.

“Amanhã sexta-feira 17:00 com ministro André em São Paulo”, escreveu Cezinha.

Na sequência, o deputado enviou o endereço: Alameda Santos, 647, 16º andar. Vorcaro respondeu: “Show” e “Marcado”. Cezinha acrescentou: “Estarei lá para te receber” e reforçou: “Amanhã sexta-feira 14 às 17:00”.

No dia do encontro, 14 de março, Vorcaro procurou Cezinha pouco antes das 17h. “Fala amigo”, escreveu às 16h37. Três segundos depois, avisou: “Estou a caminho”. Após uma ligação de 20 segundos entre os dois, Cezinha enviou a mensagem que, segundo a apuração, confirma a presença de Mendonça no local: “Ministro já está te esperando.”

As conversas de Vorcaro com seu motorista reforçam o deslocamento até o endereço indicado. Às 16h30, o banqueiro encaminhou ao funcionário o mesmo endereço enviado por Cezinha. Em seguida, escreveu: “Descendo” e ordenou: “Vamos nesse endereço”. O motorista respondeu: “Ok dr”. Às 18h40, Vorcaro voltou a escrever ao funcionário: “Saindo”.

O intervalo entre a chegada e a saída indica que Vorcaro permaneceu no local por cerca de duas horas. Segundo a Noites Húngaras, a reunião ocorreu no endereço do Instituto ITER, instituição de ensino fundada por André Mendonça em 2023. O encontro não teria acontecido na sede do STF, no gabinete do deputado ou em uma dependência do Banco Master.

A escolha de um endereço privado levanta questionamentos sobre se a reunião foi registrada na agenda pública de Mendonça, em que condição o ministro recebeu o banqueiro, quem participou da conversa e qual assunto foi tratado. O material divulgado não inclui ata, gravação ou transcrição da reunião. Também não demonstra que o ministro tenha adotado qualquer providência depois do encontro.

Cezinha de Madureira, apontado nas mensagens como um dos articuladores da aproximação, exerce o terceiro mandato de deputado federal por São Paulo e é uma liderança ligada à Assembleia de Deus do Ministério de Madureira. Sua trajetória política está associada à Frente Parlamentar Evangélica. O ministro André Mendonça, por sua vez, foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro sob a promessa de nomear um ministro “terrivelmente evangélico”.

Segundo a apuração, Cezinha não apenas indicou o contato de Mendonça. Ele teria falado previamente com o ministro sobre a situação de Vorcaro no Banco Central, participado da tentativa de reunião em fevereiro e organizado diretamente o encontro realizado em março.

O material divulgado também menciona que, em 25 de agosto de 2026, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil na bagagem de mão de Valéria Linhares, advogada e mulher de Cezinha, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Valéria foi assistida pelo advogado Daniel Bialski, que também atua na defesa de Daniel Vorcaro. A coincidência na representação jurídica, ressalta a apuração, não comprova relação entre o dinheiro e o banqueiro ou o Banco Master, mas acrescenta mais um ponto de contato entre os personagens.

A newsletter Noites Húngaras informou que procurou o ministro André Mendonça e o deputado Cezinha de Madureira, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem. A assessoria de comunicação do STF confirmou o recebimento da demanda e disse que ela foi encaminhada ao gabinete de Mendonça. Segundo a publicação, o próprio ministro também tomou conhecimento da reportagem, mas não enviou manifestação. Ciro Rocha Soares também foi procurado, mas não foi localizado.

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