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segunda-feira, 31 de março de 2025

61 anos do golpe militar e a justiça de transição, por Francisco Celso Calmon

 

61 anos do golpe de 1964 e as sequelas ainda persistem, os fantasmas do passado ainda vagam pelas nuvens e subterrâneos da nação.

    Tortura Nunca Mais

61 anos do golpe e a justiça de transição

por Francisco Celso Calmon, no Jornal GGN

Na madrugada de 31 para o dia 1° de abril de 1964, as tropas do Gal. Olímpio Mourão Filho marcharam de Minas para o RJ, em plena insurgência à Constituição e ao Comandante em Chefe das Forças Armadas, o Presidente da República João Goulart, para operar no campo militar o golpe em curso.

A ditadura inaugurada com o golpe de 64 colocou meio milhão de brasileiros sob suspeição, 200 mil investigados, mais de 20 mil torturados, entre eles 95 crianças/adolescentes; além dessas, 19 crianças foram sequestradas e adotadas ilegalmente por militares, 7,5 mil membros das Forças Armadas e bombeiros foram presos, muitos torturados e expulsos de suas corporações; no total mais de 9.540 mortos incluindo os indígenas e camponeses; ainda desaparecidos 210 brasileiros, (entre os 434 mortos/desaparecidos registrados pela Comissão Nacional da Verdade foi estimado que 42 eram negros e 45 mulheres); 536 intervenções em sindicatos; extinção e colocação na ilegalidade entidades estudantis, UNE, UBES e demais; violação de correspondências de toda ordem, sigilos bancários e grampos telefônicos, fomento ao ódio e à delação até entre familiares. (Números em constante atualização pelos pesquisadores).

AI-5 foi o responsável para que parte significativa da esquerda revolucionária optasse pela luta armada.

Com o Ato, o Congresso Nacional foi fechado e o habeas-corpus para os chamados crimes políticos foi abolido.

Além de prisões e cassações, esse hediondo ato institucional instituiu a licença para cassar, caçar, sequestrar, torturar e matar, sangrou uma geração de brasileiros.

A ditadura perdeu todo o pudor que porventura restava, raspou o verniz de legalidade e assumiu a feição cruel de uma ditadura escancarada.

O Estado ditatorial virou um Estado terrorista!

O AI5 durou 10 anos e 18 meses, durante esse tempo o Brasil esteve sob um imenso pau-de-arara.

Mesmo sob a guilhotina do AI-5 e da Lei de Segurança, nós combatemos a ditadura. Custou muito, mas a democracia venceu.

Ao não extirpar por completo as raízes daquela ditadura, através da aplicação da Justiça de Transição, voltamos a um estado de exceção com o golpe de 2016 e a decorrente intentona de 8 de janeiro de 2023.

A direita golpista conspira permanentemente para desmontar a democracia. É a história que nos ensina.

Uma nação sem memória, é uma nação à deriva e com o DNA da impunidade.

Os desparecidos e mortos já se levantaram algumas vezes, através de seus familiares, e não foram atendidos em seus pleitos: saber onde foram enterrados, em que circunstâncias, resgaste dos seus restos mortais; tempo para viver o luto com todas as honras e reverências aos heróis da democracia; assim como, a criminalização dos agentes responsáveis pelos crimes de tortura, homicídio e ocultação de cadáver, e reparação moral e pecuniário aos familiares.

A Comissão Especial sobre mortos e desaparecidos políticos, restabelecida sob a presidência de Eugênia Gonzaga, faz um trabalho eficiente, mas faltam recursos; é praticamente uma comissão de voluntários. O governo trata os DHs à míngua, notadamente as comissões de anistia política e de mortos e desparecidos.

Por outro lado, a anistia aos terroristas da intentona bolsonarista será um retrocesso estrutural que interferirá no devir democrático do Brasil. Mas não ocorrerá, se depender da gente. 

“É o fim da minha vida. Eu já estou com 70 anos “. Exclama o capitão desalmado, genocida por vocação, terrorista por opção, temendo a proximidade da sua prisão.  

A democracia agradece e torce para que seja o fim, já deu e ainda dá muito trabalho ao Estado democrático de direito, e promete ainda mais quando estiver encarcerado.

Bolsonaro articulava um golpe que não pudesse ser chamado de golpe. Não teve apoio e partiu para a intentona, que, graças a unidade resistente dos poderes democrático, foi impedida de vitória.

Não se resolve somente com programas de formação de direitos humanos para os militares e policiais, como já aventados; a punição é imprescindível para quebrar a cadeia histórica da impunidade, como está ocorrendo, uma espécie de justiça de transição reversa, contudo, o mais necessário e urgente é a reforma nas forças militares e policiais.

