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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

O professor e escritor Fernando Castilho escreve sobre a banalidade do mal na fundamentalista Damares e nos terroristas bolsonaristas

 "Gostaria, a partir daqui, de tentar traçar um paralelo, que pode parecer a alguns um tanto  forçado entre Eichmann e Damares Alves, já que a comparação entre Adolph Hitler e Jair Bolsonaro parece, nestes últimos tempos em que foi revelado um verdadeiro plano de  extermínio da etnia yanomami, parece por demais, óbvia."



Segue o texto de Fernando Castilho, na íntega:


Quando Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pelo envio de cerca de 6 milhões de judeus  para o extermínio em campos de concentração no que se chamou de “solução final”, foi  julgado em Jerusalém em 1961, o mundo se surpreendeu com sua frieza ao afirmar que não sentia que tivesse feito algo errado porque era apenas um soldado burocrata encarregado de cumprir ordens.

 A filósofa alemã e judia, Hanna Arendt, chegou a entrevistar Eichmann na prisão e dessa entrevista extraiu elementos para seu livro, Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal.

 Na obra, Arendt defende que Eichmann se tornara um homem desprovido da moral, da ética e do senso crítico, cuja objetivo de vida era tão somente executar as ordens de Hitler sem refletir sobre elas ou fazer qualquer julgamento.

 Gostaria, a partir daqui, de tentar traçar um paralelo, que pode parecer a alguns um tanto  forçado entre Eichmann e Damares Alves, já que a comparação entre Adolph Hitler e Jair Bolsonaro parece, nestes últimos tempos em que foi revelado um verdadeiro plano de extermínio da etnia yanomami, parece por demais, óbvia.

 Assim como Hitler, como já escrevi anteriormente em

 https://bloganaliseeopiniao.blogspot.com/2023/01/hitler-o-fuhrer-e-bolsonaro-o-mito.html,

 Bolsonaro defendia, desde os tempos de deputado, que o Brasil deveria fazer com nossos indígenas aquilo que a cavalaria norte-americana fez com sucesso, ou seja, exterminá-los.

 Portanto, o plano não se restringia somente aos yanomamis, mas a todas as outras etnias e só não obteve sucesso pleno porque ele não se reelegeu e porque Lula chegou a tempo a Roraima para impedir a continuidade do genocídio.

 Mas se Eichmann não sentia o mínimo remorso por seus atos, o que dizer da ex-ministra incumbida de preservar as terras Yanomamis, Damares Alves?

 Damares é o que se pode chamar de evangélica fundamentalista. Acredita piamente que os indígenas vivem em pecado por não reconhecerem Cristo e por viverem nus, o que é, na sua

 visão, uma agressão à moral e aos bons costumes. É preciso lembrar que essa visão da ex-ministra, constantemente exposta à opinião pública, tem revelado uma obsessão com relação ao sexo, frequentemente encarado como algo extremo, por exemplo, quando afirmou que

 crianças teriam seus dentes arrancados para facilitar o sexo oral na Ilha de Marajó, algo jamais confirmado.

 Além disso, acredita que as crianças indígenas, por viverem na floresta, isolados, dormindo em redes, caçando e pescando e expostos a doenças e perigos, deveriam ser transferidas para as cidades e adotadas preferencialmente por casais evangélicos que as salvariam. Ela própria,  segundo noticiários, sequestrou no passado uma criança indígena e a levou para viver com ela na paz de Cristo. A menina, hoje uma moça, foi doutrinada e nega qualquer maldade cometida com ela.

 Damares Alves se empenhou, durante sua estada no governo, em facilitar a entrada de pastores evangélicos nas aldeias indígenas para catequização. A ONG Missão Caiuá, entidade missionária evangelizadora pertencente à Igreja Presbiteriana, que recebeu pelo menos R$ 2,98 bilhões em pagamentos e R$ 3,05 bilhões em contratos celebrados com o poder público desde o ano de 2014, é uma dessas entidades que utilizava até aviões do garimpo para se deslocar às aldeias. O que esperar de uma entidade como essa?

 Quando era ministra dos Direitos Humanos, para tornar a permanência das crianças indígenas cada vez mais insuportável, forçando-as a deixar suas terras em direção à civilização, a atual senadora pediu a Jair Bolsonaro que vetasse a entrega de leitos de UTI e de água potável a

 indígenas em plena pandemia. Era aceitar Jesus ou morrer. Em ambas a opções, sem crianças, os Yanomamis teriam sua sentença de morte assinada por não mais ser possível a continuidade da etnia.

 Nesse sentido, é possível um paralelo entre Damares e Eichmann?

 Enquanto Eichmann parecia um robô nas mãos de Hitler, Damares agia movida por seu fundamentalismo religioso, acreditando insanamente que estaria fazendo o bem.

 Indiretamente cumpria os planos de Bolsonaro que queria, sem meias palavras, pura e simplesmente a extinção do povo Yanomami e de todos os demais indígenas, facilitando a ocupação de suas terras pelas empresas mineradoras.

 A banalidade do mal está presente em ambos os casos e isso não significa que a punição deva ser branda. No caso de Eichmann, seus crimes foram punidos com a forca. No caso de Damares, esperamos investigação, julgamento e condenação à altura, de acordo com o Estado  de Direito, embora talvez nunca vejamos, como em Eichmann, a admissibilidade dos males que cometeu.

 Ainda há que se considerar o que Hanna Arendt escreveu em sua obra:

 “a execução de ordens é a mera obediência cega, independentemente se o partido pede para organizar distribuição de alimentos ou o extermínio de um grupo étnico”.

 Fica claro, por essas palavras, que muitos dos que contribuíram para a tragédia dos Yanomami

 tornaram o mal apenas uma banalidade. E vejam que bolsonaristas se manifestaram nas redes

 sociais ridicularizando a FAB por ter enviado alimentos para os indígenas ou afirmando que são

 venezuelanos fugindo da ditadura de maduro.

