Investigação da Polícia Federal e da CGU apura desvios em emendas parlamentares, fraudes contratuais e conexões com a produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro
Do Brasil 247:
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (10) a Operação Make Up no âmbito da Petição 16.669/DF, sob relatoria do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), para apurar a atuação de uma suposta organização criminosa voltada ao direcionamento de emendas parlamentares federais, fraudes em licitações e contratos, peculato e lavagem de dinheiro. As investigações têm como ponto central repasses federais e estaduais direcionados às organizações da sociedade civil Instituto Conhecer Brasil (ICB) e Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas pela empresária Karina Ferreira da Gama, figura associada à produção do filme ‘Dark Horse’ — obra sobre Jair Bolsonaro (PL).
A apuração teve início a partir de relatórios de auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU), além de Informações de Polícia Judiciária (IPJs) e Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF). O esquema sob investigação envolve a destinação de emendas parlamentares do deputado federal Mario Frias (PL-SP), bem como indicações das emendas dos deputados Marcos Pollon (PL-MS) e Bia Kicis (PL-DF).
O papel do filme ‘Dark Horse’ e as conexões políticas
Conforme os levantamentos da Polícia Federal compilados na decisão do STF, Karina Ferreira da Gama é apresentada como empresária responsável pela produção do filme Dark Horse. Além do vínculo com a obra cinematográfica, os relatórios policiais registram a proximidade política de Karina com o deputado federal Mario Frias.
A investigação aponta que Karina participou ativamente da campanha eleitoral de Mario Frias em 2022, e que empresas de sua propriedade prestaram serviços à candidatura do parlamentar. Posteriormente, a entidade por ela gerida, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), passou a ser contemplada com verbas públicas federais viabilizadas por emendas parlamentares de autoria do próprio deputado.
A Polícia Federal também identificou que empresas vinculadas à estrutura do ICB e da ANC mantiveram interações financeiras diretas ou indiretas com a produtora Go Up Entertainment Ltda., pertencente a Karina Gama e responsável pela produção do filme, o que indica, segundo a corporação, “possível integração patrimonial e operacional com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares”.
Um Termo de Fomento foi assinado entre o ICB e o Ministério do Esporte (MESP), com valor repassado de R$ 1 milhão proveniente de emenda parlamentar de autoria do deputado Mário Frias. O objeto era a implementação do projeto esportivo “Lutando Pela Vida” no município de Pirassununga (SP), destinado ao atendimento de 500 beneficiários em aulas de artes marciais.
A auditoria da CGU e os relatórios da PF apontaram diversas inconsistências graves na execução do contrato:
- Atestados de Capacidade e Estrutura: O atestado de experiência apresentado pelo ICB para obter o repasse foi emitido e assinado pela própria presidente da entidade, Karina Gama, sem registros independentes sobre a execução real do projeto anterior citado (“Capoeira Nativa”). As fotos enviadas para comprovação de espaço físico pertenciam a outra academia particular (Academia Alliance).
- Contratação da Pulsa Uniformes: A empresa Pulsa Uniformes e Camisetas Personalizadas Ltda. recebeu R$ 457 mil do ICB pela emissão da Nota Fiscal nº 575, relativa ao fornecimento de tatames, quimonos e faixas. A CGU constatou que a nota fiscal foi quitada integralmente em maio de 2026 sem comprovação de entrega. Em inspeção in loco e verificação promovida pelos auditores, a própria empresa Pulsa admitiu não ter entregue os materiais faturados, alegando que eles continuavam em fabricação.
- Duplicidade e Divergência nos Tatames: Para tentar justificar a presença de tatames, o ICB apresentou um “Termo de Recebimento Parcial”. Contudo, a CGU descobriu que os 120 tatames encontrados na sede da academia em Pirassununga foram comprados de outro fornecedor por R$ 58,8 mil, sem nenhuma relação com a Nota Fiscal emitida pela Pulsa Uniformes.
- Contratações de Pessoas Ligadas à Campanha e Gabinete: Entre os prestadores de serviços contratados para atuar no projeto esportivo, a PF identificou Rudyge Alex Scatolini Boldrini (que recebeu R$ 13,7 mil por meio de microempresa individual aberta dias antes do contrato). Rudyge foi doador da campanha eleitoral de Mário Frias em 2022, prestou serviços para a campanha do deputado, recebeu procuração do ICB e chegou a ser eleito conselheiro fiscal da ONG. Além disso, outros contratados como monitores e instrutores não possuíam empresas com ramo de atuação compatível ou eram servidores municipais com acúmulo sem comprovação de carga horária cumprida.
