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terça-feira, 19 de novembro de 2019

Umberto Eco sobre o Fascismo Eterno, por Rômulo de Andrade Moreira




Importante ressaltar, com Eco, que o fascismo, pelo menos o italiano, não tinha uma filosofia própria – antes, pelo contrário, era “um alveário de contradições - e que o próprio Duce não possuía nenhuma filosofia, apenas uma retórica de ódio.

Umberto Eco: O Fascismo Eterno, por Rômulo de Andrade Moreira

Jornal GGN. - Umberto Eco, no dia 25 de abril de 1995, na Columbia University, proferiu uma conferência, cujo título foi “O FASCISMO ETERNO”.[1] Nada obstante o público ter sido formado por estudantes universitários dos Estados Unidos e poucos dias depois dos ataques em Oklahoma City – e, portanto, pela comprovação da existência de organizações de extrema direita nos Estados Unidos[2] -, trata-se de “uma reflexão sobre problemas da atualidade de diversos países”, inclusive os da América Latina e, particularmente, o Brasil.
Eco, logo no início de sua palestra, lembrando a sua infância, explicou ter aprendido algo que a mim me parece fundamental para alguns juristas e acadêmicos brasileiros, alguns, inclusive, exercendo funções das mais relevantes na República, como a de julgar, por exemplo. Disse ele:
LIBERDADE DE PALAVRA SIGNIFICA LIBERTAR-SE DA RETÓRICA
Ainda no início do seu discurso, o filósofo italiano também recordou os tempos em que os europeus, e os italianos em particular, resistiram ao avanço nazifascista, e, respondendo se a Resistência teve um impacto militar real no curso da guerra, afirmou:
PARA A MINHA GERAÇÃO, A QUESTÃO É IRRELEVANTE: COMPREENDO IMEDIATAMENTE O SIGNIFICADO MORAL E PSICOLÓGICO DA RESISTÊNCIA
Lembrou, ainda, os tempos da Resistência italiana e como “era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela libertação”; e para aqueles que achavam “que a lembrança daqueles anos terríveis deveria ser reprimida e que precisávamos agora de uma reconciliação nacional”, Eco, desde uma visão psicanalítica, adverte que “a repressão[3] provoca neurose, e se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra com boa fé”,
PERDOAR NÃO SIGNIFICA ESQUECER, E NÃO POSSO DIZER: OK, PODE VOLTAR E FAZER TUDO DE NOVO
Afinal, definitivamente, “eles não podem repetir o que fizeram”, razão pela qual é importante – fundamental! eu diria – recordar o passado para que não se repita, no futuro, as tragédias de outrora.
Umberto Eco, como se falasse hoje em uma conferência no Brasil, e para os jovens brasileiros e brasileiras, explica que “por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis, e, muitas vezes, os hábitos linguísticos são sintomas importantes de sentimentos não expressos”, talkei!
Importante ressaltar, com Eco, que o fascismo, pelo menos o italiano, não tinha uma filosofia própria – antes, pelo contrário, era “um alveário de contradições – e que o próprio Duce não possuía nenhuma filosofia, apenas uma retórica. Não havia no fascismo, portanto, “bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.”[4]
Interessante notar como se assemelham os tempos históricos, os de ontem e os de hoje, alhures e aqui:
O FASCISMO ITALIANO CONVENCEU MUITOS LÍDERES LIBERAIS EUROPEUS DE QUE O NOVO REGIME ESTAVA REALIZANDO INTERESSANTES REFORMAS SOCIAIS, CAPAZES DE FORNECER UMA ALTERNATIVA MODERNAMENTE REVOLUCIONÁRIA À AMEAÇA COMUNISTA
Ora, se o fascismo “adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais dois aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista”, Umberto Eco enumerou características gerais do fascismo, advertindo, desde logo, ser “suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista”:
1 – Culto da tradição e, conseguintemente, recusa e repulsa pela modernidade;
2 – Ação pela ação, ou seja, “a ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão.” Afinal, “pensar é uma forma de castração e a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas.” Ao que parece, é de Goebbels a frase: “Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola.”
3 – O desacordo é sempre revelador de uma traição e sinal de uma inaceitável diversidade; logo, inconcebível é o “espírito crítico”, pois o fascismo tem medo da diferença e dos “intrusos”.
4 – O apelo às classes médias frustradas, maioria em que o fascismo encontrará sempre “o seu auditório”, como ocorre no Brasil.
(A propósito, lembro Jessé de Souza: “a classe média tende a imitar a elite endinheirada na sua autopercepção de classe como sensível e de bom gosto, mostrando que essa forma é essencial para toda separação das classes do privilégio em relação às classes populares. Mas a classe média adiciona a noção de meritocracia, de merecimento de sua posição privilegiada pelo estudo e pelo trabalho duro, mérito percebido como construção individual. Ainda que a meritocracia, como a noção de sensibilidade também, seja transclassista, a classe média é seu habitat natural.”) [5]
Aliás, adverte Eco, que “o elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática”, desprezando-se os “fracos.[6]
5 – O nacionalismo exacerbado, que leva a uma “obsessão da conspiração, possivelmente internacional” e, como consequência, à xenofobia.
6 – Espírito beligerante, pois “o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.” Logo, “nesta perspectiva, cada um é educado para se tornar um herói.” Veja, no Brasil, o caso do Moro. Daí advém, como consectário, o machismo, afinal de contas “como tanto a guerra permanente quanto o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o fascista eterno transfere sua vontade de poder para questões sexuais.” Logo surge o “desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não conformistas, da castidade à homossexualidade.
7 – Populismo qualitativo, ou seja, “os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos, e o ´povo` é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime ´a vontade comum`.” Veja-se, então, como Eco já vislumbrava o fenômeno atual da internet:
EM NOSSO FUTURO, DESENHA-SE UM POPULISMO QUALITATIVO DE TV OU INTERNET, NA QUAL A RESPOSTA EMOCIONAL DE UM GRUPO SELECIONADO DE CIDADÃOS PODE SER APRESENTADA E ACEITA COMO A ´VOZ DO POVO`
8 – Os textos escolares devem se basear “em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico.” Aqui no Brasil, e neste aspecto, o Ministro da Educação diz muito!
Como conclusão, o Mestre italiano adverte que o sentido de palavras como “ditadura” e “liberdade” nunca deve ser esquecido, pois o fascismo “ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis e pode voltar sob as vestes mais inocentes.” Logo,
NOSSO DEVER É DESMASCARÁ-LO E APONTAR O DEDO PARA CADA UMA DE SUAS NOVAS FORMAS – A CADA DIA, EM CADA LUGAR DO MUNDO
Façamo-lo, portanto, antes que seja tarde, e um aventureiro lance mão de vez!
Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.
[1] Este texto foi publicado no Brasil pela Editora Record, em 2018.
[2] Em 1995, os Estados Unidos sofreram um gravíssimo ataque terrorista, quando Timothy James McVeigh detonou um caminhão-bomba em frente a um prédio do Governo federal na cidade de Oklahoma, matando 168 pessoas e ferindo aproximadamente 500. O responsável pelo atentado era um ex-militar, condecorado por bravura e heroísmo durante a Primeira Guerra do Golfo (1990–1991). McVeigh, nova-iorquino, dono de um Q.I. 126, aspirante à boina verde e membro de destaque na famosa Operação Tempestade no Deserto em 1991, era membro da extrema direita americana e admirador de William Luther Pierce, fundador e líder da Aliança Nacional, um famoso grupo racista e antissemita estadunidense.
[3] Neste sentido, a psicanálise explica que a repressão é a supressão consciente de uma ideia desagradável, diferentemente do recalque (muitas vezes confundida com a repressão), este decorrente de um mecanismo inconsciente e fonte de desprazer.
[4] Para Jung, “enquanto o inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, o conteúdo do inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos. O conceito de arquétipo, que constitui um correlato indispensável da ideia do inconsciente coletivo, indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar.” (JUNG, C.G., Obra Completa, Volume 9/1: “Os arquétipos e o inconsciente coletivo”, Petrópolis: Editora Vozes, 2017, páginas 51 e 52).
[5] SOUZA, Jessé de, “A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato”, Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 148.
[6] No Brasil, este aspecto foi realçado na obra “Raízes do Brasil”: “Não é outro, aliás, o motivo da ânsia pelos meios de vida definitivos, que dão segurança e estabilidade, exigindo, ao mesmo tempo, um mínimo de esforço pessoal, de aplicação e sujeição da personalidade, como sucede tão frequentemente com certos empregos públicos.” (HOLANDA, Sérgio Buarque de, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 157).

