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terça-feira, 16 de novembro de 2021

Lula defende política de inclusão social no Parlamento Europeu

 


Para Lula é necessário recuperar a democracia no Brasil. Afirmou que é possível resolver os problemas do povo pobre e foi isso que os governos do PT fizeram no país.

Ricardo Stuckert

Jornal GGN Em sua viagem pela Europa, para estabelecer diálogo com diversos governos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista coletiva no Parlamento Europeu, defendeu as políticas de inclusão social. Lula criticou o governo Bolsonaro, que assumiu a política de vender tudo e que anulou o Bolsa Família, colocando no lugar um projeto eleitoreiro.

Para Lula é necessário recuperar a democracia no Brasil. Afirmou que é possível resolver os problemas do povo pobre e foi isso que os governos do PT fizeram no país. “Vamos voltar a fazer uma grande e forte política de inclusão social”, disse ele.

O ex-presidente considera que a situação atual do país foi pensada e arquitetada. Disse ser Bolsonaro uma cópia mal feita de Trump e que não entende nada. “O sonho dele é desfazer cada coisa que nós criamos”, disse Lula.

Lula criticou a extrema-direita por não pensar no povo e que se coloca como promotora da destruição atual. “Nós temos hoje um governo que, como não sabe governar, se pudesse, venderia tudo”, pontuou o ex-presidente.

Mas não é só o Brasil que vive uma situação tão delicada. Está acontecendo em outras partes do mundo, entende Lula, com o fascismo e a extrema direita. “O Bolsonaro representa hoje uma peça importante na extrema direita fascista, nazista”, disse.

Lula pontuou que, em seu governo, foi montada a maior política de inclusão social, onde o povo humilde voltou a comer e o país saiu do mapa da fome. “Nós conseguimos uma ascensão social que foi a maior da história do Brasil. Isso está sendo desestruturado”, disse.

Como exemplo, Lula falou da destruição da Petrobras, e da tentativa do governo Bolsonaro de vender os bancos públicos, como o BNDES, o maior banco de investimento da América do Sul.

O ex-presidente agradeceu o apoio e solidariedade recebidos por ocasião da luta contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e na perseguição política que o levou a ficar 580 dias preso, e que levou Bolsonaro a ser eleito presidente do Brasil.

E, por fim, o ex-presidente falou da solidariedade das pessoas na Vigília Lula Livre, em Curitiba. Para ele, era um alento para que continuasse confiante e animado na luta que estava por vir. “Eu estou livre, o juiz que me processou está sob suspeição porque ele mentiu no julgamento, ele fez um julgamento político”, afirmou Lula.

No Parlamento Europeu, Lula foi aplaudido de pé.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

SUS em grave risco: Governo assina decreto de parcerias privadas em Unidades Básicas de Saúde visando a privatização total do SUS

 

As UBS, as atenções primárias de saúde do sistema público, agora, poderão ser delegadas ao setor privado, por um decreto assinado pelo governo Bolsonaro

Jornal GGN:
Foto: Vagner Santos/Jornal d'aqui

Jornal GGN – Além dos cortes previstos no Sistema Único de Saúde (SUS) para o ano que vem, as Unidades Básicas de Saúde (UBS), que são as atenções primárias de saúde do sistema público, agora, podem ser delegadas ao setor privado, por um decreto assinado pelo governo Jair Bolsonaro.

O decreto foi publicado nesta terça (27), no Diário Oficial da União (DOU), incluindo as UBS no programa de concessões e privatizações do governo Bolsonaro. Assinado por Guedes e por Bolsonaro, o texto prevê estudos de privatização.

Nem sequer o Ministério da Saúde seria encargado de liderar este modelo, que será de responsabilidade de uma pasta do programa de concessões e privatizações do Ministério da Economia de Paulo Guedes.