Firmado com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) no valor de R$ 1 milhão, custeado por emenda de Mário Frias, o projeto previa capacitação em letramento digital e empreendedorismo para 2,5 mil estudantes e 250 multiplicadores.
A investigação da CGU constatou a inexecução total do objeto contratado:
- O valor integral de R$ 1 milhão foi repassado ao ICB pelo MCTI em fevereiro de 2025.
- Após o encerramento da vigência em janeiro de 2026, a entidade não apresentou a prestação de contas final no prazo legal. Quando cobrado, o ICB solicitou em maio de 2026 a prorrogação do prazo alegando que ainda precisava fazer o contato com escolas, preparar locais e capacitar multiplicadores, admitindo, portanto, que nenhuma criança ou professor havia sido atendido durante o período contratual.
- O MCTI rejeitou formalmente as contas do termo de fomento em julho de 2026 por frustração do objeto.
- Cotações e Empresas Vinculadas: As empresas subcontratadas pelo ICB para este e outros projetos mantinham cruzamentos societários, endereços idênticos ou criação na mesma data. Destacam-se repasses e contratos com a Dinâmica Editora, Instituto Super Poder Educacional (Super Leitores), MTS Assessoria e empresas de assessoria jurídica ligadas a advogados que prestavam serviços pessoais de defesa para o deputado Mário Frias, como a LF&P Consulting (de Fábio Lago Meirelles) e a Aguilera Martinez Sociedade de Advocacia.
- Envolvimento de Ex-Assessores: O projeto técnico indicava como responsável Kayo Henrique Azevedo, ex-secretário de administração de Pirassununga e irmão de Raphael Augusto Azevedo, ex-secretário parlamentar do gabinete de Mário Frias. A ex-esposa de Kayo, Gardênia Leite Morais, também atuou no gabinete de Frias e foi citada em apurações por movimentações financeiras atípicas.
Emendas para São Paulo por parlamentares de outros estados
A investigação da Polícia Federal e a Nota Técnica da CGU ressaltaram uma aparente desconformidade com as regras de vinculação federativa na destinação de emendas para a Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade parceira do ICB também gerida por Karina Gama.
Foram identificadas a indicação de emenda parlamentar no valor de R$ 1 milhão de autoria do deputado federal Marcos Pollon (eleito pelo estado de Mato Grosso do Sul), e de emenda no valor de R$ 150 mil da deputada federal Bia Kicis (eleita pelo Distrito Federal). Ambas as emendas destinavam-se ao projeto “Heróis Nacionais”, a ser executado no Estado de São Paulo. De acordo com os relatórios do processo, os valores das emendas de Pollon e Bia Kicis não chegaram a ser efetivamente repassados à ANC em razão de óbices técnicos e normativos identificados na celebração dos termos de parceria.
Contrato com a Prefeitura de São Paulo e desdobramentos judiciais
A representação policial também reuniu informações de investigações conduzidas pela Polícia Civil de São Paulo. O Instituto Conhecer Brasil (ICB) celebrou contrato com a Prefeitura de São Paulo para a instalação e manutenção de pontos de internet sem fio gratuita em comunidades periféricas, pacto inicialmente estimado em R$ 108 milhões e posteriormente ampliado por aditivos.
A apuração estadual e os relatórios financeiros do COAF identificaram que o ICB repassou milhões de reais a empresas subcontratadas sem capacidade técnica instalada, como a Ultra IP Tecnologia (que recebeu mais de R$ 8,5 milhões em curto período) e a Favela Conectada (Urban Connect), havendo fluxo atípico de valores entre as subcontratadas e integrantes do núcleo empresarial investigado.
Em razão do imbricamento entre as investigações estaduais e federais, o ministro Flávio Dino autorizou o compartilhamento de provas e a unificação das diligências no STF. A Polícia Federal cumpre dezenas de mandados de busca e apreensão pessoal e domiciliar contra os investigados, visando aprofundar as provas sobre a rede de favorecimento, emissão de documentos retroativos e ocultação de bens.

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