 “o cidadão massificado executa as ordens, não por ódio, por haver um mal em seu coração ou

 por premeditar atrocidades, mas o mal que faz é fruto da não consciência de seus atos”.

 Essa frase remete imediatamente aos atentados terroristas de 8 de janeiro. Observem que logo após serem presos, os terroristas reclamaram da falta de wi-fi, ar-condicionado e comida de qualidade, como que alheios à sua nova condição de criminosos detidos. Executaram ordens subliminares de seu capitão sem a correspondente noção do crime que cometeram. É  por isso que muitos não esconderam o rosto e ainda gravaram selfies, como se não esperassem responsabilização.

 Para esses indivíduos, o mal foi banalizado a ponto de se confundir com o bem. Eles acreditavam realmente que estavam libertando o Brasil de uma ameaça comunista que não existe.

 Será preciso um esforço dos ministérios da comunicação e da educação rumo a uma desbolsonarização do país para que a noção de bem ou mal seja novamente aferida com precisão na balança de nossos atos éticos e morais.

 Enquanto isso não acontece, Lula segue apagando os focos de incêndio que Bolsonaro deixou, este sim, o mal sem nenhuma banalidade.

terça-feira, 17 de maio de 2022

A atualidade brutal de Hannah Arendt, por Ladislau Dowbor

 

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A atualidade brutal de Hannah Arendt

