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terça-feira, 3 de junho de 2025

BigTechs e Bolsonaro armam exército digital para 2026

 

‘O adversário monta seu exército com instrução de multinacional’, escreve Sara Goes. ‘É a codificação da extrema direita, uma aliança entre o mercado e o caos’

    Reportagem de Sara Goes, no 247:
    
    

BigTechs e Bolsonaro armam exército digital para 2026

    

    Evento em Fortaleza (Foto: Reprodução (Divulgação))



Fortaleza, 30 de maio de 2025. No Centro de Eventos do Ceará, um auditório lotado por jovens ativistas de direita, assessores parlamentares, influenciadores e profissionais de marketing digital testemunhou um momento embaraçoso que, mais do que uma gafe, serviu como síntese involuntária do que viria a seguir.

Waldemar da Costa Neto, presidente nacional do PL, 75 anos, envolvido em escândalos históricos e visivelmente desconfortável, tentou abrir o evento com entusiasmo juvenil, ou o que imaginava ser. Em uma fala desconexa, tropeçou ao tentar usar expressões como “flopou” e “stalkear”, gaguejou, repetiu sílabas até formar palavras mínimas, tentou invocar uma linguagem que claramente não dominava.

“Se alguém não entende o que eu falei, está no lugar certo para aprender.”

A frase, que arrancou risos nervosos da plateia, revelou mais do que o esforço de um cacique partidário em parecer atualizado. Revelou que o PL não é o protagonista da sua própria festa, o partido havia cedido o palco, o tom e a pauta às corporações que realmente conduziam o espetáculo, Meta, Google e CapCut.

O que se desenrolaria ali, ao longo do dia, não era um seminário de comunicação. Era uma aula prática de como transformar um partido político em base operacional de uma milícia digital, com benção técnica das big techs e com Jair Bolsonaro e Michelle como totens simbólicos do projeto.

Seminário das Big Techs: como o PL foi instrumentalizado para formar milícias digitais

Representantes oficiais da Meta, Google e CapCut dominaram a programação. Enquanto parlamentares tiveram falas cronometradas de 3 a 5 minutos, Ricardo Vilella (Google), Felipe Ventura (Meta) e um trio técnico vinculado ao CapCut (Jhon Henrique, Vitor Reels e Dan Maker) ocuparam o palco com desenvoltura, autoridade e espaço privilegiado. 

Apresentaram tutoriais práticos sobre como automatizar vídeos, alimentar inteligências artificiais com conteúdo político enviesado, impulsionar mensagens via WhatsApp Business e até gerar podcasts inteiros com voz sintética, tudo isso com foco explícito em mobilização política, ataque a adversários e formação de militância digital. 

Ali, ninguém falava em regulação. Ninguém mencionava riscos de desinformação. Muito menos havia qualquer cuidado em esconder o objetivo: ensinar a extrema direita brasileira a dominar as plataformas com as ferramentas fornecidas por elas mesmas.

A nova lógica da milícia digital

A cena é mais do que simbólica, é estratégica. As plataformas de tecnologia, que historicamente se vendem como neutras, mostraram, de forma pública e escancarada, que estão operando lado a lado com uma articulação política autoritária, antidemocrática e negacionista. 

A estética do evento foi juvenil, descontraída, mas o conteúdo era nitidamente voltado para criar um exército digital disciplinado, treinado para atacar, manipular e fidelizar públicos com linguagem emocional, estética gamificada e técnicas de IA de última geração. 

Não por acaso, nos bastidores, já se comenta que essa foi a primeira “formatura técnica” das novas milícias digitais do bolsonarismo. Se antes havia improviso, agora há cartilha. Se antes o gabinete do ódio funcionava com memes e raiva, agora ele conta com editores de vídeo, scripts automatizados e fluxos de produção baseados em machine learning, tudo entregue em mãos pelas próprias corporações.

Bolsonaro, o cicerone de luxo

Jair Bolsonaro esteve no evento, mas não como protagonista. Seu papel foi o de mascote ideológico, espécie de cicerone da plateia. Falou por poucos minutos, retomando seu discurso manjado sobre liberdade de expressão, atacando o Supremo Tribunal Federal, afirmando que Lula e Janja estariam importando um modelo de censura da China e, o mais grave, sugerindo que um “país da parte norte da América” pudesse intervir para “acabar com essa palhaçada do STF”. “Ainda bem que as big techs estão do lado certo”, disse Bolsonaro em certo momento, com um sorriso satisfeito.

A frase ecoou pelo auditório como confissão e celebração. A simbiose foi feita. A extrema direita oferece base, blindagem legislativa e fidelidade ideológica. As plataformas oferecem ferramentas, estrutura e legitimidade técnica.

Michelle Bolsonaro, por sua vez, não apareceu. Esteve presente como símbolo, imagem viva de um projeto de poder moralista, feminino e disciplinador, que já se projeta para 2026 como possível cabeça de chapa, ou ao menos rainha eleitoral da bancada evangélica.

O culto à liberdade como biombo da violência digital

Durante todo o seminário, o termo “liberdade de expressão” foi repetido como mantra. Mas a liberdade que se cultuava ali não é um valor democrático, é a licença para caluniar, desinformar e intimidar adversários políticos com a chancela algorítmica das big techs.

Vídeos institucionais apresentados no evento reforçavam esse enredo: uma peça ligava Lula e Janja a um suposto plano de censura com apoio da China, outra exaltava lives, vozes anônimas e conteúdos que “tocam o coração” como símbolos de uma liberdade ameaçada. Era a estética do TikTok travestida de épica libertadora. A distopia apresentada como heroísmo.

Um partido digitalizado, uma plataforma instrumentalizada

O mais impressionante do evento foi perceber que o PL não usou as plataformas, foi usado por elas. O partido virou palco para uma operação de transferência de know-how. 

O algoritmo é o verdadeiro partido, e seu projeto é global.Não se trata mais de disputar eleições. Trata-se de operar cognitivamente a população por meio de redes treinadas para inflamar, confundir, atacar e capturar. 

O PL, ao lado de figuras como Rogério Marinho, Valdemar Costa Neto, André Fernandes e Carmelo Neto, cumpre o papel de facilitar, blindar e proteger esse novo tipo de milícia, a milícia algorítmica, a milícia da IA e a milícia digital.

O que aconteceu em Fortaleza não é um detalhe, é um alerta

Enquanto parte da esquerda ainda discute se TikTok deve ou não ser regulado, se a Janja pode ou não mencionar a China em um jantar, o adversário está montando seu exército com planilha, roteiro, editor de vídeo e instrução técnica de multinacional.

O que se viu em Fortaleza foi um evento de codificação da extrema direita, uma certificação da nova aliança entre o mercado e o caos, um passo a mais no projeto de destruir o espaço público, transformar a verdade em meme, e capturar o imaginário coletivo por meio de narrativas fabricadas em laboratório.

Se ninguém reagir com força, ousadia e inteligência estratégica, não haverá 2026 para disputar, haverá apenas um feed colonizado.

PL está pronto para 2026. E nós?

O evento em Fortaleza não deixou dúvidas: o Partido Liberal está tecnicamente, esteticamente e estrategicamente pronto para disputar o controle da mente pública. Está armado de IA, treinado em mobilização digital e respaldado pelas maiores plataformas do mundo. 

A pergunta que resta é: nós estamos prontos? Ou ainda estamos debatendo com boas intenções enquanto o campo de batalha já foi tomado por códigos e promessas de engajamento? Avia!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Xadrez do fim dos grupos nacionais (e tantas vezes golpista) de mídia, por Luis Nassif

 

  As formas de controle sobre a opinião pública eram de mão única, os melhores veículos através da seleção dos temas de cobertura e das análises de acordo com o alinhamento político ou comercial do grupo; os piores, através  da exploração de notícias falsas e de assassinato de reputação.


Do Jornal GGN:


Xadrez do fim dos grupos nacionais de mídia, por Luis Nassif

Seria relevante que o Conselho Nacional de Justiça, a Procuradoria Geral da República, as Escolas de Magistratura e do Ministério Público montassem discussões sobre o tema, mas de forma aberta, juntando não apenas associações dos grupos de mídia, mas representantes de mídia alternativa e especialistas em direito à informação.



Durante o século 20, os grupos de mídia foram os mais relevantes atores no mercado de opinião, mais influentes que os partidos políticos, que as igrejas, que os sindicatos. Já eram influentes no começo do século, com o avanço do telégrafo. Ampliaram o poder com o advento das rádios e, especialmente, das redes de rádios. E, finalmente, com a televisão, o veículo que dominou amplamente a opinião pública na segunda metade do século 20.

As formas de controle sobre a opinião pública eram de mão única, os melhores veículos através da seleção dos temas de cobertura e das análises de acordo com o alinhamento político ou comercial do grupo; os piores, através  da exploração de notícias falsas e de assassinato de reputação.

As maneiras de envolvimento da opinião pública se davam especialmente através da dramaturgia das notícias, buscando na ficção modelos de narrativas aplicadas às notícias, construindo heróis ou vilões como formas de manipulação política e de envolvimento emocional do leitor.

Em cada mudança de padrão tecnológico, houve um terremoto entre os grupos de mídia. A nova tecnologia seria vitoriosa e nem todos os grupos conseguiriam pular para o novo barco.

Havia uma perda de rumo, uma travessia complicada na qual os grupos de mídia se valiam de todas as suas armas, influências políticas, assassinatos de reputação, criação de inimigos públicos para se colocar na nova etapa.

Na última etapa tecnológica, com o avanço da Internet, essa tática foi` explorada pelos infames Murdoch ‘s, os australianos que se tornaram modelos para um processo de degradação mundial da mídia. E, no Brasil, por um movimento liderado por Roberto Civita e a revista Veja.

Atualmente, há dois fenômenos em curso que tornarão inevitável a globalização das mídias: as redes sociais e os grupos globais de mídia.

É nesse contexto que deve ser analisado o futuro da mídia no Brasil e o velocino de ouro: a disputa sobre o controle da opinião pública nacional.

Preliminar 2 – o início da Internet

Para entender melhor a próxima guerra, é preciso uma pequena revisitada nos primórdios da Internet.

A Internet permitiu não apenas a confluência de mídia, mas a confluência de conteúdos. No início da Internet, tentou-se o modelo dos portais, os chamados provedores de conteúdo, cujo pioneiro foi a AOL (American On Line), com a pretensão de ser a porta de entrada na Internet. Criava-se um sítio com um browser exclusivo que dava acesso ao conteúdo abrigado no portal.

O sucesso inicial da AOL foi tão rápido que lhe permitiu, inicialmente, adquirir a Time Warner, um gigante decorrente da fusão dos grupos Time-Life e Warner Bros, que já incluía o canal CNN.  Rapidamente se percebeu que o modelo não funcionava. Depois de um período, o modelo AOL fez água e sua participação acabou se diluindo na fusão.

A superação rápida do modelo portal se deveu à disseminação da padronização tecnológica na Internet e de padrões de interação entre sites. Os modelos fechados, tipo AOL, não podiam competir  com o universo aberto da Internet.

Consolidou-se um modelo de negócio, impulsionado inicialmente pela expansão mundial do cabo, baseado na assinatura e na publicidade. A fusão era necessária para garantir os investimentos necessários para a expansão global.

Peça 1 – os novos grupos globais

Os modelos de grupos de mídia globais  surgem das sucessivas fusões entre empresas de entretenimento, empresas jornalísticas e de tecnologia.

A fusão mais bem sucedida juntou um gigante das telecomunicações, a ATT, um do entretenimento, a Warner, e uma de jornalismo e TV a cabo, a Turner. Grupos tradicionais, como a Disney, se reinventaram e criaram canais de esporte, por exemplo. E definiram um novo modelo de negócios, baseado na assinatura, nos acordos com empresas de telefonia e de cabo, e publicidade segmentada e se alavancando inicialmente através do cabo e das parcerias com empresas de telefonia nacionais.

Foi a primeira brecha nas cidadelas ferreamente defendias das mídias nacionais. Financiando-se através da publicidade, as mídias nacionais tornaram-se campeãs das bandeiras internacionalistas, de abertura da economia – menos para seu próprio setor.

De fato, na expansão do capitalismo americano no pós-guerra, os grupos de mídia não conseguiram acompanhar outros setores devido à influência política das mídias nacionais, que se defendiam através de legislações impedindo a entrada de grupos estrangeiros; e do controle do espectro de concessões de rádios e TVs.

Com a Internet e a TV a cabo, o muro foi derrubado e houve uma convergência entre os diversos tipos de mídia, juntando grupos de entretenimento, empresas de tecnologia e empresas jornalísticas.

A explosão de novas mídias pulverizou a audiência, levando a uma disputa em torno de eventos de entretenimento, como jogos de futebol e de lutas. É por aí que deve ser analisada uma das mais espúrias alianças políticas, especialmente na América Latina.

Grupos hegemônicos de mídia garantiam a blindagem política dos cartolas perante os políticos; e celebravam acordos ilegais pela exclusividade na transmissão de eventos esportivos. Com as operações contra a FIFA, conduzidas pelo FBI, esse modelo implodiu. Com a decadência do futebol nacional, as grandes atrações deslocaram-se para os campeonatos europeus e paramos eventos de luta.

E, aí, desaparecem os grandes diferenciais de audiência dos grupos nacionais e aparecem os ganhos de escala dos grupos globais, adquirindo direitos de transmissão dos grandes eventos internacionais para suas afiliadas em todos os países

O crescimento dos novos meios se deu em cima da TV aberta e da mídia escrita, justamente o eixo central do modelo de negócios dos grupos de mídia tradicionais.

Peça 2 – as big tecs

O segundo caminho foi das big tecs. A questão não era mais produzir conteúdo, mas desenvolver modelos de organização – e direcionamento – do conteúdo global da Internet.

No modelo tradicional, os jornais se comportam como condutores dos povos, selecionando informações e opiniões de acordo com seus objetivos comerciais e políticos e oferecendo, como produto, a possibilidade de ele, jornal, influenciar seu público com as mensagens de interesse do patrocinador.

No novo modelo, as empresas oferecendo o universo de informações de seus usuários para clientes dispostos a pagar para influenciar o mercado de opinião. Desde o fabricante de bens de consumo, identificando clientes potenciais através de algoritmos fuçando mensagens e e-mails do público, até grupos políticos tentando influenciar eleições presidenciais.

Peça 3 – os grupos nacionais

É nesse novo modelo, espremido entre dois gigantes, que os grupos nacionais de mídia tentarão se equilibrar.

Na Europa, a influência dos grupos de mídia tradicionais têm levado governos nacionais a estabelecer limites para a ação das big tecs. Afinal, veículos como BBC, Financial Times, The Guardian, Le Mondé, são tratados como instituições nacionais, ao contrário dos grupos brasileiros, que gastaram todo seu estoque de credibilidade nas guerras políticas das últimas décadas.

O último trunfo das mídias hegemônicas latino-americanas foram as associações criminosas com a FIFA e as confederações nacionais de futebol.

Com a ascensão de Bolsonaro e a pandemia, acentuou-se sua fragilidade financeira e perderam a guerra.  A maior derrota aconteceu com o fim do monopólio dos campeonatos nacionais e sul-americanos pela TV Globo. E, mais recentemente, com a decisão do Conselho Administrativo de Direito Econômico (CADE) de proibir o bônus de veiculação –  devolução de parte das receitas publicitárias para as agências de publicidade -, o maior instrumento de cartelização comercial do grupo.

Talvez o maior exemplo do desespero atual da mídia, aliás, seja o jornal O Globo. Nos últimos meses, lobbies de jogos entraram pesadamente na Internet brasileira, colocando publicidade em veículos de todos os tamanho. Até o Jornal GGN foi procurado, e recusou, apesar do cerco financeiro a que está exposto.

Em um gesto de desespero, impensável em outras épocas, O Globo não apenas aceitou o patrocínio, no banner principal, como deu, como contrapartida,  um artigo de Nelson Motta, com uma defesa candente da abertura de cassinos, brandindo argumentos falaciosamente primários.

Na hora em que o governo está desesperado por dinheiro para bancar seu programa de renda mínima, sem aumentar impostos, surgiu na Câmara, pela milésima vez, o projeto de liberação do jogo, que poderia render R$ 50 bilhões por ano em impostos para a União, estados e municípios quebrados pela pandemia. O lobby já trocou “jogos de azar” por “jogos de fortuna”. Nunca o momento foi tão oportuno. Desta vez vai.

O artigo foi celebrado em veículos oficiais dos jogos de azar. Imprudências desse tipo não aconteciam com a mídia brasileira desde a IstoÉ a última fase da Editora Abril, com Roberto Civita.

Ao mesmo tempo, multiplicaram-se eventos com patrocínio da Refit (a Refinaria de Manguinhos, envolta em mil problemas) e da Confederação Nacional do Comércio (CNC), uma espécie de CBF do comércio.

Foi o exemplo mais notável de um setor que jogou a toalha, porque partindo de um grupo que dominou completamente o mercado publicitário brasileiro por décadas. Hoje em dia, há em curso movimentos das associações de jornais e emissoras de televisão visando ampliar a possibilidade de aumento da participação estrangeira.

Peça 4 – a reestruturação dos grupos nacionais

Esse será o próximo movimento e, aí, sobressairá uma figura que começa a ampliar cada vez mais sua influência sobre o mercado de mídia: os grupos financeiros.

Nos últimos anos, grupos financeiros passaram a atuar na linha de frente da mídia, com a aquisição da Abril-Exame-Veja, e de uma série de sites temáticos, pelo BTG Pactual, o site financeiro da XP.

Nenhum grupo global que se preze arriscará a montar parcerias minoritárias com grupos nacionais, em função do alto grau de endividamento, da ausência de modelos de controle administrativo, da gestão familiar e da maneira pouco sofisticada de colocar a mídia a serviço de outros interesses comerciais.

A intermediação se dará através dos grupos financeiros, seguindo o modelo CNN: um bilionário de fora da mídia entrando como sócio. Dentro desse modelo,  bancos tipo BTG irão atrás de grupos internacionais, montarão modelos societários com sócios brasileiros e seus representantes. E se terá não uma mídia nacional internacionalizada, mas a mídia global definitivamente hegemônica no país.

Peça 6 – os riscos para a democracia

A crise política global já demonstrou, à farta, os riscos para a democracia da concentração no mercado de opinião.

Consumados os movimentos acima, o mercado de opinião brasileiro ficará assim:

1.        Grupos financeiros assumindo o comando da mídia nacional, ou organizando modelos de aquisição para grupos globais. Os grupos de mídia nacionais ajudarão a desarmar cada vez mais a opinião pública em relação ao desmonte do Estado e aos negócios da privatização. Com a fragilidade das instituições nacionais, o estrago será inevitável

2.        Grupos internacionais de melhor nível, mas também fechados em torno das bandeiras da desregulação e da desmontagem das redes de proteção social.

A única alternativa são sites independentes, à esquerda e à direita. Mas justamente esses sites estão sob um duplo tiroteio.

Um deles, a perseguição promovida pela Justiça, especialmente a de São Paulo e do Rio de Janeiro. E o lawfare promovido pelos grupos ligados a Jair Bolsonaro e a João Dória Jr., entre outros grupos truculentos.

Outra, são os movimentos das redes sociais. Recentemente, uma mudança nos algoritmos do Google derrubou pela metade a audiência – e o faturamento – de sites jornalísticos de diversas tendências.

O que seria? Cautela em relação à polarização política? Acordos nebulosos com grupos nacionais?

Obviamente, em ambos os casos há atentados explícitos ao direito de informação. Essa será a grande discussão política dos próximos meses.

Seria relevante que o Conselho Nacional de Justiça, a Procuradoria Geral da República, as Escolas de Magistratura e do Ministério Público montassem discussões sobre o tema, mas de forma aberta, juntando não apenas associações dos grupos de mídia, mas representantes de mídia alternativa e especialistas em direito à informação.

E que o Congresso passasse a analisar seriamente a proibição do controle de grupos de mídia por grupos financeiros.

Essa foi uma das recomendações principais na primeira reunião do grupo de discussão Amigos e Amigas de Luis Nassif, integrado por figuras ilustres do mundo jurídico, jornalístico e acadêmico.,

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quarta-feira, 20 de março de 2019

Como a internet está matando a democracia, segundo Jamie Barttlet, pesquisador britânico



Como a internet está matando a democracia

Em entrevista à Pública, o pesquisador e autor inglês Jamie Bartlett diz que hoje em dia cuidar do nosso comportamento online é mais importante que votar
Do GGN:

Jamie Bartlett é autor do livro “O povo vs tecnologia: como a internet está matando a democracia – e como podemos salvá-la”, em tradução livre | Foto: Arquivo pessoal
da Agência Pública
Como a internet está matando a democracia
por Ethel Rudnitzki
“Fomos muito ingênuos”, adverte o pesquisador e jornalista inglês Jamie Bartlett. Para ele, nos primórdios da internet “havia uma ampla visão de que o simples fato de tornar a informação mais disponível e permitir que todos pudessem criar e compartilhar informação transformaria o nosso ambiente em mais informado, politizado e racional.”
Não foi o que aconteceu, e segundo ele a radicalização atual nem era tão difícil de prever. Para Bartlett, os grupos radicais chegaram antes à internet por estarem fora dos jornais e do mainstream. “Mas o mais importante é que todos nós nos tornamos mais radicais”, explica. “Pulamos de um assunto para outro e somos apresentados a mais e mais conteúdos apelativos e sensacionalistas para manter nosso vício nas redes.” Como resultado, somos expostos a argumentos emocionais radicais e acabamos xingando e vociferando nas redes sociais.
Autor do recém-lançado livro The people vs tech: How the internet is killing democracy and how we save it (O povo vs tecnologia: como a internet está matando a democracia – e como podemos salvá-la, em tradução livre), ainda inédito no Brasil, Bartlett faz parte da Demos, um think tank britânico que reúne especialistas em educação e tecnologia para pesquisar temas relacionados à política.
Em entrevista à Pública, Bartlett fala sobre a radicalização promovida pelo ambiente online, desinformação, campanhas digitais e outros perigos da rede para a democracia.
Mas, mais do que constatar os problemas, o pesquisador propõe soluções para avançarmos junto com a tecnologia. Entre elas, um departamento governamental dedicado a fazer uma auditoria de algoritmos e uma base de dados pública, com registros instantâneos, de toda propaganda eleitoral publicada nas redes. Leia a entrevista a seguir:
O surgimento da internet, e depois das redes sociais, veio com a expectativa de uma maior democratização da informação e do debate público. Ao longo do tempo, essa ideia desapareceu. Pesquisadores, incluindo você, mostram que, ao contrário de democratizar, o ambiente virtual potencializou discursos radicais e extremistas. Por que isso aconteceu?
A primeira coisa que precisamos entender é por que fomos tão ingênuos no início. Havia uma ampla visão de que o simples fato de tornar a informação mais disponível e permitir que todos pudessem criar e compartilhar informação transformaria o nosso ambiente em mais informado, politizado e racional. Eu penso que boa parte da razão para essa crença veio do fato de que a maioria das pessoas por trás dessa tecnologia são pessoas da costa oeste dos Estados Unidos, da Califórnia. Pessoas extremamente liberais e grandes defensoras dos poderes naturais da livre informação e alienados das reais questões do mundo. E isso é só uma das explicações. Foi uma ingenuidade criar essas expectativas. As pessoas assumiram que a internet e as redes sociais seriam extremamente livres e que não haveria controle sobre as informações que estariam ali. Ninguém pensou nas consequências.
Mas, olhando com mais atenção, era possível ver que não seria bem assim. Na maioria das novas tecnologias, são as pessoas mais radicais, marginais e até criminosos que primeiro aprendem suas possibilidades. Eles têm essa vantagem, pois, na maioria das vezes, os mais autoritários se consideram excluídos, então dedicam boa parte de sua vida a novas técnicas e tecnologias.
O que eu descobri foi que, se você observar grupos de extrema direita, e até alguns grupos radicais de esquerda, na maioria das democracias, são eles os primeiros usuários de novas tecnologias. Neonazistas, por exemplo, encontraram maneiras de usar as redes sociais para espalhar suas mensagens, porque eles são determinados e não tinham outra forma de fazer isso. Se você os tira da mídia tradicional, é natural que eles procurem outros meios.
Adicione a isso o fato de que em troca da gratuidade das redes sociais nós damos a elas [as empresas de tecnologia] nossos dados. Assim elas tornam essas plataformas ambientes viciantes, para que fiquemos mais tempo lá, fornecendo ainda mais dados. E nossa tendência é clicar naquilo que for mais extremo, radical, inacreditável, pessoal.
Isso deixou as pessoas mais radicais, ou foram os extremistas que se tornaram mais fortes?
Boa pergunta. Eu acho que os radicais cresceram nas plataformas digitais porque tinham essa vantagem de serem usuários há mais tempo. Mas o mais importante é que todos nós nos tornamos mais radicais – não exatamente extremistas, mas somos exponencialmente expostos a conteúdos radicais e apelativos. Não temos a intenção de falar sobre essas temáticas, mas elas nos são apresentadas. Assim, quando entramos nessas plataformas, gritamos uns com os outros, discutimos sobre coisas pequenas, discordamos sem ao menos escutar o outro lado. Pulamos de um assunto para outro e somos apresentados a mais e mais conteúdos apelativos e sensacionalistas para manter nosso vício nas redes. E o resultado é que nos tornamos mais extremos.
E como Trump, nos EUA, e Bolsonaro no Brasil se beneficiaram desse ambiente polarizado?
Na minha opinião, esses políticos se baseiam em frases de efeito e soluções simplistas. E é exatamente isso que funciona nas plataformas de redes sociais. Discursos populistas sempre foram apelativos. Sempre se trata de apelar para o emocional, tratar problemas complexos com soluções fáceis.
As redes sociais são excelentes ambientes para amplificar essas mensagens porque não são tratadas como nos jornais, por exemplo. Com as notícias, temos que nos sentar e pensar sobre o que lemos. Não somos guiados por emoções. Mas nessas plataformas, sim. Quando compartilhamos conteúdos, esperamos respostas, curtidas, então é mais provável que publiquemos conteúdos que nos fazem sentir raiva ou animação do que conteúdos profundos e reflexivos.
Você acredita que essa radicalização impulsionada pelas redes é igual para a direita e para a esquerda?
É uma pergunta muito difícil de responder. Eu acredito que o discurso político que funciona nas redes pode ser tanto de direita quanto de esquerda.
Qual é o papel da desinformação nesse processo de radicalização online?
O problema não é a desinformação em si, mas o fato de haver diversas categorias de notícias falsas nas redes, e todas elas causam um efeito importante.
