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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Sete pontos sobre o golpe militar-Bolsonarista, por Tereza Cruvinel

 

"A hora de Jair Bolsonaro chegou. Já existem provas, e não apenas indícios, de sua participação central na tentativa de golpe", diz Tereza Cruvinel

Jair Bolsonaro e presídio federal de segurança máxima

Jair Bolsonaro e presídio federal de segurança máxima (Foto: Reuters | Agência Brasil )

Na avalanche de informações sobre os planos golpistas, quero destacar sete pontos.

1. O destino de Bolsonaro

A hora de Jair Bolsonaro chegou, embora não devamos esperar que ele seja preso em breve. Sua hora chegou porque já existem provas, e não apenas indícios, de sua participação central na tentativa de golpe. Que prova pode ser mais eloquente que um vídeo em que ele discute o golpe com seus auxiliares? O que dizer da descoberta, via delação de Mauro Cid, de que ele recebeu no dia 9 de julho de 2022 o general Theophilo de Oliveira, comandante do COTER (Comandando de Operações Terrestres), que lhe garantiu o emprego de seu batalhão na quartelada? Ou das mudanças que ele pediu no decreto do golpe, excluindo a prisão do ministro do STF Gilmar Mendes e a do senador Rodrigo Pacheco e deixando apenas a de Alexandre de Morais?

Bolsonaro teve o passaporte apreendido mas ninguém espere vê-lo sofrendo uma prisão preventiva ou temporária. Como ex-presidente, ele será em breve indiciado. Depois será denunciado, julgado e, esperamos todos, condenado. Tudo será feito com absoluto rigor, para que não pairem dúvidas que alimentem o vitimismo. Só depois de condenado ele será preso. E paremos de falar em Papuda. Como ex-presidente ele irá para uma unidade militar. Isso tudo ouvi de uma fonte do Judiciário.

2. Por que o golpe de Bolsonaro falhou?

Já sabemos muito sobre o que foi planejado mas o documento do ministro Alexandre Morais, autorizando a Operação Tempus Veritate, pouco revela sobre seu fracasso. Estou falando do golpe que seria dado antes das eleições ou antes da posse de Lula. O 8 de janeiro foi um esperneio aloprado, uma tentativa de realizar, já com Bolsonaro nos EUA e Lula empossado, o golpe que não conseguiram dar antes.

Pode parecer secundaria mas essa minha curiosidade tem sua razão de ser. O golpe falhou por que Bolsonaro desistiu, porque os comandantes militares o impediram ou por qual razão? Já sabemos que Alexandre de Morais deveria ser preso no dia 18 de dezembro. Não foi. No dia 22, a PF abortou o atentado a bomba planejado para ocorrer perto do aeroporto de Brasília. Seria ele a senha para a decretação do estado de sítio? O que houve entre os militares que pode ter impedido o golpe? Tudo isso ainda precisamos saber.

3. O crime dos que resistiram mas não denunciaram o golpe

Desde o ano passado o ministro da Defesa, José Múcio, repete o mantra de que a democracia foi salva pelos militares legalistas que resistiram ao golpe. Agora sabemos que, de fato, o então comandante do Exército, Freire Gomes, bem como o da Aeronáutica, Batista Júnior, não embarcaram na aventura, ao contrário do Almirante Garnier, que comandava a Marinha. Isso é um avanço em relação à tradição militara brasileira mas, inocente Freire Gomes não é: além de ter se calado, sabendo do golpe, tolerou o acampamento golpista à porta de seu QG em Brasília.

Vale recordar que Batista Júnior – aquele que Braga Neto xinga de traidor e manda que infernizem a vida dele e de sua família – teve conduta melhor. Foi ele que fez chegar a Alexandre o conselho para que antecipasse a diplomação de Lula, prevista para o dia 22 de dezembro de 2022, porque poderia haver ação golpista no final do mês. O ato foi antecipado para o dia 12, que foi um dia de terror em Brasília.

O que fará a Justiça em relação aos que se omitiram? E foram muitos. O golpe, pelo visto, era segredo de polichinelo na caserna.

4. A Abin Paralela e o FirstMile no golpe

A PF descobriu que o assessor de Bolsonaro Marcelo Câmara, membro do grupo de inteligência do golpe, monitorava os movimentos do ministro Alexandre de Morais. Afinal, quando o golpe estourasse, ele teria que ser preso. O documento autorizando a operação Tempus Veritate afirma: “ as circunstâncias identificadas evidenciam ações de vigilância e monitoramento em níveis avançados, o que pode significar a utilização de equipamentos tecnológicos fora do alcance legal das autoridades de controle. As ações identificadas de MARCELO CÂMARA revelam o uso de uma “Inteligência paralela” para municiar os planos do grupo. Nesse sentido, considerando o atual estado de liberdade do investigado, não há garantias de que o monitoramento ao ministro ALEXANDRE DE MORAES tenha realmente cessado, não se descartando a possibilidade, inclusive, de outras autoridades do Poder Judiciário estarem sendo monitoradas...”. Esta foi a justificativa para sua prisão. O trecho acima, entre aspas, parece sugerir que a Abin Paralela e o software israelense FirtsMile foram usados para monitorar o ministro.

5. A situação de Valdemar e do PL

Muita gente criticou ontem o senador Humberto Costa (PT-PE), considerando precipitado seu anúncio de que pedirá a cassação do registro do partido. Não acho. O documento autorizando a operação deixa muito claro que o PL foi utilizado para financiar algumas operações e que sua sede no Lago Sul funcionou como QG para alguns dos operadores. Que o partido teve papel ativo na articulação, ao apresentar ao TSE o pedido de exclusão dos votos de um grande número de urnas, com base em estudo que contratou, com recursos do fundo eleitoral, a um certo Instituto Voto Livre. Partido que serve a plano golpista não pode funcionar no sistema democrático.

Quanto a Valdemar, está preso por conta da arma ilegal e da pepita de ouro. É possível que seja liberado em breve, mas não estará livre das consequências de sua atuação no plano golpista.

