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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Da Deutsche Welle: Embaixada do Brasil bolsonarista-olavista em Berlim boicota coral que canta o genial Chico Buarque de Hollanda




Representação diplomática deixa de divulgar grupo após show politicamente engajado com referências a Marielle Franco e ao caso Queiroz. Financiado por governo berlinense, coro oferece aulas grátis baseadas em música brasileira.
Regente Andréa Botelho à frente do Brasil Ensemble Berlin

do Deutsche Welle

Embaixada do Brasil em Berlim boicota coral que canta Chico Buarque

por Marcio Damasceno
O Brasil Ensemble Berlin, coro especializado em música brasileira financiado pelo governo da capital alemã, está sendo alvo de boicote da embaixada do Brasil na Alemanha. Desde abril, a instituição não divulga mais apresentações do grupo em sua página na internet. Também apagou do site todos os registros sobre o grupo, que oferece aulas regulares gratuitas de técnica vocal e canto, tendo como base a música brasileira.
As referências ao Brasil Ensemble Berlin desapareceram da página da representação diplomática logo após um concerto na sede da instituição. O show teve um repertório de temática socialmente engajada, incluindo, entre outras, canções políticas de Chico Buarque da época da ditadura militar, como Cálice e Roda viva.
O clássico de Tom Jobim O morro não tem vez foi apresentado em roupagem renovada, intercalado com um rap com referências ao cotidiano de comunidades pobres e discriminadas, a Marielle Franco, vereadora do Psol assassinada, e a Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro.
“Foi uma apresentação linda. Fomos aplaudidos de pé”, recorda a regente e pianista Andréa Botelho, diretora artística do conjunto. Ela diz que a embaixada não lhe comunicou o motivo de ter apagado de sua página online os registros sobre o grupo, e frisa que buscou várias vezes contato com o órgão, sem obter resposta.
“Tentei, realmente, de uma forma simpática. Tentei conversar, abrir um diálogo, para saber o que podia ter acontecido”, ressalta Botelho, lembrando que a única informação que uma funcionária da embaixada se arriscou a dar sobre a situação é que “cumpria ordens”.
Os e-mails enviados pela reportagem da DW Brasil ao setor cultural e ao setor de imprensa da embaixada brasileira em Berlim permaneceram sem resposta.
O concerto do coral realizado na embaixada em abril comemorava uma data especial: os três anos do programa de música brasileira da escola estatal de música berlinense City West, que tem o Brasil Ensemble Berlin como seu carro-chefe.
Montado sob iniciativa de Botelho, o projeto, inédito na Alemanha, oferece desde 2016 uma ampla oferta de formação musical baseada em repertório brasileiro, tudo subvencionado com verbas da administração da cidade de Berlim.
Concerto do coro Brasil Ensemble Berlin na embaixada brasileiraConcerto do Brasil Ensemble Berlin na embaixada brasileira
Reconhecimento artístico
O programa brasileiro da City West inclui aulas de violão, cavaquinho, guitarra, piano, baixo, percussão, bateria, assim como um grupo de choro e um de samba. E o Brasil Ensemble Berlin, composto em cerca de 60% por alemães e acompanhado de uma banda. O coro já existia desde 2000, mas foi reformulado quando passou a ser financiado pela administração berlinense. Graças ao apoio estatal, a participação é gratuita para os interessados e inclui aulas de leitura musical e técnica vocal.
O Brasil Ensemble Berlin recebeu um prêmio da Associação Coral da cidade de Berlim ficando entre os cinco melhores projetos da capital alemã em 2015. Sua diretora artística também coleciona reconhecimentos: neste ano, a regente Botelho está entre os oito profissionais da seleção internacional para um curso de aperfeiçoamento de maestros da britânica London Conducting Academy, da Greewich School of Music.
Três anos após sua criação, o programa musical brasileiro da escola de música berlinense continua despertando interesse. “Temos muito orgulho de poder oferecer uma gama completa de atividades com música brasileira”, afirma Josef Holzhauser, vice-diretor da City West. “Estamos contentes com os muitos pedidos de participação que recebemos da população de Berlim e com os muitos grandes eventos que resultam do trabalho bem-sucedido deste projeto.”
A iniciativa também foi elogiada três anos atrás por quem chefiava a embaixada brasileira na época. “A criação do programa na City West é uma grande conquista, cuja missão é fazer com que cada vez mais pessoas se interessem, não apenas em ouvir, como também em tocar a música brasileira”, comentou, na ocasião da abertura do projeto, a então embaixadora do Brasil na Alemanha, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Os 75 anos de Chico Buarque
Tanto os ensaios semanais do Brasil Ensemble Berlin como os concertos do grupo vinham sendo anunciados, ininterruptamente, na Agenda Cultural da Embaixada do Brasil em Berlim, uma lista publicada mensalmente no site da instituição e também enviada por e-mail aos interessados. Há cinco meses isso não ocorre mais: os dois concertos posteriores do coral foram ignorados, apesar dos pedidos para inserção na agenda.
As solicitações para divulgação da próxima apresentação do Brasil Ensemble Berlin tampouco foram atendidas. O concerto é nesta quarta-feira (25/09) às 20h na Ufa Fabrik, na capital alemã, com um programa tão politicamente engajado como o de abril: uma homenagem aos 75 anos do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda.
Neste setembro, outro episódio envolvendo o nome do artista carioca e a diplomacia brasileira já havia chamado a atenção, com a revelação de que a embaixada brasileira no Uruguai pressionara pelo veto a um filme sobre Chico Buarque na programação do 8º Festival de Cinema do Brasil, em Montevidéu.