Para o futuro será necessário a constituição de uma Comissão Estatal Permanente de Memória e Reparação, que abranja todos os períodos traumáticos do Brasil – escravidão, ditaduras e o genocídio bolsonarista, a fim de ser planejada e implementada a justiça de transição, necessária à construção de uma democracia sólida. Para isso, precisaremos de um Congresso menos extrema-direita que o atual.

A JT é um processo no qual as violações de todos os direitos, especialmente os DHs, pelo Estado, sofrem reparações judiciais e pecuniárias, reformas no sistema político, jurídico, policial e militar, para impedir a repetição do arbítrio e da impunidade.

 Como processo, a JT tem basicamente quatro eixos. O 1º é o de trazer à superfície a memória daquilo que foi abafado, deformado e mentido. Contraditar a narrativa degenerada durante o arbítrio com a memória verdadeira, baseada em provas documentais e testemunhais.

O 2º eixo é o estabelecimento da verdade incontestável, pois fruto de um rigoroso trabalho de pesquisas alicerçadas sobre provas, e ampla divulgação à sociedade.

O 3º eixo é o da justiça, que se abre em duas linhas: a primeira é a reparação moral, psíquica e material, àqueles que foram atingidos pelos sistemas anticivilizatórios, tal qual o etnocídio dos indígenas, o genocídio dos negros, e dos afetados diretamente pelos regimes excepcionais, ou seja, os atingidos pela ditadura do Estado Novo e pela Ditadura Militar, e, também, pelas práticas protofascistas do governo bolsonarista; a segunda linha da justiça é a responsabilização do Estado e a criminalização dos seus agentes, autores das políticas terroristas e dos crimes de lesa-humanidade e lesa-pátria.

O 4º eixo, na fase em que vivemos, o mais importante, é o das reformas no sistema, começando a partir das 29 Recomendações da Comissão Nacional da Verdade, para limpar o lixo dos regimes passados e tornar sólida a construção da democracia.

Cabendo ao Estado a implementação dessas reformas, sob acompanhamento e cobrança da sociedade civil organizada.

Com base nessa compreensão, a Justiça de Transição é um instrumento estratégico para transformar o sistema e alicerçar a construção da democracia popular.

É um equívoco compreendê-la somente pelos seus três eixos de per si, excluindo a totalidade do processo e seu corolário (4º eixo), que são as reformas políticas, para que nunca mais ocorra um regime excepcional de autoritarismo, como a ditadura militar que vivemos e combatemos, e seu filhote retardado, o nazifascismo bolsonarista.

Só teme o passado quem tem contas a ajustar com a justiça e a história!

A impunidade é chocadeira de novos golpes e intentonas, a punição aos golpistas de ontem e de hoje pode assegurar ao país uma democracia sólida. Porém, enquanto houver temor dos fardados, o exercício da cidadania será claudicante.

Na atualidade esse temor já não existe, as FFAA estão desmoralizadas como instituição comprometida com a democracia, contudo, as reformas estão atrasadas. O Ministério da Defesa vive um mundo paralelo.

61 anos do golpe de 1964 e as sequelas ainda persistem, os fantasmas do passado ainda vagam pelas nuvens e subterrâneos da nação.

Golpes não caem do céu! Tem o antes, o durante e o depois. 

Matam, dilaceram, queimam, afogam e somem com opositores, é a quinta-essência da crueldade e da destruição da plataforma civilizatória, com efeitos perenes, como no Brasil.

31 de março e 1º de abril devem ser dias para lembrar, com indignação, os traumas produzidos em todos os tecidos da nação, até o presente não sanados, pela vacilante implementação da justiça de transição.

Este sexagésimo primeiro ano do golpe de 64 deve ter como palavra de ordem “reformas no sistema”, para impedir que golpes voltem a acontecer.

Sugiro retomarmos o debate das 29 Recomendações da Comissão Nacional da Verdade, atualizando-as frente ao cenário atual.

A teoria da conspiração não é teoria no Brasil, é prática de uma realidade histórica dos golpistas de sempre, os 3 êmes: militares, mídia, mercado e o i de imperialismo.

A destituição do presidente João Goulart foi um golpe ao país e o fez retroceder, pois ainda hoje as reformas de base, defendidas por Jango, Brizola, Arraes, Julião, estão carentes de realização.

Viva a Democracia, conquistada com muita luta, cujo chão foi palmilhado e regado, com sangue, lágrimas, sequestros, prisões, torturas, assassinatos, banimentos, e heroísmo de uma geração que permanece viva e deixa o seu legado para os filhos, netos, enfim, gerações sucessivas que carregam o nosso DNA político. 