6. O documento encontrado no gabinete do PL

Pouco se sabe sobre a origem de um documento apócrifo, com a vaga forma de uma exposição de motivos, justificando a decretação do Estado de Sítio, seguido de uma GLO. Segundo a Globonews, que o revelou, o papel tinha o timbre do PL e estava na sala usada por Bolsonaro, na sede do partido, após deixar a Presidência. Algo sugere que possa ter sido escrito pelo próprio, como o uso da expressão “dentro das quatro linhas” (da Constituição). Seu advogado negou a autoria, lembrando que o Estado de Sitio precisa ser aprovado pelo Congresso. Mas Bolsonaro não tinha o Centrão para isso? Seja quem for o autor, o documento é só mais um confeito neste bolo. Já sobram indícios e provas de que estivemos bem perto de uma quartelada, seguida de uma ditadura.

7. O conforto de dois golpistas

Muitos dos conspiradores foram para o degredo na planície dos sem-poder após a posse de Lula, tais como Heleno e Braga Neto, sem falar nos que foram presos, como Anderson Torres e Mauro Cid. Mas dois continuaram desfrutando de sombra e água fresca, como se nada tivessem feito.

Um foi o general Estevam Theóphilo de Oliveira, que continuou chefiando o Comando de Operações Terrestres até novembro do ano passado, e como tal, integrando o Alto Comando do Exército. Em 9 de dezembro de2022 ele acertou com Bolsonaro o uso de suas tropas na quartelada.

Outro é o coronel Bernardo Romão, que por sua atuação relevante, inclusive no 8 de janeiro, teve a prisão preventiva decretada. Em dezembro de 2022 ele conseguiu ser nomeado para um posto em Washington, onde passou os últimos meses ganhando em dólares. Quase escapou mas foi preso ontem à tarde.

Com ele, são três os militares presos: Os outros dois são o coronel e ex-assessor de Bolsonaro, Marcelo Câmara, e o major Rafael Martins, preso em Niterói.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Tereza Cruvinel: O dia que selou o destino de Bolsonaro e jogou os militares no fogo

 

"Para o futuro da democracia no Brasil, será imprescindível a condenação de Bolsonaro por ter planejado um golpe", diz Tereza Cruvinel, fundadora e ex-presidente da EBC/TV Brasil, ex-colunista de O Globo, JB, Correio Braziliense, RedeTV e outros veículos

Walter Delgatti e Jair Bolsonaro

Walter Delgatti e Jair Bolsonaro (Foto: Lula Marques/ Agência Brasil | PR)

Três detonações abriram ontem uma cratera sob os pés de Bolsonaro e selaram seu destino como futuro presidiário:  as acusações do hacker Walter Delgatti na CPMI do 8 de janeiro, a anunciada confissão Mauro Cid, que cumpriu ordens do ex-chefe para vender joias e lhe entregar o dinheiro, e a autorização do ministro Alexandre de Morais para a quebra dos sigilos bancário e fiscal dele e de Michelle.

Na derrocada, Bolsonaro arrasta para o fosso os militares que embarcaram com ele na aventura golpista contra a democracia, buscando desmoralizar o sistema eleitoral e solapar a vontade popular para mantê-lo poder. Tiveram motivações ideológicas, certamente mas quiseram também conservar as boquinhas e privilégios obtidas no governo dele.

Com a confissão de Cid, Bolsonaro pode tornar-se réu, e ser preso, primeiro no caso das joias. Que mais faltará? Com a quebra dos sigilos e a devassa dos celulares do advogado Wassef, uma profusão de provas surgirá.

Mas, para o futuro da democracia no Brasil, será imprescindível e imperativa a condenação de Bolsonaro por ter planejado um golpe de Estado valendo-se da mentira, da manipulação de consciências e finalmente da abolição violenta do Estado de Direito, pois isso é que foi tentado em 8 de janeiro e nos eventos de dezembro.

Este desfecho já não é tão iminente como o do caso das joias, apesar da gravidade das acusações que lhe foram feitas ontem por Delgatti. Algumas das coisas que ele disse na CPMI são verdades já demonstradas. Outras terão que ser provadas no âmbito do inquérito comandado por Alexandre de Morais.

É certo que Delgatti foi atraído para a colaboração com o bolsonarismo pela deputada Carla Zambelli, é certo que dela recebeu dinheiro e que esteve no Palácio da Alvorada com Bolsonaro, existindo registro fotográfico de sua saída. O próprio Bolsonaro, bem como seu filho Flávio, admitiram ontem que o hacker foi encaminhado ao Ministério da Defesa, segundo eles para assessorar a equipe militar que acompanhava o processo eleitoral, diga-se de passagem, procurando o tempo todo colocar em dúvida a segurança das urnas eletrônicas.

Outras acusações de Delgatti escoram-se apenas em sua palavra, embora tenham uma coerência gritante com os métodos e o processo mental de Bolsonaro e dos seus. São elas a de que Bolsonaro pediu-lhe para assumir a autoria de um grampo contra Alexandre de Morais, já realizado por colaborador estrangeiro. Talvez Bolsonaro tenha dito isso pensando na gravação que seria tentada pelo senador Marco do Val, talvez por fanfarronice, e talvez não tenha havido isso. Trabalho para a Polícia Federal, que ao ouvir o hacker novamente hoje, começará perguntando porque ele disse na CPI coisas que omitiu no depoimento da véspera.

Da mesma forma, falta ainda a prova de que Bolsonaro tenha lhe proposto a criação de um código fonte falso para uma urna de origem não esclarecida, nele inserindo um comando malicioso que faria um voto em um candidato ser computado para outro. Um de Bolsonaro sendo contado para Lula. Que urna seria essa? Delgatti falou na OAB, que ontem mesmo disse não possuir urna eletrônica alguma. Ele sugeriu que haveria um teatro no 7 de setembro, com uma demonstração pública da vulnerabilidade da urna. Mas como terminou isso? Desistiram do plano ou Delgatti não foi capaz de entregar a encomenda? São perguntas que os membros da CPI não fizeram.

A CPI não decidirá a condenação ou a prisão de Bolsonaro, ainda que possa recomendar isso. Mas, agora, ela entrou numa nova dinâmica, devendo atuar como força propulsora do inquérito judicial.

Agora ela fará novas convocações, começando por militares como o ex-ministro da Defesa, general Paulo Sérgio, como o general Heber Portela, que representava as Forças Armadas na comissão fiscalizadora externa do TSE. A ele cabia levar ao TSE os questionamentos dos militaraes, que segundo o próprio Bolsonaro, receberam “assessoria” de Delgatti, ontem chamado o tempo todo de criminoso pelos bolsonaristas (e por Moro, é claro). Mas não sabiam quem ele era quando buscaram a ajuda dele?

