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quinta-feira, 2 de março de 2023

Esquerda gere melhor economia e Lula está certo sobre juros, diz o Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz

 

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Stiglitz afirma que os bancos centrais do mundo erram ao combater a inflação atual com elevação de juros.

Para Joseph Stiglitz, agenda econômica da direita levou a baixo crescimento e esquerda latino-americana no poder deve manter foco em crescimento inclusivo

da BBC Brasil

Esquerda gere melhor economia e Lula está certo sobre juros, diz Nobel

por Thais Carranca

Os governos de centro-esquerda se tornaram melhores gestores da economia do que a direita no século 21, defende Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel de economia, professor da Universidade de Columbia (EUA) e antes economista-chefe do Banco Mundial (1997-2000).

Para Stiglitz, que completou 80 anos neste mês de fevereiro, a centro-esquerda volta ao poder na América Latina em momento “que não poderia ser pior”, com pandemia, inflação, restrições fiscais e a economia mundial em desaceleração.

Mas ele avalia que os governos da região poderão ser bem sucedidos se conseguirem manter o foco no fato de que foram eleitos para criação de uma “prosperidade compartilhada”, isto é, um crescimento inclusivo, que garanta a melhora de vida da parcela mais pobre da população.

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Stiglitz afirma que os bancos centrais do mundo erram ao combater a inflação atual com elevação de juros.

Isso porque, na avaliação do economista, a alta no custo de vida que aflige o mundo hoje é provocada principalmente por restrições na ponta da oferta causadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, além de mudanças no padrão de consumo também derivadas da crise sanitária.

Assim, no contexto atual, elevar juros – uma medida de política monetária que tem por objetivo aumentar o custo e restringir a oferta de crédito, esfriando a economia para reduzir a inflação – pode fazer mais mal do que bem, defende o Nobel.

No Brasil, na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o nível da taxa básica de juros e da meta de inflação do país, Stiglitz avalia que o petista está correto em suas preocupações.

“Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva, estrangula as empresas brasileiras, enfraquece a economia do país. Então o presidente Lula está absolutamente correto em estar preocupado com essas questões”, diz Stiglitz à BBC News Brasil.

“A pesquisa teórica mais recente, realizada em um período longo de tempo, mostra que, em momentos de rápido ajuste da economia e mudança estrutural – o tipo de coisa que estamos vivendo no mundo pós-covid e à medida que rumamos para a transição verde –, uma taxa de inflação mais alta na verdade facilita o ajuste”, afirma.

Conselheiro durante o governo do democrata Bill Clinton (1995-1997) e atualmente copresidente da ICRICT (sigla em inglês para Comissão Independente de Reforma Tributária Internacional de Empresas), Stiglitz defende que o combate à desigualdade deve estar no topo das prioridades da reforma tributária brasileira – cuja proposta o governo Lula pretende apresentar ainda neste primeiro semestre.

“Obviamente é importante ter um sistema tributário eficiente e isso exige simplificação. Mas o que é ainda mais ou igualmente importante para o Brasil é reformular o sistema tributário para combater a desigualdade”, afirma o economista, um dos defensores de um imposto global sobre multinacionais e do aumento da tributação sobre os mais ricos.

“Eu não posso opinar sobre a política brasileira, mas acredito que aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade. Diante do elevado nível de desigualdade do país, isso deve estar no topo da agenda.”

O economista americano Joseph Stiglitz e o francês Thomas Piketty durante evento em 2019
Legenda da foto,Joseph Stiglitz e o francês Thomas Piketty são membros da ICRICT, comissão que defende uma reforma no sistema internacional de taxação de empresas

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Em um artigo recente, o senhor argumentou que elevar juros não é a melhor forma de combater a inflação quando ela é provocada principalmente por restrições de oferta e mudanças no padrão de consumo. O senhor acredita que os bancos centrais do mundo estão errados na forma como estão combatendo a atual alta global dos custos de vida?

Joseph Stiglitz – Primeiro, deixe-me dizer que as taxas de juros estavam anormalmente baixas, próximas de zero desde a grande recessão de 2008. Então fazia sentido para os bancos centrais aproveitarem a situação atual para normalizar as taxas de juros.

Mas agora estamos passando deste ponto, para além da normalização. E acredito que isso seja um erro.

BBC News Brasil – Por que o senhor acredita nisso?

Stiglitz – Quando escrevi aquele artigo, a evidência para mim era clara de que a principal fonte da inflação eram interrupções do lado da oferta causadas pela pandemia e, em alguma medida, pela invasão russa à Ucrânia. Havia ainda alguns choques do lado da demanda relacionados à pandemia que também eram inflacionários.

Desde que eu escrevi aquilo, a evidência tem reforçado minha conclusão, com a inflação [nos EUA] recuando ainda mais, à medida que os gargalos do lado da oferta foram sendo resolvidos, os preços do petróleo baixaram e outros preços se normalizaram.

Outra coisa que preocupa os bancos centrais, e com razão, são espirais de preços e salários [quando a inflação impulsiona aumentos de salários, o que alimenta ainda mais a inflação]. E não há evidências disso, os salários [nos EUA] não estão acompanhando os preços, o rendimento real está em queda e as expectativas de inflação seguem fracas, mostrando que os participantes do mercado parecem ter visões consistentes com o que eu apresentei.

Tudo isso significa que a política de elevar taxas de juros, que é a resposta normal para um excesso de demanda agregada, é inapropriada no contexto atual. E uma das coisas que eu argumento é que isso pode, na verdade, exacerbar as pressões inflacionárias.

Porque, por exemplo, uma das coisas necessárias para aliviar pressões no lado da oferta é investimento. E taxas de juros elevadas tornam esse investimento mais difícil.

Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos
Legenda da foto,’A política de elevar taxas de juros, que é a resposta normal para um excesso de demanda agregada, é inapropriada no contexto atual’, diz Stiglitz. Na foto, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA

BBC News Brasil – E o senhor acredita que isso é válido somente para os EUA ou o mesmo argumento pode ser usado para outros países que enfrentam inflação neste momento?

Stiglitz – Esse argumento serve para quase todos os países que enfrentam inflação atualmente. Na maioria deles, o argumento é até mais forte, porque, na maioria, muito da inflação é importada. Ou seja, vem de produtos trazidos ou precificados no exterior.

BBC News Brasil – No Brasil, o presidente Lula está travando há semanas um embate com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o nível da taxa básica de juros do país, que está atualmente acima dos 13%. Lula argumenta que os juros estão estrangulando a economia, enquanto Campos Neto defende o mandato do Banco Central de perseguir a meta de inflação do país, de cerca de 3%. Como o senhor vê essa disputa no Brasil?

Stiglitz – Primeiro, é preciso dizer que metas de inflação – que na Europa [e nos EUA] é de 2%, e você falou em 3% [no Brasil] – são tiradas do nada. Elas não têm base alguma na teoria econômica ou na experiência econômica.

Há preocupação com uma espiral inflacionária, mas neste momento não há evidências disso. Eu não sei todos os detalhes para o Brasil, mas posso dizer enfaticamente que não há evidência de uma espiral inflacionária nos EUA e, de maneira geral, globalmente.

Então não é um número mágico, 2% ou 3%, mas se há uma espiral inflacionária que está se tornando descontrolada.

Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva, estrangula as empresas brasileiras, enfraquece a economia do país. Então o presidente Lula está absolutamente correto em estar preocupado com essas questões.

Voltando à questão da meta de inflação, a pesquisa teórica mais recente, realizada em um período longo de tempo, mostra que, em momentos de rápido ajuste da economia e mudança estrutural – o tipo de coisa que estamos vivendo no mundo pós-covid e à medida que rumamos para a transição verde –, uma taxa de inflação mais alta na verdade facilita o ajuste.

Então a performance econômica em geral será melhor se a taxa de inflação for ligeiramente mais alta. Eu acredito enfaticamente nisso no caso dos EUA, que não devemos nos limitar a [uma meta de inflação de] 2%.

Por fim, mesmo que você acredite que deve haver uma meta de 2% ou 3%, não há nenhuma teoria ou evidência empírica de que voltar [de uma inflação mais elevada] para esses 2% ou 3% num período curto de tempo seja a melhor prática. Assim como o número é tirado do nada, a velocidade para voltar a esse número é tirada do nada.

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil
Legenda da foto,’Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva’, diz Stiglitz, ao comentar embate entre o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto (foto), e o governo Lula

BBC News Brasil – Enquanto esse debate acontece no Brasil, muitos economistas têm lembrado de intervenções mal sucedidas na política monetária feitas por governos em anos recentes. Eles citam casos como o da Turquia e da Argentina, que acabaram resultando em mais inflação e forte desvalorização das moedas locais. Como o senhor vê essas preocupações? Acredita que esse pode ser um risco para o Brasil, caso Lula seja bem sucedido em mudar a lei que atualmente garante a independência do Banco Central?

Stiglitz – Acredito que há questões distintas. Obviamente, alguns governos têm instituições fracas e herdaram problemas institucionais que vão além de apenas um aspecto, como o Banco Central. Então seria errado dizer que porque o Zimbábue ou a Venezuela têm um problema, devemos ficar de mãos atadas.

Falando na perspectiva dos EUA, nós temos uma democracia forte – ou pelo menos tínhamos antes de Trump – e nossos líderes políticos sabem que podem ser responsabilizados e que, se houver uma espiral inflacionária, eles vão pagar o preço.

Então é do interesse deles manter a inflação controlada, reduzi-la e, ao mesmo, proteger os trabalhadores e aqueles que são negativamente afetados pela inflação. Então é preciso fazer as duas coisas [controlar a inflação e garantir a geração de empregos].

De maneira mais ampla, quando enfrentamos mudanças sociais e econômicas complexas, é necessário coordenação entre as políticas fiscal e monetária [a política fiscal diz respeito ao controle dos gastos e da arrecadação do governo, já a política monetária trata do controle da quantidade de dinheiro em circulação na economia, o que é feito através da taxa de juros].

Nos EUA, nós temos um banco central independente. Mas Paul Volcker, um destacado presidente do conselho do Federal Reserve [Fed, o banco central americano], uma vez disse: “O Congresso nos criou, e o Congresso pode nos ‘descriar’.”

Então ele tinha muita ciência de que sua independência não era absoluta e de que precisava agir de determinadas maneiras que respondessem às necessidades da sociedade. Isso significa que ele precisava em certo sentido coordenar sua ação com o que estava acontecendo.

Então a questão da independência do Banco Central é às vezes tomada como algo sagrado. Na minha visão, é bom estrutural institucionalmente, mas precisa reconhecer a necessidade de coordenação, e também de conhecimento especializado e profissionalismo.

Print de twit da gestora de recursos Wealth High Governance usando os exemplos de Turquia e Argentina para criticar possível mudança de meta de inflação no Brasil
Legenda da foto,Economistas têm lembrado de intervenções mal sucedidas na política monetária feitas por governos em anos recentes, como na Turquia e Argentina. Na imagem, exemplo de twit da gestora de recursos Wealth High Governance

BBC News Brasil – Mudando de assunto para outra área de sua especialidade, a equipe econômica de Lula espera aprovar uma reforma tributária esse ano. Essa reforma deve ter uma primeira etapa focada em simplificar impostos sobre o consumo em um imposto sobre valor adicionado, e uma segunda etapa focada no Imposto de Renda. Como alguém que vem discutindo há anos o uso da tributação como uma forma de combater a desigualdade, qual o conselho do senhor para o Brasil, às vésperas de uma reforma?

Stiglitz – Obviamente é importante ter um sistema tributário eficiente e isso exige simplificação. Mas o que é ainda mais ou igualmente importante para o Brasil é reformular o sistema tributário para combater a desigualdade, tornando esse sistema mais progressivo [que arrecada mais de quem tem mais renda e patrimônio].

Eu não posso opinar sobre a política brasileira, mas acredito que aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade. Diante do elevado nível de desigualdade do país, isso deve estar no topo da agenda.

BBC News Brasil – E quais seriam as formas de fazer isso? Mudar a tributação sobre a renda ou taxar os mais ricos, essas poderiam ser algumas das maneiras de conseguir isso?

Stiglitz – O imposto de renda, a taxação de fortunas, a taxação de heranças e a elevação do imposto de renda corporativo são instrumentos efetivos para enfrentar a desigualdade, mas não são os únicos. Diversos países da América Latina estão discutindo como aumentar o grau de progressividade de seus sistemas tributários, Chile e Colômbia em particular. E, diante do alto nível de desigualdade no Brasil, acredito que isso deve ser uma prioridade.

Fernando Haddad
Legenda da foto,Governo pretende apresentar proposta de reforma tributária ainda neste semestre, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (foto)

BBC News Brasil – Passando à relação entre Brasil e Estados Unidos. Os EUA indicaram que devem doar ao Fundo Amazônia brasileiro, após o encontro entre Biden e Lula no início de fevereiro. O valor da doação ainda não está definido, mas o número inicial de US$ 50 milhões teria desapontado as autoridades brasileiras. O senhor acredita que a gestão Biden está fazendo o suficiente para ajudar os países em desenvolvimento a combater as mudanças climáticas?

Stiglitz – Em resumo, não. Mas o espaço para manobra é limitado, porque os democratas não têm controle suficiente sobre o Congresso para garantir o orçamento necessário. Tivemos uma batalha dura para conseguir recursos para investimentos verdes nos EUA, que devem não somente acelerar nossa transição verde, mas também aumentar a produtividade no país.

Então acredito que deveríamos estar fazendo mais, que a mudança climática é uma questão global e, como somos o país mais rico do mundo, deveríamos fazer um esforço proporcional.

Mas tenho esperanças de que, com a escolha do novo presidente do Banco Mundial, que deverá ser anunciado em breve, o banco possa fazer um esforço maior, com o apoio dos EUA, para endereçar a questão da mudança climática em mercados emergentes.

[Nota da redação: O atual presidente do Banco Mundial, David Malpass, anunciou em 15 de fevereiro que deixará o cargo em junho, um ano antes do término de seu mandato. A renúncia inesperada do indicado por Donald Trump acontece em meio a críticas à atuação tímida do banco em temas como combate à pandemia, à pobreza e ao aquecimento global. Na semana passada, Biden indicou o empresário indiano-americano Ajay Banga, ex-CEO da Mastercard, ao cargo. A nomeação ainda terá de ser confirmada pelo conselho de administração do banco.]

