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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Estudos Psíquicos, Parapsicologia e Fotografias de Fantasmas



Fotografias Psíquicas e Fotografias de Fantasmas


Carlos Antonio Fragoso Guimarães

A questão do Inconsciente e do Espiritismo

(...) o desenvolvimento do tema exigia que eu refutasse, baseando-me em fatos, a inefável objeção anti-espirítica segundo a qual, não se podendo assinar limites às faculdades supranormais da telepatia, da telemnesia, da telestesia, também nunca será possível demonstrar experimentalmente, portanto, cientificamente, a existência e a sobrevivência do espírito. (...) As provas de identificação espirítica, fundadas nas informações pessoais fornecidas pelos mortos que se comunicam, longe de serem as únicas que se podem conseguir para a demonstração experimental da sobrevivência, mais não são que simples unidade de prova, dentre as múltiplas provas que se podem extrair do conjunto de fenômenos metapsíquicos, mas, sobretudo, das manifestações supranormais de ordem extrínseca, as quais, de ninguém dependendo, resultam independentes dos poderes do inconsciente”.


Ernesto Bozzano, “Animismo ou Espiritismo?”, 1937


  Hoje já é medianamente conhecido a uma parcela dos meios espíritas e no meio mais culto da população em geral a polêmica, travada normalmente por intermédio da mídia, sobre a questão da natureza e origem dos assim chamados fenômenos paranormais (etimologicamente, significando fenômenos ao lado ou paralelos aos considerados fenômenos normais).

  Assunto polêmico por várias e complexas razões, transcendendo mesmo a soma dos fatos e evidências positivas colecionadas nos últimos 144 anos, tanto pelo espiritismo na sua vertente científica, quando pelos vários pesquisadores dos fenômenos psíquicos, ou psi, em especial a partir da célebre Society for Psychical Research britânica, fundada em 1880, atravessando a Metapsíquica francesa de Geley, Richet, Bozzano e Sudre, a atual Parapsicologia anglo-americana de Rhine, Bender e Pratt, a Psicobiofísica do professor Hernani Guimarães Andrade e a Psicotrônica (nome dado aos estudos psi no antigo bloco socialista do leste europeu), a questão da realidade dos fenômenos paranormais, apesar de seu conjunto de evidências, possui dos frontes principais de polêmicas de difícil solução, pois que é este um dos raros campos de conhecimento onde fica mais visível o posicionamento perante idéias adotadas a priori e calcadas em um determinado paradigma ou metafísica da realidade que propriamente baseadas e correlacionadas a fatos positivos, enormemente coletados, classificados e descritos nos últimos 144 anos, o que pode ser exemplificado por inúmeros exemplos.

O estudo dos fenômenos psíquicos nas Universidades


 Tomemos como ilustração os estudos sobre telepatia e clarividência executados na década de 20 do século passado pela Universidade de Groningem, na Holanda, em cooperação com a Universidade de Harvard, sob a direção, na primeira, do Dr. H. J. Brugmans, e, na segunda, com o Dr. G. H. Estabrooks, com a cooperação do célebre professor William McDougall.

   A coleta de evidências pró-realidade dos fatos da Telepatia e da Clarividência foi de tal monta, que o Dr. McDougall, que era membro da Society for Psychical Research (sociedade privada, não ligada à academia, embora plena de célebres docentes das mais variadas áreas) chegou a transferir-se de Oxford para Harvard e, posteriormente, para a Universidade de Duke, com o fim de dedicar grande parte do seu tempo ao estudo destes fenômenos, onde, em 1930, com a ajuda de dois talentosos orientandos seus, Joseph Banks Rhine e sua esposa, Louise Ella Rhine, fundaria o primeiro laboratório acadêmico para o estudo do que passaria a ser chamado de Parapsicologia.

 O grande problema porém, foi o fato que as evidências coletadas tanto em Groningem, quanto em Harvard e, posteriormente, em Duke e vários outros centros acadêmicos posteriores não foram aceitos plenamente pelos psicólogos, médicos e outras áreas científicas, embora a metodologia aplicada fosse particularmente bem vista pelos físicos teóricos de ponta, em especial os voltados para o estudo da Física das Partículas, ou Física Quântica. 

  Isto representa o primeiro front de polêmicas, ou seja, da aceitação de fatos e evidências que superam os limites da visão de mundo do modelo de realidade estritamente mecânico da ciência clássica, o que levou o Dr. Rhine a dizer: “hoje, ao volver o olhar para estas experiências, torna-se difícil compreender como uma mente verdadeiramente científica pôde permanecer indiferente ao problema apresentado por trabalhos tão minunciosos como os que foram efetuados pelos Doutores Estabrookes e Brugmans. A ciência também é cega quando não quer ver” (citado em MUNTAÑOLA, RYZL et al, 1978, p. 223).

