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quarta-feira, 29 de abril de 2020

Reconstituindo a investigação das “rachadinhas” contra Flávio Bolsonaro e Queiroz, por Cíntia Alves


Quando o escândalo veio à tona, o MP-RJ tinha pelo menos dois relatórios parciais do Coaf, mas apenas um foi inicialmente divulgado à imprensa
Flávio Bolsonaro e seu ex-assessor Fabrício Queiroz, investigados por movimentações financeiras atípicas. Foto: Reprodução.
Jornal GGN – O levantamento abaixo, sobre o caso Queiroz, ou inquérito das “rachadinhas”, foi feito pelo GGN usando reportagens de veículos da imprensa, petições e informações oficiais do Ministério Público do Rio de Janeiro e reclamações movidas pela defesa de Flávio Bolsonaro.
O levantamento confirma que o MP-RJ tinha em mãos dados do Coaf sobre as movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz muito antes da eleição presidencial que deu vitória a Jair Bolsonaro, e decidiu não utilizá-las politicamente.
Quando o escândalo veio à tona, em dezembro de 2018, o MP-RJ já tinha pelo menos dois relatórios parciais do Coaf, mas apenas um foi divulgado à imprensa naquele momento.

Acompanhe a linha do tempo:

JAN/2018: Setor de inteligência do MP-RJ recebe o relatório “RIF 27746”, “encaminhando espontaneamente pelo Coaf”, sobre movimentações financeiras suspeitas de Fabrício Queiroz e outras dezenas de assessores e ex-assessores da Alerj. Diz o MP-RJ que, “em geral”, a análise compreendia o período de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. As transações de Queiroz nesse intervalo somaram 1,2 milhão de reais.
O Coaf segmentou os suspeitos em 22 grupos, de acordo com o gabinete em que estavam lotados e outros critérios. Queiroz ficou no grupo 20.
MAR/2018: O GAOCRIM (Grupo de Atribuição Originária Criminal da Procuradoria-Geral de Justiça) recebe o relatório do setor de inteligência e desmembra em várias investigações seguindo o critério de divisão do Coaf. O procurador-geral de Justiça é José Eduardo Gussem.
JUL/2018: No dia 30 de julho de 2018, o MP-RJ instaura oficialmente o PIC (procedimento investigatório criminal) nº
2018.00452470, especificamente sobre Fabrício Queiroz e outros assessores ligados ao ex-deputado Flávio Bolsonaro.
[Nos meses seguintes, foi solicitado ao Coaf mais informações sobre o grupo 20, e chegaram mais 3 relatórios: RIF 34670, RIF 38484, RIF 39127.]*
AGO/2018: O relatório do Coaf “RIF 34670” chegou ao MP-RJ no começo de agosto. Ele diz respeito a movimentações dos assessores de Flávio realizadas entre novembro de 2017 a junho de 2018.
OUT/2018: Em 15 de outubro, durante o segundo turno da corrida presidencial, Queiroz pede demissão do gabinete de Flávio. Outros assessores são exonerados, inclusive mulheres ligadas a Adriano Nóbrega, suspeito de integrar o Escritório do Crime, um grupo de milicianos que praticam assassinato por encomenda. Eles são investigados por participação na execução de Marielle Franco.
Em 16 de outubro de 2018, a força-tarefa do MPF que cuida da Lava Jato solicita ao juiz Marcelo Bretas a deflagração da operação Furna da Onça. A ação é autorizada em 25 de outubro. (Mas, por causa do período eleitoral, que proíbe prisões, a fase ostensiva só foi executada em 8 de novembro.)
NOV/2018: Jair Bolsonaro, já eleito, anuncia como prioridade a transferência do Coaf para o Ministério da Justiça, que já estava reservado para o ex-juiz da Lava Jato em Curitiba, Sergio Moro.
Em 8 de novembro, a Furna da Onça é deflagrada. Dezenas de deputados estaduais são presos por suposta participação em esquema do governo Cabral. O relatório do Coaf foi usado pela força-tarefa, mas Flávio Bolsonaro não está entre os investigados.
Em 22 de novembro, o MP-RJ expede notificação para ouvir Queiroz em 4 de dezembro.
DEZ/2018: Estadão revela, em 6 de dezembro, o nome de Queiroz no relatório do Coaf. No meio das movimentações que somaram 1,2 milhão de reais está um cheque até hoje mal explicado de R$ 24 mil para a primeira-dama da República, Michelle Bolsonaro.
Ao longo de dezembro, Queiroz e outros assessores não comparecem aos depoimentos agendados pelo MP.
Em 14 de dezembro, MP pede relatório ampliado ao Coaf, com dados fiscais de abril de 2007 a dezembro de 2018, atingindo também Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, solicita à ALERJ informações de pagamentos e outras verbas devidas aos servidores, pelo mesmo período de análise.
Ainda em dezembro, Flávio reclama na Justiça que ele já era senador eleito quando o MP-RJ pediu um relatório ampliado ao Coaf. Ele foi diplomado em 18 de dezembro. [Mais tarde o ministro Marco Aurélio Mello responderia que não existe “elevador processual” neste caso, ou seja, Flávio não tem direito a foro apenas porque foi eleito. A Suprema Corte entende que o foro é pertinente aos fatos investigados.]
Queiroz encerra o ano com uma entrevista ao SBT, onde afirma que o dinheiro incompatível com sua renda de assessor e ex-policial era fruto, então, de venda de carros.
JAN/2019: Flávio aparece na mídia dizendo que não tem conhecimento das atividades de seus assessores. Em 16 de janeiro 2020, o ministro Luiz Fux, de plantão no recesso do Supremo, suspende a investigação a pedido de Flávio. A relatoria da ação é de Marco Aurélio.
Em 22 de janeiro é deflagrada a Operação Intocáveis contra um grupo de milicianos da comunidade de Rio das Pedras. As mensagens apreendidas no celular de Adriano Nóbrega e sua esposa, ex-assessora de Flávio, são anexadas ao PIC do caso Queiroz.
Em 25 de janeiro, advogados acionam o Conselho Nacional do Ministério Público contra o procurador-geral José Eduardo Gussem, que foi flagrado almoçando com um jornalista da GloboNews.
Antes do mandato de deputado de Flávio terminar, em 31 de janeiro de 2019, Gussem transfere o caso Queiroz para a 24ª Promotoria de Investigação Penal, mas o promotor titular, Cláudio Calo Souza, se declarou impedido depois de ter se encontrado com Flávio Bolsonaro em 30 de novembro de 2018. O processo é enviado ao “promotor de Justiça tabelar”, que solicitou apoio do GAECC, que vem conduzindo as investigações desde o começo.
FEV/2019: O GAECC descobre investigação do MP-RJ, sobre a evolução patrimonial suspeita de Flavio, que foi arquivada por falta de provas. Pede o desarquivamento. Gussem autoriza e as informações são somadas ao PIC da “rachadinha”, que ampliou agora o escopo da investigação para apurar também os negócios imobiliários do ex-deputado. A decisão ocorre depois que Flávio diz à imprensa que parte do dinheiro sacado em espécie por Queiroz era pagamento pela venda de um imóvel no Rio.
MAR/2019: Flávio reclama que deveria ter sido informado que era alvo do PIC da rachadinha desde o começo. O MP-RJ diz que o CNMP arquivou reclamações contra Gussem.
ABRIL/2019: MP-RJ pede à Justiça uma série de diligências, incluindo a quebra de sigilo telemático e fiscal de Flávio, seus assessores, sócio e outras empresas ligadas a ele, para investigar rachadinha e negócios imobiliários. Alexandre Ferreira Dias Santini, sócio de Flávio em uma loja de chocolates na Barra da Tijuca, também é alvo da medida.
DEZ/2019: O pedido é autorizado pelo juiz Flávio Itabaiana em dezembro de 2019, depois de uma série de recursos tentados pela defesa do senador em tribunais superiores, e do próprio STF suspender a investigação, por alguns meses, até decidir que o Coaf pode compartilhar informações com o Ministério Público sem decisão judicial.
JAN/2020: O sócio Alexandre consegue um habeas corpus no TJ-RJ para suspender a investigação contra si (não vale para a loja nem outras empresas), porque seu nome não figurava no rol de investigados do MPF quando a busca e apreensão foi autorizada, em dezembro de 2019. A investigação contra Flávio continua.
(*) Nota da redação: No total, o GGN identificou menção a pelo menos 3 relatórios do Coaf que foram acessados pelo MP-RJ antes dos promotores solicitarem um relatório ampliado (2007 a 2018) incluindo Flávio Bolsonaro. Como demonstrado no texto, o primeiro seria de janeiro de 2018, o RIF 27776 (movimentações de janeiro/2016 a janeiro/2017). O segundo é o RIF 34670 (novembro/2017 a junho/2018). O terceiro é o RIF 38484 (janeiro/2017 a março/2017). Os documentos analisados ainda falam de um quarto relatório, RIF 39127, com período não especificado.

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sábado, 25 de maio de 2019

Xadrez da escolha de Sofia, impeachment ou não impeachment do Bozo, por Luis Nassif





A grande vantagem da oposição é que a queda de Bolsonaro depende muito mais dele, Bolsonaro, do que dela, oposição.

Do Jornal GGN:


Peça 1 – impeachment, teoria e realidade

Em meu longo trajeto no jornalismo econômico, aprendi uma verdade comprovada: no campo das ciências sociais (dentre as quais se inclui a política) só existe teoria aplicada à realidade. Não existe a teoria solta no ar, como um passarinho. Vale para a economia, a política, o direito.
Um dos grandes dramas brasileiros que impediu, aliás, que o país deslanchasse no período das grandes transformações globais, dos anos 90 em diante, foi a teoria econômica se impondo sobre a realidade.
Digo isso a respeito das discussões sobre o impeachment ou não de Bolsonaro.
Parte dos cientistas sociais diz que um novo impeachment consolidaria a ideia do golpismo no país. Foi o golpismo que trouxe para a política os vultos que habitavam as profundezas do tecido social, instaurou a selvageria, a quebra total de regras. Logo, a melhor maneira de sanar o mal é não mexer na ferida, esperar que se cicatrize pelo voto e que, nas próximas eleições, o eleitorado reconheça o erro e traga o país de volta à normalidade, em um fenômeno que poderia ser denominado de fé na mão invisível da democracia.
Fernando Collor foi vítima do golpe do impeachment. Lula foi vítima do golpe do “mensalão”. Dilma, vítima do golpe das “pedaladas”. No dia em que ouvi o Ministro Luis Roberto Barroso alegar que o fato de ter perdido a base parlamentar justificava, por si, o impeachment percebi que o golpismo se espalhara por todos os poros do Judiciário.
Agora se volta ao dilema do impeachment e a análise exige que se traga a realidade para a mesa: Bolsonaro é um presidente pesadamente envolvido com o crime organizado, com os militares egressos dos porões da ditadura, que enveredaram pelo mundo do crime. Não se trata de um detalhe, mas de uma questão central.
Vamos detalhar um pouco o universo habitado por Bolsonaro.

Peça 2 – o exército das profundezas

Não se pense em velhos matadores aposentados. O grupo continua em plena atividade. Eram militares de baixa patente que foram convocados pelo Alto Comando do regime militar para compor forças de extermínio. Em seus livros, Elio Gaspari conta que o próprio Ernesto Geisel avalizava suas ações.
Foram para a linha de frente, com a ordem de exterminar os inimigos.
Quando veio a redemocratização, parte deles foi recompensada pelos serviços prestados e para garantir seu silêncio. Foi o caso do Major Curió, que recebeu áreas de garimpo em Serra Pelada. Parte se perdeu pelos desvãos da vida, levando para sempre os traumas provocados pela selvageria da repressão.
Procuradores envolvidos com a justiça de transição aprenderam que, no final da vida, muitos torturadores sentem necessidade de falar. Vamos a três casos que mostram a maneira como a “tigrada” ainda atua.

Caso Paulo Manhães

Paulo Manhães foi na Comissão Nacional da Verdade (CNV) e deu depoimentos importantes que ajudaram a esclarecer algumas das mortes da ditadura. Logo depois, foi assassinado. No dia seguinte ao do anúncio da sua morte, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro pediu busca e apreensão em sua casa. Chegaram até um diário que ajudou a desvendar o atentado do Rio Centro, comprovando que o carro utilizado no atentado era de um dos militares dos porões.
O assassinato de Manhães, não foi interpretado como queima de arquivo – pois já tinha denunciado o que sabia -, mas como aviso.

Caso Cláudio Guerra

Cláudio Guerra virou pastor, se converteu à Igreja Evangélica e começou a falar. Pouco depois da morte de Manhães, divulgou a informação de que os mortos na Casa da Morte, em Petrópolis, foram queimados nas usinas de açúcar de Campos. A Comissão Nacional da Verdade foi até lá e nada encontrou.
Deu depoimentos, foi protagonista do filme “O Pastor que Assassinava e Queimava Corpos”. Não se sabe se era uma verdade que vinha a conta gotas ou se era contra informação.
Logo depois, sua mulher foi assassinada, assim como o filho. E os homicídios foram atribuídos a ele. Por ter mais de 70 anos e estar doente, conseguiu transformar a pena em prisão domiciliar. Foi punido, mas não pelos crimes da ditadura. Provavelmente, foi vítima de uma armação.

Caso Chico Dólar

Chico Dólar escreveu livro Macaba, nome de uma serra do Araguaia. Contava histórias macabras, como a exigência dos oficiais de que a morte dos guerrilheiros fosse comprovada com a entrega das suas cabeças e dedos – para reconhecimento pelas impressões digitais e não identificação dos corpos. Depois, alguns dos “tigrões” faziam colar com os dedos decepados dos guerrilheiros mortos.
No livro, ele cita mais de 200 colegas que participaram desse movimento e, hoje em dia, querem anistia. Chico acreditava piamente que fez um trabalho relevante para a República e, assim como os colegas, ficou com distúrbios emocionais pelo resto da vida.
Logo depois apareceu morto. A alegação foi de suicídio, em um caso raríssimo de suicida com tiro na testa.
Os três casos comprovam que as forças dos porões estão vivas, ativas. Parte delas migrou para as milícias, assim como os delegados que se tornaram bicheiros nos anos 70. É nesse ecossistema que se deu a formação de de Jair Bolsonaro. Portanto, está corretíssimo Janio de Freitas ao ver a ligação permanente de Bolsonaro com a morte.

Peça 3 – o caso Marielle Franco e Bolsonaro

Já publicamos diversos artigos mostrando o envolvimento dos Bolsonaro com as milícias, especialmente aquelas ligadas à morte da vereadora Marielle Franco.
Há uma hipótese de investigação que sugere envolvimento direto de Bolsonaro, a partir das seguintes evidências:
  • Quando começou a abertura política, a “tigrada” planejou o atentado do Riocentro dentro de uma lógica de disfarce: a idéia seria atribuir o atentado à esquerda.
  • Bolsonaro se mostrou vivamente contrário à intervenção militar no Rio de Janeiro. Provavelmente por atrapalhar as ligações históricas das milícias com as forças policiais.
  • Ronie Lessa, o assassino de Marielle, pesquisou pelo Google nomes de vários vereadores que se colocaram contra a intervenção. Marielle era o nome em mais evidência, por ter sido indicada para presidir uma comissão incumbida de fiscalizar a intervenção. Há elementos para uma tática diversionista, de atribuir o atentado aos defensores da intervenção militar.
  • O principal acusado, além de comerciante de armas era vizinho de condomínio do próprio Bolsonaro. O motorista que o levou era ligado a Flávio Bolsonaro. Outro integrante do Escritório do Crime – grupo de matadores profissionais das milícias – , capitão Adriano Magalhães, teve mãe e esposa empregadas por Flávio Bolsonaro.