Presidentes Lula e Joe Biden durante encontro na Casa Branca, em 10 de fevereiro
Legenda da foto,Presidentes Lula e Joe Biden durante encontro na Casa Branca: ‘Acredito que deveríamos estar fazendo mais, que a mudança climática é uma questão global’, diz Stiglitz, sobre apoio da gestão Biden a países em desenvolvimento

BBC News Brasil – Num momento em que o Brasil tenta reafirmar seu lugar no mundo como uma liderança em sustentabilidade e o governo busca recuperar a economia após anos de baixo crescimento, qual pode ser o papel dos investimentos verdes nesse processo? O senhor acredita que o Brasil deve buscar seu próprio “Green New Deal” [proposta da esquerda do Partido Democrata americano que associa agenda ecológica e geração de empregos]?

Stiglitz – Sim. Acredito que todos os países precisam reconhecer que estamos caminhando rapidamente dos combustíveis fósseis para a energia verde.

Os países que se moverem mais cedo e mais rapidamente terão uma vantagem competitiva. Eles vão aprender a dominar as novas tecnologias. Em economia falamos em “percorrer a curva de conhecimento”.

Diante do alto nível de competência técnica do Brasil, da qualidade de seus engenheiros e da diversidade da sua economia, acredito que o Brasil está em posição para ter um papel de liderança entre os países emergentes nessa transição para uma economia verde.

Os presidentes Gustavo Petro (Colômbia) e Gabriel Boric (Chile) durante encontro em Santiago, em 9 de janeiro
Legenda da foto,Gustavo Petro (Colômbia) e Gabriel Boric (Chile), dois dos presidentes latino-americanos de centro-esquerda. Somente Uruguai, Paraguai, Equador e Guatemala são comandados hoje por líderes de direita na região.

BBC News Brasil – Numa entrevista à BBC em 2020, o senhor disse que a onda de protestos na América Latina naquele momento estava acontecendo tarde, diante do nível de desigualdade na região. Como resultado daquela onda de descontentamento, muitos países elegeram governos de esquerda. Mas há um temor de que esses novos governos tenham “luas de mel” breves, diante do descontentamento ainda presente, combinado à inflação elevada e restrições fiscais. O senhor acredita que é possível esses governos serem bem sucedidos nesse contexto, e em meio a uma economia mundial em desaceleração?

Stiglitz – Sim, mas vai ser difícil. Eles chegaram ao poder num momento muito, muito complicado. Tem a pandemia, a inflação.

No caso do Brasil, Lula herdou uma absoluta bagunça do governo Bolsonaro. Em certa medida, dá para dizer que não poderia ser pior, por que ele começa em um ambiente em que é preciso consertar o caos criado pela administração anterior.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os republicanos vivem falando em responsabilidade fiscal, mas toda vez que chegam ao governo, eles criam déficits imensos. Trump fez isso, [Ronald] Reagan fez isso. Então toda vez os democratas precisam consertar a bagunça herdada. Foi necessário [Bill] Clinton para reequilibrar o Orçamento [após a gestão de George H. W. Bush].

Então há sempre uma desvantagem para os governos de centro-esquerda responsáveis, como Lula, de corrigir a desordem herdada. E o caos é ainda maior porque Bolsonaro, como Trump, dividiu a sociedade. E, obviamente, quando você tem uma sociedade polarizada é muito mais difícil conseguir a solidariedade e coerência que ajudariam a endereçar os problemas sociais.

Acredito que a resposta tem que ser, como dizemos nos EUA, que esses governos de centro-esquerda não podem tirar o olho da bola. Eles foram eleitos para criar um senso melhor de prosperidade compartilhada [uma outra forma de dizer crescimento inclusivo, que abrange a melhora de vida da parcela mais pobre da população].

É interessante que, em muitos sentidos, eles [os governos de centro-esquerda] se tornaram melhores gestores da economia. Digo isso porque a economia do século 21 é baseada em inovação, competição, alto nível de capital humano e boa infraestrutura pública.

E os governos de direita que eles substituíram eram centrados em monopólios, grandes empresas, competição limitada e investimentos insuficientes nas pessoas e em infraestrutura. A agenda econômica da direita levou a um baixo crescimento e fraca performance econômica.

Então, embora os governos de centro-esquerda tenham herdado uma bagunça, se eles mantiverem o olho na bola e o foco no objetivo de atacar esses problemas e criar uma prosperidade compartilhada, acredito que serão bem-sucedidos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A verdade sobre a economia para os ricos de Trump, por Joseph E. Stiglitz



Para obter uma boa leitura da saúde econômica de um país, comece analisando a saúde de seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no fim da lista nesse sentido.