sábado, 17 de setembro de 2016

O Belchior crítico do sistema que poucos reconhecem.....



Canções do compositor cearense debateram, desde os anos 1970, aalienação, as relações mercantis e a própria indústria cultural. Mas alguns procuraram enquadrá-lo como apenas um rapaz romântico...
Belchior; Cantor

O Belchior que a crítica vulgar não viu

Por Alberto Sartorelli no Outras Palavras
Que tal a civilização
Cristã e ocidental…
Deploro essa herança na língua
Que me deram eles, afinal.- BELCHIOR, “Quinhentos anos de quê?”
(Bahiuno, 1993)
A imagem de Belchior vendida pela indústria cultural é a do artista brega, de voz fanha e bigodão – uma figura! Poucos prestam atenção nas letras. A forma simples de suas canções possibilitou sua assimilação pela indústria fonográfica, que criou-lhe uma imagem caricata e reproduziu suas músicas em massa, entre shows, premiações e programas de auditório, fazendo tábula rasa de seu conteúdo crítico. Belchior foi reduzido a um mero cantor romântico.
Em estética, o artista engajado politicamente deve escolher entre dois caminhos: o da forma artística de difícil assimilação – e remuneração! – para o público e para a indústria cultural; ou o da forma mais simples, de fácil assimilação do público e do show business. Ambas as opções estão fadadas ao silêncio político: uma não apela, a outra tem seu apelo anulado pela caricaturização. No fim, a indústria cultural impede que qualquer artista seja levado muito a sério, por seu ostracismo ou por sua redução a uma imagem vendável.
A especificidade de Belchior é a sua consciência perante esse processo todo. “Aluguei minha canção / pra pagar meu aluguel / e uma dona que me disse / que o dinheiro é um deus cruel / […] hoje eu não toco por música / hoje eu toco por dinheiro / na emoção democrática / de quem canta no chuveiro / faço arte pela arte / sem cansar minha beleza / assim quando eu vejo porcos / lanço logo as minhas pérolas” (TOCANDO POR MÚSICA, Melodrama, 1987).
Belchior demonstra uma compreensão total do processo de nivelamento – por baixo – da cultura por parte da indústria cultural, dificultando demasiado a ocorrência de composições com alto grau de complexidade – os artistas que se propõem a tal correm sempre o risco da miséria material e do esquecimento. Os próprios arranjos dos discos de Belchior são bem simples, com o teclado tendendo ao “engraçado”. Não é da mesma maneira em relação às letras, sempre de uma profundidade abissal e crítica ácida.
Belchior, antes de músico no sentido geral, é um compositor de canções. Cada autor encontra uma forma para se expressar: o ensaio filosófico, a pintura não-figurativa, a ópera, a canção. A canção foi a forma adequada que Belchior encontrou para transpassar seus pensamentos. É preciso ter em mente, ao pensarmos a obra de Belchior, um autor de vasta erudição, de poesia refinadíssima, conhecedor das línguas latinas e da literatura clássica, e um artista engajado politicamente de maneira radicalíssima. A partir da forma canção, Belchior oferece uma visão do Brasil e do mundo que pouquíssimos filósofos nascidos em nossas terras puderam vislumbrar. Como diz Nietzsche, o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo. É o caso de Belchior.
Uma das críticas mais ferrenhas do cancionista sobralino é contra a arte alegre, moda da época nos anos 1960-70. O filósofo Theodor Adorno, em sua Teoria Estética (1969) diz que a arte se utiliza de elementos da vida enquanto seus materiais; se a vida social é cindida pela divisão do trabalho, que separa o homem de sua produção e da natureza, e impede a felicidade enquanto reconhecimento recíproco entre sujeito e objeto, a arte que imita essa vida deve ser triste, como a própria vida. A arte alegre seria, então, ideológica, uma falsa verdade. A Bahia alegríssima de Caetano Veloso dos anos 1970 (a triste é de Gregório de Matos) não passa de logro, ilusão. “Veloso / o sol não é tao