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terça-feira, 19 de julho de 2016

David Graeber: ‘Dívida sempre foi uma questão de poder’.

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Guilherme Freitas entrevista David Graeber
Em setembro de 2011, o antropólogo americano David Graeber estava no grupo que planejou um acampamento coletivo no Parque Zuccotti, em Nova York, para protestar contra a desigualdade econômica. Foi o início do movimento Occupy Wall Street, que nos meses seguintes mobilizou milhares de pessoas e colocou em circulação slogans como “Nós somos os 99%”. Até então um acadêmico pouco conhecido, autor de uma pesquisa de campo no arquipélago africano de Madagascar, Graeber havia publicado meses antes o livro “Dívida: os primeiros 5.000 anos” (Três Estrelas), que se tornou um inesperado best-seller ao retratar a história da economia do ponto de vista da relação entre credores e devedores. Graeber falou ao GLOBO por e-mail sobre o livro, que chega ao Brasil ao mesmo tempo que “Um projeto de democracia” (Paz & Terra), seu ensaio sobre a história e o legado do Occupy Wall Street.
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Em “Dívida”, você diz que “a dívida dos consumidores é a força vital da economia e a dívida externa é o tema central da política internacional”. Como a dívida se tornou o centro das relações econômicas e quais são as consequências disso?
Estamos acostumados a pensar que o sistema de crédito é relativamente recente. A história padrão é que primeiro veio o escambo, depois o dinheiro físico e, só então, o crédito. Na verdade, parece ter acontecido o oposto. O crédito veio antes. A moeda foi inventada bem mais tarde, talvez dois mil anos depois das primeiras transações de crédito conhecidas. E o escambo — do tipo “eu te dou 20 galinhas em troca dessa vaca” — só ocorre mesmo de forma ampla em lugares onde as pessoas estão acostumadas a usar dinheiro, mas de uma hora para outra perdem o acesso à moeda. Então, desse ponto de vista, crédito e dívida sempre estiveram no centro da economia. E o que o registro histórico revela é que hoje estamos fazendo tudo errado. Normalmente, em períodos dominados pelo crédito, são criadas instituições para proteger os devedores: os reis divinos da Mesopotâmia que anistiavam dívidas ou leis medievais antiusura, por exemplo. Do contrário, aqueles que têm o poder de criar crédito acabam dominando todo mundo. E agora, o que fazem? O exato oposto. Instituições como o FMI protegem credores contra devedores. O resultado é previsível: uma série sem fim de crises da dívida.
Você viveu em Madagascar e costuma citar o país como exemplo das contradições da dívida externa. Como sua experiência lá influenciou suas reflexões sobre a dívida?
Madagascar foi conquistado pela França, em teoria, porque não conseguia pagar suas dívidas. Um jovem príncipe inocente assinou um tratado prometendo concessões de livre comércio e, quando se tornou rei e tentou implementá-lo, foi derrubado. Então o governo francês exigiu indenização e, como Madagascar não pôde pagar, decidiu invadir o país. Mas mesmo depois de a França ter explorado o país por 65 anos e da conquista da independência, Madagascar ainda devia dinheiro à França! Como aconteceu isso, e não o contrário? Como o resto do mundo aceitou isso?
No livro você fala sobre a “dimensão moral” da dívida. Como ela funciona?
Dívida sempre foi uma questão de poder. Os verdadeiramente poderosos só precisam pagar suas dívidas se quiserem. Donald Trump faliu várias vezes — quem liga? Olhando para a História, o mais perturbador é o grande poder moral que a dívida tem para fazer relações de dominação violenta parecerem moralmente justificáveis e, mais que isso, para fazer parecer que a culpa é da vítima. E as pessoas aceitam isso. Mesmo quando eu falava do colapso do sistema de saúde em Madagascar causado pelos ajustes econômicos, e das mortes que isso provocou, se eu sugerisse que a dívida do país deveria ser abolida, mesmo os mais liberais diziam: “Mas eles pegaram dinheiro emprestado! Eles têm que pagar”. E eu estava falando da morte de milhares de crianças. Esse é o poder da dívida.
Você já disse que muitos participantes do Occupy Wall Street eram “refugiados da dívida”. Como a dívida fomentou os protestos?
Não fazíamos ideia de quem iria aparecer quando planejamos as ações no Parque Zuccotti. Vieram milhares de jovens que não conhecíamos, então alguns dos organizadores começaram a fazer entrevistas. A surpresa foi como a história deles era parecida. “Estudei duro, entrei numa boa universidade, fiz um empréstimo porque era necessário. Mas de repente os agentes financeiros quebraram a economia com seus negócios escusos e não havia mais empregos. Eles foram socorridos pelo governo, mas eu não fui socorrido. O governo vai assegurar que eles me tirem cada centavo, ainda que não haja emprego algum porque eles quebraram a economia e, como resultado, vou ter que passar o resto da vida escutando que sou caloteiro e imoral porque devo dinheiro a eles. Isso não é justo”.
Quais foram as contribuições do Occupy para o debate público?
Fizemos os americanos discutirem classes sociais outra vez. Desde quando isso não acontecia, os anos 1930? E não só isso, mas também poder de classe — esse é o significado do 1% e dos 99%. O 1% é a fração que não apenas detém o lucro do crescimento econômico, mas também faz a maior parte das contribuições de campanha, portanto consegue transformar sua riqueza em poder político e usar esse poder para aumentar sua riqueza. Por isso nos recusamos a participar do processo político, da forma como está ele é apenas suborno institucionalizado. Se não fosse o Occupy, acredito que em 2012 teríamos tido um presidente Romney (lembre-se que no início da campanha a experiência dele em Wall Street era considerada uma vantagem). E veja o que acontece em 2016. Nos dois partidos (Democrata e Republicano) há grandes rebeliões que, de formas muito diferentes, se insurgem contra a corrupção do sistema político.
Depois dos protestos antiglobalização dos anos 1990 e do movimento Occupy, no início deste década, quais são as frentes atuais da luta contra a desigualdade?
Acredito que, desde 2011, houve um realinhamento da compreensão sobre o que significa um movimento democrático. Não é mais possível pensar em democracia como apenas partidos políticos assumindo governos. Tem que significar algo mais, algo que opere também fora do Estado. Isso é verdade na Bósnia, em Hong Kong, no Praça Taksim (Istambul), ou mesmo em lugares como Rojavia, na Síria, que estão fazendo experiências com democracia direta. Está claro que o sistema existente atingiu um ponto de ruptura. Para mim, a grande questão é o renascimento da imaginação econômica, política e social, porque a única sustentação do capitalismo nas últimas décadas, quando perdeu fôlego como força de progresso econômico, foi barrar a imaginação, dizer às pessoas que nada além disso é possível. Acho que precisamos usar muito nossa imaginação, e rápido, ou estaremos em apuros.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