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Por que a ideia - derramada de cima para baixo - da meritocracia privilegia quem já é rico? Por Carlos Eduardo Araújo


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O vocábulo “meritocracia”, que na perspectiva proposta por Michael Young retratava um mundo de profundas injustiças, foi apropriado e transfigurado pela direita para descrever a possibilidade de ascensão social e econômica, em decorrência do esforço individual. E é nesse último e deturpado sentido que a palavra é empregada no discurso neoliberal.

Por Carlos Eduardo Araújo, no Justificando
 Por que, parcelas consideráveis da sociedade brasileira, situadas desde os integrantes da classe média até aqueles que ocupam o topo da pirâmide social, se colocam contrárias à efetivação de políticas públicas sociais, tais como bolsa-família, cotas sociais e raciais, programa de renda mínima, minha casa, minha vida?

Por que a simples menção à expressão “justiça social” as incomoda tanto? Por que tal expressão gera tanta desconfiança, a ponto de fazê-las desacreditá-la, veementemente? 

Já ouvi de parentes e pessoas próximas, a exaltação de si mesmas, ou seja, de como, apesar de condições sociais adversas que tiveram de enfrentar, conseguiram chegar onde chagaram, seja lá o que isso significa na topografia social. Sob essa ótica basta trabalho, determinação e foco para alcançar o sucesso mundano. Assim, segundo essa perspectiva, o “governo” não deve se intrometer, promovendo políticas públicas de inserção social, sendo cada indivíduo responsável por suas escolhas e seu destino. Será mesmo assim? Creio que não! Vou tentar esboçar uma resposta, mesmo que incipiente, a essa indagação.