Peça 4 – Bolsonaro e o golpe

Há inúmeras manifestações dos Bolsonaro, pai e filhos, sobre a importância de armar a população para resistir ao Estado. A liberação das armas foi um movimento nítido de fortalecimento da economia das milícias – que têm no tráfico de armas seu principal negócio – e de armar grupos aliados para uma futura resistência a qualquer tentativa de impeachment.
Abordamos várias vezes essa possibilidade.

Peça 5 – Cenários: Bolsonaro ou Mourão

Não se tenha dúvidas sobre os propósitos democrático do vice-presidente, general Hamilton Mourão: decididamente, ele não é um defensor da democracia como sistema de governo. Ele é da linha do general Augusto Heleno. Este é intelectualmente medíocre, assustadoramente medíocre, diria. Mourão, não.
Não são pequenos os riscos de um futuro governo Mourão. Ele avançaria, com estratégia, empunhando quase todas as bandeiras defendidas por Bolsonaro.
Há poucas evidências de que tenha um projeto de nação na cabeça, que trabalhe o conceito de interesse nacional, que impeça os negócios que estão sendo montados pelos negocistas que aproveitaram a onda Bolsonaro.
Mas impediria o desmonte total perpetrado pelo hospício que Bolsonaro levou ao governo, dos quais os principais são o desmonte da Eletrobrás e da Petrobras, da diplomacia, do sistema de meio ambiente, da Anvisa, da educação. Principalmente, barraria o controle do país pelas milícias.
Trata-se de uma autêntica “escolha de Sofia”:
Cenário 1 – a manutenção de Bolsonaro, que prosseguiria em sua política de terra arrasada até o final do governo, tentando armar suas milícias particulares e tentar o auto-golpe. A esperança da oposição é que, ao final dos quatro anos, o governo estaria tão desmoralizado que abriria espaço para o grande pacto nacional em torno de eleições livres e diretas. Não há condições de avaliar o tamanho do estrago produzido até lá. Os hunos de Bolsonaro destroem e salgam a terra.
Cenário 2 – impeachment e governo com Hamilton Mourão. Haveria racionalidade e lógica na estratégia implementada. No final do governo, o país estaria menos destruído, mas também seriam reduzidas as possibilidades do sistema de abrir espaço para eleições livre.
Cenário 3 – queda do governo e novo governo mediado pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia. Aí, se trata do imponderável. Antes de apostar no fator Mourão, dificilmente o sistema aceitaria a hipótese Rodrigo Maia.
Confesso minha total incapacidade para apontar o melhor caminho. Não tenho a menor pretensão a demiurgo.
A saída se dará por pequenos solavancos, pequenas aproximações entre o lado civilizado da Nação, até que haja massa crítica para, em algum momento do futuro, se chegar ao grande pacto civilizatório nacional.
Quanto tempo levará? Sou um mero jogador de xadrez, não uma pitonisa. Limito-me a olhar as nuvens e tentar prever sua próxima formação. Sem me descuidar do fato de que o chefe da polícia, Sérgio Moro, e a chefe dos procuradores, Raquel Dodge, são os principais avalistas do chefe das milícias na Presidência.
A grande vantagem da oposição é que a queda de Bolsonaro depende muito mais dele, Bolsonaro, do que dela, oposição.
O país aguenta 4 anos de Bolsonaro? Será possivel reverter o estrago feito? Após 4 anos o Brasil conseguirá sair das mãos das milícias, que certamente estarão mais fortalecidas? Sobrará alguma coisa das instituições? Enfrentaremos algum caos social no meio do caminho (ai sim com repercussão imprevisivel)devido ao estrago econômico que está sendo realizado e tende a se agravar?

— Felipe A.
Outro impeachment deixaria o país paralizado por mais dois anos , a gente vai ficar nisto até quando ? Votei no sr Haddad mas a maioria preferiu o atual presidente , a mesma maioria preferiu o sistema presidencialista e sua crise eterna , e ainda dizem que Ele é brasileiro .... Então tá ...

— Paulo Dantas

sábado, 20 de abril de 2019

GGN: Completando o Xadrez da confraria fascista-miliciana dos cultivadores de assassinatos e do Xadrez da entrega do Brasil ao crime organizado



As milícias passaram a controlar tanto quem se candidata a cargo eletivo, como os eleitores que votam nestes candidatos.

Do GGN:


Completando o Xadrez da confraria dos cultivadores de assassinatos e do Xadrez da entrega do Brasil ao crime organizado

Contribuição enviada ao GGN
Os governos do Rio de janeiro aprofundaram tanto as práticas de diminuir a influência do Estado como ator econômico e social, que deram vazão ao surgimento de outro tipo de agente para ocupar o seu lugar. Tirando proveito das falhas operacionais, do volume e lentidão da burocracia defasada, se abriu espaço, seja pela corrupção ou pelas relações permissivas de poder, ao que durante muito tempo ficou conhecido como “Estado paralelo’.
Hoje, o estado do Rio faliu sua capacidade de induzir prosperidade econômica e social à sociedade e o “estado paralelo” se tornou o Estado de fato, como afirma o professor José Claudio Souza Alves[1] ao Apublica. Este fato acontece, sobretudo, no que se refere às principais atividades desempenhadas pelo poder público, como é o caso da segurança.
O Rio, sobretudo a cidade, é a caixa de ressonância do país. A continuidade de redução dos investimentos do Estado em segurança tende a repetir o que ocorreu nesta cidade nos demais entes federativos.
A degradação da qualidade de vida e das condições de trabalho de policiais e bombeiros provocou a necessidade deste grupo vender sua força de trabalho e seu conhecimento técnico ao setor privado. Desta forma, foram se proliferando grupos de segurança privados e paramilitares ilegais que invariavelmente são organizados ou possuem relações muito próximas políticos, como relata a reportagem de Breno Costa, Reinaldo Chaves, Hyury Potter do intercept[2]
Assim, a população, sobretudo a mais pobre, se tornou vulnerável e dependente do fornecimento de serviços irregulares destes grupos. Luz, gás e telecomunicações não podem ser garantidas pelo Estado, mas que por serem de regiões de risco, muitas empresas privadas não podem atuar.
Aos poucos, o que era aparentemente uma troca comercial, passou a ser realizado através de coação. E o nível de organização destes grupos evoluiu. Hoje, moradores da praça seca, no Rio de janeiro, relatam, por exemplo a cobrança das taxas de segurança através de boleto bancário[3].
A milícia tem origem nos grupos de extermínio da época da ditadura militar, lembra o professor José Claudio e a violência da época passou a ganhar apoio da classe média e da classe política de maneira velada. Atualmente, através das milícias, esses atos foram reavivados e receberam apoio de autoridades, como foi o caso do ex-prefeito Eduardo Paes e do atual presidente Jair Bolsonaro, por supostamente ajudar a força policial oficial a acabar com a criminalidade[4].
Como atesta o jornal Nexo[5], existem diferentes grupos de milícias no Rio de Janeiro e no país. Estes grupos são geralmente compostos por membros das forças armadas e policiais que abrem um espaço de poder e canais de influência e impunidade. Desta forma, seja pela coação de moradores, seja pelo fornecimento irregular de serviços, como televisão a cabo, gás, luz (em alguns casos já ocorrem registro de tráfico de drogas e armas) eles financiam a disputa pelo controle de comunidade contra o tráfico.