Na internet você acha todo e qualquer tipo de informação, verdadeira ou falsa. Há aquelas postadas por veículos de notícias e as que são apenas histórias de pessoas e também podem ser confiáveis. E há aquelas que são ruins e mentirosas. Ninguém sabe qual é verdadeira e qual é falsa. Então, no que as pessoas confiam quando não sabem no que acreditar é simplesmente em suas próprias intuições e emoções. Você confia no personagem que você acha que combina mais com você e fala coisas que você acredita. E isso é mais um elemento que beneficia os populistas porque eles geralmente são melhores em convencer as pessoas.
Não é simplesmente a desinformação pela desinformação, é que a informação circula em bolhas. Na rede você encontra dados e estatísticas para embasar qualquer opinião que você tenha. Cada um tem seus próprios fatos. E eles não estão exatamente certos, mas na internet é possível encontrar tanta coisa que existe informação para o que você quiser, tudo que valide sua opinião.
E estar envolvido em tanta informação assim é mais preocupante que as próprias notícias falsas. Por que é isso que faz com que as pessoas não saibam no que acreditar e parem de prestar atenção nos jornais para guiarem-se apenas pelos sentimentos. E é também isso que está tornando os políticos mais radicais, porque ninguém mais tem a autoridade sobre a verdade ou sobre os fatos.
No seu livro, você fala muito sobre o disparo de mensagens na campanha de Donald Trump com a ajuda de dados fornecidos pela empresa Cambridge Analytica. Você pode explicar como essa empresa ajudou Donald Trump, que não era do meio político, a ganhar as eleições nos EUA?
A tecnologia usada não era única ou inovadora, e vem sendo usada por publicitários há muito tempo. Eles basicamente identificaram pessoas que acreditavam que eram mais suscetíveis de serem convencidas pela campanha. O que eles fizeram foi construir perfis detalhados de milhões de americanos usando dados disponibilizados publicamente na internet. Esses dados, que podem ser comprados, incluem coisas como o valor da sua casa, que carro você tem, que revistas assina e muito mais. Eles pegaram o máximo de informações das pessoas que conseguiram e dividiram elas em grupos, enviando conteúdo mais provável de convencê-las.
Além de eleições, essa tecnologia pode influenciar outros aspectos da nossa vida. Somos bombardeados com anúncios personalizados, é como se as empresas soubessem mais de nós que nós mesmos. Como isso afeta a democracia?
Para mim, o maior problema é a popularização dessas técnicas de publicidade com dados, especialmente quando não há regulação. Significa que qualquer um pode dizer que seu opositor está trapaceando.
Qualquer um que perder uma eleição pode dizer que o adversário está usando dados de pessoas indiscriminadamente e manipulando eleitores com publicidade. E isso compromete a integridade de qualquer pleito. Quando você usa essas técnicas, na cabeça das pessoas, isso compromete a integridade de uma eleição.
Você não acha que a popularização dessas técnicas de publicidade vai fazer as pessoas questionarem suas escolhas e atitudes online?
É o seguinte: ninguém acha que foi influenciado por um anúncio. Nunca. As pessoas sempre falam: “Ai, isso não me afeta”. Mas, então, por que os publicitários investem tanto nas redes sociais? Por que eles já testaram e viram que realmente funciona.
Uma das razões pelas quais eu escrevi meu último livro foi para tornar as pessoas mais conscientes da maneira como seus dados estão sendo usados. E eu acho que as pessoas estão cada vez mais preocupadas.
Você vê um crescimento em outras formas de usar a internet?
Sim, eu vejo. Acho que está crescendo e melhorando. No Reino Unido, nós temos VPN [redes privadas individuais], que nos dá mais proteção de dados, e significa que empresas só conseguirão coletar nossos dados se dermos autorização, e isso nos dá o direito de pedir nossos dados de volta também. Já existem empresas que ajudam as pessoas a recuperar seus dados de outras empresas, novas redes sociais estão surgindo. Então, existem pequenas iniciativas nesse sentido. Eu não sei se vai funcionar, ou se vai fazer muita diferença, mas eu vejo melhora.
Existem maneiras de minimizar os efeitos dessa falta de privacidade online sem ser pela via completamente anônima e criptografada. No seu livro, uma das soluções que você sugere é o policiamento dos algoritmos. Você pode explicar como isso funcionaria?
Sim. O que podemos fazer é criar formas de controle democrático sobre os sistemas que possuem nossos dados pessoais. Uma das maneiras de fazer isso é da mesma maneira que fiscalizamos nossas instituições como escolas, serviços de saúde etc., para garantir que eles estejam funcionando. Com os algoritmos isso não é feito. Ninguém sabe se certos tipos de notícias estão sendo privilegiados pelos algoritmos, por exemplo. Eu não tenho a exata solução para isso, mas eu acho que é preciso criar um sistema de fiscalização.
A lógica é: se há um poder, é preciso criar um sistema de fiscalização.
Sim, mas isso precisaria ser feito pelo poder público, e os políticos que temos atualmente mostram muito pouco conhecimento sobre as questões do ambiente digital. Prova disso foi a audiência realizada com Mark Zuckerberg no Congresso americano. Você acha que essa equipe é capaz de formular políticas públicas eficientes nesse sentido?
Eu acho que é possível. Não é preciso ser um engenheiro de computação para pensar em soluções para esses problemas digitais. Eu só acho que é preciso disposição e investimento. Por que não seria possível instalar um departamento para fiscalizar algoritmos? Para mim parece possível e plausível, apesar das dificuldades.
Mas os problemas que temos são urgentes. Como cidadãos, o que podemos fazer?
O que eu mais tenho dito é que precisamos olhar nosso comportamento online como um passo. Eu acredito que temos o dever, como cidadãos, mais importante do que votar, de refletir sobre nosso comportamento online. Que dados estamos criando? Com quem estamos compartilhando? Que plataformas estamos usando?
Porque, toda vez que compartilhamos nossos dados, estamos contribuindo para a sociedade de controle que vivemos atualmente.
E as plataformas? Você acha que elas devem ser mais bem reguladas? De que maneira?
Sim. Eu acho que há regulações que podemos criar. A mais fácil delas seria definir essas empresas como publicitárias e investigá-las para combater oligopólios e promover a livre concorrência. Não pensá-las como plataformas de redes sociais.
Temos que ficar atentos às aquisições que essas empresas fazem, porque muitas vezes elas compram plataformas menores antes mesmo que estas se tornem competitivas. Então, temos que bloquear esse tipo de compra.
E há algumas outras coisas, como regular o conteúdo que circula nesses lugares, como o discurso de ódio. E multá-las caso não removam esses conteúdos.
Que outras medidas legais precisam ser tomadas na sua opinião?
Devemos atualizar as legislações eleitorais urgentemente, porque elas estão ultrapassadas. Uma das coisas que eu proponho é que todos os anúncios usados em campanhas eleitorais devem ser publicados em tempo real num banco de dados público para todos verem. Eu acho uma medida importante e fácil de ser implementada. Acho que isso pode aumentar a confiabilidade das eleições.
E também precisamos melhorar de uma maneira geral o sistema educacional, porque nenhum dá a verdadeira atenção para o estudo dos problemas de desinformação, deep fakes, fake news. E as pessoas convivem com isso todos os dias. Portanto, precisamos de uma drástica melhora na maneira como ensinamos media literacy [alfabetização midiática]. Estamos muito atrasados.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Cadê o Steve Bannon da esquerda? Texto de Luiz Roque Miranda Cardia