Embora a história não permita, ouso dizer que sem o golpe de 1964 o Brasil seria uma grande potência social-democrática.

Basta fazer um exercício do que cada reforma de base do governo Goulart teria produzido, chegar-se-á ao país que o Brasil teria sido e seria na atualidade.

Golpes são imperdoáveis, imprescritíveis as responsabilidades dos autores, e irrecuperáveis as suas consequências deletérias. 

Os militares e os civis golpistas de 64 devem à nação brasileira ainda sermos um país dependente, em fase de subdesenvolvimento.

Golpes nunca mais, anistia a golpista jamais.

Obrigado ao filme ‘Ainda estou aqui’, o qual, através de uma fresta, está fazendo a sociedade conhecer a escuridão macabra da ditadura.

Meus companheiros de movimento estudantil e de organizações revolucionárias, que foram eliminados, desparecidos, permanecem em minhas lembranças e sentimentos, como fermento à luta por memória, verdade e justiça.

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Do site Consultor Jurídico: Se houvesse Justiça de transição, como houve na Argentina e Chile, defensores da ditadura não estariam na vida pública




Em entrevista à ConJur, a procuradora Eugenia Gonzaga afirma que condutas como a de Bolsonaro podem ser explicadas pelo fato de que o Brasil nunca elucidou os crimes cometidos durante a ditadura. 

do ConJur

Se houvesse Justiça de transição, defensores da ditadura não estariam na vida pública

por Tiago Angelo
Foi incomodado com os rumos de uma investigação que o presidente Jair Bolsonaro deu um dos sinais mais fortes a respeito do tom que adotaria enquanto chefe do Executivo. O mandatário queria que a apuração sobre o atentado a faca sofrido por ele em Juiz de Fora (MG), em setembro de 2018, envolvesse não apenas Adélio Bispo, o autor do ataque, mas também o advogado do réu.