brilhante pra que vem / do norte / e vai viver na rua” (FOTOGRAFIA 3X4, Alucinação, 1976). Surpreendente o jogo de ambiguidade: “veloso” pode ser tanto um adjetivo do Sol, velando pelo migrante e suas dificuldades na metrópole, ou assumir outro sentido completamente oposto, identificado com o próprio Caetano enquanto imperativo moral – “Veloso (Caetano), veja!, para quem sofre, o sol não é tão brilhante quanto dizes”. Ou então esta outra: “Mas trago de cabeça uma canção do rádio / em que um antigo compositor baiano me dizia / tudo é divino / tudo é maravilhoso / […] mas sei que nada é divino / nada, nada é maravilhoso / nada, nada é sagrado / nada, nada é misterioso, não” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976).
Chamado de “antigo”, pois já havia deixado de ser vanguarda e caído no pop, encontramos mais uma crítica a Caetano e sua composição “Divino Maravilhoso” (1968), em parceria com Gilberto Gil e que foi imortalizada na voz de Gal Costa. Vale notar, sem dúvida, que a crítica de Belchior a Caetano provém de alguma admiração: em entrevista aoPasquim em 1982, Belchior diz que Caetano Veloso é o melhor letrista da MPB, “o autor da modernidade musical no Brasil”. Todavia, é com enorme verve materialista que ele fortemente rebate a letra de Caetano – “nada é divino, maravilhoso, sagrado, misterioso!”
O materialismo é um dos fundamentos da música de Belchior. Seus grandes inimigos são os escapistas, os fugidios, aqueles que diante de crenças metafísicas falam de uma vida reconciliada, feliz. Musicalmente representada na Tropicália, essa ideia era disseminada pelos hippies, com a cabeça feita por alucinógenos e um mix de espiritualidade. A resposta do materialista é ácida [sic]. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria / em nenhuma fantasia / nem no algo mais / nem em tinta pro meu rosto / oba oba, ou melodia / para acompanhar bocejos / sonhos matinais / eu não estou interessado em nenhuma teoria / nem nessas coisas do oriente / romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e meu delírio é a experiência / com coisas reais” (ALUCINAÇÃO, Alucinação, 1976). É como se Belchior dissesse que não é por estar num registro de experiência desconhecido que essa experiência é necessariamente divina; especular metafisicamente sobre isso não passa de teoria vazia. E que o importante não é o plano espiritual, mas este aqui, o da miséria e do sofrimento, a realidade empírica e social.
Aos 29 anos em 1976, quando do lançamento do álbum Alucinação, Belchior teve o tempo, a maturidade e o olhar aguçado para ver a dissolução do sonho pacifista de liberdade. Os libertários de outrora logo se tornaram os burgueses. “Já faz tempo / eu vi você na rua / cabelo ao vento / gente jovem reunida / na parede da memória / esta lembrança é o quadro que dói mais / minha dor é perceber / que apesar de termos feito / tudo, tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos / como os nossos pais / […] e hoje eu sei / que quem me deu a ideia / de uma nova consciência e juventude / está em casa guardado por Deus / contando seus metais” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). É curioso notar que foi exatamente “Como os nossos pais”, na magnífica voz de Elis Regina, a canção que colocou Belchior de fato no mercado fonográfico.
O radicalismo político de Belchior tem seu principal fundamento na crítica do dinheiro em si e do trabalho alienado, uma crítica mais profunda do que a mera crítica do capitalismo. O dinheiro é tratado enquanto fetiche e abstração, mas também enquanto necessidade material e fonte da corrupção moral. “Tudo poderia ter mudado, sim / pelo trabalho que fizemos – tu e eu / mas o dinheiro é cruel / e um vento forte levou os amigos / para longe das conversas / dos cafés e dos abrigos / e nossa esperança de jovens / não aconteceu” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). E é o trabalho aquilo separa