do Project Syndicate

A verdade sobre a economia de Trump

por Joseph E. Stiglitz

Está se generalizando a crença de que será difícil de vencer o presidente dos EUA, Donald Trump, em novembro, porque, quaisquer que sejam as reservas que os eleitores tenham a ele, ele tem sido bom para a economia americana. Nada poderia estar mais longe da verdade.
NOVA YORK – À medida que as elites empresariais do mundo viajam para Davos para sua reunião anual, as pessoas devem fazer uma pergunta simples: eles superaram seu deslumbramento pelo presidente dos EUA, Donald Trump?
Dois anos atrás, alguns raros líderes corporativos estavam preocupados com as mudanças climáticas, ou incomodados com a misoginia e intolerância de Trump. A maioria, no entanto, estava comemorando os cortes de impostos do presidente para bilionários e corporações e aguardava ansiosamente seus esforços para desregular a economia. Isso permitiria que as empresas poluíssem mais o ar, viciassem mais americanos com os opióides, seduzissem mais crianças a comerem alimentos indutores de diabetes e se engajassem naquele tipo de travessura financeira que provocou a crise de 2008.
Hoje, muitos chefes de corporações ainda estão falando sobre o crescimento contínuo do PIB e os preços recordes das ações. Mas nem o PIB nem o Dow são uma boa medida do desempenho econômico. Nem nos diz o que está acontecendo com os padrões de vida dos cidadãos comuns, nem nada sobre sustentabilidade. Na realidade, o desempenho econômico dos EUA nos últimos quatro anos é o indício chave para não confiar nesses indicadores.
Para obter uma boa leitura da saúde econômica de um país, comece analisando a saúde de seus cidadãos. Se forem felizes e prósperos, serão saudáveis e viverão mais. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão no fim da lista nesse sentido. A expectativa de vida nos EUA, já relativamente baixa, caiu em cada um dos dois primeiros anos da presidência de Trump e, em 2017, a mortalidade na meia-idade atingiu sua taxa mais alta desde a Segunda Guerra Mundial. Isso não é uma surpresa, porque nenhum presidente se esforçou mais para garantir que mais americanos não tivessem seguro de saúde. Milhões perderam a cobertura e a taxa de não-segurados subiu, em apenas dois anos, de 10,9% para 13,7%.
Uma das razões para o declínio da expectativa de vida nos Estados Unidos é o que Anne Case e o economista laureado com o prêmio Nobel, Angus Deaton, chamam de mortes por desespero, causadas por álcool, overdose de drogas e suicídio. Em 2017 (o ano mais recente para o qual existem bons dados disponíveis), essas mortes atingiram quase quatro vezes o nível de 1999.
A única vez em que vi algo desse declínio na saúde – fora de guerra ou epidemias – foi quando eu era economista-chefe do Banco Mundial e descobri que os dados de mortalidade e morbidade confirmavam o que nossos indicadores econômicos sugeriam sobre o estado sombrio da economia russa após a dissolução da União Soviética.
Trump pode ser um bom presidente para o top 1% – e especialmente para o top 0,1% -, mas ele não tem sido bom para nenhum outro grupo. Se totalmente implementado, o corte de impostos de 2017 resultará em aumentos de impostos para a maioria das famílias no segundo, terceiro e quarto quintis de renda.
Dado que os cortes de impostos beneficiam desproporcionalmente os ultrarricos e as empresas, não deveria surpreender que não houvesse uma mudança significativa na renda disponível da família média dos EUA entre 2017 e 2018 (novamente, o ano mais recente com bons dados). A maior parte do aumento do PIB também vai para os que estão no topo. Os ganhos médios semanais reais estão apenas 2,6% acima do seu nível quando Trump assumiu o cargo. E esses aumentos não compensaram longos períodos de estagnação salarial. Por exemplo, o salário médio de um trabalhador do sexo masculino em tempo integral (e aqueles com empregos em tempo integral são os sortudos) ainda está mais de 3% abaixo do que era há 40 anos. Também não houve muito progresso na redução das disparidades raciais: no terceiro trimestre de 2019, os ganhos médios semanais para homens negros, que trabalhavam em período integral, eram menos de três quartos do nível para homens brancos.
Para piorar a situação, o crescimento que ocorreu não é ambientalmente sustentável – e ainda menos graças aos cortes nas regulamentações do governo Trump que passaram por rigorosas análises de custo-benefício. O ar será menos respirável, a água menos potável e o planeta mais sujeito às mudanças climáticas. De fato, as perdas relacionadas às mudanças climáticas já atingiram novos máximos nos EUA, que sofreram mais danos à propriedade do que qualquer outro país – atingindo cerca de 1,5% do PIB em 2017.
Os cortes de impostos deveriam estimular uma nova onda de investimentos. Em vez disso, eles desencadearam uma série de recordes históricos de recompra de ações – cerca de US $ 800 bilhões em 2018 – por algumas das empresas mais rentáveis dos Estados Unidos, e levaram a déficits recordes em tempos de paz (quase US $ 1 trilhão no ano fiscal de 2019) em um país supostamente próximo do pleno emprego. E mesmo com investimentos fracos, os EUA tiveram que tomar empréstimos de grandes proporções no exterior: os dados mais recentes mostram empréstimos estrangeiros em quase US $ 500 bilhões por ano, com um aumento de mais de 10% na posição de endividamento líquido dos Estados Unidos em apenas um ano.
Da mesma forma, as guerras comerciais de Trump, apesar de todo o seu barulho e fúria, não reduziram o déficit comercial dos EUA, que foi um quarto mais alto em 2018 do que em 2016. O déficit de mercadorias em 2018 foi o maior já registrado. Até o déficit no comércio com a China aumentou quase um quarto em relação a 2016. Os EUA chegaram a um novo acordo comercial norte-americano, sem as disposições do acordo de investimento que a Rodada de Negócios desejava, sem as disposições que aumentavam os preços dos medicamentos que as empresas farmacêuticas queriam, e com melhores provisões trabalhistas e ambientais. Trump, um autoproclamado mestre de acordos, perdeu quase todas as frentes em suas negociações com os democratas do Congresso, resultando em um acordo comercial ligeiramente melhorado.
E, apesar das prometidas promessas de Trump de devolver os empregos industriais aos EUA, o aumento no emprego industrial ainda é menor do que o de seu antecessor, Barack Obama, após a recuperação pós-2008, e ainda está muito abaixo da pré-crise nível. Até a taxa de desemprego, no nível mais baixo em 50 anos, oculta a fragilidade econômica. A taxa de emprego para homens e mulheres em idade ativa, apesar de aumentar, aumentou menos do que durante a recuperação de Obama e ainda está significativamente abaixo da de outros países desenvolvidos. O ritmo de criação de empregos também é notavelmente mais lento do que no período de Obama.
Novamente, a baixa taxa de emprego não é uma surpresa, até porque pessoas não saudáveis não podem trabalhar. Além disso, aqueles que recebem benefícios por incapacidade, estão na prisão – a taxa de encarceramento nos Estados Unidos aumentou mais de seis vezes desde 1970, com cerca de dois milhões de pessoas atualmente atrás das grades – ou estão tão desanimados que não mais procuram ativamente empregos, não são contabilizados como “desempregados”. Mas, é claro, eles não estão empregados. Também não é uma surpresa que um país que não oferece assistência à infância acessível ou garanta licença familiar tenha menor emprego feminino – ajustado pela população, mais de dez pontos percentuais a menos – do que outros países desenvolvidos.
Mesmo a julgar pelo PIB, a economia Trump fica aquém. O crescimento do último trimestre foi de apenas 2,1%, muito abaixo dos 4%, 5% ou 6% que Trump prometeu entregar e ainda menos que a média de 2,4% do segundo mandato de Obama. Esse é um desempenho notavelmente ruim, considerando o estímulo proporcionado pelo déficit de US $ 1 trilhão e pelas taxas de juros ultrabaixas. Isso não é um acidente, ou apenas uma questão de má sorte: a marca de Trump é incerteza, volatilidade e enganação, enquanto confiança, estabilidade e segurança são essenciais para o crescimento. O mesmo acontece com a igualdade, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.
Portanto, Trump merece notas ruins, não apenas em tarefas essenciais, como defender a democracia e preservar nosso planeta. Ele também não deve receber aprovação no quesito economia.

domingo, 7 de julho de 2019

A busca da economia ética contra a especulação e ataques dos rentistas neoliberais antidemocráticos, por Jospeh Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia



É através do nosso sistema político que as regras da economia são estabelecidas, e quando os resultados dessas regras são inaceitáveis - como na crise de 2008 - as conseqüências devem ser abordadas e resolvidas através de mudanças radicais.


