Do Canal ICL:
Nunca se viu na história dos presidentes norte-americanos tanta arrogância explícita
Do ICL Notícias:
A primeira frase de Donald Trump em seu discurso de posse foi aos 12 minutos do dia 20 de janeiro de 2025: “Nesse exato momento, começou a idade de ouro dos Estados Unidos”. A propor seus planos de colocar a “América em primeiro lugar” (no sentido de apenas a América) e praticamente fazê-la dona do mundo, tudo indica que a pretensa idade de ouro vai terminar na idade de ferro.
Nunca se viu na história dos presidentes norte-americanos tanta arrogância, espírito de exclusão e a clara disposição de usar seu enorme poder, especialmente o militar, para subordinar todos os países e fazer de objeto de apropriação cada região do planeta que estiver no âmbito dos interesses estadunidenses, nomeadamente a Groenlândia, o Canal do Panamá, não excluído o Canadá.
Em seu discurso, não se ouviu nenhum sussurro das grandes maiorias pobres do mundo que apenas gritam para sobreviver ou não serem mortas. Lá no Capitólio, estava presente toda “a elite do atraso” humanístico mundial: os CEOs das big techs Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezzos (Amazon), Sundar Pichai (Google) e Elon Musk (Tesla, SpaceX e X), as grandes fortunas além de outros magnatas do sistema financeiro mundial.
Nenhuma palavra ou promessa foi ouvida, ou sequer referida, no sentido de diminuir a gritante desigualdade social planetária, os números sinistros da fome e das doenças que grassam por toda a humanidade. Foi a proclamação triunfal do poder pelo poder, entendido na sua forma maligna de dominação e imposição. Não haverá barreiras para impedir que, em cada momento, “a América não esteja em primeiro lugar”.
Diz explicitamente que imporá a paz pela força. A cegueira narcisista imbeciliza a Trump ao esquecer que esse tipo de paz não é paz, mas, no máximo, uma pacificação. Gerará nos pacificados humilhação, rancor e vontade de vingança. É o nicho no qual maduram o terrorismo e a onda de atentados, a única força que resta aos dominados para expressar sua rejeição.
A deportação forçada de milhares de imigrantes manu militari, a alta taxação de produtos importados, especialmente da China e chegando a 100% dos países do Brics, a negação das políticas de costumes que protegiam aqueles de outra opção sexual e o casamento entre homoafetivos, foram centrais em seu pronunciamento.
Nada, entretanto, é mais grave do que a saída do Tratado de Paris de 2015, pelo qual todas as nações se comprometeram em reduzir até 2030 as emissões de gases de efeito estufa para que o clima da Terra não ultrapassasse 1,5 graus Célsius em referência à era pré-industrial (1850-1900). Não só elogiou, mas fez uma verdadeira exaltação da extração do petróleo e do gás, tornando os EUA o insuperável produtor dessa energia fóssil, sabendo que, após a China, os EUA é o país que mais polui a atmosfera.
É dado científico assegurado que já agora, em grande parte do planeta, se ultrapassou esse limite, chegando a 1,5 °C e 1,6 °C até 2 °C. Não estamos indo ao encontro do acontecimento do aquecimento global. Estamos já dentro dele, o que é constatado pelos eventos extremos como as grandes enchentes no Sul de nosso país, em Valência e em muitas partes do mundo, as severas secas e incontroláveis queimadas na Flórida, na Amazônia, no Pantanal. Reconhecem muitos cientistas que a ciência chegou atrasada. Ela não consegue mais fazer retroceder esta mudança da Terra, apenas prevenir a chegada dos eventos extremos e mitigar seus danos.
O que Donald Trump fez, pomposamente, é uma declaração de guerra contra a Terra e contra a humanidade. Se realizar seu intento de explorar cada fonte de petróleo e incentivar a volta ao uso da gasolina nos carros em detrimento daqueles elétricos, poderá agravar poderosamente os eventos extremos como tufões e tornados tão frequentes nos EUA e em outras partes do planeta.
Além do mais, com o isolacionismo econômico que quer impor aos EUA, está destruindo as pontes que penosamente estavam relacionando todos os países dentro da única Casa Comum, num processo irreversível de planetização, como a fase nova da própria Terra e da inteira humanidade. Depois de milhares de anos de migração pelos continentes, os povos estão voltando a encontrar-se num único lugar comum: o planeta Terra, feito Lar Comum de todos e de suas culturas. Tudo isso, segundo Trump, deve ser demolido em nome da absoluta e inquestionável supremacia dos EUA sobre tudo e sobre todos.
Não é improvável que cheguemos a um ponto de não retorno e caminharemos ao encontro não da presumida idade de ouro, exclusiva dos Estados Unidos e não da inteira humanidade, mas na direção da Idade de Ferro, com o regresso a formas menos civilizadas de convivência entre todos e de cuidado e respeito à natureza. Será um fracasso fragoroso imposto à arrogância de um supremacista branco e uma frustração aos sonhos de muitos da humanidade que nunca desistiram da grande utopia de Teilhard de Chardin, de construirmos a Noosfera (mentes e corações unidos) ou do Papa Francisco, de todos juntos colaborando para realizar a fraternidade universal, todos sendo irmãos e irmãs da natureza e entre todos os seres humanos.