Por Ladislau Dowbor, no Justificando (publicado em 05 de outubro de 2015).
O filme causa impacto. Trata-se, tema central do pensamento de Hannah Arendt, de refletir sobre a natureza do mal. O pano de fundo é o nazismo, e o julgamento de um dos grandes mal-feitores da época, Adolf Eichmann. Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina. O que viu, e só ela viu, foi a banalidade do mal. Viu um burocrata preocupado em cumprir as ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão, qualquer pensamento que não fosse o de bem cumprir as ordens. Pensamento técnico, descasado da ética, banalidade que tanto facilita a vida, a facilidade de cumprir ordens. A análise do julgamento, publicada pelo New Yorker, causou escândalo, em particular entre a comunidade judaica, como se ela estivesse absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade.
A banalidade do mal, no entanto, é central. O meu pai foi torturado durante a II Guerra Mundial, no sul da França. Não era judeu. Aliás, de tanto falar em judeus no Holocausto, tragédia cuja dimensão trágica ninguém vai negar, esquece-se que esta guerra vitimou 60 milhões de pessoas, entre os quais 6 milhões de judeus. A perseguição atingiu as esquerdas em geral, sindicalistas ou ativistas de qualquer nacionalidade, além de ciganos, homossexuais e tudo que cheirasse a algo diferente. O fato é que a questão da tortura, da violência extrema contra outro ser humano, me marcou desde a infância, sem saber que eu mesmo a viria a sofrer. Eram monstros os que torturaram o meu pai? Poderia até haver um torturador particularmente pervertido, tirando prazer do sofrimento, mas no geral, eram homens como os outros, colocados em condições de violência generalizada, de banalização do sofrimento, dentro de um processo que abriu espaço para o pior que há em muitos de nós.
Por que é tão importante isto, e por que a mensagem do filme é autêntica e importante? Porque a monstruosidade não está na pessoa, está no sistema. Há sistemas que banalizam o mal. O que implica que as soluções realmente significativas, as que nos protegem do totalitarismo, do direito de um grupo no poder dispor da vida e do sofrimento dos outros, estão na construção de processos legais, de instituições e de uma cultura democrática que nos permita viver em paz. O perigo e o mal maior não estão na existência de doentes mentais que gozam com o sofrimento de outros – por exemplo uns skinheads que queimam um pobre que dorme na rua, gratuitamente, pela diversão – mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais.
Entre os que me interrogaram no DOPS de São Paulo encontrei um delegado que tinha estudado no Colégio Loyola de Belo Horizonte, onde eu tinha estudado nos anos 1950. Colégio de orientação jesuíta, onde se ensinava a nos amar uns aos outros. Encontrei um homem normal, que me explicava que arrancando mais informações seria promovido, me explicou os graus de promoções possíveis na época. Aparentemente queria progredir na vida. Outro que conheci, violento ex-jagunço do Nordeste, claramente considerava a tortura como coisa banal, coisa com a qual seguramente conviveu nas fazendas desde a sua infância. Monstros? Praticaram coisas monstruosas, mas o monstruoso mesmo era a naturalidade com a qual a violência se pratica.
Um torturador na OBAN me passou uma grande pasta A-Z onde estavam cópias dos depoimentos dos meus companheiros que tinham sido torturados antes. O pedido foi simples: por não querer se dar a demasiado trabalho, pediu que eu visse os depoimentos dos outros, e fizesse o meu confirmando a verdades, bobagens ou mentiras que estavam lá escritas. Explicou que eu escrevendo um depoimento que repetia o que já sabiam, deixaria satisfeitos os coronéis que ficavam lendo depoimentos no andar de cima (os coronéis evitavam sujar as mãos), pois veriam que tudo se confirmava, ainda que fossem histórias absurdas. Segundo ele, se houvesse discrepâncias, teriam de chamar os presos que já estavam no Tiradentes, voltar a interrogá-los, até que tudo batesse. Queria economizar trabalho. Não era alemão. Burocracia do sistema. Nos campos de concentração, era a IBM que fazia a gestão da triagem e classificação dos presos, na época com máquinas de cartões perfurados. No documentário A Corporação, a IBM esclarece que apenas prestava assistência técnica.
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Banalidade do mal: Panfleto atirado em frente ao velório do ex-senador José Eduardo Dutra, em Belo Horizonte, pede a morte de petistas 
O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura, numa pirâmide que vai desde o homem que suja as mãos com sangue até um Rumsfeld que dirige uma nota aos exército americano no Iraque, exigindo que os interrogatórios sejam harsher,ou seja, mais violentos. Hannah Arendt não estava desculpando torturadores, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave.
A compreensão da dimensão sistêmica das deformações não tem nada a ver com passar a mão na cabeça dos criminosos que aceitaram fazer ou ordenar monstruosidades. Hannah Arendt aprovou plenamente e declaradamente o posterior enforcamento de Eichmann. Eu estou convencido de que os que ordenaram, organizaram, administraram e praticaram a tortura devem ser julgados e condenados.
O segundo argumento poderoso que surge no filme, vem das reações histéricas de judeus pelo fato de ela não considerar Eichmann um monstro. Aqui, a coisa é tão grave quanto a primeira. Ela estava privando as massas do imenso prazer compensador do ódio acumulado, da imensa catarse de ver o culpado enforcado. As pessoas tinham, e têm hoje, direito a este ódio. Não se trata aqui de deslegitimar a reação ao sofrimento imposto. Mas o fato é que ao tirar do algoz a característica de monstro, Hannah estava-se tirando o gosto do ódio, perturbando a dimensão de equilíbrio e de contrapeso que o ódio representa para quem sofreu. O sentimento é compreensível, mas perigoso. Inclusive, amplamente utilizado na política, com os piores resultados. O ódio, conforme os objetivos, pode representar um campo fértil para quem quer manipulá-lo.
Quando exilado na Argélia, durante a ditadura militar, conheci Ali Zamoum, um dos importantes combatentes pela independência do país. Torturado, condenado à morte pelos franceses, foi salvo pela independência. Amigos da segurança do novo regime localizaram um torturador seu, numa fazendo do interior. Levaram Ali até a fazenda, onde encontrou um idiota banal, apavorado num canto. Que iria ele fazer? Torturar um torturador? Largou ele ali para ser trancado e julgado. Decepção geral. Perguntei um dia ao Ali como enfrentavam os distúrbios mentais das vítimas de tortura. Na opinião dele, os que se equilibravam melhor, eram os que, depois da independência, continuaram a luta, já não contra os franceses mas pela reconstrução do país, pois a continuidade da luta não apagava, mas dava sentido e razão ao que tinham sofrido.
No 1984 do Orwell, os funcionários eram regularmente reunidos para uma sessão de ódio coletivo. Aparecia na tela a figura do homem a odiar, e todos se sentiam fisicamente transportados e transtornados pela figura do Goldstein. Catarse geral. E odiar coletivamente pega. Seremos cegos se não vermos o uso hoje dos mesmos procedimentos, em espetáculos midiáticos.
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Manifestantes protestam durante velório de ex-presidente do PT, em total desrespeito aos amigos e parentes
O texto de Hannah, apontando um mal pior, que são os sistemas que geram atividades monstruosas a partir de homens banais, simplesmente não foi entendido. Que homens cultos e inteligentes não consigam entender o argumento é em si muito significativo, e socialmente poderoso. Como diz Jonathan Haidt, para justificar atitudes irracionais, inventam-se argumentos racionais, ou racionalizadores. No caso, Hannah seria contra os judeus, teria traído o seu povo, tinha namorado um professor que se tornou nazista. Os argumentos não faltaram, conquanto o ódio fosse preservado, e com o ódio o sentimento agradável da sua legitimidade.
Este ponto precisa ser reforçado. Em vez de detestar e combater o sistema, o que exige uma compreensão racional, é emocionalmente muito mais satisfatório equilibrar a fragilização emocional que resulta do sofrimento, concentrando toda a carga emocional no ódio personalizado. E nas reações histéricas e na deformação flagrante, por parte de gente inteligente, do que Hannah escreveu, encontramos a busca do equilíbrio emocional. Não mexam no nosso ódio. Os grandes grupos econômicos que abriram caminho para Hitler, como a Krupp, ou empresas que fizeram a automação da gestão dos campos de concentração, como a IBM, agradecem.
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“Qualquer momento é momento de mandar um bandido embora. Até no enterro da minha mãe eu faria isso”, disse o aposentado de 60 anos com o cartaz na mão
O filme é um espelho que nos obriga a ver o presente pelo prisma do passado. Os americanos se sentem plenamente justificados em manter um amplo sistema de tortura – sempre fora do território americano pois geraria certos incômodos jurídicos -, Israel criou através do Mossad o centro mais sofisticado de tortura da atualidade, estão sendo pesquisados instrumentos eletrônicos de tortura que superam em dor infligida tudo o que se inventou até agora, o NSA criou um sistema de penetração em todos os computadores, mensagens pessoais e conteúdo de comunicações telefônicas do planeta. Jovens americanos no Iraque filmaram a tortura que praticavam nos seus celulares em Abu Ghraib, são jovens, moças e rapazes, saudáveis, bem formados nas escolas, que até acham divertido o que fazem. Nas entrevistas posteriores, a bem da verdade, numerosos foram os jovens que denunciaram a barbárie, ou até que se recusaram a praticá-la. Mas foram minoria.
O terceiro argumento do filme, e central na visão de Hannah, é a desumanização do objeto de violência. Torturar um semelhante choca os valores herdados, ou aprendidos. Portanto, é essencial que não se trate mais de um semelhante, pessoa que pensa, chora, ama, sofre. É um judeu, um comunista, ou ainda, no jargão moderno da polícia, um “elemento”. Na visão da KuKluxKlan, um negro. No plano internacional de hoje, o terrorista. Nos programas de televisão, um marginal. Até nos divertimos, vendo as perseguições. São seres humanos? O essencial, é que deixe de ser um ser humano, um indivíduo, uma pessoa, e se torne uma categoria. Sufocaram 111 presos nas celas? Ora, era preciso restabelecer a ordem.
Um belíssimo documentário, aliás, Repare Bem, que ganhou o prêmio internacional no festival de Gramado, e relata o que viveu Denise Crispim na ditadura, traz com toda força o paralelo entre o passado relatado no Hannah Arendt e o nosso cenário brasileiro. Outras escalas, outras realidades, mas a mesma persistente tragédia da violência e da covardia legalizadas e banalizadas.
Sebastian Haffner, estudante de direito na Alemanha em 1930, escreveu na época um livro – Defying Hitler: a memoir – manuscrito abandonado, resgatado recentemente por seu filho que o publicou com este título.3 O livro mostra como um estudante de família simples vai aderindo ao partido nazista, simplesmente por influência dos amigos, da mídia, do contexto, repetindo com as massas as mensagens. Na resenha do livro que fiz em 2002, escrevi que o que deve assustar no totalitarismo, no fanatismo ideológico, não é o torturador doentio, é como pessoas normais são puxadas para dentro de uma dinâmica social patológica, vendo-a como um caminho normal. Na Alemanha da época, 50% dos médicos aderiram ao partido nazista.
O próximo fanatismo político não usará bigode nem bota, nem gritará Heil como os idiotas dos “skinheads”. Usará terno, gravata e multimídia. E seguramente procurará impor o totalitarismo, mas em nome da democracia, ou até dos direitos humanos.
Ladislau Dowbor é professor de economia nas pós-graduações em economia e em administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e consultor de várias agências das Nações Unidas. Seus artigos estão disponíveis online em http://dowbor.org.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Da imoral normalização do mal…, por Eduardo Ramos