Do TLS

Agora está claro que algo está fundamentalmente errado com o capitalismo moderno. A crise financeira global de 2008 mostrou que o sistema atualmente construído não é nem eficiente nem estável. Se uma série de dados ainda não nos convenceu de que, durante quarenta anos de crescimento econômico lento nas economias avançadas, os benefícios foram majoritariamente superiores aos 1% – ou 0,1% -, os votos anti-establishment nos Estados Unidos e no Reino Unido certamente deveria. Os principais economistas, governadores dos bancos centrais e políticos centristas de Blair e Clinton, que nos colocaram e mantiveram esse curso sombrio e declararam confiantemente que a globalização e a liberalização do mercado financeiro trariam crescimento sustentado e benefícios financeiros para todos, foram profundamente desacreditados.
Considerando a devastação provocada por políticas financeiras equivocadas, ao longo da última década em particular, poder-se-ia razoavelmente esperar uma revolução na profissão de economia semelhante à keynesiana no rescaldo da Grande Depressão. Mas tendemos a esquecer que, nos anos 1930, à medida que a economia afundava cada vez mais na depressão, muitos economistas nos EUA e no Reino Unido se atinham ao laissez-faire. Os mercados se corrigiriam, disseram eles; não há necessidade de se intrometer. E mesmo depois de John Maynard Keynes brilhantemente articulado o que estava errado, e como as ações do governo poderiam corrigir as coisas, um grande número de economistas não queria seguir suas prescrições, por medo ideológico de intervenção excessiva do governo. Portanto, não é surpresa, na verdade, que a resposta da profissão de economia à crise de 2008 tenha sido lenta e hesitante.
É assim que a disciplina funciona. Cinco anos antes da crise, o economista ganhador do Prêmio Nobel, Robert Lucas, capturou o espírito da profissão quando afirmou orgulhosamente que “a macroeconomia… teve sucesso: seu problema central de prevenção da depressão foi resolvido, para todos os efeitos práticos, e tem de fato resolvido por muitas décadas ”. Para ser claro: com isso, Lucas não quis dizer que o problema havia sido resolvido por Keynes e seus discípulos, mas pelos seguidores de outro ganhador do Prêmio Nobel, Milton Friedman, no que veio a ser chamado de “nova economia clássica” e “negócios reais”, “ciclos ”(essencialmente a ideia de que choques econômicos são respostas eficientes do mercado). E enquanto muitos desses economistas friedmanistas permaneceram extraordinariamente aquiescentes após a crise, a ideologia e os conjuntos de crenças que eles impulsionaram e que têm responsabilidade significativa pela crise permanecem vivos e bem.
É por isso que esses três livros bem escritos de eminentes estudiosos são muito bem-vindos. Juntos, eles montam um ataque convincente à ortodoxia estabelecida – convencendo, pelo menos, àqueles que não estão ligados às teorias desacreditadas – e propõem remédios para corrigir algumas de suas falhas. Suas idéias, muitas delas originais e intrigantes, fornecem uma base para a tão necessária reforma de nossa economia e da profissão econômica. Paul Collier, por exemplo, em O Futuro do Capitalismo: Enfrentar as novas ansiedades propõe um imposto não apenas sobre a terra urbana – sobre as rendas que se acumulam como resultado do aumento da produtividade da aglomeração econômica em nossas prósperas cidades – mas sobre as altas renda dos trabalhadores urbanos que compartilham dessa prosperidade (veja o artigo de Collier no TLS, 27 de janeiro de 2017). Mesmo assim, mesmo tomadas em conjunto, essas idéias estão longe de ser abrangentes ou suficientemente desenvolvidas para fornecer um paradigma alternativo às doutrinas econômicas neoliberais que predominaram nas últimas décadas.
Nosso atual sistema econômico é freqüentemente chamado de capitalismo, um termo – como Fred L. Block aponta no Capitalismo: O futuro de uma ilusão – que a esquerda uma vez usou pejorativamente e a direita agora defende como se fosse uma estrutura imutável e nobre que proporciona um crescimento milagroso e interminável, do qual todos se beneficiam, ou se apenas o governo não interferisse. Mas todas as premissas subjacentes deste termo são erradas: nenhuma economia, e certamente nenhuma economia moderna, tem um setor privado que funciona no vácuo. O governo está bem ao lado dele, promulgando regras e regulamentos, reforçando os padrões comerciais, apoiando o sistema bancário e estabilizando a economia de mercado. O capitalismo não é um sistema rígido. Está sempre mudando. E as promessas feitas por seus defensores mais redutivos – de que a desregulamentação, a privatização e a globalização trarão o bem-estar para a maioria dos cidadãos em todos os países – provaram estar terrivelmente erradas. (A globalização, para seu crédito, contribuiu para a enorme diminuição da pobreza global: os sucessos na Ásia Oriental, em particular na China, onde cerca de 740 milhões foram retirados da pobreza, não teriam sido possíveis sem ela. a globalização mal administrada e injusta, com grandes subsídios agrícolas para as fazendas corporativas nos países avançados, prejudicou os mais pobres dos pobres: trabalhadores rurais nos países menos desenvolvidos.)
Duas outras crises acompanham a crise em nossa economia. O primeiro é uma crise em nossa democracia, pois os dois são inseparáveis. É através do nosso sistema político que as regras da economia são estabelecidas, e quando os resultados dessas regras são inaceitáveis – como na crise de 2008 – as conseqüências devem ser abordadas e resolvidas através de mudanças radicais. E esses tipos de mudanças têm que ser feitos através do sistema político – caso contrário, as coisas só vão piorar, especialmente quando uma terceira crise de interconexão é levada em consideração: o meio ambiente. Infelizmente, nenhum desses livros enfrenta o fracasso do nosso sistema em abordar a questão existencial do momento: a mudança climática.
Em um nível, eu simpatizo com o chamado de Collier para me afastar da ideologia e do extremismo, e sua ênfase no pragmatismo. Ele é um centrista de esquerda forte, moralmente motivado e se opõe aos excessos de ambos os extremos. Afinal, qualquer estudante de revolução sabe onde essas ideologias quase inevitavelmente levam. Mas foi o pragmatismo – o pragmatismo de Tony Blair e Bill Clinton, apoiado pelo que eles chamariam de “políticas baseadas em evidências” – que nos ajudaram a entrar na bagunça atual, e o incrementalismo não nos levará para fora. Quando sua geração e a geração de seus pais estavam crescendo, a era progressista da América e o New Deal trouxeram mudanças radicais (embora, para todos os epítetos lançados contra eles, longe de serem revolucionários) das quais todos nós nos beneficiamos enormemente. Da mesma forma, na Grã-Bretanha, as reformas foram feitas durante o governo trabalhista pós-guerra de Clement Attlee. O mesmo vale para a macroeconomia keynesiana. Todas essas políticas transformaram nossa concepção do papel do Estado e nos mostraram as possibilidades, até mesmo as necessidades, da ação coletiva. Imagine quão pior seria o mal-estar de hoje se não fosse pelas ações radicais das gerações anteriores.