A palavra meritocracia passou a ser invocada para justificar determinada posição social, econômica ou financeira, que algumas pessoas alcançaram, tendo como decorrência o reconhecimento privado, público e social, resultando em uma posição de prestígio e de acesso a determinados bens, materiais e imateriais, os quais se configurariam em determinados privilégios. Tudo como conseqüência de seus atos e iniciativas, ou seja, em razão de seu mérito ou merecimento pessoal. 

Assim, segundo essa visão, quem não foi aquinhoado com uma fatia equânime na divisão do bolo social, não logrando êxito em seus intentos, não figurando no rol dos “vencedores” da batalha pela vida, como um competidor eficiente, é porque não envidou esforços suficientes e necessários para tal fim. Logo, deve sofrer os efeitos e as seqüelas de suas escolhas ou a ausência delas. 

A palavra meritocracia passou a ser cada vez mais invocada para legitimar determinadas situações de desigualdade social. Meritocracia é um neologismo criado em 1958, por Michael Young, fazendo parte do título de seu romance “The Rise of The Meritocracy” (A Ascensão da Meritocracia). Young era um sociólogo e ativista social de esquerda, tendo nascido em 1915, em Manchester e falecido em Londres, em 2002. Ele escreveu, a princípio, uma espécie de ensaio no qual pretendia demonstrar o engodo da idéia de merecimento pessoal, que estava e ainda permanece em plena vigência na cena central do capitalismo, tendo se acentuado em sua vertente neoliberal. A obra foi recusada por onze editores, até ser finalmente publicada. Um dos editores sugeriu que o autor veiculasse suas ideias por meio de um romance, ao estilo de “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, nascendo assim a obra no formato em que ficou conhecida do grande público.

O romance de Young [1] é, como o modelo sugerido de Huxley, uma distopia. A obra descreve a Inglaterra do ano 2033, como uma sociedade orientada para a maximização da eficiência produtiva, mediante o completo emprego dos recursos intelectuais da população, oportunamente valorizados pela escola. Young imagina, de forma satírica e crítica, que a aceitação do princípio do mérito, generalizando-se, levaria à constituição de uma classe dirigente de homens, rigorosamente selecionados, que, após numerosos e aprimorados testes de inteligência, poderiam ter acesso aos mais altos graus de instrução, assumindo em seguida todos os cargos de direção da sociedade.

Assim, por meio de “critérios científicos”, os mais inteligentes seriam distinguidos e separados dos demais, dando origem a duas classes sociais distintas: a classe superior, dotada de quociente intelectual elevado, tendo direito a uma boa instrução e a consideráveis privilégios econômicos e sociais; a classe inferior, ao revés, que receberia uma instrução elementar, que a habilitaria a trabalhar, sob as ordens da classe superior, e em serviços subalternos, inclusive em trabalhos domésticos nas residências dos “superdotados”. [2]

O vocábulo “meritocracia”, que na perspectiva proposta por Michael Young retratava um mundo de profundas injustiças, foi apropriado e transfigurado pela direita para descrever a possibilidade de ascensão social e econômica, em decorrência do esforço individual. E é nesse último e deturpado sentido que a palavra é empregada no discurso neoliberal.

Como constatam Pierre Dardot e Christian Laval: “Por múltiplos caminhos, o neoliberalismo se impôs como a nova razão do mundo, não deixando incólume nenhuma esfera da vida. O que se acha em causa é a forma de existência na modernidade última. Sua norma fundamental é a competição mortífera modelando tudo da vida social introjetada na subjetividade dos indivíduos pelo capital e seu mercado.” [3]

No prestigiado Dicionário de Política, organizado por Noberto Bobbio, Nicola Mattecucci e Gianfranco Pasquino, há um verbete, assinado por Lorenzo Fischer, dedicado a palavra meritocracia. Diz Fischer que por essa palavra “se entende o poder da inteligência que, nas sociedades industriais, estaria substituindo o poder baseado no nascimento ou na riqueza, em virtude da função exercida pela escola”. [4] Portanto, os méritos dos indivíduos derivariam principalmente de suas aptidões intelectivas, as quais seriam confirmadas nos sistemas escolares com a atribuição de diplomas e títulos. No entanto, o próprio Fischer demonstra, a partir da menção a outros autores, como essa palavra passou a ser utilizada como forma de legitimação ideológica da desigualdade social.

O neoliberalismo construiu uma enorme farsa, que encobre a ideologia que subjaz a essa lógica meritocrática. Cria-se a ilusão de que todos são dotados de iguais condições para alcançar os bens da vida, uma vez que doravante vão desaparecer, progressivamente, a partir de sua adoção, os privilégios de nascimento, de posição social e de classe, surgindo em seu lugar uma sociedade em que o merecimento pessoal será a mola propulsora das realizações individuais. Segundo essa concepção, a meritocracia teria o condão de constituir uma sociedade onde a igualdade de possibilidades estaria assegurada igualmente a todos. Todavia, a igualdade de oportunidades, prometida pela meritocracia, é uma mera ideologia, cujo intuito é justificar a permanência das desigualdades sociais, tornando-as aceitáveis a todos.

As camadas mais pobres da sociedade, as principais vítimas da desigualdade social, não possuem condições socioeconômicas de adquirir os pré-requisitos indispensáveis para disputar as posições sociais mais relevantes, as quais, em regra, serão ocupadas pelos mais privilegiados, que tiveram acesso, desde a mais tenra idade, a uma gama de bens matérias e culturais, que farão toda a diferença na disputa por cargos, posição e reconhecimento social, tornando a meritocracia uma grande falácia.