Sonhos desta natureza nunca morrem. Ridicularizados ou negados, sempre ressurgem com mais vigor. Pois, eles representam o sentido secreto do processo da evolução que chegou até nós e que corresponde aos desígnios do Criador. Não caiamos na ilusão de uma idade de ouro, impossível com os métodos de Donald Trump. Tentemos evitar a idade de ferro ou prepararmo-nos para ela, que fatalmente seguirá à ilusão do arrogante presidente dos Estados Unidos.
”Estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”
Artigo Leonardo Boff, publicado no iclnotícias
O Papa Francisco está sujeito à crítica furiosa de alguns grupos católicos conservadores, incapazes de sair de sua bolha tradicional. A razão reside na forma como cuida da Igreja. Não o faz no estilo tradicional, diria, principesco e faraônico no seu estilo, herdado dos primeiros imperadores cristãos que passaram aos padres, aos bispos e ao Papa todos os privilégios, estilos de vida, modos de se vestir dos imperadores, dos senadores e das elites ricas imperiais. Isso vem desde o século terceiro e, fundamentalmente, perdura até os dias de hoje. Ao ver o desfile dos cardeais quando se encontram todos em Roma parece que estamos no Sambódromo do Rio ou de São Paulo, tal é a pompa e o colorido dos vestuários. Tudo isso não tem nada a ver com o pobre Jesus de Nazaré.
Mas não é disso que quero tratar. Quero me referir a uma inovação surpreendente que o Papa Francisco introduziu. Só poderia vir dele, fora da galáxia católica centro-europeia, mas de alguém que “vem do fim do mudo” como tem se expressado com frequência. Vir do fim do mundo, significa que vem da experiência de uma Igreja que não é mais espelho da europeia, mas fonte própria, que lança suas raízes nos meios populares, que faz uma opção preferencial pelos empobrecidos e injustamente colocados à margem do processo social vigente, controlado pelas classes dominantes e organizado em favor de seus privilégios. Um tipo de Igreja que não tem nada de imperial ou faraônico, mas que assume as dores e o destino trágico dos descartados pelo sistema atual.
Exemplo disso são os muitos encontros que fez com os Movimentos Sociais Populares, vindos do mundo inteiro. Isso nunca se viu na história. A eclesiologia dominante, quer dizer, a doutrina sobre a Igreja concentra ainda hoje todo o poder de decisão nas mãos da hierarquia. O Concílio Vaticano II (1962-1965) introduziu o conceito de Igreja como Povo de Deus que pressupõe a igualdade entre todos. Mas prevaleceu o conceito de Igreja como comunhão. Mas logo esvaziou o conceito ao dizer que é uma comunhão hierárquica, que equivale dizer, que é como uma escada, dentro dela tem gente que está graus acima e gente que está graus abaixo. Se é comunhão vigora uma igualdade entre todos, não se toleram hierarquias, de gente em cima e de gente em baixo. Se estas existirem são apenas funcionais porque ninguém faz tudo e assume todas as tarefas mas as distribui aos vários participantes. São Paulo o formulou muito bem em suas epístolas, usando a metáfora do corpo humano:” o olho não pode dizer à mão, não preciso de ti, nem a cabeça aos pés, não preciso de vós” 1Cor 12,21). Todos os membros são igualmente importantes. Nem pensemos nas mulheres totalmente destituídas de qualquer poder decisório, embora sejam aquelas que fazem a maioria dos serviços eclesiais.
Em setembro realizar-se-á em Roma os dez anos depois do primeiro encontro feito em 2014 dos Movimentos Sociais Mundiais. Lá estará o nosso João Pedro Stédile entre aqueles que falarão para a multidão. Nesse encontro se retomará o mantra inaugurado em 2014: os famosos 3 T’s: Teto-Terra-Trabalho assim detalhados: “Nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho confere”.
No encontro em setembro já se definiu o lema: “Plantar a bandeira contra a desumanização”. Se há um fenômeno atualmente dos mais perversos é um processo acelerado de desumanização. Há algo de mais desumano o fato de que quase metade da riqueza no mundo está na mão de 1% da população (Global Wealth Report 2023) ao lado de cerca, segundo a FAO, 800 milhões de famélicos e um bilhão com insuficiência alimentar? Se os 3 mil bilionários pagassem somente 2% de suas fortunas em imposto geraria US 250 bilhões (RS 1.32 trilhão), como no G20 Brasil e França sugeriram. Isso garantiria a vida de todos os ameaçados pela fome e doenças da fome.
O genocídio perpetrado pelo Estado de Israel na Faixa de Gaza vitimando cerca de 12.300 crianças com o apoio de um Presidente norte-americano católico e pela Comunidade Europeia, esquecida de sua tradição que fundou os direitos dos cidadãos e as várias formas de democracia. Isso é feito ao céu aberto, tornando cumplices seus apoiadores além de negar comida, água e energia a uma inteira população, um manifesto crime contra a humanidade.
Além da guerra Rússia-Ucrânia na qual uma venerável civilização irmã está sendo destruída, a Ucrânia, existem 18 lugares de conflitos severos com alta letalidade de vidas.
Enquanto isso, o papa na Indonésia, na maior nação muçulmana do mundo, num evento inter-religioso proclamava: “que todos nós, juntos, cada um cultivando a sua espiritualidade e praticando a sua religião, possamos caminhar à procura de Deus e contribuir para a construção de sociedades abertas, fundadas no respeito mútuo e no amor recíproco”. Desafiava os cristãos com estas palavras: “não se cansem de zarpar para o mar alto, lancem as redes, não se cansem de sonhar e de construir uma civilização de paz”.