"Steve Bannon é de direita. Donald Trump é de direita. O governo dos Estados Unidos continua sendo imperialista, violento e destruidor. Trump promove políticas reacionárias, racistas, xenófobas e etc. A extrema-direita norte-americana, como o que resta da Ku Klux Klan, foi protagonista da eleição do atual presidente. Internacionalmente, Bannon lidera uma fundação chamada “O Movimento” que articula políticos de direita na Europa, e apoia governos de extrema-direita como o do fascista Viktor Orban da Hungria."

Do site Disparada:




Steve Bannon é de direita. Donald Trump é de direita. O governo dos Estados Unidos continua sendo imperialista, violento e destruidor. Trump promove políticas reacionárias, racistas, xenófobas e etc. A extrema-direita norte-americana, como o que resta da Ku Klux Klan, foi protagonista da eleição do atual presidente. Internacionalmente, Bannon lidera uma fundação chamada “O Movimento” que articula políticos de direita na Europa, e apoia governos de extrema-direita como o do fascista Viktor Orban da Hungria. Dito tudo isso, para evitar ruídos e acusações histéricas, o objetivo deste texto não é discutir a ideologia conservadora, ou a posição à direita no espectro político no qual se encontra Steve Bannon e seu movimento, e muito menos advogar em prol de seu reacionarismo. A questão proposta é sobre o problema das estratégias de formulação, comunicação e organização, de um movimento político que seja capaz de efetivamente disputar o poder e transformar (inclusive para pior) estruturas profundas da economia política nacional e mundial.
O personagem dessa reflexão é Steve Bannon, e não Donald Trump, porque ele é que formula algo muito mais amplo e duradouro que a eleição e administração de Trump. Bannon foi militar nos anos 70 e 80, tendo servido no Pacífico e também no Golfo Pérsico, e chegou a trabalhar no Pentágono, enquanto estudava para obter um mestrado em Estudos de Segurança Nacional na Universidade de Georgetown. De cara, fica evidente que é um sujeito altamente treinado e ligado às questões mais sensíveis de seu Estado nacional. Depois disso, Bannon trabalhou no poderoso banco Goldman Sachs e saiu para criar seu próprio banco de investimento focado na indústria do entretenimento. Nos anos 90 ingressa na indústria cinematográfica como produtor executivo em Hollywood. Assim, fica óbvio que Bannon conhece também, por intensa experiência, os meandros do poder econômico e midiático dos EUA.
A partir daí sua trajetória política fica clara e cristalina. Nos anos 2000, Bannon produziu e dirigiu diversos documentários políticos com viés conservador do movimento Tea Party1 republicano, iniciando com uma homenagem a Ronald Reagan chamado “In The Face of Evil” (2004), seguido por filmes como: “Fire from the Heartland: The Awakening of the Conservative Woman” (2010), “The Undefeated” (2011), e “Occupy Unmasked” (2012). O primeiro é uma série de entrevistas com mulheres de diversas classes sociais sobre política. O segundo trata da ex-governadora do Alaska, Sarah Palin, que concorreu como vice-presidente na chapa de John McCain do Partido Republicano em 2008. O terceiro é uma abordagem crítica ao movimento Occupy Wall Street.
Depois da experiência como militar, banqueiro, e cineasta, Steve Bannon torna-se um protagonista da arena da luta política do século XXI, a internet, no famigerado site Breitbart News. Acusado, entre outras coisas, de sexista e xenófobo, mas principalmente de disseminar fake news, o site foi fundado em 2007 por Andrew Breitbart, que chegou a dizer que Bannon era a Leni Riefenstahl2 do Tea Party. Com a morte do fundador em 2012, Steve Bannon assumiu o Breitbart News e declarou abertamente que o site era o canal da Alt-Right3. É como chefe do Breitbart News que Bannon torna-se figura mundialmente conhecida, catapultando-se para o comando da virada eleitoral na reta final da campanha de Donald Trump contra Hillary Clinton, e então à Casa Branca.
Bob Woodward4 em seu livro-reportagem sobre os dois primeiros anos da Administração Trump, chamado “Medo: Trump na Casa Branca”, conta que Bannon entra na campanha num momento de péssimos resultados nas pesquisas eleitorais, chegando ao ponto do Diretório Nacional Republicano cogitar retirar Trump da corrida, e colocar o vice Mike Pence como candidato, para evitar a pior e mais humilhante derrota de todos os tempos para os republicanos. O novo estrategista da campanha radicaliza e simplifica o discurso. Vale a pena reproduzir trecho do livro de Woodward no qual Bannon expõe a nova estratégia ao candidato:
“As elites do país se sentem confortáveis em administrar o declínio. E os trabalhadores deste país não estão satisfeitos. Eles querem tornar a América grande novamente. Vamos simplificar a campanha. Hillary é a porta-voz de um status quo corrupto e incompetente de elites que se sentem à vontade em administrar o declínio. Você é o porta-voz do homem esquecido que quer tornar o país grande de novo. E vamos fazer isso com alguns poucos temas. Número um, vamos impedir a imigração ilegal e começar a limitar a imigração legal para recuperar nossa soberania. Número 2, você vai trazer os empregos de volta ao país. E número três, vamos sair das guerras injustas no exterior. Esses são os três temas em que Hillary não pode se defender. Ela é parte daquilo que abriu as fronteiras, é parte daquilo que fez acordos de comércio ruins e deixou os empregos irem para a China. Ela apoiou todas as guerras. Vamos martelar nisso. É só. Insista nisso.”5
A radicalização trumpista foi vitoriosa. A internet foi decisiva. Trump utilizou as redes sociais de forma excessiva. O tema das fake news tornou-se pauta central da grande mídia contra o presidente eleito que preferia usar o Twitter para se comunicar direto com os seguidores, do que responder as perguntas dos meios de comunicação corporativos.
Bannon ficou poucos meses na Casa Branca, e travou embates virulentos, por vezes sorrateiros, com diversos setores que compõe o governo. A família do presidente era um dos focos de conflito, pois a filha Ivanka e o genro Jared Kushner tem cargos de assessores sênior e livre trânsito na Casa Branca, e os dois defendem agendas a favor de acordos globais que Bannon era contra, além de também polemizarem contra as restrições imigratórias. Segundo Woodward, o próprio presidente tira sarro dizendo que os dois são “democratas porque foram criadas em Nova York”, mas o fato é que são agentes políticos realmente relevantes dos negócios bilionários do pai e sogro, e que expressavam contradições com o programa político antissistema da direita alternativa de Bannon. Também ocorreram conflitos com a presença sempre perene, seja em governos democratas ou republicanos, do establishment de Wall Street em posições chave da equipe econômica, geralmente representados por algum banqueiro do Goldman Sachs, antigo empregador de Bannon.
O fato é que Steve Bannon efetivamente enfrentou o status quo dentro da Casa Branca, e defendeu as agendas de campanha que mobilizaram as bases que elegeram Trump. Em palestra para estudantes de Oxford em novembro de 2018, Bannon admite que seu movimento e programa político fazem parte de um processo contínuo, complexo e contraditório, com vitórias e derrotas parciais, mas defende o governo Trump como um primeiro passo de ruptura com o establishment financeiro e com a globalização. Bannon inicia sua palestra dizendo que seu movimento é perigoso porque “é contra a ordem estabelecida”.