Aliás, o que anda pensando disso tudo o ministro da Defesa, José Múcio, que ontem se fechou em copas? Haverá agora um desfile de patentes na CPI. Não passaremos o golpe a limpo sem a exposição deles.


sexta-feira, 31 de março de 2023

O Plano Haddad do arcabouço fiscal e o futuro, por Tereza Cruvinel

 


"Marco fiscal apresentado pelo ministro conseguiu atender à demanda fiscalista e também à exigência social-desenvolvimentista de Lula", diz Tereza Cruvinel

www.brasil247.com - Ministros Fernando Haddad e Simone Tebet e auxiliares do Ministério da Fazenda durante apresentação do novo marco fiscal - 30.03.2023

Ministros Fernando Haddad e Simone Tebet e auxiliares do Ministério da Fazenda durante apresentação do novo marco fiscal - 30.03.2023 (Foto: Diogo Zacarias/Min. Fazenda)

O marco fiscal apresentado pelo ministro Fernando Haddad e equipe ditará o futuro da economia brasileira nos próximos quatro anos (logo, o de tods nós), e por decorrência o futuro do governo Lula e o destino político do próprio Haddad.  Afora a consistência técnica, a costura política prévia foi bem feita, aplainando o caminho para a aprovação no Congresso.

A proposta conseguiu atender à demanda fiscalista,  de regras para equilibrar as contas federais e controlar a evolução da dívida pública, e também à exigência,  digamos, social-desenvolvimentista do presidente Lula, ao garantir espaço para o investimento e o crescimento,  e também para as políticas sociais. Haddad chegou o mais próximo possível do desafio por ele mesmo definido como "agradar de Campos Neto a Gleisi Hoffmann". Nem o presidente do BC nem a presidente do PT soltaram fogos mas também não a atacaram.  

Entre economistas, empresários e políticos a reação foi positiva, com ressalvas pertinentes quanto a um ponto essencial: o êxito da aplicação do plano dependerá muito do crescimento das receitas. Logo, de uma reforma tributária que não signifique aumento da carga tributária atual, vale dizer,  que não crie novos impostos ou aumente alíquotas de tributos existentes.  O dinheiro terá que vir, então, dos que sonegam e dos que não pagam impostos, resumindo o slogan eleitoral de Lula: os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda.

O êxito está atrelado ao crescimento da receita porque a âncora principal é a regra que permite ao governo expandir o gasto em, no máximo, 70% da expansão da receita. Com a "sobra" de recursos é que Haddad espera alcançar o objetivo ambicioso de zerar o deficit fiscal no ano que vem, fazer um superavit de 0,5% em 2025 e de 1% em 2026. O deficit deste ano ficará numa banda flutuante entre 0,25% e 0,75% do PIB. A meta é fechar o ano com deficit de 0,5%. Terá que haver aperto para se chegar a tanto.

Mas não só de aperto é feito o plano de Haddad. Um ponto anticíclico da proposta, para uma economia constipada,  é o que estabelece um piso de investimento de  R$ 75 bilhões mais a inflação. Esta regra pró-crescimento atende Lula em sua angústia para que a economia se mexa e gere empregos. O mesmo vale para a previsão de que, se a meta fiscal for superada, o excedente será destinado a investimentos.

Diferentemente do teto de gastos de Temer, que limitava o aumento do gasto ao valor do ano anterior corrigido pela inflação, imobilizando o governo e ignorando os imprevistos, como aconteceu no estouro da pandemia, a proposta estabelece que a despesa, desde que limitada a 70% do crescimento da arrecadação, poderá crescer entre 0,6% e 2.5% acima da inflação.  Esta é outra reserva para que o governo possa avançar com políticas públicas para o bem de todos, especialmente para socorrer os mais pobres.

Vai também ao encontro das demandas do presidente Lula a manutenção dos gastos mínimos constitucionais com educação e saúde. Ficam também fora dos linites os gastos com o Fundeb, que financia a educação básica,  e com o piso nacional de enfermagem.

Afora outras bandas e gatilhos, este é o cerne do plano Haddad. Se  a implementação for exitosa, lembrando sempre a dependência da reforma tributária que ficará para o segundo semestre,  Lula disporá das condições para fazer o governo com que sonha: de crescimento econômico, geração de empregos, maior bem estar para todos e redução da miséria que campeia no Brasil.

Quando ele escolheu Haddad para ministro da Fazenda, houve quem disse que era um erro sacrificar o quadro mais promissor do PT numa missão espinhosa, em que ele poderia ser carbonizado. A herança foi das piores: Bolsonaro desmoralizou a regra do teto de gastos, entregou um deficit e uma  dívida pública cavalares, enfim, uma economia desorganizada e sem perspectivas. Ele irá sempre usar a pandemia como desculpa mas foi para tentar se eleger que ele cometeu os maiores desatinos, a queima de recursos que arrombou de vez as contas.

Mas Haddad também queria o cargo e agora faz uma aposta alta. Se tiver êxito, estará credenciado a disputar a sucessão de Lula, a não ser que ele resolva disputar a reeleição, o que descartou na campanha mas já disse que, dependendo da situação, pode concorrer.

Falta, como já dito, a reforma tributária e a aprovação parlamentar. A propostá será apresentada ao Congresso, possivelmente na semana que vem, através de um projeto de lei complementar (PLC) , como previsto na chamada PEC da transição. Não sendo por medida provisória, passará ao largo da querela entre Senado e Câmara sobre o rito, mas exigirá um quórum alto. Não tão alto como o das PEC, de 308 votos na Câmara, mas o de maioria absoluta, 257 votos na Câmara, por exemplo.

No primeiro momento, ouvimos elogios dos líderes, e até de parlamentares da oposição. O presidente da Câmara, Arthur Lira, aplaudiu com a ressalva de que agora é preciso garantir o crescimento da arredação. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, foi mais efusivo, e a situação do governo na Casa é mais tranquila.