  O segundo front de confiltos, porém, é encontrado dentro da própria área dos estudos psi, desde o seu início. É constituído pelos trabalhos coletados e/ou experimentados por inúmeros célebres pesquisadores, que, apesar de aceitar a realidade dos fenômenos psíquicos ou mediúnicos, se dividem, porém, quanto à interpretação das causas dos mesmos, constituindo duas escolas antagônicas e uma que tem elementos de ambas:
  1. A primeira é a escola espiritualista, que se caracteriza pela aceitação, ao menos teoricamente falando, de que os fatos paranormais, em parte ou em seu todo, tem por causa ou substrato um fator espiritual, que domina a matéria e escapa aos limites de tempo e espaço ao qual esta está submetida. Entre seus membros mais destacados, em níveis variados de expressão de suas certezas, temos Camille Flammarion; Gustave Geley, Ernesto Bozzano. Ela admite que várias faculdades psi são inerentes aos seres vivos.
  2. A segunda é a escola mecanicista, que postula que os fenômenos são produtos excepcionais da combinação orgânica do organismo com seu meio, tendo o sistema nervoso e, em especial, o cérebro, papel fundamental nos fenômenos psi. Entre seus membros mais famosos temos René Sudre, Robert Amadou e Susan Blackmore;
  3. A Escola holística, em que seus membros aceitam ambas as explicações como necessárias ao entendimento do universo dos fenômenos psíquicos, porém dando ênfase ao aspecto não físico –fator psi- dos fenômenos paranormais. Esta não as entende, porém, as explicações espiritualistas e mecanicistas como antagônicas, mas como complementares, ambas necessárias, podendo uma ou outra se aplicar melhor a cada caso. Entre seus membros estão muitos ou todos os da primeira escola, em especial Bozzano e Geley, mas também J.B. Rhine, Roca Muntañola, Hernani Andrade, Ramon Simó, Ian Stevenson, Erlendur Haraldsson, Karlis Osis e Charles Richet, este, em especial, em seus últimos anos, como podemos ver em seus livros A Grande Esperança e No Limiar do Mistério.
  Provavelmente, a melhor e mais equilibrada postura seria a da última escola, mas é necessário perceber que a adoção de uma abordagem teórica tem muito a ver com a educação recebida e a filosofia de vida da pessoa que a adota, sendo pois, como diria Max Weber, uma ação com sentido, pessoal e emocional, mais que uma adoção racionalizada a partir de fatos.

  A questão dos posicionamentos radicais

 Tornou-se relativamente conhecida no Brasil a questão do uso do conceito do inconsciente, próprio da Psicanálise a partir dos trabalhos profundos de Sigmund Freud (1856-1939), por determinados estudiosos, em especial ligados à Igreja Católica, para a explicação de fenômenos paranormais, eliminando a possibilidade causal deste serem provocados por consciências não físicas, ou espíritos, que escapariam aos limites teológicos de sua tradição religiosa. 

  Seja como for, esta abordagem tem sido tema de discussões nas salas e corredores das faculdades de Psicologia, já que o conceito de inconsciente adotado por tais estudiosos parece ser tudo, menos o inconsciente psicanalítico de Freud ou Jung, ou bem pouco ligado ao conceito clínico de inconsciente. Na verdade, como bem falam os psicanalistas, o uso do termo “o inconsciente” por algumas pessoas lembram mais o uso de um conceito vago para explicar coisas de que não se sabe nada. Ademais, é problemático se substantivar o "inconsciente", bem como o "consciente". Não existe um objeto espacial, físico, diretamente menipulável chamado "o inconsciente", nem um que seja "o consciente". Sabemos que áreas no cérebro que são ligadas à funções fisiológicas precisas, mas uma área específica da memória e do pensamento parece ser difícil de ser encontrada. O que existem são processos de memória, processos de pensamentos, processos conscientes e processosinconscientes pelo simples fato que o foco da consciência é limitado, o que não impede que material em certo momento desconhecido não seja conhecido em uma mudança de estado de consciência, como o prova a Psicologia Transpessoal.

  Convém aqui lembrar as palavras do grande Psicanalista Carl Gustav Jung sobre o abuso que se vem fazendo com o conceito de inconsciente, em uma entrevista filmada com o psicólogo e professor Richard Evans, em 1957:
Quando dizemos "inconsciente" o que queremos sugerir é uma idéia a respeito de alguma coisa, mas o que conseguimos é apenas exprimir nossa ignorância a respeito de sua natureza.
   Para os que adotam reducionisticamente a abordagem do “onipotente” inconsciente parapsíquico, este seria o responsável pelos fenômenos parapsicológicos autênticos, sendo suficiente para explicar tudo o que não for obra de fraude. Porém, a questão parece quase que se resumir ao fato de que se usa uma palavra, um termo, do qual não se sabe bem a que se refere, para explicar algo que escapa, quase sempre, aos conceitos correntes de realidade a que fomos educados ordinariamente pelo sistema científico atual. Ou seja, usa-se um conceito vago sobre algo cuja pretensa orientação causal escapa ao entendimento atual, procurando-se ajusta-lo a conceitos familiares. 

  Mas a ciência normal mesma dá o exemplo que está menos interessada no porquê dos fenômenos e mais no como estes se dão, os descrevendo e expondo suas associações fenomênicas. Portanto, adotar como explicação dos fenômenos psíquicos como – à exceção das fraudes – causados unicamente pelo inconsciente é tão reducionista quanto dizer que todos eles são causados unicamente por fatores espirituais, ambos os posicionamentos sendo, portanto, radicais.

  Cabe, agora, tentar perceber os limites das duas polaridades antagônicas, o extremo mecanicismo (ou o extremo materialismo) e o extremo espiritualismo. Comecemos pelo primeiro.


  Será mesmo que é sempre o inconsciente individual (mera palavra que nada explica em termos paranormais se não se estabelecer claramente a sua natureza. Se é um epifenômeno fisiológico, como a bílis é produto ou epifenômeno do fígado, deveria estar limitada às leis convencionais de tempo e espaço que condicionam todos os fenômenos biológicos, mas as faculdades paranormais quebram amplamente estes limites. Se é um ente, como o postula Rhine e Thouless, independente da matéria e que a condiciona – o fator psi -, então caímos nas explicações espiritualistas, apenas adaptadas ao modelo científico contemporâneo e em tentativa de escapar ao clima religioso que a palavra espírito geralmente assume, e o inconsciente nada mais seria que as capacidades do espírito humano dos quais seu ego, em estado de vigília, não tem plena ciência) é responsável pelos efeitos conseguidos? Isso é uma hipótese? Uma teoria científica? Se for, pode ser testada e passar pelo crivo da falibilidade. Se não, temos um dogma, um posicionamento filosófico que propõe uma "explicação" irrefutável, exatamente por não poder ser testada e, ainda mais, por ser indemonstrável.

  Vejamos, agora, como os posicionamentos antagônicos dentro dos fenômenos paranormais se expressam nas chamadas fotos transcendentais, onde se inserem as fotografias de fantasmas e as fotografias do pensamento (escotografia).

 Fotos de Fantasmas

  Ora, geralmente médiuns, sensitivos e paranormais provocam fenômenos ou dão informações que estão bem além dos conhecimentos deles e da assistência. Sem problema, quando não dão de ombros diante da "impossibilidade do  fato" e não apelam para as fraudes (infelizmente, existentes), os adeptos reducionistas radicais responsabilizam sempre e unicamente o paranormal, ainda que este aja “inconscientemente” e apontam para a criptestesia (conhecimento adquirido pela percepção extra-sensorial) onde o inconsciente do informante capta a informação existente em algum outro lugar (pela telepatia ou pela clarividência), para o sucesso de seus atos. Se este conhecimento é expresso em algum tipo de ação física, entra em ação a psicocinesia ou telecinesia (capacidade de afetar a matéria pela “mente”).


  A foto acima foi tirada nos Alpes austríacos no final da década de 90. Sem que ninguém esperasse em uma foto tradicional de amigos, aparece um busto de uma pessoa desconhecida de todos, inclusive do fotógrafo, que parece atravessar a mesa. Para os adeptos do inconsciente "paranormal", alguém do grupo teria "inconscientemente" provocado o fenômeno. Mas o problema é que este tipo de argumentação é irrefutável exatamente por não ser provável. Como é que se pode provar que inconscientemente alguém desejava que uma figura aparecesse na fotografia “atravessando” a mesa? E mais, a foto foi batida sem flash, o que levou o fotógrafo logo depois, em segundos, a repetir o processo, e na segunda foto o “busto” já não aparece. Outra, havia um clima de descontração entre as pessoas e ninguém se lembra de ter se esforçado ou desgastado fisicamente (características típica de muitos paranormais que conseguem fotografias do pensamento, como Ted Sérios, geralmente obtendo siluetas ou figuras pouco nítidas) ao bater a foto. Mesmo assim, a desculpa da escotografia é usada e assim pretensamente explica tudo. Veremos, porém, que os poucos casos autênticos conseguidos voluntariamente apresentam características bem distintas dos casos espontâneos de fotografias de fantasmas, ou fotografias espirituais.




  O vigário K. F. Lord da Igreja de Newby, perto de Yorkshire, em 1963 apenas queria registrar a foto do altar da Igreja, acabou depois por ver na chapa revelada um fantasmagórico, realmente assustador, espectro, em uma foto hoje famosa (foto acima), no qual aparece uma figura semelhante a um monge (alguns mais impressionáveis dizem que é a figura da morte), em processo de semi-materialização. Mas ai fica a pergunta: como ter certeza de que o inconsciente do fotógrafo estava realmente preocupado, planejando e materializando a foto do fantasma, e por quê? Como se mede o "pensamento" intencional do inconsciente? Como ele atua? Sai da "cabeça" da pessoa (ou alguma outra parte) para dar às caras às câmeras? Como podem eles ter a certeza de que, neste e em outros casos, isso foi fruto da ação do "inconsciente"? Por que ambos os fotógrafos não mais conseguiram repetir fotos semelhantes tendo um inconsciente tão talentoso?



  O famoso Pe. Quevedo e seus discípulos (como o Pe. Juarez Farias, Márcia Côbero e outros) usam e abusam do fato de que um americano, chamado Ted Serios, demonstrou suas faculdades paranormais de escotografia em vários experimentos e pretendem que todas as fotografias de fantasmas, quando não são fraudes, seriam nada mais nada menos que escotografias inconscientes. Mas o que Quevedo não diz é que para conseguir as Escotografias (e muita gente acha que nem sempre todas as fotos conseguidas por Serios, geralmente silhuetas, eram autênticas, embora um bom conjunto delas dificilmente sejam explicadas por fraude, ainda que possam ser simuladas artificialmente), Serios se punha em um estado de grande tensão consciente para obter as fotos e, conforme GARCIA FONT, "com as veias prestes a rebentar, a suar e a beber whisky" (MONTAÑOLA, RYZL et al, 1978, vol. 1, p. 264), e freqüentemente punha uma ou as duas mãos em contato com a objetiva da câmera ou encostava a cabeça na lente da câmera. Ao lado esquerdo, uma foto de Ted Serios em ação e, à direita, uma de suas escotografias, de um prédio realmente existente. A escotografia, portanto, existe, mas apenas em pessoas especialmete dotadas que se esforçam conscientemente para obter as fotos psíquicas. Coisa que não acontece com as fotos de fantasmas. 

  Na maior parte das fotos de fantasmas acidentais, as pessoas não pensavam em obter as figuras, muito menos entravam em um nervoso estado de tensão conscientemente provocado. Aliás, existem fotos obtidas por circuitos internos sem que pessoa alguma estivesse presente, o que já deixa a teoria da escotografia de fantasmas igualmente em cheque: Quevedo e discípulos dizem que sem um sensitivo, paranormal ou qualquer que seja o nome dado, não existem fotos paranormais sem que a pessoa causante esteja presente até pouco mais de 50 metros de distância. Que dizer então da seguinte foto (trecho de um vídeo de um circuito fechado de tv), em um estacionamento vazio pelo circuito interno eletrônico de tv nos Estados Unidos, em uma área de mais de 150 metros, sem que ninguém estivesse presente, onde um fantasma está planando acima dos carros?
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Animismo ou Espiritismo, qual dos dois explica o conjunto dos fatos? Fácil se me tornou responder, nos termos seguintes:Nem um nem outro logra, separadamente, explicar o conjunto dos fatos supranormais. Ambos são indispensáveis a tal fim e não podem separar-se, pois que são efeitos de uma causa única e esta causa é o espírito humano que, quando se manifesta, em momentos fugazes durante a encarnação, determina os fenômenos anímicos e, quando se manifesta mediunicamente, durante a existência desencarnada, determina os fenômenos espiríticos”


Ernesto Bozzano, Animismo ou Espiritismo?, p. 9


carlos_guimar@hotmail.com

Bibliografia:

  • BOZZANO, E. Animismo ou Espiritismo? 1995, Feb, Rio de Janeiro
  • EDSALL, F. SO Mundo dos Fenômenos Psíquicos. 1999, Editora Pensamento, São Paulo.
  • MacKENZIE, A . Fantasmas e Aparições. 1986. Editora Pensamento, São Paulo.
  • MONTAÑOLA, J. R.; RYZL, MEt alEnciclopédia de Parapsicologia e Ciências Ocultas. 1978, RPA Publicações Ltda. Lisboa
  • TEIXEIRA DE PAULA, JEnciclopédia de Parapsicologia, Metapsíquica e Espiritismo. 1972. Cultural Brasil Editora, São Paulo
(Publicado no Boletim GEAE Número 474 de 27 de abril de 2004)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ecologia Profunda, Ecologia Social e Eco-Ética




Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, escrito em 1996 

"O novo paradigma (uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade e que estabelece uma visão particular da realidade) pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo 'ecológica' for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos)."
Fritjof Capra



     Quanto mais voltamos nossa atenção para as grandes dificuldades sociais de nossa época - quando nos detemos e refletimos sobre a grande crise em que vivemos, em todos os âmbitos de ação do ser humano e em todos os lugares -, mais percebemos as falhas de uma visão de mundo compartilhada por grande parte das pessoas influentes, responsáveis pelo comportamento do homem ocidental ( e que, hoje, atinge também o homem oriental ), como empresários, governantes e cientistas, e mais percebemos que estas falhas estão interligadas e não podem ser entendidas de forma isolada, ou linear, como peças autônomas de um relógio.

     O conjunto de problemas que se abatem sobre as pessoas e a natureza estão profundamente enlaçados com uma determinada forma de se compreender o mundo, uma percepção da realidade que é reducionista, simplista e inadequada e que não leva em conta processos sistêmicos (interrelacionados), psicológicos e orgânicos (ecológicos) presentes nos relacionamentos, no padrão de relação, entre pessoas, entre estas e a sociedade - e entre pessoas, sociedades e natureza -, e muito menos valores humanos e existenciais, formadores de referenciais umbilicalmente ligados à qualidade de vida da população mundial, já que fatores ou caracteres fenomenológicos não fazem parte do pensamento linear-racionalista, e muito menos se adequam em gráficos cartesianos.

     A forma tradicional de se compreender ou de se perceber a realidade - enfim, o paradigma subjacente a nossa visão de mundo - vem condicionando o comportamento humano ocidental - e todas as suas instituições - por mais de três séculos. Ela é constituída basicamente da idéia de que todo o universo é uma grande máquina, sem vida ou qualquer sentido além do de um sistema mecânico similar ao das máquinas feitas pelo homem, e, por isso, dentro do fugaz período de tempo a que se resume uma vida humana, é perfeitamente lícito, dentro desta concepção filosófica, que o indivíduo procure extrair o máximo deste sistema morto, a fim de dar um significado ao que, em última análise, e de acordo com esta visão, não parece igualmente ter significado algum: a existência humana. Daí o conjunto de caracteres típicos de nossa sociedade industrial e capitalista: a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a ênfase na sobrevivência mais que na vivência e na melhoria real da qualidade de vida a partir do enriquecimento interpessoal, a crença num progresso material ilimitado num contínuo crescimento econômico explorador de recursos naturais limitados, o patriarcalismo com suas várias facetas e formas de dominação, etc.

      O esgotamento, a anti-naturalidade e a destrutibilidade desta "visão ou concepção de mundo" - que ainda é ardorosamente adotada por nossos líderes políticos, empresários, cientístas e instituições - vêm sendo constantemente apontadas, de modo claro, por várias pessoas desde o início do século passado, na crítca ao automatismo e alienação humanas decorrentes da revolução industrial, mas a ideologia do capitalismo, detentora dos meios de comunicação de massa, e as instituições econômicas, que sempre usaram de uma gigantesca máquina de propaganda, acabam por abafar, em parte, este despertar de consciências, e a impor uma ideologia propícia a mascarar e a distorcer a percepção dos fatos e a perpetuar um conjunto de ações favoráveis aos seus interesses o objetivos gananciosos, ou seja, ela constrói toda uma "realidade" ficcional e alienante, embotando o senso crítico das pessoas, a fim de perpetuar a estrutura de poder que lhe é mais aprazível. 

      Mas o nível de agressividade deste paradigma e desta ideologia contra o sistema vivo "Terra" vem sendo tão estupidamente trágica, que já não é mais possível fechar os olhos ante à degradação sócio-ambiental que nosso moderno mundo industrial tem promovido, a não ser que o grau de alienação tenha chegado a tal ponto que embotou até mesmo o sentir a dor que as misérias de nossa civilização tecnicista tem causada à natureza e aos homens. De todos os cantos do planeta vemos os efeitos nocivos da forma materialista (filosofia altamente calculada para fazer parte dos hábitos de consumo da população) e pretensamente racional (esquecendo-se da sabedoria organísmica e intuitiva) de ver o mundo, e os efeitos são:
o crescimento desordenado da população mundial, especialmente entre os países mais pobres (entre os quais se inclui o Brasil da era neoliberal da triste era privatista), que é a resultante direta do crescimento das dificuldades sociais que impedem a educação básica que muito auxiliaria no planejamento familiar, aliás problema que aponta para o descaso que nossos políticos têm em pensar em termos sistêmicos e a longo prazo, e fazem da educação, como um todo, na prática, uma temática supérflua diante do ideal, basicamente industrial, de que o crescimento e riqueza de uma nação são medidos pelo crescimento linear da economia, que se concentra nas mãos de poucos, e de que um alto PIB é sinônimo de bem-estar social. Ora, sendo assim basta que a educação básica inculque os valores e os hábitos de um mundo industrial.


A escassez de recursos, a bizarra e surreal distribuição de renda e a degradação do meio ambiente a fim de saciar a ânsia de crescimento econômico dos empresários, e/ou - por meio da exploração irracional dos recursos humanos e naturais - para o pagamento da dívida externa ou para cobrir o rombo de instituições financeiras incompetentes  parasitárias ou corruptas que combinam-se com uma crescente miséria moral e física de nosso povo, numa alienação política de causar dó, e a uma completa falta de senso crítico e valores humanistas que levam ao colapso das comunidades locais e à violência urbana que se tornou uma característica básica de nossos tempos. E toda a máquina da ideologia de consumo e do crescimento de lurcros se põe, de forma drástica, contra tudo e todos que se levantem para questioná-la. Ainda nos está bem forte na memória o descaso ou a manipulação a ideías de homens como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Betinho, Florestan Fernandes, os teólogos da Teologia da Libertação, os camponeses do MST, etc.

      Existem soluções viáveis para os principais problemas sociais, mas o grande nó da questão está em mudarmos a nossa percepção individualista e egoísta e nossos valores burgueses em prol de um desenvolviemento sustentável, o que atinge em cheio a estrutura do poder e do sistema político-econômico de boa parte dos países, e, ainda mais, no Brasil, onde todos sabemos das desigualdades de todo o tipo entre os que tudo tem e os que nada tem, a grande maioria, e onde recai a maior parte do peso e da hipocrisia dos sistemas institucionais estabelecidos a princípio, ironicamente, para o bem do povo.

      E, de fato, começamos a ver, cada vez mais amplamente em todo o mundo, principalmente na Europa, uma gradual mas inveitável mudança de paradigma na ciência e na sociedade, a partir das pessoas comuns, de estudantes, da base, e não mais de autoridades ou orgulhosos experts diplomados em fragmentos do conhecimento humano. Mas esta nova compreensão ainda está longe de ser sequer pensada pela maioria dos líderes políticos, e, ainda menos, pelos empresários. 

      O reconhecimento de que é necessária uma profunda e radical mudança de percepção e de metas para garantir a nossa sobrevivência e a das demais espécies vivas que compartilham conosco, em estreita correlação, a odisseia terrestre não é feito pelos detentores do poder político e econômico que, aliás, a vêem como uma ameaça à estrutura que os sustenta. Eles sabem que os diferentes problemas estão inter-relacionados  mas se recusam a reconhecer e adotar as chamadas soluções sustentáveis, preferindo fechar os olhos para não ver as conseqüências de suas atividades para as gerações futuras. A partir de um ponto de vista sistêmico, as únicas soluções viáveis são as soluções "sustentáveis", em que uma sociedade satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras, como é comum de se vê nas chamadas "sociedades primitivas", como as indígenas, sem a carga intrometida da civilização branca. Nossa civilização se orgulha de seu racionalismo, mas o racionalismo é usado para justificar comportamentos profundamente irracionais e antiecológicos, num mecanismo justificador de racionalização. Ora, já não seria a hora de nos lembrarmos de que a humanidade, através da história, sempre se orgulhou do mais coração que da razão? Não é daí que vem o termo " fulano é humano", e outros semelhantes?

      Existe um movimento de despertar para o fato de que as ações industriais, técnicas e altamente mecanicistas de nossa sociedade materialista está causando um sério abalo na qualidade de vida dos homens e demais seres vivos que constituem a biosfera. E movimentos como os do Green Peace, os dos vários partidos verdes e a ampla aceitação e debates de assuntos ecológicos, como na Rio-Eco 92, parecem ser "sintomas" de uma gradual mas cada vez mais irreversível consciência de que todos nós fazemos parte de uma teia frágil, linda e muito mais profunda do que nos fazem crer nossas estruturas científicas e comerciais... fazemos parte da teia da vida que consitui um enorme organismo vivo e hoje seriamente ameaçado pela ganância e sede de poder de órgãos econômicos, industriais, políticos, científicos e religiosos, todos voltados para o conquistar e o manter o poder, quer seja material, quer seja ideológico. Mas há uma movimentação interna visível contra tudo isso, afinal somos células e nervos de Gaia, a Terra viva, e esta nova percepção Holísitica, sistêmica ou interrelacional entre todas as coisas que nos cercam, é chamada de Ecologia Profunda.

      O filósofo Arne Naess caracterizou da seguinte forma a Ecologia Profunda: "A essência da ecologia profunda consiste em fomular questões mais profundas", e, segundo Fritjof Capra, é essa também a essência de uma mudança de paradigma: "Precisamos estar preparados para questionar cada aspecto isolado do velho paradigma. Eventualmente, não precisaremos nos desfazer de tudo, mas antes de sabermos isso, devemos estar dispostos a questionar tudo. Portanto, a Ecologia Profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte" (Capra, 1997, página 26).


Ecologia Social


      Ao lado da Psicologia Profunda, temos ainda uma escola filosófica que tem por base uma percepção eco-sistêmica da dinâmica social, ou uma percepção de relações entre partes. Ela complementa a ecologia ao mostrar os padrões culturais de organização social que produziram a atual super-crise. É esse o foco da ecologia social, que é o nome genérico que podemos dar às várias disciplinas sociais que estudam a natureza antiecológica de muitas de nossas estruturas instituicionais.

      Segundo Riane Eisler, as várias escolas de Ecologia Social reconhecem a estrutura mecanicista e alienante, portanto profundamente antiecológica, de nossas instituições econômicas e sociais, que se modelam de acordo com um "sistema de dominação", como podemos ver, claramente, no capitalismo que se utilizou do mesmo processo de repressão à liberdade que acusava nos chamados países socialistas, especialmente nas ditaduras da América Latina. Sendo assim, as chamadas escolas marxistas nos permitem analisar diferentes padrões de dominação social impostas à cultura e à sociedade sob a forma de ideologia, muitíssimo vinculada através dos meios de comunicação, notadamente, nos dias de hoje, pela televisão, que é um veículo de comunicação de massa, associada à interesses políticos e comerciais pertecentes à classe econômica dominadora.

      Além da Ecologia Social, podemos apontar também o ecofeminismo como uma escola especial de ecologia social voltada para a dinâmica de dominação social dentro do contexto do patriarcado, que permitiu o desenvolvimento de formas diversas de exploração: das mulheres pelos homens, da dominação hierárquica, capitalista, militarista e industrial, e em desenvolvimentos de teorias mecanicistas e controlistas do homem, como o taylorismo em administração, o behaviorismo em Psicologia, etc. Em particular, os ecofeministas mostram que a exploração extrema da natrueza tem andado de mãos dadas com a das mulheres, que têm sido identificadas com a natureza através dos séculos. Não nos esqueçamos que o pai do empirismo, Francis Bacon, postulava que, tal como se fazia com as "bruxas" de sua época, "os segredos das natureza teriam de ser arrancados sob tortura", pois ela se apresenta "como uma mulher caprichosa"...

Ética


     Tudo o que diz respeito à percepção humana da realidade e, conseqüentemente, os valores humanos que estão enlaçados com esta percepção é de fundamental importância para a Ecologia Profunda. Já não podemos acreditar que nossas teorias e pesquisas científicas são isentas de valores, pois a própria escolha de como e o que devemos estudar e levar em consideração já é uma ação que se alinha com uma determinada forma ou maneira de fazer ciência, subjetivamente aceita como a mais "verdadeira". Portanto, as chamadas abordagens dominantes (por exempo, a Psicanálise, em Psicologia), tendem a impor uma forma de visão de homem que é estreitamente ligada a um apradigma já claramente nocivo à humanidade.

      Segundo Capra, como oposição perceptual necessária a tudo isso, a ecologia profunda centraliza-se em valores holísticos e, mais propriamente, ecocêntricas (centralizados na Terra como um sistema vivo, Gaia). Nesta acepção, todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências, formando uma rede de vida dinâmica e auto-consistente. Aliás, com estas características, a própria rede parece ser um organismo. Neste sentido, o homem não é melhor ou pior que qualquer outra espécie, mas um componente fundamental desta rede, criado por ela, mantido por ela, influenciado por ela e tendo o poder de influenciá-la (tanto positiva quanto negativamente) tanto quanto é influenciado por ela. Aliás, somos meros nódulos da rede da vida, juntamente com todas as outras espécies vivas, tendo a única diferença de sermos complexamente racionais, o que nos faz quase sempre nos identificarmos apenas com esta qualidade, esquecendo-nos de que o organismo, como um todo, possui uma racionalidade ainda mais sábia que a racionalidade intelectual. Assim, quando pisamos em algo pontudo, não ficamos a "analisar" se somos agredidos por um espinho, um prego ou uma agulha, nem nas orígens deste incômodo, como o objeto foi parar ali ou quais as suas conseqüências, mas, "organísmicamente", sabiamente, retiramos imediatamente o pé, graças a uma sabedoria instintiva mais profunda e que é comum a todos os seres vivos, isso sem falar no sentimento humano.... Como disse Pascal, O coração tem razões que a razão desconhece"...

      Quando esta percepção ecológica e holística mais profunda torna-se parte de nossa vivênvia e consciência cotidiana, emerge um sistema de relacionamento transpessoal mais maduro, uma ética radicalmente nova.

      Esta ética de pertinência e de co-responsabilidade vivencial é extremanete necessária nos dias de hoje, uma vez que a maior parte do que fazemos, quer seja tecnicamente ou não, especialmente entre os sacerdotes do saber, os cientistas, não parece promover a vida e nem preservá-la, mas sim de a coisificar, banalizar e destruir cada vez mais a vida sob a égida de um paradigma mecanicista, sob o pretexteo de crescimento econômico travestido de pseudo-valores antropocêntricos (como se o homem fosse um ser à parte da natureza complexa que o sustenta). Os cientistas mecanicistas, que crêem num universo máquina, projetam sistemas de armamentos com a capacidade de destruir inúmeras vezes toda a vida do planeta, desenvolvem novos produtos químicos que contaminam o meio ambiente global sem nenhum respeito ético pela vida, ou desenvolvem mutações em microorganismos vivos que podem ser soltos por ai sem muito pensarem nas conseqüências de seu mister, isso sem falar de psicólogos que torturam animais e acabam por acreditar que o homem pode ser manipulado da mesma forma, além do mecanicismo econômico, que descarta qualquer possibilidade de se incluir valores e/ou qualidade de vida em seus gráficos de oferta e procura.

      Como nos diz o físico Fritjof Capra e outros estudiosos da filosofia da Ciência, alienadamente "Não reconhecemos que os valores Não são periféricos à ciência e nem à tecnologia, mas consituem a sua própria força motriz". Culturalmente, acreditamos que os valores podem ser seprados dos fatos (objetividade), e assim pensamos que os fatos científicos são independentes daquilos que fazemos e, portanto, são isentos de valores. "Na verdade os fatos científicos emergem de toda uma constelação de percepções, valores e ações humanas - em uma palavra, emergem de um paradigma - dos quais não podem ser separados. (...). Portanto os cientístas são responsáveis por suas pesquisas não apenas intelectualmente, mas moralmente. Dentro do contexto da Ecologia Profunda, a visão segundo a qual esses valores são inerentes a toda a natureza viva está alicerçada na experiência profunda, ecológica ou espiritual, de que a natureza e o eu são um só. Essa expansão do eu até a identificação com a natureza é a instrução básica da ecologia profunda(...)" (Capra, 1997, p. 29).

      Esta percepção de que pertencemos, ou mellhor, de que somos parte de um todo sistêmico - e que é encontrada intuitivamente nas crianças, nos índios, em algumas comunidades orientais, nas tradições mais antigas dos povos da europa pré-cristã e em outras comunidades ditas precoceituosamente de primitivas, sentidas por poetas, biólogos e artistas de todos os tempos - acaba por gerar um comportamente ético-vivencial que advém de dentro da própria alma do ser humano, ao contrário de uma ética aceita intelectualmente, como, por exemplo, na teoria da Psicanálise como uma ética, que é cara aos lacanianos, o que não deixa de ser meio absurdo por ser esta teoria (a Psicanálise) reconhecidamente pessimista em relação ao homem (o destino do homem é ser um neurótico ou um normal mais ou menos infeliz dentro de uma sociedade que não lhe permite viver suas pulsões de modo satisfatório). Já a percepção de que somos muito mais do que nos permite crer os limites de nossa pele muda totalmente a situação, como nas fala Arne Naess:

      O cuidado flui naturalmente se o "eu" é ampliado ou aprofundado de modo que a proteção da Natureza livre seja SENTIDA e CONCEBIDA como PROTEÇÃO DE NÓS MESMOS ... Assim como não precisamos de nenhuma moralidade vinda de um nível intelectual para nos fazermos respirar do mesmo modo se o seu "eu", no sentido mais amplo desta palavra, abraça um outro ser, você não precisa de advertências morais ou lineamente intelectuais para demonstrar cuidado e afeição... você o faz por si mesmo, sem sentir nenhuma pressão moral para fazê-lo... Se a realidade é como é experimentada pelo eu ecológico, nosso comportamento, de maneira natural e bela, segue espontaneamente as normas da ética ambientalista".

      E, mais uma vez, como nos esclarece Capra, "o que isso implica não é o fato de que o vínculo entre uma percepção ecológica do mundo e o comportamente correspondente não é uma conexão lógica, mas psicológica. A lógica não nos persuade de que deveríamos viver respeitando certas normas, uma vez que somos uma parte integral da teia da vida. No entanto, se temos esta percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte importante da teia da vida, então estaremos (em oposição a deveríamos estar) inclinados a cuidar de toda a natureza viva." Poderíamos tomar, como modelo paradigmático desta Viência profunda de pertencer à natureza, a vida de um dos maiores poetas e místicos da humanidade, São Francisco de Assis.

      O vínculo experiencial-fenomenológico entre Ecologia Profunda e Psicologia Profunda ( esta no sentido junguiano, rogeriano e/ou transpessoal do termo ), que se faz presente na concepção do eu ecológico, está sendo explorado por vários autores, entre eles o filósofo Warwick Fox, que cunhou o termo "ecologia transpessoal", ou o historiador Theodore Roszak, que se utiliza do termo "ecopsicologia", que expressam a conexão profunda entre a psicologia não-freudiana e a ecologia, que antes eram consideradas áreas completamente separadas.

Sendo assim, como nos diz Capra (ob. cit), a ênfase da mundança de paradigma, hoje, nos aponta para a saída de uma ênfase nas ciências que manipulavam o mundo como uma máquinha morta, como a física clássica, para as ciências da vida, como a biologia, a ecologia e a psicologia.

Bibliografia Sugerida

Capra, Fritjof. A Teia da Vida, Editora Cultrix, São Paulo, 1997.
Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação, Editora Cultrix, São Paulo, 1986.