A OAB impetrou uma medida de segurança em favor da defesa de Adélio. Contrariado, Bolsonaro disparou não contra a entidade, mas contra o seu presidente, Felipe Santa Cruz, filho do militante da Ação Popular (AP) Fernando Santa Cruz, assassinado em 1974 por agentes da ditadura militar (1964-1985).
“Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele”, disse, sabendo que tocaria em um ponto sensível: o paradeiro do corpo de Fernando, como o de diversas vítimas do regime de exceção, ainda é desconhecido.
A declaração, feita no dia 29 de julho de 2019, gerou reações imediatas. A procuradora regional da República Eugênia Gonzaga, então presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), afirmou, no dia seguinte, que “nunca um presidente da República, nem mesmo da própria ditadura, ousou atacar uma família de maneira tão vil”. Em 1º de agosto, pouco depois da fala, ela acabou exonerada pelo presidente, deixando a comissão que chefiava desde 2014.
Em entrevista à ConJur, Gonzaga afirma que condutas como a de Bolsonaro podem ser explicadas pelo fato de que o Brasil nunca elucidou os crimes cometidos durante a ditadura.
“Quando falamos sobre Justiça de Transição [conjunto de medidas políticas e judiciais utilizadas como reparação das violações de direitos humanos], não estamos falando apenas de processar os responsáveis pelos assassinatos, mas de elucidar os crimes e dar uma resposta aos familiares. A Argentina teve agora um governo conservador, mas ninguém ousou atentar contra a democracia fazendo apologia a torturadores. Se houvesse Justiça de Transição efetiva no Brasil, Bolsonaro não teria se tornado presidente. Não teria sido eleito nem deputado”, diz.
De acordo com ela, o Judiciário e os governos civis tiveram a chance de abordar o tema com maior sensibilidade, mas acabaram optando, em muitos casos, pela adoção de políticas mais protocolares do que verdadeiramente eficazes.
A procuradora comentou ainda a atuação de Marco Vinícius Pereira na Presidência da CEMDP. O advogado filiado ao PSL e assessor da ministra Damares Alves (Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) já anunciou uma série de mudanças no regimento da comissão.
Criada em 1995 por meio da Lei 9.140, a CEMDP tem como objetivo primordial localizar e identificar vítimas da ditadura. A normativa também estabelece um valor indenizatório aos familiares de mortos e desaparecidos políticos.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
ConJur — Em janeiro, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou um novo regimento interno para a CEMDP. O que achou da mudança e quais foram as alterações mais sensíveis?
Eugênia Gonzaga —
 Para os atuais integrantes, a comissão nem deveria estar funcionando mais. Basta ver a declaração do atual presidente de que os trabalhos serão encerrados até o meio deste ano. A mudança mais grave foi a revogação da Resolução nº 2, que determina a retificação dos assentos de óbito dos mortos e desaparecidos políticos.
A comissão também só poderá fazer buscas para famílias que tenham entrado com a solicitação em um prazo de até 120 dias desde que a Lei 9.140 entrou em vigor, e nós estamos falando de uma norma que passou a valer em 1995. É uma posição absolutamente inédita e os familiares jamais foram orientados sobre isso.
As medidas deixam a comissão em débito com as famílias. Além disso, contrariam justamente os motivos pelos quais ela foi criada. Uma coisa é você estipular prazo para indenização, outra é limitar a mera declaração de que determinada pessoa foi vítima da ditadura. Mas no entendimento do novo presidente, a comissão esgotou seu papel e ela não irá mais atuar em nenhuma frente que não tenha sido criada a partir de ordem judicial.
ConJur — Mas o novo presidente pode simplesmente encerrar a comissão?
Eugênia Gonzaga —
 O que o Marco Vinícius pode fazer é dizer que as investigações já chegaram ao seu limite e que não há mais para onde prosseguir. A comissão só deveria acabar quando houvesse resposta para cada um dos casos, quando as apurações puderem indicar quais corpos apareceram, quais não apareceram e o que foi feito com eles. Nesses casos, até o não é uma resposta. E por que digo que até o não é uma resposta? Porque na vala de Perus [vala clandestina encontrada em 1990 no Cemitério Dom Bosco, zona norte de São Paulo] foi identificado, por exemplo, o corpo do sindicalista Aluísio Palhano, assassinado em 1971.
A situação dele era muito parecida com a do Fernando Santa Cruz. Ele passou pela Casa da Morte, DOI-Codi de São Paulo e Rio de Janeiro, e aí foi aparecer na vala de Perus. Então há uma possibilidade, ainda que remota, do corpo do Fernando Santa Cruz estar aqui também. E para essas famílias que nunca tiveram resposta nenhuma, o não já diz algo, porque permite poder afirmar que o seu familiar não está aqui.
ConJur — O novo presidente da CEMDP também propôs a transferência das ossadas analisadas pelo Grupo de Trabalho Perus para Brasília, o que só não não se concretizou porque o Gabinete de Conciliação do TRF-3 impediu e disse que o material deveria ficar em São Paulo. Bolsonaro já tentou encerrar as investigações por meio de decreto. Por que especificamente a CEMDP e o GTP parecem incomodar tanto?
Eugênia Gonzaga —
 As pessoas que, de algum modo, apoiam a ditadura ou que acham que ela não foi tão grave, ficam incomodadas quando há alguma identificação. A vala de Perus é a prova de que o governo ocultou corpos. E os militares sempre negaram tudo isso. A identificação é uma prova incontestável que confronta o discurso dos militares. A vala é um produto do governo. Ninguém vai parar em um cemitério se não tiver um órgão público que coloque essas pessoas lá.
Então toda vez que surge uma comprovação, fica estampado que houve ditadura, que houve assassinatos e que o governo municipal participou, escondendo esses corpos. Isso é ruim para os simpatizantes desse período.