Fato é que as imbricações da milícia com o Estado são multifacetadas. Existem relações com a classe política, com o sistema de persecução judicial, fiscalizatório (com braços em diferentes setores desde sanitário ao de engenharia civil e imobiliário) e eleitoral. Há referência farta disto no relatório da CPI das milícias presidida pelo então deputado estadual Marcelo Freixo, PSOL.
Freixo, ameaçado sequencialmente de morte, anda escoltado desde então.
Da face politica
A ALERJ, hoje, abriga uma gama de políticos eleitos por causa da ação de milicianos, como retrata a matéria do el país[6]. A milícia cumpre o papel de angariar votos, seja pela coação ou pelo convencimento da população em votar no político X, mas também são responsáveis pela arrecadação financeira que são “doadas’ aos candidatos. Esses pactos não são feitos de maneira gratuita: os políticos eleitos devem favores aos grupos de milicianos e passam a trabalhar de maneira extraoficial para eles. Seja legislando de forma a facilitar a ação desses grupos[7], seja empregando familiares e amigos em seus gabinetes.
Um caso suspeito é o de Flavio Bolsonaro, atualmente senador da república. O então deputado estadual empregou familiares (Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega) do ex- capitão Adriano Magalhães da Nobrega, chefe do escritório do crime, milícia acusada de ter realizado a execução da vereadora Marielle Franco, correligionária de Freixo e sua suposta sucessora política, sendo ele, Adriano, suspeito do crime.
Cabe ressaltar que a milícia costuma assassinar políticos que “atrapalham’ suas ambições de poder. Seja para ajudar a campanha de algum político adversário do alvo, seja para inibir a atuação de políticos com perfil que não se alinham aos interesses dos grupos[8]. As milícias passaram a controlar tanto quem se candidata a cargo eletivo, como os eleitores que votam nestes candidatos.
O grupo miliciano, supostamente chefiado por Adriano e por Ronald Paulo Alves, também suspeito de atuar na morte da vereadora supracitada, tem atuação na Região do Rio das Pedras e do Muzema. A comunidade do Muzema recentemente enfrentou uma tragédia com cerca de 20 fatalidades por causa de uma construção imobiliária que teria sido realizada pelo grupo, de acordo com matéria divulgada pelo G1 [9]
Em nota à imprensa, Flavio Bolsonaro afirmou que a funcionária contratada em seu gabinete e parente de Adriano, foi indicação de seu assessor político, Fabricio Queiroz. Este, por sua vez, segundo relatório do COAF, procedeu com movimentações suspeitas nos valores de 1,2 milhões de reais entre janeiro de 2016 e 31 de janeiro de 2017, valores incompatíveis com salário de assessor parlamentar. Este relatório faz parte da operação “os intocáveis’ que prendeu deputados estaduais do rio de janeiro e o documento traz informações sobre movimentações financeiras suspeitas de assessores dos deputados, inclusive de Flavio Bolsonaro.
Ainda no que diz respeito às movimentações de Queiroz apontadas no relatório, uma das destinatárias foi Raimunda Veras Magalhães, mulher de Adriano, suspeito de chefiar o “escritório do crime” de atuação no empreendimento imobiliário irregular que desabou no Muzema e também da execução de Marielle Franco. A outra destinatária seria Michele Bolsonaro, atual primeira dama da república.
De acordo com o site “ o antagonista”, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o destinatário final dos depósitos feitos por Queiroz a sua esposa era ele, e que foram frutos de um empréstimo que teria feito ao ex – assessor de seu filho Flavio[10] e seu amigo pessoal.