Collier começa seu livro com uma descrição contundente das divisões que separam tantos países desenvolvidos, divisões entre cidades prósperas como Londres e Nova York e cidades provinciais e áreas rurais, e entre as elites educadas e os cidadãos com escolaridade limitada. Não muito tempo atrás, a teoria econômica predominante era “convergência”. Isso argumentava que havia forças econômicas subjacentes que reduziriam as discrepâncias na renda entre diferentes lugares, à medida que o capital se deslocava dos países ricos para os pobres, dos trabalhadores dos países pobres para os ricos e o comércio elevava os salários não qualificados nos países em desenvolvimento e nos países desenvolvidos. . Este último ponto raramente foi enfatizado – pois previu que a globalização por si só, sem intervenções governamentais significativas, incluindo a redistribuição, poderia deixar piores as grandes regiões dos países avançados. Mas o raciocínio era direto, e deveria ter sido óbvio para qualquer um que tivesse tomado um curso de iniciante em economia: mão-de-obra e, especialmente, mão-de-obra não qualificada, era relativamente abundante em países em desenvolvimento e emergentes, o que significava que esses países seriam exportadores líquidos. bens com uso intensivo de mão-de-obra (especialmente bens que requerem mão-de-obra não qualificada) para países avançados. Como a produção desses bens declinou nos países avançados, a demanda por mão-de-obra (especialmente a mão-de-obra não qualificada) diminuiu, levando a salários mais baixos e desemprego mais alto. Como Collier nos mostra, em vez da convergência geral prevista, a evidência agora sugere um quadro mais complexo, com os mercados emergentes convergindo para os países avançados, enquanto as brechas se ampliam entre os cidadãos mais pobres e mais ricos dentro e entre os países.
Robert Skidelsky, cujo dinheiro e governo: Um desafio para a economia mainstream é mais voltado para economistas do que os outros dois livros em análise, concentra sua atenção em fracassos macroeconômicos – a incapacidade da economia para evitar crises decrépitas e seu corolário, alto desemprego. A crise de 2008 mostrou vividamente que Lucas estava errado. As flutuações que fizeram parte do capitalismo desde o início ainda estavam conosco. Enquanto economistas da direita, como Friedman, por muito tempo culparam o governo por essas flutuações – e nos Estados Unidos o fizeram novamente depois de 2008 – a esmagadora evidência mostra que os delitos do setor financeiro privado foram responsáveis ​​por provocar a recessão global. Naturalmente, o que o governo fez e o que não fez moldou as conseqüências dos fracassos do setor privado: a recusa do governo dos EUA de resgatar o Lehman Brothers desencadeou a crise financeira, enquanto a subsequente intervenção governamental impediu que a crise se transformasse em outra Grande Depressão. Aqueles que, como eu, criticam o resgate por causa do modo como foi feito, e não pelo fato de que foi feito. Poderíamos ter salvado os bancos e seus depositantes sem socorrer os banqueiros e seus acionistas e detentores de títulos. Skidelsky argumenta convincentemente que a desaceleração teria sido ainda mais bem administrada se os conservadores no Reino Unido e os republicanos nos EUA não mantivessem a política fiscal. Com taxas de juros reais negativas (taxas de juros ajustadas pela inflação) em meio à crise, esse era precisamente o momento para investimentos públicos robustos. Nas primeiras semanas de seu governo, em fevereiro de 2009, Barack Obama aprovou uma medida de estímulo aprovada pelo Congresso, no valor de US $ 787 bilhões, que incluiu gastos significativos em infraestrutura e seguiu isso com várias medidas menores, mas dada a escala, escopo e duração provável. da recessão, era improvável que a economia retornasse rapidamente ao pleno emprego. (Eu disse isso na época, e eventos subseqüentes provaram que isso era verdade.) Enquanto estava sob o Partido Trabalhista, o Reino Unido tinha medidas expansionistas mais modestas, que foram revertidas sob o governo de coalizão de David Cameron em 2010. Mesmo se a real “austeridade” fosse por vezes, menos grave do que aquilo que foi reivindicado, constituiu uma mudança na direcção errada, e o Reino Unido sofreu, como resultado, demorando muito tempo a emergir da recessão e depois a registar anos de crescimento lento. A noção de uma “contração expansionista” provou ser a quimera que economistas como Skidelsky disseram que seria. Haveria um duplo dividendo – rendas mais altas hoje e no futuro.
Até mesmo os republicanos da América concordaram que esse investimento era muito necessário. Alegadamente, eles se preocuparam com o déficit resultante, que é o que os reteve; no entanto, não foi o déficit, mas a ideologia que impulsionou sua oposição à política fiscal: eles queriam impedir que o Estado assumisse um papel crescente. Apesar da tão alardeada promessa de Donald Trump de investir em infra-estrutura, isso não parece ser algo que ele, e certamente seus colegas republicanos, levaram a sério, e sua mais recente (ainda não realizada, e com virtualmente zero sua proposta, em fevereiro, para injetar US $ 200 bilhões fica bem aquém das várias promessas de trilhões de dólares que ele fez na campanha. Em contraste, quando, no primeiro ano da presidência de Trump, os republicanos tiveram a oportunidade de cortar impostos para bilionários e corporações, eles o fizeram com entusiasmo – mesmo quando aumentaram enormemente o déficit: até 2022, os EUA são esperados pelo Orçamento do Congresso. Escritório terá déficits de US $ 1,1 trilhão de dólares, totalizando quase 5% do PIB. E enquanto as estimativas oficiais colocam o aumento total do déficit nos próximos dez anos em cerca de US $ 1,5 trilhão, elas se basearam em cenários de crescimento que já estão perdendo sua credibilidade. Se o crescimento se mostrar mais fraco do que os números rosados, os déficits e a dívida aumentarão.
Todos os três livros dão destaque ao papel da batalha de idéias, explicando como as teorias equivocadas venceram a era de Reagan e Thatcher em diante. Block, por exemplo, detalha o papel desempenhado por vários equívocos sobre nosso sistema econômico e político, começando com o fundamentalismo de mercado (o que eu refiro em meu livro, Globalization and Its Discontents, 2002, como a crença quase religiosa de que os mercados, por conta própria , são eficientes, estáveis e, em certo sentido, justas). Ele mostra com razão que, sem as restrições do governo, os ricos e poderosos moldam o capitalismo para obter vantagem, minando a competição e explorando os outros, acabando por minar o próprio sistema capitalista. Adam Smith reconheceu isso, mas seus seguidores nos últimos dias parecem esquecer-se disso.
Aqui, Skidelsky se junta à sua análise macroeconômica: não há presunção, argumenta Skidelsky, que as economias de mercado obtêm o equilíbrio certo – ou seja, demanda agregada suficiente para garantir pleno emprego sem inflação, uma espécie de economia de ouro de não muito pouco, não muito Muito de. Jean-Baptiste Say afirmou em 1800 que os mercados atingem essa economia de Cachinhos Dourados; a história mostrou que ele estava errado. Keynes, seguindo uma série de escritores anteriores, incluindo John Stuart Mill, explicou as falácias da teoria de Say. Skidelsky acrescenta a essa refutação uma exposição clara e útil: os indivíduos, especialmente quando enfrentam altos níveis de incerteza sobre o futuro, podem decidir converter o poder de compra que ganham da produção de bens em dinheiro, ou, ainda, em qualquer bem não produzido, como a terra. Nesse caso, a demanda agregada por bens produzidos será menor que a oferta. Os macroeconomistas modernos “resolvem” o problema assumindo-o: os modelos-padrão presumem que, de algum modo, a economia está em equilíbrio, com a demanda por trabalho e bens de alguma forma apenas igualando a oferta. O fato de alcançarmos esse belo equilíbrio é, como a crença na própria eficiência do mercado, uma questão de profunda convicção religiosa e o caminho que seguimos para chegar a uma questão de revelação mística. Se surgir um problema nesta teoria abrangente – se houver desemprego, por exemplo – a resposta é simples: culpe a vítima, significando trabalhadores, por exigir salários muito altos, ou migrantes, por inundar o mercado de trabalho. Se apenas os salários fossem suficientemente flexíveis, diz a teoria, ou fronteiras suficientemente proibitivas, a economia estaria sempre em pleno emprego. E se tudo o mais falhar, culpe o governo por estragar tudo.