o homem da natureza, exterior e interior, desumanizando-o. “E no escritório em que eu trabalho e fico rico / quanto mais eu multiplico / diminui o meu amor” (PARALELAS, Coração Selvagem, 1977). Por isso, o aspecto político da obra de Belchior ultrapassa a defesa do socialismo centralista ou qualquer outro sistema que envolva a burocracia. O problema é um problema fundamental, primeiro, filosófico: a civilização. “Aqui sem sonhos maus, não há anhanguá / nem cruz nem dor / e o índio ia indo, inocente e nu / sem rei, sem lei, sem mais, ao som do sol / e do uirapuru” (NUM PAÍS FELIZ, Bahiuno, 1993). Profundo como um antropólogo anarquista, um Pierre Clastres da canção, a crítica mira o fundamento da coisa: a racionalidade ordenadora, dominadora, instrumental, como fora notado por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento (1946).
Belchior faz as denúncias fundamentais; sua arte é hegemonicamente negativa. Todavia, há um resquício de esperança nessa visão do Apocalipse, mesmo que a esperança fale sobre o que não deve ser. Nada absurdo para o cancionista sobralino, pois para ele a sociedade é ruim por excesso, não por falta. “Não quero regra nem nada / tudo tá como o diabo gosta, tá / já tenho este peso / que me fere as costas / e não vou, eu mesmo / atar minha mão / o que transforma o velho no novo / bendito fruto do povo será / e a única forma que pode ser norma / é nenhuma regra ter / é nunca fazer / nada que o mestre mandar / sempre desobedecer / nunca reverenciar.” (COMO O DIABO GOSTA, Alucinação, 1976). “Como o diabo gosta” deveria ter sido um hino da liberdade; passou despercebida, sem ninguém contestar a “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré, 1968) o posto de canção de protesto.
Para Belchior, as palavras são um instrumento de luta política, do despertar da consciência contra a opressão e seus mecanismos ideológicos. “Se você vier me perguntar por onde andei / no tempo em que você sonhava / de olhos abertos, lhe direi / amigo, eu me desesperava / […] e eu quero é que esse canto torto feito faca / corte a carne de vocês” (A PALO SECO, Alucinação, 1976). Para tal intento, sua canção deve ter um quê de dissonância para com o sistema estabelecido, e em vez de cantar as “grandezas do Brasil”, tem de denunciar os horrores de uma sociedade civil falida. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve / correta, branca, suave / muito limpa, muito leve / sons, palavras, são navalhas / e eu não posso cantar como convém / sem querer ferir ninguém / mas não se preocupe meu amigo / com os horrores que eu lhe digo / isso é somente uma canção / a vida realmente é diferente / quer dizer / a vida é muito pior” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976). Se a arte é a mímese da vida, toda arte, por mais verdadeira que seja enquanto parte, não dá conta do todo. A realidade é pior do que a tristeza que a arte transpassa, e pior do que o pesadelo em sonho. É essa realidade que importa mudar.
Um mecanismo utilizado nas letras e nas melodias de Belchior é o da aproximação perante o ouvinte. Cearense, migrante, que na cidade grande sofreu, tocou em puteiros, foi explorado para “fazer a vida”. “Pra quem não tem pra onde ir / a noite nunca tem fim / o meu canto tinha um dono e esse dono do meu canto / pra me explorar, me queria sempre bêbado de gim” (TER OU NÃO TER, Todos os sentidos, 1978). É assim, por meio de sua experiência de vida trash, que Belchior realiza o approche para com o ouvinte. Ritmo simples e letra aguda, essa foi a aposta do cancionista para a politização da massa. “A minha história é talvez / é talvez igual a tua / jovem que desceu do norte / que no sul viveu na rua / que ficou desnorteado / como é comum no seu tempo / que ficou desapontado / como é comum no seu tempo / que ficou apaixonado e violento como você / eu sou como você que me ouve agora” (FOTOGRAFIA 3X4, Alucinação, 1976). Ao dizer “eu sou como você”, Belchior almeja arrebatar o outro como identidade, e trazer à tona a revolta contra a opressão; seu público – alvo, escolhido a dedo, não é o intelectual burguês letrado, mas o pobre que vai ao boteco depois da jornada de trabalho; ele o reconhece como indivíduo ativo a ser despertado: o sujeito revolucionário. Mas é claro que a indústria cultural fez de tudo para anular esse conteúdo: em plena ditadura militar, transformaram Belchior numa personagem caricata, num astro romântico, o galã de “Todo sujo de batom” (Coração Selvagem, 1977).