 

A normalização do mal é essa capacidade doentia, imoral, antiética, da sociedade seguir uma vida cotidiana sem ter sua paz social abalada mesmo no meio de toda a sorte de perversidades


Da normalização do mal…

por Eduardo Ramos

A expressão não é criação minha. Me foi dada de presente pela amiga Silvana Conterno ao comentar um texto meu sobre esse Brasil perverso que nos tornamos. Assim que a li, esse texto veio praticamente na íntegra à minha mente, duas perguntas pulsando furiosamente: primeiro, como eu deveria/poderia conceituar essa “normalização do mal”. Segundo, em que ela seria diferente da consagradíssima expressão de Hannah Arendt, a “banalização do mal”? Não seriam iguais, idênticas…?

Por ter encontrado uma resposta que me satisfez inteiramente, e dentro dessa resposta, diferenças sutis mas marcantes entre uma e outra, resolvi colocar “no papel” essa reflexão, por acreditar que a NORMALIZAÇÃO DO MAL em nossa sociedade é, hoje, como um câncer psicossocial, que nos adoece, nos cega. nos deprime, nos deixa entregues “à própria sorte”, o que na verdade, jamais existe em sociedades humanas, ficamos entregues, essa é a realidade, à sanha, à insanidade, à intolerância, à perversidade infernal, de seres bestiais como Bolsonaro, a seres covardes, omissos e cínicos, como a maioria dos ministros das altas cortes jurídicas do país, ficamos entregues a uma mídia venal, corrompida, que utiliza tons e matérias de acordo com os ventos políticos e os interesses das oligarquias, ficamos entregues a um dos Congressos mais hediondos de nossa História, e, por fim, ficamos entregues à catatonia de uma elite e uma classe média rasas, deseducadas, ignaras ao extremo, narcísicas em suas auto-imagens lustradas a bens, viagens e penduricalhos, mas sem cultura real sobre História, Sociologia, Política, Filosofia…. Estamos entregues, portanto, ao conjunto de forças que fez e faz desse país, há 500 anos, esse horror permanente, de fome, miséria, injustiças, degradações, um vexame eterno aos olhos do mundo civilizado, que com razão, nos vê quase sempre com vergonha alheia e desprezo.

O que, afinal, a tal da “normalização do mal” tem a ver com tudo isso descrito acima? É o que pretendo decifrar.

Quando utilizou nas primeiras vezes a expressão “a banalização do mal”, uma Hannah Arendt perplexa, o fez porque percebeu que muitos nazistas ao falar de seus crimes no julgamento de Nuremberg, o faziam com uma naturalidade que beirava o absurdo. Quase que na totalidade dos casos se eximiam de qualquer culpa ou responsabilidade, por estarem “cumprindo ordens”, e ela não viu neles traços exacerbados de psicopatias ou diferenças gritantes entre eles e “o resto da humanidade”. Deveria haver explicações super complexas para o comportamento monstruoso, mas seu espanto, que ela levou semanas para digerir, foi o oposto: eram HOMENS NORMAIS PRATICANDO AÇÕES DE PERVERSIDADE JAMAIS VISTA, na dimensão do que foi o Holocausto. Foi dessa descoberta, que muitos até hoje rejeitam porque parece um contrassenso, que a fez perceber que muitos nazistas eram HOMENS COMUNS, CAPAZES DE TORNAR O MAL ALGO BANAL, mesmo o mal em uma escala máxima de covardia, maldade, sadismo, intolerância, perversidade. A partir daí escreveu vários livros tendo como base sua frase mais genial, um conceito que hoje ganhou vida própria, é estudado praticamente em todas as Universidades e nações.

A “normalização do mal”, seria uma extensão desse conceito, poderíamos utilizá-la nos referindo aos alemães que, sem praticarem diretamente os atos de maldade dos nazistas, eram omissos e/ou indiferentes, SEGUINDO NORMALMENTE EM SUAS VIDAS, mesmo vivendo em um país governado por um genocida bestial e demente, mesmo mergulhados em uma guerra mundial provocada por esse líder, e mesmo tendo visto e até participado, dos primeiros passos de violência, tortura e perseguição contra vários grupos sociais, não apenas os judeus, sem com isso se importarem.

A normalização do mal é essa capacidade doentia, imoral, antiética, da sociedade seguir uma vida cotidiana sem ter sua paz social abalada mesmo no meio de toda a sorte de perversidades, injustiças, crueldades, ações bestiais contra uma parte do seu próprio povo.