Como Block coloca, há uma ilusão de que a democracia ameaça a economia; isso levará o governo a inevitavelmente estragar as coisas. Friedman tentou culpar a Grande Depressão pelas políticas equivocadas dos bancos centrais: sua contração da oferta monetária, argumentou ele, foi o que derrubou a economia. Sua análise é agora entendida como ilusória. E o que aconteceu depois do colapso do Lehman Brothers pode fornecer a prova mais convincente. Ninguém poderia imaginar até que ponto os bancos centrais em todo o mundo expandiram a oferta monetária em 2008 e 2009, e ainda assim o mundo experimentou uma profunda recessão. Assim, também, a direita hoje tentou culpar a recessão de 2008, com suas origens na crise do subprime, no incentivo do governo à propriedade imobiliária. E mais uma vez os argumentos foram refutados: ninguém forçou os bancos a fazer empréstimos ruins, a emprestar uma quantia que estava além da capacidade de pagamento dos compradores – na verdade, mesmo encorajando a casa própria, o governo também encorajou a prudência. A Comissão de Inquérito da Crise Financeira, nomeada pelo Congresso para investigar as causas da crise, concluiu que esses programas de propriedade não foram os fatores que originaram a crise financeira; foram as más ações do setor financeiro privado.
Ao mostrar que a intervenção do governo pode evitar os piores excessos do desemprego, Keynes, sem dúvida, salvou o capitalismo, e o mesmo deve ser verdade hoje em dia. O capitalismo deformado, no qual a renda sobe para os que estão no topo, enquanto os salários estagnam e a qualidade de vida se desintegra para a maioria dos cidadãos – um estado de coisas apenas aumentado desde 2008 – não é política ou socialmente sustentável. Se o capitalismo deve ser salvo, o governo terá que mostrar que pode ser reformado, que o capitalismo pode proporcionar prosperidade para todos ou pelo menos para a maioria dos cidadãos.
Há muitos elementos dessa agenda de “reforma”. Collier acertadamente leva as corporações modernas à tarefa por seu foco único no valor do acionista – o que muitas vezes simplesmente significa alinhar os próprios bolsos do CEO. E Block corretamente critica a doutrina da “ganância é boa”, uma idéia que na verdade tem algum pedigree intelectual. Isso aconteceu por meio de uma extensão do teorema da mão invisível de Adam Smith – de que a busca de interesse próprio de indivíduos e empresas levaria, como que por uma mão invisível, ao bem-estar da sociedade. (Como já observamos, Smith entendia as limitações dos mercados não regulamentados, observando, por exemplo, a tendência das empresas de conspirar para aumentar os preços.) Assim, as empresas deveriam simplesmente maximizar seu valor de mercado de ações, aconteça o que acontecer. Para economistas como Friedman, era errado, quase imoral, que as empresas se comprometessem com a responsabilidade corporativa, não conseguindo baixar os salários. Essa noção desempenhou um papel fundamental na reformulação das normas e do arcabouço legal em torno do capitalismo. Foi novamente uma agenda política, com fortes consequências para o crescimento e distribuição. As empresas se concentraram no que poderiam fazer para aumentar o valor das ações hoje, sem pensar no futuro. Isso levou tanto à contabilidade criativa – os investidores enganados a acreditar que as perspectivas futuras da empresa eram melhores do que de fato eram – quanto a diminuir o investimento em fábricas, equipamentos e pessoas. O foco nos retornos de curto prazo – graças às ideias de Friedman – levou a um crescimento mais lento. Uma empresa não pode ter um crescimento de longo prazo baseado em pensamento de curto prazo.
A análise de Friedman baseou-se em argumentos superficiais que, na época em que ele os impulsionou, já haviam sido desacreditados por avanços simultâneos na teoria econômica. Por exemplo, a doutrina da “ganância é boa” foi refutada pelo trabalho (feito na segunda metade do século passado por Kenneth Arrow, Gérard Debreu, Bruce Greenwald e eu) que mostrou que as condições sob as quais o teorema da mão invisível de Smith era true eram tão restritivas que tornavam o teorema irrelevante como uma questão prática. Em suma, esta pesquisa mostrou que os mercados não eram eficientes em geral sempre que a informação era imperfeita e os mercados incompletos – o que é sempre. Se alguém precisasse de evidências empíricas de que a ganância desenfreada era ruim para a economia, bastava olhar para as ações dos banqueiros no período que antecedeu a recessão de 2008: sua voracidade levou a economia global à beira da ruína. Mais uma vez, legisladores, legisladores e políticos pró-negócios da direita não prestaram atenção: seus argumentos econômicos eram simplesmente uma fachada, um meio para um mercado menos regulado que lhes proporcionaria mais oportunidades de lucros, mais chances de explorar e tirar vantagem de outros. .
Uma força desses três livros é que eles saem dos limites estreitos da economia. Essa abordagem é natural para Block, que vem de um departamento de sociologia e cuja visão está profundamente enraizada no trabalho do pensador vienense Karl Polanyi. Mas também não é surpresa para Collier, um eminente economista de desenvolvimento que está particularmente interessado em reconciliação pós-conflito e conflito. Collier reconhece que o colapso econômico é causa e conseqüência do colapso social; mas ele é rápido demais para culpar o paternalismo, os utilitaristas e os globalistas pelas doenças da sociedade. Há razões mais profundas para isso – por exemplo, o colapso do engajamento cívico e o sentimento de isolamento que permeia. Há muitas explicações estruturais que considero mais plausíveis do que aquelas que Collier foca, incluindo os impactos de muitas das novas tecnologias, os extremos do individualismo enfatizados pelo Reaganismo / Thatcherismo e as vertentes dominantes do neoliberalismo, e o declínio da confiança pública por eventos como as guerras do Iraque e do Vietnã e Watergate.
Collier acredita que uma catastrófica falta de moralidade – evidenciada pela ganância é boa doutrina – está no cerne do capitalismo moderno. Ele pede uma família ética, uma empresa ética e uma globalização ética. Essa é a abordagem correta, mas, embora possamos discutir se ele definiu esses conceitos adequadamente, ou até mesmo forneceu bases filosóficas suficientes, a questão central é: como podemos alcançar essa sociedade ética? Collier não responde de forma persuasiva, nem vai longe o bastante para expor os lapsos éticos das economias e sociedades capitalistas do século XXI. Afinal de contas, o que podemos dizer sobre a ética de uma sociedade que parece estar disposta a comprometer a saúde e o bem-estar das futuras gerações ao consumir, com carência, mais bens materiais intensivos em carbono hoje? Os manifestantes de colete amarelo em Paris, enquanto clamam contra um imposto verde progressivo destinado a garantir o futuro do planeta, estão, com razão, imaginando como terão dinheiro suficiente para chegar ao final do mês. O que mostra que um capitalismo verdadeiramente ético deve abordar simultaneamente a desigualdade estrutural e o meio ambiente. O tempo não está do nosso lado. O tipo de pragmatismo e centrismo defendido por Collier não servirá se quisermos reagir com prudência aos riscos reais que enfrentamos. O Green New Deal, proposto por um grupo de jovens democratas nos EUA, está mais próximo da meta: uma mobilização de recursos da magnitude que cabe à tarefa e feita de forma a reestruturar a economia para que os “coletes amarelos” do mundo ”Não estão mais vivendo as vidas precárias que foram. Eu acredito que esses jovens democratas estão certos. De fato, haveria um enorme aumento na renda nacional se eliminássemos a discriminação e o desemprego, reformassemos nossos mercados de trabalho para facilitar que mais mulheres e trabalhadores mais velhos participassem em igualdade de condições no local de trabalho e reduzissem as distorções decorrentes de empresas com mercado. poder. Este aumento de renda seria um longo caminho no sentido de fornecer os recursos necessários para o Green New Deal. Sem dúvida, precisaríamos fazer mais: redistribuindo recursos – inclusive reduzindo o consumo excessivo e conspícuo dos ricos por meio de impostos mais progressivos e reduzindo o efetivo militar (a segurança global é a ameaça real à segurança no longo prazo). Essa agenda alcançaria não apenas um crescimento maior, mas uma prosperidade mais equitativa e sustentável.