A questão do desaparecimento é um tema que ninguém nunca quis tratar no Brasil, desde a Anistia, em 1979. Quando aprovaram a Lei de Anistia (Lei 6.683/79), ninguém falou nada sobre os desaparecidos. E de lá para cá os familiares não conseguiram ser devidamente ouvidos. Houve apenas a Lei 9.140, que já tem 25 anos. E mesmo com essa norma, o Estado só reconheceu a morte daqueles militantes políticos que foram assassinados em aparelhos policiais ligados à repressão política. Foram admitidos apenas os casos praticamente incontroversos, mas a existência da vala deixa o discurso oficial em aberto.
ConJur — Em 2010, o Supremo Tribunal Federal teve a chance de rever a Lei de Anistia. A corte, no entanto, decidiu pela sua manutenção. O STF deixou de ouvir os pedidos dos familiares de mortos e desparecidos políticos ou não quis se indispor com os militares?
Eugênia Gonzaga — As duas coisas. O Nelson Jobim [ex-deputado, ministro e presidente do STF, ex-ministro da Justiça e da Defesa], que contou ter negociado uma solução para os mortos e desaparecidos políticos, explica muito bem o pacto que foi feito.
Os políticos queriam voltar à legalidade, as cortes queriam voltar à normalidade. Todos eles deram sua palavra de honra aos militares. Houve um avanço com a Lei 9.140, mas já faz muito tempo.
Se relacionarmos os marcos, em 2006 nós lançamos o relatório da CEMDP; em 2012, foi criado o Grupo de Trabalho Perus; de 2012 a 2014, houve a Comissão Nacional da Verdade (CNV).
Mas os relatórios das comissões apenas chancelaram o que os próprios familiares já haviam descoberto. As políticas de reparação, de memória, verdade e justiça no Brasil sempre foram protocolares.
Basta notar que o país precisou ser condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2010 [Caso Gomes Lund e Outros] para que a CNV fosse criada. A instauração dessa comissão era uma pauta bem mais antiga que isso.
No Brasil, causar mal-estar aos militares sempre foi um problema. Nenhum governo lidou adequadamente com a questão porque houve um pacto de impunidade e isso não é um mal apenas dos políticos mais conservadores.
O Lula sempre foi muito mais ligado aos movimentos sociais. Em 2010, quando o Estado brasileiro foi condenado a fazer buscas na região do Araguaia [sul do Pará e hoje norte do Tocantins], ao invés de ele dar estrutura para a CEMDP proceder e coordenar a busca, ele deu suporte para o Ministério da Defesa.
Na época, os familiares ficaram de fora, só participaram depois que o Ministério Público questionou a medida. Na solenidade que instituiu a CNV, os generais estavam se sentindo desconfortáveis. Na ocasião, a Vera Paiva, que era representante dos familiares, foi convidada a falar, mas acabou desconvidada.
Entre descontentar os militares ou os familiares, a Dilma escolheu descontentar os familiares. É como se as medidas adotadas fossem sempre aplicadas com certo constrangimento. E todas as políticas ocorreram por meio do impulso dos familiares. Muito mais poderia ter sido feito e todos os presidentes — sobretudo os progressistas — deveriam pedir perdão aos familiares, porque eles não fizeram o bastante.
ConJur — Acredita que essa omissão com relação às políticas de memória ajuda a explicar o fenômeno Bolsonaro, que foi eleito justamente com um discurso saudosista da ditadura?
Eugênia Gonzaga —
 Com certeza. Quando falamos sobre Justiça de Transição, não estamos falando apenas de processar os responsáveis pelos assassinatos, mas de elucidar os crimes e dar uma resposta aos familiares.
Nesse sentido, o Brasil sempre adotou uma conduta nacional em favor do esquecimento. A Argentina teve agora um governo conservador, mas ninguém ousou atentar contra a democracia fazendo apologia a torturadores. Isso nunca esteve em questão.
Aqui no Brasil, o Bolsonaro, enquanto deputado, homenageou torturadores, fez apologia ao crime e declarações pró-tortura. Isso configura quebra de decoro. Mas ele nunca foi questionado. As nossas representações sempre foram arquivadas.
Quando ele se tornou candidato à Presidência da República, deu declarações contra os princípios democráticos que estão na Constituição sobre a qual ele iria jurar.
Não há compatibilidade com o exercício do mandato. Mais da metade dos eleitores escolheu o Bolsonaro, mas a gente vive em um Estado Democrático de Direito. Existe uma Constituição com princípios e regras que são diariamente desrespeitadas por Bolsonaro.
Tentar derrubar um ordenamento vigente para instituir outro se chama golpe ou revolução, não democracia, ainda que estejamos falando de um presidente que foi eleito.
Parafraseando o Caetano Veloso, em terra em que há tortura — ou a defesa dela —, ninguém é cidadão. Se houvesse Justiça de Transição efetiva no Brasil, Bolsonaro não teria se tornado presidente. Não teria sido eleito nem deputado.
ConJur — Após o Bolsonaro atacar o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, a senhora se posicionou afirmando que “nunca um presidente da República, nem mesmo da própria ditadura, ousou atacar uma família de maneira tão vil”. Dois dias depois, acabou exonerada da CEMDP. Acredita que foi retaliação?
Eugênia Gonzaga —
 Não tenho dúvida. Foi uma decisão política. O próprio Bolsonaro disse que agora o presidente é de direita, como se isso fosse motivo para exonerar alguém e como se eu tivesse declarado qualquer tipo de preferência política.
Eu estava simplesmente cumprindo o meu trabalho. A Lei 9.140 determina que a CEMDP acolha as famílias, repare e reconheça as responsabilidades do Estado. Negar essa responsabilidade e colocar em dúvida quem é que matou essa ou aquela pessoa, jogando com a contra-informação, como está sendo feito, é justamente o contrário. Bolsonaro usou de um golpe baixo contra outra autoridade. A conduta foi abusiva e eu respondi.

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