Podemos dizer que aconteceu na Alemanha nazista, podemos dizer que tem acontecido de forma constante e crescente no Brasil de hoje.

A normalização do mal no Brasil acompanhou a banalização do mal no Brasil: compreendamos o que isso significa.

Enquanto Moro, Janot, Dallagnol e cia., com a colaboração indispensável, por covardia e omissão na maioria das vezes, dos ministros do STF e a cumplicidade criminosa da mídia, rede Globo à frente do processo hediondo, perseguiam Lula, Dilma e o PT, destruíam todos os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição, entregavam aos EUA segredos de Estado e das nossas maiores empresas, promoviam uma destruição sem precedentes de duas cadeias de indústria pesada, petróleo e gás e construção civil pesada, provocando um desemprego recorde, miséria, fome e desespero – A ISTO CHAMAREMOS A BANALIZAÇÃO DO MAL, PORQUE HOMENS COMUNS CAUSARAM TODO ESSE HORROR… – uma sociedade tornada fanática, preconceituosa, e ensinada a odiar Lula e o PT como “O SATANÁS DE SUAS VIDAS”, a tudo assistia sem enxergar qualquer desses males, na verdade, a maioria das pessoas de nossa elite e classe média exultou com a Lava Jato, fizeram de Moro e Deltan seus heróis, e celebraram a operação dos homens de bem que enfrentaram e derrotaram “a corrupção dos petralhas” – A ISTO CHAMAREMOS A NORMALIZAÇÃO DO MAL, ESSA CAPACIDADE DE HOMENS E SOCIEDADES CONVIVEREM NORMAL E LIVREMENTE COM UM PROCESSO PERVERSO, CRUEL, ONDE VIOLÊNCIAS SÃO COMETIDAS CONTRA HOMENS E GRUPOS SOCIAIS TORNADOS EM “INIMIGOS DA SOCIEDADE”.

Assim enxergamos o que houve no Brasil, assim enxergamos uma diferenciação dos conceitos – banalização do mal (sua feitura, sua realização por esses homens comuns…) e normalização do mal (a aceitação do mal como normal, e até bom, pelas pessoas e sociedades que vivem aquele processo doentio…

Termino esse artigo refletindo, com profundas tristeza e dor, que nada mudou no Brasil tornado ainda mais bestial e demente, o Brasil dos Bolsonaro!

Temos uma réplica de tudo o que vimos na Lava jato, mas piorado, tornado mais intenso, mais perverso, mais selvagem (e olha que a Lava jato foi quase imbatível em selvageria e bestialidade por parte da mídia, de juízes como Moro, Cristina Lebbos e Gabriela Hardt e a própria sociedade, como nos episódios das trágicas perdas de Lula, do irmão Vavá e do neto Arthur, quando o pior do Brasil aflorou em autoridades e “cidadãos de bem”…).

E apesar dessa exacerbação da bestialidade, da incivilidade em grau máximo, da violência, do assassinato em massa que representam as mais de 200.000 mortes pelo corona-vírus, muitas delas evitáveis se tivéssemos um governo minimamente humano e decente, apesar de todas essas coisas, seguem os militares no poder (covardes, covardes, covardes!), a família miliciana, o Congresso, o Judiciário e o PGR por omissão cúmplice, a mídia, que jamais usou o tom terrorista contra Bolsonaro, mas usaram dia e noite contra Lula, Dilma e o PT, seguem essas corporações todas, fazendo o mal, calando sobre o mal, apoiando o mal, enfim, a prática da BANALIZAÇÃO DO MAL.

A sociedade brasileira? Aparentemente, a metade o celebra, ao “mito” (sic…), numa demonstração deprimente do que somos enquanto nação bárbara, incivilizada, inculta, deseducada e ignara… A outra metade, deplora, lamenta, os mais lúcidos chegam a se deprimir, mas na verdade, fomos, cada um ou cada grupo do “seu jeito”, nos acostumando, normalizando dentro de nós a situação, tocando as vidas, à espera de uma espécie de “milagre”, que não virá – só a ação política tira déspotas do poder! – ENFIM, A NORMALIZAÇÃO DO MAL permeando nossas vidas, nossa sociedade.

Todo esse processo iniciou lá atrás, com a Lava jato, Bolsonaro é fruto de todas as perversidades, crimes, permissividades inacreditáveis (das instituições e da sociedade!) concedidas a esses falsos heróis, para “agirem em nome do bem contra os canalhas petistas” – era o ÓDIO E O NOJO falando, não a razão, a ética, e o que trazemos em nós de civilizado.

Deu no que deu.

Levaremos sim, décadas para reconstruir, um dia, um Brasil democrático, civilizado e digno.

O fanatismo e o ódio fizeram de nós esse horror.

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(eduardo ramos)

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Hannah Arendt: Como a solidão alimenta o autoritarismo de aspecto fascista

 



Do Instituto Humanitas Unisinos:

“Na vida solitária, você pode fazer companhia a si mesmo, estabelecer uma conversa consigo mesmo. Nessa solidão, não perde contato com o mundo, porque o mundo da experiência sempre está presente em nossos pensamentos. Para citar Arendt (que por sua vez citava Cícero): 'Um homem nunca está mais ativo do que quando nada faz, nunca está menos só do que quando a sós consigo mesmo. Isso é o que o pensamento ideológico e o pensamento tirânico destroem: nossa capacidade para pensar com e para nós. Essa é a raiz da solidão organizada'”, escreve Samantha Rose Hill, diretora-assistente do The Hannah Arendt Center at Bard College, em artigo publicado por Letras Libres, 01-12-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

“O que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não totalitário é o fato de que a solidão, outrora uma experiência liminar habitualmente sofrida em certas condições sociais marginais como a velhice, se tornou uma experiência cotidiana” - Hannah Arendt, Origens do totalitarismo (1951)

“Por favor, escreva-me regularmente, caso contrário, vou morrer aqui”. Hannah Arendt não costumava começar as cartas a seu marido desse modo, mas na primavera de 1955 se viu só em um “marasmo”. Após a publicação de “Origens do totalitarismo”, recebeu um convite para ser professora visitante na Universidade da CalifórniaBerkeley. Não gostava da atmosfera intelectual. Seus colegas não tinham senso de humor e a nuvem do macarthismo sobrevoava a vida social.