Amartya Sen nos ensina que a pobreza gera a privação de capacidades básicas do indivíduo, sendo que, segundo ele, a falta de renda pode ser uma razão primordial da privação de capacidades de uma pessoa. Diz Sen que “uma renda inadequada é, com efeito, uma forte condição predisponente de uma vida pobre”. [5]  

Fernando Canzian e Fernanda Mena, em matéria do jornal Folha de São Paulo, do último dia 19/08/2019, corroboram, a partir de dados oficiais descriminados, a constatação segundo a qual a acentuada desigualdade na distribuição da renda acarreta o surgimento de um fosso que separa os muito ricos dos muito pobres, com direito às zonas intermediárias, resultando em  conseqüências deletérias para a aquisição de capacidades pelos mais pobres, impedindo ou dificultando, demasiadamente, sua inserção no mercado de trabalho, lazer, cultura e consumo. O destaque jornalístico expõe, em letras garrafais, que os “Super-ricos no Brasil lideram concentração de renda global”. Assim, entre os países democráticos, nenhum outro tem maior acúmulo de rendimentos no 1% do topo; na crise, a miséria voltou a subir, mas houve forte queda nos anos 2000. [6]  

Para a historiadora Lilia Schwarcz, autora de “Brasil: uma biografia” (com Heloisa Starling), ouvida pela reportagem da Folha, temos uma dívida social gigantesca com os escravos libertos e não integrados à vida nacional. Os mesmos foram completamente segregados e abandonados à sua própria sorte. Diz a historiadora que “além de ter sido destino de quase a metade dos 12 milhões de negros que saíram da África escravizados entre os séculos 16 e 19 e de ter sido o último país a abolir a escravidão nas Américas, em 1888, o Brasil não teve políticas de integração para os libertos”. [7]  

Tal fato contribui, até hoje, para a manutenção da brutal desigualdade social reinante na sociedade brasileira. Representando mais da metade da população no país, apenas 40,3% dos pretos e pardos maiores de 25 anos, por exemplo, chegaram ao fim do ensino médio. Como soa hipócrita se falar em meritocracia nesse ambiente, de abjeta exclusão social. [8]  

A meritocracia está associada à ideia de responsabilidade individual e ganhou especial relevância no neoliberalismo, para o qual muito contribuíram políticos como Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Críticos do Estado do bem-estar social, ambos defenderam que tanto os sucessos, quanto os fracassos das pessoas são de inteira responsabilidade delas. Isto significa que o contexto em que nasceram e viveram não tem relevância nos resultados individuais. 

Esse pensamento neoliberal exacerba a responsabilidade individual em detrimento da social. Por isso a defesa do self-made man, personagem empreendedor, autônomo e esforçado, que, mesmo possuindo um histórico de adversidades socioeconômicas, é capaz de enfrentá-las e vencer na vida, dispensando a “ajuda” do Estado. 

Já a lógica por trás do Estado do bem-estar é que o progresso ou não de uma pessoa não é determinado apenas pelo seu desempenho, mas também por variáveis ligadas ao antecedente social e biológico de cada um. Assim, a responsabilidade individual é relativizada para que se acrescente um forte componente de responsabilidade coletiva, com o papel de equilibrar as desigualdades provenientes de fatores sociais e naturais, que tanta influência exercem nos resultados individuais. Daí o conflito existente entre a ideologia neoliberal e o Estado de bem-estar.

A meritocracia neoliberal é relativizada por aquilo que o filósofo americano John Rawls [9] chama de “loteria natural” e “loteria social”. Ou seja, o acesso a cargos, posições sociais, riqueza e prestígio não são o resultado do puro arbítrio individual ou de uma deliberação consciente, uma vez que fatores como a classe social e família na qual se nasceu, o país do qual se tornou nacional, a herança psíquica que recebeu como pecúlio natural e social, vão ter uma influência determinante para a realização pessoal, profissional, familiar e social do indivíduo. Não é que o indivíduo seja um mero joguete das continências naturais e sociais, mas elas exercem um papel decisivo sobre suas escolhas e realizações. No entanto, não podem deixar de ser consideradas quando se almeja alcançar uma igualdade substancial de oportunidades e não uma falaciosa igualdade formal, “ofertada” pelo neoliberalismo, pelo viés da meritocracia.

Como pondera John Rawls “O ponto até o qual as aptidões naturais se desenvolvem e amadurecem sofre influência de todos os tipos de circunstancias sociais e atitudes de classe. Mesmo a disposição de fazer esforço, de tentar e, assim, ser merecedor, no sentido comum do termo, depende de circunstâncias sociais e familiares afortunadas.” [10]

Rousseau já havia identificado que a origem das desigualdades entre os homens estaria situada na desigualdade natural e na desigualdade que ele denominou de moral ou política:

“Concebo na espécie humana duas espécies de desigualdade: uma, que chamo de natural ou física, porque é estabelecida pela natureza e consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito ou da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou política, porque depende de uma espécie de convenção e é estabelecida, ou pelo menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Esta consiste nos diferentes privilégios que alguns usufruem em detrimento dos outros, como serem mais ricos, mais honrados, mais poderosos que eles, ou mesmo o de se fazerem obedecer por  eles.” [11]

Por conseguinte, as políticas sociais, instituídas e implementadas pelos governos de viés social, têm como papel fundamental mitigar os efeitos perversos das desigualdades provocadas por condições sociais e/ou naturais adversas, que acabam por premiar alguns, na loteria aleatória da natureza, com inteligência, com determinação, com beleza, com espírito positivo ou na loteria das contingências sociais, como nascer em uma família estruturada e abastada, num país desenvolvido e democrático, que independem de uma atitude consciente do indivíduo, em detrimento de uma igualdade substancial de oportunidades. 