De sua parte, Lira já antecipou que indicará como relator na Câmara um deputado do PP. E este foi um pedido sabe de quem? Do presidente do partido, Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro. Obviamente não fez o pedido porque deseja ajudar o governo Lula. Os cotados são os deputados Claudio Cajado (BA), Covati Filho (RS), Fernando Monteiro (PE) e Mário Negromonte (BA). Este último, tendo sido ministro de Dilma, talvez agrade mais o governo. Tudo o que não interessa a Haddad é um relator que resolva fazer mudanças nas regras fundamentais.

Aprovar o plano será o grande teste político do governo, agora mais do que nunca premido pela necessidade de consolidar uma base de apoio. Aprovar o plano, e executá-lo com sucesso, é a chave do futuro.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Lula, um sopro de alívio. Artigo de Tereza Cruvinel

 

"É preciso dizer que só com ele poderíamos derrotar Bolsonaro", constata a jornalista Tereza Cruvinel

www.brasil247.com - Lula na festa da vitória na Av. Paulista

Lula na festa da vitória na Av. Paulista (Foto: Ricardo Stuckert)

Por Tereza Cruvinel

O Brasil respira aliviado, e uma brisa de normalidade já começa a soprar com a eleição de Lula. Não houve golpe, as instituições responderam corretamente, o resultado está assimilado. O alívio é nosso, pelo fim do governo mais nefasto que já tivemos depois da ditadura, e é também do mundo. Todos os chefes de Estado ou governo que cumprimentaram Lula expressaram o desejo de começar uma nova cooperação com o Brasil, especialmente na questão ambiental-climática.

Dizem todos uma verdade, proclamada pelo próprio Lula no discurso em que consumou o fato falando como presidente eleito, apesar do silêncio grosseiro de Bolsonaro: a vitória não foi do PT nem dos dez partidos que o apoiaram. Foi de todos que se uniram para derrotar o projeo neofascista, para restabelecer os marcos da democracia e a opção por uma sociedade mais decente, igualitária e justa, consignada na Carta de 1988.  Com Lula eleito, retomamos o fio da história democrática iniciada em 1985, com a eleição de Tancredo-Sarney e o fim da ditadura.  

Sobre o papel de Lula, é preciso dizer que só com ele poderíamos derrotar Bolsonaro (embora as urnas tenham dito também que o bolsonarismo não está morto). Que só com Lula seria possível enfrentar a campanha mais suja que já vimos e derrotar a máquina governamental, a máquina das mentiras e o assédio aos eleitores por parte dos poderosos, como os empregadores, e dos que se dizem ministros de Deus. Feliz o Brasil por ter tido Lula nessa hora.

Seu governo não será um mar de rosas, até porque o país está destroçado. Mas sempre que houver dificuldades, devemos olhar para trás e pensar no que estaria o segundo mandato de Bolsonaro. Deveremos sempre nos lembrar de um governo cretino que dividiu os brasileiros com a semeadura do ódio ideológico, que os desprezou na hora dolorosa da enfermidade e da morte, durante a pandemia, que confundiu seus próprios interesses com os do país, nas relações internacionais. De um presidente que nunca teve vergonha de mentir, de agredir mulheres, negros e indígenas, que nos ameaçou com um golpe o tempo todo, que afrontou os outros poderes e exerceu o cargo com uma vulgaridade ilimitada.

Já se cobra de Lula que caminhe para o centro. Ele mesmo externou no primeiro discurso a compreensão clara do tipo de governo que precisará fazer. Já se fala nas dificuldades com um Congresso dominado pela direita,  em que expoentes do bolsonarismo vão pontificar, especialmente no Senado. Bolsonaro vai para casa mas os políticos vão se ajeitar como abóboras na carroça. A habilidade política, um dom de Lula, terá que ser usada intensamente e ele o fará. A palavra diálogo foi das mais pronunciadas no discurso.

Talvez Bolsonaro não lhe passe a faixa, e isso é o de menos. Talvez não faça uma transição civilizada, como a que Fernando Henrique inaugurou na passagem do governo a Lula, em 2002, e isso dificultará as coisas.

Será complicado montar um ministério com tantas forças aliadas. Antes de anunciá-lo, Lula irá à Argentina, aos Estados Unidos e à Europa, com direito a encontro com o Papa.

Mas todas as dificuldades serão nada, dentro da normalidade,  diante do que teríamos com um segundo mandato em que Bolsonaro aprofundaria seu projeto autoritário. Lembremo-nos sempre disso.

Ontem me lembrei do dia da eleição de Bolsonaro, em 2018. Eu escrevia uma coluna para o Jornal do Brasil, enquanto os fogos estouravam no meu bairro. Dei-lhe por título "O inverno chegou". Eu previa um ciclo de dores e temia que durasse mais que quatro anos. Naquele momento Lula estava preso e o PT demonizado, embora Haddad tenha feito o milagre de chegar ao segundo turno. Hoje podemos dizer: o inverno acabou. É primavera no Brasil.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

O silêncio cúmplice de Bolsonaro sobre o assédio na Caixa. Artigo de Tereza Cruvinel

 "As mulheres do Brasil ouviram e compreenderam o silêncio de Bolsonaro, que nada disse porque é da mesma laia de Pedro Guimarães", diz Tereza Cruvinel

www.brasil247.com - Pedro Guimarães e Jair Bolsonaro

Pedro Guimarães e Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Qualquer presidente com um mínimo de decência e respeito pelas mulheres teria declarado que o assédio sexual é inadmissível em seu governo, e que por isso estava demitindo sumariamente Pedro Guimarães da presidência da CEF. Fazendo isso talvez mitigasse um pouquinho a rejeição oceânica que lhe dedicam as mulheres brasileiras, de cerca de 60%, o mesmo índice de rejeição que ele devotam os nordestinos, que ele chama de cabeças-chatas.

Mas Bolsonaro fez questão de explicitar sua cumplicidade com o assediador da Caixa. Não o demitiu de forma exemplar, não deu um pio sobre o assunto e arranjou para que ele pedisse demissão divulgando uma carta hipócrita, onde se declara um campeão da ética e ainda se permite tentar politizar o assunto, sugerindo que virou "alvo do rancor político" em ano ano eleitoral. Só faltou dizer que as funcionárias denunciantes são todas petistas. Aliás, na CEF as mulheres não podiam usar roupas nem esmalte na cor vermelha para não serem assediadas com o epíteto de petistas.