São palavras de esperança quase desesperada face à desumanização reinante, com a consciência daquilo que disse na encíclica Fratelli tutti: ”estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n. 32). Mas todos juntos e conscientizados podemos dar um rumo novo à nossa história comum, apontando para uma biocivilização e para uma Terra da Boa Esperança.
"É humilhante constatar que não haja da parte das mais altas autoridades a coragem patriótica para encaminhar, dentro da legalidade jurídica, a destituição ou o impeachment de um presidente que mostra sinais inequívocos de incapacidade política, ética e psicológica para presidir uma nação das proporções do Brasil"
Dos Sites A Terra é Redonda e da Rede Brasil Atual:
FOto: Pixabay
Quatro sombras escuras pairam sobre um país solar que nunca puderam ser dissipadas pela nossa consciência e inconsciência coletivas: a sombra do genocídio dos povos originários. Os donos primeiros destas terras. De seis milhões que eram, sobra apenas um milhão. A maioria por não suportar o trabalho escravo ou pelas doenças dos invasores contra as quais não possuíam nem hoje possuem imunidade. A sombra da colonização que depredou nossas terras e florestas e nos tornou sempre dependentes de alguém de fora, impedidos de forjar nosso próprio destino.
A sombra da escravidão, nossa maior vergonha nacional, por termos transformado pessoas trazidas de África em escravos e carvão a ser consumido nos engenhos de cana de açúcar. Jamais vistas como pessoas e filhos e filhas de Deus mas como “peças” a serem compradas e vendidas, construíram quase tudo o que existe neste país. E hoje, tidos por preguiçosos e presos, compõem mais da metade de nossa população, jogados nas periferias; suportam o ódio e o desprezo antes imposto aos seus irmãos e irmãs das senzala e agora transferidos a eles com uma violência tal como mostrou o sociólogo Jessé Souza (A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato, 2007 p.67) até perderem o sentido de sua dignidade.
A sombra das elites do atraso que sempre ocuparam o frágil Estado, usando-o para seu benefício. Nunca forjaram um projeto de nação que incluísse a todos, apenas, com as artes perversas da conciliação entre os endinheirados, apenas um projeto só para eles. Não bastava desprezar os marginalizados, mas rachar-lhes as cabeças, caso se levantassem, como ocorreu várias vezes na sua heroica história da resistência e da rebeldia.
Quando um sobrevivente dessa tribulação, por caminhos de pedras e de abismos, chegou a ser presidente e fez alguma coisa para ajudar a seus irmãos e irmãs, logo criaram as condições perversas para destruir sua liderança, excluindo-o da vida pública e, por fim, a ele e a sua sucessora apeá-los do poder. Essa sombra ganhou contornos de “procelosa tempestade e noturna sombra” (Camões) sob o atual governo que não ama a vida, mas exalta a tortura, louva os ditadores, prega o ódio e larga o povo à sua própria sorte, atacado letalmente por um vírus, contra o qual não tem nenhum projeto de salvamento e, desumano, se mostra incapaz de qualquer gesto de solidariedade.
Estas sombras, por serem expressão de desumanização, se aninharam na alma dos brasileiros e brasileiras e raramente puderam conhecer a luz. Agora criaram-se as condições ideológicas e políticas para serem lançadas ao ar como lavas de um vulcão, feitas de boçalidade, de violência social generalizada, de discriminações, de raiva e de ódio de grandes porções da população. Seria injusto culpar a elas. As elites do atraso se internalizaram em suas mentes e corações para fazer que se sintam culpadas de sua sorte e acabem por fazerem seu o projeto deles que, na verdade, é contra eles. O pior que pode acontecer é o oprimido internalizar o opressor com o projeto enganoso de bem estar, sempre lhes sendo negado.
Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido As Raízes do Brasil (1936) difundiu uma expressão mal interpretada em benefício dos poderosos, de que o brasileiro é “o homem cordial” pela lhanesa de seu trato. Mas teve um olho observador e crítico para logo acrescentar que “seria engano supor que essa virtude da cordialidade, possa significar “boas maneiras” e civilidade (p.106-107) e arremata: “A inimizade bem pode ser cordial como a amizade, pois, que uma e outra nascem do coração” (p.107 nota 157).
Pois, no atual momento o “cordial da incivilidade” brasileiro irrompe do coração, mostrando a sua forma perversa de ofensa, calúnia, palavras de baixo calão, fake news, mentiras diretas, ataques violentos a negros, pobres, quilombolas, indígenas, mulheres, LGBTs, políticos de oposição, feitos inimigos e não adversários. Irrompeu, violenta, uma política oficial, ultraconservadora, intolerante, com conotações fascistoides. As mídias sociais servem de arma para todo tipo de ataque, de desinformação, de mentiras que mostram espíritos vingativos, mesquinhos e até perversos. Tudo isso pertence ao outro lado da “cordialidade” brasileira hoje exposta à luz do sol e à execração mundial.
O exemplo vem do próprio governo e de seus fanáticos seguidores. De um presidente se esperaria virtudes cívicas e o testemunho pessoal de valores humanos que gostaria vê-los realizados em seus cidadãos. Ao contrário, seu discurso é eivado de ódio, desprezo, de mentiras e de boçalidade na comunicação. É tão inculto e tacanho que ataca o que é mais caro à uma civilização: sua cultura, seu saber, sua ciência, sua educação, as habilidades de seu povo e o cuidado da saúde e da riqueza ecológica nacional.