Belchior sabe, desde muito tempo, que “Eles venceram / e o sinal está fechado pra nós / que somos jovens” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). Mesmo assim, não foi em vão seu esforço: além de todas as canções citadas até agora, ainda há muitas outras de conteúdo crítico ferrenho, como por exemplo “Pequeno perfil de um cidadão comum” (Era uma vez um homem e seu tempo, 1979), uma epopeia sem o elemento épico, que fala de como é vã a vida do sujeito raso, de gosto pouco refinado, cuja finalidade é voltada ao trabalho; “Arte Final” (Bahiuno, 1993), grande canção sobre tudo aquilo que deveria ter acontecido e não aconteceu; ou “Meu cordial brasileiro” (Bahiuno, 1993), que identifica a tese do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil, 1936), o elemento diferenciador do brasileiro, com o aspecto consentido do nosso povo perante a política e o trabalho. Belchior teve sua poesia impregnada pela frustração de não ter podido colocar em prática o projeto por um mundo melhor, e sua música é mais verdadeira e mais revolucionária por isso: não promete a felicidade, mas escancara a impossibilidade dela no estado de coisas vigente.
No fim, em meio a essa cena sombria, nos tempos dele e no nosso tempo de agora, ainda há alguma esperança. Para Belchior, mais importante do que a filosofia ou a arte é a vida. “Primeiro o meu viver / segundo este vil cantar de amigo” (AMOR DE PERDIÇÃO, Elogio da Loucura, 1988). Sua filosofia é oposta à de Caetano: se para o compositor baiano, quem “mora na filosofia” está separado dos sentimentos humanos, a filosofia de Belchior provém da experiência; é pensamento vivo. “Deixando a profundidade de lado / eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia / fazendo tudo de novo / e dizendo sim à paixão / morando na filosofia” (DIVINA COMÉDIA HUMANA, Todos os sentidos, 1978).
Marcado no cancioneiro latino-americano como uma de suas grandes vozes, Belchior foi um mestre da poesia. Foi assimilado pela indústria cultural, de fato, como Mercedes Sosa ou Che Guevara. Ele se jogou na contradição da música popular, assim como qualquer um se joga nas contradições da lógica do trabalho. Assimilado, mas não rendido. “Marginal bem sucedido e amante da anarquia / eu não sou renegado sem causa” (LAMENTO DE UM MARGINAL BEM SUCEDIDO, Bahiuno, 1993). Não é por ter sido reproduzido e veiculado pela indústria cultural que Belchior perdeu totalmente a sua virulência: ela se mantém viva em ouvintes atentos que, como nós, encontram nele uma manifestação da consciência de seu tempo, e mais: a esperança de um mundo melhor, inteiramente outro. Por agora, o importante é viver. “Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa / e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza / sempre é dia de ironia no meu coração” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). Belchior, como Nietzsche, diz sim à vida, apesar de tudo, e talvez por isso tenha caído fora dessa loucura midiática que é a vida de um artista famoso sempre sob os holofotes.
Em relação às dúvidas acerca de seu paradeiro, que me perdoem os escandalizados, mas a letra já estava dada há muito tempo. “Saia do meu caminho / eu prefiro andar sozinho / deixem que eu decido a minha vida” (COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOHN, Era uma vez um homem e seu tempo, 1979).