As mulheres do Brasil ouviram e compreenderam o silêncio e a omissão de Bolsonaro, que nada fez e nada disse porque é da mesma laia de Pedro Guimarães. Quem já disse usar o apartamento funcional "para comer gente" e que só não estupraria a deputada Maria do Rosário por achá-la feia não tem nada contra o assédio sexual.

Alguns detalhes escabrosos do assédio de Pedro Guimarães às funcionárias da Caixa já foram conhecidos mas ainda vamos saber mais. Do alto de seu cargo e seu poder ele as constrangia com pegadinhas na cintura, sussurros indecentes ao pé do ouvido, cantadas da pior espécie. O segurança que assistiu a uma tentativa de amasso no estacionamento foi demitido. Uma que ameaçou denunciá-lo foi premiada com um curso no exterior. Muitas engoliram a humilhação, por medo ou por vergonha, até que cinco delas o denunciaram ao Ministério Público.

Para completar, nós, o povo, vamos pagar o salário dele por mais seis meses. Como ele ganha RR$ 56 mil mensais, embolsará R$ 330 mil sem trabalhar. A quarentena para ocupantes de cargos estratégicos é necessária, para que não haja o tráfico de informações privilegiadas para o setor privado. Mas remunerada a quarentena não devia ser para quem deixa o cargo por práticas desabonadoras.

Pedro Guimarães vai sumir na poeira. Suas passagens pelo setor privado terminaram sempre com demissões, por questões de desempenho somadas com outras denúncias de assédio. Já Bolsonaro vai conferir nas urnas a resposta das mulheres que,  já em 2018, sabendo quem ele era, disseram "ele não".

Tereza Cruvinel


Colunista/comentarista do Brasil247, fundadora e ex-presidente da EBC/TV Brasil, ex-colunista de O Globo, JB, Correio Braziliense, RedeTV e outros veículos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Joaquim de Carvalho: Tereza Cruvinel e Marighella: resistindo à guerra das elites golpistas contra o Brasil, jornalismo independente venceu uma batalha

 

O prêmio que ela, merecidamente, conquistou é também de toda comunidade que sustenta o jornalismo independente (indepedente porque não é sustentado por 1% daqueles que detém 50% da riqueza nacional)

Tereza Cruvinel ao receber o Prêmio Comunique-se

Tereza Cruvinel ao receber o Prêmio Comunique-se (Foto: Reprodução)

Fui um dos finalistas do Prêmio Comunique-se, na categoria repórter de mídia escrita, juntamente com Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, e Luísa Martins, do jornal Valor (Grupo Globo). Não venci, o prêmio foi para Luísa Martins. Mas fiquei muito contente com o troféu dado a Tereza Cruvinel, na categoria colunista de opinião.

Tereza mereceu o prêmio, que era disputado também por Miriam Leitão e Guilherme Fiúza. Senti-me também agraciado e explico por que. 

Tereza faz parte de um time de jornalistas que escolheram ficar ao lado do Brasil quando a mídia corporativa, que eu chamo de velha imprensa, começou a praticar o jornalismo de guerra.

Esse tipo de jornalismo é acessório de uma estratégia que procura usar o direito com o mesmo objetivo de tanques, caças, fuzis e granadas, no passado. O objetivo é derrotar adversários, quadros não alinhados aos interesses de grupos poderosos. 

A expressão surgiu em 1975, em um ensaio de John Carlson e Neville Yeomans, Eles usaram o termo para definir uma tática em que a guerra dava lugar à disputa por leis: “um duelo de palavras em vez de espadas”. 

No Brasil, como vimos na Lava Jato, essa estratégia não teria êxito sem uma aliança com jornais, TVs e sites controlados por famílias milionárias, veículos porta-vozes do 1% que detém metade da riqueza nacional.

No passado, quando a guerra era travada com a força bruta, a reação ao golpe no Brasil se deu com a tática da luta armada — talvez equivocada, mas coerente com os instrumentos disponíveis. Hoje, o campo de batalha se dá nos tribunais e também no jornalismo. 

Por isso, quando vi Tereza subir ao palco do evento de premiação do Comunique-se e observei o olhar de admiração de Leonardo Attuch na mesa, lembrei-me do Marighella retratado por Wagner Moura no filme que estreou há pouco no Brasil. 

Era uma adversária do lawfare que se expressava ali, representando todos nós, os que praticam o jornalismo no espaço que já foi definido como “blog sujo”, e também os que fazem parte dessa comunidade, vocês, que aqui interagem, financiam e se organizam.

Em 2016, quando o golpe contra Dilma Rousseff foi consolidado, o governo de Michel Temer tentou acabar com a comunicação independente (sim, independente, porque não é sustentada pelo 1% que detém 50% da riqueza nacional). Atacou a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), que havia sido criada por Tereza.

Em seguida, violando o Código Civil, cancelou unilateralmente os contratos com os na época chamados “blogs sujos”, que tinham leitores em quantidade expressiva, o que justificava a publicidade. 

Na época, os veículos que representam os interesses do 1% também tinham contratos de publicidade, em valores muito, mas muito maiores. Com estes, não houve violação do Código Civil, e os contratos continuaram e outros foram firmados, em valores ainda maiores. 

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Sem esses veículos, não teria havido reforma trabalhista (um golpe contra o trabalhador), e teto de gastos (que engessa o investimento na área social e preserva a remuneração dos rentistas).

Essa batalha do lawfare, eles perderam. No caso do 247, o que era um site virou também TV e quem sustentou essa ampliação foi o público, seja no financiamento direto ou na audiência, que gera remuneração através da publicidade programática, em que não há contato direto entre os veículos e as empresas, relação que garante a independência.

A narrativa dos “blogs sujos” prevaleceu. Hoje o mundo inteiro sabe que as jornadas de junho foram capturadas pela extrema direita e não há nada nelas para ser comemorada. 

Sabe também que o impeachment foi golpe, que a Lava Jato foi uma farsa, que a condenação de Lula foi política, que sua prisão também fez parte da estratégia de lawfare e que a eleição de Bolsonaro, em razão disso, foi também uma fraude.