Nunca tanta barbárie, nos últimos 50 anos, tomou conta de algum país, como no Brasil, aproximando-o ao nazifascismo alemão e italiano. Estamos expostos à irrisão mundial, feitos país pária, negacionista do que é consenso entre os povos. A degradação chegou ao ponto de o chefe de Estado fazer o humilhante rito de vassalagem e de submissão ao presidente mais bizarro e “estúpido” (P. Krugman) de toda a história norte-americana.
A nossa democracia sempre foi de baixa intensidade. Atualmente se transformou numa farsa. Pois a constituição não é respeitada, as leis são atropeladas e as instituições funcionam somente quando os interesses corporativos são ameaçados. Então a própria justiça se torna conivente face a clamorosas injustiças sociais e ecológicas. Como a expulsão de 450 famílias que ocupavam uma fazenda abandonada, transformando-a em grande produtora de alimentos orgânicos; arranca crianças agarradas a seus cadernos e lhes arrasa a escola; tolera o desmatamento e as queimadas do Pantanal e da floresta amazônica e o risco de genocídio de inteiras nações indígenas, indefesas face ao covid-19.
É humilhante constatar que não haja da parte das mais altas autoridades a coragem patriótica para encaminhar, dentro da legalidade jurídica, a destituição ou o impeachment de um presidente que mostra sinais inequívocos de incapacidade política, ética e psicológica para presidir uma nação das proporções do Brasil. Podem fazer-se ameaças diretas à mais alta Corte, de fechá-la. Fazer proclamas à volta ao regime de exceção com a repressão estatal que implica e nada acontece por razões arcanas.
As oposições, duramente difamadas e vigiadas, não conseguem criar uma frente compartilhada para opor-se à insensatez do poder atual.
A brutalização nas relações sociais e especialmente entre o povo simples não deve ser imputada a ele, mas às classes oligárquicas do atraso. Elas lograram internalizar neles seus preconceitos e visão obscurantista de mundo. Estas classes nunca permitiram que vingasse aqui um capitalismo civilizado, mas o mantêm como um dos mais selvagens do mundo. Com os apoios dos poderes estatais, jurídicos, midiáticos e policiais para abaterem qualquer oposição organizada. A “racionalidade econômica” se revela desavergonhadamente irracional pelos efeitos maléficos sobre os mais desvalidos e para as políticas sociais destinadas aos socialmente mais sofridos.
Este é um texto indignado. Há momentos em que o intelectual se obriga, por razões de ética e de dignidade de seu ofício, a deixar o lugar do saber acadêmico e vir à praça e externar sua iracúndia sagrada. Para tudo há limites suportáveis. Aqui ultrapassamos a tudo o que é dignamente suportável, sensato, humano e minimamente racional. É a barbárie instituída como política de Estado, envenenando as mentes e os corações de muitos com ódios e rejeições. Levando à frustração e à depressão milhões de compatriotas, num contexto dos mais atrozes. E que tira de nosso meio pelo vírus invisível mais de 100 mil entes queridos. Calar-se equivaleria render-se à razão cínica que, insensível, assiste o desastre nacional. Pode-se perder tudo, menos a dignidade da recusa, da acusação e da rebeldia cordial e intelectual.
"Estas eleições me deixaram abatido pelo quanto de machistas ainda somos", afirmou o teólogo Leonardo Boff. "É uma sociedade conservadora, vítima de uma analfabetismo imposto para as oligarquias prolongarem a dinâmica da Casa Grande", disse

247 - O teólogo Leonardo Boff criticou o conservadorismo no País ao comentar as eleições municipais. O estudioso destacou ofensas contra candidaturas femininas.
"Estas eleições me deixaram abatido pelo quanto de machistas ainda somos, pois às mulheres se negaram votos. É uma sociedade conservadora, vítima de um analfabetismo imposto para as oligarquias prolongarem a dinâmica da Casa Grande internalizada em suas cabeças. Desanimar? NUNCA!", escreveu o estudioso no Twitter.
O Brasil teve apenas uma mulher eleita para comandar uma prefeitura. Trata-se de Cinthia Ribeiro (PSDB), prefeita de Palmas e reeleita ainda no primeiro turno.
"Estas eleições me deixaram abatido pelo quanto de machistas ainda somos,pois às mulheres se negaram votos.É uma sociedade conservadora,vítima de uma analfabetismo imposto para as oligarquias prolongarem a dinâmica da Casa Grande internalizada em suas cabeças.Desanimar? NUNCA!"
— Leonardo Boff (@LeonardoBoff) November 30, 2020
A sustentabilidade exige certa equidade social, isto é, o nivelamento médio entre países ricos e pobres.
Países mais pobres têm direito de expandir mais sua pegada ecológica.
* Leonardo Boff é teólogo, escritor e co-autor da Carta da Terra. Coluna publicada originalmente em 7 de outubro de 2014, na Carta Maior.
Rodrigo Maia abusa ilegalmente do poder monocrático do cargo e mantém engavetados mais de 60 pedidos de impeachment do Bolsonaro, lembra-nos o colunista Jeferson Miola
Do 247:

O teólogo Leonardo Boff é uma das grandes riquezas espirituais, políticas e humanas do nosso país em todos os tempos.
Em toda vida de mais 80 anos, Boff preserva uma trajetória coerente e incorruptível; permaneceu sempre do mesmo lado da história: o lado da justiça e da igualdade social, da democracia e da liberdade, do antirracismo, do amor, da defesa da vida e da natureza, da soberania nacional, da decência e da dignidade na política.