Segundo ele, os EUA estão apresentando um crescimento de 3,5% ao ano, quase o dobro da média anterior de 1,8%, ressaltando que Obama e os democratas convenceram as pessoas que este baixo crescimento é o novo normal. Mas deixando de lado o conteúdo de seu discurso ideológico sobre o suposto sucesso econômico do governo Trump em contraste com a “ordem estabelecida” anterior, Bannon discute com os alunos de Oxford questões sobre a organização e a forma de fazer política que ele propõe. Ele se intitula abertamente populista e nacionalista. Seu conceito de populismo diz respeito à expressão dos interesses dos “little men”, em tradução livre e contextual, do homem médio, da população comum, em oposição às elites ilustradas e endinheiradas. O nacionalismo diz respeito à soberania de seu país para defender os interesses dessa população comum da competição internacional, ou seja, da globalização.
Sob as acusações de xenofobia e racismo, Bannon se defende dos estudantes dizendo que seu nacionalismo é econômico, não étnico. Ele repudia duramente os ataques violentos de organizações racistas como a Ku Klux Klan, e num clichê comum também à direita brasileira, acusa a esquerda de também praticar atos violentos, no caso dos EUA, ele condena as supostas ações violentas do movimento Black Live Matters. Mas isso é lateral em seu pensamento. O que importa é discutir a defesa da cidadania norte-americana independente da etnia. Com um argumento astuto, Bannon diz que ao lutar por restrições imigratórias está defendendo os empregos e salários dos negros e hispânicos que sofrem com a competição da força de trabalho imigrante, e radicaliza, dizendo que é o establishment financeiro que exige imigração para pressionar para baixo os salários da força de trabalho. Fica claro que a direita alternativa liderada por Bannon tem a classe trabalhadora como sujeito e objeto de sua interpelação.
Questionado sobre o enfraquecimento da democracia que seu discurso radical de direita causa ao propagar a desconfiança da população nas instituições políticas estabelecidas e também contra a mídia, Bannon rebate a acusação com uma argumentação fática, e confronta as concepções liberais tradicionais sobre política. Segundo ele, as eleições de 2016 tiveram 114 milhões de votantes, e foi o maior engajamento eleitoral da história dos EUA. Mas não só isso, a população norte-americana está permanentemente mobilizada, à direita e à esquerda, participando do debate público, manifestando-se, através dos novos meios de comunicação e nas ruas. E aqui, o estrategista da nova direita populista aprofunda seu discurso antissistema.
Segundo Bannon, o populismo está ressurgindo contra as estruturas de poder em todo o espectro político. Ele argumenta que a principal missão do Breitbart News sobre seu comando foi confrontar o establishment republicano, e não o Partido Democrata. Após a vitória de Trump nas primárias contra os oligarcas republicanos como Mitt Romney, John McCain, os Bush, e etc, ele conta que foi sondado por agentes da esquerda para combater o establishment democrata, ou seja, Obama, os Clinton e etc. Segundo ele, a esquerda percebeu a necessidade de um “Breitbart progressista”. Contra as acusações de que seu discurso é baseado na raiva, ele diz que o populismo “esquentou” a política, e que isso é bom para todos, inclusive para a esquerda que venceu as eleições legislativas de 2018, porque, de acordo com ele, se mobilizou através desse “esquentamento” e dessa raiva, e deve ser admirada por isso.
Bannon analisa também que o Brexit6 faz parte deste contexto pela direita, e cita pela esquerda o líder trabalhista Jeremy Corbyn na Inglaterra, e Bernie Sanders nos EUA. Ele revela que seu movimento busca conquistar o apoio dos eleitores de Sanders nos EUA, pois tem em comum o nacionalismo econômico, e indica dados de que esses eleitores não votaram e não pretendem votar em Hillary Clinton em 2020. O manejo dos instrumentos digitais ocupa lugar fundamental em sua estratégia. Desde meios de comunicação, como foi o Breitbart News e as redes sociais a exemplo do Twitter, mas principalmente a coleta e análise de dados em massa que servem para visualizar os anseios da população através da internet. “O Movimento” oferece, como arma principal para os líderes da direita, o processamento de big data sobre as tendências políticas da população. Na Europa, Bannon diz que está trabalhando pelo diálogo cada vez maior entre os líderes populistas de direita, e está realizando pesquisas, análises e montando estratégias sobre as eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2019, e avalia que o populismo deve varrer o establishment liberal da União Européia em Bruxelas.

Por fim, Steve Bannon faz uma audaciosa análise de conjuntura do difícil momento que vive o governo Trump e sua projeção para as eleições de 2020. Com a derrota legislativa de 2018 e perda do controle da Câmara para os democratas sob o comando da experiente Nancy Pelosi, as investigações e o desgaste contra o presidente devem se intensificar. Esse movimento para derrubá-lo irá forçá-lo a buscar sua base eleitoral radical, por isso a contra-ofensiva na questão da imigração encaminhando a promessa de campanha do muro na fronteira com o México. Essa radicalização do cenário político coloca o establishment financeiro, que quer estabilidade, novamente a favor de Hillary Clinton, que já trabalha para ser a candidata democrata em 2020. No entanto, os setores populistas de esquerda é que foram os protagonistas das eleições legislativas e conquista da Câmara, o que irá radicalizar a luta dentro do Partido Democrata também. Dessa forma, segundo Bannon, pode surgir uma alternativa de centro dos dois partidos que queiram evitar uma disputa radical em 2020, unindo moderados como Mitt Romney (republicano) e Joe Biden (democrata), numa terceira via viável pela primeira vez na história.
Este pequeno retrato da atuação e formulação política de Steve Bannon compõe um quadro mais amplo no qual a maior potência econômica e militar do mundo está em profunda transformação desde a crise de 2008, e portanto, também toda a geopolítica e economia política mundial. É uma transição turbulenta, na qual não é possível ainda prever seus desdobramentos e como se estabilizará o novo regime de acumulação e o modo de regulação deste novo capitalismo que surgirá da crise do pós-fordismo e do neoliberalismo. Mas interessa ressaltar a importância do populismo nessa transição. A direita sai na frente, elege um presidente no centro econômico e militar do capitalismo, ainda que com muitas dificuldades para governar, e forja um ativista e estrategista de longo prazo. Se Bannon estiver certo e for pelo menos parcialmente vitorioso nas disputas do Parlamento Europeu e na eleição de 2020, a tendência populista neoconservadora deve se consolidar, e em caso de derrota, as contradições que originam esses movimentos não devem desaparecer.
A esquerda lança alguns líderes, mas que tem muito mais dificuldades de chegar ao poder, como Corbyn e Sanders, ou não consegue fazer avançar um programa minimamente transformador dentro das estruturas estatais existentes, como o Syriza na Grécia algemado pelo financismo alemão, e os governos de esquerda na América Latina, que na sua maioria foram derrotados ou derrubados, mesmo quando sequer tinham um programa radical, como é o caso do Brasil. No entanto, as dificuldades de composição de interesses contraditórios dentro do Estado não é exclusividade da esquerda, como se vê na passagem de Bannon pela Casa Branca.
Olhando para o Brasil, o recém empossado Jair Bolsonaro parece também enfrentar contradições insolúveis entre agendas econômicas e sociais incompatíveis de setores que integram o governo. Mas sua relação direta com sua base popular e o esforço de expressar sentimentos do homem comum, do “little men”, como diz Bannon, indicam haver uma força populista que sustente por um tempo o novo governo. O apelo pseudo-nacionalista joga papel central, e os instrumentos digitais mais ainda, o enfrentamento com os grandes meios de comunicação é claro e insofismável apesar do apoio midiático às pautas econômicas. Apesar de hipocrisias e da dominação flagrante do capital financeiro sobre o governo, o fato inegável é que a nova direita brasileira em ascensão tem uma estratégia populista, ainda que incipiente e tosca. O problema é que a esquerda sequer tem isso. Lula, o líder mais popular da esquerda brasileira, está preso, e nunca enfrentou o status quo econômico ou midiático.
Na verdade, o populismo não era o centro da estratégia política de Lula e seu partido, e nem o nacionalismo o conteúdo de seu programa. Pelo contrário, o PT surge contra a tradição nacional-populista do trabalhismo de Getúlio Vargas, com apoio teórico da sociologia da USP que criticava o populismocomo manipulação oportunista das massas. Essa concepção vulgar e negativa de populismo já foi criticada em diversas ocasiões, mas importa menos o debate teórico – que também deve ser realizado – do que suas repercussões políticas. Com a estigmatização negativa do termo populista, realizada também pela própria esquerda, os partidos e movimentos populares brasileiros foram alijados da estratégia e dos instrumentos necessários para chegar ao poder, e para enfrentar a ordem estabelecida.
É preciso refletir se é possível construir um populismo pujante de esquerda que chegue ao poder. De imediato, uma das questões candentes é retornar aos formuladores teóricos e à história do populismo latino-americano e brasileiro. A partir disso, reconstruir organizações de massas como as que já existiram, para mobilizar o povo no sentido de influenciar e transformar as estruturas da economia política. Para tal, seria preciso não ter medo de se relacionar com o homem comum e suas contradições ideológicas, o que cria problemas axiológicos para a esquerda sobre identidades religiosas, raciais, de gênero, e etc. Além disso, teria que se investir prioritariamente nos novos meios de comunicação e processamento de dados para conseguir interpelar essa população que se vê desconectada com o sistema político, o que envolve infraestruturas materiais e financeiras geralmente não disponíveis para a esquerda. De toda forma, a direita norte-americana mostrou sucesso e a direita brasileira a emula mesmo que precariamente. A esquerda populista dos países centrais ainda se move com pouca efetividade, mas atua com ousadia e sem dúvida está em ascensão. Por aqui, precisamos urgentemente de um Steve Bannon de esquerda, ou mais precisamente, de uma organização política capaz de levar a cabo uma estratégia nacional-populista de esquerda (para que não seja acusado de esperar um salvador da pátria).

Notas de Rodapé

  1. Refere-se à ala radical do Partido Republicano dos EUA que é informal e passa a se organizar a partir da eleição do democrata Obama em 2009.
  2. Referência à diretora alemã de “O Triunfo da Vontade”, icônico filme de propaganda nazista na década de 30.
  3. Abreviação em inglês para “direita alternativa”, expressão que surge para designar diversos movimentos de direita antissistema.
  4. Um dos mais importantes jornalistas políticos de todos os tempos, expôs, com seu colega Carl Bernstein no Washington Post, o escândalo do Watergate que derrubou o presidente Richard Nixon em 1976. Venceu dois prêmios Pulitzer, o primeiro pela investigação sobre Nixon, e o segundo pela cobertura dos atentados terroristas do 11 de Setembro.
  5. WOODWARD, Bob. Medo: Trump na Casa Branca. São Paulo: Todavia, 2018, p. 35.
  6. Abreviação para o plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Européia e também é caracterizado como um movimento populista e nacionalista.