Peço licença a Tereza para dizer que o troféu que ela, merecidamente, levou para casa é também uma conquista de todos nós. Parabéns a Tereza e a todos vocês, que garantem espaço para que jornalistas como ela continuem exercendo a sua vocação: contar histórias e fazer análises com credibilidade.

 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Jornalista Tereza Cruvinel: Homicida, genocida, incitador, falsário, prevaricador, charlatão... os nomes de Bolsonaro são!

 


"Bolsonaro não será acusado de homicida e genocida, mas o relatório de Renan com certeza contentou os que sofrem pelas perdas que tiveram. O texto original expressou as convicções do relator e de milhares de enlutados para quem Bolsonaro merece as 11 acusações: Homicida, genocida, incitador, falsário, prevaricador, charlatão...", escreve a jornalista Tereza Cruvinel


Do 247:

Para garantir a aprovação de seu relatório, o senador Renan Calheiros cedeu aos colegas do G7 da CPI da Covid: Jair Messias Bolsonaro não será acusado dos crimes de genocídio contra os povos indígenas e de homicídio qualificado. Na política, Renan fez o que devia para garantir a aprovação de seu parecer final, passo fundamental para que todo o trabalho da CPI não tenha sido em vão. Se o Procurador-geral, os procuradores de primeira instância e o Judiciário farão Justiça ainda veremos. Mas antes de ceder, ele carimbou para todo o sempre em Bolsonaro nomes abomináveis, inclusive os de genocida e homicida. E isso já foi uma primeira reparação moral para os que sofrem pelos 600 mil mortos.  

Não sei se Bolsonaro e os outros 70 criminosos apontados por Renan chegarão a ser processados e condenados pelo que fizeram, pelas mortes antecipadas de pessoas que poderiam estar vivas. Pessoas a quem faltou um leito, uma UTI, uma vacina, uma palavra verdadeira para que se protegesse, mas ouviram e caíram no conto da cloroquina. O conto de Bolsonaro. Mas sei que, para todo o sempre, Bolsonaro será lembrado como genocida e homicida.

Sabemos todos que, independentemente da tipificação penal estar correta ou não, e da necessidade política do recuo de Renan, os dois crimes foram cometidos por Bolsonaro e jamais serão esquecidos. Sustentaram  outros senadores que falar em genocídio seria impróprio porque não houve intenção deliberada de eliminar uma etnia. Bolsonaro nunca escondeu que, por ele, os indígenas, com sua cultura, costumes e sobretudo, com suas terras, já teriam sido socialmente devorados. Fato é que seu governo despejou cloroquina nas aldeias no início da pandemia, não adotou medidas específicas de proteção, levando em conta a maior vulnerabilidade imunológica dos indígenas, e não coibiu a invasão de garimpeiros e desmatadores que levaram o vírus aos aldeados. Não cumpriu sequer as determinações de uma lei concebida e votado pelo Congresso. Negou-se a fornecer água potável às aldeias, cortou cestas básicas e ainda aprovou na Câmara, durante a pandemia, um projeto de lei realmente genocida, que ameaça as terras, a cultura e a sobrevivência dos donos originários desta terra, instituindo o tal marco temporal.

Homicídio qualificado, como não? Ele fez o que pode em favor da morte: aglomerou pessoas e combateu o isolamento; usou dinheiro público para fazer motociatas e agitações; desqualificou as máscaras como medida de proteção e deu todo tipo de mau exemplo; pregou abertamente a imunização coletiva natural, a tal imunidade de rebanho à custa de muitas vidas; negou o quanto pode a utilidade das vacinas, atrasando contratos com empresas idôneas. Quando o governo se rendeu à necessidade da vacina, deu preferência aos negócios com propina, descobertos pela CPI. Cozinhou a Phizer por mais de 100 dias e até hoje ataca a Coronavac do Butatã. E ofendeu com a frieza dos brutos a dor dos outros: "gripezinha", "não sou coveiro", "e daí, quer que eu faça o que?", "deixem de ser maricas".

Bolsonaro não será acusado de homicida e genocida, mas o relatório de Renan com certeza contentou os que sofrem pelas perdas que tiveram. O texto original expressou as convicções do relator e de milhares de enlutados para quem Bolsonaro merece as 11 acusações: Homicida, genocida, incitador, falsário, prevaricador, charlatão... E para além de tudo, praticante de crime de responsabilidade, por conduta incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo de presidente da República.

Com a pacificação da CPI, com o recuo pragmático de Renan em relação aos dois crimes bárbaros, agora é esperar que se faça a justiça possível. Foi por  justiça que clamaram,  na segunda-feira, naquela sessão de dor e luto na CPI, a Mayra Pires, que perdeu a irmã em Manaus por falta de oxigênio e UTI; a Giovana Mendes, que perdeu pai e mãe no espaço de 14 dias e agora, aos 19 anos, tem a guarda da irmã de 10. A Katia Shirlene, que perdeu pai e mãe, e teve de achar o corpo do pai num necrotério lotado; o Arquibaldo Bites, que sobrevive com sequelas graves da Covid; a Rosane Brandão, que perdeu o marido porque a vacina não chegou a tempo; o taxista Marcio Antonio, que após perder o filho de 25 anos deu vazão à sua dor plantando cruzes na areia de Copacabana. Eles falaram e choraram por outros milhares.

A melhor justiça seria aquela derivada do crime de responsabilidade, seria aquela que nos livrasse logo de Bolsonaro. O relatório não pedirá o impeachment, mas apontará ao presidente da Câmara o cometimento do crime que só pode ser punido com o impedimento. O mesmo fez a CPI do PC em 1992. Com base no relatório, Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABI, e Marcelo Lavènére, presidente da OAB, apresentaram o pedido de impeachment que destituiu Collor de Mello. Os jovens pintaram a cara e as ruas se encheram. Quem fará agora o papel de todos eles?