A atuação do Estado é essencial e necessária, reitere-se, para minorar as situações de desigualdades sociais, por intermédio de políticas públicas, como as que vêm sendo paulatinamente inseridas e efetivadas, desde meados dos anos 90 no Brasil, com considerável incremento a partir dos primeiros anos da década de 2000. Não podemos cair no engodo da meritocracia neoliberal!


Carlos Eduardo Araújo é Professor Universitário e Mestre em Teoria do Direito (PUC – MG).

NOTAS:
[1] Michael Young. The Rise of the Meritocracy (Classics in Organization and Management Series). Taylor and Francis. Edição do Kindle, 2017.
[2] BOBBIO, Noberto; MATTEUCCI, Nicola; GIANFRANCO, Pasquino. Dicionário de Política. UNB/Imprensa Oficial, Vol. 2, 5.ª edição, 2000.
[3] DORDOD, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo – Ensaio Sobre a Sociedade Neoliberal. Boitempo, 2016.
[4] BOBBIO, Noberto; MATTEUCCI, Nicola; GIANFRANCO, Pasquino. Dicionário de Política. UNB/Imprensa Oficial, Vol. 2, 5.ª edição, 2000.
[5] SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. Companhia das Letras, 2000.
[6] CANZIAN, Fernando; MENA, FernandaSuper-ricos no Brasil lideram concentração de renda global. Folha de São Paulo, 19 ago. 2019. 
[7] CANZIAN, Fernando; MENA, FernandaSuper-ricos no Brasil lideram concentração de renda global. Folha de São Paulo, 19 ago. 2019.
[8] CANZIAN, Fernando; MENA, FernandaSuper-ricos no Brasil lideram concentração de renda global. Folha de São Paulo, 19 ago. 2019.
[9] RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Martins Fontes, 1997.
[10] RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Martins Fontes, 1997.
[11] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. L&PM Pocket, 2009.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Toffoli e Bolsonaro em época de ridículo militarismo, milicianismo, neofascismo, entreguismo e retrocessos




O Bolsonaro que vive em cada um de nós, por Victor Saavedra

Se de um lado acreditamos no bem maior e nos escondemos nessa ideologia da conquista e manutenção do poder em nome dos mais fracos, eles o fazem em nome do Bolsonarismo e de um discurso de ódio em defesa de valores - para eles - do cristianismo.
Do GGN:

O Bolsonaro que vive em cada um de nós, por Victor Saavedra

Cada em de nós tem um pouco do presidente, seja por criação, rebeldia ou mesmo valores bem fundamentados e totalmente equivocados…
Vivemos uma época ingrata,onde o conservadorismo ganhou holofotes e consegue, através de Decretos e Medidas Provisórias, impor sua visão de sociedade a todo o país. Se por um lado somos conscientes dos retrocessos, e muitos lutaram contra essa ideología rasa, também somos cúmplices desse movimento que conquistou a presidência com promessas de armas e privatizações.
Somos todos contrários à corrupção, espero, mas nos deixamos envolver por uma purga da sociedade onde os que querem um Estado que proteja os elos mais fracos são taxados de comunistas, vermelhos e petistas.
Se o cristianismo e seus valores milenares ganham força, e o ativismo de gênero, raça são propaganda marxista contra quem com seus milhões de votos impõe sua vontade e consegue destruir a proteção constitucional contra o absolutismo presidencial.
Como confiar em um Presidente do Supremo Tribunal Federal que tem a seu lado um General que durante a eleição atacou as propostas do PT, chamando o candidato contrário a seus ideais de Marionete de Presidio?
Seremos tão inocentes a ponto de acreditar que o judiciário pode mesmo julgar alguma pauta… quando quem decide quem entra ou sai da sala do Ministro Dias Toffoli é um defensor férreo do Bolsonarismo? Ou será que somos cúmplices por não conseguirmos combater esse autoritarismo evidente e escancarado?
Durante os governos do demônio barbudo e sua cria, o Brasil as panelas soaram quando a gasolina alcançou míseros (comparados aos preços atuais) R$ 2,50…
O Bolsa Preguiça tirou milhões da pobreza, mas pobre não trabalha por que não quer…
As cotas e o ProUni permitiram avanços e oportunidades a quem só tinha o direito de sonhar com uma educação técnica e uma vida de subalterno…
Os aeroportos se tornaram rodoviárias para aqueles que não sabem se vestir de forma apropriada, já que não estavam acostumados aos luxos das viagens expeditas e dos protocolos de civilidade de uma classe na qual não foram educados.
Afinal… fomos tão obtusos que não percebemos que incomodamos os que podem pagar milhões para propagandear seus ideais…
Nos cegamos com o poder, e como isso beneficia os milhões, decidindo pelo bem da sociedade, mas negando visões contrárias a ideais e valores que não os nossos.
Fomos Bolsonaro e ainda somos, pois nossa pauta se resume à liberdade de um capeta de Curitiba (independente de sua culpa), e nossas batalhas são menosprezadas por quem hoje decide, assim como foi no período marxista dessa nação (dizem).
Se de um lado acreditamos no bem maior e nos escondemos nessa ideologia da conquista e manutenção do poder em nome dos mais fracos, eles o fazem em nome do Bolsonarismo e dos valores milenares do cristianismo.
Que tenhamos a coragem de purgar nossa verdade em nome da reconquista da voz.
Que aprendamos a lição dos derrotados e nosso hino seja um só, e cantado sob uma bandeira vermelha de sangue, daqueles que sofrem e seguirão sofrendo enquanto o clã das redes sociais dominar o destino da que já foi uma nação para todos.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Slavoj Žižek escreve sobre o desfecho da série "Game of Thrones"