Disseram-lhe que teria trinta alunos em suas aulas de licenciatura: havia cento e vinte em cada uma. Detestava dar aulas magistrais todos os dias: “Simplesmente, não posso me expor diante do público cinco vezes por semana, ou seja, nunca sair do olhar público. É como se eu tivesse que ir por aí procurando por mim mesma”.

O oásis que encontrou era o estivador convertido em filósofo Eric Hoffer, mas também tinha dúvidas sobre ele. Disse a seu amigo Karl Jaspers que Hoffer era “o melhor que este país pode oferecer”. Disse a seu marido Heinrich Blücher que Hoffer era “muito encantador, mas não brilhante”.

Os períodos de solidão não eram raros para Arendt. Desde muito pequena, tinha uma aguda percepção de ser diferente, uma outsider, uma pária, e muitas vezes preferia ficar só. Seu pai morreu de sífilis quando ela tinha sete anos. Ela fingiu todos os tipos de doenças para evitar ir ao colégio e ficar em casa. Seu primeiro marido a deixou em Berlim, após o incêndio do Reichstag. Foi apátrida durante quase vinte anos. Mas, como sabia Arendt, a solidão é parte da condição humana. Todo mundo se sente só de vez em quando.

Ao escrever sobre a solidão, muitas vezes se cai em um destes dois campos: a memória excessivamente indulgente ou a medicalização racional que trata a solidão como algo que pode ser curado. Os dois enfoques deixam o leitor um pouco frio. Um fica obcecado com a solidão, ao passo que o outro tenta se livrar dela por completo. E isto em parte se deve ao fato de que a solidão é muito difícil de comunicar.

Quando começamos a falar de solidão, transformamos uma das experiências que é percebida de maneira mais profunda em um objeto de contemplação e algo submetido à razão. A linguagem não consegue capturar a solidão porque a solidão é um termo universal que se aplica a uma experiência particular. Todo mundo experimenta a solidão, mas de modo diferente.

Como palavra, “loneliness” é relativamente nova para o idioma inglês. Um de seus primeiros usos está na tragédia Hamlet de William Shakespeare, que foi escrita por volta de 1600. Polônio roga a Ofélia: “Leia este livro, que mostrar esse exercício pode colorir sua solidão” (Ele a aconselha a ler um livro de orações, para que ninguém suspeite de que está sozinha: a conotação é não estar com os outros, em vez de qualquer sentimento de querer estar).

Ao longo do século XVI, muitas vezes, evoca-se a solidão em sermões para assustar os paroquianos e distanciá-los do pecado: pedia-se às pessoas que se imaginassem em lugares solitários como o inferno ou em uma sepultura. Mas com o século XVII já bem avançado, a palavra poucas vezes era utilizada.

Em 1674, o naturalista inglês John Ray incluiu “solidão” em uma lista de palavras de uso pouco frequente, e a definiu como um termo para descrever lugares e pessoas “distantes de seus vizinhos”. Um século mais tarde, a palavra não havia mudado muito.

No “Dicionário da língua inglesa” (1755), Samuel Johnson descreveu o adjetivo “lonely” só em termos de estar só (a “raposa solitária”) ou relacionado a um lugar deserto (“rochas solitárias”), de maneira semelhante ao modo como Shakespeare utilizou o termo no exemplo anterior de Hamlet.

Até o século XIX, a solidão estava relacionada a uma ação – cruzar uma fronteira, viajar para um lugar fora de uma cidade – e tinha menos a ver com as emoções. Descrições da solidão e o abandono eram utilizadas para induzir o terror da inexistência nos homens, para fazer com que imaginassem o isolamento absoluto, separados do mundo e o amor de Deus. E, de certo modo, faz sentido. A primeira palavra negativa que Deus disse sobre sua criação na Bíblia aparece no Gênesis, após criar Adão: “E o Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só, vou lhe dar uma companhia idônea”.

No século XIX, na modernidade, a solidão perdeu sua conexão com a religião e começou a ser associada aos sentimentos laicos da alienação. O uso do termo começou a aumentar bruscamente, após 1800, com a chegada da Revolução industrial, continuou aumentando até os anos noventa do século XX e se estabilizou, para aumentar novamente nas primeiras décadas do século XXI.

solidão ganhou caráter e causa em “Bartlebyo escrivão”, de Herman Melville (1853), nas pinturas realistas de Edward Hopper e no poema “A terra inútil” de TSEliot (1922). Estava enraizada na paisagem social e política, recebia um ar romântico, era poetizada, lamentada.

Contudo, em meados do século XX, Arendt se aproximou da solidão de outro modo. Para ela, era algo que podia ser feito e algo que podia ser experimentado. Nos anos cinquenta, quando tentava escrever um livro sobre Karl Marx, no apogeu do macarthismo, começou a pensar na solidão e em sua relação com a ideologia e o terror. Arendt pensava que a experiência da solidão havia mudado sob as condições do totalitarismo:

“O que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não totalitário é o fato de que a solidão, outrora uma experiência liminar habitualmente sofrida em certas condições sociais marginais como a velhice, se tornou uma experiência cotidiana”.

totalitarismo no poder encontrou uma forma de cristalizar a experiência ocasional da solidão em um estado permanente. Por meio do uso do isolamento e o terror, os regimes totalitários criaram as condições para a solidão, e depois apelaram com propaganda ideológica à solidão das pessoas.