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Tereza Cruvinel: CPI vai descobrir o papel dos militares nas quadrilhas da vacina

 

"Mais cedo ou mais tarde, a CPI chegará à verdade sobre os negócios com vacinas, que parecem embutir um crime monstruoso, pois não se tratava apenas de roubar dinheiro público, mas de roubar vidas", escreve a jornalista Tereza Cruvinel

Omar Aziz / prisão de Roberto Dias na CPI

Omar Aziz / prisão de Roberto Dias na CPI (Foto: Agência Senado / Reprodução)

CPI vai descobrir o papel dos militares nas quadrilhas da vacina

Por Tereza Cruvinel 

Mais importante que a prisão de Roberto Dias pela CPI da Covid foi a nota do Ministro da Defesa e comandantes das Forças Armadas, desproporcionalmente agressiva em reação ao comentário do senador Omar Aziz, de que autoridades militares devem estar envergonhadas pelo envolvimento de tantos fardados com a corrupção no Ministério da Saúde. Aziz repudiou a intimidação mas o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, não fez a defesa da soberania e da independencia do Senado como tantos senadores lhe cobraram. Ontem ele se esmerou no equilibrismo.

 A nota termina dizendo que as Forças Armadas "não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro". E o que farão se ficar provado que alguns dos seus, ativos ou da reserva, participaram do esquema de corrupção que vai sendo desvendedado no Ministério da Saúde? Vão fechar o Congresso ou dar uma prova de republicanismo, pregando a punição de todos, inclusive dos seus? O erro começou quando permitiram que um general da ativa, completamente ignorante sobre questões de saúde, assumisse a pasta em plena pandemia,  militarizasse todos os departamentos e implementasse uma política irresponsável, pautada por negacionismo e incompetÊNCIA,  que fez disparar os casos e mortes por Covid19.

O que temem as Forças Armadas é que seja confirmada a hipótese que vai se desenhando como realidade para a maioria da CPI:  duas organizações criminosas teriam passado a disputar o mando sobre as verbas do Ministerio da Saúde destinadas à compra de vacinas. Uma, vinculada ao Centrão, para a qual operava Roberto Dias. Outra, a do grupo fardado,  aparentemente comandada pelo coronel Élcio Franco, secretário-executivo na gestão de Pazuello.  Não por acaso, o que mais fez Roberto Dias em seu depoimento foi dizer que as aquisições  foram tiradas de seu departamento e passaram à alçada de Franco, embora ele tenha mesmo negociado vacinas com a Davatti. E por mentir a este respeito, apresentando como casual o encontro marcado como Dominguetti, foi preso.

Omar Aziz tem bala na agulha. Ao longo da sessão,  deu algumas indicações de que sabe mais que seus colegas sobre os esquemas na Saúde. Mais de uma vez instou Dias a entregar os que teriam lhe colocado numa trampa com Dominguetti. Referiu-se a um dossiê que Dias teria feito para se defender (ou explodir os outros), e que estaria em posse de parentes, um inclusive no exterior.  

Esse dossiê, se existe mesmo,  na avaliação de alguns senadores, teria levado o grupo fardado a firmar um acordo com Roberto Dias: calando-se, ele terá proteção. Se abrir o bico, pode ir para a cadeia porque os fardados também têm munição contra ele. Vindo à luz, esse dossiê detonaria o grupo militar e chamuscaria as  Forças Armadas.

Mais cedo ou mais tarde, a CPI chegará à verdade sobre os negócios com vacinas, que parecem embutir um crime monstruoso, pois não se tratava apenas de roubar dinheiro público, mas de roubar vidas. As que já se foram e as que ainda podem ser perdidas pelo atraso na imunização.  E com a verdade provada, não haverá que se falar em leviandades.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Em artigo da jornalista Tereza Cruvinel, discute-se que após o negacionismo inicial e a preferência pela prejudicial cloroquina, no desgonverno Bolsonaro pleno de militares temos agora o negocionismo: Vacina só com propina

 

Vacina, só com propina

"Roubar na compra de vacinas não é só roubar dinheiro público. É matar brasileiros com a demora na aquisição, em busca de negócios sujos", lembra a colunista Tereza Cruvinel


(Foto: Marcos Corrêa/PR | Reuters)

Nunca me convenci de que foi por um misto de incompetência com negacionismo, vale dizer, ignorância, que o governo Bolsonaro deixou de comprar vacinas na hora certa, quando todos os países faziam suas encomendas, evitando milhares de mortes. O que fomos descobrindo a partir da instalação da CPI ontem foi escancarado: eles só topavam comprar vacinas de fabricantes que aceitavam pagar propina.

Duas bombas estouraram na noite de ontem, mais um dia de São Pedro sem fogueira por causa da infindável pandemia,  e o estrépito produzirá uma quarta-feira turbulenta.

Conforme revelou à Folha de São Paulo o executivo Luiz Paulo Domingueti, que representava a fabricante Davati Medical,  para comprar 400 milhões de doses do imunizante Astrazeneca, "o grupo" que operava a corrupção no Ministério da Saúde exigia que US$ 1 fosse acrescido ao preço de cada dose e repassado ao esquema. Isso representava uma propina de R$ 2 bilhões.

Quem lhe propôs a trampa foi Roberto Dias Ferreira, o diretor de logística que mais pressionou o funcionário Luis Ricardo Miranda para liberar a importação da Covaxin apesar das irregularidades. Foi exonerado ontem mesmo.

Em seguida, outro estouro. A revista Crusoé revelando que o lobista Silvio Assis, num encontro em que estava presente o próprio deputado Ricardo Barros, lhe ofereceu uma propina de R$ 6 milhões se seu irmão parasse de embarreirar a compra da vacina Covaxin. Ganharia US$ 0,6 em cada dose. Ou, com o dólar aa R$ 5, ganharia R$ 0,30 por cada vacina.  A casa agora caiu mesmo.

Roubar na compra de vacinas não é só roubar dinheiro público. É matar brasileiros com a demora na aquisição,  em busca de negócios sujos. Bolsonaro pessoalmente embarreirou o quanto pode a compra da Coronavac. E agora podemos pensar que o problema não era pela origem chinesa ou pelo protagonismo do governador João Dória no acordo inicial com o fabricante Sinovac.

Pazzuelo cozinhou a Pfizer de maio de 2020 a março deste ano, quando finalmente foi assinado o contrato para aquisição da vacina mais usada no mundo. E podemos pensar, sim, que demorou tanto porque não se apresentaram as condições para um pedido de propina. Compraram quando o desgaste do governo com a mortandade exigia alguma resposta. 

Mais de uma vez ouvi de pessoas experientes: vocês, jornalistas, precisam tratar deste problema das vacinas com outros olhos. Negócios bilionários não acontecem sem intermediários e sem corrupção. Mas, além da dificuldade para investigar, eu não achava que a desumanidade deste governo chegasse a tanto.