Quando o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia/DEM acusou via twitter [24/10] o criminoso e anti-ministro bolsonarista do meio ambiente Ricardo Salles do crime de “destruir o meio ambiente do Brasil”, Boff cobrou de Maia o que a lógica e a lei determinam: o impeachment do presidente que dá as ordens ao destruidor do meio ambiente.
Por meio do twitter, Boff alertou Maia: “Sr. Presidente, o que o Sr. diz é muito grave. Diz-se que o ministro Salles só faz o que presidente manda. Por isso, em sua pulsão de morte, destrói o que pode: desmatamentos, direitos sociais e entrega o povo ao vírus. O Sr. tem uma arma: o impeachment. Por amor à vida do BR”, apelou o teólogo.
Na ilusão de que Maia possa ter alguma lealdade à Constituição e ao Estado de Direito, Boff ainda suplicou: “Vc não pode entrar na história como um homem fraco, que quando podia ter defendido a vida do povo, não o fez por razões que desconheço. Vivemos uma emergência nacional. Em suas mãos está uma decisão que salvará vidas no BR. É difícil. Mas nada tem mais valor que a vida”, escreveu ele ao presidente da Câmara [grafia do twitter no original].
Dois dias antes [22/10], e também por twitter, Lula defendeu o impeachment do Bolsonaro devido à decisão genocida de suspender a compra de vacinas para imunizar a população brasileira.
“Se a sociedade, os partidos e os parlamentares, precisavam de um motivo para discutir o impeachment, Bolsonaro acaba de cometer um crime contra a nação ao dizer que não vai comprar a vacina e desrespeitar um instituto da seriedade do Butantan e toda a comunidade científica”, disse Lula.
O que menos falta, e desde muito tempo, são motivos – todos, aliás, muito bem fundamentados – para Bolsonaro ser defenestrado do Planalto pelo cometimento tanto de crimes de responsabilidade como de crimes comuns.
Mas, para que o julgamento seja autorizado, Rodrigo Maia precisa submeter ao Plenário a deliberação sobre os pedidos de abertura de processo de impeachment na Câmara e para o julgamento do miliciano por crime comum no STF.
Ocorre, contudo, que Rodrigo Maia abusa ilegalmente do poder monocrático do cargo e mantém engavetados mais de 60 pedidos de impeachment do Bolsonaro.
E não há sinais de que ele pretenda agir de modo diferente, porque Maia é o condutor, no Congresso, das políticas ultraliberais de Guedes e Bolsonaro que têm oportunizado o mais devastador processo de pilhagem e saqueio do país. Maia e o Congresso de maioria bolsonarista são, em síntese, sócios e cúmplices da extrema-direita fascista.
A oligarquia dominante, seus representantes e suas instituições judiciais e legislativas não têm nenhum compromisso ético com a interrupção da barbárie que avança exterminando empregos, vidas humanas e o futuro do país.
O apelo de Leonardo Boff a Rodrigo Maia pelo impeachment do Bolsonaro, em vista disso, do mesmo modo que a cobrança do Lula pelo impedimento do monstro criminoso, é como fazer pregação no deserto.
A derrota do Bolsonaro, dos militares e da oligarquia vassala dos EUA somente acontecerá quando a maioria unida do povo brasileiro modificar a correlação de forças políticas na sociedade – tal como mostrou o povo argentino elegendo Alberto Fernández e Cristina Kirchner em 2019; como ensinou o povo boliviano domingo passado [18/10] na vitória arrasadora de Luis Arce, do MAS; e como mostrará o povo chileno neste domingo [25/10], que deverá aprovar o plebiscito que vai enterrar a Constituição fascista de Pinochet, o sanguinário inspirador de Guedes e Bolsonaro.
A ampliação do peso político e a recomposição da capacidade política e social da esquerda, dos democratas e progressistas na eleição municipal deste ano é um passo importante nesta direção.
Do UOL:
Leonardo Boff vê o homem espalhando morte pelo planeta, mas é otimista na transição para um futuro melhor
RODRIGO BERTOLOTTODE ECOA, EM SÃO PAULO
Leonardo Boff já foi frade, padre, teólogo, filósofo, ecólogo. Hoje, com 81 anos de idade e mais de 100 livros publicados, ele se define como pensador. Expulso da hierarquia católica por sua defesa da teologia da libertação, ele continuou sua profissão de fé, aproximando-se cada vez mais dos pobres e das minorias, além de abraçar o ecumenismo e o ambientalismo.
Sua análise da atualidade, que ele chama de necroceno (uma idade geológica em que homem está espalhando a morte pelo planeta), aponta para um período de transição. "Houve a globalização da economia, mas não se globalizou a solidariedade e a cooperação. Isto ficou patente com a pandemia. Cada país se defende por si e como pode", sentenciou o teólogo que vive em Petrópolis (RJ).
Para ele, enquanto a humanidade não completar esse ciclo, vão surgir líderes nacionalistas reacionários que vão vender uma segurança enganosa de volta ao passado. Na turbulência dessas crises, "parece que tudo vacila, as coisas já não valem como valiam, não há limites e respeito, inclusive aos direitos humanos".
Boff também critica as igrejas neopentecostais, suas teologias da prosperidade e seu fundamentalismo religioso. "Enchem grandes salões, mas não criam comunidades nem consciência crítica face à própria realidade em que vivem de pobreza e marginalidade", critica.