Antes de sair para dar aulas em Berkeley, Arendt havia publicado um ensaio sobre “Ideologia e terror” (1953) que abordava o isolamento e a solidão (tanto no sentido de “loneliness”, como no de “solitude”, às vezes, traduzido como “vida solitária”) em um Festschrift pelos setenta anos de Jaspers.

Este ensaio, junto com seu livro “Origens do totalitarismo”, se tornou a base de seu muito solicitado curso em Berkeley: “Totalitarismo”. Dividia-se em quatro partes: a decadência das instituições políticas, o crescimento das massas, o imperialismo e o surgimento de partidos políticos como ideologias de grupos de interesse.

Em sua conferência inaugural, apresentou o tema refletindo a respeito de como a relação entre a teoria política e a ideologia se tornou duvidosa na era moderna. Argumentou que havia uma vontade crescente e geral de prescindir da teoria em favor de meras opiniões e ideologias. “Muitos”, disse, “acreditam que podem dispensar a teoria por completo, o que, claro, significa que só querem que sua própria teoria, a que está por trás de suas opiniões, seja aceita como a verdade do evangelho”.

Arendt se referia ao modo como a “ideologia” havia sido empregada como desejo para divorciar o pensamento da ação: “ideology” em inglês vem do francês “idéologie”, e foi utilizada pela primeira vez durante a Revolução Francesa, mas não se tornou popular até a publicação de “A Ideologia Alemã” (escrito em 1846), de Marx e Friedrich Engels, e depois “Ideologia e utopia” (1929), de Karl Mannheim, que Arendt resenhou para “Die Gesellschaft”, em 1930.

Em 1958, acrescentou-se uma versão revisada de “Ideologia e terror” como nova conclusão à segunda edição de “Origens do totalitarismo”.

Origens do totalitarismo” é uma obra de seiscentas páginas, dividida em três seções sobre o antissemitismo, o imperialismo e o totalitarismo. Na medida em que Arendt trabalhava nele, o texto foi mudando para incorporar novas informações que chegavam da Europa sobre Hitler e Stalin. A conclusão inicial, publicada em 1951, girava em torno da ideia de que, mesmo que os regimes totalitários desaparecessem, os elementos do totalitarismo permaneceriam.

“As soluções totalitárias”, escreveu, “podem sobreviver à queda dos regimes totalitários em forma de fortes tentações que aparecerão cada vez que pareça impossível aliviar a miséria política, social e econômica em uma maneira digna dos homens”.

Quando Arendt acrescentou “Ideologia e terror” a “Origens do totalitarismo”, em 1958, o teor da obra mudou. Os elementos do totalitarismo eram numerosos, mas na solidão encontrou a essência do governo totalitário e o terreno comum do terror.

Por que a solidão não é óbvia?

A resposta de Arendt era: porque a solidão separa radicalmente as pessoas da conexão humana. Definiu a solidão como uma espécie de marasmo onde uma pessoa se sente abandonada por todo o humano e pela companhia humana, inclusive quando os outros a cercam. A palavra que utilizava em sua língua materna para designar a solidão era “Verlassenheit”: um estado de ser abandonado, ou de abandono.

solidão, arguia, “é uma das experiências mais radicais e desesperadas da humanidade”, porque na solidão somos incapazes de realizar toda a nossa capacidade para a ação como seres humanos. Quando experimentamos a solidão, perdemos a capacidade de experimentar qualquer outra coisa, e na solidão não podemos começar novamente.

Para ilustrar por que a solidão é a essência do totalitarismo e o terreno comum do terror, Arendt distinguia a solidão do isolamento, e solidão em sentido de “loneliness”, de solidão como “solitude”. O isolamento, argumentava, às vezes é necessário para a atividade criativa. Até mesmo a mera leitura de um livro, disse, requer certo grau de isolamento. É preciso se afastar propositalmente do mundo para dar lugar à experiência da solidão, mas, uma vez que se está só, sempre é possível voltar:

“O isolamento e a solidão não são a mesma coisa. Eu posso estar isolada, ou seja, estar em uma situação em que não possa agir porque não há ninguém que atue comigo, sem estar só, e posso estar só, ou seja, em uma situação em que eu, como pessoa, me sinto abandonada de qualquer companhia humana, sem estar isolada”.

totalitarismo utiliza o isolamento para privar as pessoas da companhia humana, impossibilitando a ação no mundo e, ao mesmo tempo, destrói o espaço para estar só. A banda de ferro do totalitarismo, como a chamava Arendt, destrói a capacidade humana de se mover, de agir e de pensar, enquanto lança cada indivíduo neste isolamento contra os outros e contra si mesmo. O mundo se torna um marasmo, onde a experiência e o pensamento não são possíveis.

Os movimentos totalitários utilizam a ideologia para isolar os indivíduos. Isolar significa “fazer com que uma pessoa esteja ou permaneça só ou longe dos outros”. Arendt dedica a primeira parte de “Ideologia e terror” para decompor as “receitas de ideologias” em seus componentes básicos, para mostrar como se faz:

- As ideologias estão separadas do mundo da experiência vivida, e impedem a possibilidade de novas experiências;

- As ideologias se concentram em controlar e prever a maré da história”;

- As ideologias não explicam o que é, mas o que veio a ser;

- As ideologias dependem de procedimentos lógicos de pensamento, que estão separados da realidade;

- O pensamento ideológico insiste em uma “realidade mais verdadeira”, oculta atrás do mundo das coisas perceptíveis.

Nosso modo de pensar o mundo afeta as relações que temos com os outros. Ao injetar um significado secreto em cada acontecimento e experiência, os movimentos ideológicos se veem forçados a mudar a realidade de acordo com suas afirmações, quando chegam ao poder. E isso significa que já não é possível confiar na realidade de suas experiências vividas no mundo.