  "A figura Daenerys como rainha tresloucada é rigorosamente uma fantasia masculina. A cena em que ela, tomada por um olhar de fúria e loucura, sobrevoa a cidade em seu dragão e incendiando casas e pessoas é simplesmente a expressão da ideologia patriarcal e seu medo de uma mulher politicamente forte."

do Blog da Boitempo (também reproduzada no GGN)

Feminilidade tóxica em “Game of Thrones” | Žižek escreve sobre o desfecho da série

Por Slavoj Žižek.


* TEXTO ENVIADO DIRETAMENTE PELO AUTOR PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. 
A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZO.
A última temporada de Game of Thrones ensejou um grande alarde público, que culminou em uma petição (assinada por quase um milhão de espectadores indignados) exigindo que se desqualificasse a temporada inteira e regravasse uma nova. A fúria que marcou debate é, por si só, indício de que há bastante em jogo, em termos de ideologia.
A insatisfação girou em torno de dois pontos principais: enredo ruim (sob pressão de encerrar rapidamente a série, a complexidade da narrativa ficou prejudicada) e psicologia ruim (a transformação de Daenerys em Rainha Louca não se justifica em termos da trajetória da personagem). Uma das poucas vozes inteligentes no debate foi a do escritor Stephen King, que assinalou que a insatisfação não teria sido provocada pelo final ruim, mas pela própria existência de um final – em nossa era de séries, que a princípio continuam indefinidamente, a própria ideia de um fechamento narrativo torna-se intolerável. É verdade que, no célere desfecho da série, impera uma estranha lógica – mas trata-se de uma lógica que viola não tanto a verossimilhança da psicologia, mas as próprias pressuposições narrativas de uma série televisiva. Afinal, a última temporada resume-se aos preparativos para uma batalha, o pesar e destruição que se seguem à batalha, e o próprio combatente diante de toda essa falta de sentido – algo muito mais realístico para mim do que os habituais enredos melodramáticos góticos.
O universo de Game of Thrones (assim como o de O senhor dos anéis) é espiritualizado mas desprovido de Deus: há forças sobrenaturais, mas elas fazem parte da natureza, e não há deuses mais elevados tampouco sacerdotes as servindo. No interior desse quadro, o desenho da oitava temporada é profundamente consistente: ela encena três lutas consecutivas. A primeira é travada entre a humanidade e seus Outros inumanos (representados pelo Exército da Noite do Norte, liderado pelo Rei da Noite). Em seguida, a disputa se dá entre os dois principais grupos de humanos (os malvados Lannister e a coalizão contra eles liderada por Daenerys e pelos Stark). Por fim, tem-se o conflito interno entre Daenerys e os Stark. É por isso que as batalhas da oitava temporada seguem um caminho lógico que parte de uma oposição externa para chegar à cisão interna: a derrota do inumano Exército da Noite, a derrota dos Lannister e a destruição de King’s Landing, até chegar no último embate entre os Stark e Daenerys – em última instância entre a “boa” e tradicional nobreza (representada pelos Stark), que protege lealmente seus sujeitos das garras de tiranos maus, e a figura de Daenerys, como uma líder forte de novo tipo, uma espécie de bonapartista progressista atuando em prol dos menos privilegiados. O que está em jogo no conflito final é, para resumir de maneira simples, o seguinte: a revolta contra a tirania deveria se dar no marco de uma mera luta pelo retorno à versão antiga, mais bondosa, da mesma ordem hierárquica, ou deveria evoluir no sentido de uma busca por uma nova ordem necessária?


