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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Comissão Arns e OAB lançam Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência (especialmente a estimulada pelo governo)



O objetivo é estimular o debate plural, democrático e focado nos direitos humanos, com toda a sociedade civil brasileira, uma reação ao clima de intolerância presente hoje no país.




Rgbstock


Jornal GGN Diferentes setores da sociedade civil se unem em torno da Mesa Nacional de Diálogo Contra a Violência, uma iniciativa da Comissão Arns e da OAB. O encontro será hoje, dia 15, às 11h, na sede nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
O objetivo é estimular o debate plural, democrático e focado nos direitos humanos, com toda a sociedade civil brasileira, uma reação ao clima de intolerância presente hoje no país.
O evento contará com a participação de organizações como Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Conselho Nacional dos Direitos Humanos, Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic), Conselho Federal de Psicologia (CFP), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP), Instituto Sou da Paz, Centro Nacional de Africanidades e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), além de OAB e Comissão Arns, que presidirão o ato.
O Brasil se tornou um dos países mais violentos do mundo, com 65.602 homicídios em 2017, sendo 72,4% por armas de fogo, segundo dados do Atlas da Violência, do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os dados mostram que a maioria desses mortos é jovem e 75,5% negros.
É em torno desta realidade que a Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência inicia um amplo debate com a sociedade, como forma de dar voz às vítimas preferenciais de preconceito e discriminação, além de discutir as equivocadas políticas de segurança pública. Este é o primeiro passo para um processo de mobilização pelo país, que possa fortalecer a cultura de paz e a promoção dos direitos humanos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Precisamos falar francamente sobre os bolsonaristas, por Tainá Ferreira Nakamura, Procuradora da Fazenda Nacional





  "No ano em que a nossa jovem Constituição celebrou trinta anos de sua existência, ironicamente, elegemos para presidente do país um candidato DECLARADAMENTE comprometido com as ideias e as forças políticas de um passado recente onde a palavra democracia tinha sido abolida dos dicionários. "


Do Justificando:


Precisamos falar francamente sobre os bolsonaristas

Precisamos falar francamente sobre os bolsonaristas


No ano em que a nossa jovem Constituição celebrou trinta anos de sua existência, ironicamente, elegemos para presidente do país um candidato DECLARADAMENTE comprometido com as ideias e as forças políticas de um passado recente onde a palavra democracia tinha sido abolida dos dicionários. Esse mesmo candidato, agora Presidente da República eleito pelo direito de voto garantido pela Constituição Cidadã, declarou, há poucos dias atrás, que seus adversários seriam banidos do país ou iriam para cadeia, declaração dada logo após um de seus filhos afirmar que para fechar o STF bastaria apenas um cabo e um soldado.
Pois bem. São ironias como essas que os historiadores terão o árduo trabalho de tentar explicar às gerações futuras. Mas até lá, a resistência que faremos a esse projeto antidemocrático depende não apenas da nossa mobilização social, mas também da nossa capacidade de compreender como pensam os atores principais dessa estória, os 57,7 milhões de eleitores que votaram em Bolsonaro.
Na semana que antecedeu o primeiro turno das eleições, assistimos a uma movimentação, um tanto surpreendente, de parte do eleitorado em direção a uma extrema-direita, cujo discurso, até então, não vinha sendo levado a sério pela esquerda e pela direita tradicional. Na pesquisa Ibope divulgada no dia 28/09, a diferença entre os candidatos do PSL e do PT chegou ao menor índice, de apenas 6%, sendo que as simulações de segundo turno apontavam a derrota do candidato militar em um possível enfrentamento com os candidatos do PT, do PDT e do PSDB. Bolsonaro apresentava, ainda, naquela pesquisa, índice de rejeição de 46% contra 30% do candidato petista.
O que teria motivado parte significativa dos eleitores a se movimentar de um extremo a outro, há uma semana do primeiro turno? É dessa parcela do eleitorado que precisamos falar. Candidatos da extrema-direita que, sequer, apareciam como fortes concorrentes, alavancaram na reta final e foram para o segundo turno em alguns Estados, saíram vitoriosos na disputa por algumas vagas do Senado e obtiveram a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados.
Em pesquisa divulgada pelo Datafolha no dia 02/10, 81% do eleitorado do Bolsonaro afirmaram ter contas nas redes sociais, sendo que 60% disseram se informar sobre as notícias pelo WhatsApp e 40% afirmaram compartilhar notícias e vídeos relacionados à política.
Ainda não é possível avaliarmos o impacto causado pelo envio de milhões de mensagens falsas pelo WhatsApp, patrocinado por empresários pró-Bolsonaro, nessas eleições, cujos detalhes só foram trazidos a público, após denúncias publicadas pela Folha de São Paulo. Não há dúvida, porém, de que o abuso do poder econômico permaneceu interferindo no processo eleitoral, mesmo após o STF ter declarado inconstitucional o financiamento empresarial de campanhas. E o que vimos, até agora,foi um TSE claudicante e amedrontado ao tratar dessas questões.
Em razão das repercussões negativas sobre a disseminação de informações falsas nas últimas eleições dos EUA, o Facebook vem adotando, desde então, políticas de segurança para identificar e coibir o compartilhamento de conteúdos falsos, o quel evou ao cancelamento de dezenas de perfis, relacionados, em sua grande maioria, a grupos de extrema-direita aqui no Brasil. Ou seja, antes mesmo da realização do primeiro turno, já era totalmente previsível que práticas fraudulentas seriam utilizadas para interferir no processo eleitoral.
Coincidentemente, no mesmo dia em que foram marcadas manifestações por todo o país contra o candidato do PSL, o líder da maior igreja evangélica do país declarou,oficialmente, seu apoio ao candidato militar, colocando à sua disposição todo o aparato da Igreja Universal, diga-se, concessões públicas de rádio e televisão. Ou seja, mais um caso gritante de abuso do poder econômicoe de um conveniente silêncio do Poder Judiciário e do Ministério Público que, até outro dia, entoavam o mantra: “a lei é para todos”.
Logo, não há como negar que parcela do eleitorado ficou totalmente exposta e suscetível a todas essas manipulações, no período que antecedeu a votação em primeiro turno.
No entanto, existia uma crença, por parte da esquerda e também de setores da direita,que o discurso de ódio às minorias, de desprezo aos direitos sociais, de cunho pseudorreligioso e totalmente esvaziado de propostas sérias não se sustentaria com o início da propaganda eleitoral e dos debates, pois atingiria um teto.
Sabemos que parcela significativa do eleitorado do Bolsonaro se identifica, de fato, como discurso de ódio, elitista e preconceituoso propagado por ele, cujas raízes remontam ao nosso passado (e presente) escravocrata e oligárquico. O discurso antipetista é tão antigo quanto a própria criação do partido e sempre esteve umbilicalmente ligado a um pavor que parte da nossa elite sempre teve de perder seus privilégios com a mobilidade social do outro.
O que mudou de lá para cá foi que essa parcela raivosa da sociedade ganhou, nos últimos anos, uma nova vestimenta para o seu discurso de ódio,o do combate a corrupção, tornando-o palatável por aquela outra parte do eleitorado que, embora não se identifique com o discurso fascista, não acredita mais no sistema político atual.
Não devemos poupar críticas ao PT pelos erros e desvios cometidos nos quase quinze anos em que governaram o país. Mas temos que ter a clareza de que aquela mesma elite que sempre usou e abusou de seu poder econômico para interferir nos destinos políticos do país forjou, nesses últimos anos, uma narrativa no sentido de atrelar a corrupção a um único partido e que foi, oportunamente, apropriada por essa extrema-direita que está aí. Apresentando um discurso antissistema, moralista e com soluções totalmente superficiais, mas de fácil assimilação, essa direita soube canalizar a insatisfação de parcela do eleitorado que passou, então, a rejeitar o partido que, segundo ela,seria a causa de toda a crise política e econômica dos últimos anos.
Boa parte dos eleitores do Bolsonaro definiu seu voto na semana que antecedeu o primeiro turno motivada por esses sentimentos de frustração e descrença com a política, encontrando guarida em um discurso superficial e camuflado de combate à corrupção e antipetista. O discurso anticorrupção, principalmente aquele veiculado nas redes sociais, conferiu uma certa identidade de grupo a essa parcela do eleitorado que vinha buscando respostas às suas insatisfações e que se viu acolhida pela onda criada no mundo virtual.
Pesquisas realizadas pela socióloga Esther Solano, professora da UNIFESP, já vinham sinalizando essa tendência de parte do eleitorado que, embora rejeitasse o discurso de ódio pregado pelo candidato do PSL, estaria disposta a votar em candidatos que não estivessem ligados aos escândalos de corrupção. E a esquerda teria falhado ao não procurar dialogar com essa parcela da população.
Precisamos entender que parte dos eleitores do Bolsonaro são pobres,pertencem a minorias e já foram, no passado, eleitores do PT. Outra parcela é composta por uma classe média, também vulnerável, pois assalariada, mas que, tradicionalmente, tende a fazer o discurso da elite, porque acredita que um dia fará parte dela.
Se com aqueles eleitores cultivadores do ódio e de preconceitos não é possível estabelecer um diálogo sobre os caminhos para construção de uma sociedade mais justa para todos, pois eles declaradamente rejeitam essa via, é com aquela parcela mais vulnerável que precisamos dialogar, poisnão se deram conta de que o projeto do Bolsonaro visa, justamente,eliminar os poucos direitos sociais que ainda lhe são assegurados.
A esquerda falhou quando permaneceu se comunicando consigo mesma, com aquela base já alinhada ideologicamente ao campo progressista, esquecendo de dialogar com aquela parcela da população que procurava respostas às suas insatisfações. E isso possibilitou que grupos da extrema-direita se aproximassem desse eleitorado com um discurso sedutor, porque de fácil assimilação, embora totalmente vazio de conteúdo.
Bolsonaro e sua trupe estão prestes a assumir o poder e parte do seu eleitorado, infelizmente, não se deu conta daquilo que, de fato, representam. As políticas públicas nacionais, nos próximos quatro anos, serão definidas por pessoas que representam o que temos de mais reacionário, retrógrado e abjeto nesse país. Se a tentativa de união dos partidos progressistas falhou antes das eleições, agora, mais do que nunca, ela é necessária.No entanto,a única via que temos para combater o avanço desse projeto antidemocrático é aquela que for liderada pela própria sociedade.
Somos 47 milhões de brasileiros que votaram, de forma convicta, contra tudo aquilo que Bolsonaro representa. E é, justamente, nessa consciência que reside nossa força. Parte do nosso desafio,agora,não é apenas resistir, mas tentar estabelecer uma ponte com aquela parcela da população que, consciente ou inconscientemente,decidiu se auto boicotar.
Tainá Ferreira Nakamura é advogada e Procuradora da Fazenda Nacional.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

VÍDEO: Um mestre de capoeira foi morto em Salvador por criticar Bolsonaro – de que lado você está? Da Barbárie ou da Civilidade? Por Nathalí Macedo


"A briga não é mais entre petistas e anti-petistas, é entre civilização e barbárie."

 Do DCM:

A escritora e jornalista Nathalí Macedo comenta a necessidade de união de todas as pessoas não-violentas contra o fascismo que ameaça o Brasil neste segundo turno.
A briga não é mais entre petistas e anti-petistas, é entre civilização e barbárie.
No vídeo abaixo, ela comenta a morte do capoeirista Mestre Moa do Katendê, assassinado a facadas por um bolsonarista em um bar em Salvador depois de se posicionar contra o fascismo.
Temos certeza de que você não está do lado dos assassinos.
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sábado, 25 de agosto de 2018

Violência, fundamentalismo e fascismo apaixonado: o apelo do culto ao "líder" da extrema direita brasileira. Por Kiko Nogueira



"Algumas coisas chamam a atenção na legião de seguidores de Jair Bolsonaro.
"A primeira, óbvia, é o fanatismo. Bolsomito, como eles chamam, é incorruptível, infalível, inteligente, a encarnação do Profeta.
"A segunda é a truculência. Eles gostam de porrada, de testosterona, eles atropelam o que vêem pela frente, especialmente se as vítimas forem mais fracas.
"A terceira, e esta é a mais interessante, é que são todos homens. Não propriamente homens — meninos. Há raríssimas fãs do sexo feminino." - Kiko Nigueira, jornalista
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Violência e paixão: o apelo homoerótico do culto a Bolsonaro. Por Kiko Nogueira

 

Bolsonaro em comício: só rapazes

Algumas coisas chamam a atenção na legião de seguidores de Jair Bolsonaro.
A primeira, óbvia, é o fanatismo. Bolsomito, como eles chamam, é incorruptível, infalível, inteligente, a encarnação do Profeta.
A segunda é a truculência. Eles gostam de porrada, de testosterona, eles atropelam o que vêem pela frente, especialmente se as vítimas forem mais fracas.
A terceira, e esta é a mais interessante, é que são todos homens. Não propriamente homens — meninos. Há raríssimas fãs do sexo feminino.
Os rapazes idolatram o jeito de ele falar, a boca torta num esgar que fica mais estranho quando está nervoso, o jeito de ele andar, o jeito de ele ser.
Bolsonaro gosta de ficar entre esses machos e os machos gostam de ficar com Bolsonaro.
A cada artigo sobre ele no DCM, essa garotada aparece aos magotes, revoltadíssima com qualquer coisa que conspurque a imagem de seu ídolo, um sujeito imaculado de alma e corpo.
Ele é um pop star do extremismo político, o homem dos sonhos para eles.
“Eu amo ele, sim!”, escreveu um bolsominion em resposta a um artigo.
Bolsonaro exerce um intenso apelo homoerótico sobre seu eleitorado. É o fascínio homossexual do fascismo, disfarçado sob a homofobia.
Os jihadistas de JB gostam de ficar entre si, de se amassar nos eventos do mito. Eles suam e se roçam e gritam em louvor ao chefe.
Dispensam namoradas e esposas. Parte é misoginia, mas outra parte enorme é vontade mesmo de estar apenas entre homens exaltados.
Após a Segunda Guerra, a parafernália nazifascista foi adotada por praticantes do sado masoquismo.
Artistas embarcaram nisso. David Bowie, em sua fase gay no início dos anos 70, chegou a colecionar uniformes de oficiais da SS e foi preso na Polônia com eles.
Os membros da Escola de Frankfurt descreveram um “tipo de personalidade homossexual” entre os nazifascistas. As tendências de submissão masoquistas desse tipo o tornaram vulnerável ao apelo sedutor da causa.
Na Alemanha de Hitler, uma elite de homens firmemente unidos, aduladores de um deus de bigode esquisito, era a condição necessária para uma nação forte, pura, honesta e viril.
Segundo a professora Elizabeth D. Heineman, era o “Mannerbund” — que pode ser traduzido como “coletivo do sexo masculino” —, a união de homens disciplinados física e mentalmente, sem distrações femininas, transformando seus laços profundos uns com os outros e com seu líder em potência.
O eventual sexo entre eles era considerado um vínculo a mais.
É evidente que não há problema algum no hemoerotismo dos bolsonaristas. Ninguém tem nada a ver com isso. A questão é a histeria homofóbica deles e como esse caldo é transformado em virulência, intolerância e apologia à tortura.
Bolsonaro, seus mancebos e o país que querem salvar só têm a ganhar quando se aceitarem como são.

Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

sábado, 19 de maio de 2018

O uso do discurso de ódio, pelas elites, como instrumento de dominação das massas... Por Daniella Nefussi

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  "Extermínios étnicos (nome inventado que diz mais sobre o exterminador do que sobre os exterminados) existem à rodo desde o colonialismo, justamente porque era a principal forma de aquisição de escravos ou roubo de terras. Aliás, foi nesse banho de sangue que as terras em que vivemos hoje foram "distribuídas", que foram inventadas essas nações que tanto inflam nossos peitos nacionalistas!"

Do Jornal GGN:


O ódio é o melhor instrumento de controle de massas
por Daniella Nefussi

Extermínios étnicos (nome inventado que diz mais sobre o exterminador do que sobre os exterminados) existem à rodo desde o colonialismo, justamente porque era a principal forma de aquisição de escravos ou roubo de terras. Aliás, foi nesse banho de sangue que as terras em que vivemos hoje foram "distribuídas", que foram inventadas essas nações que tanto inflam nossos peitos nacionalistas!
Por algum motivo inexplicável, os exterminadores sentem necessidade de justificar seu terrorismo e criam as mais variadas teses, que vão de religiosas à cientificas, para sustentar a melhor forma de subjugação e controle do ser humano: o ódio.
No século 19 foram desenvolvidas as mais malucas teses cientificas para transformar a imagem dos seres humanos vindos do continente africano na de animais descontrolados e incapazes de discernimento. Como se o branco estivesse no seu juízo perfeito ao dizimar, escravizar, torturar outros seres humanos.
Apesar de passados 2 séculos, ainda reproduzimos esse ódio, que foi camuflado em diversas outras teses, cientificas, econômicas ou religiosas. Países como o Brasil e os EUA são os melhores exemplos desse extermínio continuado.
Hoje temos o exemplo de Israel e EUA construindo teses históricas e religiosas para criar a imagem de que muçulmanos são fanáticos e descontrolados, quase animalescos, chamados "terroristas", para também invadir terras economicamente estratégicas e exterminar toda uma população, como é o caso dos palestinos há mais de meio século, nem todos muçulmanos, diga-se de passagem.
Assim como vamos encontrar outros terriveis exemplos no continente africano, com bandeiras cristãs dizimando diferentes grupos, há décadas.
Ou no clássico exemplo do nazismo, que cresce ainda hoje, contra judeus, negros e lgbts. Uma perseguição orquestrada por interesses politico-economicos.
Nem vou citar o massacre de mulheres. Ok.
O ódio é, desde sempre, o melhor instrumento de controle de massas. Ele é milimetricamente construído através de mecanismos já conhecidos por nós, mas que ainda não sabemos evitar.
Poucos conseguem desconstruir, destruir o "ódio ao outro" porque exige um trabalho violento dentro de si. Nada a ver com alimentar o amor, porque amor não é a antítese do ódio. Nem mesma natureza eles possuem. Achar que se cura o ódio com o amor é não ter entendido nada sobre nenhum dos dois, e alimentar teses religiosas compassivas que de nada serviram para melhorar essa situação.
Tem que pegar o touro à unha dentro de si, bem ali no núcleo das suas crenças mais profundas, mais arraigadas, e enxergar a hipocrisia que as sustenta!! Entender que o ódio é construído através das narrativas, cientificas, filosoficas, teológicas, que você internalizou e que te submetem a comportamentos contra a vida. E vida é a sua e a do outro.
Não há saída para nós se cada um não fizer a sua parte em profundidade. Não se elimina o ódio cultivando o amor, porque amor não dá em árvore, não precisa de cultivo.
É no resgate da Ética que renascem a igualdade, o respeito e o amor, naturais à vida.
Daniella Nefussi é atriz

sábado, 12 de maio de 2018

Vemos um Brasil doente, com sociopatas que flertam com o fascismo e pedem a volta da Ditadura e pede a execução de quem pensa diferente


Neonazismo é isso...

Do site Pragmatismo Político:


Há um Brasil doente que sente falta das execuções de quem pensa diferente

A celebração nas redes sociais das informações estarrecedoras contidas em memorando da CIA revela como estamos doentes. Esse pessoal sonha com os "bons tempos de volta" e o "fim da roubalheira", ignorando a farta documentação que mostra a corrupção em estatais e em obras públicas nos anos militares

Brasil doente que sente falta das execuções de quem pensa diferente



Leonardo Sakamoto*
Brasil lida com o seu passado como se tivesse feito as pazes com o presente. Não, não fez. E o impacto de não resolvermos o que aconteceu durante a última ditadura militar (1964-1985) se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades e na porção profunda do interior, com parte do Estado e de seus agentes aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). Sejam eles agentes em serviço ou fora dele, na forma de milícias urbanas e rurais.
Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o passado não resolvido e anistiado permanece como fantasma. Não são apenas as famílias dos mortos e desaparecidos políticos que vivem assombrados pelas verdades não contadas e os crimes não admitidos daquela época. Diariamente, os mais pobres sofrem nas mãos de uma banda podre da polícia que adota métodos refinados na ditadura a fim de garantir a ordem (nas periferias das grandes cidades) e o progresso (na região rural).
Um documento secreto liberado pelo Departamento de Estados norte-americano mostrou que o general Ernesto Geisel aprovou a manutenção de uma política de execuções sumárias de adversários em 1974. O ditador brasileiro, que governou entre aquele ano e 1979, teria orientado João Baptista Figueiredo – então chefe do Serviço Nacional de Informações e que seria seu sucessor – a seguir com os assassinatos que começaram no governo do general Médici. Ou seja, a autorização vinha da cúpula do governo.
Quem percebeu a importância do documento, no qual o governo reconhece executar dissidentes, e o postou nas redes sociais foi Matias Spektor, colunista da Folha, e professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. O memorando é assinado pelo diretor da CIA na época, William Colby, e relata uma reunião com Geisel. É citada a execução sumária de, pelo menos, 104 pessoas.
Contar histórias como a desse documento é fundamental. Os assassinatos sob responsabilidade da ditadura devem ser conhecidos e discutidos nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente. E, portanto, sua construção – até agora incompleta e imperfeita – deve ser um esforço coletivo. Mesmo enfrentando ações como o do ”Escola Sem Partido’‘, que tem como consequência equacionar a barbárie com a civilização.
O problema é que, diante da realidade ultrapolarizada do debate público no Brasil, isso parece ser uma tarefa inútil. Pois não adianta mostrar informações como essa para uma parcela da sociedade que defende o retorno da ditadura militar não pelo desconhecimento dos métodos utilizados, mas, pelo contrário, por saudade deles.
Mesmo que não tenha nascido muito após aqueles acontecimentos. Em sites e redes de ultraconservadores, o memorando foi celebrado como um exemplo de algo que deve ser copiado para o futuro e de competência da ditadura em proteger o país. Assim, sem pudor algum.
Essa parcela tem apoiado a candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro para a Presidência da República, sonhando que ele traga os ”bons tempos de volta”, botando ordem e acabando com a roubalheira. Ignoram, dessa forma, a farta documentação que mostra a corrupção em estatais e em obras públicas, nos anos militares, ou mesmo o comportamento promíscuo entre empresas privadas e a ditadura.
Vale lembrar que Bolsonaro foi ovacionado nas redes sociais por conta do conteúdo de seu voto pelo impeachment, em abril de 2016, por uma legião de pessoas que cabulava aula de história ou pouco se importa com a dignidade alheia. Após parabenizar o hoje presidiário Eduardo Cunhahomenageou o açougueiro e torturador Carlos Brilhante Ustra – falecido coronel e ex-chefe do DOI-Codi.
Certamente o finado comandante de um dos principais centros de repressão da ditadura não é incensado por seus belos olhos ou pela forma pela qual fazia um guizado de frango ou jogava tranca. Mas por usar a morte como instrumento de controle estatal. Ustra chegou a ser declarado pela Justiça como responsável por casos de tortura e também condenado a pagar indenização por conta da morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino.
O conhecimento de História não é um dádiva, mas sim uma maldição. Porque você se torna responsável por dialogar com quem a ignora, por mais impossível que isso pareça ser. Um diálogo que deve ser paciente e não-violento, na esperança de que entendam que a dignidade humana, construção de milhares de anos dessa História, é uma conquista que deve ser defendida a todo o custo.
As Forças Armadas de hoje não são as mesmas do período da última ditadura, da mesma forma que os contextos nacional e internacional são outros. Seus líderes têm, repetidas vezes, confirmado que o comando é e será civil. E o respeito às liberdades individuais e às instituições continuará. De vez em quando, contudo, as declarações estapafúrdias de generais da ativa, mais do que os oficiais de pijama, colocam a pulga atrás da orelha sobre a sinceridade dessa estabilidade.
Os responsáveis pela parte mais sombria da ditadura, seus aliados e seguidores precisam saber que a sua versão da História – de que duas décadas de assassinatos, censura e violência foram necessárias para o bem da coletividade – não vai vingar. Pois não agiram pelo bem do Brasil. Mataram, roubaram e calaram para o bem de si mesmos.
*Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A intolerância ao intolerável como virtude democrática, por Eliseu Raphael Venturi




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"(...) as repercussões de diversos fenômenos na esfera pública têm destacado a urgência de se discutir a virtude democrática da tolerância na mediação de diversas facetas da convivência social.Urgente, sobretudo, na interdição de práticas e políticas arbitrárias, fascistas e totalitárias que concorrem à derrocada de direitos sociais e à criminalização da política e dos movimentos sociais, além do esvanecimento substancial das instituições democráticas e suas funções de proteção e promoção de direitos e garantias fundamentais “para todos” (sem quaisquer discriminações)."

Do site Justificando:

Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2018

A intolerância ao intolerável como virtude democrática


Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil
Situações variadas da política brasileira atual e as repercussões de diversos fenômenos na esfera pública têm destacado a urgência de se discutir a virtude democrática da tolerância na mediação de diversas facetas da convivência social.
Urgente, sobretudo, na interdição de práticas e políticas arbitrárias, fascistas e totalitárias que concorrem à derrocada de direitos sociais e à criminalização da política e dos movimentos sociais, além do esvanecimento substancial das instituições democráticas e suas funções de proteção e promoção de direitos e garantias fundamentais “para todos” (sem quaisquer discriminações).
Pode-se diagnosticar que muito da cultura do ódio e da intolerância decorre de desajustes interpretativos, perversos ou não, dos planos em que seria oportuno ser tolerante e, por outro lado, daqueles em que seria um imperativo moral e democrático justamente ser intolerante.
O equívoco de uma ideia geral e irrestrita de obrigação de tolerância, laxismo e leviandade, assim como um excesso de violências nas convicções, parecem marcar o desdobramento de práticas alarmantes de retrocessos em termos da realização de preceitos mínimos de liberdade e solidariedade e, igualmente, de uma manutenção mínima de indicativos de democracia.
Exemplos breves: este candidato “diz o que pensa”, mas pouco importa o que diz ou o que propõe, ou, ainda, se esta propositura carrega em si uma violação substancial de um direito alteritário ou inviabiliza uma continuidade democrática. Este julgador condena porque tem poder para tanto, pouco importando sua contrariedade ao processo como técnica democrática e aos direitos humanos que limitam a atuação estatal.
Defender práticas totalitárias ou ditatoriais integra o escopo do pluralismo.
Portanto, a partir de uma aparente facilidade da linguagem e do conceito, se dissemina uma condescendência em momentos equivocados, em conjunto a uma intolerância desnecessária e indevida em outros – ataca-se insistentemente um ou outro gosto musical, ou modo de vida, que tranquilamente se poderiam tolerar em um cenário verdadeiramente cívico.
Um recurso importante, nesse sentido, pode ser a discussão da tolerância a partir do filósofo francês Paul Ricouer[i] (1913-2005), posta sua central presença na contemporânea teoria hermenêutica filosófica, assim como pela atuação na analítica crítica do mundo pós Segunda-Guerra.
Para Ricoeur, “tolerância”evoca o sentido de uma abstenção de interdição ou exigência (o que pressupõe uma autoridade para agir) e da liberdade decorrente desta abstenção. E, ainda, da admissão individual da diferença do outro acerca do pensar e do agir distinto daqueles que pessoalmente se adota.
A “intolerância”, por sua vez, apresenta-se como a tendência a não suportar e a condenar o que desagrada no outro, em termos individuais, assim como a disposição hostil à tolerância religiosa ou civil, no plano institucional.
O filósofo, assim, insere no jogo “tolerância-intolerância” a figura do “intolerável” como discrímen que possibilita o discernimento e, assim, a construção democrática – daí não existir, para o autor, propriamente um paradoxo da tolerância, porque o intolerável está para além do não gostar ou não suportar: ele inviabiliza as liberdades. Quando se está diante do intolerável, a possibilidade democrática é aniquilada e a tolerância impraticável.
É a partir desta distinção, que permite situar a ambiguidade, que se pode localizar a fronteira da “rejeição” ou da “abjeção” constantes da afirmação de que algo é “intolerável”, considerando-se que é da oposição que se abre o problema da tolerância. A questão passa a ser, assim, a motivação da indignação de acordo com os planos de sua ocorrência e os seus efeitos no espaço político.
Filosofia Constitucional: diálogos com a democracia contemporânea
Ricoeur destaca a confusão como ameaça no sentido de que as conclusões acerca da tolerância são diferentes em diferentes planos de análise: os limites no direito constitucional são os mesmos das tradições culturais e das mentalidades, ou da reflexão teológica? É nesta questão de gêneros que o filósofo desenvolve o problema. Deste modo, os jogos “tolerância” e “intolerância”, bem como o ponto intolerável, funcionam com diferentes dinâmicas nos planos institucional, cultural e religioso.
No plano institucional, da relação Estado e Igreja, estar-se-ia, em historicidade, diante do Estado Laico e do Estado de Direito, associado à ideia de justiça e dependente, portanto, das noções de liberdades públicas, igualdade legal, proteção e promoção de minorias.
O intolerável se apresentaria naquele momento em que justiça e verdade revelada são confundidas, ou seja, em que o poder político insiste em “[…] dizer a verdade em vez de se limitar a exercer a justiça, que é a suprema ascese do poder” (p. 190).
Por sua vez, no plano cultural, das mentalidades e mutações, novamente segundo um referencial leigo, a marca da tolerância seria o consenso conflitual, com o reconhecimento do direito de existência do outro e com a vontade de convivialidade cultural na diversidade, o que dependeria de atitudes fundamentais diante do outro, sobretudo, a de não imposição das próprias convicções e o respeito pela liberdade do outro quando da adesão originária às crenças dele. 
O intolerável, então,seria o que escapa do consenso conflitual do viver-comum, aquilo que expressa o irrespeitável, ou seja, “[…] a recusa de presumir a liberdade de adesão na crença adversa” (p. 186), delimitando-se, pois, o “abjeto”, aquilo que exclui a possibilidade do respeito mútuo.
No plano teológico, por fim, Ricouer busca identificar a unidade plural das interpretações religiosas, indicando a justificação da tolerância justamente a partir da noção de que as comunidades de fé são comunidades de escuta e de interpretação, que reiteradamente operam compreensões finitas em horizontes infinitos de sentido.
Disto, seria possível a cooperação e a emulação em proximidades, que não se reduzem em fusão e confusão, segundo uma hospitalidade eucarística. Trata-se, assim, do reconhecimento mútuo na diversidade de compromissos possíveis. O intolerável, neste contexto da palavra e do compromisso, seria unicamente o intolerante.
Parece claro que, atualmente, há entraves decisivos, institucionais, no cenário brasileiro no sentido de se confundirem motivações cívicas e religiosas, com claras dificuldades em termos da laicidade e de uma bioética laica nos mais diversos espaços de decisão.
Ao mesmo tempo, no plano cultural, diversas são as manifestações da violência das convicções, acompanhadas das práticas abjetas de exclusão de qualquer viabilidade de respeito mútuo, seguidas da própria aniquilação do outro (ainda que disfarçada e simbólica) e das possibilidades de sua existência diferente, sobretudo, pela subtração de direitos.
Ao mesmo tempo, é marcante a intolerância religiosa, em que se atacam as bases da convivência na diversidade dos compromissos que a liberdade religiosa permite assumir.
O escopo valorativo do Direito Internacional dos Direitos Humanos, em especial em sua configuração pós Segunda Guerra Mundial, representa um excelente indicativo (deontológico) dos rumos da condução da vida política e coletiva, das políticas públicas e dos caminhos de interpretação e de  valoração cívica – reitera-se, incluindo-se os princípios informativos de decisão bioética.
A realização de distorções e violações, diante da força das práticas pós neoliberais, acompanhadas da insistência interminável da fusão dos preceitos religiosos nos espaços públicos, têm representado a intolerável corrosão dos mais basilares fundamentos de uma potencial cultura jurídica e democrática.
Desperdiçam-se instituições, tempo, dinheiro público, possibilidades de vida, tranquilidade social e efetividade jurídica, bem como se capturam e consomem subjetividades, a partir de uma confusão, intencional ou não, dos espaços, figuras e finalidades legítimas de atuação.
A construção de uma cultura democrática – se esta ainda importar em um futuro cada vez mais distópico – encontra na virtude da tolerância um dos seus pilares intransplantáveis, ao compasso de a fixação consciente de práticas da intolerância necessária uma das mais caras atitudes de resistência e de reconstrução democráticas e republicanas fundamentais.
Eliseu Raphael Venturi, doutorando e mestre em direitos humanos e democracia pela Universidade Federal do Paraná. Editor executivo da Revista da Faculdade de Direito UFPR e Membro do Comitê de Ética na Pesquisa com Seres Humanos da UFPR. Advogado.

[i] RICOEUR, Paul. Tolerância, intolerância, intolerável (1990). In: ______. Leituras 1: em torno ao político. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 1995.p. 174-186.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Observações sobre fascismo e entreguismo no Brasil, por Roberto Bitencourt da Silva, historiador e cientista político



"Basicamente, as preocupações que dão suporte às denúncias giram em torno da observação de comportamentos marcados por ódio às classes populares, social e economicamente mais humildes e marginalizadas, por práticas de intolerância criminosa e agressividade contra as diferenças (sejam elas quais forem) e por um desrespeito, em geral, ao primado dos direitos humanos.
"Nessa acepção, enquanto método cotidiano de sociabilidade é plausível que a denúncia ao “fascismo” guarde sentido. Do ponto de vista histórico, um dos traços mais salientes das experiências fascistas europeias e estadunidenses é a mobilização de comportamentos violentos enquanto ingredientes identitários, geradores de coesão interna de grupo." - Roberto Bintencourt da Silva


Observações sobre fascismo e entreguismo no Brasil
por Roberto Bitencourt da Silva
Volta e meia tropeçamos com esses tipos de denúncias: “vejam o que estão fazendo esses fascistas!”; “os fascistas estão prestes a assumir o poder no Brasil!”; “isso é uma perseguição fascista!”; “esse projeto é fascista!”.
São frases atemorizantes que circulam folgadamente de uns anos para cá, no webjornalismo alternativo, entre círculos partidários e não partidários progressistas, no seio de movimentos sociais, já alcançando certa força retórica elástica em demais círculos da sociedade.
Basicamente, as preocupações que dão suporte às denúncias giram em torno da observação de comportamentos marcados por ódio às classes populares, social e economicamente mais humildes e marginalizadas, por práticas de intolerância criminosa e agressividade contra as diferenças (sejam elas quais forem) e por um desrespeito, em geral, ao primado dos direitos humanos.
Nessa acepção, enquanto método cotidiano de sociabilidade é plausível que a denúncia ao “fascismo” guarde sentido. Do ponto de vista histórico, um dos traços mais salientes das experiências fascistas europeias e estadunidenses é a mobilização de comportamentos violentos enquanto ingredientes identitários, geradores de coesão interna de grupo.
O “inimigo” a ser “combatido”, vislumbrado como fonte das angústias e do mal-estar da coletividade, tende a ser algum grupo étnico minoritário e, em especial, agrupamentos sociais proletarizados e desapossados de direitos, identificados como sujeitos coletivos potencialmente “criminosos” e “perigosos”.
À maneira de Boaventura de Sousa Santos (“A difícil democracia”, ed. Boitempo, 2016), poderíamos afirmar que se tratam de manifestações de um “fascismo social”. Isto é, a inexistência, a baixa efetividade ou a suspensão de garantias constitucionais e judiciais, que promovem a inibição do exercício das liberdades e dos direitos, assim como submetem os estratos sociais mais desapossados ao arbítrio – seja dos patrões, seja das polícias, seja de círculos outros, agressivos e conservadores.
Marginalizados pelos sistemas sociais contemporâneos não faltam: imigrantes e sem documentos, trabalhadores precarizados, nos países do capitalismo central. Favelados, sem teto, sem terra, vasto contingente de subempregados e desempregados, na periferia capitalista, como o Brasil. O racismo e o preconceito de gênero incrementam o problema.
Os programas policialescos das TVs brasileiras são atravessados por enquadramentos noticiosos e pela difusão de valores tipicamente congruentes com o “fascismo social”.
Contudo, o fascismo, enquanto expressão política e cultural portadora de um projeto de sociedade, é profundamente assentado em uma visão nacionalista. Um nacionalismo agressivo, reacionário, de tonalidade imperialista, que busca responder aos desafios conjunturais do capitalismo, à agudização dos conflitos sociais e de classe no interior do Estado nacional, por meio de práticas coloniais ou imperialistas no exterior.
Mussolini, Hitler, a “doutrina Truman” (de “contenção do comunismo no mundo”, incidindo nas soberanias nacionais latino-americanas), adotada pelo governo dos Estados Unidos, a “guerra ao terror” de Bush Jr., foram alguns exemplos tipicamente fascistas, com significativa projeção na cena internacional.
Todos perseguiam os interesses, combinados, de ampliação da acumulação capitalista, de defesa das suas burguesias nacionais e de atenuação dos conflitos sociais internos. Em outras palavras: enquanto projeto de sociedade ou país, o fascismo só pode ser concebido como experiência dos povos do capitalismo central.
Cá na periferia, inexistindo a figura da “burguesia nacional” – na acepção de uma classe que possua projeto de nação, comprometido com o destino nacional e cioso com a resolução, parcial e tímida que seja, dos problemas sociais internos –, não há fascismo.
Menos ainda enquanto instrumento político com projeção internacional. Aqueles que ora são investidos no Brasil de suposta capa “fascista” nada mais são do que entreguistas.
Entreguistas. Isto é, atores norteados pela ideia de que o país e o seu povo são débeis e incapazes, devendo ficar na dependência da criatividade e dos capitais de fora. Docilmente moldar o país aos interesses alienígenas.  
Esses entreguistas – chamemos a eles pelo nome verdadeiro – têm como “projeto de país” o desmonte absoluto de qualquer dispositivo de soberania, de internalização de recursos decisórios sobre os rumos e o destino nacional.  Alienação integral do patrimônio público e das riquezas naturais. Desindustrialização, desnacionalização do parque produtivo. Impossibilitar o desenvolvimento educacional e técnico-cientifico do país. Semiescravidão do próprio povo.
A burguesia de cá é uma apaniguada e sócia subalterna, mesquinha e minoritária da espoliação das burguesias forâneas. Com seus representantes de turno, não possui o menor pudor em afirmar que se dedica a “vender o Brasil”.
Como Atílio Borón argumentou acerca da oposição de direita na Venezuela, chamar de “fascistas” a burguesia brasileira e os reacionários de outros estratos sociais, que renitentemente almejam ver o Brasil de joelhos ao império, seria um “elogio”. Seria emprestar uma identidade mais imponente aos vende pátria. Com efeito, estes setores sociais conseguem a proeza de situarem-se abaixo do nefasto e desumano fascismo.
A rigor, o Brasil nunca possuiu correntes políticas fascistas, por mais que os eventuais atores coletivos buscassem se espelhar e demonstrar sintonias simbólicas e comportamentais.  
O próprio Plínio Salgado, talvez o agente político e intelectual mais expressivo do que se pretende(u) representar como “fascismo tupiniquim”, mesmo com a sua erudição, parcas possibilidades teve para transformar o seu integralismo (dos anos 1930) em pouco mais do que uma mimese colonizada do nazifascismo europeu.
Para quem já leu algum texto de Salgado, veria que o intelectual conservador se apropriava do instrumental marxista para diagnosticar o panorama internacional, a crise capitalista mundial, de modo a pensar as vicissitudes brasileiras. Por óbvio, “rejeitava” as “soluções” propugnadas pelo marxismo.
Os obtusos adeptos do “Escola sem partido” ficariam pasmados em saber que um ícone do pensamento político brasileiro de direita lia, estudava de tudo. Inclusive o marxismo.
No entanto, o personagem não escapava das restrições tipicamente conservadoras de uma nação mergulhada na dependência e na inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. Ao modo do que a economia inspirada nas “vantagens comparativas” do clássico liberal britânico, David Ricardo, preconizava, Salgado considerava que o Brasil possuía “vocação agrária”. À produção primário-exportadora deveria se dedicar. Nisso em nada se diferenciava de um símbolo do pensamento entreguista e liberal brasileiro: Eugênio Gudin.
A ditadura civil-militar instaurada em 1964, acriticamente classificada por muitos como nacionalista e fascista, não era uma coisa nem outra. Foi entreguista. Um dos seus primeiros atos foi a proscrição dos nacionalistas nos meios militares, sindicais, estudantis, políticos.
Acabou com a lei da limitação das remessas de lucros do capital estrangeiro, a pedido dos EUA e das multinacionais. Se a ditadura não foi tão entreguista como o governo FHC e a turma reacionária de hoje deve-se à correlação de forças, herdada do período Jango, e às características da época. Mas, a questão não é de grau e sim de essência.
Isso posto, a assimilação colonizada dos cânones neoliberais, que tratam o sujeito humano de maneira unidimensional – exclusivamente como consumidor –, e abstraem variáveis decisivas como Nação e classe, é a verdadeira matriz de pensamento dos reacionários dos nossos dias, a que muitas valiosas companheiras e companheiros designam como “fascistas”.
Estes, em nossas terras, não possuem qualquer sentimento de pátria, qualquer compromisso com o país e o nosso povo. São meros entreguistas. Cabeças de ponte – deliberadas e, em boa medida, irrefletidas – do imperialismo, que almejam destruir o Brasil.
Seguramente um personagem como Mussolini iria cair em gargalhadas ao ver aqueles setores sendo chamados e, sobretudo, projetando imagens de “fascistas”. Os entreguistas tupiniquins conseguem a proeza de ficar abaixo disso. Em qualquer escala moral e política de avaliação.
Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.