Os objetivos anunciados, a primeira vista, mostram-se positivos: “parcerias com a iniciativa privada para a construção, a modernização e a operação de unidades básicas de saúde” e fala em “qualificação da política de fomento ao setor de atenção primária”.

Mas o decreto não informa como o setor privado se beneficiaria, as contrapartidas recebidas ou se será mantida a atual estrutura de benefícios das UBS, que além da atenção primária, é a responsável pela entrega de medicamentos de alto custo para brasileiros com doenças crônicas, vacinações, entre outras atenções.

O objetivo do decreto, vago e sem detalhes ou descrições, é viabilizar o início dos estudos para essas privatizações ou parcerias privadas no setor, incluindo a “estruturação de projetos pilotos”, a cargo da Secretaria Especial do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos) da pasta de Guedes.

Em resposta à Folha de S.Paulo, o PPI do Ministério da Economia defendeu a medida, buscando “encontrar soluções para a quantidade significativa de unidades básicas de saúde inconclusas ou que não estão em operação no país”. O jornal questionou o quanto o setor privado poderia se beneficiar dessa proposta, e a pasta respondeu somente que está em análise possíveis “modelos de negócios”.

À Folha, o PPI também disse que haverá atuação do Ministério da Saúde, e não somente do gabinete da Economia. “Importante destacar que caberá ao PPI coordenar os esforços em busca da construção de modelos de negócios, mas a condução da política pública será realizada pelo Ministério da Saúde. Não se trata de delegar ao privado as funções de Estado, mas de aprimorar a prestação de serviços”, respondeu.

Leia o decreto abaixo:

 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Enfrentar a Injustiça Social e a desumanidade neoliberal: Se não agora, quando? Texto de Ergon Cugler




Superação da crise demanda responsabilidade fiscal e social aliada à eficiência pública
Jornal GGN:

Banksy

via Jornal da USP 

Reduzir Desigualdades. Se não agora, quando?

por Ergon Cugler ( EACH / USP )*

Em meio às diversas visões de mundo e concepções econômicas ou de modelo de Estado, o combate às desigualdades socioeconômicas surge como um possível mínimo múltiplo comum para que o diálogo ocorra. Evidência disso, uma pesquisa da Oxfam Brasil(2019) aponta que 94% dos brasileiros concordam que os impostos pagos pela população devem ser usados em benefício dos mais pobres, enquanto 86% diz que o progresso do país está diretamente ligado à redução da desigualdade socioeconômica.
Porém, enquanto o debate segue em alta – mais ainda diante da pandemia da covid-19 -, os relatórios do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) colocam o Brasil como o sétimo país mais desigual do mundo. Ainda, o Brasil fica em segundo lugar (atrás apenas do Catar) como país com maior concentração de renda entre os 1% mais rico, “a parcela dos 10% mais ricos do Brasil concentram 41,9% da renda total do país; e a parcela do 1% mais rico concentra 28,3% da renda”.
No entanto, se o combate às desigualdades socioeconômicas nos une enquanto brasileiros, por que seguimos no topo do ranking da desigualdade mundial?
Estrutura e práxis
Ao longo do texto da Constituição (1988) encontramos quatro vezes a palavra “desigualdade”: (i) no artigo 3º, inciso III, “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais” como objetivo fundamental da República; (ii) no artigo 43, “visando a seu desenvolvimento e à redução das desigualdades regionais”; (iii) no artigo 165, § 7º, como objetivo do orçamento e do plano plurianual, a redução de “desigualdades inter-regionais, segundo critério populacional”; e (iv) no artigo 170, item VII, estabelecendo como princípio da ordem econômica a “redução das desigualdades regionais e sociais”. Sendo que para se alcançar tais objetivos deve-se ainda cumprir os cinco princípios da administração pública (artigo 37): a legalidade, a impessoalidade, a moralidade, a publicidade e a eficiência.
Porém, é especialmente na retórica da eficiência onde ocorre um sequestro da narrativa que busca justificar o distanciamento do Estado como instrumento de enfrentamento às desigualdades existentes, forjando uma incerteza quanto a quem será responsável por tal papel. Aliás, se não o Estado, quem?
Exemplo disso, no campo econômico, no planejamento e no orçamento é comum ouvir o discurso da austeridade – isto é, de “corte de gastos” -, para uma eficiência das contas públicas, defendido por dois argumentos: (i) de que o ajuste fiscal poderia atrair investidores estrangeiros, por fazer do país exemplo de bom pagador; e (ii) em referência ao orçamento doméstico como metáfora, fala-se que “não se pode gastar mais do que entra no lar”. Nesse sentido, submete-se o planejamento estratégico e a composição do orçamento público à política de ajuste fiscal permanente, tratando investimentos à áreas sensíveis como se fossem apenas gastos a serem cortados em função da eficiência.
Um ajuste fiscal, porém, não melhora necessariamente a confiança de investidores. Pelo contrário, como o Estado também realiza compras e consome de empresas diversas – além de financiar programas de renda ou incentivo fiscal que resultam em consumo das famílias -, o “corte de gastos públicos” resulta, muitas vezes, em redução da demanda, dificultando o investimento por não existir expectativa de lucro por parte do empresário. Quanto à metáfora do orçamento doméstico, os economistas Pedro Rossi, Esther Dweck e Flávio Arantes (2018) escrevem que (a) diferente das famílias, o governo tem capacidade de definir seu orçamento, sendo a arrecadação uma decisão política e, por exemplo, possível escolher “tributar pessoas ricas ou importações de bens de luxo, para não fechar hospitais”;(b) também diferente das famílias, “quando o governo gasta, parte dessa renda retorna sob forma de impostos”; e (c) as famílias não emitem moeda, títulos e não definem taxas de juros das dívidas que pagam, diferente do governo.
Portanto, no campo econômico, a política de “corte de gastos públicos” – enquanto sequestro da narrativa da eficiência -, sequer é eficiente, eficaz ou efetiva, pois não gera necessariamente desenvolvimento econômico e ainda acentua desigualdades ao limitar estímulos fiscais aos que mais precisam. Na mesma linha, no campo do direito financeiro, os diversos instrumentos normativos – haja vista a própria Constituição -, devem estar a serviço do povo. Mas, se além da percepção das desigualdades evidencia-se a ingerência econômica, por que não usar tais normas e instrumentos a serviço do povo? Se não, a serviço do quê?
Coesão e eficiência a serviço do povo 
Ainda que exista coesão – concordância -, dos brasileiros quanto a necessidade de se enfrentar desigualdades socioeconômicas, nossa coalizão – articulação -, para executar tal enfrentamento segue dispersa, muito pelo sequestro da narrativa da responsabilidade fiscal e social. Isto porque, enquanto os símbolos seguem emaranhados e os instrumentos normativos são reduzidos a funções meramente procedimentais ou técnico-deterministas, os próprios mecanismos de participação social, como audiências públicas e plataformas de controle e fiscalização, seguem esvaziados ou engessados, limitando a expressão inclusive para se combater tais desigualdades.
Além, reduzir o papel do Estado apenas à eficiência como destinação técnica dos recursos contraria um conjunto de normas que constitui a responsabilidade fiscal e social, exemplo às Normas do Direito Financeiro (lei 4320/1964), a Lei de Responsabilidade Fiscal (lei complementar 101/2000) – mais adiante com a lei complementar 131/2009, a lei complementar 156/2016 e o decreto 7185/2010 -, o Sistema de Planejamento e de Orçamento Federal (lei 10180/2001) e o acesso à informação (lei 12527/2011). Isto é, sendo o orçamento não apenas uma lei recomendatória, mas um conjunto de normas a serem estrategicamente gerenciadas, há valor vinculante e, portanto, demanda planejamento e discussão em sua totalidade: do financiamento à distribuição.
No entanto, como recorda o professor Marcelo Arno Nerling, “o exercício da cidadania não decorre de uma ‘lei natural’”, pelo contrário, “pressupõe de valores que inspirem e orientem a conduta de cidadãos livres, ativos e responsáveis, que têm vontade de Constituição”. Nesse sentido, a coesão social, por si só, tampouco é garantia de uma sociedade melhor, mas é a partir do exercício da cidadania que tal coesão social pode construir arranjos estruturais menos desiguais e mais democráticos para a sociedade.
Para tanto, é preciso encarar a responsabilidade fiscal e social para além de frases de efeito, incorporando-as como instrumento e objetivo estratégico, mais ainda durante crises. Dessa forma, superar a falsa polarização entre eficiência e combate às desigualdades, pois quão mais o Estado seja eficiente, mais recursos ele poderá utilizar para atender a população de forma mais equânime; e a equidade, por sua vez, torna-se pré-requisito para propiciar condições de controle e participação social, fortalecendo a eficiência estrutural, pois gestão planejada e transparente previne riscos e corrige desvios (artigo 1º, § 1º da lei complementar 101/2000).
Nesse sentido, o esforço deve estar em identificar necessidades enquanto nação, constituindo projeto que ouse inverter a pirâmide tributária brasileira, hoje extremamente regressiva e desigual. Ainda, somar forças ao debate de proposições históricas, como aRenda Básica através de especialistas como Leandro Teodoro Ferreira e a Taxação das Grandes Fortunas, ou a Contribuição Social Emergencial sobre Altas Rendas, reafirmada pelos especialistas Fábio Pereira dos Santos e Ursula Dias Peres.
Amadurecendo o debate e fazendo das leis mais do que checklists técnicos, talvez seja possível exercitar a gestão democrática, ampliar a transparência e fazer do Estado um instrumento eficiente de enfrentamento às desigualdades. Até porque, se não agora, quando?
* Ergon Cugler é pesquisador da USP (Universidade de São Paulo), associado ao OIPP (Observatório Interdisciplinar de Políticas Públicas) e ao Getip (Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública) da Each (Escola de Artes, Ciências e Humanidades).