De qualquer forma, Boff acredita em um final feliz depois de tanta tensão. "Sou otimista. A lógica do universo se constrói sempre entre o caos e a ordem. E a ordem prevalece. Deus criou todas as coisas com amor. Não creio que Ele nos deixará perecer de forma tão miserável. A vida chama a vida. E viver é realizar a alegre celebração da vida."
A natureza da fé e de sua expressão social como igrejas e caminhos espirituais se funda sobre valores altamente éticos de amor incondicional. No caso do cristianismo, de solidariedade entre as pessoas, de atenção especial aos pobres e desvalidos, e de cuidado da criação e veneração ao mistério de Deus. Como tudo o que é sadio pode ficar doente, também as religiões podem incorporar doenças como o fundamentalismo, a discriminação e a rejeição de certas condições sexuais.
Elas podem entrar na lógica do mercado, conquistando mais gente e cobrando-lhes o dízimo, como é o caso das igrejas que pregam o evangelho da prosperidade. Mas estas são distorções da verdadeira natureza da religião e da fé. Assim como toda doença remete à saúde, elas não destroem, apenas deturpam a verdadeira natureza da fé e da religião. Estas existem como expressão da dimensão profunda no ser humano, onde se colocam as questões essenciais como: vale mais a vida ou o lucro? Vale mais a solidariedade, que se abre aos outros, ou a competição, que se fecha no individualismo? Quem nos deu o direito, no afã de buscar o bem-estar e a riqueza, de desmatar vastas regiões, de poluir as águas e o ar e de contaminar quimicamente nossos alimentos?
Onde há religião há também esperança de que tudo pode ser melhor e de que podemos enfrentar solidariamente graves crises como a do Covid-19. A fé confere à vida um sentido último e bom. Hoje, o que nos está salvando é a solidariedade, o senso de interdependência entre todos e o cuidado de uns para com os outros e com a natureza. Vivendo tais valores, as religiões ajudam a enfrentar a pandemia.
Há o testemunho de grandes cientistas como Albert Einstein, Stephen Hawking, Francis Collins e tantos outros que afirmam que o contato profundo com a natureza os levaram a um sentimento de reverência e de respeito face ao mistério da existência, da vida, da complexidade e da riqueza da natureza. Esta não é apenas uma realidade muda. Ela fala da beleza, da grandeza, da sutil relação de todos os seres entre si e nos faz perceber que por detrás há uma energia poderosa e amorosa que sustenta todas as coisas.
Os modernos cosmólogos e astrofísicos a chamam de "fonte originária", de onde vem todos os seres, ou o "abismo gerador" de todas as coisas. Francisco de Assis no mundo medieval e Pierre Teilhard de Chardin no mundo moderno viam em todas as coisas a presença viva e transformadora dessa energia criativa, chamando-a de Deus. Viam todos os seres como sacramentos, como sinais de sua presença. Hoje é no campo da ecologia que se realizam as mais genuínas experiências espirituais. Todos se sentem ligados a um todo que tudo envolve, sustenta e transcende.
Apesar da cultura do capital, que reforça em todos o consumo, muitos são os jovens que são abertos a valor intangíveis como ao amor sincero, a contemplação da natureza e até a busca de um sentido mais profundo do que aquele que é superficialmente oferecido pela cultura da tecnociência com seus infindáveis aparatos. Isso mostra que o ser humano tem duas fomes essenciais: a de pão e de bens materiais, que é saciável, mas também a outra fome de bens espirituais por beleza, pelo encontro profundo com o outro e consigo mesmo e por uma realidade maior que dá sentido à nossa vida e à história.
"Essa fome é insaciável, porque nunca matamos a fome de amor, de cooperação, de compaixão, valores que não conhecem limites. Podem sempre crescer mais e mais. Aqui reside o segredo de uma felicidade e de uma paz duradoura."
Leonardo Boff
Não gosto muito desta terminologia, afinal, a felicidade pode ser algo muito fugaz como aquele que se sente feliz depois de uma dose de cocaína. Creio que a pergunta seria esta: você se sente realizado com sua vida, com quem convive e com o que faz? O que empenha na sua autorrealização? Esse caminho é mais longo, lentamente vai se construindo. E, se tiver realizado uma identidade bem-sucedida, tem como resultado uma felicidade serena e segura. Numa figura do poeta gaúcho Mário Quintana: "se quiseres pegar borboletas, não corras atrás delas, mas plante um jardim". No jardim plantado com carinho está a felicidade e não nas borboletas.
Não entendo a velhice como uma fatalidade, mas como parte da condição humana, um momento da vida em que podemos fazer uma síntese de nossa história, reconhecer os desvios e acertos e madurarmos como pessoas que aceitam esta idade com seus limites de corpo e de mente, sem amargura e com jovialidade. A velhice nos coloca as derradeiras questões: que posso esperar para além desta cansada existência? Como será o outro lado? Pessoas de fé se preparam para o grande encontro com a suprema realidade, feita de amor e de misericórdia.
A vida não foi feita para terminar na morte, mas para se transfigurar e ressuscitar no momento mesmo da morte. Isso quer dizer: o mundo para ela chegou ao seu fim. Logo segue a ressurreição como a plena realização das virtualidades quase infinitas em nosso ser. Diria como o poeta cubano José Martí: "morrer é fechar os olhos para ver melhor" a nossa própria realidade, o nosso lugar no conjunto dos seres do universo e a realidade suprema que nos colocou no mundo e nos chama de volta para o seu seio.
Para ser sincero, nunca alimentei um projeto pessoal. Fiz o que me pediam. Tentei fazê-lo da forma melhor que podia. A vida e não a vontade me levaram às várias etapas que vivi: o ser frade franciscano, padre, professor de teologia, depois leigo, filósofo, teólogo peregrino (sem cátedra), ecólogo, escritor e velho. Ao chegar diante de Deus, não direi nada: apenas mostrarei as mãos afetadas pelo ofício de escrever e abrirei o coração cheio de nomes que me acompanharam para ser o que sou. O que sou? Não sei. Deus o revelará.
A teologia da libertação nunca deixou de existir, apenas possui menos visibilidade. Seu eixo estruturador é a opção pelos pobres, contra a pobreza, pela justiça social e pela libertação. Como os pobres não param de crescer entre nós e no mundo, esta teologia se torna ainda mais atual na medida em que se faz em contato e junto com todos estes oprimidos. Ela é mundialmente tão forte que sempre dois dias antes de cada Fórum Social Mundial fazemos o encontro internacional de teologia da libertação em suas várias expressões e sempre estão presentes por volta de três mil pessoas vindas da Coreia do Sul, das Filipinas, da África, de todos os países da América Latina e de grupos que cultivam esta teologia dentro do mundo abastado dos Estados Unidos e da Europa.
Aí notamos a sua vitalidade, especialmente da nova geração, em geral de leigos e leigas engajados no mundo da pobreza ou em movimentos populares. Hoje no Brasil, é viva nos movimentos sociais como dos sem-terra, dos sem-teto, dos negros, das mulheres, dos indígenas e de grupos de direitos humanos e na vasta articulação que vem sob o nome de "Fé e Política". Aí está a verdadeira teologia da libertação, feita por seus próprios protagonistas, numa construção coletiva da reflexão sobre uma fé libertadora.
Para todos, é claro que o contrário da pobreza não é a riqueza, mas a justiça social, o bem de maior carência entre nós. A graça que nos foi concedida foi um papa, Francisco, que vem do caldo desta cultura de libertação de vertente argentina, mas sempre de libertação dando centralidade ao mundo dos pobres.
Vejo com os dois papas, Bento 16 e Francisco, dois modelos de igreja, difíceis de se conciliar. Tanto o papa João Paulo 2º quanto Bento 16 entendiam a Igreja como um castelo cercado de inimigos internos e externos contra os quais havia que se defender e até condenar. Era uma Igreja que autofinalizava e tentou introduzir a grande disciplina, clássica da Igreja tradicional. O papa Francisco, vindo do fim do mundo, com outra experiência pessoal, vê a Igreja como um hospital de campanha que acolhe a quem estiver ferido e necessitado sem nenhuma pré-condição. Com ele mesmo diz: "é uma Igreja em saída" ao encontro dos problemas existenciais e mundiais. Respeita as doutrinas, mas diz que o importante é entender que Jesus veio para nos ensinar a viver, a viver os bens do Reino que são o amor incondicional, a generosidade, a solidariedade e a preocupação incansável com os condenados e ofendidos da Terra.
Francisco foi o primeiro papa que se conscientizou da emergência ecológica da Terra e escreveu uma respeitável encíclica de ecologia integral (não só verde) "sobre como cuidar da Casa Comum", em 2015, cujo destinatário é a humanidade inteira e não apenas os cristãos. Ele insiste em algo fundamental que rompe com a rigidez da Igreja anterior, a "relação de ternura" para com todas as pessoas, dando preferência aos mais vulneráveis e invisíveis.
A Igreja Católica no Brasil possui uma grave deficiência institucional: deveria ter pelo menos 100 mil padres para atender as demandas religiosas dos fiéis tradicionalmente católicos. Sequer possui 20 mil padres e muitos deles estrangeiros. A criação de milhares de comunidades eclesiais de base foi um modo encontrado para suprir esse vazio. Mas o vazio continuou.
Como o povo brasileiro é no seu geral muito religioso e não tendo uma visão doutrinária da fé, adere com facilidade a quem lhe vem falar de Deus. Assim as igrejas neopentecostias ocuparam esse vazio. Atendem em sua maioria as populações destituídas socialmente, cheias de carências materiais e também espirituais. Pregam-lhe o evangelho da prosperidade, que pouco ou nada tem a ver com a tradição de Jesus. Em nenhum sermão destes pastores, muitos deles lobos em pele de ovelha por explorarem a ingenuidade dos fiéis, se ouve "bem-aventurado os pobres porque de vocês é o Reino de Deus" ou "Ai de vocês ricos, pois tende já a sua consolação", afinal, tais mensagens são contraditórias para o que prometem em riqueza material a seus ouvintes.
Enchem grandes salões, mas não criam comunidades nem consciência crítica face à própria realidade em que vivem de pobreza e marginalidade. É um desafio para as igrejas cristãs históricas como mostrar a estes fiéis que os valores pregados por Jesus, de amor, de solidariedade para com os pobres é melhor e os torna mais felizes. Como diz o papa Francisco, "Deus não conhece uma condenação eterna", e esta é só temporal, pois a misericórdia de Deus é que não tem limites, e Ele não pode condenar nenhum de seus filhos e filhas que criou e amou. Só esta afirmação invalida tantas ameaças de inferno e de condenação eterna com as quais estas igrejas manipulam os fiéis e, por medo, os conquistam.