Os espectadores insatisfeitos têm um problema com esse último embate – não é de se espantar, visto que ela combina a rejeição de uma transformação radical com um velho tema antifeminista verificado nas obras de Hegel, Schelling e Wagner. Em sua Fenomenologia do Espírito, Hegel introduz sua famosa noção da feminilidade como “a eterna ironia da comunidade”: a mulher “transforma por suas intrigas o fim universal do Governo em um fim-privado, converte sua atividade universal no produto de algum indivíduo particular, e perverte a propriedade universal do Estado em patrimônio e adorno da família”1 Essas linhas se encaixam perfeitamente com a figura de Ortrud, da ópera Lohengrin, de Richard Wagner: para ele, não há nada mais horrível e repugnante do que uma mulher que intervém na vida política, motivada por um desejo de poder. Diferentemente do que ocorreria com a ambição masculina, a mulher, incapaz que é de apreender a dimensão universal da política estatal, almejaria o poder a fim de promover seus próprios interesses familiares estreitos – ou pior, seus caprichos pessoais. Como não lembrar da passagem de F. W. J. Schelling segundo a qual “o princípio que funciona e nos sustenta com sua ineficácia é o mesmo que nos consumiria e destruiria com sua eficácia”?2 – o poder que, quando mantido em seu lugar adequado, pode ser benigno e pacificador converte-se no seu oposto radical, na fúria mais destrutiva, tão logo incide num patamar mais alto, patamar que não é o dele. A mesma feminilidade que, dentro do círculo fechado da vida familiar, configura o próprio poder do amor protetor transforma-se em frenesi obsceno quando se manifesta no patamar dos assuntos públicos e do Estado. O ponto mais baixo do diálogo é o momento em que Daenerys diz a Jon Snow que se ele não consegue amá-la enquanto rainha, que reinaria o medo – o arquétipo embaraçosamente vulgar da mulher sexualmente insatisfeita que explode em fúria destrutiva.
Mas mordamos agora nossa maça azeda: o que dizer das explosões assassinas de Daenerys? A chacina impiedosa de milhares de pessoas comuns em King’s Landing poderia realmente ser justificada como um passo necessário para a liberdade universal? Trata-se de algo de fato imperdoável – mas nesse ponto, é preciso lembrarmos de que o enredo foi escrito por dois homens. A figura Daenerys como rainha tresloucada é rigorosamente uma fantasia masculina (os críticos acertaram ao apontar que sua descida à loucura não se justificava psicologicamente). A cena em que ela, tomada por um olhar de fúria e loucura, sobrevoa a cidade em seu dragão incendiando casas e pessoas é simplesmente a expressão da ideologia patriarcal e seu medo de uma mulher politicamente forte.
O destino final das protagonistas mulheres em Game of Thrones se encaixa nessas coordenadas. É central a oposição entre Cersei e Daenerys, as duas mulheres ligadas ao poder, e a mensagem do conflito delas é claro: ainda que a boa vença, o poder corrompe a mulher. Arya (que salvou todos eles quando matou, sozinha, o Rei da Noite) também desaparece, embarcando em uma viagem a oeste do Oeste (como se para colonizar a América). A que permanece (como rainha do reino autônomo do Norte) é Sansa, um tipo de mulher amada pelo capitalismo contemporâneo: ela reúne delicadeza e compreensão femininas com uma boa dose de intriga, e assim se encaixa plenamente nas novas relações de poder. Essa marginalização das mulheres é um momento chave da lição liberal-conservadora geral do último episódio: as revoluções precisam dar errado, elas ensejam novas tiranias.
Os espectadores insatisfeitos têm um problema com esse último embate – não é de se espantar, visto que ela combina a rejeição de uma transformação radical com um velho tema antifeminista verificado nas obras de Hegel, Schelling e Wagner. Em sua Fenomenologia do Espírito, Hegel introduz sua famosa noção da feminilidade como “a eterna ironia da comunidade”: a mulher “transforma por suas intrigas o fim universal do Governo em um fim-privado, converte sua atividade universal no produto de algum indivíduo particular, e perverte a propriedade universal do Estado em patrimônio e adorno da família”1 Essas linhas se encaixam perfeitamente com a figura de Ortrud, da ópera Lohengrin, de Richard Wagner: para ele, não há nada mais horrível e repugnante do que uma mulher que intervém na vida política, motivada por um desejo de poder. Diferentemente do que ocorreria com a ambição masculina, a mulher, incapaz que é de apreender a dimensão universal da política estatal, almejaria o poder a fim de promover seus próprios interesses familiares estreitos – ou pior, seus caprichos pessoais. Como não lembrar da passagem de F. W. J. Schelling segundo a qual “o princípio que funciona e nos sustenta com sua ineficácia é o mesmo que nos consumiria e destruiria com sua eficácia”?2 – o poder que, quando mantido em seu lugar adequado, pode ser benigno e pacificador converte-se no seu oposto radical, na fúria mais destrutiva, tão logo incide num patamar mais alto, patamar que não é o dele. A mesma feminilidade que, dentro do círculo fechado da vida familiar, configura o próprio poder do amor protetor transforma-se em frenesi obsceno quando se manifesta no patamar dos assuntos públicos e do Estado. O ponto mais baixo do diálogo é o momento em que Daenerys diz a Jon Snow que se ele não consegue amá-la enquanto rainha, que reinaria o medo – o arquétipo embaraçosamente vulgar da mulher sexualmente insatisfeita que explode em fúria destrutiva.