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segunda-feira, 30 de março de 2020

Política Pública não deve servir ao Mercado, por Andre Motta Araujo


Não se poderia esperar outro padrão da equipe neoliberal de Chicago, está no seu DNA, TUDO PELO MERCADO NADA PARA A SOCIEDADE

Política Pública não deve servir ao Mercado

por Andre Motta Araujo, no GGN

Há uma perigosa ilusão no ambiente de mega crise econômica do Coronavírus. A de que essa equipe econômica de Chicago poderá operar o conjunto de providências de garantia de renda de subsistência para os antigos pobres e os novos pobres da economia informal paralisada pela quarentena. Essa equipe tem nível de fanatismo ideológico inédito no comando da economia brasileira desde 1945.
Quando se dizia que Roberto Campos era um ortodoxo ninguém imaginava que apareceria um Paulo Guedes comandando QUATRO ministérios não só da área econômica, mas também da social, o do Trabalho e Emprego, além de indiretamente comandar a PETROBRAS e o INSS. Nunca um grupo mediano e sem vivência política antes no Brasil teve tanto poder.
As necessidades de contrabalanço social da mega crise econômica que já está instalada exigem outro tipo de comandantes, mentes arejadas, ecléticas, mesmo que conservadoras, mas especialmente cérebros de primeira ordem com sensibilidade social e capacidade de empatia com o sofrimento alheio, algo que nem passa pela cabeça de quem passa férias em Miami no mesmo momento em que dois milhões de idosos, desempregados, gestantes se amontoam em filas do INSS, além de inexplicáveis filas do Bolsa Família, não causam nenhum sentido de urgência em neoliberais da Florida.
O primeiro ato no início do governo Bolsonaro de que esse viés anti pobre se instalou foi no chamado “combate à fraude” no INSS quando, em poucas semanas, se cancelaram 269 mil benefícios, algo estranho porque o INSS não costuma ser pródigo na concessão de benefícios. Como poderiam ser encontrados tantos benefícios fraudados em tão pouco tempo?  Uma presunção é de que cancelaram benefícios por irregularidades formais, gente doente que não pode ir ao posto fazer prova de vida, por exemplo.
Cancelar um benefício de gente carente significa, muitas vezes, uma sentença de morte, para cancelar seria preciso MAIS CUIDADO, ir à casa do beneficiado, na dúvida não se deve cancelar, é uma questão de visão de mundo e de atitude de solidariedade com os miseráveis, especialmente quando os benefícios no INSS raramente são expressivos, a esmagadora maioria fica na faixa do salário mínimo.
Cancelar por presunção de fraude atingindo tanta gente é uma temeridade. Foi esse o aperitivo da passagem do INSS para o comando do Ministério da Economia, colocando uma entidade cujo finalidade é social para o comando de fanáticos da ideologia de mercado.
Se vislumbra um tsunami social e econômico no Brasil da quarentena e para lidar com essa hecatombe é preciso um espirito solidário, compreensivo, aberto, generoso, competente e eclético, com visão macro, do naipe e sem sugerir nomes, de um Armínio Fraga e uma Monica de Bolle, conservadores flexíveis e não  ortodoxos com ideias fixas e demodés, cozinheiros de um prato só e ruim.
A urgência é óbvia, TODOS OS QUE PROPÕE QUARENTENA TEM RENDA GARANTIDA, quarentena para quem depende do ganho no dia para comprar o jantar é algo fácil recomendar mas é difícil de resolver na prática, é tarefa de gigantes que tenham vocação de políticas públicas.
A mídia e grande parte da classe política cai sobre o Presidente por causa da crise, mas poupam essa fraquíssima equipe econômica, fraca mesmo antes da crise, conforme comprovam seus parcos resultados e que tem como único instrumental as míticas e resolvedoras “reformas” e nada mais. Como confiar nos mesmos para uma crise infinitamente pior e mais grave do que a normalidade da qual os mesmos personagens não davam conta?
POLÍTICAS PÚBLICAS NÃO PODEM DEPENDER DO MERCADO
O presidente do BNDES, que chama a atenção pela juventude e imaturidade, no sentido de falta de bagagem para comandar o maior banco estatal de fomento do mundo, apresentou uma série de programas de refinanciamento de dívidas de empresas, permitindo prorrogação por até 6 meses de prestações de empréstimos do BNDES, mas ele realçou com ênfase que a prorrogação DEPENDE DO CRITÉRIO DO AGENTE REPASSADOR, isto é, do banco que operou o crédito com dinheiro do BNDES, ganhando uma comissão pelo repasse, o chamado Banco Agente. Quer dizer, um programa de POLÍTICA PÚBLICA para enfrentar uma crise social fica a CRITÉRIO DO MERCADO, uma completa aberração.
O Banco Agente pode NEGAR a prorrogação ou, pior ainda, pode conceder, mas em troca de outros negócios do devedor com o mesmo banco. Na prática, quem tomou crédito do BNDES com um Banco Agente tem outros negócios com esse mesmo banco, no mundo real os Bancos Agentes usam dessa condição para alavancar outros negócios com o cliente, por exemplo, apólices de sua seguradora, PIOR ainda, pode condicionar a prorrogação do crédito do BNDES ao pagamento prévio desse devedor de outras dívidas com o próprio banco, o que, na prática, significa que o banco se aproveita de uma política pública para limpar sua carteira de outros riscos, é o que costuma acontecer.
Na prática está se usando uma POLÍTICA PÚBLICA para benefício do mercado, sem que esse precise operar com seu capital, ele usa dinheiro público para sua vantagem.
Ao contrário dos programas para atender aos desempregados e informais sem renda, o número de devedores do BNDES não é grande, dá perfeitamente para o BNDES atender diretamente em regime de força-tarefa ou até por Internet ou na hipótese de cobertura territorial, pode atender via CAIXA ECONÔMICA ou BANCO DO BRASIL.
O absurdo é DELEGAR AO MERCADO a decisão de fazer ou não a prorrogação com DINHEIRO PÚBLICO, quer dizer o ESTADO DELEGA AO MERCADO A DECISÃO do uso do dinheiro público, o que obviamente beneficia os bancos agentes que irão tirar proveito da crise sem correr riscos e sem usar seu capital.
Não se poderia esperar outro padrão da equipe neoliberal de Chicago, está no seu DNA, TUDO PELO MERCADO NADA PARA A SOCIEDADE, o Estado deve ser mínimo, mas sempre que a ocasião se apresenta VAMOS TIRAR VANTAGEM DO ESTADO, como por exemplo fazer curso em Chicago com bolsa do Estado ou ganhar dinheiro com fundos de pensão estatais, aí o neoliberal troca de camisa por algum tempo até tirar o proveito do Estado, depois batalha pelo Estado Mínimo.