Esta é até uma questão jurídico-constitucional, pois o Estado é laico, quer dizer, ele não assume nenhuma religião ou igreja como sua, mas respeita a todas dentro dos quadros da lei. Estas igrejas neopentecostais praticam um abuso da religião, fazendo-a um instrumento político conservador e até reacionário, não raro se torna um foco de fake news e perseguição das religiões de vertente africana.
É um desafio, pois se constitui a base de um governo de extrema direita como o atual, que usa estas igrejas para garantir-se no poder, sem qualquer preocupação com aquilo que diz a Constituição e mesmo o que diz a Bíblia.
"O Estado deveria fazer valer a Constituição. Mas ninguém se atreve a levantar esta questão com medo de sofrer uma campanha de perseguição e até difamação, que comprometeria seu eleitorado, e até de diretamente perder a eleição."
Leonardo Boff
Vejo como um retrocesso civilizatório e por outro lado um distanciamento pela inflação do próprio projeto técnico-científico. O ser humano moderno cultivou uma espécie de "complexo de Deus" que, pelos meios da ciência e da técnica, tudo poderia. O vírus Covid-19 destruiu esta pretensão, mostrou nossa radical vulnerabilidade, expostos à imprevisibilidade e pôs de joelhos as potências militaristas com suas milhares de ogivas nucleares, armas químicas e biológicas. São absolutamente ineficazes face a esse vírus.
Isso criou uma espécie de desconfiança face à ciência e à técnica. Ela é falsa, pois não daremos conta da complexidade de nossas sociedades modernas sem ciência e tecnologia. Se não houver confiança nesse saber, como poderemos enfrentar a pandemia? Entregaremos a humanidade a um destino trágico? Seria uma suprema irresponsabilidade. O que precisamos é uma relação mais benigna para com a natureza. O avanço do industrialismo moderno destruiu os habitats dos vírus, e estes passaram a nós, face aos quais não temos imunidade. Poucos falam da natureza, tudo se concentra na ciência, nos insumos e na busca desenfreada de uma vacina. Mas o vírus vem da natureza devastada. Se não cuidarmos dela, ela pode nos enviar outros vírus letais e até, como aventam alguns biólogos, o "Próximo Grande" (The Next Big One) contra o qual não haveria nenhuma vacina e poria fim à espécie humana.
Vivemos uma transição de um tipo de mundo, construído sobre as soberanias nacionais, para um outro, já em curso, que é a nova fase da Terra e da humanidade: a planetização ou globalização. Demo-nos conta, especialmente com o testemunho dos astronautas que viram a Terra de fora, que formamos uma única entidade. Estamos todos juntos à natureza, à cultura e aos povos numa única casa comum.
Houve a globalização da economia e das finanças. Mas não houve um pacto social mundial, nem se globalizou a solidariedade e a cooperação. Isto ficou patente com a pandemia. Cada país se defendia por si e como podia. Deram-se conta de que isso era insuficiente e que deveriam ajudar-se mutuamente, como a União Europeia tardiamente percebeu.
Sempre que há transição de um paradigma cultural a outro se instaura uma crise. Parece que tudo vacila. Que as coisas já não valem como valiam. Por isso, não há limites. E não havendo limites, não há respeito, inclusive aos direitos humanos. Isso se nota nas ameaças de morte ao padre Júlio Lancellotti, que defende os direitos da população de rua, dando-lhes o mínimo necessário para viver e ter o sentido de dignidade. Como isso é escandaloso para uma sociedade, refém da cultura do capital, consumista e inimiga dos pobres, o perseguem, como se perseguissem esses pobres e desprezados. Mas ele dá o testemunho que não há nada mais valoroso que a vida, mesmo dos mais humildes, que nos cabe cuidar. É uma linguagem estranha a uma visão de mundo de eficiência e de ganho. Mesmo a democracia se transforma em farsa, num estado de exceção e sem lei.
O ser humano dificilmente vive sem uma certa ordem, como antropólogos e sociólogos o demonstraram. Quando esta começa a se erodir, as pessoas se agarram ao que consideram mais seguro, a valores do passado, a líderes carismáticos, que podem apontar para o novo, ou aos autoritários, que podem reforçar a volta ao antigo. É o que está ocorrendo quase em todo o mundo. É semelhante à crise da passagem do mundo feudal ao mundo moderno, onde tudo teve que ser redefinido. Somente que agora a realidade é muito mais grave: construímos o princípio de autodestruição, inauguramos o antropoceno e o necroceno (extinção em massa de vidas na natureza e na humanidade).
Não podemos errar, pois podemos nos autodestruir. Essa passagem causa angústias e é mais ou menos como um avião voando sem piloto. Daí surgem os fundamentalismos, prometendo seguranças enganosas, movimentos regressivos e violentos. Vivemos mais que uma crise mundial: é um chamado a inaugurarmos um novo começo com um outro paradigma de civilização. Se os fatores forem cuidados, podemos criar as bases de uma civilização biocentrada. A vida, e não o crescimento ilimitado, ganhará a centralidade. A política e a economia estarão a serviço dos seres vivos, e não ao mercado.
Em todo caso, está ficando claro que não haverá economia sem uma ecologia. Sem esta articulação, nas palavras de Zygmunt Baumann, "engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura". Sou otimista: a lógica do universo se constrói sempre entre o caos e ordem, prevalecendo esta de forma superior, e a fé cristã que afirma que Deus, segundo o Livro da Sabedoria, na Bíblia, "criou todas as coisas com amor e é o apaixonado amante da vida". Não creio que nos deixará perecer de forma tão miserável. A vida chama à vida. E viver é realizar a alegre celebração da vida.