Mas mordamos agora nossa maça azeda: o que dizer das explosões assassinas de Daenerys? A chacina impiedosa de milhares de pessoas comuns em King’s Landing poderia realmente ser justificada como um passo necessário para a liberdade universal? Trata-se de algo de fato imperdoável – mas nesse ponto, é preciso lembrarmos de que o enredo foi escrito por dois homens. A figura Daenerys como rainha tresloucada é rigorosamente uma fantasia masculina (os críticos acertaram ao apontar que sua descida à loucura não se justificava psicologicamente). A cena em que ela, tomada por um olhar de fúria e loucura, sobrevoa a cidade em seu dragão incendiando casas e pessoas é simplesmente a expressão da ideologia patriarcal e seu medo de uma mulher politicamente forte.
O destino final das protagonistas mulheres em Game of Thrones se encaixa nessas coordenadas. É central a oposição entre Cersei e Daenerys, as duas mulheres ligadas ao poder, e a mensagem do conflito delas é claro: ainda que a boa vença, o poder corrompe a mulher. Arya (que salvou todos eles quando matou, sozinha, o Rei da Noite) também desaparece, embarcando em uma viagem a oeste do Oeste (como se para colonizar a América). A que permanece (como rainha do reino autônomo do Norte) é Sansa, um tipo de mulher amada pelo capitalismo contemporâneo: ela reúne delicadeza e compreensão femininas com uma boa dose de intriga, e assim se encaixa plenamente nas novas relações de poder. Essa marginalização das mulheres é um momento chave da lição liberal-conservadora geral do último episódio: as revoluções precisam dar errado, elas ensejam novas tiranias.
mesmo não poderia ser dito de Batman: o cavaleiro das trevas ressurge, o último filme da trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan? Embora Bane seja o vilão oficial, há indícios de que ele, muito mais do que o próprio Batman, configura o autêntico herói do filme, distorcido como seu vilão: ele está disposto a sacrificar sua vida pelo seu amor, pronto para colocar tudo em risco por aquilo que ele entende por injustiça, e esse fato básico é ofuscado por sinais superficiais e francamente ridículos de maldade destrutiva.3 Também no filme Pantera Negranão seria o personagem de Killmonger o verdadeiro herói? Ele prefere morrer livre do que ser curado e sobreviver na falsa abundância de Wakanda – o forte impacto ético das palavras finais de Killmonger imediatamente estragam a ideia de que ele seria um vilão simples…4 Mas, voltemos ao final de Game of thrones. A lição liberal-conservadora transparece mais claramente nas seguintes palavras ditas por Jon Snow a Daenerys:
“Eu nunca imaginei que os dragões existiriam de novo; ninguém imaginava. As pessoas que te seguem sabem que você fez algo impossível acontecer. Talvez isso as ajude a acreditar que você pode fazer com que outras coisas impossíveis ocorram: construir um mundo diferente da merda que eles sempre conheceram. Mas se você os usa [os dragões] para derreter castelos e queimar cidades, você não é nada diferente. É só mais do mesmo.”
Assim, Jon mata por amor (salvando de si mesma a mulher amaldiçoada, conforme a velha fórmula chauvinista) o único agente social da série que realmente lutou por algo novo, por um mundo novo que daria um fim às velhas injustiças. Então não é de se espantar que o último episódio da temporada foi bem-recebido: a justiça prevaleceu – mas que tipo de justiça? Cada pessoa é alocada a seu devido lugar: Daenerys, que perturbou a ordem estabelecida, é morta e levada para longe por seu último dragão. O novo rei é Bran: aleijado, onisciente, que não quer nada – com a evocação da sabedoria insípida segundo a qual os melhores governantes seriam aqueles que não querem o poder. Em um desfecho supremamente politicamente correto, um aleijado governa, agora auxiliado por um anão, e eleito pela nova elite sábia. (Um belo detalhe: o riso que se segue quando um deles propõe uma seleção mais democrática do rei). E é impossível não notar que aqueles que se mostram fieis a Daenerys até o final têm a pele mais escura – o grande comandante militar dela é negro – e são mais do Oriente, ao passo que os novos governantes são claramente todos nórdicos brancos. A rainha radical que queria mais liberdade para todos independentemente de posição social e raça é eliminada, as coisas voltam ao normal, e tempera-se a miséria deles por sabedorias.
Notas
1 “Essa feminilidade – a eterna ironia da comunidade – muda por suas intrigas o fim universal do Governo em um fim-privado, transforma sua atividade universal em uma obra deste indivíduo determinado, e perverte a propriedade universal do Estado em patrimônio e adorno da família.” G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito, trad. Paulo Meneses, com a colaboração de Karl-Heinz Efken e José Nogueira Machado (Petrópolis, Vozes, 2003), p. 329.
2 F. W. J. Schelling, Die Weltalter. Fragmente. In den Urfassungen von 1811 und 1813, ed. Manfred Schroeter, Munich: Biederstein 1946 (reprint 1979), p. 13.
3 Para uma análise mais detida dessa questão no filme Batman: o cavaleiro das trevas ressurge, ver Slavoj Žižek, “Ditadura do proletariado em Gotham City:”, trad. Rogério Bettoni, Blog da Boitempo, 8 ago. 2012. (N. E.)
4 Para uma análise mais detida, ver Slavoj Žižek, “Dois Panteras Negras“, trad. Artur Renzo, Blog da Boitempo, 27 fev. 2018. (N. E.)
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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.
Artur Renzo é editor do Blog da Boitempo, da TV Boitempo e da revista Margem Esquerda. Formado em Filosofia e em Comunicação Social com habilitação em Cinema, traduziu, entre outros, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI (Boitempo, 2018), de David Harvey.