Cabe observar que não apenas Queiroz era assessor de Flávio, mas sua mulher, Márcia Oliveira de Aguiar, e duas filhas, Nathália e Evelyn Melo de Queiroz, também eram empregadas no gabinete do então deputado estadual[11] durante o período de análise do relatório do COAF.
Ainda segundo a folha de SP[12], Flavio teria realizado 19 operações envolvendo imóveis durante seu mandato na ALERJ. Mesmo ramo econômico em que os supostos envolvidos no “escritório do crime” atuam no Muzema. E mais, a evolução patrimonial da família Bolsonaro se multiplicou durante os anos de suas atividades políticas como sinaliza a Folha de SP[13]
Recentemente, como foi apurado pela Folha de SP[14], Carlos Bolsonaro, também filho do presidente e irmão de Flavio, empregou outra pessoa ligada a Queiroz, Márcio da Silva Gerbatim, ex-marido da atual mulher de Queiroz durante 2008 e 2010. De onde saiu apenas para ser nomeado por Flavio como assessor, cargo que ocupou entre 2009 e 2011. No seu lugar, Carlos nomeou Claudionor Gerbatim de Lima, ex-assessor de Flavio.
Do espraiamento para outras atividades
Como visto no caso do “Escritório do crime”, os tipos de serviços prestados pelas milícias se expandiram. Além de extorquir moradores e comerciantes, os milicianos passaram a construir e vender casas. Eles invadem áreas, loteiam e vendem as construções, além de cobrar taxas de repasse aos que revendem o imóvel. Segundo matéria da Folha de São Paulo, o MP estadual e federal investigam denúncias de ocupações feitas em áreas de proteção ambiental na zona oeste do rio e em Duque de Caxias[15]
Com relação ao caso da milícia que atua no Rio das pedras e no Muzema, a reportagem de Sergio Ramalho, da Folha de SP[16], esclarece o grau de complexidade de atuação desse grupo. Eles utilizam laranjas que são sócios de construtoras e pagam propina para funcionários da prefeitura do Rio para conseguirem alvarás para as construções.
No que compete à atuação do judiciário em barrar esses empreendimentos, o prefeito Marcelo Crivella tem reclamado das liminares que impedem a demolição das construções irregulares [17]. Em especial no caso da Muzema, a desembargadora Marília de Castro Neves Vieira foi a responsável por impedir a prefeitura de derrubar os imóveis localizados na área em que ocorreu o desabamento. Esta mesma desembargadora se envolveu em uma polêmica no ano passado, quando por meio de suas redes sociais chamou a falecida vereadora Marielle Franco de bandida e divulgou noticia falsa de que ela seria ligada ao Comando Vermelho, facção de tráfico de drogas, e ainda  pediu o fuzilamento profilático de outro deputado do PSol, Jean Wyllys. [18]
De acordo com o professor José Cláudio, há registros da atuação da milícia no controle de quem é empregado nas obras do COMPERJ – Complexo Petroquímico em Itaboraí. As obras atraem a presença de empresas terceirizadas e ao perceberem a chegada dessas empresas, os milicianos controlam através da violência quem é empregado e passam a cobrar taxas para que as pessoas possam trabalhar nessas empresas.
Esta prática de cooptar funcionários e pegar parte dos salários destes, se assemelha bastante com o que se convencionou como “rachinha” realizados por políticos. Fabricio Queiroz, ex-assessor de Flavio Bolsonaro por exemplo, em petição endereçada ao MPRJ, relatou que o objetivo desta prática era ampliar a base eleitoral do político. Toda vez que um novo funcionário era empregado no gabinete sabia que teria que repassar, a ele, parte de seu salário para que fosse então repassado para pessoas que não estavam na folha de pagamento oficial.[19]
Ainda segundo o relato do sociólogo, ao saberem que o Ministério de pesca e agricultura não está mais fornecendo licença de pesca, eles abordam os pescadores em alto mar e passam a exigir valores mensais ou semanais para que eles continuem a atividade.[20]