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Quem tem medo de Bernie Sanders? Por Glauco Faria


Ele venceu em New Hampshire e tem chances claras de derrotar Trump. Mas establishment do Partido Democrata trama sabotá-lo, como em 2016. Em nome do grande poder econômico, deixa-se a fresta aberta para a ultradireita


Por Glauco Faria, da Rede Brasil Atual
Quando Bernie Sanders se lançou na corrida pela candidatura do Partido Democrata à presidência dos EUA, em 2016, poucos levaram a sério. No entanto, já na primeira das disputas daquele ano, em Iowa, o senador de Vermont se mostrou competitivo, ficando pouco atrás de Hillary Clinton.

Ali, a luz amarela acendeu para a cúpula da legenda. Se antes ele era visto apenas com menosprezo ou relativa antipatia pelos altos dirigentes, o quadro agora era outro. E o Comitê Nacional, que deveria ser neutro na competição, não hesitou em interferir no jogo.

Nas últimas semanas das prévias, o site WikiLeaks divulgou o que muitos já sabiam: Sanders era sabotado pela cúpula da legenda. A ex-comentarista da CNN, vice e posteriormente presidenta do Comitê, Donna Brazile, havia informado a campanha de Hillary a respeito de uma pergunta que seria feita a ela em um evento da emissora em março.

Antes, em janeiro, encaminhou um e-mail à equipe da ex-secretária de Estado revelando o planejamento de Sanders para conquistar votos junto à população negra.

Em 2017, a própria Brazile admitiu que a postura de Hillary Clinton ao transferir US$ 10 milhões ao partido, que tinha dívidas de US$ 2 milhões, antes da campanha, havia sido algo duvidoso. “O acordo de financiamento com Hillary For America [a campanha] e Hillary Victory Fund [instrumento de recolha de fundos em conjunto com o Comitê Nacional Democrata] não era ilegal, mas com certeza não foi ético. Se a luta tivesse sido justa, uma campanha não teria controle do partido antes que os eleitores decidissem qual dos candidatos queriam”, apontou.

Em 2020, no início da corrida pela indicação da legenda, o caucus de Iowa já levantou sérias dúvidas sobre a lisura do pleito. Mais uma vez a cúpula da legenda se mostra refratária à candidatura de Sanders, que tem sofrido nas últimas semanas ataques seguidos de sua ex-adversária Hillary Clinton, porta-voz de boa parte dos dirigentes e de outros interesses. É a reprise de um filme que terminou, em 2016, com a eleição de Donald Trump.