Collier está certo em se preocupar com o extremismo, e o nativismo e a fealdade sintetizados por Trump – o que Collier chama de “nacionalismo excludente”. Mas seu diagnóstico da causa principal é equivocado. Ele conclui seu livro com o seguinte argumento: “Evitando o pertencimento compartilhado e o patriotismo benigno que ele pode apoiar, os liberais abandonaram a única força capaz de unir nossas sociedades aos remédios. Inadvertidamente, imprudentemente, eles o entregaram aos extremos charlatães, que estão alegremente torcendo-o para seus próprios propósitos distorcidos ”. Esta posição parece injusta. Esses não são os liberais que conheço, que lutaram para enriquecer a vida coletiva de nossas nações. Uma pessoa pode ser cidadã do mundo, cidadã do país e da mesma cidade ao mesmo tempo. Os economistas – e especialmente os liberais – reconhecem há muito tempo a importância do capital social e da confiança, a cola que não apenas mantém a sociedade unida, mas faz a economia funcionar.
Não é inevitável que nossa economia de mercado misto continue em sua forma atual no Reino Unido e nos EUA. De fato, podemos olhar para um capitalismo mais temperado na Escandinávia e, pelo menos de tempos em tempos, em outros lugares: o atual governo da Nova Zelândia está mostrando o caminho. Até mesmo seu orçamento é formulado em termos de “bem-estar” nacional. Os EUA e o Reino Unido talvez tenham liderado o caminho errado ao criar uma versão extrema do capitalismo, muitas vezes em nome de doutrinas neoliberais aparentemente “centristas” e pragmáticas. Há pouca dúvida em minha mente de que podemos criar um capitalismo mais ético, projetado para moldar uma sociedade mais desinteressada – e o resultado será uma sociedade menos povoada por indivíduos egoístas. Mas isso não vai acontecer sozinho. E isso não vai acontecer com palestras corporativas sobre responsabilidade social. As corporações são especialistas em greenwashing, ou alegam falsamente ser ambientalmente responsáveis, porque é um bom negócio. A Apple e a Starbucks falam sobre responsabilidade corporativa e, em algumas esferas, agem com responsabilidade. Mas a verdade subjacente é a seguinte: onde Collier enfatiza a importância da obrigação mútua, a Apple, a Starbucks e muitas outras multinacionais estão dispostas a aceitar, mas não a retribuir em igual medida. O primeiro elemento da responsabilidade social é pagar seus impostos, e essas empresas e outros como eles empregaram a mesma engenhosidade que usaram para produzir produtos melhores para evitar a tributação.
É por isso que a criação deste novo sistema só acontecerá através da política – o que, por sua vez, é o motivo pelo qual o futuro do capitalismo, nossas democracias e o mundo estão inextricavelmente ligados. Vimos o que o capitalismo disforme tem feito às democracias nos EUA e em outros lugares e como as perversões eleitorais resultantes distorcem nossas economias. A triste realidade é que as coisas podem piorar. O presidente Jair Bolsonaro do Brasil é apenas o mais recente autoritário no cenário global.
Se quisermos alcançar um capitalismo ético, precisamos de uma política ética, que respeite os princípios básicos dos valores democráticos. Novamente, isso não é provável que aconteça sozinho. Podemos ver isso claramente nos EUA, onde a direita tem se engajado em uma agenda sistemática de privação de direitos e desempoderamento – limitando o voto aos cidadãos que se opõem às ideias da direita, limitando a capacidade dos opositores de traduzir votos em poder político, e limitando o que pode ser feito se seus oponentes obtiverem poder político (ou como Nancy MacLean colocou em seu livro com esse título, colocando “a democracia acorrentada”; ver TLS, 6 de julho de 2018). Isso é especialmente fácil nos EUA, onde a Suprema Corte altamente politizada julga à direita ler na Constituição novos direitos para os ricos e menos direitos para os cidadãos comuns: por exemplo, o direito das corporações ricas de fazer contribuições de campanha desenfreadas enquanto circunscrevem os direitos dos cidadãos. trabalhadores para organizar ou indivíduos para processar corporações que abusaram deles. Mesmo os democratas de alguma forma conseguiram superar as desvantagens eleitorais gerrymandering, o Senado dos EUA (em que populações em pequenos estados são super-representados) e o colégio eleitoral (que assegurou que ambos os presidentes republicanos eleitos neste século assumiram o cargo com uma minoria de votos ), eles só poderiam mudar essas e outras políticas obtendo novas decisões da Suprema Corte.
Esses três livros naturalmente atribuem um papel fundamental ao poder das idéias. Mas os interesses também importam. A economia tem a ver com crescimento, mas também com batalhas distributivas – e, como ilustra a devastadora Lei de Cortes de impostos e Empregos de Trump, de 2017, a última mostrou-se mais importante do que ideias ou crescimento. Um pequeno estado é uma serva para esses interesses. Os cidadãos com poder econômico simplesmente não querem um estado que os impeça de exercer esse poder. As empresas que exploram outras pessoas não querem um governo capaz de impedi-las de se envolver em atividades nefastas ou de redistribuir seus ganhos ilícitos. As empresas de petróleo, produtos químicos e carvão não querem um estado poderoso o suficiente para impedi-los de destruir nosso planeta.
Em suas tentativas de circunscrever o Estado, a direita também destrói a capacidade de uma nação de fazer o que deve para que todos os seus cidadãos prosperem. Os enormes aumentos nos nossos padrões de vida nos últimos 250 anos são baseados em avanços no conhecimento – cuja base é a pesquisa básica – um bem público que deve ser fornecido publicamente através de universidades e outras instituições de pesquisa financiadas pelo setor público. Nossa prosperidade também repousa sobre organização social, nosso estado de direito, democracia e sistemas de freios e contrapesos, todas as funções públicas essenciais. Em seu egoísmo, mesmo aqueles que estão no topo podem estar se prejudicando: eles estariam melhor com uma fatia menor de um bolo maior e, como todos os outros, se beneficiariam de uma economia e sociedade mais estáveis e sustentáveis. Para não mencionar um planeta habitável.
Agora é hora de encontrar um caminho entre o incrementalismo, por um lado, e a revolução violenta, por outro. Uma mudança radical nas relações econômicas e de poder é possível. Também é existencialmente urgente. Essa é a única coisa que salvará o capitalismo de si mesmo e dos capitalistas que o destruiriam involuntariamente, e a Terra junto com ele.