Ontem no Boa Noite 247 o José de Abreu nos mandou uma mensagem com aquele seu poder de síntese: "um dólar por dose, duas doses para cada pessoa, dois dólares pelo direito de viver ou morrer". Eu emendo em reais, com o dólar a R$ 5: para eles,  R$ 10 era o valor de uma vida a ser salva.

A implicância de Bolsonaro com as vacinas sempre me deixou o comichão da dúvida: se ele combate tanto o isolamento social porque isso prejudica a economia, será burro ao ponto de não entender que só a vacina pode trazer mais rapidamente a normalização econômica? Mas isso era no começo, quando o negócio era retardar a compra, pois vacina, só com propina!

Ontem Bolsonaro postou vídeo numa rede dedicado a falar de corrupção em outros governos, exaltando a limpeza do seu e a qualidade de seu ministério. Anseio por saber o que dirá hoje.

Roberto Ferreira Dias foi exonerado ontem mesmo. Mas ele era um operador e temos que saber de quem. O ainda líder Ricardo Barros nega tê-lo indicado para o cargo. O empresário Domingueti deve ser ouvido na sexta-feira pela CPI da Covid. O senador Omar Aziz quer também as imagens das câmeras do restaurante O Vasto, onde ele ouviu a proposta de Roberto Dias Ferreira. Trata-se de um restaurante da rede Coco Bambu, cujo dono, Afrânio Barreira, é notório bolsonarista e defensor da cloroquina e do tal tratamento precoce.

E para completar: estamos em vésperas de eleições. Este esquema tem todo o jeito de que era destinado a financiar campanhas no ano que vem. A de Bolsonaro para a reeleição e a de seus aliados para governos estaduais e para o Congresso. Mas talvez Bolsonaro não possa concorrer, pois o impeachment agora encontrou seu lugar na agenda do país. Hoje mesmo haverá a apresentação do super-pedido,  que deve incluir as duas últimas bombas.

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Três crimes de responsabilidade no "Bolsolão". Artigo de Tereza Cruvinel

 

"Pela compra de apoio parlamentar com um orçamento paralelo e secreto de R$ 3 bilhões, Bolsonaro pode ser enquadrado em pelo menos três crimes: atentar contra a lei a orçamentária, a probidade administrativa e a guarda legal emprego dos dinheiros públicos", explica Tereza Cruvinel


Jair Bolsonaro e Davi Alcolumbre

Jair Bolsonaro e Davi Alcolumbre (Foto: Marcelo Camargo/Ag.Brasil)

De tantos e tão frequentes, os crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro deixaram de merecer atenção. Pela compra de apoio parlamentar com um orçamento paralelo e secreto de R$ 3 bilhões, Bolsonaro pode ser enquadrado em pelo menos três dos crimes do presidente da República tipificados pelo 4º da  Lei 1070/50, que trata do assunto: atentar contra a lei a orçamentária, a probidade administrativa e a guarda legal emprego dos dinheiros públicos.

O caso revelado pelo Estadão, entretanto, guarda diferença com outros crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro. Neste, foi criada uma verdadeira “organização criminosa”, da qual participam, além do chefe do Executivo, o ministro que era o coordenador político, general Luiz Eduardo Ramos, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, executor da trampa,  e um grande número de parlamentares que, por um expediente secreto e ilegal,  indicaram o destino dos recursos com que foram contemplados nos acordos com o Planalto. Eles puderam destinar a seus feudos valores muito superiores aos que todos os parlamentares podem indicar através de emendas individuais, estas legais.

Participaram do esquema, montado para garantir a eleição dos presidentes das mesas do Congresso,  o presidente da Câmara, Arthur Lira, o ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o líder do Governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, entre outros tantos.  Com a nata do bolsonarismo nutela envolvida, será impossível fazer o que devia ser feito, a instalação da “CPI dos garanhões do Orçamento”. O método é o mesmo, mas os de hoje não são anões, nem na estatura nem na gula, no volume dos recursos manipulados e desviados.

Há desvio sim, corrupção. Como vem demonstrando em sua excelente série de reportagens o repórter Breno Pires, os parlamentares desenvolveram uma paixão por tratores e máquinas pesadas, direcionando recursos da própria pasta para a compra delas, por valores até 259% superiores ao preço de referência do ministério. Teve trator de R$ 200 mil precificado a R$ 500 mil.  Como se dá o desvio? Por acordo entre o parlamentar indicante e o fornecedor. Como no antigo caso das ambulâncias, como no caso dos anões do orçamento, que colocavam recursos para obras superfaturadas e depois recebiam uma “devolução” das empreiteiras.

O esquema fez da Codevasf a galinha dos ovos de ouro da turma. Incharam o orçamento da empresa criada para cuidar do desenvolvimento dos municípios do Vale do São Francisco. Agora só falta ela atuar no Sul, pois já estende tentáculos sobre a Amazônia, o Centro-Oeste e o Sudeste. E com isso, mais e mais parlamentares podem drenar verbas da empresa para suas bases.

Será uma vergonha histórica a não apuração e punição dos crimes do bolsolão, depois do impeachment de Dilma Rousseff por um golpe parlamentar: o crime de responsabilidade a ela atribuído, a tal pedalada, por todos os presidentes antes praticada, consistia simplesmente no pagamento de despesas federais pelo Banco do Brasil e a CEF, até que o Tesouro tivesse folga para reembolsar os dois bancos.

Mas nada faz crer numa CPI e muito menos no processo de impeachment. Nada a esperar do PGR. O TCU poderá, no máximo, rejeitar as contas do governo de 2020. 

E vá dizer a um bolsonarista raiz que ele entregou-se ao fisiologismo que tanto renegou: em vez de cargos, entregou o orçamento. Vá dizer que existe corrupção no governo! Estão cegos, surdos e com bloqueio cognitivo.

Mas paira sobre todos o crime monstruoso na condução da pandemia para o morticínio, pela aposta desumana na imunidade do rebanho por contaminação, movimento liderado pelo próprio Bolsonaro. E deste, até agora, a CPI da Covid está cuidando com a promessa de que não haverá impunidade. Vamos crer.  

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