domingo, 17 de janeiro de 2016

Cinco sinais singulares que podem indicar ser você mais inteligente que a média


Cinco sinais singulares de que você é mais inteligente que a média

Isso não tem a ver com raízes quadradas, mas com ter gato ou ser preocupado






Quando dizemos que o homem é um animal superior, nós nos referimos ao fato de ser mais inteligente que outros por ter a capacidade de pensar, compreender, raciocinar e processar a informação de forma lógica. A questão ao longo da história tem sido como medir ou detectar essa capacidade. A própria dotação humana, e seu inerente pragmatismo, levou a homem à criação dos testes de inteligência, esses instrumentos para comparar as pessoas quanto a suas habilidades mentais e cognitivas. Os primeiros testes foram criados no início do século XX pelos psicólogos Binet e Simon, por encomenda do primeiro-ministro francês, para poder detectar o atraso mental em crianças. Mas antes deles existiram outros estudos, também científicos – embora menos modernos –, que mediam a inteligência com base em parâmetros tão arbitrários como o tamanho do cérebro, partindo da seguinte premissa: quanto maior o tamanho encefálico, maior a agudeza intelectual.
Os anos passam, a ciência evolui e continuamos obcecados com o estudo da inteligência. Agora os pesquisadores também se interessam em descobrir se existem traços em comum entre as pessoas superdotadas que possam defini-las. Ou seja, que aspectos, qualidades ou atividades elas compartilham. Em busca de coincidências, a comunidade científica não perde a oportunidade de valorizar todos os tipos de fatores: das atividades da infância aos vícios adquiridos.
Será que existem, então, indícios externos, além do coeficiente intelectual, para identificar as pessoas mais brilhantes? Aqui estão algumas características muito curiosas que situam quem as tem mais perto da genialidade que a maioria dos mortais.
1. Ser o primogênito
Em muitas famílias, aquilo que o irmão mais velho diz é lei, e não só os demais irmãos o obedecem, como também os próprios pais aceitam resignados sua “superioridade” para analisar as situações e determinar o que é preciso fazer, em uma espécie de ditadura consensual. Tanto é assim que o assunto tem sido de estudos e gerado ampla literatura. Para explicar o fenômeno, quase sempre se recorre às variáveis ambientais, em oposição aos fatores biológicos ou herdados, com base na premissa de que o primogênito talvez receba mais atenção e estímulo intelectual de seus pais, além de adotar posteriormente o papel de ajudante destes na criação e educação dos irmãos mais novos. Foi a essa conclusão que chegaram os autores de um estudo recente realizado na Universidade de Leipzig (Alemanha), no qual se analisou uma amostra de 20.000 crianças de até três nacionalidades. Stefan Schmukle, o psicólogo que liderou a investigação, concluiu que a ordem dos irmãos não influi na personalidade, mas sim na inteligência, que aumenta levemente no caso dos mais velhos. Atenção: não quer dizer que os irmãos mais novos não sejam capazes de realizações incríveis.
2. Estudar música durante a infância ou adolescência
Só existiu um Mozart, mas as crianças que estudam música desde tenra idade pertencem a esse grupo de pessoas notavelmente inteligentes.