A resistência ao nome de Sanders e as táticas usadas para minar sua postulação são sintomas evidentes da crise de representatividade política vivida não somente nos Estados Unidos, mas em diversas outras partes do mundo. A cúpula do Partido Democrata demonstra pouco ou nenhum interesse por um processo minimamente democrático e tal desinteresse e menosprezo é percebido pelo cidadão comum, revelando a opção da legenda pela autofagia.

Frustração com o sistema e o Occupy Wall Street

O mal-estar em relação ao funcionamento da democracia em todo o mundo é notório e ficou mais claro em um relatório divulgado, em janeiro último, pelo Centro para o Futuro da Democracia da Universidade de Cambridge. Ao compilar dados de 154 países. O estudo concluindo que, em 2019, foi registrado o “mais alto nível de descontentamento democrático” desde 1995. Desde então, o índice dos “insatisfeitos” cresceu de 47,9% para 57,5%.

Muitos intelectuais já alertavam para o esgotamento de um modelo consagrado em diversos países e que contempla, basicamente, o direito ao voto como um dos principais pilares que fundamentaria uma sociedade dita democrática. Por motivos reais – como a brutal interferência do poder econômico e regras vigentes em países como os próprios EUA, onde eleitores mais pobres de diversos locais têm dificuldades para efetivar registros que garantam o direito ao voto, e outras justificativas menos plausíveis, exploradas pela extrema-direita – a disputa eleitoral ganhou ares de um jogo com cartas marcadas, no qual o cidadão tem pouca margem de escolha.

Alimentada pelo poder econômico-financeiro, e o alimentando uma vez conquistados os espaços de poder institucional, a máquina eleitoral se distanciou das aspirações da maior parte da sociedade, tirando progressivamente a voz de quem já quase não a tinha. Nos Estados Unidos, em 2011, a eclosão do Occupy Wall Street, movimento no qual se questionava o poder do 1% que determinava o destino da nação, foi ilustrativo dessa frustração.

Naquele momento, vinha à tona parte da pauta invisibilizada e já defendida por Sanders anteriormente, agora com mais força. “Precisamos desesperadamente que os trabalhadores venham junto para enfrentar Wall Street. Os americanos estão dizendo que ‘já deu’ (‘enough is enough’). Precisamos reconstruir a classe média neste país e vocês (o 1%) não podem ter tudo”, dizia ele ao saudar o evento.

A grande visibilidade do movimento “mudou o assunto” da cena política e a mídia corporativa teve que tocar em temas como a extrema desigualdade e a concentração econômica, com o meio acadêmico também voltando sua atenção para questões negligenciadas. Sanders ganhou relevância ao adotar como cerne a denúncia dos privilégios e interesses do chamado 1% em sua campanha à presidência em 2016, demonstrando a força da mensagem cinco anos após o Occupy.

A própria forma de fazer campanha era parte do enfrentamento. Ao recusar o dinheiro dos chamados Super-PACs, comitês formados para arrecadar recursos junto aos grandes financiadores, o senador conseguiu produzir mais engajamento de seus apoiadores e contestar o desequilíbrio evidente entre a elite bilionária e o restante da população.

A adesão à ideia foi tamanha que o pré-candidato foi líder em arrecadação de recursos em 2019, com 1,4 milhão de pessoas que contribuíram para sua campanha. São doadores que realizam contribuições periódicas, em média 18 dólares por pessoa.

Quem se importa com a democracia?

O Occupy veio em um período no qual outros países também contavam com movimentos com pautas similares. Na Espanha, os chamados “Indignados” também são responsáveis pela institucionalização de pautas presentes na mobilização por meio da formação do Podemos.

Em outros países, forças que lutam pelo aprimoramento do sistema político e da democracia não tiveram o mesmo êxito e a insatisfação resultou na ascensão de lideranças extremistas que fomentam o ódio e, no campo econômico, preservam os interesses dos bilionários.