Em vez disso, deve-se aprender a desconfiar de si mesmo e dos outros, e a confiar sempre na ideologia do movimento, que deve ser correta. Mas para fazer com que os indivíduos sejam suscetíveis à ideologia, primeiro é preciso destruir a relação deles com eles próprios e com os outros, tornando-os céticos e cínicos, de modo que já não possam confiar em seu próprio juízo:

“Do mesmo modo que o terror, inclusive em sua forma pré-totalitária e simplesmente tirânica, arruína todas as relações entre os homens, assim a autocoação do pensamento ideológico arruína todas as relações com a realidade. A preparação tem êxito quando os homens perdem o contato com seus semelhantes, bem como com a realidade que existe em torno deles, porque, junto com esses contatos, os homens perdem a capacidade tanto para a experiência como para o pensamento. O objeto ideal da dominação solitária não é o nazista convencido ou o comunista convencido, mas as pessoas para quem já não existe a distinção entre o fato e a ficção (ou seja, a realidade empírica) e a distinção entre o verdadeiro e o falso (ou seja, as normas do pensamento)”.

solidão organizada, gerada a partir da ideologia, conduz ao pensamento tirânico, e destrói a capacidade que um indivíduo possui de distinguir entre fatos e ficção, de fazer juízos. Na solidão, não se consegue conversar consigo mesmo, porque a capacidade de pensar é vista como um compromisso. O pensamento ideológico nos afasta do mundo da experiência vivida, mata de fome a imaginação, nega a pluralidade e destrói o espaço entre os homens que permite que se relacionem de formas significativas.

E uma vez que o pensamento ideológico se enraizou, a experiência e a realidade já não têm efeito sobre o pensamento. Em vez disso, a experiência se submete à ideologia ao pensar. Por isso, quando Arendt fala da solidão, não fala apenas da experiência afetiva da solidão, fala de uma forma de pensar. A solidão surge quando o pensamento está separado da realidade, quando o mundo comum foi substituído pela tirania das demandas lógicas coercitivas.

Pensamos a partir da experiência, e quando não temos mais novas experiências no mundo, a partir das quais pensar, perdemos os critérios de pensamento que nos guiam na hora de pensar no mundo. E quando alguém se submete à autocompulsão do pensamento ideológico, renuncia à liberdade interior de pensar. É esta submissão forçada da dedução lógica que “prepara cada indivíduo para a tirania em seu solitário isolamento frente a todos os outros”. O livre movimento para pensar se vê substituído pela corrente propulsiva e singular do pensamento ideológico.

Em um de seus diários, Arendt se pergunta: “Gibt es ein Denken das nicht Tyrannisches ist?” (“Existe uma forma de pensar que não seja tirânica?”). Segue a pergunta com a afirmação de que a questão é evitar que se deixe levar pela maré. O que faz os homens se deixar levar? Arendt argumenta que o medo subjacente que atrai alguém para uma ideologia é o medo da autocontradição. Este medo da autocontradição é o motivo pelo qual pensar é perigoso, pois pensar tem o poder de desenraizar nossa fé, nossas crenças, nosso conhecimento de nós mesmos. Pensar pode desnudar tudo o que apreciamos, o que confiamos, o que damos por determinado, diariamente. Pensar tem o poder de nos desfazer.

Mas a vida é caótica. Entre o caos e a incerteza da existência humana, precisamos de uma sensação de lugar e sentido. Precisamos de raízes. E as ideologias, como as sereias na Odisseia de Homero, nos atraem. Mas aquelas pessoas que sucumbem ao canto da sereia do pensamento ideológico devem se afastar do mundo da experiência vivida. Ao fazer isto, não podem se confrontar com elas próprias ao pensar, pois caso ajam assim, arriscam-se a minar as crenças ideológicas provenientes de sua concepção de propósito e lugar. Para dizer de uma maneira muito simples: as pessoas que se subscrevem a uma ideologia têm ideias, mas são incapazes de pensar por elas próprias. E essa incapacidade de pensar, de fazer companhia a elas próprias, faz com que se sintam sós.

O argumento de Arendt sobre a solidão e o totalitarismo não é fácil de tragar, porque implica um elemento ordinário nas tendências totalitárias que apelam à solidão: se você não se satisfaz com a realidade, se esquece o bom e sempre pede algo melhor, se não está disposto a enfrentar cara a cara o mundo como é, será suscetível ao pensamento ideológico. Será suscetível à solidão organizada.

Quando Arendt escreveu a seu marido: “Simplesmente, não posso me expor diante do público cinco vezes por semana, ou seja, nunca sair do olhar público. É como se eu tivesse que ir por aí procurando por mim mesma”, não se queixava vaidosamente do foco. A exposição constante a uma audiência pública, fazia com que fosse impossível para ela manter a companhia a si mesma. Era incapaz de encontrar o espaço privado e reflexivo para pensar. Era incapaz de povoar sua solidão.

Esse é um dos paradoxos da solidão. A solidão como “solitude” ou vida solitária requer estar só, ao passo que a solidão como “loneliness” se revela de forma mais aguda na companhia de outros. Do mesmo modo que dependemos do mundo público das aparências para obter reconhecimento, precisamos do domínio privado da via solitária para estar sós com nós mesmos e pensar. E é isso que Arendt perdia quando não tinha espaço para estar só consigo mesma. “O que torna a solidão tão insuportável”, escrevia, “é a perda do próprio eu, que pode se realizar na vida solitária...”.

Na vida solitária, você pode fazer companhia a si mesmo, estabelecer uma conversa consigo mesmo. Nessa solidão, não perde contato com o mundo, porque o mundo da experiência sempre está presente em nossos pensamentos. Para citar Arendt (que por sua vez citava Cícero): “Um homem nunca está mais ativo do que quando nada faz, nunca está menos só do que quando a sós consigo mesmo. Isso é o que o pensamento ideológico e o pensamento tirânico destroem: nossa capacidade para pensar com e para nós. Essa é a raiz da solidão organizada”.

 

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