É o que explica María del Carmen Reis Belmonte, música, docente e pesquisadora. Além de ela mesma ter vivido isso e de testemunhar esse fato dia a dia em seu trabalho como professora, sua tese, realizada na Universidade de Valência (Espanha), descreve a realidade que muitos docentes intuem: “A música influi na inteligência do aluno, cria conexões a partir de seu próprio sentido de ser. Trabalha conceitos matemáticos e linguísticos ou conhecimentos do ambiente que o rodeia”. Sua investigação, que parte dos estudos pedagógicos e clínicos sobre a resposta das pessoas à música, comprova que qualquer criança melhora seu rendimento quando estuda música, e ainda mais aquelas que se dedicam à sua aprendizagem em nível extraescolar. “Elas desenvolvem outro tipo de estratégias de natureza social e emocional muito positivas e benéficas para sua autoestima e para o comportamento na sala de aula, como o trabalho em equipe e a responsabilidade de apresentar um trabalho bem feito nas audições e concertos”, explica.
3. Preocupar-se com frequência
Ser um pouco preocupado não é tão ruim e, se lidamos bem com isso, é sinal de inteligência emocional, que consiste em reconhecer as emoções do outro, segundo o célebre psicólogo americano John D. Mayer. Já se escreveu muito sobre essa capacidade e sua relação com o estresse. Uma das últimas teorias é apresentada pela psicóloga e professora da Stanford University Kelly McGonigal. Ela se retrata de suas afirmações anteriores nas quais vinculava o estresse com uma doença, afirmando agora que “o estresse só é ruim se nós mesmos acreditarmos que seja”. “As pessoas que vivem o estresse como uma oportunidade de superar desafios conseguirão, além disso, melhorar sua inteligência emocional e sua resiliência”, assinala. Tudo isso tem a ver com a oxitocina, um hormônio que intervém – tanto como a adrenalina – no estresse. A doutora McGonigal explica: “A oxitocina, hormônio produzido em casos de estresse, também aprimora os instintos sociais e nos prepara para fortalecer relações próximas. Promove o desejo de contato físico, melhora a empatia e nossa disposição de ajudar e apoiar”. Ou seja: quanto mais preocupação, mais oxitocina, mais desejo de nos aproximar do próximo e, portanto, mais habilidade de compreender o mundo.
4. Beber álcool, mas não fumar
A tendência de maior consumo e dependência da bebida em adultos se relacionou com um índice de inteligência alto na infância. Esse fato foi comprovado em um estudo com quase 7.000 pessoas, integrantes do grupo 1958 National Survey (amostra de pessoas estudadas pelo Centro de Estudos Longitudinais no Reino Unido), que tiveram seu quociente de inteligência (QI) medido aos 11 anos e, posteriormente, aos 42. Ficou confirmado que os mais preparados na infância consumiam agora mais álcool. Com o tabaco, segundo um experimento realizado no hospital Sheba Medical Center de Israel em 2010, ocorre exatamente o contrário.
5. Ter um gato
Um estudo realizado em 2014 na Carroll University, em Wisconsin (EUA), pôs em pé de guerra as pessoas que gostam dos cães ao afirmar que quem tinha gato era mais inteligente que elas. O teste analisou 600 estudantes universitários, todos com um animal de estimação, para revelar que os que criavam um felino tinham um QI superior, enquanto os donos de cães eram mais simpáticos. Denise Guastello, a autora do estudo, explicou que provavelmente os resultados se devam à personalidade dos sujeitos: os donos de cães, que têm de sair mais à rua e relacionar-se, são pessoas mais alegres e extrovertidas; enquanto os que preferem os gatos passam mais tempo em casa, cultivando seu cérebro com longas leituras.

MAIS INFORMAÇÕES

domingo, 21 de abril de 2013

Para ouvir a própria canção...



Se eu der demasiada atenção ao que dizem os outros
Jamais entoarei a minha própria canção.

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

sábado, 25 de agosto de 2012