Nos próprios Estados Unidos a contradição é evidente: Donald Trump se elegeu como um outsider em uma posição confortável do ponto de vista retórico. Não era “mais um”, como aqueles do establishment político do bipartidarismo estadunidense, condição que lhe permitiu, aliás, ir de um para outro partido sem grandes problemas.

Mas se era alguém “de fora” dessa arena desgastada, foi também o respiro para que a frustração da população não resultasse em uma alternativa contestatória em relação à forma de se fazer política e ao sistema econômico que sustentava esse modus operandi. Trump, assim como Bolsonaro no Brasil e outros, era a aparente mudança que preservaria tudo como sempre para a alta-roda.

Mas, além de Trump, outras forças se levantaram. Logo em sua posse, em 2017, os Estados Unidos assistiram às maiores manifestações populares desde aquelas realizadas contra a Guerra do Vietnã em oposição ao ideário do novo presidente. Nas midterms, eleições de meio de mandato, lideranças, como Alessandria Ocasio-Cortez e outras deputadas representando segmentos excluídos do ponto de vista institucional, chegaram ao Congresso estadunidense com o apoio de movimentos que encarnavam os ideais de renovação política.

Quando se fala em “renovação”, neste caso, não se trata somente de um recurso discursivo, mas da adoção de iniciativas que englobam desde mecanismos de financiamento que excluam grandes doações, passando pelo diálogo constante com associações e coletivos e horizontalidade de fato na construção de propostas.

Sanders faz parte desse movimento e boa parte de seus apoiadores se baseia genuinamente no slogan de sua campanha: “Não eu, nós”. São pessoas organizadas em movimentos que vão além da militância em períodos eleitorais, resgatando o sentido original da política, de participação. E talvez aí resida o problema para a cúpula do Partido Democrata.

Quando trabalham de forma explícita contra a candidatura de Sanders, os dirigentes da legenda sugerem que talvez seja melhor perder para Trump do que fomentar um movimento que tenha a capacidade de modificar as próprias estruturas do partido e do sistema político-econômico do país. O problema não são apenas as propostas da campanha do senador de Vermont, mas o que ele pode representar em termos de arejamento verdadeiramente democrático, trazendo para o termo desgastado um significado que supere o mero direito a voto.

No Brasil, é possível ver que parte da elite partidária se importa pouco com os fundamentos da democracia formal e trabalha contra qualquer tentativa de expansão dos horizontes da participação direta, do associativismo ou da igualdade de condições dentro das estruturas partidárias e de acesso a recursos de campanha nas eleições. O mesmo comportamento se reproduz entre a elite econômico-financeira, que tolera e/ou colabora com um governo de índole autoritária contanto que seus ganhos sejam preservados ou ampliados. Não à toa, são os mesmos que em diversas ocasiões colaboraram com regimes de exceção. E não hesitarão em fazê-lo de novo.

E pela mesma razão estamentos como os do Partido Democrata dos Estados Unidos temem qualquer iniciativa que busque mudar as regras do jogo. Para eles, é preciso circunscrever a participação, mantendo as aparências, e sem possibilidade de mudanças de fundo.

Neste ponto, o que está em disputa na candidatura de Bernie Sanders são alguns conceitos caros. De um lado, o cenário mostra a necessidade de se batalhar ativamente no campo político o tempo todo, não somente em períodos eleitorais, como muitos acabaram se habituando. É justamente fora desses períodos que existe a possibilidade maior de transformar a correlação de forças. De outro, é necessário ter em vista que nenhuma mudança efetiva virá sem uma resistência grande daqueles que fingem se importar com princípios democráticos, mas que os tratam como mero escudo quando lhes convém.

As eleições nos Estados Unidos já são um ponto de virada para os defensores da luta por uma democracia de fato, pois trazem exemplos de organização e engajamento que podem ser replicados, respeitados os contextos, em outros lugares. Resta saber com que velocidade as transformações virão...

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