"Quando o oprimido adota o discurso do opressor" - o bizarro exemplo de Fernando Holiday , por Francisco Fernandes Ladeira




MÍDIA & PRECONCEITO

Quando o oprimido adota o discurso do opressor


Por Francisco Fernandes Ladeira em 31/03/2015 na edição 844 do Observatório da Imprensa

Conforme a realidade nos mostra, as piores faces do preconceito e da intolerância são apresentadas quando o oprimido passa a adotar o discurso ideológico do opressor. Nesse sentido, podemos citar os casos dos trabalhadores pelegos, dos latino-americanos que se consideravam racialmente inferiores aos europeus, dos negros que passam pelo processo de “branqueamento social”, das mulheres que incorporam os preceitos machistas, ou, como diria Tim Maia, quando os pobres se tornam eleitores da direita política.

Um exemplo emblemático de cidadão de cor oriundo das classes baixas que replica a ideologia da elite branca pode ser encontrado nos vídeos postados na internet pelo estudante negro Fernando Silva, vulgo Fernando Holiday. Recrutado pelo Movimento Brasil Livre (MBL) – grupo apartidário que agrega setores conservadores de nossa sociedade – Holiday tem feito bastante sucesso nas redes sociais com seus discursos em que ridiculariza a política de cotas raciais, compara Zumbi dos Palmares a Hitler, exalta valores burgueses como a meritocracia, defende a redução da maioridade penal e, como não poderia deixar de ser, dispara várias palavras ofensivas contra o governo federal. “Faz nem três meses que a Dilma assumiu o segundo mandato e já f... como Brasil inteiro. Dilma não tem mais condições de governar esse país”, apontou em um vídeo a favor do impeachment da presidenta.

Segundo Fernando, os universitários cotistas são “vermes e parasitas atrás do Estado” e, se há cotas para negros, também deveriam haver vagas especiais para as “gostosas” no ensino público, pois, de acordo com o senso comum, mulheres sexualmente atrativas são “burras” e precisam de cotas. Para ele, negros e pobres podem vencer na vida através do mérito: “Nós sempre conseguimos vencer as adversidades da vida.” Ou seja, Holiday parece desconhecer todos os entraves sociais e raciais que dificultam a trajetória de milhões de negros no Brasil. Acreditar que, em uma sociedade demasiadamente hierarquizada e personalista como a brasileira, pelo simples esforço individual seja possível que cidadãos de classes sociais distintas, com desafios e histórias de vida completamente diferentes, tenham as mesmas chances e oportunidades ao longo da vida é algo extremamente falacioso. Não obstante, o militante do MBL também é capaz das mais esdrúxulas analogias: “Um dia para homenagear Zumbi? Esse cara torturava negro, escravizava negro, botava os negão lá na roça. [...] Um dia da Consciência Negra para homenagear Zumbi é o mesmo que criar um Dia da Consciência Branca para homenagear Hitler.” Por fim, Fernando Holiday destaca que o Movimento Negro possui um discurso de “vagabundagem”, “inércia” e “vitimista”.

Visão deturpada

“Talvez ele seja um fantoche nas mãos do movimento ou aja por convicções próprias. O mais provável é uma combinação das duas situações, na qual o MBL encontrou a figura perfeita para anular as críticas de que é reduto da elite branca e o Holiday fica famoso com milhares de curtidas no Facebook”, asseverou o jornalista Marcos Sacramento em um artigo. Prática similar foi realizada por Danilo Gentili em um vídeo gravado durantes as manifestações do último dia 15 de março. Para demonstrar que o protesto contra o governo não se tratava de uma mobilização convocada pelas camadas sociais mais abastadas, o apresentador do SBT entrevistou um negro presente no evento, referindo-se ironicamente a ele como um representante da “elite branca”.

  Ora, um único caso de indivíduo de cor não traz uma conotação popular a um determinado acontecimento. Conforme as imagens exibidas exaustivamente pela grande imprensa demonstraram, a esmagadora maioria dos “manifestantes” do dia 15 de março era composta por pessoas brancas das classes média e alta. Por outro lado, em nenhum momento de seus vídeos, Fernando Holiday lembra o extermínio de jovens negros na periferia das grandes cidades ou a estigmatização do negro na mídia hegemônica e nas campanhas publicitárias. Nem os adeptos da quimérica teoria conhecida como “democracia racial” possuem uma visão tão deturpada das relações étnicas no Brasil.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG